SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.39Meaning of nursing care to brain dead potential organ donorsPerception of users on self-care of lower leg ulcers author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.39  Porto Alegre  2018  Epub July 02, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2018.2017-0010 

Artigo Original

Subconjunto terminológico da CIPE® para assistência à mulher e à criança em processo de amamentação

Subconjunto terminológico de CIPE ® para atención de mujer y niño en proceso de lactancia

Cândida Caniçali Primoa 

Fabíola Zanetti Resendea 

Telma Ribeiro Garciab 

Erika Christiane Marocco Duranc 

Marcos Antônio Gomes Brandãod 

a Universidade Federal do Espirito Santo (UFES), Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Vitória, Espirito Santo, Brasil.

b Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, João Pessoa, Paraíba, Brasil.

c Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Faculdade de Enfermagem, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Campinas, São Paulo, Brasil.

d Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Escola de Enfermagem Anna Nery, Departamento de Enfermagem Fundamental, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.


Resumo

OBJETIVO

Descrever o processo de elaboração de um subconjunto terminológico da Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem para assistência à mulher e à criança em processo de amamentação.

MÉTODO

Estudo metodológico desenvolvido em seis etapas seguindo as diretrizes recomendadas pelo Conselho Internacional de Enfermeiras(os).

RESULTADO

Foram elaborados 74 diagnósticos/resultados e 213 intervenções de enfermagem, classificados de acordo com o modelo teórico utilizado, a “Teoria Interativa de Amamentação”.

CONCLUSÃO

Acredita-se que o subconjunto poderá orientar de forma segura e sistemática os enfermeiros que trabalham na área materno-infantil, favorecendo a execução do Processo de Enfermagem e promovendo a qualidade da assistência, centrada na mulher, na criança e na família que estão vivenciando o processo de amamentação.

Palavras-chave: Amamentação; Diagnóstico de enfermagem; Classificação; Processo de enfermagem; Teoria de enfermagem; Terminologia.

Resumen

OBJETIVO

Describir el proceso de elaboración de un subconjunto terminológico de la Clasificación Internacional para la Práctica de Enfermería para atención de la mujer y el niño en proceso de lactancia.

MÉTODO

Estudio metodológico desarrollado en seis etapas siguiendo las directrices recomendadas por el Consejo Internacional de Enfermeras(os).

RESULTADO

Fueron elaborados 74 diagnósticos/resultados y 213 intervenciones de enfermería, clasificadas según el modelo teórico utilizado, la "Teoría Interactiva de Lactancia".

CONCLUSIÓN

Se considera que el subconjunto podrá orientar de manera segura y sistemática a los enfermeros actuantes en el área materno-infantil, favoreciendo la ejecución del Proceso de Enfermería y promoviendo la calidad de la atención centrada en la mujer, el niño y la familia que están atravesando el proceso de lactancia.

Palabras clave: Lactancia materna; Diagnóstico de enfermería; Clasificación; Proceso de enfermería; Teoría de enfermería; Terminología

Abstract

OBJECTIVE

To describe the development of a terminology subset of the International Classification for Nursing Practice for care of women and children in process of breastfeeding.

METHOD:

Methodological study developed in six stages according to the guidelines recommended by the International Council of Nurses.

RESULTS

Seventy-four nursing diagnoses/outcomes and 213 nursing interventions were performed and classified according to the theoretical model Interactive Theory of Breastfeeding.

CONCLUSION

The subset is expected to safely and systematically steer nurses that work in this area, promoting the implementation of the nursing process and quality of care, focusing on women, children and families that are experiencing the breastfeeding process.

Keywords: Breastfeeding; Nursing diagnosis; Classification; Nursing process; Nursing theory; Terminology.

Introdução

A amamentação proporciona inúmeras vantagens para crianças, mulheres, família e sociedade. Na criança, os benefícios ocorrem no estado nutricional, fisiológico, desenvolvimental, imunológico, emocional e cognitivo. Durante a amamentação mãe e filho interagem favorecendo o desenvolvimento dos laços que promovem a aprendizagem mútua, além de exercer impactos afetivos, relacionais, comportamentais, motores, sociais e cognitivos1-2.

Mesmo a amamentação sendo um processo tão recorrente e amplamente pesquisado, cabe ainda avançar o conhecimento de enfermagem nas terminologias especializadas e linguagens de enfermagem relacionadas a esse fenômeno. Em relação a construção de um subconjunto terminológico para amamentação tendo por base a Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE®), há apenas um projeto cadastrado no Conselho Internacional de Enfermeiros (CIE) sob responsabilidade de um dos autores do presente artigo.

A construção de terminologias especializadas parte de uma orientação conceitual e teórica. Desse modo, o presente estudo toma o conceito de amamentação expresso na seguinte definição: “um processo de interação dinâmica no qual mãe e filho interagem entre si e com o ambiente para alcançar os benefícios do leite humano oferecido direto da mama para a criança, sendo uma experiência única a cada evento”3. Tal conceito extrapola o entendimento de nutrir uma criança com leite humano abarcando traços de um fenômeno complexo e abrangente com possíveis influências biológicas, psicológicas, culturais, sociais, econômicas e políticas.

Alinhada a esse conceito a Teoria Interativa de Amamentação3 tem em seu escopo as finalidades de descrever, explicar, predizer e prescrever o fenômeno da amamentação, examinando os fatores que antecedem, que influenciam e que são consequentes ao processo de amamentar, sendo portanto apropriada ao uso de elaboração de catálogos terminológicos relacionados à amamentação. A mencionada teoria foi desenvolvida dedutivamente, a partir do Modelo Conceitual de Sistemas Abertos de Imogene King, com base nas evidências da literatura científica, sendo composta por onze conceitos que se inter-relacionam: interação dinâmica mãe-filho; condições biológicas da mulher; condições biológicas da criança; percepção da mulher; percepção da criança, imagem corporal da mulher; espaço para amamentar; papel de mãe; sistemas organizacionais de proteção promoção e apoio a amamentação; autoridade familiar e social; tomada de decisão da mulher3.

De acordo com a Teoria Interativa de Amamentação para o sucesso na amamentação é preciso que mãe e criança tenham condições biológicas adequadas, como a anatomia das mamas da mulher, a produção de leite, a anatomia e fisiologia do sistema estomatognático das crianças3. Compreende-se, também, que nutrir a criança com o próprio leite faz parte da natureza feminina, valorizada e considerada como um dom divino, mas, também visto como um dever/responsabilidade da mulher no seu papel materno, que se sobrepõe ao desejo de querer amamentar, ou não4-5.

Os primeiros dias são de extrema importância para o sucesso da amamentação, pois é um período de aprendizado para a mãe e para a criança, como também de aparecimento das dificuldades no processo de amamentar. Nesse momento, os profissionais de saúde, familiares e amigos precisam incentivar as mães. Assim, a promoção e o apoio a amamentação devem ser incluídos entre as ações prioritárias de saúde6.

Ressalte-se que “as teorias desenvolvidas no âmbito da enfermagem concorrem para explicitar a complexidade de conceitos representativos de fenômenos que definem e delimitam seu campo de interesse”; e que elas guiam a execução do processo de enfermagem “o instrumento metodológico por meio do qual esses referenciais teóricos são aplicados na prática profissional”7.

Os sistemas de linguagem padronizada para ordenar termos ou expressões aceitos por enfermeiras(os) para descrever as avaliações, intervenções e resultados pertinentes ao cuidado de enfermagem são necessários ao processo de enfermagem8. A CIPE® é um desses sistemas; e para estimular seu uso no registro de enfermagem em prontuários eletrônicos ou em sistemas manuais de informação, o CIE tem recomendado a construção de catálogos CIPE®.

Dentre os tipos de catálogos CIPE® temos os subconjuntos terminológicos da CIPE®, os planos de cuidados, protocolos clínicos, guias de prática clínica e dados mínimos de enfermagem9. Compreendendo-os como instrumentais tecnológicos para uso durante a execução do processo de enfermagem, o CIE tem em vista que o uso dos catálogos CIPE® e, por extensão, dos subconjuntos terminológicos da CIPE® facilitam o processo de tomada de decisão clínica do enfermeiro; além de oferecer suporte à documentação sistemática do cuidado, de estimular a pesquisa e de promover a formulação de políticas de saúde que objetivem a qualificação da prática profissional10.

Para a construção de subconjuntos terminológicos da CIPE®, o CIE afirma que estes podem estar direcionados a grupos específicos (indivíduo, família e comunidade), a prioridades de saúde (em condições específicas de saúde, ambientes ou especialidades de cuidado) ou a fenômenos de Enfermagem11. Entre as especialidades recomendadas pelo CIE ressaltam-se, para os propósitos deste artigo, a Saúde da Mulher, a Enfermagem Obstétrica e a Enfermagem em Saúde da Família.

A primeira descrição de um método para desenvolvimento de catálogos CIPE® foi divulgada pelo CIE em 2008, tendo dez passos10. Em 2010 foi divulgado um artigo que reduzia os passos anteriormente descritos pelo CIE para seis, alinhando-os aos três componentes do ciclo de vida da terminologia CIPE® - pesquisa e desenvolvimento; manutenção e operações; e disseminação e educação11.

O presente artigo apoia-se na recomendação do CIE de construir subconjuntos de especialidades e na relevância do uso de modelos e teorias de enfermagem. Assim, tem-se como objetivo descrever o processo de elaboração de um subconjunto terminológico da CIPE® para assistência à mulher e à criança em processo de amamentação.

Método

Trata-se de estudo metodológico12 desenvolvido em seis etapas: 1) identificação da clientela e prioridade de saúde; 2) coleta de termos e conceitos relevantes para a prioridade de saúde; 3) mapeamento dos conceitos identificados com a CIPE®; 4) estruturação de novos conceitos ou adaptar conceitos existentes, para torná-los mais claros; 5) finalização do catálogo e 6) divulgação do catálogo11.

Para o desenvolvimento da segunda etapa realizou-se uma revisão da literatura nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) e Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), no mês de maio de 2015, com os descritores do DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), nas versões em inglês, português e espanhol: “aleitamento materno” e “relações mãe-filho”. Utilizando a pergunta norteadora: “Quais as condições que influenciam a amamentação?” Para a inclusão dos artigos, foram aplicados os critérios: artigos originais, publicados no período de 2010 a 2014, nos idiomas português, inglês ou espanhol; apresentar resumo disponível e abordar o processo de amamentação. Foram considerados os estudos no período de cinco anos devido à necessidade de buscar e utilizar artigos que revelem a atualidade dos conhecimentos produzidos acerca da temática amamentação.

Como critérios de exclusão: estudos de reflexão, revisões, atualizações, relatos de caso, cartas ao editor, editoriais, teses e dissertações. As buscas foram realizadas, de forma independente, por duas pesquisadoras. Os artigos incluídos na revisão que não estavam disponíveis nas bases de dados foram obtidos no formato de texto completo no Portal de Periódicos da Capes. A seleção dos estudos foi feita a partir da análise dos títulos, resumos e textos completos das publicações.

Encontrou-se 251 artigos no MEDLINE e 28 no Lilacs, após avaliação dos resumos e aplicados os critérios selecionou-se 68 artigos para leitura na íntegra, e destes, 52 foram selecionados para levantamento das condições que influenciam a amamentação. Os artigos foram lidos exaustivamente, de modo a explorar profundamente o texto, destacando os trechos que tratavam dos termos clínicos e relevantes no processo de amamentar.

Em seguida, realizou-se manualmente um mapeamento com os eixos da CIPE® para identificação dos termos relacionados ao processo de amamentação e por fim, elaborou-se os diagnósticos/resultados e intervenções seguindo as diretrizes do CIE e da norma ISO 18.104:2014 - Informática em saúde: estruturas categoriais para representação de diagnósticos de enfermagem e ações de enfermagem em sistemas terminológicos10,13-14.

Na etapa de finalização do catálogo, a listagem de diagnósticos/resultados e intervenções de enfermagem foi organizada segundo os conceitos da Teoria Interativa de Amamentação, pois entende-se que o modelo teórico é parte integrante da documentação da importância para a enfermagem, bem como da própria organização e apresentação do subconjunto.

Considerando a natureza da pesquisa metodológica e não incorporação de seres humanos, a submissão ao Comitê de Ética e Pesquisa foi dispensada.

Resultados

Esse subconjunto terminológico identifica como clientela o binômio mãe e filho e suas famílias em processo de amamentação; e a prioridade de saúde como a enfermagem materna e obstétrica e a saúde da mulher. Na segunda etapa, o procedimento de revisão da literatura foi aplicado para identificar fenômenos e conceitos relevantes a amamentação e que fossem essenciais para a elaboração do subconjunto, sendo alguns deles: amamentação exclusiva, amamentação predominante, alimentação complementar, amamentação, alimentação por mamadeira, lactação, posição mãe-filho, sucção, reflexo de busca, pega, mitos, crenças, sentimentos positivos e negativos, dor, fissura, ingurgitamento, translactação, infecções, mamas flácidas, responsabilidade e dever de mãe, privacidade, constrangimento, vergonha, conhecimentos, vantagens, decisão, vínculo mãe-filho, escolha, apoio e suporte familiar e profissional, campanhas, incentivo, grupos de alimentação infantil.

Tais conceitos foram correlacionados com aqueles derivados da Teoria Interativa de Amamentação: interação dinâmica mãe-filho; condições biológicas da mulher; condições biológicas da criança; percepção da mulher; percepção da criança, imagem corporal da mulher; espaço para amamentar; papel de mãe; sistemas organizacionais de proteção, promoção e apoio à amamentação; autoridade familiar e social; tomada de decisão da mulher.

Os dois procedimentos da segunda etapa para identificar conceitos, permitiu que todos os conceitos da teoria de base fossem utilizados como categorias de organização dos resultados e diagnósticos de enfermagem relacionados à amamentação.

Como terceira etapa de construção do subconjunto, o mapeamento dos conceitos identificados com base na CIPE® foi desenvolvido fazendo-se a seleção de termos do Modelo de Sete Eixos da CIPE® 201514 que estivessem semanticamente ligados aos conceitos da Teoria Interativa de Amamentação. Desse mapeamento foram identificados 23 termos do eixo “Foco”, 10 termos do eixo “Julgamento” e 06 Diagnósticos combinados (DC) considerados relevantes para a atenção de enfermagem ao binômio mãe-filho no processo de amamentação.

Para a quarta etapa, a estruturação dos conceitos existentes considerou não apenas os conceitos da Teoria Interativa de Amamentação, mas sim toda a estrutura teórica, entendendo-se que diferentes conceitos se relacionam em um processo dinâmico. Desse modo, os diagnósticos resultados e intervenções deveriam ser organizados tendo por base não apenas o referente empírico da amamentação, mas também, a estrutura da teoria de enfermagem de referência.

Para a finalização do subconjunto que foi a quinta etapa foram elaborados 74 enunciados de diagnósticos/resultados de enfermagem, sendo que desses 10 constam na versão CIPE® 201514 e 64 ainda não constam. Para os diagnósticos/resultados de enfermagem foram construídas 213 intervenções de enfermagem.

Os diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem conceitualmente alinhados aos conceitos propostos na Teoria Interativa de Amamentação foram organizados por ordem alfabética seguindo as recomendações do CIE para apresentação de Subconjuntos CIPE®(10 (Quadro 1).

Fonte: Primo 20173.

Quadro 1: Distribuição dos diagnósticos, resultados e intervenções de Enfermagem da CIPE® segundo os conceitos da Teoria Interativa de Amamentação 

Os diagnósticos/resultados de enfermagem (DE/RE) e intervenções de enfermagem (IE) construídos e distribuídos de acordo com os conceitos da Teoria Interativa de Amamentação foram assim dispostos: 10 DE/RE e 34 IE relacionados ao conceito interação dinâmica mãe-filho; 12 DE/RE e 18 IE para percepção da mulher; 02 DE/RE e 12 IE para percepção da criança; 21 DE/RE e74 IE relacionados as condições biológicas da mulher; 06 DE/RE e 26 IE vinculados as condições biológicas da criança; 03 DE/RE e 06 IE relacionados a imagem corporal da mulher; 03 DE/RE e 09 IE quanto espaço para amamentar; 03 DE/RE e 09 IE para papel de mãe; 06 DE/RE e 06 IE relacionados a sistemas organizacionais de proteção promoção e apoio a amamentação; 03 DE/RE e 11 IE quanto a autoridade familiar e social; 03 DE/RE e 08 IE vinculados a tomada de decisão da mulher.

A sexta etapa que é a divulgação do subconjunto tem consecução no presente artigo e pretende contribuir com as iniciativas do CIE de propagação de catálogos da CIPE®.

Discussão

As etapas de identificação da clientela e prioridade de saúde e de coleta de termos e conceitos relevantes para a prioridade relacionam-se ao desenvolvimento e pesquisa10-11. E nisso pode-se afirmar que a extração de conceitos da CIPE® e da literatura (por revisão) e, uma consequente subsunção aos conceitos da Teoria Interativa de Amamentação permitiu que os diagnósticos de enfermagem tanto tivessem sustentáculo nas evidências clínicas, quanto amparo teórico de referência.

Segundo o CIE são necessários modelos teórico ou conceituais específicos para estruturação de diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem nos subconjuntos terminológicos10. Assim, fica a critério do pesquisador selecionar os modelos e teorias orientadoras alinhados a sua prática e contexto. No entanto, pelos resultados obtidos na presente pesquisa, defende-se a ideia de que uma teoria de médio alcance tem grande potencialidade para a construção de subconjuntos terminológicos, considerando sua natureza relativamente concreta.

O processo de amamentação está sujeito a fatores históricos, sociais, culturais, e emocionais da puérpera, da criança e dos seus familiares. Nesse contexto, muitos são os fatores que afetam a maneira como as mulheres vão decidir alimentar seus filhos e o tempo durante o qual eles serão amamentados5,15-16. Se considerarmos tal complexidade um modelo teórico pode colaborar nos processos de organização dos fenômenos sem produzir visões reducionistas ou dicotomizadas. No conceito de “percepção da mulher sobre a amamentação”, a percepção é influenciada pelos conhecimentos e vivências maternas de familiares, amigas e vizinhas que são repassados como conselhos e exemplos, com discursos favoráveis ou contrários à amamentação. Esses oriundos do senso comum são permeados de mitos e tabus, que podem determinar a continuidade ou não da amamentação6,15,17-18, nesse sentido, elaborou-se diagnósticos relacionados a capacidade, ao conhecimento e a crença da mulher acerca da amamentação.

Nos conceitos de “condições biológicas da mulher e da criança” encontram-se algumas situações clínicas que podem interferir negativamente na amamentação, como: traumas, dor, infecções, ingurgitamento, bem como, alterações na produção de leite e na anatomia e fisiologia do sistema estomatognático dos recém-nascidos1-5.

Em “imagem corporal” aborda-se a interferência das questões estéticas na percepção da mulher sobre a amamentação, visto que, quando ela acredita que amamentação causa flacidez na mama e aumenta os mamilos, tornando-os feios, essas crenças podem contribuir para o insucesso da amamentação16,18. No conceito “espaço para amamentar” elaborou-se diagnósticos relacionados a privacidade pois, levou-se em consideração que algumas mães veem a amamentação como algo íntimo, preferindo compartilhar com seu parceiro, e consideram embaraçoso amamentar em público, mesmo na frente de seus familiares ou amigos4,19.

Quanto aos conceitos de “Sistemas organizacionais de proteção, promoção e apoio a amamentação” e “Autoridade familiar e social” abordam-se diagnósticos relacionados ao papel do estado, família e sociedade frente a amamentação. A família desempenha papel central e junto com o suporte dos amigos e vizinhos são peças fundamentais para o estabelecimento e continuação da amamentação. Do mesmo modo, os profissionais de saúde exercem grande influência nas formas de alimentação das crianças, pois durante suas orientações, práticas e rotinas de cuidado, incentivam ou não a amamentação, o uso da fórmula láctea e da mamadeira6,15-18.

Assim se depreende que o fenômeno da amamentação possui e gera relações de grande abrangência que ultrapassam a dimensão nutricional do recém-nascido. Sem a adoção de uma robusta estrutura ou modelo teórico os riscos de não apreender a amplitude do fenômeno se perde o que pode gerar práticas compartimentalizadas.

Como apresentado no Subconjunto, onze categorias de conceitos orientam a construção dos diagnósticos e resultados e, consequentemente, das intervenções de enfermagem. Os conceitos são derivados e estão ligados aos três grandes sistemas: pessoal, interpessoal e social do modelo conceitual de Imogene King3. A teoria de médio alcance posiciona em maior escala a amamentação, o que certamente justifica a grande abrangência de elementos da prática clínica. Mas, por outro lado, busca capturar a multidimensionalidade da atuação de enfermagem no processo interativo da amamentação.

Certamente que a maior dificuldade de construção e limites de generalização do subconjunto tem a ver com dois fatores: a complexidade de se adotar uma teoria de orientação sistêmica e a de que a Teoria Interativa de Amamentação é muito recente e carece de validações. No entanto, os autores reconhecem a necessidade de submeter a proposta ao crivo da comunidade científica para que o conhecimento avance.

Destaca-se que os diagnósticos/resultados de enfermagem construídos em acordo com a Teoria Interativa de Amamentação, não foram exauridos, sendo possível outras proposições que contemplem aspectos singulares de cada mãe-filho e família atendidos. Também, as especificidades das intervenções durante o processo de amamentação tornam o atendimento mais complexo, revelando a necessidade de planejamento da assistência de enfermagem ao binômio mãe-filho para promover e apoiar a prática da amamentação exclusiva até o sexto mês de vida20.

O subconjunto terminológico da CIPE® para assistência à mulher e à criança em processo de amamentação foi desenvolvido como produção geral e inovadora voltada a orientar os enfermeiros que prestam cuidados a mulheres, crianças e famílias em processo de amamentação, tendo por base uma construção teórica abrangente e sistêmica. Visa ainda contribuir para a documentação sistematizada do cuidado de enfermagem aplicando terminologias de linguagem especializada da prática de enfermagem. O julgamento clínico e a tomada de decisão são essenciais para o cuidado individualizado dos pacientes e de suas famílias10, portanto um subconjunto, um fluxograma de decisão ou procedimentos operacionais padrão jamais propõem a anulação do fator de perícia e competência profissional.

Considerações Finais

Esse estudo possibilitou a elaboração de um subconjunto terminológico da CIPE® com 74 diagnósticos/resultados e 213 intervenções de enfermagem para a aplicação do processo de enfermagem centrado na mulher, na criança e na família que estão em processo de amamentação.

O subconjunto é uma ferramenta útil para investigação dos fatores que influenciam no processo de amamentação e contribui na prática clínica de enfermeiros da área materno infantil auxiliando-os no pensamento crítico, e na tomada de decisões para proteção, promoção e apoio a amamentação. O subconjunto, também, é uma referência de fácil acesso, baseado em evidências e pode colaborar na organização de planos de cuidados individualizados.

Os resultados desse estudo podem orientar enfermeiros sobre o processo de desenvolvimento de um subconjunto terminológico da CIPE®. Destaca-se que o conhecimento pode ser mais facilmente aplicado na assistência, ensino e pesquisa quando os diagnósticos, resultados e intervenções estão claramente definidos e organizados dentro um modelo teórico harmônico e significativo.

O subconjunto por ser embasado em uma teoria de enfermagem de visão sistêmica e interativa contribui em prevenir a aplicação do processo de enfermagem em uma abordagem reducionista. Também, facilita a documentação sistematizada e suporta a construção de prontuário eletrônico usando a linguagem da CIPE®.

Contribui para o ensino-aprendizagem ao conectar os elementos de uma teoria de enfermagem com as taxonomias de diagnósticos-resultados-intervenções. Sustenta o valor de referenciais teóricos como norteadores e prescritores de elementos de práticas educativas e assistenciais. Além disso, colaboram no aprendizado das classificações de enfermagem estimulando o seu adequado uso nas instituições de ensino e de saúde.

Sobre os limites do estudo, o subconjunto precisa ser submetido a um processo de validação pelos enfermeiros da área, e depois a uma validação clínica com mães-filhos em processo de amamentação em nível ambulatorial ou hospitalar.

Agradecimentos

pelo apoio financeiro da CAPES Nº 23038.0091178/2012.

Referências

1. Mathur NB, Dhingra D. Breastfeeding. Indian J Pediatr. 2014;81(2):143-9. [ Links ]

2. Kramer MS, Kakuma R. Optimal duration of exclusive breastfeeding (review). Cochrane Database Syst Rev. 2012;(8):CD003517. [ Links ]

3. Primo CC, Brandão MAG. Teoria Interativa de Amamentação: elaboração e aplicação de teoria de médio alcance. Rev Bras Enf. 2017;70(6):1191-8. [ Links ]

4. Boucher C, Brazal P, Graham-Certosini C, Camaghan-Sherrard K, Feeley N. Mothers' breastfeeding experiences in the NICU. Neonatal Netw. 2011;30(1):21-8. [ Links ]

5. Björk M, Thelin A, Petersson I, Hammarlund K. A journey filled with emotions mothers' experiences of breastfeeding their preterm infant in a Swedish neonatal ward. Breastfeed Rev. 2012;20(1):25-31. [ Links ]

6. Oliveira CS, Iocca FA, Carrijo MLR, Garcia RATM. Breastfeeding and complications that contribute to early weaning. Rev Gaúcha Enferm. 2015 [cited 2016 Jan 18];36(spe):16-23. Available from: Available from: http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2015.esp.56766 . [ Links ]

7. Garcia TR, Nóbrega MML. Teorias de enfermagem. In: Garcia TR, Egry EY, organizadores. Integralidade da atenção no SUS e sistematização da assistência de enfermagem. Porto Alegre: Artmed; 2014, p. 31-40. [ Links ]

8. Carvalho EC, Cruz DALM, Herdman TH. Contribuição das linguagens padronizadas para a produção do conhecimento, raciocínio clínico e prática clínica da Enfermagem. Rev Bras Enferm. 2013 [citado 2016 set 24];66(n.esp):134-41. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reben/v66nspe/v66nspea17.pdf . [ Links ]

9. Coenen A, Kim TY, Bartz CC, Jansen K, Hardiker N. ICNP Catalogues for supporting nursing content in electronic health records. Stud Health Technol Inform. 2012;180:1075-8. [ Links ]

10. International Council of Nurses [Internet]. Guidelines for ICNP® catalogue development. Geneva: ICN; 2008 [cited 2016 Apr 08]. Available from: Available from: http://www.icn.ch/images/stories/documents/programs/icnp/icnp_catalogue_development.pdf . [ Links ]

11. Coenen A, Kim TY. Development of terminology subsets using ICNP®. Int J Med Inform. 2010;79(7):530-8. [ Links ]

12. Primo CC. Teoria de médio alcance de amamentação: tecnologia para o cuidado [tese]. Rio de Janeiro (RJ): Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2015. [ Links ]

13. Marin HF, Peres HH, Dal Sasso GT. Categorical structure analysis of ISO 18104 standard in nursing documentation. Acta Paul Enferm. 2013; 26(3): 299-306 [ Links ]

14. International Council of Nurses (CH) [Internet]. CIPE® versão 2015 - português do Brasil. Geneva: ICN ; 2015 [citado 2016 abr 23]. Disponível em: Disponível em: http://www.icn.ch/images/stories/documents/pillars/Practice/icnp/translations/icnp-Brazil-Portuguese_translation.pdfLinks ]

15. Primo CC, Nunes BP, Lima EFA, Leite FMC, Pontes MB, Brandão MAG. Which factors influence women in the decision to breastfeed? Invest Educ Enferm. 2016;34(1):198-210. [ Links ]

16. Nabulsi M. Why are breastfeeding rates low in Lebanon? a qualitative study. BMC Pediatr. 2011;11:75. [ Links ]

17. Primo CC, Dutra PR, Lima EFA, Alvarenga SC, Leite FMC. Redes sociais que apoiam a mulher durante a amamentação. Cogitare Enferm. 2015;20(2):426-33. [ Links ]

18. Foley W, Schubert L, Denaro T. Breastfeeding experiences of Aboriginal and Torres Strait Islander mothers in an urban setting in Brisbane. Breastfeed Rev. 2013;21(3):53-61. [ Links ]

19. Jessri M, Farmer AP, Olson K. Exploring Middle-Eastern mothers' perceptions and experiences of breastfeeding in Canada: an ethnographic study. Matern Child Nutr. 2013;9(1):41-56. [ Links ]

20. Silva EP, Alves AR, Macedo ARM, Bezerra RMSB, Almeida PC, Chaves EMC. Diagnósticos de enfermagem relacionados à amamentação em unidade de alojamento conjunto. Rev Bras Enf erm. 2013 [citado 2016 abr 23];66(2):190-5. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672013000200006 . [ Links ]

Recebido: 20 de Janeiro de 2017; Aceito: 13 de Junho de 2017

Autor correspondente: Cândida Caniçali Primo. candida.primo@ufes.br

Creative Commons License  This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.