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Revista Gaúcha de Enfermagem

versão impressa ISSN 0102-6933versão On-line ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.40 no.spe Porto Alegre  2019  Epub 29-Abr-2019

https://doi.org/10.1590/1983-1447.2019.20180303 

Artigo Original

Caracterização dos incidentes de quedas de pacientes adultos internados em um hospital universitário

Caracterización de los incidentes de caídas de pacientes adultos internados en un hospital universitario

Amanda da Silveira Barbosaa  b 

Enaura Helena Brandão Chavesb 

Rubia Guimarães Ribeiroc 

Deise Vacario de Quadrosc 

Lyliam Midori Suzukic 

Ana Maria Müller de Magalhãesd  e 

a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Escola de Enfermagem. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

b Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Serviço de Enfermagem Clínica (SECLIN). Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

c Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Serviço de Enfermagem. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

d Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Escola de Enfermagem, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

e Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Gerência de Risco (GR). Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.


Resumo

OBJETIVO

Avaliar as notificações e caracterizar os incidentes de quedas dos pacientes adultos internados em unidades clínicas e cirúrgicas de um hospital universitário na região sul do país, no período de 2011 a 2014.

MÉTODO

Estudo descritivo, transversal e retrospectivo, realizado no período de dezembro de 2016 a dezembro de 2017. A amostra foi de 1112 notificações, abrangendo todos os pacientes internados que foram notificados com ocorrência de quedas no período estudado. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva e analítica.

RESULTADOS

Foram predominantes na amostra os pacientes do sexo feminino e idosos, onde 69,4% dos incidentes não apresentaram dano. A ocorrência de quedas foi significativamente maior no período noturno. Limitação para deambular e estar desacompanhado foram os fatores mais prevalentes nas condições do paciente antes da queda.

CONCLUSÃO

Queda é um evento multifatorial que necessita avaliação periódica dos fatores de risco pela equipe para planejar sua prevenção.

Palavras-chave: Segurança do paciente; Acidentes por quedas; Pacientes internados; Cuidados de enfermagem; Qualidade da assistência à saúde

Resumen

OBJETIVO

Evaluar las notificaciones y caracterizar los incidentes de caídas de los pacientes adultos internados en unidades clínicas y quirúrgicas de un hospital universitario en la región sur del país, en el período 2011 a 2014.

MÉTODO

Estudio descriptivo, transversal y retrospectivo, realizado en el período de diciembre de 2016 a diciembre de 2017. La muestra fue de 1112 notificaciones, abarcando a todos los pacientes internados que fueron notificados con ocurrencia de caídas en el periodo estudado. Los datos fueron analizados por medio de estadística descriptiva y analítica.

RESULTADOS:

Fueron predominantes en la muestra los pacientes del sexo femenino y ancianos, donde el 69,4% de los incidentes no presentaron daño. La ocurrencia de caídas fue significativamente mayor en el período nocturno. La limitación para deambular y estar desatendido fueron los factores más prevalentes en las condiciones del paciente antes de la caída.

CONCLUSIÓN

La caída es un evento multifactorial que necesita evaluación periódica de los factores de riesgo por el equipo para planificar su prevención.

Palabras clave: Seguridad del paciente; Accidentes por caídas; Pacientes internos; Atención de enfermería; Calidad de la atención de salud

Abstract

OBJECTIVE

To evaluate the occurrences and to characterize the falling incidents of adult patients hospitalized in clinical and surgical units of a university hospital in the southern region of the country, in the period from 2011 to 2014.

METHOD

Descriptive, cross-sectional and retrospective study, carried out from December 2016 to December 2017. The sample consisted of 1112 reports, covering all hospitalized patients who were notified with falls occurring in the studied period. Data were analyzed using descriptive and analytical statistics.

RESULTS

Female and elderly patients were predominant in the sample, in which 69.4% of the incidents did not present any damage. The occurrence of falls was significantly higher at night. Limitation to walking and being unaccompanied were the most prevalent factors in the patient's conditions before the fall.

CONCLUSION

The fall is a multifactorial event that requires periodic evaluation of the risk factors by the team to plan their prevention.

Keywords: Patient safety; Accidental falls; Inpatients; Nursing care; Quality of health care

Introdução

A mensuração da qualidade vem recebendo atenção especial dos serviços de saúde no mundo inteiro, como uma condição para o alto padrão de exigência dos clientes e da necessidade de garantir a excelência na assistência oferecida. Um serviço de saúde não pode ser considerado de qualidade, se os riscos de danos não forem controlados e a segurança dos processos assegurada1-2.

Em consequência da extensão do problema da segurança do paciente no mundo, em 2004, foi criada a World Alliance for Patient Safety pela Organização Mundial de Saúde (OMS), visando definir e identificar as prioridades nesta área3. Segundo a OMS, queda é definida como “vir a inadvertidamente ficar no solo ou em outro nível inferior, excluindo mudanças de posição intencionais para se apoiar em móveis, paredes ou outros objetos(4:451) e são apontadas como eventos adversos relacionados à assistência à saúde, rompendo com a segurança do paciente4.

O indicador para medir este evento adverso utilizado pelo Ministério da Saúde (MS) é resultado da fração onde o numerador é o número de quedas ocorridas no mês e o denominador é o número de pacientes/dia no período correspondente5. No hospital em estudo, o controle das ocorrências referente ao número de quedas, atualmente, é realizado através da notificação de quedas disponível no sistema eletrônico do hospital, sendo geralmente efetuada pela equipe de enfermagem6.

Estudos internacionais apontam uma ampla variação nas taxas de quedas de pacientes internados, com valores desde 1,03 até 4,18/1000 pacientes/dia7. No Brasil, encontram-se estudos que demonstraram uma incidência de quedas de 1,7 a 7,2/1000 pacientes internados8-9.

Identificar os fatores de risco é claramente o primeiro e mais importante passo de todo o processo10. Fatores de risco são situações que intensificam a probabilidade de ocorrer a queda do paciente. O principal fator de risco associado à queda é a idade do paciente, especialmente quando se trata de crianças menores de 5 anos ou de idosos maiores de 65 anos. Outra condição importante é o estado psicocognitivo do paciente, ou seja, quando o mesmo encontra-se confuso, desorientado, depressivo ou ansioso, ocorre um aumento da chance de o paciente sofrer alguma queda5,8.

Doenças crônicas como hipotensão postural, convulsões, anemia, incontinência ou urgência miccional e/ou evacuatória, acidente vascular cerebral prévio, história prévia de quedas, fraqueza articular ou muscular, comprometimento dos sentidos, principalmente da visão, alteração da marcha ou mobilidade física prejudicada, ou o uso de medicações como benzodiazepínicos, antiarrítmicos, diuréticos, laxativos, relaxantes musculares, vasodilatadores são alguns dos fatores de risco descritos como preditores de quedas5,8.

Com base nos argumentos elencados a acima e nos achados da literatura, emerge a seguinte questão norteadora do presente estudo: quais são as características dos pacientes adultos que sofreram quedas com base nas notificações desses incidentes? Diante disso, esse estudo tem como objetivo avaliar as notificações e caracterizar os incidentes de quedas dos pacientes adultos internados em unidades clínicas e cirúrgicas de um hospital universitário na região sul do país, no período de 2011 a 2014.

Método

Trata-se de um estudo descritivo, transversal e retrospectivo, com uma abordagem quantitativa. Este estudo foi derivado da elaboração do trabalho de conclusão de curso de uma das autoras11. A pesquisa quantitativa é uma forma de testar teorias objetivas, analisando a relação entre as variáveis12. O hospital em estudo trata-se de uma instituição pública, universitária, localizado na região sul do país, acreditado pela Joint Commission International desde 20136. A instituição conta com 842 leitos no total, sendo 445 leitos de internação clínica e cirúrgica, distribuídos em 13 unidades de internação de adultos6.

A população foi constituída pelos pacientes adultos internados nessas unidades entre janeiro de 2011 a dezembro de 2014. Fizeram parte da amostra todas as notificações de ocorrência de quedas no período delimitado. O tamanho da amostra foi calculado considerando-se um intervalo de confiança de 95% e margem de erro de 3%, constituindo-se de 1112 notificações no período em estudo. O critério de inclusão foi a notificação da ocorrência de quedas, ser de paciente adulto e estar internado no período do estudo. Os critérios de exclusão foram as quedas ocorridas nas áreas de emergência e psiquiatria, assim como pacientes gestantes em áreas obstétricas, formulários de notificação preenchidos incorretamente ou com informações incompletas.

Os dados foram coletados no Sistema de Informações Gerenciais (IG) e banco de dados do Grupo de Quedas da instituição no período de dezembro de 2016a dezembro de 2017, por meio de um instrumento com as variáveis que compõem o formulário padrão até então utilizado na instituição. As variáveis que compõem o instrumento são divididas em quatro grupos. O primeiro grupo é para a identificação do paciente, com as variáveis: nome, leito, prontuário, idade e sexo. O segundo grupo é referente às características do incidente, onde constam a data, hora, local e tipo de queda e os fatores desencadeantes tanto do paciente como do ambiente. O terceiro grupo trata das condições do paciente antes da queda, e algumas das variáveis são: desorientação, sonolência, queda prévia, hipotensão, dificuldade visual, entre outras. O último grupo indica a severidade do dano (grau 0: nenhum dano, até grau 4: óbito).

Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva e analítica, sendo as variáveis contínuas descritas pela média e desvio padrão, e as variáveis categóricas descritas pela frequência absoluta e relativa. Foi empregado o teste do Qui-Quadrado de Pearson para aderência para avaliar se a distribuição das quedas entre os turnos ocorreu de forma homogênea, adotando-se como nível de significância 5% (p < 0,005). Realizou-se a análise fatorial das condições do paciente antes da queda, utilizando a rotação Varimax, em que o critério para determinar os fatores foi o alto valor (Eigenvalues) acima de 1. A análise fatorial é definida como “um método de estatística multivariada que busca, a partir da observação de um conjunto de variáveis observadas, identificar um conjunto menor de dimensões ou estruturas de variabilidade que explicariam, em uma proporção significativa, as variações das variáveis observadas13. Todos os testes foram empregados com auxílio do software SPSS, versão 18.0. O projeto respeitou todos os preceitos éticos e foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição, sob número 14-0478 (CAEE: 35069714.7.0000.5327). Foram atendidas as normas da Resolução nº 466 de 2012 do Conselho Nacional de Saúde para projetos de pesquisa envolvendo seres humanos.

Resultados

A taxa de incidência de quedas no período estudado foi de 1,61 quedas/1000 pacientes/dia em 2011, 2,03 em 2012, 1,83 em 2013 e 1,62 em 2014, apresentando pequena variação. Foram identificadas 1.112 notificações de quedas nas unidades de internação clínicas e cirúrgicas adultos entre janeiro de 2011 e dezembro de 2014. Verificou-se que no ano de 2012 ocorreu o maior número de notificações de quedas, 372 (33,5%).

A faixa etária predominante foi de 60 a 69 anos, com 251 (23,5%) notificações, seguida de 70 a 79 com 220 (20,6%) notificações, e 50 a 59, com 217 (20,4%) notificações. Pacientes do sexo feminino apresentaram maior número de notificações de queda, 629 (54,9%). O número de quedas notificadas no turno noturno foi de 423 (43,9%), significativamente maior quando comparado aos demais turnos (p< 0,001). A severidade do dano predominante foi “sem danos”, com uma frequência de 771 (69,4%) notificações, e não foi realizada nenhuma notificação de grau quatro (óbito), como informado na Tabela 1.

Tabela 1: Distribuição das notificações de quedas segundo a faixa etária, sexo, turno e severidade do dano. Porto Alegre/RS, Brasil, 2011 a 2014 

Características das quedas n=1112 %
Faixa etária
18 a 29 44 4,2
30 a 39 108 10,1
40 a 49 135 12,7
50 a 59 217 20,4
60 a 69 251 23,5
70 a 79 220 20,6
>80 90 8,4
Sexo
Feminino 629 56,6
Masculino 483 43,4
Turno
Manhã 344 35,7
Tarde 196 20,4
Noite 423 43,9
Sem informação 149 13,4
Severidade do dano
Grau 0 - Sem dano 771 69,4
Grau 1 - Contusão, sem intervenção 303 27,3
Grau 2 - Distensão, intervenção 33 3,0
Grau 3 - Fratura, intervenção maior 4 0,4
Grau 4 - Óbito 0 0

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Qui-Quadrado de Pearson para aderência (p < 0,001).

O local com maior número de ocorrências de quedas foi o quarto do paciente, com 765 (68,8%) notificações. O tipo de queda mais prevalente foi da própria altura, com 523 (47%) notificações, conforme a Tabela 2.

Tabela 2: Distribuição das notificações de quedas segundo o local e tipo de queda. Porto Alegre/RS, Brasil, 2011 a 2014 

Características das quedas n=1112 %
Local
Quarto 765 68,8
Banheiro 264 23,7
Corredor 58 5,2
Área de circulação 5 0,4
Recreação 4 0,4
Escadas 2 0,2
Outros 15 1,3
Tipos de queda
Da própria altura 523 47,0
Da cama 340 30,5
Da cadeira/poltrona 148 13,3
Da maca 17 1,5
Outro 87 7,8

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Os fatores desencadeantes relacionados ao paciente e ao ambiente eram variáveis de múltipla escolha, podendo assim ser marcada mais de uma opção. Os fatores desencadeantes relacionados ao paciente que mais ocorreram foram escorregão, com 281 (25,3%) notificações; força diminuída, com 264 (23,8%); e tontura, com 214 (19,3%). Os principais fatores desencadeantes relacionados ao ambiente foram falhas de equipamentos, com 127 (11,6%); piso molhado, com 99 (9%) notificações; e ausência de grades no leito, 96 (8,8%), como informado na Tabela 3.

Tabela 3: Distribuição das notificações conforme fatores desencadeantes relacionados ao paciente e ao ambiente. Porto Alegre/RS, Brasil, 2011 a 2014 

Fatores desencadeantes N %
Fatores desencadeantes do paciente (n=1111)*
Escorregão 281 25,3
Força diminuída 264 23,8
Tontura 214 19,3
Confusão 131 11,8
Tropeço 51 4,6
Desmaio 35 3,2
Convulsão 12 1,1
Outros 252 22,7
Fatores desencadeantes do ambiente (n=1096)*
Falha de equipamento 127 11,6
Piso molhado 99 9
Ausência de grade no leito 96 8,8
Pouca iluminação 70 6,4
Obstáculo 45 4,1
Piso recém-encerado 1 0,1
Não se aplica 436 43,9

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

* considerando registros perdidos

Analisando-se isoladamente as 21 condições elencadas do paciente antes da queda, identificou-se como o fator mais prevalente o fato de estar desacompanhado, com 723 (65,9%) notificações, seguido de ter limitação para deambular, com 601 (54,3%), fazer uso de anticoagulante, com 399 (36%) e uso de sedativos, com 288 (25,9%) notificações. As condições menos notificadas foram: estar inconsciente, com quatro (0,4%) notificações, e a hipoglicemia, com oito (0,7%) notificações. Esta variável também era de múltipla escolha, podendo ter sido notificada mais de uma condição do paciente antes da queda.

O número máximo de condições notificadas para o mesmo paciente foi de 12 condições, e verificou-se que 784 (71,5%) notificações tiveram três ou mais condições assinaladas para o mesmo paciente. Na Tabela 4, estão descritas as demais 20 condições do paciente antes da queda, de acordo com o agrupamento obtido por meio da análise fatorial utilizando a rotação Varimax.

Tabela 4: Distribuição das notificações de queda segundo as condições do paciente antes da queda. Porto Alegre/RS, Brasil, 2011 a 2014 

Grupos Condições % Frequência Cargas Fatoriais**
Grupo 1 Agitado 12,5 139 .709
Contenção mecânica 3,7 41 .672
Desorientado 25,8 286 .670
Acamado 22,5 250 .590
Insônia 10,3 114 .547
Grupo 2 Bengalas 10,8 120 .688
Próteses nos membros inferiores 1,9 21 .604
Limitação para deambular 54,3 601 .522
Dificuldade visual 11,1 123 .444
Grupo 3 Hipotensão 5,8 64 .807
Tontura 22,7 252 .711
Grupo 4 Sedativos 25,9 288 .749
Sonolento 16,1 179 .669
Grupo 5 Infusão endovenosa 19,7 218 .712
Urgência urinária 13,4 149 .435
Grupo 6 Queda prévia 21,9 244 -.704
Pós-operatório 2,4 26 .688
Grupo 7 Hipoglicemia 0,7 8 .727
Inconsciente 0,4 4 .843
Grupo 8 Anticoagulante 36 399 -.409

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

** Análise fatorial, utilizando a rotação Varimax, Eigenvalues acima de 1.

Discussão

O indicador de quedas é acompanhado dentro da instituição de forma sistemática desde 2007, sendo, inicialmente, descrito como “incidência de queda do leito”. No decorrer dos anos, o indicador foi ajustado para a forma como se apresenta hoje, visando atender as metas internacionais de segurança do paciente e se alinhar com as recomendações do Ministério da Saúde6.

Dentro período estudado, no ano de 2012, ocorreu a maior taxa de incidência de quedas (2,03/1000 pacientes/dia), sendo este o único período em que o indicador ficou acima da meta anual institucional preconizada (< 2 quedas/1000 pacientes/dia). Apesar de a taxa encontrada estar acima da meta estabelecida pelo hospital, ela pode ser descrita como dentro dos parâmetros apresentados na literatura nacional e internacional8-9.

A maior taxa de incidência no ano de 2012 pode estar relacionada aos movimentos pela qualidade e acreditação hospitalar, onde houve iniciativas para estimular as equipes a notificar eventos adversos, entre eles, as quedas. Várias medidas institucionais foram adotadas nesse período, como o uso da Escala de Morse para avaliar o risco de quedas e a utilização de uma pulseira amarela para sinalizar aqueles pacientes com escore acima de 45 pontos. Junto com essa iniciativa foram adotados protocolos de prevenção de quedas e orientações para pacientes e familiares6.

A média de idade de pacientes que tiveram notificação de queda foi de 58,93 anos (dp 15,87), com idade mínima de 18 anos e máxima de 94 anos. Somando-se as faixas etárias a partir dos 60 anos, pode-se observar que 52,5% (n=561) da amostra representavam pessoas idosas. Alterações como a perda da mobilidade física e da capacidade funcional associadas ao uso de várias classes medicamentosas são alguns dos fatores citados na literatura como preditores de quedas para esse grupo etário8. Portanto, os resultados do presente estudo corroboram com os achados da literatura que apontam os indivíduos idosos com um dos grupos mais suscetíveis à ocorrência de quedas.

O número de notificações de quedas no turno noturno ocorreu de forma significativamente maior que o esperado (p<0,001) e confirma os achados de outro estudo14. Cabe destacar que o período noturno tem 12 horas de duração, se comparado com os turnos diurnos de seis horas, esse fator pode ter influenciado na maior ocorrência de quedas nesse período, sendo considerado uma limitação do estudo.

Historicamente, a experiência prática nas unidades de internação hospitalares nos permite apontar uma redução dos quadros de pessoal de enfermagem durante o turno da noite, podendo ser um fator relacionado com menor vigilância e monitoramento dos pacientes nos leitos, o que poderia estar associado ao maior número de quedas durante a noite. Essa ponderação pode ser corroborada por estudo realizado em um hospital de alta complexidade no Chile, no qual foi apontado que durante o turno diurno uma enfermeira fica com 20,5 a 24,5 pacientes e um técnico de enfermagem fica com 6,2 a 7,6 pacientes, já no turno noturno, esse número varia de 48 a 57,3 pacientes por enfermeira e 7,2 a 9,7 pacientes por técnico de enfermagem15.

O sexo feminino foi preponderante na amostra com 629 (56,6%) notificações. Dado que converge com os achados de outro estudo realizado em um hospital de alta complexidade do sul do Brasil, no período de janeiro de 2011 e junho de 2012, no qual verificou-se a ocorrência de 50,3% de quedas entre as mulheres8. Divergindo dos resultados da presente investigação, outros dois estudos nacionais indicam o sexo masculino como o que mais sofre quedas9,16.

Ao avaliar o dano sofrido pelo paciente, o mais prevalente nas notificações foi “grau zero”, com 771 (69,4%) notificações, ou seja, o paciente não sofreu nenhum dano decorrente da queda sofrida. Porém, 340 (30,7%) notificações de quedas apontaram a ocorrência de algum tipo de dano, entre os graus 1 e 3.

O quarto do paciente foi o local onde mais houve ocorrências de quedas, com 765 (68,8%) notificações, corroborando com os achados de outro estudo9. A queda da própria altura foi assinalada em 523 (47%) notificações deste estudo, convergindo com achados de outras investigações8,16.

O fator desencadeante relacionado ao paciente mais assinalado nas notificações de queda foi o escorregão, com 281 (25,3%) notificações. Força diminuída (23,8%) e tontura (19,3%) foram, respectivamente, o segundo e o terceiro fatores de maior prevalência em nossa amostra. Esses achados vão ao encontro de resultados de outros estudos, os quais apontam a tontura16) e a diminuição da força muscular17 entre os fatores mais prevalentes para desencadear quedas.

Analisando-se os fatores desencadeantes relacionados ao ambiente, identifica-se um expressivo número de notificações caracterizadas como “não se aplica”, 436 (43,9%) nessa categoria de variável, o que sugere que os profissionais, ao notificarem a queda, não entendiam que esses fatores extrínsecos pudessem ser determinantes para a ocorrência do evento. Apesar disso, identifica-se em 11,6% das notificações que houve falha de equipamentos. Mesmo sendo menos prevalentes como fatores desencadeantes entre as notificações de quedas, pondera-se a importância de novos estudos sobre os fatores ambientais que possam contribuir para a ocorrência deste evento adverso, buscando identificar ações de prevenção e a educação dos profissionais.

A condição prévia do paciente antes da queda mais presente nas notificações foi o fato de o paciente estar desacompanhado no momento da queda, com 723 (65,9%) notificações. No hospital em estudo, é direito do paciente ter um acompanhante durante as 24 horas6. A presença de um acompanhante é importante, pois a equipe de enfermagem nem sempre está presente, assim, o acompanhante tem a liberdade para auxiliar o paciente na sua mobilidade.

Isolando-se o fato de estar desacompanhado, foi possível analisar as demais condições prévias do paciente por meio da análise fatorial, agrupando-as de acordo com a alta correlação entre elas13.

O primeiro grupo do estudo correlacionou as condições de agitação, contenção mecânica, desorientação, estar acamado e insônia. O conjunto dessas condições encontra certa similaridade quando pensado na prática hospitalar, visto que o estado mental alterado dos pacientes pode ser considerado um fator de risco para acontecimento da queda9. Um estudo estadunidense salienta que pacientes em estado de confusão ou desorientação são 2,05 vezes mais propensos a sofrerem uma queda10. Nesse sentido, os achados da literatura e os resultados do presente estudo apontam para a necessidade de atenção permanente da equipe de enfermagem em relação à identificação de possíveis riscos de queda, reforçando, assim, as medidas preventivas.

O segundo agrupamento decorrente da análise fatorial agrega as condições de uso de bengalas, uso de próteses nos membros inferiores, limitação para deambular e dificuldade visual. A alteração física do paciente antes da queda é uma das condições mais referidas na literatura como preditora de queda9.

Os achados da literatura corroboram com os encontrados neste estudo, visto que a limitação para deambular, com 601 (54,3%) notificações, foi a segunda condição do paciente antes da queda mais presente nas notificações de ocorrência desse incidente. A alteração de marcha e a necessidade de auxílio na deambulação são condições presentes na escala de Morse, que é utilizada para avaliar o risco de queda dos pacientes internados17. Nesse sentido, também reforça-se a necessidade de avaliação acurada das condições de mobilidade dos pacientes, bem como a aplicação de escalas de risco para implementar medidas preventivas para pacientes com essas condições.

O terceiro grupo associa as condições hipotensão e tontura. Pacientes que fazem uso de anti-hipertensivos podem apresentar sintomas como tontura e até mesmo perda da consciência, tendo como consequência a ocorrência da queda16. Além disso, a hipotensão postural é um dos fatores que também pode causar tontura e levar esse paciente a sofrer uma queda9.

O quarto grupo oriundo da análise fatorial agrupa as condições uso de sedativos e sonolência. Estudo em hospital universitário no interior do Paraná, ao avaliar fatores farmacológicos que predispõem ao risco de quedas entre pacientes internados, aponta que o uso de medicamentos benzodiazepínicos, usados para sedação, tem como efeitos adversos a sonolência18.

O quinto agrupamento correlacionou as condições infusão endovenosa e urgência urinária. Pode-se inferir que essas condições juntas representam uma dificuldade para o paciente, pois o mesmo precisa levantar-se do leito rapidamente para deslocar-se para o banheiro e ainda lidar com equipamentos conectados em acessos periféricos ou centrais.

O sexto grupo agrega as condições de queda prévia e pós-operatório. Pacientes que tiveram história de quedas possuem 2,98 vezes maior a probabilidade de sofrerem novamente um novo evento10. Outro estudo aponta que a ocorrência de quedas anterior à internação hospitalar pode ser um dos fatores de risco para nova queda8. Pacientes em pós-operatório apresentam maior vulnerabilidade ao risco de quedas devido à cirurgia realizada, além de utilizarem diversos equipamentos hospitalares, como sondas ou drenos, levando à dificuldade na deambulação e na realização do autocuidado19.

O sétimo grupo correlacionado pela análise fatorial traz as condições de hipoglicemia e inconsciência associadas. O uso de hipoglicemiantes orais pode levar a uma redução dos níveis glicêmicos que, quando não é detectada precocemente, pode evoluir para perda da consciência18.

O último agrupamento da análise fatorial resultou em uma única condição, o uso de anticoagulante. Deve-se ressaltar que o protocolo do uso de anticoagulante profilático é uma medida adotada pela instituição, o que determina que a maioria das prescrições médicas contenham este medicamento, tenham os pacientes sofrido ou não a queda. Pondera-se que o uso de anticoagulante pode-se configurar um fator importante, que pode levar ao agravamento do dano, caso o paciente sofra uma queda20.

Conforme se pode perceber com os dados trazidos na pesquisa e na literatura apresentada, a queda é um evento multifatorial e de grande complexidade, que pode acarretar danos temporários ou irreversíveis ao paciente. Destaca-se a importância da avaliação periódica dos fatores de risco do paciente durante a internação hospitalar para que possa ser realizada a prevenção desse evento adverso. É compromisso da equipe de enfermagem identificar e sinalizar esses fatores de risco, visto que a enfermagem é a equipe que permanece mais tempo junto com o paciente, constituindo-se numa importante fonte para proposição de barreiras, como medidas protetivas ao paciente hospitalizado.

Essas considerações denotam a necessidade de investir em capacitações e de estimular os profissionais de saúde sobre a importância da notificação de incidentes, como ferramenta de gestão e forma de aprendizagem para a melhoria contínua dos processos assistenciais e para a segurança dos pacientes.

Conclusão

A taxa de incidência de quedas avaliada pelo estudo se manteve dentro dos padrões trazidos pela literatura nacional e internacional. Pode-se perceber que, após a implementação de medidas preventivas no ano de 2012, a taxa de incidência de quedas diminuiu gradativamente se comparada à do ano anterior, porém o evento ainda acontece dentro da instituição.

A caracterização das notificações de quedas dos pacientes adultos internados, aponta para um grupo de pacientes com predomínio do sexo feminino, idosos e que não apresentaram dano em decorrência do incidente. O turno noturno, a queda da própria altura e o quarto do paciente foram, respectivamente, o horário, o tipo e o local de maior ocorrência de quedas.

Os fatores desencadeantes referentes ao paciente mais assinalados nas notificações foram o escorregão e a força diminuída, porém a maioria dos fatores relacionados ao ambiente não foi determinante para a ocorrência de quedas. As condições do paciente antes do momento da queda que mais estiveram presentes nas notificações foram estar desacompanhado e ter algum tipo de limitação para deambular.

Os achados do estudo contribuíram para o conhecimento do perfil de pacientes propensos a sofrerem quedas, levando assim a um aprimoramento de medidas preventivas necessárias e a um encorajamento aos profissionais para realizarem a notificação desse evento adverso, garantindo a segurança do paciente e qualificando a assistência prestada. Além de contribuir para o engajamento dos profissionais nas medidas de prevenção e segurança de pacientes, os achados colaboraram com o avanço no conhecimento científico para o ensino e formação de novos enfermeiros, assim como para a ampliação de novas pesquisas sobre o tema.

Apesar das contribuições ao conhecimento sobre os incidentes de quedas em instituições hospitalares, é importante assinalar algumas limitações da presente investigação. O desenho transversal em uma única instituição não permite generalizações. A coleta em banco de dados já existente na instituição de forma retrospectiva gerou dificuldades na identificação de informações por preenchimento incorreto pela equipe assistencial, acarretando perda de dados.

Finalmente considera-se importante ressaltar, ainda, o desgaste emocional do profissional ao constatar a queda de seu paciente, bem como o prejuízo que tal ocorrência causa à imagem da organização. Tais constatações reforçam a importância da conscientização e da permanente preocupação com o desenvolvimento de estudos que subsidiem medidas preventivas que estejam ao alcance de todos que se relacionam com o cuidado ao paciente internado.

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Erratum

No artigo "Caracterização dos incidentes de quedas de pacientes adultos internados em um hospital universitário" , com número DOI de: 10.1590/1983-1447.2019.20180303, publicado no periódico Revista Gaúcha de Enfermagem, vol40(esp) de 2019:

Onde se lê a autora:

Deise Vacario de Qadros

Leia-se

Deise Vacario de Quadros

Recebido: 29 de Agosto de 2018; Aceito: 08 de Novembro de 2018

Autor correspondente: Amanda da Silveira Barbosa. amanda.poa@hotmail.com

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