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Revista da Educação Física / UEM

versão On-line ISSN 1983-3083

Rev. educ. fis. UEM vol.23 no.4 Maringá out./dez. 2012

https://doi.org/10.4025/reveducfis.v23.4.12980 

ARTIGOS ORIGINAIS ORIGINAL ARTICLES

 

O esporte na imprensa em Vitória (1926-1936): uma análise dos jornais A Gazeta e o Diário da Manhã

 

Sports in the press from vitória (1926-1936): an analysis of the newspapers A Gazeta and Diário da Manhã

 

 

Cecília Nunes da SilvaI; Thácia Ramos VarnierI; Ivan Marcelo GomesII; Felipe Quintão de AlmeidaIII; Ueberson Ribeiro AlmeidaI; Cláudia Emília Aguiar MoraesIV

IMestranda. Programa de Pós-graduação em Educação Física, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória-ES, Brasil
IIDoutor. Programa de Pós-graduação em Educação Física, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória-ES, Brasil
IIIDoutor. Programa de Pós-Graduação em Educação Física, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória-ES
IVMestre. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo tem por objetivo compreender o papel que o esporte desempenhou no desenvolvimento da cidade de Vitória nos anos iniciais de sua modernização e analisar o conteúdo de dois dos principais jornais da época: A Gazeta e Diário da Manhã. A investigação se concentrou nas edições publicadas entre a década de 1920 e 1930, pois, nesse período, foram realizados importantes investimentos no cenário esportivo do Estado. Conclui-se que a prática esportiva estava associada às ideias de que o esporte seria capaz de ajudar na formação de uma juventude sadia, cumprindo um papel significante para a melhoria da raça, aspectos indispensáveis, à época, à cidade em transformação.

Palavras-chave: Esporte. História. Imprensa.


ABSTRACT

This article aimed to examine the role played by the sports in the development of Vitória city in the early years of its modernization. It analyzed the content of two of the main newspapers at that time: A Gazeta and Diário da Manhã. The investigation has focused the issues published between 1920 and 1930, given the significant investments in sports made in the state of Espírito Santo during that period. The conclusion is that sports practice had been associated with the idea that sports would act in the formation of a healthy youth and played an important role in the race improvement, considered essential aspects at that time for the city under transformation.

Keywords: Sports. History. Press.


 

 

INTRODUÇÃO

Considerações iniciais

Ainda que com algum atraso em relação às cidades como Rio de Janeiro e São Paulo (SEVCENKO, 2003; MELO, 2001; LUCENA, 2001), Vitória (capital do Estado do Espírito-Santo) também experimentou, nos anos iniciais do século XX, processos (econômicos, políticos e culturais) que resultaram em sua "remodelação" (LIMA JUNIOR, 1994). A transição da "antiga" Vitória para uma cidade moderna teve um grande impulso durante a gestão de Jerônimo Monteiro, Governador do Estado entre os anos de 1908 e 1912. Sobretudo, a partir dele, Vitória foi perdendo o aspecto de província e passou a implementar seu projeto de modernidade. O programa de urbanização vislumbrado por Jerônimo Monteiro compreendeu várias mudanças neste campo: jardins, parque e arborização, iluminação pública e particular, esgoto, água tratada, estradas etc. Essas transformações continuaram com maior intensidade no governo do engenheiro Florentino Avidos (1924-1928). Tal processo foi tão impactante que, na década de 1930, a antiga vila colonial praticamente havia morrido, de maneira que Vitória passou a ser uma nova cidade, mais moderna e confortável (ABREU; MARTINS; VASCONCELLOS, 1993). As novidades políticas, econômicas e culturais desses frementes anos eram constantemente relatadas nos jornais, de modo que a imprensa não se cansava de notar e de tecer os justos elogios a essa metamorfose.

Paralelamente a esse movimento de transformação da capital, e à semelhança do que acontecia em outras capitais brasileiras (MELO, 2010a; MAZO; SILVA, 2009; LUCENA, 2001), Vitória também presenciou toda uma agitação da população em torno das práticas esportivas. Segundo Lucena (1994, 1997), em pouco mais de 30 anos, o esporte conquistou, na capital do Espírito-Santo, inúmeros adeptos à sua prática, caracterizada pelo forte envolvimento popular. Considerando isto, o objetivo deste artigo é descrever alguns sentidos atrelados à prática do esporte nos anos iniciais do século XX. Esperamos, assim, contribuir para cobrir (parcialmente) uma lacuna no âmbito dos estudos historiográficos do esporte, visto que ainda pouco sabemos sobre a história das práticas esportivas em centros menos desenvolvidos do ponto de vista político, econômico e cultural (ao menos quando comparado, por exemplo, a cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre etc.), como Vitória. Para atingir esse propósito, catalogamos e analisamos edições publicadas, entre as décadas de 1920 e 1930, de dois importantes jornais que circulavam na capital do Estado do Espírito-Santo: A Gazeta e Diário da Manhã. Esse recorte temporal se justifica, pois é o período em que o esporte, notadamente o remo e o futebol, é reconhecido como elemento importante da vida cultural de Vitória (LUCENA, 1994, 1997).

A catalogação das fontes se deu por meio de fotografias feitas de microfilmes do jornal A Gazeta e do próprio impresso do Diário da Manhã. Os anos catalogados, no Diário da Manhã, foram: 1926, 1928, 1929, 1930 e 1936, cujas edições foram localizadas no Arquivo Municipal de Vitória. Quanto ao jornal A Gazeta, catalogamos os anos de 1928, 1929, 1930 e 1936, cujas edições foram localizadas no Arquivo Público Estadual. No caso de o Diário da Manhã, a inexistência das edições entre os anos de 1931 e 1935 é resultado de um incêndio que atingiu o arquivo e queimou o material do período; em relação ao ano de 1927, não existia material disponível no arquivo. No caso de A Gazeta, perderam-se, com o tempo, os arquivos do jornal publicados entre os anos 1931 e 1935. Registramos as edições diárias desses anos a que tivemos acesso. O jornal A Gazeta data do ano de 1928 e é um dos principais do Espírito Santo ainda hoje. O impresso Diário da Manhã é de 1907, tendo sua primeira edição publicada no mês de agosto deste ano.

Nestes dois jornais eram publicadas muitas matérias sobre a vida política no Estado e, também, sobre os aspectos culturais e sociais em efervescência à época, dentre eles, aqueles relacionados com o fenômeno esportivo. Além disso, ambos dedicavam um espaço específico ao esporte. No Diário da Manhã, havia uma coluna denominada Diário Sportivo, na qual se faziam presentes as notícias dos principais acontecimentos esportivos de Vitória. Em relação ao jornal A Gazeta, nota-se que, a princípio, as matérias sobre esporte não eram diárias; muitas vezes apareciam sem um lugar definido no jornal (inclusive entre outras notícias não-esportivas), enquanto, em outras, eram reunidas em uma pequena coluna denominada Sports. Essa, contudo, não era uma peculiaridade somente desse jornal, mas, conforme Melo (1999, 2007), a falta de regularidade e de um espaço próprio nas publicações caracterizou o início da relação entre o esporte e a imprensa. Com o passar dos anos, o jornal A Gazeta se modernizou e modificou a coluna esportiva, que deixa de se denominar Sports e passa a ser denominada, a partir do mês de julho de 1930, Desportos, Terra e Mar - O paiz precisa de filhos fortes e sadios para a sua prosperidade. A partir de 1936, há outra alteração: o jornal ganha uma página esportiva (não mais coluna), intitulada A Gazeta nos Esportes.

Em A Gazeta e no Diário da Manhã, encontramos matérias sobre a construção e organização de estádios, sobre a atuação dos governantes em relação aos esportes, notícias sobre times de futebol, com mais ênfase para o "Vitória Futebol Clube" e "Rio Branco Futebol Clube" (times ainda hoje em atividade no cenário esportivo da capital), e sobre os clubes de remo, em especial, o "Clube de Regatas e Natação Álvares Cabral" e o "Clube de Regatas Saldanha da Gama". Destaca-se, ainda, a incidência de termos estrangeiros, como "teams", "players", "goal", "scratch", "shootar", "goalkeeper", "half-time", "footballer". Por exemplo: "O jogo preliminar, que começou regularmente as 14 ½ horas, sahiu vencedor o 2º 'team' do Botafogo F.C., pelo insignificante 'score' 1X0" (DIÁRIO SPORTIVO, 08 abr, 1928, [s/p]). De acordo com Melo (2010b), nas três primeiras décadas do século XX, era comum o uso dos termos em inglês. Por um lado, esse uso guarda relação com o perfil da "novidade", o qual a língua portuguesa ainda não tinha instrumental para descrever; por outro, está relacionado com o desejo de estabelecimento de ligações simbólicas com uma realidade mais "desenvolvida".

Na análise pretendida, tomamos algumas noções sobre análise de conteúdo (BARDIN, 1977), destacando, nesse sentido, a categorização como importante etapa dessa metodologia de análise. O texto está organizado em um único tópico, no qual se procura dar visibilidade ao objetivo anunciado. As considerações finais apresentam uma síntese do que foi discutido, anunciando, também, a continuidade da investigação.

O esporte em Vitória: sentidos comunicados em dois jornais da cidade

Diferentemente daquilo que aconteceu no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre (LUCENA, 2001; MELO, 2001; SEVCENKO, 2003; MAZO; SILVA, 2009), na ilha de Vitória, é com a prática do remo, e não com o turfe, que se inicia o movimento em favor da organização esportiva da cidade. Em meio à busca por progresso no âmbito econômico, político e social, Vitória "vê" surgir seus primeiros clubes de remo. Em 07 de julho de 1902, é fundado o "Clube de Regatas e Natação Álvares Cabral" e, no mesmo mês, no dia 29 de julho de 1902, é inaugurado o "Clube de Regatas Saldanha da Gama". Se considerarmos, na esteira de Lucena (2001) e Melo (2001), que o remo era o esporte-símbolo que mais bem se adaptara às transformações nos corpos e mentes exigidas pela transformação das cidades, foi estratégico o aparecimento dos clubes de remo bem no momento em que Vitória dá seus primeiros passos em torno de sua modificação: de uma antiga vila colonial, para uma cidade moderna. As regatas, desse modo, se apresentaram como a consolidação da vida na cidade, incitando o comportamento urbano. Isso porque o remo é o esporte par excellence do exercício físico, a escola mais completa da educação do corpo e da sua saúde, atendendo perfeitamente às imagens de progresso e de modernidade que se procurava consolidar em Vitória, conforme indicam nossas fontes. Tratava-se, com sua prática, de demonstrar, no próprio corpo, forte e rijo, os sinais do novo tempo, incorporando o próprio estilo de vida individual à nova cultura esportiva dos frementes anos que assim se iniciavam. Não surpreende que, paulatinamente, o remo tenha ganhado fama e prestígio na cidade, a ponto de se tornar, em pouco mais de duas décadas, tradição entre os moradores, conforme ilustram os seguintes trechos (manteve-se a originalidade da escrita em todos os excertos):

Victoria vae assistir hoje, mais uma vez, ao seu divertimento predilecto, e que constitue, sem exagero, uma festa tradicional e que tem raízes em toda a sua população, desde as classes mais aristocráticas até as mais humilde. Innegavelmente o remo é para Victoria o desporto mais querido. Praticado entre nos ha vinte e sete inninterruptos anos pelos valorosos competidores de sempre, o Alvares Cabral e o Saldanha da Gama, e depois por vários outros clubes que não lograram vivér, e ultimamente, já ha quase tres lustros pelo valoroso Náutico Brasil, o promotor do brilhante certamen de hoje, o remo cada dia vae se tornando o desporto da cidade, por excellencia. [...] É porque as regatas constituem na realidade a tradição mais viva de Victoria é que logo mais, as 13 horas, todas a nossa baía será um recanto festivo do oceano, coalhado de embarcações, numa festa encantadora (SPORTS, 29 ago. 1929 [s/p]).

[...] uma das mais enthusiastica se não a mais enthusiastica das festas náuticas que se tem realizado [na baia de Vitória]. [...] Os caes estiveram toda a tarde repletos de torcedores e os portões dos clubs não comportaram o número vultuoso de sócios e convidados que de seu bordo quizeram ver de mais perto a entrada na raia (DIÁRIO SPORTIVO, 07 set. 1926, [s/p]).

Nossa cidade está tomada do mais vivo enthusiasmo e ansiosa por assistir a grande regata de domingo, quando será corrido o Segundo Campeonato Espírito Santense do Remo, que a L. S. E. S. realiza nas aguas de nossa bahia. Do que vae ser essa pugno nautico, dilo o interesse dos nosso clubes de regatas, pelo apresto de suas guarnições e as deliberações tomadas, exigentemente, para que a nossa principal festa esportiva tenha o maior brilhantismo possível (DIÁRIO SPORTIVO, 14 nov. 1929, [s/p]).

As nossas veteranas sociedades de remo têm se esmerado em trabalhos afanosos e os remadores em exercicios fatigantes e proveitosissimos, sem respeito ao vento forte e ao frio intenso, que estes dias têm feito sentir. É que o remo é ainda na nossa esplendida terra um desporto que merece todas as attenções de patricios e plebeus, sendo verdadeiramente popular. Já estamos a antever a cidade toda em festa, o cáes apinhado de gente galhofeira e enthusiasmada, as lanchas repletas de famílias, e os locaes designados pelos clubs cheios de socios e suas exmas. famílias, torcendo valentemente. A ponte 'Florentino Avidos' vae ser o principal ponto de reuniao de nosso povo [...] (DIÁRIO SPORTIVO, 10 out. 1928, [s/p]).

Ha, este anno, para augmentar o enthusiasmo da população, a grande vantagem da nova raia, que faz coincidir a "chegada" muito proximo á ponte, soberba moldura para o quadro empolgante da nossa bahia festiva e engalanada. Num dos seus vãos, o veterano Alvares Cabral conseguiu da Secretaria da Agricultura uma área especial, que servirá para seus associados e "torcidas", ficando o restante para o publico em geral. Por sua vez o Saldanha da Gama cuidou de conseguir uma vasta área no caes dos armazens da firma Vivacqua, Irmãos & Cia., onde localizará os seus associados e suas familias, tendo conducção por agua e por terra. O Nautico Brasil não determinou ainda onde alojará os seus associados, mas por certo o fará por esses dias, e o Piratininga tambem ainda não determinou qual o seu palanque. As duas veteranas sociedades, o Alvares e o Saldanha, estão optimamente colocados, e, por certo, farão attrahir para os seus reductos os mais finos elementos de nosso meio, pois que a nossa alta sociedade ainda é, como em outros tempos, ardentemente interessada pelo remo (DIÁRIO SPORTIVO, 09 out. 1928, [s/p]).

Não obstante, a poderosa força que o remo desfrutou nas três primeiras décadas do século XX, o futebol conquistava, desde a década de 1910 (quando se fundam os primeiros clubes), cada vez mais adeptos entre os habitantes da cidade, despertando a atenção e o gosto não apenas dos filhos das elites que aqui o introduziram, mas, também, da maioria da população. As fontes indicam que o futebol começou em Vitória praticado no interior das escolas; foi popularizado por aqueles estudantes de melhor condição financeira que, ao retornarem de suas viagens (normalmente para cidades como Rio de Janeiro e São Paulo), traziam consigo inúmeras novidades, dentre elas, o futebol. Com ele, a organização esportiva da cidade diversifica-se, sobretudo com a criação, no ano de 1917, da primeira liga de futebol da cidade. É bem verdade que, se comparado com outras localidades, o futebol demorou a "acontecer" em Vitória (não muito diferente, diga-se de passagem, do que ocorreu com o remo). Uma matéria encontrada no Diário da Manhã, intitulada "O início do foot-ball entre nós", indica isso ao dizer que, enquanto o Rio de Janeiro e São Paulo já apreciavam a prática do "bolapé", o cidadão de Vitória pouco valorizava esse esporte:

A história de nosso futebol é de hontem. Quando em outras capitães já era praticado com habilidade e ardentemente adimirado o bello e violento esporte bretão, nos o desconhecíamos quase que por completo e não tínhamos o menor interesse pelas pugnas que constantemente se travavam entre as agremiações de São Paulo e Rio (DIÁRIO SPORTIVO, 03 out. 1926, [s/p]).

Em algumas regiões do centro da cidade, os rapazes começaram a chutar bolas de meia, com uma noção ainda "[...] pouco precisa da verdadeira technica futebolística. Um ou outro, mais viajado, sabia as regras e procurava applica-las, luctando com as difficuldades communs que se antepõem sempre á tarefa mellindrosa de organizar alguma coisa" (DIÁRIO SPORTIVO, 03 out. 1926, [s/p]). Essa delonga, conforme podemos concluir na esteira de Mascarenhas (2002), não era exclusividade de Vitória, pois, segundo o autor, em 1905 o futebol era praticamente desconhecido pela ampla maioria dos brasileiros. Poucas eram as cidades do País a praticá-lo com regularidade. Mesmo no Rio de Janeiro, conforme Melo (2001), o futebol, já introduzido entre os cariocas, só vai "explodir" por volta de 1910. A relativa demora de Vitória em relação à prática do futebol talvez possa ser explicada, por um lado, pelo fato de o remo já ter conquistado grande popularidade em Vitória (como evidenciam as passagens que reproduzimos mais acima). Por outro lado, embora em franco processo de se tornar mais moderna, o "violento" esporte bretão encontrou algumas resistências na capital. Podemos ver um exemplo disso na citação a seguir:

Nenhum esporte nos empolga tanto como as regatas: nenhum outro também é tão útil ao physico, como elle. Eu o comparo ao mais elegante de todos [...]. Nelle não há o perigo, as formas desgraciosas do conjunto, a brutalidade, a violência, o desamor ao próximo, como o football [...]. O Remo e a natação estão sobre todos os outros (DIÁRIO SPORTIVO, 7 set, 1926, [s/p]).

No centro dessa polêmica, estava o caráter "mais ou menos" formativo das modalidades. Qual seria, então, esse caráter? O que dele se esperava? Em uma das matérias do jornal A Gazeta, que tratava de uma competição de remo, isso fica evidente:

Victória vive, nas horas das competições, as horas mais joviaes de sua mocidade, e quase sempre um sol luminoso e feliz, acompanha o desenrolar dessas pugnas atlheticas, onde a mocidade exercita os musculos, a educação desportiva, e aprende a se tornar uma raça forte e sadia para a grandeza do Brasil de amanhã (SPORTS, 28 jun., 1930, [s/p]).

O remo seria a modalidade que mais condições reunia para esse propósito. Essa desconfiança, aliás, não era um fenômeno tipicamente de Vitória, pois é bastante conhecida a ideia de que muitos intelectuais da sociedade brasileira, entre eles jornalistas e literatos, se colocaram contra a popularização do futebol no País. Receavam que sua prática fomentasse nos praticantes e torcedores um vocabulário viril, de baixo calão e uma forte propensão à agressividade (PAGNI, 1997; PEREIRA, 2000). Malgrado essa polêmica, o esporte devia ser praticado com "sacerdócio", pois é a partir dele que, por um lado, se garante uma mocidade mais sadia. Isso é o que verificamos na reportagem publicada no jornal A Gazeta, em que, tomando como referência o exemplo do atleta Adolpho Monjardim, afirma que os jovens, inspirados neste atleta, poderiam "[...] dedicar alguns instantes de sua vida à prática de um salutar entretenimento em benefício do seu physico da sua saúde" (A GAZETA, 05 maio 1930, [s/p]). A obtenção da saúde, por outro lado, é inseparável do pressuposto da melhoria da raça. De acordo com Vaz e Bombassaro (2010), a prática esportiva assumiu, neste contexto, a função de regeneração da raça, conforme anuncia outra matéria do jornal A Gazeta:

[...] Seria um contrasenso em plagas como a que temos o privilegio de habitar, não fosse feito algum esforço em aperfeiçoar physicamente o homem, dotando-o das energias precisas para não ser vencido pela natureza mais forte que elle. Foi esse o ideal que inspirou a creação das sociedades esportivas de Victoria, para educação e preparação da raça para a Victoria da vida. Na escola do esforço, da pertinência e da disciplina aprimora-se a mente e enrijase o caracter, na base de um bom physico. Na competição dos nossos dias, de duras e ásperas lutas, requer-se resistência physica sem a qual serão inúteis todas as demais qualidades (A GAZETA NOS ESPORTES, 23 set. 1936, [s/p]).

Em matéria noticiando a festa de inauguração da nova sede do "Clube de Regatas Saldanha da Gama", novamente aparece o vínculo entre esporte e raça:

O Dr. Ubaldo Kamalhete, em nome da directoria do Saldanha, da qual faz parte como consultor jurídico, num feliz improviso, analysou a cerimônia de inauguração do club, e após ligeira peroração sobre o valor do esporte na formação do homem, tornando-o útil à família, à raça e à pátria, agradeceu o comparecimento dos membros da junta Governativa e da sociedade espiritosantense [...] (DESPORTOS..., 17 nov. 1930, [s/p]).

Na sequência, mais dois excertos que não deixam dúvida sobre o vínculo entre a prática do esporte e o desenvolvimento da raça:

Meus senhores. Vencendo naturaes difficuldades, ha quase cinco lustros um grupo de jovens, cheios de nobre ambição de trabalharem para o aperfeiçoamente physico de nossa mocidade, fundou a associação esportiva que recebeu o nome de um almirante e que foi uma honra para a sua classe e uma gloria para nosso paiz. [...] E abençoada seja o trabalho daqueles que, como Raul de Azevedo, tem consagrado grande parte de sua actividade para dar á educação physica da nossa juventude o valor que ella merece, mantendo atraves de todas as vicissitudes essa nobre sociedade esportiva, em que os nosso jovens têm adestrados os seus musculos para uma melhor resistência organica na luta pela vida. O exercício physico garante um corpo são, que a educação moral e intelectual completa com um espirito são, realizando o conhecido aphorismo - mens sana in corpore sano. A gymnastica respiratoria que o exercício dos remos torna methodica, exerce uma salutar influencia sobre o temperamento do individuo, sendo, portanto, o exercecio physico a base sobre que se constróe a educação do homem (DIÁRIO SPORTIVO, 04 jan. 1929, [s/p]).

A belleza agrada a tudo em cultura Physica. A regeneração da raça será um facto consumado no dia em que, todo o mundo, tendo comprehendido a necessidade da cultura physica, os homens terão tomado por modelo o gladiateur combattante do Museu do Louvre e as mulheres a Venus de Cyrene de Roma. Nesse dia já não haverá necessidade de concursos, competições, matches, exibições, pois que cada um trabalhará pelo seu próprio eu, já não sendo necessária preocupação com a cultura physica alheia. Saude e belleza serão ominuns, facto hoje bem raro, principalmente dentre os desportistas. Hippocrate e Gallien, em seu tempo, já pensavam assim, acordes em denuncia aos excessos do atletismo e mostrar comprovadamente que os athletas profissionais, de músculos hypertrophiados tinham má saúde, eram máus soldados, maus cidadãos. Há muita gente que contraria a practica dos exercícios physicos, chegando a consideral-os descessários, procura atear confusão entre cultura Physica e Athetismo. Sem duvida não tem outro erro senão o de dizer que o único cuidado da cultura physica é o de como viera a promover monstruosos de músculos hypertrophiados e com cérebro, em contrario, atrophiado. Não é isso em absoluto, a "Cultura physica", muito já se tem escripto sobre o assunto, cujos os estudiosos a têm analysado sob múltiplos aspectos, alguns até, illustrando suas chronicas com photographias de typos que definem perfeitamente o que se pode classificar como "typo ideal". O que a "Cultura physica" envida, e o conseguirá sem duvida, é a perfeição da forma, sem nenhuma hypertrophia muscular, localizada ou generalizada. Edmond De Bouner, defendendo este mesmo tema, desde que o Hercules Farnésio estava tão longe do seu ideal quanto um cretido está dum Pasteur. Desbannet é o creador da Gymnastica dos Orgãos, uma perfeita autoridade no assumpto. A comunidade deve, pois, cuidar da sua belleza perfeita, pela cultura physica, pois que assim terá velado pela sua perfeita saúde (DESPORTOS..., 11 set. 1930, [s/p]).

Esse ideal parecia ser tão forte no jornal A Gazeta que ele se evidencia mesmo quando ocorre a troca do nome da coluna dedicada às notícias esportivas, que deixa de se denominar Sports e recebe o título de Desportos, Terra e Mar - O paiz precisa de filhos fortes e sadios para a sua prosperidade. A partir desse título podemos perceber a ligação entre esporte, saúde e Nação. No âmbito dos estudos historiográficos do esporte, essa é uma tese recorrente (NEGREIRO, 1997; COERTJENSI; GUAZZELLI; WASSERMAN, 2004; GOELLNER, 2008; DRUMOND, 2007). Esse discurso se fazia presente para os moços, que eram vistos como os "homens de amanhã" (Figura 1), pois o esporte e o exercício físico tinham como fim desenvolver o corpo e tornar o intelecto mais ativo, aspectos estes fundamentais para a vida moderna, que exigia força e saúde para que se tivesse condições de arcar com as responsabilidades demandadas. Fortalecer o corpo individual era o mesmo que fortalecer a Nação. Essa atitude individual era uma crença de que assim algo maior sobreviveria longamente. Acima de um corpo saudável, estaria uma Nação saudável (BAUMAN, 2000).

 

Figura 1 -Os nossos filhos são os homens de amanhã.
Fonte: DIÁRIO SPORTIVO, 25 abr. 1928, [s/p].

 

Sevcenko (2003, p. 34) afirma, e a propaganda acima confirma, que, atrelada a esse discurso, a filosofia é "[...] ser jovem, desportista, vestir-se e saber dançar os ritmos da moda é ser 'moderno', a consagração máxima. O resto é decrepitude, impotência, passadismo e tem os dias contados". A saúde significava "[...] uma conotação de auto-estima, autoconfiança e combatividade, inscrita nas formas esbeltas e na insinuação de uma sexualidade desperta e fértil. A saúde enfim era a chave de um corpo moderno" (SEVCENKO, 1999, p. 559). Assumir ostensivamente os sinais associados ao novo ativismo atlético constituía um meio de patentear inequivocadamente a distância entre as gerações e as diferenças entre as mentalidades (SEVCENKO, 1999).

Todavia, não eram todos que se adaptavam bem a esse turbilhão de mudanças que estavam acontecendo na cidade em transformação. Havia divergências de opiniões diante dos novos valores propostos. No jornal Diário da Manhã, de 1928, consta uma matéria na qual se faz uma reclamação quanto aos novos costumes considerados modernos. O redator afirma que a mocidade não se interessa mais por assuntos intelectuais; prefere o futebol, a dança, os automóveis, todo um "modernismo entontecedor" à tortura do convívio intelectual. Enquanto a mocidade se preocupava/ocupava com o desenvolvimento material, a intelectualidade adormecia:

Infelizmente é um commentario verdadeiro esse de se dizer que os moços de hoje já não se demonstram tocados do ardoroso desejo de pugnar pelo nosso progresso intellectual [...]. Emquanto, entretanto ascendemos a esse gráo de desenvolvimento material, irradiado, como se vê, nos diversos e longínquos pontos do território, notamos que a nossa intellectualidade adormece num marasmo de indolência criminosa. O foot-ball, os dancings, os cabarets, os automóveis, a scena muda, todo esse modernismo entontecedor, tem attrahido, subjugado mesmo a atenção da mocidade que prefere seus encantos, a tortura do convívio intellectual, onde a intelligencia e o espírito substituem o jazz-band e a campanha (DIÁRIO SPORTIVO, 01 jan. 1928, [s/p]).

A despeito dessa polêmica, é inegável que os esportes se tornaram símbolo da vida moderna e civilizada em Vitória, ganhando espaço no cotidiano da sociedade. Além de vinculado à melhoria da saúde e da raça dos habitantes, era visto como uma prática de caráter moralizante, ligada ao que de mais elevado havia na vida "civilizada". Em uma das edições do jornal Diário da Manhã, de 1928, essa ligação do esporte com os valores mais civilizados fica evidente, quando o colunista do jornal adverte a população sobre uma invasão feita ao campo de jogo durante uma partida de futebol:

Ainda no ultimo domingo, por occasião da partida do campeonato Bangu x S. Antonio, diversos espectadores deram uma triste demonstração de indelicadeza não somente invadindo a área reservada para os jogadores, como também apupando os amadores que disputavam. Bem ridículo, isto! Ora, num meio como o nosso, não se justificam mais essas coisas que reflectem muito mal para uma cidade civilizada. Com a medida saneadora posta em pratica pelo Conselho, teremos d'ora avante partidas bem jogadas e debaixo da maior ordem, porque a directoria da Liga, diante da autorização do Conselho, tomará medidas energicas e extremas (DIÁRIO SPORTIVO, 11 maio 1928, [s/p]).

Atitudes contrárias ao comportamento mais "adequado" eram reprovadas, como observamos em uma matéria do Diário da Manhã, no dia 21 de novembro de 1928, ao relatar o lamentável episódio ocorrido no campeonato de futebol da cidade: "O quadro do Uruguayano, devido a indisciplina da maioria de seus componentes foi retirado de campo pelo criterioso arbitro Sr. Amaro Bastos Netto quando faltavam 22 minutos para o término da partida" (DIÁRIO SPORTIVO, 21 nov. 1928, [s/p]). Na reportagem intitulada "Encontro do seleccionado brasileiro com o argentino: um incidente desagradável", que comenta uma partida do selecionado de jogadores do Rio de Janeiro e de São Paulo contra o time da Argentina, de nome "S. C. Barreaes", se destaca a completa falta de "educação esportiva" do time visitante, que não soube perder (DIÁRIO SPORTIVO, 08 jan. 1929, [s/p]). Em outra reportagem, denominada "Uma lição de cultura esportiva", descreve-se a agressão que um jogador do "Clube de Regatas Flamengo", do Rio de Janeiro, cometeu contra o jogador do "Rio Branco Futebol Clube". Após narrar o acontecido, a matéria encerra com os seguintes dizeres:

Registramos o desagradavel incidente, não pelo prazer de dar repercussão a um facto que desejamos ver esquecido, para não desmerecer a cultura esportiva brasileira, e sim para salientar a atitude alttamente prudente, finamente educada de Guilherme Abaurre, que ao envez de reagir aos improbérios do exaltado moço, ainda evitou que outras pessoas do seu lado, revoltadas com o caso, castigassem o offensor. [...] Mostrou Abaurre, nesse desastrado incidente, a sua fina educação, o seu criterío e um elevado espirito de hospitalidade. D' ahi como um desportista provinciano dá ao público, sob a impressão de uma desastrada derrota, uma admirável lição de cultura esportiva (DIÁRIO SPORTIVO, 25 jun. 1929, [s/p]).

A exemplo desta reportagem, identificamos vários outras em que se exaltava os gestos amigáveis, cordiais e de cortesia dos "[...] players, como perfeitos gentlemen" (DESPORTOS..., 10 jul. 1930 [s/p]; DIÁRIO SPORTIVO, 01 mai. 1928, [s/p]; DIÁRIO SPORTIVO, 31 mar. 1928, [s/p]). Em síntese, os jornais pretendiam passar a seguinte mensagem:

Que as pugnas officiais transcorram calmas, em uma paz geral. Que as cousas corram como em mar sereno, bonançoso. Que jogadores e torcidas procedam com distinção, que as decisões dos arbitros sejam acatadas; que não berrem nem se injuriem; que não haja gestos amoraes; que não haja brigas; que haja aplausos aos feitos dos que desenvolvem jogadas de mestre; e, por ultimo, que vencedores e vencidos deixem o campo da lucta como verdadeiros gentlemen, n´ uma confraternisação perfeita, como deve ser compreendida a finalidade desportiva que os faz por momento adversarios, mas não inimigos (SPORTS, 30 jun. 1930, [s/p]).

Para Melo (2009), a consolidação dessa civilidade e do cavalheirismo consistia em muito mais do que ostentar riqueza ou bens materiais, mas envolvia uma união de considerações sobre o estilo de vida (um gentleman) e a representação social. Referia-se mais a termos de acesso aos meios que permitem a apresentação da correta imagem social, representada, naquele momento, pela figura do sportman: denominação genérica para todos que se envolviam com o esporte, como competidores, dirigentes ou simplesmente como público aficionado (MELO, 2007). Isso também repercutia na própria maneira como os jornais se referiam aos clubes. Os times de futebol eram sempre adjetivados de modo virtuoso, sendo apresentados pelos jornais como "valorosos", "symphaticos", "brilhantíssimos" e valentes", como podemos observar em uma matéria que falava do Campeonato de Futebol de 1928: "Na praça de jogos de Jucutuquara, proseguindo na disputa do actual campeonato, defrontar-se-ão hoje os valorosos primeiros e segundos quadros dos clubs 'Victoria' X 'Rio Branco' e América X Santo Antônio" (DIÁRIO SPORTIVO, 01 jan. 1928, [s/p]). Mas podem, além disso, também ser identificados nas inúmeras reportagens da modalidade esportiva que, talvez mais do que todas as outras, representava o espírito civilizado esperado de um verdadeiro sportman: o tênis. Isso é o que podemos identificar nas inúmeras reportagens sobre o "Parque Tenis Club", clube criado, "pelos moços de nosso melhor meio social", nas dependências do principal parque da cidade: o Parque Moscoso (DIARIO SPORTIVO, 23 fev. 1929, [s/p]). As partidas seriam disputadas conforme um ambiente de sadio cavalheirismo entre os participantes, cuja distinção e elegância poderiam ser percebidas nas próprias vestimentas.

Portanto, por meio do esporte se poderia desenvolver o espírito do fairplay, que, de acordo com Vaz e Bombassaro (2010), sempre busca reconhecer que o importante é o desempenho fora das atividades esportivas, na convivência cordial e pacífica. De acordo com Da Costa et al (2007, p. 14), a expressão fair play, criada e difundida ainda no século XIX, "[...] pode ser considerada como uma tentativa civilizadora de definir um conjunto de comportamentos adequados para a prática esportiva, criando um equilíbrio entre os impulsos potencialmente destrutivos da competição e a integridade dos praticantes". Comportar-se de acordo com os novos valores era fundamental para uma cidade moderna. Assim, visualizou-se o esporte diretamente ligado a uma nova educação dos corpos, em que a moral e o agir "cavalheiresco" são fundamentais ao sportman. Tais aspectos também estavam conectados com um gradativo cultivo da saúde, da beleza e da juventude.

Os produtos comercializados à época perceberam o potencial mercadológico (o valor positivo a ele atrelado) do esporte desde cedo e suas marcas foram associadas à prática esportiva. O esporte, assim, tornou-se um veículo de propaganda. Segundo Melo (1999, p. 99), "[...] as relações entre imprensa e publicidade esportiva estavam diretamente ligadas a um mercado que começava a surgir em torno das práticas esportivas desde o século XIX", conforme demonstram nas Figuras 2 e 3, na sequência:

 

Figura 2 - Esporte, saúde e Agua Rabello.
Fonte: DIÁRIO SPORTIVO, 04 fev. 1928, [s/p].

 

 

Figura 3 - Esporte, saúde e Biotônico Fontoura.
Fonte: DIÁRIO SPORTIVO, 18 jul. 1936, [s/p].

 

Destaque, a esse respeito, para os famosos tônicos, que empregavam figuras associadas às práticas esportivas, "[...] como forma de vincular seu produto a uma imagem de saúde, beleza e excelência" (MELO, 1999, p. 104).

De acordo com Morel (2007), tomando a imprensa do Rio de Janeiro como referência, na década de 1930, acompanhando a inserção da mulher no âmbito da esfera pública (fruto de suas conquistas), produzem-se inúmeros anúncios e propagandas direcionados ao público feminino. Na imprensa de Vitória também não foi diferente. Em uma imagem publicada no Diário da Manhã, em 15 de abril de 1928 (Figura 4), afirmava-se que as moças deveriam praticar esportes em busca de sua saúde, beleza e formas perfeitas. A construção de um organismo feminino forte estava assentada no trinômio saúde, força e beleza (GOELLNER, 2008), pois desse trinômio resultaria a força de uma geração de novas criaturas e, por conseguinte, de um novo País.

 

Figura 4 - Mulher, saúde e Emulsão de Scott.
Fonte: DIÁRIO SPORTIVO, 15 abr. 1928, [s/p].

 

Para Melo (1999), a relação entre a publicidade esportiva e a imprensa era direta, e essa relação interessava tanto a uma quanto à outra. À medida que o esporte ganhava espaço a imprensa percebia que ele estimulava a venda de jornais, já que se tratava de um assunto atraente e que possuía leitores ávidos por informação. A entrada de recursos financeiros em forma de propaganda dos próprios clubes, ou de produtos direta ou indiretamente ligados ao esporte, era imprescindível à vida dos jornais. Se é inegável, portanto, que os jornais contribuíram para o desenvolvimento esportivo em Vitória, também é certo que o esporte foi importante para a estabilidade financeira dos jornais. Nesse contexto, a imprensa, igualmente ao que aconteceu em outras cidades, funcionou como indicador e promotor da nova excitabilidade pública (MELO, 2010a), de maneira que ela e os clubes beneficiaram-se mutuamente.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O artigo se insere no contexto de uma investigação realizada desde o ano de 2009, que visa entender os nexos entre esporte e modernidade no contexto da cidade de Vitória, no início do século XX. Como essa cidade foi o palco para o desempenho dos novos potenciais técnicos desencadeados pela cultura e prática adjetivadas de modernas, isso proporcionou que sua transformação incluísse, também, a reforma dos corpos e das mentes dos citadinos. A constituição dessa cultura urbano-industrial passou a exigir um determinado tipo de educação do corpo em que novas subjetividades, novos gostos e gestos passaram a conformar o ideário republicano de Vitória. Inéditas produções culturais, como o esporte, revelam e informam sobre a imagem do novo homem brasileiro, assumindo o exercício físico como um manifesto caráter de civilidade, de progresso, associado, em suma, à modernidade.

Procuramos compreender como e porque a prática esportiva, no início do século XX, despertou a atenção da população e dos governantes da capital do Espírito Santo. Uma das expressões desse interesse foi a constante presença do tema nos principais jornais, ocupando cada vez mais destaque e espaço nas publicações do período. Operamos, para evidenciar a "febre esportiva" (MASCARENHAS, 1999) que assolou Vitória, com duas fontes publicadas durante as décadas de 1920 e de 1930: o jornal Diário da Manhã e A Gazeta. Os jornais ajudam a criar/divulgar uma linguagem prestigiosa referente ao esporte, no desenvolvimento de um comportamento próprio do ser esportista e na contribuição para a geração de um mercado de consumo.

As fontes acessadas mostraram que os discursos atrelados ao desenvolvimento do esporte na cidade de Vitória, à semelhança do que acontecia em outras localidades do País, passavam pela ideia de que sua prática poderia desenvolver a saúde da mocidade e promover a melhoria da raça, requisitos indispensáveis à cidade em transformação. O esporte era visto, portanto, como um meio de fortalecer física, moral e intelectualmente os seus praticantes, desenvolvendo neles uma "verdadeira" educação esportiva. Ao descrever os sentidos vinculados à prática esportiva em Vitória, procuramos situar o que, nessa cidade, acontecia em relação a processos semelhantes vivenciados em outras capitais. Iniciativas similares à nossa podem ser observadas em outros estudos, conforme podemos notar em Melo (2010a). Destacamos as semelhanças entre essas diferentes localidades e pudemos concluir que a prática do esporte em Vitória adquiriu algumas particularidades. Por exemplo: a) a configuração do campo esportivo em Vitória se iniciou com o remo, e não com o turfe, ao contrário, deste modo, do que aconteceu em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre; b) há uma demora nessa configuração quando comparado com cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, cujo início da organização esportiva data do século XIX; c) a prática de esporte, antes da virada para o século XX, era escassa em Vitória (e as fundações dos clubes de remo, somente em 1902, são boas evidências disso); d) o futebol demorou a se popularizar em Vitória, se comparado com o desenvolvimento dessa prática em outros locais; e) durante algum tempo, até a footbalmania (PEREIRA, 2000) tomar conta da cidade, o remo foi considerado o esporte predileto da juventude de Vitória, a escola mais adequada para a educação esportiva pretendida.

Na continuidade desta investigação, temos como desafio prosseguir analisando os sentidos vinculados ao universo esportivo, operando, contudo, com duas revistas que também foram de grande importância nas primeiras décadas do século XX. São elas: Vida Capichaba (1923-1957) e Chanaan (1936-1939). Continuaremos a tomar o fenômeno esportivo como chave de leitura para compreender as transformações pelas quais Vitória passou em seu processo de transformação. Poderemos, assim, testar algumas conclusões a que chegamos à análise dos jornais, mas, também, vislumbrar outros aspectos até então despercebidos.

 

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Endereço para correspondência:
Felipe Quintão de Almeida
Rua Oscar Rodrigues de Oliveira, n. 610, ap. 401, Jardim da Penha
CEP: 29060720, Vitória, Espírito Santo
E-mail: fqalmeida@hotmail.com

Recebido em 25/03/2011
Revisado em 01/11/2011
Aceito em 03/03/2012

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