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vol.26 número3ATENDIMENTO ESPECIALIZADO EM ESPORTE ADAPTADO: DISCUTINDO A INICIAÇÃO ESPORTIVA SOB A ÓTICA DA INCLUSÃONÍVEL SOCIOECONÔMICO, ESTADO NUTRICIONAL E COORDENAÇÃO MOTORA GROSSA DE ESCOLARES COM 6 A 10 ANOS NA AMAZÔNIA índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
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Revista da Educação Física / UEM

versão impressa ISSN 0103-3948versão On-line ISSN 1983-3083

Rev. educ. fis. UEM vol.26 no.3 Maringá jul./set. 2015

https://doi.org/10.4025/reveducfis.v26i3.26128 

ARTIGOS ORIGINAIS

A OLIMPÍADA ESCOLAR E A ESPORTIVIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA NO ESPÍRITO SANTO: CONTINUIDADES E DESCONTINUIDADES (1946-1954)

THE SCHOOL OLYMPICS AND THE SPORTIVIZATION PHYSICAL EDUCATION IN ESPÍRITO SANTO: CONTINUITIES AND ISCONTINUITIES (1946-1954)

Marcelo Laquini Eller*  c1 

Marcela Bruschi** 

Amarílio Ferreira Neto*** 

Wagner dos Santos**** 

Omar Schneider***** 

* Professor. Pós-Graduação em Educação Física do Centro de Educação Física e Desportos. Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória-ES, Brasil.

** Professor. Pós-Graduação em Educação Física do Centro de Educação Física e Desportos. Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória-ES, Brasil.

*** Doutor. Centro de Educação Física e Desportos . Universidade Federal do Espirito Santo. Vitória-ES, Brasil.

**** Doutor. Centro de Educação Física e Desportos . Universidade Federal do Espirito Santo. Vitória-ES, Brasil.

***** Doutor. Centro de Educação Física e Desportos . Universidade Federal do Espirito Santo. Vitória- ES, Brasil.


RESUMO

Analisa a temática da Olimpíada Escolar no Estado do Espírito Santo entre 1946 e 1954. Objetiva compreender a relação da Olimpíada Escolar com o processo de esportivização da Educação Física. Opera com o conceito decivilidade desenvolvido por Elias (1992) e Da Matta (1994), e com o modelo do paradigma indiciário e decircularidade proposto por Ginzburg (1989, 2000). Utiliza como fonte os jornais A Gazeta e A Tribuna e o arquivo pessoal de Aloyr Queiroz de Araújo. As Olimpíadas Escolares constituíram um importante evento para o governo e para a sociedade capixaba. Esse acontecimento tinha como foco os estudantes do ensino secundário, com o objetivo de envolvê-los em um projeto nacional, educativo e civilizatório que, por sua vez, era coordenado, entre os anos de 1946 e 1954, pelo Serviço de Educação Física, localizado na Escola de Educação Física do Espírito Santo.

Palavras-chave: Olimpíada Escolar; Escolarização; Educação Física; Espírito Santo

ABSTRACT

Analyses the issue of School Olympics in Espírito Santo State between 1946 and 1954. It aims at understanding the relationship of the School Olympics with sportivization of Physical Education. Operates with the concept ofcivility developed by Elias (1992) and Da Matta (1994) and the model of the evidentiary paradigm andcircularity proposed by Ginzburg (1989, 2000). Used as source the newspaper A Gazeta and A Tribunaand the personal archive of Aloyr Queiroz de Araújo. The School Olympics were an important event for the government and for the Espírito Santo society. This event was focused on the high school students, in order to involve them in a national, educational and civilizing project, which in turn was coordinated between the years 1946 and 1954, by the Physical Education Department, located in College of Physical Education of the Espírito Santo.

Keywords: School Olympics; Schooling; Physical Education; State of Espírito Santo

INTRODUÇÃO

A temática das Olimpíadas Escolares, como objeto de pesquisa, é nova no campo da História da Educação Física e do esporte. Em busca em livros, teses, dissertações, artigos em periódicos e anais de eventos não foi possível localizar discussões que analisassem esse fenômeno da esportivização. Somente foi possível encontrar dois estudos, em perspectiva histórica, que buscaram compreender manifestações esportivas próximas às Olimpíadas Escolares.

O primeiro estudo, realizado por Dantas Júnior (2008), intitulado Da escolarização do Esporte à esportivização da escola: tradição e espetáculo nos Jogos da Primavera de Sergipe (1964/1995), analisa em um período posterior ao nosso a forma como os jogos primaveris, realizados em Sergipe, buscam marcar um processo de franca esportivização da Educação Física. Já o segundo estudo, realizado por Goellner e Silva (2013), com o títuloJogos intermunicipais do Rio Grande do Sul: primeiras edições e desdobramentos (1967/1972), busca compreender a criação e o desenvolvimento desse modelo esportivo e as rupturas culturais que ele produziu nos espaços culturais em que circulou.

Nos dois estudos não se percebeu a reivindicação de esses jogos buscarem, no momento de suas realizações, a simulação das Olimpíadas Modernas, mas serem realizações estaduais que tentavam, em um caso, estimular a competição entre as escolas de uma mesma localidade, e no outro, a disputa de jogos entre diferentes cidades. Dessa forma, os estudos se constituem como análises de objetos distintos das Olimpíadas Escolares, que em sua conformação buscava aplicar na sua realização o ideário olímpico, com todos os seus rituais e valores humanísticos.

Para realizar o estudo, utilizamos como fonte dois periódicos da grande imprensa capixaba, impressos que naquele momento foram os mais significativos da região, com publicação regular, circulação estadual, estabilidade financeira, divididos em seções, com pessoal técnico capacitado para selecionar, tratar, editar e organizar as notícias que eram publicadas, os jornais A Gazeta e A Tribuna, dos quais utilizamos as suas seções esportivas. Também utilizamos como fonte o arquivo Aloyr Queiroz de Araújo, localizado na seção "Coleções Especiais" da Universidade Federal do Espírito Santo e entrevistas com oito ex-alunos que participaram daqueles eventos. O estudo foi submetido à Plataforma Brasil, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Ufes, sob o número 27207714.9.0000.5542 e as entrevistas foram consentidas pelos participantes por meio de um termo de consentimento livre e esclarecido.

Objetivamos com a investigação compreender como se deu a organização das Olimpíadas Escolares e o processo de esportivização da Educação Física no Estado do Espírito Santo, tendo como foco as descontinuidades e continuidades dos modelos esportivos organizados no meio escolar, no período entre 1946 e 1954. Como referencial teórico, utilizamos Elias e Dunning (1992) e Da Matta (1994), para compreender a relação das Olimpíadas Escolares com os princípios civilizatórios do esporte, amparados pelo modelo do paradigma indiciário e pelo conceito de circularidade cultural de Carlo Ginzburg.

Para Bloch (2001), a história é a "Ciência dos homens", mas consideramos esse conceito vago demais. É preciso acrescentar: "dos homens, no tempo". De acordo com o autor, não basta revisitar a história como se ela fosse apenas um amontoado de datas e fatos desconectados, nem olhá-la com as lentes da neutralidade. Descaracterizada de qualquer neutralidade, a forma de contar a história está ligada às relações de poder, que também são relações sociais. Essas relações podem ser percebidas em muitos locais, mesmo naqueles menos esperados. São esses indícios que buscamos nas fontes, as imagens, os textos, os elogios, as críticas, os lugares ocupados pelas matérias, enfim os dispositivos editoriais que dão sentido ao texto dentro de um espaço de produção e de usos das informações veiculadas, que autorizam, ou desautorizam práticas e praticantes, criando o interesse ou o desinteresse do público pela participação nos eventos que são organizados.

A forma como a Olimpíada Escolar capixaba será tratada se aproxima das proposições deDa Matta (2003, p. 46, grifo do autor), especificamente quando diz que

[...] os Jogos Olímpicos podem ser compreendidos como rituais seculares de celebração da modernidade que influenciam as mais variadas competições esportivas, tais como Jogos e Olimpíadas Escolares.

Também nos fundamentamos nas concepções de Elias (1992, p. 129), no momento em que o autor afirma que "[...] o desporto pode ser utilizado como uma espécie de laboratório natural" para a exploração das diferentes representações, como a competição e a cooperação, o conflito e a harmonia, que parecem ser, segundo a lógica e os valores correntes, alternativas que se excluem mutuamente, mas que, nesse contexto, no que se refere à estrutura intrínseca do desporto, possuem uma interdependência evidente e complexa.

Para situar a realização das Olimpíadas Escolares no contexto político e social capixaba daquele momento, utilizaremos como referência as análises de Hees e Franco (2003). Os autores em seus estudos percebem que o Espírito Santo, para prosperar, precisaria se industrializar e superar o conceito agrário que o acompanhava, quando comparado com os demais Estados da Região Sudeste, como o Rio de Janeiro e São Paulo. Assim, as Olimpíadas Escolares surgiram no Estado em um momento que podemos situar, seguindo as reflexões desses autores, em meio a outras ações de modernização instituídas. Entre elas, podemos citar a construção de hospitais, leprosário, presídios, asilos, campanhas de nacionalização do ensino nas zonas de colônias, melhorias nos setores de saneamento e transporte.

Por outro lado, símbolo da modernidade, o esporte se colocava como um fator importante para o Estado, pois, segundo Rúbio (2010, p. 62), no pós-Segunda Guerra Mundial, "[...] as medalhas passaram a ser contadas como ponto a favor de seus regimes, afirmando certo tipo de superioridade", em que vencer o outro era também mostrar ao mundo inteiro a sua vitória contra o atraso e a sua superioridade. Nesse sentido, o esporte surgia como um dispositivo moderno predominante também no meio escolar, despertando o interesse de outras instituições.

Olimpíadas escolares capixabas: seus antecedentes

Antes do período que delimitamos como a nossa periodização, percebemos que, possivelmente, a organização dos jogos escolares era realizada pelos grêmios esportivos estudantis, fazendo circular o esporte com finalidades educacionais e de integração entre as escolas. Para Daiuto (1948, p. 121), os clubes colegiais surgiram como uma "[...] forma prática e eficiente de dar o sentido de totalidade que a escola secundária necessitava para atender integralmente aos adolescentes". Integrados por alunos que planificavam, organizavam e cumpriam todas as tarefas que eles mesmos determinavam, os clubes/grêmios escolares constituíam uma forma eficaz de concretizar o postulado do autogoverno. Nesse modelo, então, podemos observar que havia a intenção de envolver os estudantes nos projetos de esportivização da sociedade. No Estado do Espírito Santo, criada em maio de 1934, a União Atlética Ginasial do Espírito Santo (UAGES) foi um dos pioneiros na representatividade esportiva escolar, como demonstra a reportagem a seguir:

Mais um ano de glórias. Com júbilo será comemorado hoje oitavo aniversário da UAGES, agremiação esportiva fundada por um grupo de alunos do Ginásio Espírito Santo. Na parte esportiva a UAGES tem sido sempre uma figura de destaque, pois todos os torneios [...] foram vencidos pela UAGES, sendo ainda bi campeã de remo estudantil. No UAGES militaram e militam verdadeiros astros como Carnera, Pavão, Garrafa, Gervel, Alcides, Zito, Nelson, Nena etc. A Tribuna felicita esta modelar agremiação escolar (VILAR, 1942, p. 3-4).

Percebemos que as atividades esportivas já aconteciam na Capital, tendo a participação de alguns grêmios escolares. Também incluíam os desfiles escolares como relevantes manifestações culturais.

A partir do ano de 1946, o Estado decide tomar para si a organização dos jogos escolares, implantando um modelo esportivo denominado Olimpíada Escolar. É sobre essa passagem que trataremos, buscando compreender a circulação do esporte e a forma como esteve organizado, que cria eventos e atribui os sentidos que achava mais convenientes para materializar seu projeto político referente ao fenômeno esportivo.

Olimpíadas escolares: início do novo modelo esportivo

A criação da Olimpíada Escolar aconteceu no ano de 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, em meio à retomada da democracia brasileira e ao período de transição de interventores federais que estiveram à frente do Estado (Otávio de Carvalho Lengruber (1945-1946), Aristides Alexandre Campos (1946-1946), Ubaldo Ramalhete Maia (1946-1946) e Moacir Ubirajara da Silva (1946-1947). A Olimpíada Escolar foi instituída no governo de Ubaldo Ramalhete Maia, pela Secretaria de Educação e Cultura, por meio do Serviço de Educação Física (SEF), cuja direção era exercida pelo professor Aloyr Queiroz de Araújo.

Na visão do Estado, segundo Araújo (1949, p. 14), de acordo com os pensamentos dos professores envolvidos no SEF, as Olimpíadas Escolares foram criadas para "[...] satisfazer os naturais impulsos competitivos dos alunos, dentro de uma rivalidade sadia, franca e cordial, despertando-lhe o civismo, o devotamento e o espírito de solidariedade e de amor à pátria e aos seus semelhantes". Percebemos que a competição nasce com a finalidade de levar à mocidade princípios cívicos patrióticos por meio do esporte. Foram realizadas, bianualmente, em cinco edições até o ano de 1954.

A cerimônia de abertura da Olimpíada Escolar sistematizada em 30 de agosto de 1946 teve a participação de alunos de escolas do Estado. Os documentos investigados revelam um padrão de disciplinamento e de devotamento àquela cerimônia (ARAÚJO, 1947). A abertura das Olimpíadas Escolares aconteceu no Estádio Governador Bley, localizado no bairro Jucutuquara, local de diferentes manifestações, sentidos e formas do esporte.

Em matéria denominada Será instalada hoje, em solenidade, a Olimpíada Escolar de 1946, podemos perceber a circularidade do discurso que se queria incutir na sociedade, em relação ao novo modelo esportivo sistematizado pelo Estado:

Hoje solenemente será instalada a Olimpíada Escolar de 1946, transferida por motivos superiores. Povo, estudantes e autoridades, todos estarão presentes ao estádio Jucutuquara, comemorando a instalação da olimpíada, movimento cívico - desportivo de grande significação na formação moral e física dos nossos jovens. Os governos bem orientados sabem do valor em proporcionar à juventude espetáculos como o de hoje. O povo em geral está convidado a assistir à instalação solene da OLIMPIADA ESCOLAR DE 1946 (BORGES, 1946a, p. 3).

Observamos que a Olimpíada Escolar foi instituída e orientada pelo governo, com apelo cívico-desportivo e significação para a formação moral e física dos jovens. O discurso apontava a importância da prática do esporte de forma competitiva para uma boa formação física e moral do povo do Espírito Santo e a relevância da Educação Física naquele momento, a qual era olhada com carinho pelos povos mais cultos do mundo. Se os povos cultos, considerados modernos, assim percebiam a Educação Física, possivelmente o Estado do Espírito Santo também deveria acompanhar esse novo e moderno conceito.

Organização cultural e política das olimpíadas escolares

Nos registros de abertura das Olimpíadas Escolares, percebemos que o evento se dividia em duas partes. A primeira parte normalmente se iniciava em uma igreja católica, onde era dada a bênção à tocha olímpica que posteriormente seguiria para uma das praças da cidade, obedecendo uma programação que envolvia os escoteiros, atletas e populares na condução do fogo simbólico (ARAÚJO, 1947, 1949).

No estádio municipal, a solenidade de abertura das Olimpíadas Escolares demonstrava todo o aspecto cívico e patriótico adotado naquele momento, que na organização dos jogos estudantis, tornava o esporte um importante instrumento de ligação entre a os jovens e o Estado. O evento era realizado com a união do Estado e da Igreja para efetivação da proposta do novo modelo esportivo.

Hoje às 19:30 horas, a chegada do Fogo Simbólico: Será cumprida hoja à noite a grandiosa Olimpíada Escolar de 1948, que o Serviço de Educação Física está promovendo em comemoração a passagem de mais um aniversário da Independência do Brasil. O Fogo Simbólico, conduzido em revezamento, por 26 atletas sairá do tradicional Convento da Penha com destino à Pração Oito, quando deverá chegar às 19:30 horas, em ponto.

Após a chegada do 'Archote Olímpico', realizar-se á a seguinte cerimônia:

  1. formatura das representações estudantis;

  2. hasteamento da bandeira olímpica;

  3. hino olímpico do estudante, cantado pelos estudantes;

  4. Oração do prof. Geraldo da Costa Alves, alusiva ao Dia da Pátria;

  5. hino da independência cantado pelos estudantes e assistentes;

  6. colocado o archote no altar olímpico, onde permanecerá aceso, sob uma guarda de honra de escoteiros, até a tarde da manhã de domingo, quando no revezamento, será conduzido ao estádio Governador Bley (D'ALBUQUERQUE, 1948a, p. 5).

A abertura oficial do evento se desenvolvia tendo em vista uma preocupação com as questões cívicas, procurando influenciar/motivar os participantes por meio de ações e discursos que remetiam ao sentimento de nacionalidade e à constituição de uma identidade coletiva de uma nação que almejava ser grande. Essas eram algumas das características do novo modelo esportivo estudantil que se apresentava à sociedade capixaba.

A programação geral das Olimpíadas Escolares envolvia uma sequência de atividades: a recepção das autoridades militares e civis; a chegada do fogo simbólico; o hasteamento das bandeiras olímpica, municipal, estadual e nacional; o canto do Hino Nacional; o pronunciamento do juramento do atleta; os desfiles dos grêmios concorrentes; e a apresentação da ginástica rítmica (ARAÚJO, 1947). Como destaque da segunda parte da solenidade de abertura, notamos que o bailado coreografado das meninas da Escola Pedro II chamava a atenção da imprensa, como vemos:

Dos números apresentados todos belos a rigor deixou fabulosa impressão o Bailado Evocativo do Fogo Simbólico. Impressionante pela beleza, originalidade e execução. As Ludimilas da Escola Normal Pedro II com vestes e sapatos fosforescentes executavam sob incidência de artifícios luminosos, jamais empregados em Vitória um bailado digno de autênticas virtuoses, assombrando pela agilidade, beleza e desempenho artístico, se assemelhando nos movimentos coreográficos, não a modestas amadoras do baillet, mas e autênticas bailarinas profissionais, exímias e bem treinadas (SOUZA, 1952, p. 4).

Pelas imagens que foram veiculadas, percebemos que o evento impressionava pelo caráter profissional da apresentação, configurando-se como uma forma de dar visibilidade ao esporte, fazer a sua circulação e apresentá-lo como um espetáculo de beleza, de organização, civismo, patriotismo e igualdade.

A partir do ano de 1952, foram instituídas as eleições para as rainhas das Olimpíadas Escolares e solenidades para premiações tanto de atletas, quanto de professores de Educação Física que se dedicaram às competições. O evento de premiação se tornou um destaque a mais para a imprensa que dava visibilidade aos grêmios escolares vencedores, aos atletas, aos professores de Educação Física e às suas rainhas, fazendo da parte cultural uma nova atração das Olimpíadas Escolares (ARAÚJO, 1953).

Nas análises dos documentos, constatamos que as premiações eram realizadas formalmente em solenidades de encerramento em que professores e diretores das instituições vencedoras eram homenageados com diplomas, troféus e medalhas. As premiações eram realizadas no próprio local da prova. Nesse ano, foi agraciada a atleta Thaís Fernandes Figueira, vencedora do Concurso para Rainha das Olimpíadas Escolares de 1952, evento normalmente realizado como solenidade de encerramento das Olimpíadas Escolares (ARAÚJO, 1953). Essas comemorações sociais possivelmente aumentavam a credibilidade do novo modelo esportivo no ambiente escolar, contribuindo com a cultura capixaba e com a circulação do esporte em outros meios.

Organização técnica e financeira das olimpíadas escolares

Por meio do corpus documental, principalmente pelos documentos do arquivo Aloyr Queiroz de Araujo utilizado na pesquisa, notamos que a organização das Olimpíadas era realizada pelo Conselho Desportivo Escolar, composto por diretores escolares e professores do SEF, responsáveis pela aprovação do regulamento, aprovação dos grêmios concorrentes, definição das modalidades que iriam ser realizadas, escolha das cidades-sede, transporte, alimentação e alojamento dos participantes. Esse Conselho ficava encarregado de propor a organização da Olimpíada Escolar, incluindo as regras de participação e as instituições participantes em cada modalidade, que evidenciavam o esporte competitivo e de rendimento.

Conforme o regulamento das Olimpíadas, o sistema de disputas era realizado sob a forma de eliminatórias. Cada modalidade se tornava um campeonato distinto. Para participar do evento, os alunos deveriam estar matriculados em curso de ensino de 2º grau mantido por estabelecimento oficial ou reconhecido, ter eficiência física devidamente atestada pelo médico do Serviço de Educação Física (SEF), respeitar o Código de Penalidades e ter, no máximo, a idade de 21 anos (ARAÚJO, 1949). Notamos que esse novo modelo esportivo proposto pelo Estado, além de promover a padronização por meio das normas, fazia com que as disputas se tornassem mais acirradas, criando, assim, rivalidades entre os grêmios escolares.

Na relação de grêmios concorrentes, registramos a presença de nove instituições escolares da capital, onde o número de escolas técnicas superava o número de colégios e ginásios. Vindos do interior, tivemos uma média de dez grêmios, onde o número de colégios e ginásios predominava sobre o número de escolas técnicas. Esse contexto demonstra-nos as normatizações do sistema educacional prevendo no período o ensino obrigatório dos trabalhos industriais, agrícolas e técnicos e, por outro lado, mostra-nos a descontinuidade das ações dos grêmios esportivos, devido ao predomínio das ações do governo do Estado no meio escolar, provavelmente iniciando seu declínio como instituição estudantil.

Em termos de modalidades esportivas, os homens estavam representados no atletismo, tênis de mesa, remo, ciclismo e natação. Nos desportos coletivos, tínhamos o voleibol, o basquetebol e o futebol. Para as mulheres, eram selecionadas as modalidades individuais esportivas, como o atletismo, a natação, o ciclismo, a ginástica; e, nos desportos coletivos, o voleibol. Dessa forma, provavelmente, não por condição técnica, mas com um quantitativo menor de provas a serem disputadas, em todas as edições havia um número menor de mulheres participantes nas Olimpíadas Escolares em comparação com o número de homens.

Em relação aos demais detalhes técnicos, o evento exigia hospedagem, alimentação e transporte dos atletas, recurso financeiro específico e adicional para atender às demandas de um evento que possivelmente ganhava relevância cultural e esportiva no cenário capixaba (ARAÚJO, 1949, 1953, 1956).

O transporte, hospedagem e também a alimentação eram de responsabilidade do Estado que, para cobrir essas e outras despesas, como compra de troféus, medalhas, material esportivo para os eventos, tintas e fantasias para as apresentações coreografadas, organizou uma campanha do "Fundo Econômico", visando equilibrar a relação receita/despesa do evento. A campanha do Fundo Econômico foi organizada com a função de minimizar as despesas que envolviam a organização do evento. Para isso, foram pensadas algumas ações como: vendas de camisas, bonés, canetas, flâmulas, selo olímpico e chaveiros. Incluía ainda pedidos de doações em dinheiro no comércio em geral (ARAÚJO, 1956). Verbas específicas eram destinadas ao evento pelo Estado e Prefeituras municipais, quando estas sediavam o evento.

Percebemos as diferentes manifestações culturais promovidas por esse novo modelo de esporte que modificava hábitos e costumes no meio social, muito em função das ações que se relacionavam com o evento, como as movimentações de professores e diretores para as reuniões, a integração de pessoas de diferentes regiões do Estado que se movimentavam na época das competições e a importância dessas decisões veiculadas pela imprensa do período.

As edições das olimpíadas escolares: mudanças e permanências

As edições normalmente eram realizadas no período de comemoração do Dia da Independência, com a duração de oito dias de evento, obedecendo a uma sequência que perpassava pelas solenidades de abertura, as competições, a missa campal, o desfile escolar e a solenidade de encerramento. As Olimpíadas Escolares foram realizadas dentro do recorte em cinco edições. A primeira no ano de 1946, a segunda em 1948 e a quarta edição no ano de 1952, em Vitória. A terceira edição foi em Muqui, no ano de 1950, e a quinta e última, em Colatina, no ano de 1954. A seguir, trataremos das edições dos eventos, considerando as suas particularidades no desenvolvimento das Olimpíadas Escolares entre os anos de 1946 e 1952.

A realização das Olimpíadas Escolares fundamentadas nos princípios coubertianos se deu no governo de Ubaldo Ramalhete Maia. Nessa edição, o novo modelo esportivo proposto pelo governo contou apenas com os grêmios escolares da capital, tendo a participação de 207 alunos inscritos de ambos os sexos. O evento marcou a descontinuidade de um modelo de jogos escolares organizados pelos grêmios esportivos com finalidades mais educacionais para um novo modelo esportivo pautado no rendimento e performance, incluindo dispositivos de controle, como regras, regulamentos e códigos de conduta.

O jornal A Gazeta, em uma de suas reportagens sobre as Olimpíadas Escolares, publicou:

São competições em que o cérebro, o coração e os músculos entram em plena atividade, formando um conjunto vivo, bem proporcionado e saudável. Jovens com saúde. Jovens com boa formação moral! Jovens, assim, são uma garantia para o futuro de qualquer pátria! Por isso a educação física é hoje olhada com especial carinho pelos povos mais cultos do mundo! Será instalada hoje, solenemente a olimpíada escolar de 1946! (BORGES, 1946a, p. 4).

Podemos observar na reportagem o espírito cívico e patriótico presente nos preparativos para o momento de instalação das Olimpíadas Escolares e também a importância da Educação Física, encarada no período como parte do processo de formação integral do indivíduo.

Nessa primeira edição, tornou-se campeã das Olimpíadas Escolares a UAGES, do Colégio Estadual do Espírito Santo, da cidade de Vitória, com o somatório de 92,5 pontos. Na categoria feminina, foi vencedor o Grêmio Maria Ortiz da Escola Normal Pedro II, da cidade de Vitória, com o somatório de 53,0 pontos (ARAÚJO, 1947).

A segunda edição da Olimpíada Escolar, também realizada na cidade de Vitória, no ano de 1948, sob o governo de Carlos Fernando Monteiro Lindemberg, é moldada pelo seu idealizador como um evento cívico-desportivo de caráter popular, que inicia seu processo de interiorização demonstrando a estratégia de incentivar a circulação do esporte da Capital para outros espaços do interior do Estado. Outros grêmios estudantis do interior foram convidados para participar do evento, porém, possivelmente, nem todos participaram das Olimpíadas Escolares por não se enquadrarem nos critérios estabelecidos pelo novo modelo esportivo. Com um aumento de 157%, participaram do evento 528 alunos/atletas (ARAÚJO, 1949). Foi necessário que o SEF tomasse para si a responsabilidade de organizar e mediar a participação de cada grupo inscrito no evento.

A partir dessa edição, os organizadores passaram a se preocupar com a participação dos atletas "federados", demonstrando um tensionamento entre o esporte estudantil e o esporte que circulava sob a organização das federações, clubes e associações. Nesse caso, decidiu-se pelo afastamento das competições escolares dos atletas inscritos em clubes esportivos, considerados já profissionais, conforme é possível observar no texto a seguir:

No dia 02 de julho de 1948, no salão da Escola Técnica de Comércio de Cachoeiro de Itapemirim, realizou-se uma reunião dos membros do Conselho Escolar nesta cidade [...] falou sobre a resolução do Conselho em sua primeira reunião do ano, de afastar das competições os atletas inscritos em clubes esportivos [...] que em muito iria dificultar a composição das embaixadas. Foi frizado que esses atletas, em geral, são formados pelos estabelecimentos de ensino, sendo depois aproveitados pelos clubes. Por deliberação dos presentes, foi a reunião suspensa, em vista do avançado das horas (D'ALBUQUERQUE, 1948b, p. 5).

Nessa edição, o vencedor das Olimpíadas Escolares foi o Grêmio Lítero Esportivo (GLE) Loren Reno, do Colégio Americano da cidade de Vitória, com o somatório de 72,5 pontos. Na categoria feminina, foi vencedora a Associação Lítero Desportiva (ALD) Escola Normal "Pedro II", também da cidade de Vitória (ARAÚJO, 1949).

A terceira edição das Olimpíadas Escolares ocorreu sob o governo de Carlos Fernando Monteiro Lindemberg, no ano de 1950, na cidade de Muqui. Essa edição foi marcada pela estratégia da interiorização das Olimpíadas Escolares, que deixa a Capital e segue rumo a outros recantos do Espírito Santo, especificamente para a cidade de Muqui, localizada na Região Sul do Estado. A cidade possivelmente foi escolhida pelo Conselho Desportivo Escolar como cidade-sede muito em função da estrutura física e da influência política do diretor do Colégio de Muqui, Sr. Dirceu Cardoso. O município ficou envolvido por diferentes manifestações culturais, desde a presença de inúmeros atletas em seu colégio, como o envolvimento de populares e atletas na condução do Fogo Simbólico, até sob a forma de campanhas populares para abrigar em suas casas atletas de outros municípios, devido ao quantitativo de participantes e às disponibilidades de alojamento no município.

A estrutura do Colégio de Muqui possuía condições físicas favoráveis para abrigar as diversas modalidades esportivas, como basquete, futebol, voleibol, atletismo e até mesmo natação, por haver uma piscina natural, entre outras modalidades que faziam parte do calendário de atividades dos jogos. Nessa edição, também percebemos a presença da ginástica que foi realizada transmitindo ordem, disciplina e controle dos ritmos e dos gestos (ARAÚJO, 1952).

As ações definidas pelo SEF buscaram adequar as provas ao espaço físico do colégio de Muqui, onde visualizamos uma redução no número de participantes no evento. Para que houvesse acomodações para receber as delegações na cidade-sede, foi lançada a campanha "Adote um atleta", em que os próprios moradores da cidade abrigavam os atletas. Observamos que, um dos destaques dessa edição foi a corrida do Fogo Simbólico que percorreu a distância de 194 km, onde a tocha olímpica foi conduzida por atletas que se deslocaram de Vitória até a cidade de Muqui (SOUZA, 1950, p. 4). Dessa edição participaram 428 atletas inscritos, tendo como vencedor das Olimpíadas Escolares de 1950 o Grêmio Euclides da Cunha, do Colégio de Muqui, com 93,0 pontos. Na categoria feminina, tivemos como vencedora a ALEC, da Escola Técnica de Comércio, da cidade de Vitória com 40,0 pontos (ARAÚJO, 1952).

A quarta edição da Olimpíada Escolar ocorreu no ano de 1952, retornando à capital, Vitória, apoiada e incentivada pelo então governador Jones dos Santos Neves e pelo prefeito José Ribeiro Martins. As notícias que eram veiculadas parecem demonstrar uma maior abrangência do novo modelo esportivo proposto e sua relevância no contexto sociopolítico, como é possível observar:

[...] para as Olimpíadas Escolares de 1952, pensando na inovação, propõe a inédita apresentação das solenidades de abertura no período noturno, além de ornamentações especiais na Avenida Alberto Torres e praças adjacentes, ainda, incluindo a colocação de painéis alusivos à grande jornada desportiva que estaria por acontecer a partir do dia 04 de setembro de 1952 na capital (BORGES, 1952, p. 5).

Nessa edição, houve um investimento realizado pelo governo do Estado, principalmente na reforma das instalações do Estádio Governador Bley, para as competições e solenidades previstas para as Olimpíadas Escolares de 1952 (ARAÚJO, 1953), que culminaram na apresentação da equipe americana de basquetebol, conhecida como osHarlem Globtrotters, equipe de basquete de Chicago, Estados Unidos, tida como uma das mais famosas do mundo, por fazer de suas partidas uma mistura de entretenimento e habilidades performáticas (BORGES, 1952, p. 4).

É possível perceber que o esporte vivenciado nas Olimpíadas Escolares passa a ganhar um status de um projeto modernizador, evidenciando sua forma espetacularizada, materializada nas atrações da solenidade de abertura. Essas ações do esporte espetáculo, como passou a ser desenhada a organização do evento, ajuda-nos a compreender a afirmação de Da Matta (1982), quando, de forma crítica, nos alerta que não foi por meio do nosso parlamento que o povo aprendeu a respeitar as leis, mas assistindo a jogos em que os vitoriosos não têm o direito de ser um ditador e o perdedor não deve ser humilhado. Assim o fair play, ou jogo justo do homem cortês, ajuda a explicar o entendimento de "[...] que os jogos socialmente encaminhavam-se para uma paixão das massas e um acontecimento festejado e amado pelo povo, possibilitando a igualdade de condições" (DA MATTA, 1982, p. 16) para a competição civilizada.

Com um número recorde de 697 atletas inscritos na edição de 1952, foi proclamado o campeão das Olimpíadas Escolares o Grêmio Ruy Barbosa, da Escola Técnica do Comércio de Vitória, com o somatório de 124 pontos. Na categoria feminina, venceu, pela terceira vez, a A.L.D. Escola Normal "Pedro II", com o somatório de 87,0 pontos.

Além dos destaques citados, percebemos nessa edição o surgimento de uma nova modalidade esportiva. A ginástica é introduzida nas Olimpíadas Escolares agora não mais apenas como uma parte do "aquecimento" que antecede as provas esportivas, mas como elemento competitivo dentro do evento (ARAÚJO, 1953).

A ginástica como modalidade esportiva aponta para um momento de sua ressignificação em face do modelo esportivizado predominante nas instituições escolares do período. Conforme Juliá (2001, p. 23):

No momento em que uma nova diretriz redefine as finalidades atribuídas ao esforço coletivo, os antigos valores, não são, no entanto, eliminados como por milagre, as antigas divisões não são apagadas, novas restrições somam-se simplesmente às antigas.

A ginástica passa, então, por uma mutação no seu sentido dentro da competição. Ela não é eliminada como conteúdo a ser ensinado nas aulas de Educação Física nas escolas capixabas, entre as décadas 1940 e 1950, mas esportivizada. Ela segue os códigos do esporte e passa a compor os elementos das danças coreografadas, uma forma de ressignificação, permanecendo visível no cenário da Educação Física escolarizada.

A quinta edição das Olimpíadas Escolares, ocorrida no ano de 1954, sob o governo de Jones dos Santos Neves, marca a descontinuidade do evento. Pela segunda vez, as Olimpíadas Escolares são deslocadas para o interior do Estado. Possivelmente, o então prefeito municipal, Justiniano de Melo e Silva, procurou viabilizar uma elevada soma de recursos financeiros e materiais para que houvesse interesse em levar o evento para o norte do Espírito Santo, tornando a cidade de Colatina a sede das competições.

As Olimpíadas Escolares em Colatina eram aguardadas com ânimo pelo seu povo (D'ALBUQUERQUE, 1954, p. 4). O entusiasmo proporcionou diferentes manifestações culturais por meio da circulação do esporte. Nessa edição, foi realizada a "I Exposição da Educação Física, Artes, Cultura e Cartazes Pedagógicos" demonstrando, possivelmente, a atuação do governo na ampliação das ações para além do modelo esportivo, ao convidar para a mostra pedagógica os estudantes do ensino primário, diretores e, ainda, clubes e ligas esportivas, tendo como tema central as Olimpíadas Escolares e a pátria (ARAÚJO, 1953). Percebemos que, para se tornar sede, a cidade de Colatina teve que superar outros municípios, como Cachoeiro de Itapemirm, Calçado, Mimoso do Sul e Santa Tereza que também disputavam a interiorização do evento, por entenderem as possibilidades de visibilidade que ele poderia proporcionar à cidade-sede na mídia do período, o que, posteriormente, poderia ser convertido em capital simbólico pelos políticos da localidade (SOUZA, 1952).

Nessa edição, inscreveram-se 417 atletas. Foi proclamado campeão das Olimpíadas Escolares do ano de 1954 o Centro Social Guia Lopez, da Escola Técnica de Santa Tereza, com o somatório recorde de 143 pontos. Na categoria feminina, venceu, pela quarta vez, a A.L.D. Escola Normal "Pedro II", com o somatório de 78,0 pontos, confirmando sua hegemonia no evento.

Ao longo do estudo, constatamos que, nas cinco edições do evento, as Olimpíadas Escolares foram consideradas por seus idealizadores como um movimento cívico-desportivo de grande significação na formação moral e física dos estudantes (ARAÚJO, 1947). Durante todas as edições, a Educação Física e o desporto estudantil capixaba estiveram sob o comando do SEF que organizava e prescrevia o que o Estado achava que deveria ser realizado e as modalidades escolhidas. O esporte se configurou como uma síntese que consolidou as expectativas para os jogos escolares, tendo seus diferentes sentidos e formas proporcionando manifestações culturais que se tornaram importantes para o período.

A esportivização da educação física no espírito santo: 1946 a 1954

Em relação aos conteúdos de ensino das aulas de Educação Física e a organização das equipes participantes das Olimpíadas Escolares propostas pelo Estado, percebemos, em contato com ex-atletas, que havia pouca relação entre ambas. Ao entrevistarmos um dos participantes, podemos perceber tal distanciamento:

Nos meses de inverno, como a ginástica era realizada muito cedo, era bem difícil levantar naquele frio, mas mesmo assim tínhamos que estar lá no horário. [...] os exercícios eram realizados antes do horário das aulas que iniciavam religiosamente às 07:00. Como exemplo de atividades realizadas destaco os exercícios para membro superior e inferior, pequenas corridas e evoluções, praticadas juntamente com os meninos, porém com professores distintos (RAMBALDUCER, 2014, p. 2).

De acordo com o relato, percebemos que as aulas de Educação Física eram realizadas antes do horário das outras matérias, tendo os exercícios ginásticos como conteúdo principal. Possivelmente essa seleção de conteúdos seja ainda um reflexo da força que o Método Francês teve sobre a organização dessa disciplina, que tinha como fundamento a preparação para o trabalho, não sendo seu objetivo principal a preparação para o campo esportivo. Dessa forma, sendo cobrado do professor e do aluno apenas o conteúdo proposto pelo método, o que não incluía a formação de equipes para as Olimpíadas Escolares. Assim, a esportivização da Educação Física, não acontecia nos horários regulares das aulas, mas em outros espaços e tempos do ensino, como podemos perceber no relato a seguir:

Sobre a formação das equipes para a participação das Olimpíadas Escolares, como havia muitos internos no colégio, os treinamentos normalmente eram realizados na parte da tarde depois das aulas, juntamente com os meninos que moravam na cidade (BERILLI, 2014, p. 3).

Ao olhar para o processo de esportivização da Educação Física capixaba, percebemos a sua relação com o SEF, órgão do governo, incumbido de organizar a Educação Física e o esporte no Espírito Santo desde o ano de 1931. Durante o período em que ocorreram as edições das Olimpíadas Escolares, ele buscou controlar os sentidos do esporte, tanto dentro, quanto fora das instituições educacionais, uma vez que após o ano de 1946 ele se tornou responsável em disseminar o ideário olímpico, convidar, controlar, punir e premiar os participantes, além de incentivar a participação e determinar quem deveria participar do evento, fazendo com que todas as escolas buscassem se adequar a esse projeto de esportivização, mesmo que nem todas tivessem condições, ou interesse, em fazer parte desse ideário competitivo levado para os grêmios lítero esportivos, que além da formação esportiva também se preocupavam com a formação intelectual do aluno.

Foi possível visualizar que havia uma grande celebração por parte da imprensa ao atribuir à Escola de Educação Física o desenvolvimento do esporte capixaba com as constantes matérias publicadas. Até o ano de 1946, a Escola de Educação Física já havia formado para o magistério estadual e para o desporto capixaba 179 professores especializados, 9 monitores de Educação Física e 12 monitores técnico-esportivos (BORGES, 1946a). O modelo de Educação Física adotado pela Escola de Educação Física do Espírito Santo circulou não só dentro do Estado, mas também em outras regiões da Federação, como Santa Catarina, Pernambuco e Piauí.

O Departamento de Educação Física, desde sua criação, mudou de inspetoria para diretoria e, no ano de 1946, transformou-se no SEF, passando a funcionar anexo à Secretaria da Educação e Cultura. Foi nesse setor, segundo Araújo (1952), que a disciplina Educação Física obteve o impulso necessário para sua orientação metódica, científica e pedagógica, tendo por finalidade nesse momento difundir, regulamentar e controlar a prática de Educação Física nos estabelecimentos de ensino secundário estadual.

A Olimpíada Escolar foi uma ação organizada pelo SEF. Na imprensa, podemos visualizar a seguinte informação:

Para melhor atender a sua finalidade, foi o regulamento do Serviço de Educação Física atualizado pelo decreto nº 9 de 12 de agosto de 1947, no qual foi traçado para aquele órgão, especializando um plano de atividades, que, por certo, só vantagens poderá trazer para o ensino da educação física entre nós.

Além de prever a construção de praças de esportes, campos de educação física, jogos e recreação [...]. Entre as ações mais destacadas do Serviço de Educação Física, destaca-se a OLIMPÍADA ESCOLAR DE 1946, a qual ficou registrada como uma das mais sensacionais competições desportivas realizadas em Estado, realizada nestes últimos anos. O que o ensino da educação física mais se ressente é de instalações apropriadas à sua prática. Este ponto não tem sido descuidado por aquele Serviço, pois várias providências já estão sendo tomadas junto às autoridades competentes (SOUZA, 1948, p. 5, grifo nosso).

O SEF não só contribuiu para a esportivização da Educação Física, mas também foi responsável pela criação de um novo modelo esportivo estudantil, diferente daquele anteriormente realizado pelos grêmios líteros desportivos que tinham como objetivo a formação geral e integração das escolas pelos jogos. O que esse órgão propôs foi transformar aqueles jogos voltados para a integração, para uma forma que estimulava mais o rendimento e a performance. Assim, encontrou no esporte uma forma de projetar o Estado, mostrando aos outros Estados o nível de desenvolvimento econômico e de organização, educacional e esportivo a que ele tinha chegado, uma vez que associava modernidade a essas instituições, capazes de formar um homem civilizado, patriótico, com o sentimento de pertencimento a uma nação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percebemos que antes do período estabelecido no estudo, as práticas esportivas escolares eram organizadas tanto pelos grêmios lítero-esportivos, como pelas ligas esportivas e secretarias sob a forma de intercâmbios escolares, torneios escolares e jogos amistosos. Vimos que, no Espírito Santo, essas ações foram oficializadas no ano de 1939, mas, já em 1934, essas manifestações já se faziam presentes na Capital do Estado.

A partir de 1946 houve interesse, por parte do Estado, em tomar para si a organização das competições escolares. Esse interesse possivelmente esteve relacionado com um projeto maior de coesão da identidade capixaba, e mesmo nacional. Esse fenômeno pode estar associado também ao período do pós-Segunda Guerra Mundial, das disputas ideológicas da Guerra Fria, que desloca o esporte e a Educação Física para ações voltadas mais para o rendimento e a performance.

As Olimpíadas Escolares foram organizadas no governo de Ubaldo Ramalhete Maia pela Secretaria de Educação e Cultura e idealizadas pelo SEF, que entendeu que o esporte escolar deveria fazer parte de projeto educacional. Porém, suas ações estiveram voltadas para além do campo esportivo, com projetos pedagógicos que incluíam outras instituições, como os clubes esportivos e as ligas que, possivelmente, causaram o declínio dos grêmios estudantis no meio escolar.

As Olimpíadas Escolares foram realizadas em cinco edições bianuais, normalmente na Semana da Pátria, e incluíam em sua programação ações cívico-desportivas. Sua organização geral ficava por conta do Conselho Desportivo Escolar, que era constituído por diretores escolares e professores do SEF. Esse novo modelo esportivo demonstrou diferentes manifestações culturais, com ações que perpassaram os campos político, econômico, social e esportivo.

Observamos que a escolha das cidades-sede das Olimpíadas Escolares era feita sob a forma de um memorial em que as candidatas apresentavam suas qualidades observando critérios pré-estabelecidos, entretanto, as ações políticas e o poder financeiro dos representantes também interferiam na escolha das cidades que iriam sediar as Olimpíadas, tendo ocorrido essas ações nas cidades de Muqui e Colatina.

O novo modelo esportivo proposto pelo Estado teve apoio da imprensa capixaba, que ajudou na circulação do esporte, contribuindo para que as Olimpíadas Escolares se tornassem parte integrante da cultura esportiva capixaba naquele período.

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Recebido: 18 de Dezembro de 2014; Revisado: 30 de Março de 2015; Aceito: 06 de Maio de 2015

Endereço para correspondência: Marcelo Laquini Eller. Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Espírito Santo. E-mail:profeller@gmail.com

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