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Floresta e Ambiente

On-line version ISSN 2179-8087

Floresta Ambient. vol.20 no.3 Seropédica July/Sept. 2013  Epub Aug 06, 2013

https://doi.org/10.4322/floram.2013.019 

Métodos de captura para formigas em pré-plantio de Eucalyptus grandis

 

Methods for catching ants in pre-planting of Eucalyptus grandis

 

 

Jardel Boscardin; Ervandil Corrêa Costa; Juliana Garlet; Alessandro Fiorentini

Departamento de Defesa Fitossanitária, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria/RS, Brasil

Autor(es) para correspondência

 

 


RESUMO

O presente trabalho objetivou avaliar três métodos de coleta de formigas em uma área de pré-plantio de Eucalyptus grandis em Santa Maria-RS. Foram realizadas amostragens de março a agosto de 2011, utilizando-se armadilha de solo (AS), isca atrativa à base de patê de fígado de frango (IA) e extração por Funil de Berlese (FB), sendo seis repetições por tratamento em cada data de coleta. Os tratamentos constituíram-se da aplicação de glifosato, tendo sido realizados controles das plantas infestantes: na linha e na entrelinha de plantio (T1); em faixa de um metro paralela à linha de plantio e de um metro na parte central da entrelinha, sem controle (T2); em faixa de meio metro paralela à linha de plantio (T3), e a testemunha, sem controle de plantas infestantes (T4). A partir dos resultados obtidos, os métodos demonstraram ser complementares entre si, sugerindo a utilização de mais de um método na captura de formigas.

Palavras-chave: bioindicadores ambientais, entomologia florestal, Formicidae, plantas infestantes.


ABSTRACT

In this study, we aimed to evaluate three methods of collecting ants in a pre-planting area of Eucalyptus grandis in the municipality of Santa Maria, state of Rio Grande do Sul. Sampling was carried out from March to August 2011, using soil traps (ST), chicken liver pate attractive baits (AB), and Berlese funnel extraction (BFE), with six replicates per treatment at each collection date. The treatments used consisted of glyphosate application as follows: in planting rows and inter-rows, after weed control (T1); in one-meter strip parallel to rows and one-meter strip in the central part of rows, with no weed control (T2); in half-meter strip parallel to planting rows (T3); and control treatment, with no weed control (T4). The results obtained showed that these methods have proved to be complementary to each other, suggesting the use of more than one method for catching ants.

Keywords: environmental bioindicators, forest entomology, Formicidae, weeds.


 

 

1. INTRODUÇÃO

Os plantios comerciais com espécies do gênero Eucalyptus representam a maior parcela de espécies florestais plantadas no Brasil, com aproximadamente 70% da área total no país, sendo que cerca de 6% deste total localiza-se no Estado do Rio Grande do Sul (ABRAF, 2012). Sua produção é destinada principalmente para indústria do papel e celulose.

Nesse sentido, para o sucesso na implantação de um eucaliptal, tratos silviculturais são imprescindíveis; dentre estes, se destaca a eliminação de plantas infestantes. O principal método de controle de plantas infestantes em plantios florestais é o químico, por meio da utilização de herbicidas, em razão, principalmente, do baixo custo operacional e da falta de mão-de-obra especializada para a realização do método mecânico (Tuffi Santos, 2006).

Dentre os herbicidas utilizados no controle de plantas infestantes, destacam-se o oxyfluorfen e o glifosato, sendo este último utilizado em grande escala, pelo fato de ser aplicado em pós-emergência nas plantas infestantes. Isto facilita o manejo em áreas com cultivo mínimo, assegurando o pleno potencial produtivo do cultivo florestal e minimizando o custo de produção e o impacto ambiental (Perrando, 2008). Porém, essa eliminação das plantas infestantes provoca uma alteração da flora e da fauna locais, inclusive na fauna de formigas.

As formigas pertencem à família Formicidae, ordem Hymenoptera, na qual se incluem também as vespas e as abelhas (Hölldobler & Wilson, 1990; Gallo et al., 2002). Segundo Bolton (2003), as formigas vivas conhecidas estão distribuídas em 21 subfamílias, 288 gêneros e, aproximadamente, 11,7 mil espécies. Destas, no Brasil, são encontradas 14 subfamílias (Fernández & Sendoya, 2004).

Em função de sua abundância e importância em diferentes ecossistemas, a diversidade de formigas tem sido utilizada em estudos comparativos entre ambientes (Ramos-Lacau et al., 2008; Soares et al., 2010; Macedo et al., 2011; Mentone et al., 2011). Além disso, podem ser utilizadas como bioindicadores no monitoramento ambiental de áreas mineradas (Read, 1996; Ré, 2007), bem como na avaliação de diferentes usos do solo (Schmidt & Diehl, 2008; Braga et al., 2010).

Conforme Alonso (2000), as formigas, em particular, são apropriadas para o uso em programas de inventário e monitoramento, pois os padrões de riqueza de espécies de formigas e a diversidade podem ser correlacionados com padrões de táxons que têm necessidades semelhantes de nidificação ou de alimentação, bem como com táxons que são afetados por fatores semelhantes ou táxons com os quais as formigas possuem interações significativas.

Para realizar os levantamentos da diversidade de formigas é necessário amostrar a maior quantidade possível de espécies, para que esse número seja o mais próximo do real. Assim, quando se pretende realizar um inventário completo da fauna de formigas, deve-se utilizar mais de um método de coleta. De acordo com Lopes & Vasconcelos (2008), esses métodos, por sua vez, devem se complementar entre si, levando em consideração a dinâmica comportamental e os hábitos alimentares das formigas. Nesse sentido, as formas não reprodutivas das formigas não possuem asas, o que lhes restringe a procura por alimentos sob a superfície, do solo, da serapilheira ou das plantas. Desta forma, os métodos utilizados em sua captura devem considerar estas especificidades (Fowler et al., 1991).

Segundo Bestelmeyer et al. (2000), os métodos de captura de espécies pertencentes à família Formicidae podem ser de dois tipos: os métodos passivos, que são fáceis de reproduzir e dependem da atividade das formigas nos pontos de amostragem, e os métodos ativos, difíceis de serem reproduzidos com exatidão, pois exigem que os pesquisadores procurem as formigas nas áreas de estudo.

Os métodos passivos são constituídos por armadilhas de solo tipo pitfall, iscas atrativas e gabarito quadrante; e os métodos ativos compreendem amostragem direta, contagem de colônias e amostragem intensiva. Já os métodos de extração que utilizam o Extrator de Winkler e/ou Funil de Berlese são considerados tanto ativos quanto passivos, dependendo da técnica utilizada pelo pesquisador e as reações das formigas aos estímulos comportamentais (Bestelmeyer et al., 2000). Sarmiento-M (2003) destaca a agitação das folhagens, para amostrar as formigas que se encontram forrageando os galhos e as folhas das plantas.

 

2. OBJETIVOS

No sentido de verificar a eficiência de métodos de captura de formigas, o presente trabalho objetivou avaliar qualiquantititivamente três métodos de coleta utilizados para formigas em uma área de pré-plantio de eucalipto, submetida a diferentes intensidades de controles de plantas infestantes.

 

3. MATERIAL E MÉTODOS

O estudo foi realizado na Unidade de Pesquisa Florestal pertencente à Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (FEPAGRO) (29º 40' 31" S e 53º 54' 45" W), localizada no município de Santa Maria, Rio Grande do Sul. O clima da região, segundo a classificação de Köppen, é do tipo subtropical úmido (Moreno, 1961). O solo da área do estudo é classificado como Argissolo Vermelho Distrófico Arênico (Streck et al., 2008). A área apresentava, inicialmente, cobertura vegetal composta, predominantemente, por espécies de gramíneas de baixo porte, utilizada para pecuária nos últimos 20 anos.

O delineamento experimental escolhido, para os tratamentos constituídos da aplicação do herbicida glifosato, foi o Delineamento Inteiramente Casualizado (DIC), sem restrições, com distribuição aleatória dos tratamentos, por meio de sorteio. A área de cada tratamento continha meio hectare. Utilizou-se herbicida pós-emergente, ingrediente ativo glifosato, na dosagem de 3 L ha-1, de produto comercial, concentrado solúvel e volume de calda de 200 L ha-1, para todos os tratamentos. Assim, os tratamentos foram constituídos por: controle de plantas infestantes na linha e na entrelinha do plantio (T1); controle de plantas infestantes em faixa de um metro paralelo à linha de plantio e um metro na parte central da entrelinha, sem controle (T2); controle químico em faixa de meio metro paralela à linha de plantio (T3), e a testemunha, sem controle de plantas infestantes e nenhuma forma de limpeza na área (T4).

A aplicação dos herbicidas foi realizada utilizando-se pulverizador costal manual à pressão constante, com barras munidas de dois ou quatro bicos do tipo leque. A aplicação foi sequencial: antes do plantio, sendo a primeira 01/04/2011 e a segunda 30/06/2011. Segundo Perrando (2008), o número médio de intervenções com herbicidas durante a implantação e a manutenção florestal varia de duas a quatro aplicações anuais, e depende do tipo de solo e do banco de sementes de plantas infestantes presente no mesmo.

A amostragem da mirmecofauna foi realizada no período de pré-plantio do Eucalyptus grandis, do dia primeiro de março de 2011 até dia 10 de agosto do mesmo ano. Para tanto, utilizaram-se três métodos passivos de captura de formigas, descritos a seguir.

O método utilizando a armadilha de solo (AS) baseou-se na interceptação de insetos que forrageiam na superfície do solo (Bestelmeyer et al., 2000), em que as formigas foram capturadas ao deslocarem-se sobre a superfície do solo, caindo nas armadilhas. As armadilhas foram adaptadas de Almeida et al. (2003) e constituíram-se de um recipiente cilíndrico de 10 cm de altura, enterrado no solo até a borda no nível da superfície do solo, com área de captura de 176,7 cm². Foi utilizado, como conservante, uma solução homogênea de água (200 mL), cloreto de sódio (15 g) e detergente (2 mL). As armadilhas, seis para cada tratamento, foram dispostas a 10 m de distância uma da outra, totalizando 24, em cada data de coleta. Após 48 horas de exposição, todo o material coletado nas armadilhas foi levado e transportado até o laboratório para triagem.

O método de coleta utilizando iscas atrativas (IA), por sua vez, baseia-se no princípio da atratividade, segundo o qual, as formigas, geralmente, generalistas e dominantes, são atraídas pelas iscas (Sarmiento-M, 2003). As armadilhas constituíram-se de um papel filtro (36 cm2), sobre o qual foi depositada uma porção (aproximadamente 1 cm3) de isca à base de proteína animal (patê de fígado de frango), conforme Boscardin et al. (2011). As armadilhas à base de isca proteica seguiram a mesma distribuição adotada para as armadilhas de solo. No entanto, após 60 minutos de exposição (Bestelmeyer et al., 2000; Sarmiento-M, 2003), todo o material presente sobre as armadilhas foi recolhido e levado ao laboratório para triagem.

Utilizado como método ativo, o procedimento de extração das formigas com Funil de Berlese (FB) foi escolhido para complementar os demais, tendo sido adaptado para um local sem serapilheira. Para tanto, com o auxílio de uma sonda circular de 10 × 10 cm2, com capacidade volumétrica de aproximadamente 785 cm3, retiraram-se seis amostras de solo, em seis pontos centrais, aleatoriamente, por tratamento, totalizando 24 repetições por data de coleta. As amostras foram transportadas ao laboratório, onde permaneceram quatro dias nos funis de Berlese, sob lâmpadas incandescentes de 60 watts. Com a alta temperatura do solo (em torno de 30 graus Celsius), as formigas e demais organismos migravam em direção ao fundo dos funis, onde havia recipientes contendo uma solução de álcool 70ºGL, nos quais, ao caírem, estes organismos mantinham-se conservados, para posteriormente proceder-se à triagem.

Após a triagem e a limpeza em laboratório, as formigas foram identificadas em nível de gênero e separadas em morfoespécies. Em seguida, as morfoespécies foram enviadas ao Laboratório de Mirmecologia do Centro de Pesquisas do Cacau, Ilhéus, Bahia, para identificação, permanecendo exemplares-testemunha de cada espécie identificada na coleção-referência da mesma instituição, onde foram registrados sob o número #5683.

A partir dos dados levantados, determinou-se a abundância total de formigas, que compreendeu o número de formigas coletadas, nos três métodos de amostragem, durante todo o período do estudo. A riqueza observada de espécies (Sobs) de formigas foi obtida pelo somatório do número de espécies coletadas, em cada amostra, referente ao número total de espécies de formigas capturadas, em cada data de coleta, nos três métodos de amostragem, para cada tratamento. Para avaliar a diversidade de espécies de formigas, utilizou-se uma medida não paramétrica de diversidade α, calculada a partir do índice de diversidade de Shannon (H'). O índice de Shannon foi calculado de acordo com a equação proposta por Magurran (2011), e os valores dos índices foram obtidos por meio do programa DivEs versão 2.0 (Rodrigues, 2005).

Para a análise estatística da abundância do número de formigas, para a riqueza de espécies de formigas e para o índice de diversidade de Shannon, por tratamento e por método de coleta, foi realizada análise de variância (ANOVA). Quando necessário, os valores foram transformados por meio da fórmula: , para atender aos critérios da estatística descritiva. A partir dos resultados da ANOVA, realizou-se o teste de médias pelo Teste t, com 5% de probabilidade de erro, utilizando o programa Assistat 7.6 beta (Silva & Azevedo, 2009).

 

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

De março a agosto de 2011 foram capturadas 24.735 formigas na área de pré-plantio de Eucalyptus grandis Hill ex Maiden, distribuídas em sete subfamílias, 13 tribos, 16 gêneros e 33 espécies. Em trabalho realizado no Rio Grande do Sul por Fonseca & Diehl (2004), em E. grandis e E. saligna com cinco anos de idade, foram obtidos valores semelhantes, com, respectivamente, 35 e 27 espécies de Formicidae.

Foi verificada uma maior riqueza de espécies de formigas, independentemente do manejo de plantas infestantes utilizado, para o método de armadilha de solo (AS), seguido do método com isca atrativa (IS) e do Funil de Berlese (FB) (Tabela 1). Esse resultado corrobora os dados apresentados por Lopes & Vasconcelos (2008), que encontraram maior número de espécies de formigas em armadilhas de solo, em comparação à isca atrativa à base de sardinha, nas fisionomias (savânicas) do Cerrado brasileiro.

Algumas espécies de formigas capturadas, conforme se pode observar na Tabela 1, ocorreram com exclusividade em determinados métodos de captura. Dentre essas espécies, cabe destacar as que ocorreram em todas as áreas avaliadas, somente em armadilha de solo, como Labidus praedator (Fr. Smith, 1858); Ectatomma edentatum Roger, 1863; Camponotus melanoticus Emery, 1894; Acromyrmex balzani (Emery, 1890); Acromyrmex heyeri Forel, 1899; Atta sexdens piriventris Santschi, 1919, e Pogonomyrmex naegelii Emery, 1878.

A presença de Labidus praedator (Fr. Smith, 1858), pertencente à subfamília Ecitoninae, pode ser explicada por tratar-se de uma espécie epígea de hábito nômade e predadora de outros artrópodes (Brandão et al., 2009). Diversamente, a presença das formigas-cortadeiras pertencentes aos gêneros Atta e Acromyrmex pode ser explicada pelo seu hábito de forrageamento a longas distâncias.

Camponotus rufipes Fabricius, 1775 e Pheidole obscurithorax Naves, 1985 ocorreram nas quatro áreas avaliadas, tanto em armadilha de solo quanto em isca atrativa, porém não foi verificada em Funil de Berlese. Solenopsis sp.1 e Ectatomma permagnum Forel, 1908 também se apresentaram susceptíveis à captura por ambos os métodos, porém não houve registro da primeira espécie na área correspondente ao tratamento T2, assim como, a segunda espécie não foi capturada, na mesma área, no método que utilizou isca atrativa (Tabela 1).

Foram capturadas nos três métodos de coleta, nas respectivas áreas, as espécies: Camponotus punctulatus Mayr, 1868 (T1 e T2); Wasmannia auropunctata (Roger, 1863) (T3); Pheidole radoszkowskii Mayr, 1884 (T1 e T4), e Solenopsis invicta Buren, 1972 (T6) (Tabela 1).

A presença de Camponotus punctulatus Mayr, 1868 nos três métodos, nos tratamentos T1 e T2, em que houve um controle mais intenso da matocompetição, pode ser explicada pelo fato desta espécie apresentar preferência por áreas de campo que apresentam distúrbios antrópicos (Folgarait & Gorosito, 2001).

Wasmannia auropunctata (Roger, 1863) possui ampla distribuição e é tida como espécie invasora (Schultz & McGlynn, 2000). Tais características podem explicar o fato da sua captura por todos os métodos, independentemente do tipo de aplicação de herbicida realizada.

A presença de Pheidole radoszkowskii Mayr, 1884 pode ser explicada, possivelmente, por este gênero ser o mais abundante dentre as formigas, em número de colônias e indivíduos (Wilson, 1986). Vários trabalhos em eucalipto indicam o gênero como o de maior número de espécies de formigas observadas (Fonseca & Diehl, 2004; Ramos-Lacau et al., 2008; Boscardin et al., 2011).

Almeida et al. (2007) verificaram, em armadilhas de solo, a ocorrência de Solenopsis invicta em sete dos oito cultivos avaliados em seu estudo, não tendo sido coletada somente no tratamento agroflorestal.

As espécies Brachymyrmex degener Emery, 1906; Pheidole pullula Santschi, 1911; Solenopsis sp.2, e Solenopsis sp.3 foram encontradas em todas as áreas avaliadas, somente por meio do método de extração com Funil de Berlese. Hypoponera sp.1 também foi verificada somente neste método; no entanto, ocorreu somente na área com aplicação de glifosato em faixa de meio metro paralela à linha de plantio e na área onde não houve controle de plantas daninhas. Gnamptogenys sulcata (Fr. Smith, 1858) ocorreu unicamente nas armadilhas de solo, exceto em T2 (Tabela 1).

Quanto ao número de formigas capturadas, o procedimento de coleta utilizando isca atrativa à base de patê de fígado de frango apresentou 20.088 formigas capturadas (81,2%), seguido do método com armadilha de solo, com 3.658 (14,8%), e por fim do método por extração, utilizando Funil de Berlese, com 989 formigas capturadas (4,0%).

Porém, estatisticamente, o número de formigas capturadas com isca atrativa foi exclusivamente maior, diferindo-se dos demais métodos (ANOVA, p<0,05), apenas na área onde se aplicou glifosato em faixa de um metro paralela à linha de plantio e de um metro na parte central da entrelinha, sem controle, correspondente ao tratamento T2. Nesta área, verificou-se a maior média de espécimes capturados, com aproximadamente 678 formigas por coleta, seguido dos métodos de armadilha de solo e Funil de Berlese (Tabela 2). Este fato pode ser explicado pelo comportamento de recrutamento massivo das espécies de formigas, em sua maioria de hábitos alimentares generalistas e dominantes (Sarmiento-M, 2003), instigadas pela presença da isca atrativa (disponibilidade de alimento), aliada à localização dessas iscas, próximas ou dentro da área de forrageamento das colônias.

Ressalta-se que o número e o tamanho das colônias encontradas na área - dados não analisados no presente estudo, aliado aos tipos de métodos de captura utilizados (Bestelmeyer et al., 2000), bem como às variáveis ambientais (Guiseppe et al., 2006) - são fatores importantes que podem interferir nos resultados de densidade e na riqueza de espécies de formigas capturadas. Nesse sentido, para o parâmetro abundância, não se verificou diferença significativa (ANOVA, p>0,05) entre os diferentes tipos de manejo de plantas infestantes com glifosato (Tabela 2), o que sugere não ter havido interferência da simplificação do ambiente sobre a abundância das formigas.

Quanto à riqueza observada de espécies, conforme observa-se na Tabela 2, o método utilizando armadilha de solo foi o mais eficiente, em três dos quatro tratamentos avaliados. Foi observada diferença estatística (ANOVA, p<0,05) para este parâmetro entre os tratamentos avaliados, sendo que as áreas onde houve menor intervenção com aplicação do glifosato, T2 e T4, apresentaram, respectivamente, as maiores médias, com Sobs = 11,4 e Sobs = 10,0.

Diversamente, quanto à diversidade de espécies, verificou-se diferença significativa (ANOVA, p<0,05) para o método de armadilha de solo, em detrimento dos demais métodos avaliados, para as áreas dos tratamentos T2 e T4. No tratamento T2, o método diferiu estatisticamente (ANOVA, p<0,05) somente da isca atrativa, apresentando semelhança com o método por Funil de Berlese.

Ramos et al. (2004), ao avaliarem a diversidade de Shannon para a comunidade de formigas em E. grandis, submetida a capina química com utilização de glifosato, verificaram uma diminuição nos valores do índice de Shannon, oito dias depois da aplicação do herbicida, bem como um retorno aos valores similares iniciais encontrados antes das aplicações. No presente estudo, verificou-se diferença significativa (ANOVA, p<0,05) entre os tratamentos, sendo que, para os métodos de armadilha de solo e isca atrativa, os valores foram maiores nos locais onde houve uma menor alteração ambiental, respectivamente T4 (H'= 0,857) e T2 (H'= 0,610); a exceção esteve no método a partir do uso do Funil de Berlese, no qual foi verificado maior índice de diversidade de Shannon para a área correspondente ao tratamento T2 (H'= 0,667).

Entretanto, conforme informa Queiroz et al. (2006), agroecossistemas mais diversificados e com menor uso de pesticidas, inseridos em uma paisagem rica em elementos florestais, são mais apropriados para a conservação da biodiversidade e, possivelmente, para a conservação de espécies de formigas.

 

5. CONCLUSÕES

A isca atrativa à base de patê de fígado de frango apresenta a maior abundância total de formigas capturadas, sendo verificada a maior média para o tratamento T2.

O maior número de espécies de formigas capturadas, em três dos quatro ambientes avaliados, para o pré-plantio do Eucalyptus grandis, consta para o método utilizando armadilha de solo.

Os métodos demonstraram ser complementares entre si; assim, para atender qualiquantitativamente os levantamentos de formigas, sugere-se a utilização de mais de um método de captura.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela Bolsa de Mestrado concedida ao primeiro autor. A Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (FEPAGRO - Santa Maria, RS) pela área para execução do experimento, e aos seus funcionários pelo auxílio prestado. Ao pesquisador Dr. Jacques Hubert Charles Delabie, do Laboratório de Mirmecologia do Centro de Pesquisas do Cacau, Ilhéus, Bahia, pela identificação das espécies.

 

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Autor(es) para correspondência:
Jardel Boscardin
Departamento de Defesa Fitossanitária, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM
CEP 97105-900, Santa Maria, RS, Brasil
e-mail: boscardinj@gmail.com

Recebido: 12/02/2013
Aceito: 13/06/2013

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