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Revista Direito e Práxis

versão On-line ISSN 2179-8966

Rev. Direito Práx. vol.8 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2017

https://doi.org/10.1590/2179-8966/2017/29905 

Dossiê

A Guerra das Guerras, a Revolução das Revoluções, 1917

The war of wars, the revolution of revolutions, 1917

Raquel Varela1 

1IHC-Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal. E-mail: Raquel_cardeira_varela@yahoo.co.uk.


Resumo

A revolução russa sucumbiu ao Termidor Estalinista, mas não se pode misturar a revolução – até 1927 – com a contra-revolução, daí então. Este artigo procura inserir a revolução russa no seu contexto histórico, no quadro do desenvolvimento desigual e combinado, entre o avanço do atraso russo em 1917 e a consolidação da social democracia alemã nos anos 20. O artigo inicia-se debatendo o impacto da I Guerra e da resistência a esta e seguidamente dialoga com a produção historiográfica realizada nas últimas duas décadas, com a abertura dos arquivos soviéticos. Argumentaremos aqui que estava tudo em aberto nos anos 20 da Europa do século XX, os germes da ditadura que se consolidou, a restauração do capitalismo que lhe seguiu, mas também a semente de uma sociedade igual e livre – e permanece hoje em aberto, ou seja, histórico.

Palavras-chave:  I Guerra mundial; Revolução russa; Socialismo; Movimento operário

Abstract

The Russian revolution succumbed to the Stalinist Termidor, but the revolution can not be mixed-until 1927-with the counter-revolution thereafter. This article attempts to insert the Russian revolution in its historical context in the context of the unequal and combined development between the advance of the Russian backwardness in 1917 and the consolidation of German social democracy in the 1920s. The article begins by debating the impact of World War I and resistance to it, and then dialogues with the historiographical production of the last two decades, with the opening of the Soviet archives. We will argue here that everything was open in the twenties of twentieth-century Europe, the germs of the dictatorship that was consolidated, the restoration of capitalism that followed it, but also the seed of an equal and free society - and it remains open today, or Historical.

Keywords:  First world war; Russian revolution; Socialism; Labor movement

A Guerra das Guerras

Em 1870 é apresentado no parlamento inglês, por ordem de sua Majestade, o Relatório sobre as Condições das Classes Trabalhadoras dos países estrangeiros1. Um grupo de agentes consulares e diplomáticos envia de várias partes do mundo um relatório detalhado sobre que condições laborais iriam os capitalistas ingleses encontrar em cada país, desde Portugal ao Império Otomano, dos EUA à Grécia.Nele podem ler-se o número de almas disponíveis para trabalhar, a sua formação média, tamanho da família, hábitos alimentares, habitação, higiene, quais os trabalhos que podem ser ocupados por mulheres, ou crianças. No Império otomano há uma descrição detalhada das organizações de artesãos, quanto ganham por categoria; o de Valência, região espanhola, explica, além do número, que ganham mais no verão do que no inverno, provavelmente por escassez de força de trabalho disponível, já que estão a trabalhar nas próprias colheitas. O de Portugal recomenda os trabalhadores portugueses porque não bebem muito ao Domingo e por isso trabalham à segunda-feira, e porque “se contentam com pouco”. Aquilo que hoje seria um moderno sistema de gestão de recursos humanos, realizado provavelmente por um estudo de uma consultora internacional, era já profundamente detalhado na Europa industrializada oitocentista - é a visão do continente como um simples mercado de trabalho. Quantos são, quanto ganham, o que sabem fazer, como é que vivem, quanto se pode pagar? E, quanto não se pode pagar?

Este movimento - de deslocalização de empresas onde o valor do salário directo e indirecto é mais baixo -, tem sido a história da expansão da Europa, dentro dos seus países e entre as suas nações, com excepção dos anos de «ouro» do pós 1945 até 1967: «Quando a rainha Vitória morreu, mesmo no começo do século XX, uma pessoa em cada cinco esperava chegar ao fim desta maneira: um enterro solitário, saído do asilo, ou do hospício da assistência pública ou do hospital dos alienados (…) Cerca de um quarto de toda a população vivia na miséria (…)»2. Só em Londres, 30% da população estava na miséria ou seja, sem meios para obter a sua manutenção, o salário de reprodução biológica. Em 1900 na Europa balcânica e espanhola a esperança média de vida era de 35 anos.3

As classes sociais não eram exactamente castas na Europa, mas a sociedade dividia-se claramente em classes: laboriosas, pobres, camponeses, uma minoritária classe média e a aristocracia, e a classe alta, financeira-industrial: «a maioria dos europeus podia esperar acabar a vida exactamente na mesma posição social em que começou».4

Em 1914 a Inglaterra tinha um império 114 vezes o seu tamanho; a Bélgica 80 vezes, a Holanda 60 e a França 20. Entre 1950 e 1911 virtualmente o mundo todo foi conquistado pelos impérios europeus. Em Africa só a Libéria e a Etiópia ficaram de fora da divisão a regra e esquadro das potências centrais – se os leitores olharem o mapa de África encontrarão fronteiras com longas linhas direitas, que cruzam assim rios, cortam montanhas, e suprimem o sustento a povos pastores ou agricultores, que ficaram sem acesso aos meios de produção por esta divisão realizada pela potências no congresso de Berlim de 1895. Na Indochina e na China começava a disputa em esferas de influência, num regime de protectorado e/ou de conquista5. Nestes anos a “história de toda a humanidade fluiu por um estreito canal desenhado por poucos países europeus»6.

A Europa central e balcânica estava sob as botas do expansionismo, a Europa ocidental na luta pelas colónias e mercados. O cenário europeu era, portanto, explosivo7. O Império Austro-Húngaro disputava à Sérvia o espaço e pelo caminho esmagava as nacionalidades oprimidas: sérvios, croatas, eslovenos, tchecos, eslovacos, búlgaros; a França tinha em 25 anos perdido a supremacia populacional para a Alemanha e exigia os territórios férteis da Alsácia e a Lorena, perdidos na guerra de 1871, a guerra franco-prussiana, cujo desfecho tinha impulsionado então o primeiro governo operário da história, a Comuna de Paris8. O capitalismo inglês não podia sobreviver com uma Alemanha forte que derrotasse no continente a França; a Rússia disputava ao Império Austro-húngaro o oeste dos seus territórios, os mais industrializados e fonte de impostos para o império cujo Palácio do Hermitage concentrará simbolicamente o espaço da guerra e revolução – nele estão as salas de pedras semipreciosas, ouro, parquês de madeiras nobres trabalhados de madeira, lustros, erguidos em 400 anos de servidão que colocavam, ainda em 1914, 40% dos camponeses sem meios de sobrevivência. Ao lado, liderados pelos bolcheviques, os operários russos tomam em Outubro de 1917 o poder, cujas escadarias da subida do Palácio de Inverno serão imortalizadas pelo cineasta Einsenstein. Era na Polónia, Ucrânia, Estados do Báltico e Finlândia que estava o grosso da riqueza da disputa à Áustria-Hungria para o Império Russo. Mas para a Alemanha, uma Rússia forte era uma ameaça.

Numa palavra, o imperialismo, isto é, a fase do modo de acumulação capitalista em que um capitalismo não podia sobreviver sem destruir o outro.9

A 2 de Janeiro de 1916 a revolucionária Rosa Luxemburgo10 escreve: «Os negócios prosperam sobre ruínas. Cidades transformaram-se em montes de escombros, aldeias, em cemitérios, regiões inteiras, em desertos, populações, em montes de mendigos, igrejas, em estábulos; o direito dos povos, os tratados, as alianças, as palavras mais sagradas, as autoridades supremas, tudo é feito em farrapos, qualquer soberano pela graça de Deus trata o primo, no campo adversário, de cretino e velhaco desleal, qualquer diplomata trata o colega do outro partido de canalha espertalhão, qualquer governo, vendo no outro uma fatalidade para o próprio povo, abandona-o ao desprezo público; a fome provoca tumultos em Veneza, Lisboa, Moscovo, Singapura; há peste na Rússia, miséria e desespero por toda a parte»11.

A I Guerra Mundial começa a 28 de Julho de 1914. Todos falavam nesse mês de 1914 de uma guerra rápida: «vai acabar no Natal!»12, dizia-se. Foi a mais «popular» das guerras nacionalistas, imperiais. Victor Serge, intelectual socialista, preso então em França, no início da guerra, escreve: «Chegavam à prisão veementes MARSELHESAS cantadas por multidões que acompanhavam os mobilizados de comboio. Ouvíamos também: «Para Berlim! Para Berlim!». Este delírio, incompreensível para nós era a consumação do apogeu da catástrofe social permanente.»13.

São porém necessárias “aspas” na popularidade da guerra. Pesquisas recentes mostraram que os sons de entusiasmo ouvidos por Serge ampliavam-se na prisão, como um eco que se multiplica. Os socialistas franceses chegaram a colocar a hipótese de uma greve geral contra uma guerra europeia, em julho de 191414; na Alemanha os grevistas das fábricas eram enviados para a frente de guerra como castigo; fontes históricas demonstram que a classe trabalhadora da poderosa região do Ruhr - ainda hoje a região mais forte e sindicalizada da classe trabalhadora industrial europeia - ficou de fora das manifestações patrióticas15; do outro lado do Atlântico – nos EUA - o governo apela ao recrutamento voluntário de 1 milhão de soldados – mas nas primeiras seis semanas depois da declaração de guerra só 70 mil se alistam16.

A I Guerra Mundial teve, contudo, um recrutamento mais fácil, porque os camponeses viviam isolados em aldeias e porque a experiência de uma guerra total era até aí desconhecida. Há um isolamento social geográfico no mundo rural, mesmo nas industrializadas Inglaterra, Alemanha e França, o que torna a resistência organizada muito difícil de se concretizar. Aliás, eles tornar-se-ão camponeses resistentes, desertores, só depois de incorporados numa organização coletiva – o exército, e em guerra.

O nacionalismo prospera rapidamente como ideologia, escritores como HG Wells clamavam o “apoio à guerra para pôr fim à guerra”, Anatole France discursou para os soldados17. Mas o apoio principal veio do seio do movimento operário organizado. A guerra foi apoiada pela social-democracia alemã, austríaca, pelo Partido Trabalhista Inglês, pelos socialistas franceses, pelos grandes sindicatos, pelo anarquista Kropotkin e pelo pacifista indiano Gandhi. A “unidade da nação”, a união sagrada, o apelo das burguesias nacionais aos líderes das camadas populares, foi magnético. E catastrófico. 9 milhões de mortos, outros dados falam hoje em 20 milhões de mortos18. Contra estiveram poucos: os bolcheviques e os socialistas sérvios. E muitos heróis individuais. Jean Jaurès, opositor à guerra, líder socialista da França, foi assassinado por um nacionalista francês a 31 de Julho de 1914.

A guerra revolveu as entranhas da sociedade: as mulheres entraram em massa no mercado de trabalho. Foi essa passagem do trabalho doméstico, isolado, ao trabalho fabril, concentrado; do trabalho doméstico não pago ao trabalho assalariado, e a revolução russa – conquistas de direitos sociais amplos - que permitiu o primeiro sopro de igualdade de género na história contemporânea. Embora o sufrágio feminino estivesse na agenda desse o início do século XX, conquistado na Austrália em 1902 e na Finlândia em 1906, por exemplo, só a I Guerra vai derrubar a primeira grande barreira à igualdade de género na Inglaterra e Alemanha19, e no caso da Itália e França, só a Segunda Guerra. Nos países do Sul, urbanizados na década de 60 do século XX, a grande alteração nas relações de género dá-se só a revolução portuguesa de 1974 e 1975. Um cataclisma económico - a guerra; e uma revolução social - a russa, são os factores que impulsionaram uma das mais importantes mudanças sociais do século XX – a crescente igualdade de género e o caminho paulatino para a união livre20.

A classe média entra na trincheira do descontentamento com os Governos; há fome, privação, escassez de abastecimento, porque as baterias de produção estavam voltadas para servir a guerra e a produção relacionada com esta. E porque muitos trabalhadores vão deixar as fábricas e ingressar nos exércitos beligerantes. Na Alemanha só 2/3 das calorias necessárias para viver eram garantidas, 750 mil terão morrido de fome21. Viena foi a mais atingida - «um quarto de milhão de pessoas permanecia diariamente numa das 800 filas alimentares dispersas pela cidade»22. Expande-se o mercado negro, a cavalo da inflação. Esta foi a lógica, irracional, mas previsível, da primeira guerra total da história. A guerra não acabou por isso no Natal. E foi devastadora. Alastrou à Mesopotâmia, Grécia/Turquia com o desmembramento do Império Otomano, norte de África.

Apesar do número de cidades com mais de 100 mil habitantes ter passado na Europa do norte e ocidente de 22 para 120 entre 1800 e 190023, a massificação da vida urbana no século XX, o crescimento da população exponencial, é um fenómeno que modifica a Europa. É o século do aumento da população. A Europa passou de 279 milhões de pessoas em 1850 para 408 em 1900 e 740 em 2012. Essa vai ser uma das características mais importantes dos últimos 100 anos, a consolidação, mesmo nos países do sul, da passagem de sociedades rurais a urbanas. Esse parto muda radicalmente a vida em sociedade. A unidade família foi definitivamente arrastada pela industrialização e pela guerra (mas não deixou de ter um lugar cimeiro até hoje, embora diferente). Nascem ao lado dela outras duas unidades que vão ter um papel central no século XX europeu – o colectivo político, e a massa24.

Os camponeses, ao saírem das suas aldeias – e na altura escasso era o contacto com a aldeia do lado, que por via da ausência de estradas, transportes e comunicações podia levar horas a ser alcançada, mais longínquo era o contacto com o poder central (a quem só encontravam na forma do cobrador de impostos) ou a “nação” – os camponeses vivem na tormenta da guerra o primeiro sentido de massa coletiva das suas vidas. Mas ao mesmo tempo vão ser estes camponeses a desertar em massa em 1917 em grande parte dos exércitos beligerantes, e, na URSS, a apoiar determinadamente a revolução. Porque queriam volta à terra, cujas famílias não subsistiam sem os seus braços para trabalhar.

A massa e a fábrica. O século XX vai ser o século do fordismo. O que se assiste é uma extraordinária ampliação da empresa/fábrica ao longo destes 120 anos – incluindo ao sector dos serviços depois da privatização das funções sociais do Estado a partir da década de 80 do século XX, em que se cria a “indústria de serviços” e se transfere para os hospitais, escolas e serviços públicos os métodos de trabalho, controlo de tempos, salário à peça, etc. da grande fábrica25.

E do outro lado da “massa” a sociedade anónima26 – cujas origens remontam ao século XVII - não por acaso é nome por excelência da sociedade comercial contemporânea. Mas o nome não é a coisa. Anónimos, os mercados têm um bilhete de identidade de propriedade, uma conta bancária. Valor supremo – a propriedade - das sociedades capitalistas pós revolução francesa, sempre limitado porém (não há direito de propriedade ilimitado), ele mantém-se como o direito mais importante dos sistemas jurídicos ocidentais, superior à vida, na medida em que o direito a ver os capitais remunerados se sobrepõe, em vários momentos do século XX, ao direito ao emprego27. Foi o acesso à propriedade – terras, comunicações, alimentos, fábricas, maquinaria, matérias-primas - que esteve no centro dos mais importantes conflitos europeus, desde sempre. Homens mediados por títulos de ações que ocultam a sua relação social, que não aparece como uma relação de disputa do que é produzido de essencial e de excedentário que permite ampliar o acumulado, mas como uma relação mediada por abstractos títulos, em longínquas bolsas de valores, desde a idade moderna.

O trabalho aparece (mas não é) a muitos como uma abstracção. Algo impossível nas sociedades camponesas, onde o sentido de produção colectiva é concreto – “a comida não cai na mesa de ninguém”, vinda de longe. É produzida ali, em frente a casa. Na vida em aldeia, é impossível não compreender que a manutenção da sociedade depende do trabalho e que se este não for realizado necessidades vitais não serão asseguradas. O mesmo não se passa na cidade onde a noção de centralidade do trabalho é ofuscada por uma complexificação de relações sociais em que várias formas de não-trabalho como rendas, lucros, assistencialismo familiar e estatal (ajuda das família ou do Estado via impostos) jogam nas sociedades europeias um papel central. Desvalorizado assim, o trabalho só ganha centralidade quando por força das suas organizações políticas e sindicais se disputa no campo da consciência política esse condição de que nada é tão importante para assegurar a existência da humanidade como o trabalho. A partir do qual tudo é central, tudo nasce e perece do trabalho enquanto actividade de domínio do homem sobre a natureza, de criação. E do trabalho enquanto relação social, mutável necessariamente.

Esta consciência - de que os trabalhadores têm um papel determinante na história - aconteceu na Europa entre o final do XIX e as primeiras três décadas do século XX com uma dimensão inusitada. Porém, nem todo o movimento operário era socialista. Se as revoluções de 1848 tinham já colocado em marcha o operariado da França, Alemanha; se a Comuna de Paris tinha mostrado o caminho da possibilidade de uma classe não proprietária tomar o poder; na aurora do século XX os «trabalhadores (e em menos proporção) as trabalhadoras fizeram sentir a sua presença na arena pública da maior parte dos países europeus»28: na primeira revolução russa de 1905; na revolta anarquista espanhola esmagada em Barcelona em 1909 – que ficou conhecida como a “semana trágica”; na “semana vermelha” de Itália em Junho de 1914; na generalização de greves na França, Alemanha e na Inglaterra; estão registados 500 conflitos no sector industrial na França entre 1900 e 1915; na Inglaterra dá-se uma onda de greves sem precedentes em 1911 e a na Alemanha 1 milhão de trabalhadores participaram em greves em 1912. Em 1914 os sindicatos ingleses e alemães têm mais de 2 milhões de trabalhadores, o que corresponderia então a 30% da força de trabalho masculina29. O Partido Socialista Francês, constituído primeiro como Secção Francesa da Internacional, destacando o espírito internacionalista do partido, teve, em 1914, 1 milhão e meio de votos. Nas vésperas da guerra havia uma batalha na Europa entre uma saída reformista, assente nas instituições parlamentares, e a via revolucionária, impulsionada por partidos fortemente influenciados pelo marxismo30.

A Resistência à Guerra

A partir de 1915, na pequena vila de Zimmerwald, na Suíça, reúne-se um grupo de dirigentes que opõe-se à guerra e tenta fazer do comunismo um movimento internacional. Entre 5 e 8 de Setembro de 1915, 36 delegados de 19 países estavam dispostos a lutar pela forma de revolução social contra a guerra, pela derrota das suas próprias nações, contra o pacifismo. Cabiam em 4 carros. O manifesto é redigido por Leon Trotsky, e coloca a base da luta contra toda a «união sagrada» . Outro dirigente destacado, Christian Rakovsky, discursa no fim a favor de uma III Internacional, morta que estava a II Internacional ao ter levado os partidos o seus países irmãos a pegarem em armas uns contra os outros.

A ideia de uma nova internacional foi ao início mal recebida. Rakovsky vai ser caluniado como agente alemão. Mas 2 anos depois as frentes de guerra internacionalizam-se com o levantamento de motins em massa nos exércitos. Do outro lado do Atlântico Eugene Debs, um dos fundadores do mais igualitário sindicato norte-americano, os Industrial Workers of the World, conhecidos carinhosamente por Wobblies, mineiros, assalariados agrícolas, estivadores, marinheiros que fundaram em 1905, no dia 27 de Junho, um sindicato internacionalista, discursa no julgamento contra a guerra. É deles a origem da música “Solidarity Forever”31, a mais conhecida música operária depois da Internacional32. Preso, acusado de ter violado o Espionage Act, que proibia qualquer manifestação pública contra a guerra, Debs recusa defender-se ou ter testemunhas no julgamento: «Fui acusado de obstrução à guerra. Admito-o. Cavalheiros, eu abomino a guerra. Seria contra ela mesmo estivesse sozinho…Tenho simpatia pelos que sofrem e lutam em toda a parte. Não me interessa sob que bandeira eles nasceram, ou onde vivem…»33.

O historiador William Pelz argumenta que mesmo recorrendo à tecnologia a I Guerra pode não ter sido a mais mortífera mas o que «poderá não ter tido par foi o nível de oposição bélica colectiva a ela».34 No Natal de 1914 as tropas francesas e alemães confraternizam nas trincheiras, e são penalizadas. Mas é só em Abril de 1917 que se dá o primeiro «Adeus às Armas»35 de massas da I Guerra Mundial – 68 divisões, nada mais nada menos do que metade do exército francês recusam-se a voltar à frente: morte, agonia, piolhos, tuberculose, os trabalhadores, camponeses, agora soldados, estavam a enterrar-se vivos na lama e no sangue das trincheiras. A resposta do Estado foi esmagadora: 500 sentenças de morte e 49 execuções. Algumas unidades ergueram-se com a bandeira vermelha a cantar a internacional, queriam marchar sobre Paris, gritavam «Viva a Revolução», «Viva os Russos!». Cantaram a canção de Craonne: «É em Craonne sobre o planalto, que devemos deixar nossa pele (…), mas acabou, pois os praças Vão todos fazer greve»36. Perto de Bolonha, em Étaples, uma rebelião de 100 mil soldados ingleses dura 5 dias – os oficiais britânicos usaram da política do «pau e da cenoura»: fizeram concessões e executaram os líderes, para pôr fim à rebelião. Depois do desastre militar de Caporetto, a 24 de Outubro de 1917, há uma «greve militar», soldados italianos amotinaram-se em massa. A Espanha era neutra mas vive uma greve geral de 15 a 18 de Agosto de 1917, em que o dirigente histórico do PSOE, Francisco Largo Caballero, será condenado a prisão perpétua. Na Rússia estava em marcha um «armistício estabelecido de facto no front»37. A revolução russa – filha directa da guerra – tinha começado em Fevereiro de 1917, pela mão das operárias têxteis de São Petersburgo exigindo «pão». Se é verdade que este foi sobretudo um tempo protagonizado pelo movimento operário masculino e industrial, que eram a maioria, não deixa de ser simbólico que a maior revolução social da história, e a primeira vitoriosa, tenha começado no operariado feminino.

A equação “nação é igual a Estado e Estado é igual a Povo”, que para o historiador Eric Hobsbwam foi o centro da constituição do nacionalismo burguês depois da revolução francesa38, vai ruir aqui. Na luta contra a guerra das guerras ergue-se a revolução das revoluções.

A Rússia tinha cerca de 170 milhões de habitantes, uma aristocracia rural e igreja em declínio e quase ausência de sectores médios, o que tornava o Estado com menos capacidade – elasticidade – de resolver os conflitos sociais. Essa ausência de sectores médios provocava uma separação – sem um colchão social amortecedor – entre os grandes proprietários e os operários e camponeses. A indústria, muito concentrada, tinha cerca de três milhões de operários e só 5% dos camponeses eram proprietários da sua terra; 12% eram considerados abastados (os kulak), mas 40% não tinha meios para sobreviver. Este caldo de contradições transformará uma revolta de massas camponesas em luta pelo fim da guerra e pelo acesso à terra na primeira insurreição proletária da história a tomar o poder num país39.

As deserções em massa nos exércitos em 1916 começavam a minar a base nacionalista das direções do movimento operário, forçado por isso a evoluir para posições pacifistas, e nalguns casos revolucionárias. Os povos estavam exaustos da guerra – no quadriénio da guerra multiplicam-se as aparições, a charlatanice, a superstição, a «religião emerge poderosamente como um instrumento de consolação»40. O culto de Maria vai fazer surgir em numerosas regiões da Europa aparições em toda a Europa, a mais famosa Fátima, em Portugal.

Mas o que se revelou central e pôs fim à guerra foi uma revolução e um Partido, o Bolchevique: «Diferentemente da Europa ocidental, existia na Rússia um partido revolucionário organizado, o POSDR “bolchevique”, contrário à “revolução por etapas” limitada à democracia parlamentar; era também o único partido russo que enfrentara à “união sagrada” de 1914. No império dos czares, se o efeito da guerra fora desastroso para a tendência combativa e revolucionária do operariado revelada nos anos que a precederam, a partir do final de 1916 a própria guerra passou a se constituir em factor de radicalização e aceleração do ritmo das greves. Os industriais se recusavam cada vez mais a fazer concessões aos trabalhadores, e o governo continuava a responder a cada greve com uma forte repressão, o que fazia renascer no proletariado a ideia de uma greve geral para dar cabo de uma situação social cada dia mais insuportável. O processo de radicalização política das massas trabalhadoras se exprimia de maneira convincente pela estatística crescente das greves, e pela sua natureza: nos primeiros dois meses de 1917, as greves políticas compreendiam seis vezes mais operários do que as greves económicas. Rússia voltava a ser o maior centro europeu e mundial da luta e do activismo operário, da luta de classes. A maior tormenta revolucionária da era do capitalismo se anunciava no horizonte da Ásia, da Europa, do mundo.»41 – a revolução russa, sem a qual não é possível compreender o século XX mundial.

A Revolução das Revoluções

Em Janeiro de 1917 Lenine declarou «Nós, os mais velhos, talvez não cheguemos a ver as batalhas decisivas da futura revolução»42. No dia 18 de Fevereiro, 2 meses depois, os operários da mais importante metalúrgica de Petrogrado – a cidade de Pedro o Grande – entram em greve, que uma semana depois já se transformou numa greve geral. Como no Domingo Sangrento da revolução de 1905 – o «ensaio geral» - o czar dá ordens para atirar sobre os manifestantes mas as tropas recusam-se, pelo contrário, juntam-se aos manifestantes. A «Rússia vê-se numa situação de dualidade de poderes: o Governo provisório, saído da Duma do Império, e os Comités de operários e soldados (Sovietes) que se formaram durante as greves e a abortada repressão»43.

Um processo revolucionário tem como característica essencial a entrada das massas na cena histórica; e esta entrada não se faz por um «plano preestabelecido de transformação social, mas com o amargo sentimento de não lhes ser mais possível tolerar o antigo regime».44 As classes entram em luta e a explicação da dinâmica revolucionária está na forma como muda a consciência das massas, «as rápidas e intensas e apaixonadas mudanças psicológicas das classes constituídas antes da revolução»45.

O atraso é o traço essencial da história da Rússia. Ao contrário dos povos ocidentais, que quando se viram bloqueados nas fronteiras naturais criaram as cidades, pólos dinâmicos económica e culturalmente, os povos das estepes, quando se viram bloqueados emigraram, conquistaram florestas e estepes. Em vez de comerciantes prósperos, com iniciativa, tornaram-se sobretudo guardas-fronteiras ou colonos. A dependência económica e militar da Rússia do Ocidente fortaleceu o czarismo, que por seu turno foi um travão ao desenvolvimento do país. O facto deste Estado absorver uma quantidade de riqueza pública maior do que no Ocidente condenou as massas populares a uma miséria maior e retirou pujança às classes privilegiadas, fortemente burocratizadas46.

Leon Trotsky expõe a sua Teoria do Desenvolvimento Desigual e Combinado47, central em toda a sua obra e que vai ser uma das mais importantes influências na Teoria do Sistema Mundo de Immanuel Wallestein48, tentando responder a esta questão: Como é que o proletariado chegou ao poder num país atrasado? Os países atrasados «assimilam as conquistas materiais e ideológicas dos países adiantados» e “saltam” etapas. O capitalismo que «realizou a universalidade do desenvolvimento da humanidade» exclui a repetição das formas de desenvolvimento nos países atrasados – esta teoria permite compreender porque é na Rússia atrasada que se forma o primeiro Estado operário da humanidade, saltando a etapa democrática, dirigida pela burguesia: «o privilégio de uma situação historicamente atrasada – e este privilégio existe – autoriza um povo, ou mais exactamente, força-o a assimilar todo o realizado, antes do prazo previsto, passando por cima de uma série de etapas intermediárias. Renunciam os selvagens ao arco e à flecha e tomam imediatamente o fuzil (…)»49. Mas este privilégio, assinala Trotsky, é limitado pelas condições económicas e culturais do país. O Historiador norte-americano George Novack, numa sistematização sobre a teoria do desenvolvimento desigual e combinado de Trotsky, afirma que o «grande atraso que havia fortalecido a revolução e impulsionado as massas russas para a cabeça do resto do mundo, transformou-se então no ponto de arranque da reacção política e da contra-revolução burocrática»50. Ou seja, na ascensão do estalinismo. Apesar do esforço da historiografia liberal de igualar Lenine a Estaline, ele não passa a prova dos factos – Lenine tem como último combate da sua vida uma luta política de um ano para tentar afastar Estaline do poder51. Mas é um facto hoje que o atraso da Rússia – sem a concomitante revolução alemã – a fez sucumbir nos anos 30 a um Termidor – uma contra revolução - que tem o seu ápice nos processos de Moscovo e na impossibilidade da URSS ter contribuído para impedir a II Guerra Mundial pela expansão da revolução à Alemanha, Espanha e França nos anos 20 e 30 do século XX.

Mas retornemos ao «salto da flecha para o fuzil»: em 1914 as empresas com mais de mil operários ocupavam 17,8% da totalidade dos operários nos EUA e 41,4% na Rússia (44,4% em Petrogrado e 57,3% em Moscovo). Este operariado, altamente concentrado, vem do campo de forma brusca, rompendo violentamente com o que existia antes, sem passar uma fase de paulatinas transformações como na Inglaterra ou na França – os dois países a inaugurarem as revoluções burguesas e iniciar a modernização económica capitalista, pari passu com a paulatina democratização do Estado. A Rússia tinha o mais atrasado dos regimes políticos. Nas vésperas da sua queda, oráculos, mágicos, místicos e santos rodeavam o cazr e czarina, o mais famoso deles Rasputine, um charlatão que vai ganhar estatuto de conselheiro de Estado até ser assassinado em 1916. Na turbulência da guerra e da revolução que o derrubou, Nicolau II toma chá, passeia a pé, anda de cavalo, rema o barco no lago... No diário de Nicolau II, nas vésperas da abertura da Duma, pode ler-se: «Passeei. Vestindo blusa fina. Recomecei a remar. Tomei chá na varanda». Meses depois, quando da dissolução do mesmo órgão, os comentários não diferem: «9 de Julho. Domingo. O negócio está liquidado! A Duma foi hoje dissolvida. Ao almoço, após a missa, notavam-se várias fisionomias abatidas. Belo tempo. Durante o passeio encontrámos o tio Misha (…) Trabalhei tranquilamente toda a tarde até à hora de jantar. Passeei de bote»52. Do lado da czarina, a política parece ser menos festiva: são dela frases como «A Rússia gosta de ser acariciada com chicote – está na natureza desta gente!»53.

A guerra teve inicialmente um papel de retardar a revolução, mas num momento seguinte ela fortaleceu os elementos revolucionários. Entre 1903 e 1917 o número de grevistas políticos variava entre 4000 em 1910 e 600 000 em 1906 mas com dois grandes picos de 1 843 000 em 1905 (ano da revolução) e 1 059 000 em 1914.

Os operários se lançaram na greve, entre estes e os soldados começou a existir confiança mútua no meio das lutas, a direcção bolchevique andava ainda a “reboque” dos acontecimentos – e assim se manterá até Abril de 1917. Na primeira semana de Abril, da frente norte e oeste, desertaram 8000 soldados, na sua maioria mujiques que queriam terra…para viver nela antes de perecerem na frente de guerra. A força propulsora do processo são os sovietes. De facto o czar abdica e forma-se um Governo provisório chefiado pelo Príncipe Levov. Mas…uma coisa é formar Governo, outra é que este seja respeitado. Na Rússia havia a memória, o saber, da organização de comités ou conselhos (os sovietes) de 1905. O Soviete de Petrogrado tinha sido particularmente importante porque os seus líderes tinham participado no Comité de Indústrias de Guerra. O Soviete de Petrogrado, depois da revolução democrática de Fevereiro, torna-se um Parlamento real, de base, onde se debate política toda a noite e recebe-se delegações sem, parar, de toda a Rússia. Quando se reúne o congresso dos Sovietes de toda a Rússia em Abril de 1917 havia delegados de 138 sovietes locais, 7 do exército, e 26 das unidades de guerra do front.54

Neste período multiplicam-se os sovietes (as bases são mais radicais que os próprios bolcheviques, exigindo, a partir do bairro de Vyborg, a saída da burguesia liberal do Governo Provisório). Vive-se uma situação de dualidade de poderes. A Dualidade de Poderes é «uma situação na qual a classe destinada a implantar um novo sistema social (…) concentra (…) uma parte importante do poder do Estado, ao passo que o aparelho oficial permanece nas mãos dos antigos possuidores»55. Este fraccionamento do poder tem um limite temporal que pronuncia a guerra civil ou a derrota revolucionária.

Charles Tilly, relembrando a dificuldade que todos os processos revolucionários levantam à teorização de uma definição comum a estes momentos de transformação social e a variabilidade de factores que caracterizam uma situação revolucionária, optou por utilizar como elemento central definidor das revoluções a existência de duplo poder56. Trotsky, no seu estudo sobre a revolução russa, destacou três elementos que caracterizam uma situação como revolucionária: a entrada em cena de milhões de trabalhadores mobilizados, atracção dos sectores intermédios da sociedade pelas organizações e métodos de luta das classes trabalhadoras e uma crise nacional (mais tarde, Trotsky acrescentará a esta definição a existência de um partido revolucionário). Em suma, uma situação revolucionária seria um processo político caracterizado pela entrada em cena de vastos sectores da população (trabalhadores e classes médias) que altera a relação de forças entre classes sociais, num quadro de crise (decadência) nacional. Valério Arcary, na sua investigação sobre as revoluções do século XX, propõe a distinção de dois tipos de revoluções, as revoluções políticas e as revoluções sociais. Nas primeiras, muda o poder político; nas segundas, o poder económico muda de mãos, ou seja, coloca-se em questão a propriedade privada. Por analogia com a revolução russa, classifica estas revoluções políticas de «revoluções de Fevereiro»; e as sociais de «revoluções de Outubro». De acordo com este critério, na sua maioria as revoluções do século XX, o século da história da humanidade em que houve mais revoluções, são revoluções políticas, objectivamente anticapitalistas mas subjectivamente não, que estacionaram na fase de «Fevereiro», ou seja, não puserem em causa a propriedade privada dos meios de produção, pela fragilidade de suas direcções políticas.57

Lenine volta à Rússia no início de Abril de 1917. Contra a vontade das bases do partido, mais jovens e operárias, os dirigentes, sobretudo Kamenev e Estaline, continuavam a não pôr em causa o Governo Provisório. Lenine apresenta o documento que ficou conhecido como as Teses de Abril, que se opunha ao Governo e à guerra. Mas as Teses iam mais longe. A revolução não se resumia às tarefas democráticas. A 4 de Abril Lenine dirigiu-se ao Congresso do Partido Bolchevique. Na sequência das Teses de Abril Lenine é tratado pelos dirigentes bolcheviques, pelo Governo Provisório e pelo Pravda como um dirigente «desorientado», que estava há muito fora da Rússia e que não compreendia que não era possível ir mais além da revolução democrática. Mas Lenine acaba por, apoiado sobretudo no sector mais jovem, ganhar o partido para a sua política no fim de Abril, na Conferência realizada em Petrogrado entre 24 e 29 de Abril. De Abril a Julho o Partido Bolchevique cresce com a radicalização da revolução: em Petrogrado, em Junho, tem 15 000 membros.

No dia 2 de Julho de 1917 começam várias manifestações espontâneas em Petrogrado que nos dias 3 e 4 de Julho chegam a reunir mais de 500 mil soldados e operários. O Partido Bolchevique defendia que era cedo demais para uma insurreição. O problema não era tanto o de tomar o poder, mas o de ter foça social para o conservar. As manifestações daqueles primeiros dias de Julho foram derrotadas; a elas seguiram-se uma série de medidas repressivas sobre os operários e soldados e sobre o Partido Bolchevique, que embora inicialmente contra as manifestações, quando elas se deram, encabeçou-as. A redacção do Pravda foi destruída; Lenine, caluniado como agente alemão, obrigado à clandestinidade, e o próprio Trotsky, que formalmente ainda não era do Partido Bolchevique, preso. Apesar da derrota, o partido não perdeu quadros e acabou por fortalecer-se.

Das Jornadas de Julho à Insurreição de Outubro decorrem quase 4 meses. Muito pouco tempo na história se não estivéssemos a falar de uma revolução. Porque num processo revolucionário 4 meses é muito. É o tempo de a burguesia preparar a sua última tentativa de suster o processo revolucionário dirigindo um golpe que tem à frente o general Kornilov, mas que é derrotado pelos operários e soldados. Novamente, o Partido Bolchevique sai reforçado desta luta. Os socialistas revolucionários e os mencheviques vão perdendo terreno. Tentam canalizar a revolução para um Pré-parlamento. O partido Bolchevique chega a aprovar participar neste Pré-parlamento mas sob pressão de Trotsky, Lenine, Sverdlov e o próprio Estaline, recuam e recusam-se a participar. O Partido Bolchevique tinha mais de 170 000 membros; só em Petrogrado havia mais de 40 000 militantes.

A guerra camponesa contra os proprietários, em Setembro e Outubro, radicaliza-se. As condições para a insurreição estavam reunidas: os camponeses tinham perdido a confiança nos socialistas revolucionários – que no momento da confiscação de terras aos nobres tinham recuado, tentando restringir o movimento camponês –; e os bolcheviques eram maioritários nos sovietes. Há diferenças políticas dentro do próprio Partido Bolchevique (Kamenev e Zinoviev opõem-se à insurreição); Lenine apela para que a insurreição seja “agora”; dão-se os preparativos militares da insurreição. Poucos dias depois dá-se a tomada de poder liderada pelos bolcheviques.

A tomada de poder ficou simbolizada na tomada do Palácio de Inverno, um lugar central, junto ao Rio Neva em Petrogrado. Do outro lado do Rio está a fortaleza Pedro e Paulo. No semi círculo que hoje serve de entrada a milhões de turistas para visitar o Museu Hermitage, alojado nesse sumptuoso Palácio, morreram em 1905 mais de 50 trabalhadores metralhados pelas tropa do czar no Domingo Sangrento. Uma bomba tinha aí explodido, desta vez num atentado levado a cabo por um marceneiro em 1881. Em 1879 o estudante Soloviev atirou aqui sobre o czar Alvendre II. Estava aí, em Outubro de 1917, Kerensky quando na madrugada do dia 25 de Outubro foi derrubado.

A fábula da teoria do golpe de Estado num processo determinado pelas massas, o mais determinado pelas massas que a história conheceu,58 não se sustenta. Poucos dias antes da tomada de poder Kerensky reconhecerá «O povo russo – disse com amargura - sofre de esgotamento e também de desilusão no que diz respeito aos Aliados. O Mundo pensa que a revolução atingiu o seu fim. Não acreditem nisso: a Revolução Russa mal começou…»59. «Assim como a guerra, ninguém faz uma revolução de boa vontade. A diferença consiste em que, numa guerra, o papel decisivo é o da coacção; numa revolução não há coacção. A não ser a das circunstâncias»60.

A revolução russa “deu tudo de si”

A revolução russa “deu tudo de si”: «Durante pouco mais de cinco anos, emergiram na França revolucionária figuras políticas de projecção histórica e alcance mundial que, em outras épocas, o mundo todo teria demorado um século ou mais para produzir. Só a Revolução Russa, entre 1917 e 1923, conseguiu um feito semelhante (mas sem igualá-lo). A Revolução deu tudo de si, nas condições históricas em que aconteceu.61». Paz, Pão, Terra – o decreto da paz, mesmo perdendo a Rússia vastas áreas do território; a terra para os camponeses, o decreto sobre o controlo operário a expropriação/nacionalização da banca e sector financeiro. Pela acção directa os trabalhadores conquistaram 8 horas de trabalho, demitiram gestores ligados ao czarismo, persecutórios, durante a férrea ditadura chefiada na polícia (Okrana), subiram os salários, várias vezes, e controlaram a produção62. Nenhum dos trabalhos que utilizou os arquivos abertos da URSS, depois da queda do muro em 1989/1990, sustenta a visão liberal que iguala o período da revolução com o estalinismo: «foi a confiança dos trabalhadores e o seu envolvimento nos locais de trabalho que deu ao regime de fábrica um grau essencial de legitimidade»63 e o fez em massa aderir ao Partido Bolchevique, os mesmos trabalhadores que depois de 1928 desertaram do partido. O Código da Terra e da Família, embora face à pobreza extrema, ampliava como nunca os direitos das mulheres; união livre, fim da perseguição aos homossexuais, cuidado das crianças socializado com creches, lavandarias públicas, protecção às mãe solteiras, direito ao aborto64.

Ao talento de Leon Trotsky como general – que a bordo de um comboio blindado chefiou um exército exaurido da I Grande Guerra e derrotou 14 exércitos invasores, as «tropas brancas» - juntavam-se factores objectivos: os brancos não realizaram a reforma agrária nos territórios sob a sua alçada e não colocaram em causa a hierarquia do clero e dos velhos generais – tinham portanto escasso apoio entre os camponeses, que amparam os bolcheviques.

Por que a revolução social mais importante da história da humanidade, que mais direitos conquistou, dentro e fora da Rússia, terminou no sangrento banho de sangue da colectivização forçada dos anos 30, dos processos de Moscovo e da aniquilação física do comité central do Partido Bolchevique e da emergência à escala de centenas de milhar do trabalho forçado na URSS?

Os estudos de Charles Tilly deram muita importância à relação entre as revoluções e os factores macroestruturais - este autor defende que a compreensão das causas e do desfecho das revoluções não deve ser isolado «da posição (do país) no sistema de relações entre Estados»65. O isolamento da revolução russa, a solidariedade dos países capitalistas ao coordenarem uma invasão comum à Rússia e, sobretudo, a derrota da revolução alemã levaram à criação de um monstro - o burocratismo, encarnado na figura de Estaline. Todas as obras de história da revolução russa escritas antes de 1937 foram retiradas de circulação e o simples facto de se lerem ou as ter em casa era punível pela lei.66 Na URSS «Durante o XVII Congresso, Kaganovich oferecerá uma prova inquestionável disso, ao indicar que a fábrica de vagões de Moscovo tem 601 administradores, dos quais 367 se encontram divididos em catorze serviços centrais e os 234 restantes trabalham nas diferentes oficinas, tudo isso inerente a uma empresa que emprega 3.832 operários (…)».67

Lenine disse-o, em vários discursos, sobre a revolução russa de 1917, que ele próprio liderou: «É um grande infortúnio que a honra de começar a primeira revolução socialista tenha cabido ao povo mais atrasado da Europa».68 Na viragem do século XIX para o século XX a Rússia camponesa produzia quase 1/3 a menos que a agricultura alemã e quase ¼ a menos que a agricultura inglesa.69 Escrevendo sobre a guerra civil, um dos dirigentes da Internacional Comunista, Victor Serge, recorda que não eram os 14 exércitos estrangeiros que mais os desmoralizavam, mas o «tifo e a fome».70

O capitalismo permitiu, ao derrubar as barreiras do sistema fechado feudal ou semifeudal, introduzir a concorrência, o mercado interno, o trabalho assalariado, impulsionando o maior salto de desenvolvimento das forças produtivas de sempre da humanidade. Porém, nos finais do século XIX a primeira grande depressão – 1870 – dava já sinais de um motor gripado: «Ao deixar patente a existência de um excedente absoluto de capital sem condições objectivas de realimentar o circuito de valorização, a queima de riqueza tonar-se um imperativo do metabolismo do capital»71, ou seja, a guerra e a barbárie, a produção para destruição vão ser a principal e mais catastrófica facto do século XX – duas guerras mundiais mataram 70 a 80 milhões de pessoas, num processo político violento de «liquidação de valor», a «destruição de riqueza impõe-se como o único meio de restaurar as condições para a retomada do processo de acumulação»72. Como nos recorda o historiador Chris Harman, o imperialismo não é só um estágio da história em que há disputa das colónias, é «um sistema cuja lógica foi a total militarização e a guerra total, apesar da devastação social que isso provocou»73. O século XX será ainda marcado por três grandes depressões: 1929, quando o capitalismo mundial sucumbiu e foi procurar salvação na II Guerra Mundial, e 2008, quando a ampliação do Estado salvou os maiores bancos e industrias dos principais países do mundo, incluindo EUA, Inglaterra, Alemanha e França74.

Esta característica económica do modo de acumulação no século XX vai se dar a pari passu com as revoluções democráticas e sociais. O século XX foi o século mais revolucionário de toda a história da humanidade: revolução russa 1905, revolução republicana Portugal 1910, revolução Mexicana 1910, revolução irlandesa 1916, revolução russa 1917, triénio bolchevique Espanha 1917-1920; biénio rosso Itália 1919-1920; revolução húngara 1919, alemã 1919, revolução alemã 1923, revolução austríaca 1934, revolução espanhola 1934-36, Indonésia 1946-49, revolução chinesa 1949, revolução boliviana 1952, levantamento da DDR 1953, revolução húngara 1956, revolução cubana 1959, todas as revoluções anti coloniais, a mais importante, o Vietnam; Maio de 68, Primavera de Praga 1968, Outono quente de 1969 Itália, revolução portuguesa 1974, revolução na Nicarágua 1979, revolução iraniana 1979…

O século XX é o século da luta de classes, do maior número de revoluções de toda a história da humanidade, tal como Karl Marx tinha previsto no panfleto que escreveu com Friedrich Engels para a fundação da Internacional, O Manifesto do Partido Comunista75 – nunca um século assistiu a tantas revoluções, democráticas e sociais, como o século XX. O século XX teve mais Fevereiros – revoluções que mudaram os regimes políticos, do que Outubros, «revoluções que deslocaram o controlo do Estado burguês»76. Houve muitas crises revolucionárias depois dos “Fevereiros” que tiveram uma dimensão semelhante ao Outubro russo, com divisão no seio das forças armadas, dualidade de poderes com criação de conselhos de trabalhadores, ocupação de fábricas e expropriações – mas na maioria os trabalhadores não tomaram o poder. E nos países que tomaram, a luta de classes retrocedeu e deu lugar a novas formas de hierarquização, ou, em casos isolados, escassez incompatível com o socialismo, como foi o exemplo de Cuba. Para o historiador Valério Arcary ajuda-nos com as seguintes hipóteses: em primeiro lugar, «os processos revolucionários que triunfaram e foram até à expropriação (Jugoslávia, Albânia, China, Coreia, Vietname, Cuba) contrariaram três prognósticos do marxismo clássico: 1) o proletariado não foi o sujeito social dirigente, predominaram as revoluções agrárias, com forte protagonismo camponês; 2) a auto-organização plural ou a democracia directa não existiram, predominou a forma de duplo poder territorial, através de exércitos revolucionários ou guerrilhas militarmente centralizadas, e depois da conquista do poder, uma evolução uniforme no sentido de regimes ditatoriais de partido único; 3) a estratégia internacionalista não teve maior importância; ao contrário, predominou um intenso nacionalismo, com excepção da revolução cubana nos seus primeiros anos»77.

Mas as revoluções, prossegue o autor, são determinantes para explicar as reformas: «Somente quando estiveram ameaçadas seriamente pelo perigo revolucionário – como pela Comuna de Paris e pelas duas vagas revolucionárias que se seguiram à Revolução de Outubro na Rússia – os capitalistas aceitaram fazer concessões (…) O projecto histórico de reforma do capitalismo tem fracassado repetidas e incontáveis vezes»78. Esta afirmação é particularmente brutal hoje quando 1% da população tem a mesma riqueza dos restantes 99%.79A revolução russa sucumbiu ao Termidor Estalinista, mas não se pode misturar revolução – até 1927 – com contra-revolução, daí então. Estava tudo em aberto nos anos 20 da Europa do século XX, os germes da ditadura que se consolidou, a restauração do capitalismo que lhe seguiu, mas também a semente de uma sociedade igual e livre – permanece hoje em aberto, ou seja, histórico.

1Condition of the Industrial Classes of Foreign Countries, Reports from her majesty’s Diplomatic and consular agents abroad, Houses of the Parliament, 1870; London, Harrison and Sons, 1870 (International Institute for Social History, Archives).

2Peter Laslett, O Mundo que nós Perdemos, Lisboa, Edições Cosmos, 1975, p. 223.

3Robert O. Paxton, Europe in the Twentieth Century, Orlando, Harcourt, 1997, p. 14.

4Robert O. Paxton, Europe in the Twentieth Century, Orlando, Harcourt, 1997, p. 19.

5Robert O. Paxton, Europe in the Twentieth Century, Orlando, Harcourt, 1997, p. 4

6Chris Harman, A Peoples’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 449. (tradução nossa)

7Osvaldo Coggiola, História do Capitalismo (para publicação) https://raquelcardeiravarela.files.wordpress.com/2014/11/ocogg-histe280a1ria-do-capitalismo1.pdf acesso em 12 de Maio de 2017.

8 A França perde os territórios da Alsácia e Lorena em 1871 na sequência da derrota face à Alemanha na guerra franco-prussiana.

9Chris Harman, A Peoples’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 409.

10 Rosa Luxemburgo (1871-1919) nasceu na Polónia e morreu assassinada em Berlim. Líder da social-democracia alemã e polaca, fiel ao Internacionalismo dos finais do século XIX, Rosa notabilizou-se pela sua tese sobre o militarismo, os estudos de O Capital, e pela liderança contra a guerra, quando o seu partido apoiou-a. Em 1915 fundou com Karl Liebknecht a Liga Spatarquista e em 1919 o Partido Comunista Alemão. Embora contra o levantamento de Janeiro de 1919, que se iniciou sem o seu conhecimento, Rosa vai assumir a liderança. Será por isso assassinada com a complacência dos sociais-democratas pelos Freikorps, milícias nacionalistas.

11Rosa Luxemburgo, Textos Escolhidos, Volume II (1914-1919), São Paulo, Editora UNESP, 2011, p. 17.

12Chris Harman, A Peoples’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 405.

13Victor Serge, O Ofício de Revolucionário, Lisboa, Moraes Editora, p. 62.

14William Pelz, História do Povo na Europa Moderna, Lisboa, Objectiva, 2016, p. 189.

15Chris Harman, A Peoples’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 406. Ver também William Pelz, História do Povo da Europa Moderna, Lisboa, Objectiva, 2016.

16Howard Zinn, The Peoples History of United States, New York, HarperCollins, 2003, p. 364.

17Chris Harman, A Peoples’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 406-407.

18Chris Harman, A Peoples’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999.

19Robert O. Paxton, Europe in the Twentieth Century, Orlando, Harcourt, 1997, p. 22.

20Wendy Goldman, Mulher, Estado e Revolução, São Paulo, Boitempo, 2014.

21Chris Harman, A Peoples’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 408.

22William Pelz, História do Povo na Europa Moderna, Lisboa, Objectiva, 2016, p. 206.

23Robert O. Paxton, Europe in the Twentieth Century, Orlando, Harcourt, 1997, p. 8.

24Peter Laslett, O Mundo que nós Perdemos, Lisboa, Edições Cosmos, 1975.

25Stewart Player, Colin Leys, “A mercantilização dos cuidados de saúde: o NHS do Reino Unido e o Programa de Centros de Tratamento do Sector Independente”, in Raquel Varela, Renato Guedes, coord, História do Serviço Nacionla de Saúde em Portugal: A saúde e a Força de Trabalho, do Estado Novo aos nossos dias, Ordem dos Médicos/UNL, Lisboa, 2016, pp. 204-223.

26Peter Laslett, O Mundo que nós Perdemos, Lisboa, Edições Cosmos, 1975, p. 223.

27Manuel Couret Branco, Economia Política dos Direitos Humanos, Lisboa, Sílabo, 2012.

28Dick Geary, European Labour. Politics From 1900 to the Depression, New Jersey, Atlantic Highlands, 1991, p. 1.

29Robert O. Paxton, Europe in the Twentieth Century, Orlando, Harcourt, 1997, p. 27.

30Robert O. Paxton, Europe in the Twentieth Century, Orlando, Harcourt, 1997, p. 28.

31 Escrito em 1915 para os Wobblies. Tornou-se famosa na voz de Pete Seeger.

32 A letra foi escrita em 1871 por Eugène Pottier, membro da Comuna de Paris e musicada em 1888 por Pierre De Geyter.

33Howard Zinn, The Peoples History of United States, New York, HarperCollins, 2003, p. 367-368.

34William Pelz, História do Povo na Europa Moderna, Lisboa, Objectiva, 2016, p. 207.

35 Referência ao romance em parte auto biográfico do escritor norte-americano Ernest Hemingway, que deserta na I Guerra Mundial, em Itália.

36Pierre Broué, História da Internacional Comunista 1919-1943, Ascenção e Queda, São Paulo, Sundermann, 2007, p. 37.

37Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo II, Parte I e III\, São Paulo, Sundermann, 2007, p. 1083.

38Eric Hobsbawm, Nações e Nacionalismos desde 1870, São Paulo, Paz e Terra, 2º edição, 1998, p. 32.

39 A Comuna de Paris ficou circunscrita a uma cidade.

40Angelo D’Orsi, 1917. O Ano que Mudou o Mundo, Lisboa, Bertrand, 2017, p. 103.

41Osvaldo Coggiola,História do Capitalismo (para publicação) https://raquelcardeiravarela.files.wordpress.com/2014/11/ocogg-histe280a1ria-do-capitalismo1.pdf acesso em 12 de Maio de 2017, p. 836.

42 Vladimir Lenine, «Informe sobre a revolução de 1905», em Obras Completas, Vol. XXIV, p. 274, cit in Arthur Rosenberg, História do Bolchevismo, Belo Horizonte, Oficina dos Livros, 1989, p. 121.

43Roger Garaudy, Lembra-te! Breve História da URSS, Porto, campo das Letras, 1995, p. 15.

44Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I, Parte I, São Paulo, Sundermann, 2007, p.

10. É assim que o futuro líder do exército vermelho define uma revolução. A obra mais importante da historiografia da revolução russa é sem dúvida a do seu dirigente, Leon Trotsky, a História da Revolução Russa. Banida de tantas universidades por ser considerada «política», ela figura como central ainda hoje nos grandes cursos de História das mais importantes faculdades dos países centrais, a começar pelos EUA onde está na bibliografia do MIT, por exemplo.

45Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I, Parte I, São Paulo, Sundermann, 2007, p. 10.

46Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I, Parte I, São Paulo, Sundermann, 2007.

47 Sobre esta Teoria ver Álvaro Bianchi, «O Primado da Política: Revolução Permanente e Transição» in Outubro, nº. 5, pp. 101-115; e George Novack, O Marxismo e o Desenvolvimento na Natureza e na Sociedade, Porto, Ediciones Pluma, 1974.

48 Para além da teoria do desenvolvimento desigual e combinado de Trostky, a teoria do sistema mundo de Wallerstein vai ser determinada pela teoria da dependência (por exemplo A. Gunterfrank) e Braudell.

49Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I, Parte I, São Paulo, Sundermann, 2007, p. 19-22.

50George Novack, O Marxismo e o Desenvolvimento na Natureza e na Sociedade, Porto, Ediciones Pluma, 1974, p. 37.

51 Moshe Lewin, Le Dernier Combat De Lénine, Paris, Syllepse, 2015.

52Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I, Parte I, São Paulo, Sundermann, 2007, p. 68.

53Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I, Parte I, São Paulo, Sundermann, 2007, p. 72.

54 William Henry Chamberlein, The Russian Revolution, vol 1, New York, 1935, p. 112, cit in Robert O. Paxton, Europe in the Twentieth Century, Orlando, Harcourt, 1997, p. 131.

55Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I, Parte I, São Paulo, Sundermann, 2007, p. 204.

56Charles Tilly, Las Revoluciones Europeas, 1492-1992, Barcelona, Crítica, 1995, pp. 26-27.

57Valério Arcary, As Esquinas Perigosas da História. Situações Revolucionárias em Perspectiva Marxista, São Paulo, Xamã, 2004, p. 98.

58Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I, Parte I, São Paulo, Sundermann, 2007, p. 931.

59John Reed, Dez Dias que Abalaram o Mundo, Lisboa, Europa-América, 1976, p. 48.

60 p. 842 Vol III.

61Osvaldo Coggiola, História do Capitalismo (para publicação) https://raquelcardeiravarela.files.wordpress.com/2014/11/ocogg-histe280a1ria-do-capitalismo1.pdf acesso em 12 de Maio de 2017, pp. 295-296.

62Kevin Murphy, Revolution and Counterrevolution, New York/Oxford, Berghahn Books, 2007, p. 225.

63Kevin Murphy, Revolution and Counterrevolution, New York/Oxford, Berghahn Books, 2007, p. 226.

64Wendy Goldman, Mulher, Estado e Revolução, São Paulo, Boitempo, 2014.

65 Charles Tilly, Las Revoluciones Europeas, 1492-1992, Barcelona, Crítica, 1995, pp. 26-23. (TILLY, 1995)

66Victor Serge, Ano Um da Revolução Russa, Lisboa, Edições Delfoes, 1975, p. 15.

67Pierre Broué, O Partido Bolchevique, São Paulo, Sundermann, 2014, p. 321.

68Rosa Luxemburgo, Textos Escolhidos, Volume II (1914-1919), São Paulo, Editora Unesp, 2011, p. 17.

69Robert O. Paxton, Europe in the Twentieth Century, Orlando, Harcourt, 1997, p. 11.

70Victor Serge, Ofício de Revolucionário, Rio de Janeiro, Moraes Editora, p. 108.

71Osvaldo Coggiola, As Grandes Depressões, São Paulo, Alameda, 2009, pp.10-11.

72 Osvaldo Coggiola, As Grandes Depressões, São Paulo, Alameda, 2009, pp.10-11. (COGGIOLA, 2009)

73Chris Harman, A People’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 409.

74Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket books, 2016.

75Karl Marx, Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, Coimbra, Nosso Tempo, 1974.

76Valério Arcary, As Esquinas Perigosas da História. Situações Revolucionárias em Perspectiva Marxista, São Paulo, Xamã, 2004, p. 104.

77Valério Arcary, As Esquinas Perigosas da História. Situações Revolucionárias em Perspectiva Marxista, São Paulo, Xamã, 2004, p. 98.

78Valério Arcary, O Encontro da Revolução com a História, São Paulo, Sundermann, 2006, p. 296.

79 «1% da população global detém mesma riqueza dos 99% restantes, diz estudo», In BBC News, 18 de Janeiro de 2016, http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn acesso em 29 de Julho de 2017.

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Recebido: 07 de Agosto de 2017; Aceito: 31 de Agosto de 2017

Raquel Varela IHC-Universidade Nova de Lisboa; Professora visitante na Universidade Federal Fluminense; International Institute for Social History. E-mail: Raquel_cardeira_varela@yahoo.co.uk.

A autora é a única responsável pela redação do artigo.

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