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Almanack

versão On-line ISSN 2236-4633

Almanack  no.25 Guarulhos  2020  Epub 07-Set-2020

https://doi.org/10.1590/2236-463325ea00619 

Artigo

JUAN BAUTISTA ALBERDI E O IMPÉRIO DO BRASIL OLHARES CRUZADOS SOBRE A CONSTRUÇÃO DAS NAÇÕES NO SÉCULO XIX

JUAN BAUTISTA ALBERDI Y EL IMPERIO DEL BRASIL IRADAS CRUZADAS SOBRE LA CONSTRUCCIÓN DE LAS NACIONES EN EL SIGLO XIX

Maria Elisa Noronha de Sá1  2
http://orcid.org/0000-0002-9408-4975

1Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil.


Resumo

O artigo analisa os escritos de Juan Bautista Alberdi sobre o Império do Brasil na chave da História Intelectual e das Histórias Cruzadas, com a intenção de explorar os efeitos dos “olhares cruzados” para a construção das representações identitárias e das nações da Argentina e do Brasil no século XIX. A análise explora as visões de Alberdi sobre o Império em dois momentos: os anos 1840/50, do seu exílio no Chile, e os anos 1860/70, da Guerra do Paraguai, seu entrelaçamento com seu projeto de nação e com as questões das políticas interna e externa argentinas. O texto centra-se na exploração das mudanças nas imagens, olhares e visões desse autor sobre o Império do Brasil ao longo de sua vida e seu entrelaçamento com o projeto de nação elaborado por ele para a República Argentina, e com as questões das políticas interna e externa desses países.

Palavras-chave : Brasil (Império do); Argentina (Republica); nação; século XIX; Paraguai (Guerra do); Juan Bautista Alberdi

Resumen

El artículo analiza los escritos de Juan Bautista Alberdi sobre el Imperio del Brasil en la clave de la Historia Intelectual y de las Historias Cruzadas, con la intención de explorar los efectos de las “miradas cruzadas” para la construcción de las representaciones identitarias y de las naciones de Argentina y Brasil en el siglo XIX. El análisis explora las visiones de Alberdi sobre el Imperio en dos momentos: los años 1840/50, de su exilio en Chile, y los años 1860/70, de la Guerra del Paraguay, su entrelazamiento con su proyecto de nación y con las cuestiones de las políticas interna y externa argentinas.

Palabras clave : Brasil (Imperio del); Argentina (República); nación; siglo XIX; Paraguay (Guerra del); Juan Bautista Alberdi

Abstract

This article analyzes the writings of Juan Bautista Alberdi about the Empire of Brazil from the viewpoint of Intellectual History and Crossed Histories. Its intention is to explore the effects of such “crossed views” for constructing representations of identity and of Argentina and Brazil as nations in the 19th century. It explores Alberdi’s views about the Empire on two occasions: the years 1840/50, of his exile in Chile, and the 1860’s/70s, of the Paraguayan War. The paper focuses on his changing images and views about the Empire of Brazil throughout his life, in addition to their interweaving with the nation-project he developed for the Argentine Republic, and with the domestic and foreign policy issues of these countries.

Keywords : Empire of Brazil; Argentine Republic; Nation-building; 19th century; Paraguayan War; Juan Bautista Alberdi

Introdução

O interesse pelo tema dos “olhares cruzados” que envolvem inúmeros letrados latino-americanos que empreenderam viagens, viveram experiências de exílio ou simplesmente demonstravam interesse por assuntos que envolviam o Império do Brasil sempre foi uma constante para quem se dedica ao estudo da História Intelectual comparada ou aos subgêneros dentro da História Intelectual que nas duas últimas décadas vêm se consolidando como importantes espaços de interrogação histórica: o das histórias transnacionais, das histórias cruzadas e das conexões culturais. Há muito sabemos da intensa circulação que havia entre esses letrados, políticos, viajantes, publicistas e cientistas nas Américas no século XIX. Circulação esta que implicava não só deslocamentos espaciais, mas também a formação de espaços de sociabilidade nos quais as ideias circulavam, eram apropriadas e resignificadas, em um contexto muito especial e específico de construção de nações e de formação de novas identidades. Sabemos também o quanto o Império do Brasil, por ter vivido um processo de independência marcado por algumas singularidades, por ter se tornado a única monarquia constitucional das Américas e por ter conservado a escravidão como um de seus pilares, se constituiu em objeto de curiosidade, interesse e estudo para a Hispano América no século XIX.

Nos últimos vinte anos tem ganhado cada vez mais espaço entre os historiadores, a discussão em torno de enfoques que pretendem ir além das fronteiras nacionais estabelecidas pelo Estado-nação moderno. O debate tem questionado as propostas da mais tradicional História Comparada e abarcado mais recentes concepções como as Histórias Conectadas, a História Transnacional3 e as Histórias Cruzadas. Penso que essa crítica ao nacional encontra na historiografia do século XIX um campo mais do que profícuo. Estudar aquele tempo de “nacionalidades flutuantes”, quando as ideias e projetos de nação estavam sendo gestados e experimentados, quando as fronteiras do nacional eram fluidas, impõe ultrapassar a visão tradicional de uma história comparada que parta do nacional4.

Daí a escolha pelo enfoque das Histórias Cruzadas, um enfoque historiográfico que permite lidar com “procedimentos relacionais”5, entendidos aqui como aqueles que se encaminham para além das tradicionais abordagens historiográficas e atentam para os gestos historiográficos da comparação, do cruzamento, da interconexão e ultrapassagem dos limites nacionais na escolha e no trato dos objetos historiográficos.6 Em um trabalho como este em que se pretende estabelecer a circulação de ideias, de pessoas e de olhares, a noção de interseção torna-se central porque rompe com uma perspectiva unidimensional, simplificadora e homogeneizadora, em defesa de uma abordagem multidimensional que reconheça a pluralidade e as relações complexas que daí resultem. A escolha do enfoque das Histórias Cruzadas mostra que, mais do que insistir na comparabilidade dos objetos, a pesquisa está preocupada com as percepções recíprocas ou assimétricas, com os processos entrelaçados que se constituem um ao outro, com as influências mútuas.7

O foco nas interconexões, cruzamentos e nexos existentes entre intelectuais, letrados, suas redes e ideias, tem demonstrado que, contrariamente a uma visão muito difundida entre historiadores, ensaístas e estudiosos brasileiros, que insistem em negar a existência de importantes contatos e trocas culturais entre o Brasil e seus vizinhos hispano-americanos durante o século XIX, nossos intelectuais, periodistas e políticos sempre olharam para os povos vizinhos do continente, com quase tanto interesse e insistência quanto o faziam com relação à Europa ou aos Estados Unidos. Esses estudos também têm chamado a atenção para o papel crucial que o esforço para contrastar a própria experiência com aquelas de povos ao mesmo tempo tão parecidos e tão diferentes, teve na construção da própria autoimagem nacional dos brasileiros. E mais, permitem pensar a construção de um discurso sobre a existência de uma identidade regional que transcenderia as fronteiras de cada nação e que, sem deixar de lado a consolidação de estados-nação com suas respectivas identidades, na segunda metade do século XIX, reconstrói a emergência de um discurso identitário alternativo, centrado na possibilidade de uma identidade latino-americana ou sul-americana compartida8.

A partir desse enfoque o artigo analisa os escritos de Juan Bautista Alberdi sobre o Império do Brasil com a intenção de explorar os efeitos dos “olhares cruzados” para a construção das representações identitárias e das nações da Argentina e do Brasil no século XIX. O texto explora as visões de Alberdi sobre o Império em dois momentos: os anos 1840/50, do seu exílio no Chile, e os anos 1860/70, da Guerra do Paraguai. A análise do conjunto da documentação pelo viés da História Intelectual permite centrar o trabalho na exploração das mudanças nas imagens, olhares e visões desse autor sobre o Império do Brasil ao longo de sua vida e seu entrelaçamento com o projeto de nação elaborado por ele para a República Argentina, e com as questões das políticas interna e externa desses países. Neste sentido, o foco principal da análise está nos debates sobre os projetos de Estado e de nação pensados neste longo período que vai das primeiras décadas após as revoluções de independência até a consolidação destes modelos na segunda metade do séc. XIX, - suas permanências, mudanças, novidades e ressignificações - que implicaram a construção de um novo vocabulário político e transformaram a América no maior laboratório político deste século9.

A pesquisa10 e os resultados apresentados neste artigo reforçam também a hipótese de que o Rio de Janeiro, por ser a capital do Império do Brasil, seu porto mais importante e passagem obrigatória nas rotas dos navios a vapor que faziam as viagens da América para a Europa e Estados Unidos, e vice-versa, constituiu-se em um importante centro e polo de atração e de circulação das elites letradas latino-americanas daquele período. Deve-se ressaltar ainda que existem muitos estudos sobre as viagens de Sarmiento aos Estados Unidos, à Europa e à África, mas, com raras exceções, há muito pouca coisa escrita sobre suas viagens ao Brasil e muito menos sobre as viagens e exílios de outros letrados argentinos dessa Geração11 em nosso país. Também com relação aos exílios dos opositores a Rosas nesse período, muito se fala de Montevidéu e Santiago, mas quase nunca se destaca o Brasil, especialmente o Rio de Janeiro, como um destino importante.

Juan Bautista Alberdi pertenceu à chamada Geração de 37 na Argentina12, da qual faziam parte, entre outros, Juan Maria Gutiérrez, Esteban Echeverría, Vicente Fidel López e Sarmiento, que se conformou durante o período em que Juan Manuel de Rosas governou a República do Prata (1829-1852), e caracterizou-se pela ferrenha oposição a este governo. Essa Geração Romântica é considerada o primeiro movimento intelectual em busca de uma identidade nacional argentina. Possuidores, no início, de uma coesão grupal e de um grau de institucionalização inusitados para a época e para a região, como chama atenção Jorge Myers13, definiram-se como um “partido” literário e intelectual, que se imaginava com capacidade para substituir os autênticos partidos que até então disputavam o poder. Seus membros consideravam que sua missão consistia em completar no plano intelectual a revolução que nos planos material e político havia sido realizada pela geração anterior. “Por terem nascido quase todos eles entre 1805 e 1821, puderam conceber a si mesmos como filhos da Revolução de Maio, a quem era conferida uma missão providencial: o desenvolvimento e a implementação da segunda fase da Revolução de independência, a renovação nas ideias que devia suceder a revolução pelas armas, e cujo sentido central seria definir a nova identidade nacional em termos de valores revolucionários”14. Assim, diferentemente dos insurgentes de 1810, os homens de 1837 mostravam uma grande confiança nas ideias, como um ponto de partida importante para reformar a Argentina. Em toda obra desses escritores, a nação aparecia como problema comum e central, questão tipicamente romântica e própria de um país novo, cuja tarefa principal era alcançar um conhecimento adequado de sua própria realidade, para assim poder definir sua identidade nacional15.

1. Alberdi e o Império do Brasil nos tempos do exílio no Chile (anos 1840/1850)

1.1 “En Río de Janeiro”: a caminho do exílio

As primeiras referências ao Brasil nos escritos de Juan Bautista Alberdi aparecem no relato sobre a sua volta à América do Sul, em direção ao exílio no Chile, depois de uma primeira viagem à Europa, quando chega ao Rio de Janeiro, em meados de dezembro do ano de 184316. O manuscrito original está num libreto de capa azul, pertencente ao Archivo Alberdi, que se encontra na Biblioteca Furt, na Estancia Los Talas, em Luján na Província de Buenos Aires17. Não se trata de um diário no sentido estrito da forma, mas de anotações, fragmentos e observações sem plano fixo e de natureza bastante íntima. São escritos de viajero, na maioria inéditos, e que ressoam na intimidade as características do escritor romântico que ele foi: a sinceridade, a eloquência, o tom confessional e a desinibição ao falar de suas emoções18.

Esses relatos de viagens remontam a um gênero consolidado no mundo ibero-americano - os guias e almanaques destinados aos viajantes-, e se inscrevem numa larga tradição de cultura de viagem19 cujos itinerários estavam determinados por uma clara demarcação entre um dentro - seu lugar e cultura de origem - e um fora - tudo aquilo que permanecia alheio a essa origem. Neste sentido, as viagens e as narrações das viagens que se produzem em momentos de experiência tão radical quanto estes de exílio e nestes específicos contextos fluidos de construção dos estados nacionais estão marcadas de modo complexo, tortuoso e às vezes enigmático, pela ambivalência identitária que habita tanto o viajante como os territórios culturais pelos quais transita20.

O Alberdi presente nesse primeiro conjunto de documentos datados dos anos 1840 é um Alberdi jovem que, exilado primeiro em Montevidéu, entre novembro de 1838 e abril de 1843, e depois no Chile, fazia oposição ao governo de Juan Manuel de Rosas, no poder na República Argentina desde 1829. Diferente do segundo momento que será tratado na segunda parte do artigo, quando já é um homem maduro e, morando em Paris, lograva o reconhecimento da integridade política e territorial argentina, a amizade das potências europeias e convivia com os altos dignitários do Império francês, das monarquias da Inglaterra e Espanha e da corte Pontifícia.

Alberdi foi um homem que viveu a maior parte da sua vida longe da Argentina, vida que ele mesmo caracterizou em sua Autobiografía como “la de un ausente que no ha salido de su país21”. Para ele não importava que ao longo de muitas décadas tivesse vivido em outros países e constantemente se encarregou de deixar claro que seu pensamento esteve sempre e exclusivamente dedicado à Argentina. Julgava que a ausência era condição necessária para poder pensar com liberdade, dado o clima de intolerância existente nas províncias argentinas. Por isso acreditava que seus escritos tinham algum valor, pois haviam sido elaborados em liberdade. Para ele parecia uma sina das jovens nações americanas o fato de que cada país tivesse sua “tribuna política e literária na República vizinha”. Nesse sentido, considerava inevitável sentir-se obrigado a fazer parte dessa especial entidade intelectual que engenhosamente denominava “la provincia nómada y flotante22” dos emigrados. E é essa condição de expatriado, de estrangeiro em relação à sua própria pátria que torna seu olhar especialmente privilegiado no processo de construções identitárias das novas nações que estavam se constituindo nas Américas ao longo do século XIX.

Apesar de desembarcar no Brasil pela primeira e única vez, no Rio de Janeiro, no final de 1843, numa tarde chuvosa e descrever seu estado de solidão, melancolia e incertezas, não deixou de notar e registrar a beleza dos acidentes geográficos que formavam a baía. Hospedou-se no Hotel Europa e logo procurou se informar sobre os argentinos que moravam na cidade. Surpreendeu-se com a informação de que havia muitos deles e, em especial, com a notícia de que o poeta José Mármol, seu companheiro da Asociación de Mayo, morava neste mesmo hotel e que Bernardino Rivadavia, antigo dirigente unitário, encontrava-se, por vontade própria, isolado em sua casa e sem receber visitas.

Neste primeiro relato a cidade é descrita como um caos de fulgurantes cores e sons. As ruas são estreitas e retas, à noite são escuras e de dia são festivas e ruidosas com uma profusão de sons de diferentes instrumentos: órgãos, pianos, clarinetes e flautas que produzem um “furor filarmônico”. O sol dos trópicos lhe parece devorador e o calor é comparado algumas vezes ao calor do corpo de uma mulher “dulce y destruidor”23, outras ao inferno. Fala mal das frutas que são vendidas nas ruas, cujos cheiros são comparados algumas vezes ao suor dos escravos. Diz que o Rio de Janeiro “es la ciudad romántica por excelencia”24, que está plantada sobre a mais bela e magnífica desordem, em meio a morros onde são construídos edifícios e quintas.

As impressões sobre o povo são sempre muito negativas e alternam descrições das suas características físicas com comentários sobre seus costumes e cultura. O povo brasileiro lhe pareceu pobre, mesquinho e triste. A mulher é negra, pequena, fraca, mal configurada e sem graça, só tendo de bonito “os olhos da mulher tropical”. Sobre a condição feminina nota que a mulher é um ente degradado, abjeto e o mais infeliz do mundo neste país pois vive submetida ao despotismo e à tirania de seus maridos.

O clima, tema ao qual voltará recorrentemente em suas análises sobre o Brasil, faz com que os homens e as mulheres sejam pequenos, malformados, pálidos, fracos, e tenham um porte lânguido, sem vigor. Além disso obriga os habitantes a viverem em campanha aberta contra os inúmeros achaques físicos que continuamente os acometem como bichos, erisipelas, erupções, inchaços, etc. Somente os negros, que desempenham toda a força mecânica e material na indústria e na agricultura, suportam seus efeitos.

Sobre a escravidão e a raça negra diz:

Es la de este país, una raza impotente y flaca, que no pudiendo bastarse a si misma, ha encontrado en un crimen la solución del problema de su vida: ha buscado en el ardiente clima de África, una raza salvaje, la ha esclavizado y echo su instrumiento, hasta moverse por sus pies y hacerlo todo por sus manos25.

Nota que no Brasil o negro é ao mesmo tempo o ser mais desgraçado e feliz, pois serve alternadamente de instrumento de deleite e gozo carnal e também de vítimas de assassinato e de trabalhos de besta. Além disso, os negros escravos são empregados em todas as tarefas. A convivência estreita e sob o mesmo teto das duas raças - a branca e a negra, é, segundo Alberdi, o que faz com que os negros, ao invés de aprenderem com os brancos, acabem impondo seus hábitos, contagiando-os com sua barbárie. Os mulatos formam uma classe intermediária e ascendente, são clérigos, advogados, juízes e médicos.

Alberdi critica os brasileiros por cultuarem tudo o que é francês, mas diz que nem isso fazem bem, pois parecem tudo menos franceses; “Los brasileros son los macacos de los franceses”26. Descreve-os como sérios, cerimoniosos e marcados por um traço pretensiosamente aristocrático. Todos têm um coche, escravos e lacaios, mas suas casas são sujas e pobres. Vivem de aparências.

Após assistir a uma missa cantada na capela do imperador, descreve-o como “vulgar, mal configurado e rústico”, tendo sua figura lhe causado uma pobre impressão. O público, mal-educado, parecia estar em um concerto, dava as costas para o altar, conversava em voz alta sobre seus negócios e aplaudia em alguns momentos a música. Diz que a Corte e o cerimonial que o rodeiam tem muito de ridículo, pueril e feio. Compara esta cerimônia à “severidad y simplicidad de nuestras costumbres republicanas”27. Neste momento mostra-se bastante crítico com relação à monarquia, o que expressa no comentário: “La monarquia en América! Qué mejor desmentido contra la possibilidad de su existencia, que lo que se vé aqui?”28.

Em um dado momento abandona a escrita das suas impressões sobre o Brasil e faz reflexões sobre a situação da república Argentina sob o domínio de Rosas. Dizendo não ser unitário, critica o fato deste governante querer transformar suas ações em glórias nacionais que contribuam para o progresso e o bem do país, sem dar-lhe aquilo que mais necessita que são instituições estáveis e sólidas.

Esta foi a única vez que Alberdi veio ao Brasil e que escreveu a partir de uma experiência real com o Império. Em seu registro utiliza, como mecanismo para reforçar e ampliar a imagem negativa do Brasil, um discurso no qual ele relaciona o Rio de Janeiro (uma parte) com o todo que é o Império. Isso permite que ele faça suas observações colocando todo o território brasileiro dentro de sua experiência parcial, em outras palavras, generalizando-o sem ter o conhecimento mais detalhado sobre os costumes ou sobre sua organização social e demográfica. Ao longo de sua trajetória de vida ele não demonstrou nenhum interesse em conhecer com maior amplitude e detalhes o Império do Brasil. Essa é a tese da autora Lucila Pagliai que chama esta visão do tucumano de uma visão en bloque29.

Deve-se desde já salientar que nestas anotações de viagem do início do ano de 1843, aparecem no texto certos temas como a questão da escravidão, a monarquia decadente, o trópico e seu clima inóspito, que serão recorrentes nos escritos posteriores de Alberdi quando ele analisará as razões que poderiam explicar a política expansionista ou a vocação hegemônica do Império em relação aos seus vizinhos do Prata. Como veremos adiante nos textos em que é bastante crítico sobre a participação do Brasil na Guerra do Paraguai, estes temas aparecerão recorrentemente reformulados, aprofundados ou matizados em função tanto das motivações e intenções políticas do momento da escrita, quanto da forma da escrita empregada sejam elas ensaios, cartas privadas ou públicas, artigos de jornal, panfletos etc, para dar base a seus argumentos.

1.2 O exílio no Chile

Após cinquenta e um dias no Rio de Janeiro, ele parte para o Chile, no dia 6 de fevereiro de 1844. O clima da viagem deixou-o, segundo ele mesmo, letárgico e deprimido por sua condição de exilado e sem saber o que esperar do futuro. Foi durante esse período que produziu, como válvula de escape, um poema burlesco que mais tarde se tornaria uma peça de teatro intitulada Tobias o la cárcel a la vela30. Nele o Brasil é retratado de maneira bem mais branda e bem-humorada do que no relado de seu libreto.

Alberdi chega a Valparaíso no dia 15 de abril de 1844, iniciando seu longo período de exílio no Chile. Alguns dias depois faz sua estreia na imprensa chilena ao publicar o segundo conjunto de textos sobre o Brasil aqui analisados, os artigos escritos no El Mercurio de Valparaiso nos dias 21, 23 e 24 de abril de 1844, agrupados sob o título “El Imperio del Brasil y las Repúblicas Hispanoamericanas31.

Antes de iniciar a análise do conteúdo dos artigos é importante pensar na atuação de Alberdi e de outros exilados da Geração de 1837 argentina no ambiente intelectual chileno da época. Alberdi viveu durante onze anos no Chile, de abril de 1844 até abril de 1855. Depois de revalidar seu título de advogado ante a recém-criada Universidad de Chile, com a tese “Memoria sobre la conveniencia y objeto de un Congreso General Americano”32, começa a advogar em importantes casos em Santiago e em Valparaíso.

Ao mesmo tempo terá uma importantíssima atuação na imprensa chilena, contribuindo para a formação de uma opinião pública que podemos chamar de Transandina. Prolífico, escreveu mais de duzentos artigos em periódicos santiaguinos e de Valparaíso, onde residia. Junto com outros companheiros exilados como Domingo Faustino Sarmiento, enfronhou-se na política interna chilena, procurou estudar e compreender o país que os recebia. Sem dúvida essa experiência adquirida na discussão e formação de uma cultura política republicana e de livre comércio no Chile, serviu de base para a construção das ideias constitucionais que logo proporia para a República Argentina. O mais importante resultado foi seu livro Bases33, publicado logo após a queda de Rosas, em 1852. Esta capacidade de compreensão lhe valeu o oferecimento de vários cargos na administração pública chilena tanto por parte dos dirigentes desse país quanto, posteriormente, de governantes argentinos.

Alberdi, como vários companheiros de sua geração, tinha plena consciência do papel central da imprensa como veículo privilegiado na difusão de ideias e na formação da opinião pública no século XIX. Daí que seus artigos publicados em periódicos e revistas apareciam muitas vezes como uma série ou sequencia encadeada de argumentações que necessariamente terminavam em um escrito final de resumo e conclusões. Esse é o caso da série de artigos sobre o Império do Brasil que analisaremos aqui, publicados no El Mercurio de Valparaíso. Era comum também que, com o intuito de encontrar um lugar nesta sociedade e tornar suas ideias mais tangíveis, permanentes e presentes, os artigos já editados e publicados em periódicos e diários fossem compilados e impressos novamente em um folheto.

Ao chegar ao Chile, Alberdi se deparou com um periodismo combativo, efervescente, um “periodismo de ideias”, que ocupava um lugar central nas disputas políticas. O período que coincidiu com o exilio chileno de Alberdi é o das duas presidências de Manuel Bulnes (1841-1846 e 1846-1851), sucessor de Joaquín Prieto, cujo governo se caracterizou pela instalação de um modelo de administração que ele tomará como exemplo para definir a tarefa de um partido conservador americano. As discussões, as mudanças e os progressos desses governos eram transmitidos por meio de uma argumentação pública elaborada nos diários, revistas e periódicos. A imprensa nessa época atuava como arena do debate político partidário e esta era a razão de ser fundamental para sua existência. Até 1844, apesar do aparecimento fugaz de alguns diários, havia três periódicos solidamente estabelecidos: El Araucano, El Progreso e El Mercurio.

No que diz respeito ao El Mercurio, onde foram publicados os artigos sobre o Brasil, este era o mais importante dos diários chilenos em circulação. Fundado em 1827, pertencia desde 1842 a Santos Tornero, mas era, como a maioria das publicações da época, sustentado pela subscrição anual e oficial do Governo. Por sua redação e direção editorial passaram vários argentinos. Este foi, sem dúvida, o veículo de imprensa que acompanhou o tucumano nos momentos mais importantes de sua vida no Chile, apesar do papel central que teve o El Comercio de Valparaíso, fundado posteriormente por Alberdi, em 1847.

Há que se marcar também a singularidade da experiência que Alberdi viveu nesta etapa de exilio no Chile. Diferentemente do primeiro tempo de exilado vivido em Montevidéu, ele parecia estar mais atento às experiências políticas de construção, institucionalização da nação e progresso experimentados naquele país. O Chile já era naquele momento um Estado republicano consolidado institucionalmente, com uma constituição sancionada em 1833, muito distante da situação de instabilidade dos países do Prata. Além de tomar o exemplo constitucional chileno para pensar as propostas de Constituição para a Argentina, é nesse tempo que começa a formular o conceito de “governar é povoar” que aparecerá com tanta força no seu livro Bases. À teoria do transplante vital da Europa para a América, resultado de um gigantesco movimento populacional que transplantaria para essas novas terras os costumes necessários, se somará a defesa do estabelecimento de uma sociedade industrial e de livre comércio.

Nesta etapa de sua vida concentra a sua capacidade intelectual para dar continuidade ao seu projeto nacional, e para isso a queda de Rosas seria o primeiro passo. O aparente interesse do letrado argentino nessas publicações é alertar os países com fronteiras próximas da Argentina rosista para os perigos dos planos expansionistas do caudilho no continente sul-americano. Os exilados argentinos pareciam compartilhar de uma visão na qual o Império poderia ser um meio em potencial para os seus objetivos políticos nacionais, daí a possível razão para que sua primeira publicação no exílio tenha sido sobre o Brasil.

Deve-se ressaltar as complicadas relações do Império com o governo Rosas, envolvido desde 1839 na chamada Guerra Grande contra o governo de Rivera na República Oriental do Uruguai. Durante o conflito, em fevereiro de 1843, Rosas iniciou o cerco à cidade de Montevidéu que duraria nove anos (até 1851). Neste período o Uruguai ficou dividido em dois governos: Montevidéu sob o poder do Partido Colorado e de Rivera, que formavam o “Gobierno de la Defensa”, apoiado pelos exilados argentinos, pelos unitários e por ingleses e franceses; e o resto do país dominado por Oribe e os Blancos, que formavam o “Gobierno del Cerrito”, apoiado por Rosas.

O Império viveu durante esse período um grande dilema. O Brasil não só reconhecia o governo de Rivera, cercado em Montevidéu, como o único legítimo, como também via nele a única possibilidade de manter a independência do Uruguai, ameaçada por Rosas e seu aliado Oribe. Por outro lado, este mesmo Rivera, desde 1836, estava aliado aos rebeldes Farroupilhas do Rio Grande do Sul, que constituíam uma séria ameaça ao governo brasileiro. Os conflitantes interesses em ao mesmo tempo lutar pela pacificação da revolta rio-grandense e manter a independência do Uruguai diante da ameaça expansionista de Rosas, explicam a posição de neutralidade, tão criticada pelos exilados argentinos, mantida pelo Império diante das lutas na região platina. Nesses anos iniciais da década de 1840, quando as forças políticas conservadoras procuravam afastar os fantasmas da dissolução territorial vivido no tempo das regências, interessava mais que tudo ao governo brasileiro pacificar a província do Rio Grande. Para tal tarefa precisava contar com a boa vontade ou ao menos com a neutralidade de Oribe e Rosas, mas não deixava de ver com preocupação o crescimento do poder do governador de Buenos Aires e a extensão deste poder ao Estado Oriental.

É neste contexto de imbricadas e complexas relações entre os países da América do Sul que devemos analisar a série de artigos agrupados sob o título El Imperio del Brasil y las Repúblicas Hispanoamericanas. Estes trazem uma marca muito distinta dos escritos de viagem, de natureza privada, sobre sua passagem pelo Brasil, em janeiro de 1844. Aqui Alberdi assume uma atitude pública favorável ao Império ao analisar a posição do Brasil monárquico no contexto republicano sul-americano.

Ele inicia o primeiro dos artigos, datado de 21 de abril de 1844, com a demonstração da importância da localização geográfica do Império no continente sul-americano e da necessidade da criação de um congresso continental, que abarcasse todas aquelas jovens nações. Chama a atenção para a necessidade do fortalecimento de uma consciência pan-americana, algo que naquela conjuntura parecia avançado em relação àquele tempo e defendia que uma relação diplomática entre as repúblicas e o Império seria benéfico para todos os Estados com proximidade territorial. Chega a mencionar uma espécie de “lei” envolvendo as relações internacionais entre os Estados europeus e de como a mesma funcionava como base para a interação da política internacional no Velho Mundo, o que deveria servir de exemplo para a América.

Ressalta em seguida, o caráter civilizado, pacífico e conservador do Estado brasileiro em oposição à política armada das repúblicas do Prata. Explicita uma interessante posição em relação ao regime monárquico pensado como forma de governo, que retornará com força em seus escritos da maturidade. Ele afirma que a monarquia em si não é um regime vergonhoso e que a prova disso é que os governos mais altamente colocados em consideração naquele momento no mundo eram as monarquias inglesa, francesa, austríaca etc. Além disso, lembra que a Revolução Americana de 1810 em sua origem foi menos um movimento republicano do que um pensamento de emancipação e que a prova disso é que muitos dos atores que dela participaram pensaram em adotar a monarquia como forma de governo. A questão de forma era, pois, subalterna naquele contexto, o mais importante era a luta contra a “humilhante, injusta e abominável dominação espanhola a que estavam submetidos os povos americanos”. “Ser libre era su voto franco y uniforme, poco importaba bajo qué régimen”34. Por essas razões Alberdi não via motivos para críticas à monarquia brasileira ou justificativas para aqueles que associavam esta forma de governo à falta de liberdade política como se esta fosse própria apenas de regimes republicanos.

Ao abordar a questão da escravidão, prática sempre condenada por ele, é, neste momento, suave em seu posicionamento ao dizer que apesar dela existir no Brasil, sua presença não tira a legitimidade da liberdade política existente no país. Como se pretendesse amenizar seu argumento diz que “La esclavitud civil de una cierta casta traída de fuera no desmente el hecho de su libertad política; pues el mismo fenómeno existe en los Estados Unidos de Norte América, donde hay siete veces más esclavos civiles que en el Brasil”35. O letrado parece aqui se distanciar de seus verdadeiros sentimentos em relação ao Brasil em prol de sua causa política.

O esforço de exame comparativo engendrado por Alberdi neste primeiro artigo é um notável exemplo do procedimento dos “olhares cruzados” e de uma visão transnacional que permitia a esses letrados ao pensar um outro aparentemente tão distinto quanto o Império do Brasil, elaborar seus projetos de nação. Neste sentido ele conclui:

El movimiento revolucionario buscaba el triunfo del derecho de propriedad, del derecho de escribir, de hablar publicamente, de elegir, de peticionar, de adquirir. Muy tarde iria pues, a proclamar estas cosas en el Brasil, pues ya todas ellas están cansadas de existir allí. En una palabra, el símbolo de la revolución se decía serlo también del progresso y de las mejoras sociales. Pero quién ignora, pues, que allí tienen culto universal la civilización, el progreso, y las instituciones. Se buscaba un cambio político, los brasileños la han llevado a cabo también. (...) Se proclamaba la independencia: los brasileños la han proclamado también. Se arrojaba fuera los poderes extranjeros: los brasileños han realizado la misma expulsión. Se elevaban nuevas naciones: los brasileños han levantado una nueva y brillante asociación política. No están, pues, ellos perfectamente iguales a este respecto con los hijos de los estados republicanos?36

No segundo artigo, de 23 de abril de 1844, Alberdi insiste na ideia de que, apesar dos brasileiros constituírem uma família inteiramente aparte e distinta da família hispano-americana, o poder monárquico do Brasil é tão americano quanto todos os outros poderes republicanos erigidos na América após a independência da Espanha. Aqui ele centra sua análise nas possíveis pretensões de Rosas de atacar o Império, no isolamento que isto traria para a Argentina e na impossibilidade de ele repetir no Brasil a ocupação e o cerco que mantinha em Montevidéu. Além disso, o Brasil tinha se mantido estável e sem guerras civis, era superior em população, no poder marítimo e teria certamente o apoio da Inglaterra com a qual mantinha importantes relações comerciais. Um conflito com o Império resultaria, portanto, em um enfrentamento com a marinha imperial, mais forte e com um posicionamento estratégico superior ao Uruguai e aos estados do Prata.

No último dos artigos, publicado em 24 de abril de 1844, ele coloca a República Argentina como principal antagonista da estabilidade do Cone Sul e analisa quais seriam as vantagens para o Império do Brasil de entrar em guerra contra o poder ditatorial de Rosas. Alberdi observa que falta ao Brasil o poder militar que as repúblicas hispano-americanas possuem pela sua paixão e experiência guerreiras, primeiro exercida contra a Espanha e depois nas constantes guerras civis em que estão mergulhadas. Ele acredita que as guerras serão inevitáveis e ajudarão a afirmar a nacionalidade de cada um destes nascentes estados. Por isso o Brasil precisa estar preparado para tomar parte nessas contendas e a guerra contra Rosas poderia ajudar a fazer crescer esse espírito guerreiro que lhe falta.

Outra vantagem para o Brasil do conflito contra Buenos Aires, seria o fato dessa situação gerar uma possibilidade de instabilidade doméstica e de dar um novo fôlego para o país desenvolver seus elementos estratégicos regionais. O artigo termina com um alerta sobre o perigo de Rosas ser vitorioso na Banda Oriental e estender seu poderio desde Montevidéu até as províncias brasileiras que tem contato com a bacia do Prata. A guerra contra o ditador poderia ainda obrigar o Império a libertar os escravos, medida que certamente seria tomada por Rosas. Enfim, estes seriam os justos motivos de alarme aos estados que anseiam pelo equilíbrio, base fundamental, segundo Alberdi, do sistema internacional americano.

Ao mencionar a figura do Imperador, é diplomático e razoável no retrato que faz dele. Aqui, em um claro contraste entre as facetas pública e privada de seus escritos, adjetivos como joven e lleno de esperanza substituem o “mal configurado” e “vulgar”, usados nas memórias da viagem ao Rio de Janeiro analisados anteriormente. Além disso, Alberdi tenta uma aproximação do leitor chileno em potencial com a sua causa, ao igualar as práticas e a figura de Rosas com a de Andrés de Santa Cruz e a Guerra da Confederação Peru-Boliviana37, na qual o Chile se envolveu e Santa Cruz foi derrotado. Afirma que Rosas pode ter o mesmo destino deste personagem ao tentar exercer a dominação sobre os novos Estados e que estes irão aplaudir a destruição de um sistema que tenta dar continuidade ao sonho mesquinho do general Bolívar de centralizar o poder sul-americano nas mãos de um só povo.

Interessante notar que Alberdi se apresenta para a imprensa chilena, como um connaisseur tanto da situação doméstica do Império, quanto de seus objetivos estratégicos relacionados à política externa. Ele tem plena consciência do papel da imprensa como campo de batalha política e mostra desde o início que vai utilizá-la para alcançar seus objetivos políticos. Neste caso o Império aparece como uma ferramenta bastante útil na sua tentativa de chamar a atenção para as ações de Rosas e de como estas poderiam afetar os Estados vizinhos.

Em outro documento, a sua tese publicada também em 1844, a Memoria sobre la conveniencia y objetos de un Congreso General Americano38, com a qual Alberdi obtém o título de advogado que permitirá a ele advogar no Chile, ele expõe as vantagens de uma relação positiva com o Brasil e volta a elogiar seu sistema de governo monárquico e o nível cultural de suas elites. Analisa ainda as vantagens de exercer uma política externa harmoniosa com o Império e aborda uma noção de cooperação internacional entre as jovens nações.

Essa tese teve alguma repercussão internacional e sua primeira parte foi traduzida e publicada na imprensa brasileira, em 1845, no jornal Ostensor Brasileiro, com o título de “Memória sobre a conveniência e objetos de hum congresso geral americano, lida ante a Faculdade de Leis da Universidade de Chile, para obter grao de licenciado, por J. B. Alberdi39. Com certeza esta é mais uma demonstração da intensidade da circulação de ideias entre as nações que estavam se constituindo e consolidando no continente americano.

2. Alberdi e o Império do Brasil nos escritos do Ciclo da Guerra do Paraguai (anos 1860)

Foi durante a década de 1860, que Juan Bautista Alberdi publicaria um novo ciclo de escritos combativos sobre o Brasil, nos quais agora atacava de maneira impiedosa o Império e o novo governo que se consolidou em Buenos Aires sob a liderança de Bartolomeu Mitre. Nestes textos criticava veementemente a Guerra do Paraguai (também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, Grande Guerra ou Guerra Guasú do Paraguai), o conflito mais longo e sangrento da história da América Latina. As partes beligerantes envolveram a Tríplice Aliança, composta pela Argentina mitrista, Brasil e Uruguai, contra o Paraguai sob a liderança de Solano López. Durou do final de 1864 a março de 1870, e provocou a morte de milhares de homens e mulheres em batalhas e epidemias, a maioria deles paraguaios. O Paraguai foi demograficamente e economicamente devastado e ocupado pelos aliados40.

O letrado argentino, agora com mais de cinquenta anos, vivia em Paris e encontrava-se em uma situação delicada. Destituído de seu cargo de ministro das Relações Exteriores da Confederação Argentina, o governo anterior lhe devia dois anos de salário no exercício deste cargo. A recusa de Bartolomeu Mitre em pagar-lhe seus soldos dificultou mais ainda seu regresso para a América do Sul. Amargo e frustrado investiu sua verve aguerrida na elaboração desses textos combativos.

Ao longo da guerra, ocorreu uma divisão de opiniões muito forte em relação ao conflito que pode ser notada no debate da imprensa argentina. A opinião pública do país se dividiu entre os que apoiavam o conflito e os que eram contra. Alberdi foi um dos mais ferrenhos opositores intelectuais da Guerra e combateu a postura mitrista perante a situação, manifestando-se por meio de periódicos portenhos como o La América e o La Unión Americana. Do lado oposto, Mitre e seus aliados lançaram-se em uma campanha na imprensa de demonização da figura de Solano López, construindo uma narrativa na qual os esforços de guerra seriam direcionados para a libertação do povo paraguaio das garras de seu tirano. Essa narrativa se utilizou e fortaleceu uma visão dualista presente no pensamento desses letrados que opunha uma nação civilizada a outra bárbara. Um discurso que apresentava, por exemplo, a Argentina como uma república desde o seu nascimento e o Paraguai como uma soma de tiranias cruéis, cujo ápice era o governo de Francisco Solano López41.

Esses escritos de Alberdi sobre a Guerra do Paraguai, publicados ao longo da década de 1860, foram reunidos em um único volume, editado em 1869, em Paris, sob o título El Imperio del Brasil ante la Democracia de America. Coleccion de los últimos Escritos dados à la luz por Don J. B. Alberdi42. Nele estão reunidos, entre outros, os seguintes textos mais especificamente relacionados à participação do Brasil na Guerra que serão aqui analisados: Las Disenciones de las Republicas del Plata y las Maquinaciones del Brasil, de março de 1865 e Los Intereses Argentinos en la Guerra del Paraguay con el Brasil, de julho de 1865.

O primeiro texto de tom quase panfletário foi o Las Disenciones de las Republicas del Plata y las Maquinaciones del Brasil. Inicialmente de natureza anônima, o autor tinha a intenção de, com essa estratégia, eliminar qualquer fator de ordem pessoal de sua análise expositiva, ou simplesmente evitar explanar a sua autoria para se guarnecer de ataques a seus escritos. Logo no início do prefácio Alberdi diz que estes escritos têm por objetivo resistir, protestar, e se opor ao plano tradicional do Brasil, “renovado esta vez con proporciones aterrantes, de reconstruir su imperio en detrimiento del pueblo, del suelo y del honor de las Repúblicas del Plata”43. Ele vê a guerra contra o Paraguai como uma grave ameaça da restauração dos Bourbons na América pelas mãos do Brasil, e, por isso, defende o seu fim. A recente nomeação que fez D. Pedro II do Conde d’Eu - um príncipe Bourbon, marido da sua filha a Princesa Isabel, herdeira do trono - como General em Chefe da campanha do Paraguai era a prova disso. Construir um trono na América do Sul com territórios conquistados a repúblicas que se emanciparam da dominação desta família em 1810, aparecia como uma restauração do governo derrotado pela Revolução de maio há sessenta anos. E a América podia ver nesta reaparição uma espécie de malfadada contrarrevolução monárquica:

La acción monarquista de la Europa, hará entonces su entrada en la parte de ese continente poblada de 24 millones de Americanos de orígen Español, por la peor de las aduanas, es decir, por intermédio de un país portuguez de raza, africano por su clima y por la gran massa de su pueblo, habitado apenas por dos millones de hombres de orígen europeo, y cuja sociedad está alojada en la institución de la esclavitud civil.44

Diz que essa guerra interessa mais ao Brasil que a seus vizinhos e discorre sobre as razões para isso. Primeiro o fato do Brasil não ser o país que pode dar aos povos do Prata os elementos de civilização e prosperidade que lhe faltam, pela sua condição de ex-colônia portuguesa e por necessitar também de população inteligente e trabalhadora, capitais, indústria, artes, ciências, manufaturas, máquinas, usos e inspirações de países mais cultos e adiantados em civilização. Tampouco pode o Império do Brasil servir às repúblicas vizinhas em seus interesses de paz interna, de governo republicano, de centralismo, de igualdade civil sem escravos, de liberdade fluvial universal, de comércio exterior direto, porque isto tudo seria antagônico e levaria à ruína e à destruição da própria existência do Império.

Para ele a questão de fundo que disfarça toda a Guerra do Paraguai se reduz à necessidade de reconstrução do Império do Brasil - ameaçado pela supressão do tráfico de escravos, pela premente abolição da escravatura, pela urgência em povoar com raças europeias os territórios inabitados, entre outras razões -, por meio da aquisição de novos territórios habitados por novas populações europeias e com o apoio de outros príncipes da mesma origem transatlântica. As condições para essa reconstrução do Império seriam a supressão de mais de uma república do mapa da América do Sul, a conquista, e a reaparição dos Bourbons na América, o que ele chama de contrarrevolução. E tudo isto ia contra a herança e a tradição revolucionária da América Hispânica independente.

Alberdi segue analisando os elementos que ele considera ilusórios e com que conta o Brasil para levar adiante esta tarefa de reconstrução: a debilidade dos aliados, a inferioridade comparativa do Paraguai e a magnitude e o poder relativos do Império brasileiro. Além disso, o Brasil contribui e se beneficia enormemente da divisão existente entre Buenos Aires e o resto das províncias que debilita a República argentina. Mas ele crê que esta “enfermidade” da divisão não será duradoura e que a Argentina chegará a um governo centralizado e forte pela natureza das coisas, como uma lei natural da vida, “según la cual una sociedad necesita de un gobierno comun para hacer vida comun y general, es decir, vida nacional y de Estado civilizado, pues toda la civilización política de un país reside en la institucion de su gobierno nacional (...)45”. Circundada por vizinhos que são Estados unitários - Chile, Bolívia, Paraguai, Brasil e Estado Oriental -, a República Argentina, segundo ele, terá necessidade de buscar a unidade do poder nacional para sobreviver e fazer frente ao poder ameaçador do Brasil.

Ele retoma a importância das revoluções de independência e da instauração de regimes republicanos em toda América, “parte integrante del patrimonio comun de todos los pueblos civilizados”46, para denunciar o anacronismo que representam os interesses e ameaças do Brasil, quando copia a velha política portuguesa de conquista. Estabelece todo o tempo um paralelo entre a resistência paraguaia e a luta de independência travada pela América contra a Espanha e afirma que o Brasil não previu que a guerra assumiria com o tempo seu verdadeiro caráter de guerra de liberdade ou de independência por parte do Paraguai.

Alberdi discute um dos principais argumentos utilizados pelo Brasil e seus aliados para empreender a guerra contra Solano Lopez, o da necessidade de levar a liberdade interior ao Paraguai, tiranizado por seu governo. Para ele, o curso da guerra desmentiu essa hipótese já que o povo paraguaio resistiu e sustentou seu governo. Desse modo “El Paraguay ha probado al Brasil que su obediencia no es la del esclavo, sino la del pueblo que quiere ser libre del extranjero47”. Essa era a maneira da América do Sul conceber a liberdade, e não a liberdade entendida como o ato de derrubar o governo nacional de um país estrangeiro para dar-lhe um governo considerado bastardo por seu povo.

Na parte final deste longo prefácio Alberdi analisa a relação que o Brasil e seu sistema monárquico de governo têm com o clima dos trópicos e a consequente necessidade de se expandir. Ele diz que o inimigo do Brasil não é o Paraguai, nem o Estado Oriental, nem o sistema republicano, nem o abolicionismo, mas seu clima tórrido que torna impossíveis a aclimatação do homem europeu e a viabilidade de sua civilização.

Além disso, o Brasil comete, segundo ele, três grandes crimes: o da guerra, o da escravidão e o da conquista. Condena a escravidão e diz que fazer de um homem uma “máquina de agricultura” é um triunfo da barbárie e do atraso; e que o Brasil faria melhor se no lugar de pedir à civilização industrial da Europa máquinas de guerra para destruir cidades da América civilizada, pedisse máquinas para produzir, criar e construir o engrandecimento nacional sem o crime e a desonra da escravidão.

Alberdi conclui o prefácio afirmando que o papel americano do Brasil não está definido ainda pelos homens de Estado brasileiros, mas que a força das coisas acabará por dar-lhe seu caráter e sentido original. Dessa forma o Brasil entraria no concerto do mundo americano do qual já é uma parte e completará assim os destinos de sua revolução fundamental, de que foi o prelúdio a sua emancipação de Portugal48.

O primeiro texto da coletânea, Las Disenciones de las Republicas del Plata y las Maquinaciones del Brasil, publicado em março de 1865, se inicia com um capítulo específico sobre o Brasil. Parte da pergunta sobre o que busca o Império no Rio da Prata e a resposta é que, apesar de os brasileiros ocuparem um belo e extenso solo, estão confinados à zona tórrida que só pode ser habitada pelas raças africanas e cujo interior é inacessível por falta de comunicação. Daí a necessidade de conquistar os territórios vizinhos do Prata com clima temperado que estavam aptas para receber as raças brancas da Europa que viessem a povoá-los, como seriam mais apropriados para a produção de alimentos e assegurariam o acesso imediato aos afluentes do Prata.

Estas necessidades, somadas a uma propensão histórica e tradicional do Império para estender seus limites até o Prata e seus afluentes, estiveram e ainda estavam presentes, segundo ele, nas raízes de todos os conflitos existentes desde a colonização até aqueles dias. Por isso afirma:

La cuestión para el Brasil no es de forma de gobierno, ni de raza, ni de nacionalidad, ni es cuestión política, ni mucho menos de personas ni de indemnizaciones o reparaciones de agravios recibidos: es más grave que todo eso, es de seguridad, de subsistencias, de población y de civilización, de vida o muerte para el Brasil49.

Propõe-se, então, a examinar ao longo do texto as necessidades de expansão e conquista que interessam à população, à subsistência e à segurança do Império. Sobre a população, nota que a grande extensão do território faz com que o Brasil seja um país relativamente deserto, logo, o problema não é a falta de espaço, mas sim a escassez de um espaço habitável e útil para o homem de raça branca. O solo dos trópicos e o calor sufocante, muito semelhantes ao africano, explicariam a utilização de escravos negros acostumados e resistentes a ele. Mas este tráfico estava fadado a desaparecer, o que fazia com que o Brasil tivesse a necessidade de povoar-se de homens brancos e livres. Lembremos que neste ano de 1865 a Guerra de Secessão estava em curso nos EUA e o fim da escravidão já havia acontecido naqueles territórios. Ainda sobre a questão da população, Alberdi lembra da fracassada história da colonização e da vinda de imigrantes para o Brasil para concluir que, não encontrando povoadores brancos para seus territórios, a saída natural seria buscar terras temperadas para atrair estas populações.

Com relação à questão da subsistência, Alberdi argumenta que a fome, assim como a febre amarela e a cólera são problemas constantes que obrigam o Brasil a lançar-se à conquista dos territórios vizinhos. O mesmo calor que o torna inabitável para o homem branco, o torna também inábil para a criação de gado e para o cultivo de cereais. Aproveita para culpar os grandes proprietários e a agricultura de exportação pela fome que assola o país. “En vez de consagrar una parte al cultivo de cereales y animales para la subsistencia de su población, lo destinan todo a la producción de la azúcar, del tabaco, del café, del té, que los enriquece à ellos á expensas del pueblo trabajador, que muere de hambre”50. Essas seriam práticas coloniais absolutamente perniciosas que o Brasil teria conservado em plena independência e que o impediam de introduzir colonos europeus nas partes de seu território capazes de recebe-los.

Completa seu argumento sobre as causas que justificariam a necessidade de expansão do Império analisando a questão da manutenção da segurança de seu território. A extensão dos seus limites até o Rio da Prata e seus afluentes seria um dos meios mais eficazes de assegurar a posse dos territórios que naquele período integravam o Império. As repúblicas do Prata possuíam a parte inferior e a embocadura dos três grandes rios - o Paraguai, o Paraná e o Uruguai - que, sendo brasileiros na origem e em grande parte de seu curso, deixavam de sê-lo à medida que se faziam caudalosos e navegáveis. No alto desses três grandes trechos navegáveis estavam situadas as províncias mais belas do Império brasileiro, as únicas, segundo Alberdi, capazes de aclimatar o homem europeu e de garantir o seu futuro de grandeza, civilização e progresso51.

No capítulo que se segue, Alberdi analisa detalhadamente a situação do Estado Oriental do Uruguai, disputado desde longa data pelo Brasil e pela República Argentina. Retoma a antiga história de ocupação da Banda Oriental para relembrar as causas que levaram o Brasil a ocupar aqueles territórios em 1826 e a atuação da Republica Argentina na época. Faz uma comparação daquele tempo com o momento em que estava escrevendo para afirmar que a República Argentina não era na atualidade o pais unitário, sob o governo de Rivadavia, que havia disputado, em 1826, a Província Oriental com o Brasil. Ela era, naquele momento, uma federação de dois países que eram por sua vez dois grandes partidos históricos: Buenos Aires de um lado e as Províncias de outro. O tema da política interna argentina ganha aqui relevo e mescla-se às suas reflexões sobre a posição do Brasil naquele conflito.

Segundo Alberdi desenvolve no capítulo seguinte sobre a República Argentina, para se compreender qualquer aspecto tanto da política externa quanto da política interna de seu país era absolutamente necessário levar em conta e compreender aquela divisão. Para ele existiam dois governos, o que se dizia um Governo Nacional, encabeçado pelo general Bartolomeu Mitre e que pretendia governar a nação a partir da hegemonia de Buenos Aires e o Governo das províncias. Para conter as províncias despojadas de seu poder em favor de Buenos Aires, e a mesma Buenos Aires parcialmente despojada em favor do poder presidencial, Mitre procurava encontrar recursos em uma possível aliança com o Brasil e com um governo Oriental criado por ambos. Esta constatação lhe permitia formular a hipótese de que naqueles tempos da Guerra contra o Paraguai, também se travava uma guerra de uma parte da República Argentina contra a outra e que seus aliados, especialmente o Império do Brasil, se beneficiavam disso.

No penúltimo capítulo dedicado ao Paraguai ele ressalta o fato de o território deste país estar encravado dentro do território brasileiro e no meio dos dois rios - o Paraná e o Paraguai - que poderiam ser considerados as duas grandes portas interiores do Brasil, ou a única comunicação entre o interior do Império e sua capital, o Rio de Janeiro. Além disso o contato desse país com as províncias do Mato Grosso e do Rio Grande poderia representar uma ameaça de contágio e de desmembramento do território brasileiro.

Invertendo radicalmente o discurso que justificava a guerra como uma luta entre a civilização dos aliados reunidos sob a Tríplice Aliança e a barbárie encarnada no Paraguai, Alberdi afirma:

El Paraguay representa la civilización, pues, pelea por la libertad de los ríos contra las tradiciones de su monopolio colonial; por la emancipación de los países mediterráneos; por el noble principio de las nacionalidades; por el equilíbrio, no solo del Plata, sino de toda la América del Sud, pues siendo todas sus republicas, excepto Chile, países limítrofes del Brasil, cada victoria del Paraguay es victoria de todas ellas, cada triunfo del Brasil es pérdida que ellas hacen en la balanza del poder Americano.52

Em seguida ele destaca os pontos positivos do Paraguai: este tem uma população pequena, mas que forma um povo livre e homogêneo, além da metade de seus habitantes não serem escravos como no Brasil; seu exército é numeroso, disciplinado, formado por soldados educados, corajosos e sóbrios; não tem dívida pública, não está dividido por disputas partidárias e guerras civis, não viveu períodos anárquicos.

No último capítulo discute os “Intereses generales comprometidos en la Guerra del Plata”. No que diz respeito aos interesses americanos fala da ameaça que paira sobre os países do Prata de serem absorvidos por um império de raça portuguesa bastante alterada pela mistura com a raça negra. Há também a ameaça brasileira ao “princípio social da liberdade civil” que ele considera um princípio geral americano. Este se expressaria nas liberdades de comércio e de navegação fluvial que ajudam a povoar, enriquecer e civilizar a América e que não eram consagrados pelas leis brasileiras. Quanto aos interesses europeus na América, estes se concentrariam na liberdade para seu comércio e na segurança para os europeus ali residentes. E a liberdade de comércio estava ameaçada por aqueles que controlavam o monopólio desse comércio: o Rio de Janeiro e Buenos Aires, que agiam contra aqueles cuja existência dependia da liberdade de comércio: Montevidéu, Paraguai e as províncias interiores do litoral argentino.

O segundo texto da coletânea “Los interesses argentinos en la Guerra del Paraguay con el Brasil”, foi escrito em julho de 1865 e tem o formato de uma série de onze cartas. Alberdi o apresenta como uma oportunidade para sair do anonimato que havia mantido na publicação anterior Las Disensiones e para responder às muitas e contundentes críticas que havia recebido de alguns de seus amigos e da imprensa argentina que o acusavam de traição à pátria em troca de dinheiro, de cargos ou mesmo de ambições governamentais.

Defende-se dizendo que as guerras externas podiam ser muito úteis para omitir problemas internos. Este seria o caso do governo argentino mitrista que queria fazer parecer uma conspiração contra a pátria ideias como as dele opostas a um “localismo antipatriótico e mais antinacional que o estrangeiro” que era o de Buenos Aires. Este localismo de Buenos Aires havia se aliado ao Brasil contra o Paraguai, mas esta não era para Alberdi uma nova guerra exterior, mas sim uma velha guerra civil já conhecida entre Buenos Aires e as províncias argentinas.

Conclusão

A escolha por analisar os escritos de letrados argentinos - como Juan Bautista Alberdi - sobre o Brasil mostra-se um caminho profícuo para conhecer como as suas ideias e obras circulavam entre estes espaços, dialogavam entre si e com o contexto mais específico de elaboração de projetos que dariam forma aos nascentes Estados nacionais americanos ao longo do século XIX. Mais do que tudo, pudemos verificar como esses escritos trazem um olhar valioso sobre temas como a monarquia, o Império, a escravidão, a natureza, a questão das raças, e muitas outras, que revelam significativas impressões acerca de como estes intelectuais entendiam o Império do Brasil - um “outro” bastante peculiar por representar uma espécie de contraponto ao projeto de nação republicano que eles pretendiam para a Argentina. Neste sentido, mais que um espaço no qual desenvolviam ideias sobre o outro, o Brasil era, para os “argentinos”, um espaço no qual desenvolviam ideias sobre si próprios.

Sem dúvida os escritos de Juan Bautista Alberdi sobre o Brasil foram fundamentais para o projeto elaborado e vivido por ele e pelos membros da Geração Romântica de 1837 para a formação de uma nação e de uma identidade nacional argentinas. O Brasil, na América, ou para muitos escritores americanos, parecia combinar o exótico com o familiar e constituir um ponto fundamental na peregrinação dos jovens em formação, porque se converteu no “outro interno do continente”. Os “argentinos” faziam, assim, uma constante leitura política deste outro, evidente nas críticas e comentários permanentes sobre as diferenças tanto governamentais quanto culturais e sociais que viam entre o Brasil e a Argentina.

Ao trabalhar com a perspectiva das histórias cruzadas, foi possível relativizar e tornar mais complexa a visão cristalizada de que, para os letrados hispano-americanos, o Brasil era representado apenas como o império escravocrata, identificado a uma Europa monarquista e conservadora; assim como para a elite letrada brasileira do século XIX, as repúblicas vizinhas representavam a anarquia, a desordem, a barbárie e a instabilidade política.

A constatação da forte presença explicita ou implícita do Brasil nos escritos de Alberdi nos dois momentos analisados, nos leva a reforçar a tese de Lucila Pagliai de que o Império adquiriu na sua produção escriturária a categoria retórica de uma entidade antagônica, que opera no discurso com o estatuto de terceiro excluído53. Mas, numa aparente contradição, apesar de sempre mencionado e utilizado para construir suas argumentações de natureza retórica, Alberdi não parece interessado em conhecer em maiores detalhes a política interna brasileira, as divergências entre seus partidos, ideias e dirigentes. Ao contrário, ao acreditar que os destinos de uma nação se conformam nas suas relações internacionais, joga com suas análises como num tabuleiro de xadrez. Nele o Brasil desempenha um papel de antagonista ativo de suas ideias e projetos não só para pensar a nação argentina e a América do Sul, como também para pensar e atuar ativamente na diplomacia relativa à América na Europa.

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3 Há uma vasta bibliografia sobre História Transnacional que discute a contradição de se aplicar um enfoque transnacional a momentos históricos nos quais as nações eram emergentes como é o caso desse estudo. Ver especialmente: PEYROU, Florencia; MARTYKÁNOVÁ, Darina. Presentación. Revista Ayer, nº 94. Dossier: La Historia Transnacional. Madrid: Marcial Pons, Ediciones de Historia, 2014. p. 13-144; BAYLY, Cristopher et al. AHR Conversation: On Transnational History. American Historical Review, 11, 5, (2006). p. 1441-1464; ALBA, Carlos et al (eds.). Entre espacios. Movimientos, actores y representaciones de la globalización. Berlín: Walter Frey Verlag, 2013.

4 Ver PRADO, Maria Ligia Coelho. América Latina: Historia Comparada, Historias Conectadas, Historia Transnacional. Anuario nº 24, Escuela de Historia, Revista Digital nº 3, Facultad de Humanidades y Artes (UNR), 2011-2012; PRADO, Maria Ligia Coelho. Repensando a História Comparada da América Latina. Revista de História, 153, 2005.

5 Expressão utilizada por ZIMMERMANN, B.; WERNER, M. Pensar a História Cruzada: entre empiria e reflexividade. Textos de História, v. 11, n. 1-2, 2003, p. 83-127.

6 Ver CONRAD, Sebastian. What is Global History? Princeton: Princeton University Press, 2016; PREUSS, Ori. Bridging the island. Brazilian’s views of Spanish America and themselves, 1865-1912. Madrid: Iberoamericana; Frankfurt: Vervuert, 2011; PREUSS, Ori. Transnational South America. Experiences, ideas and identities, 1860-1900s. London: Routledge Press, 2016; BARROS, José D’Assunção. Histórias Cruzadas - considerações sobre uma nova modalidade baseada nos procedimentos relacionais. Anos 90. Porto Alegre, v. 21, n. 40, dez. 2014. p. 277-310.

7 GOULD, E. H. Entangled Histories. Entangled Words: the English-Speaking Atlantic as a Spanish Periphery. American Historical Review, june 2007. p. 765-786.

8 Este é o caso, por exemplo, dos já mencionados trabalhos de PREUSS, Ori. Bridging the island. Brazilian’s views of Spanish America and themselves, 1865-1912. Op. Cit.; PREUSS, Ori. Transnational South America. Experiences, ideas and identities, 1860-1900s. Op. Cit.

9 Para um debate mais teórico e amplo sobre a questão da Nação e do Nacionalismo nas Américas ver especialmente: ANDERSON, Benedict. Imagined Communities. London: Verso, 1991; GELLNER, Ernest. Nações e Nacionalismo. Lisboa: Gradiva, 1983; os artigos de CHIARAMONTE, José Carlos. Metamorfoses do conceito de nação durante os séculos XVII e XVIII e HERZOG, Tamar. Identidades modernas: Estado, comunidade e nação no império hispânico. In: JANCSÓ, István. Brasil: Formação do Estado e da Nação. São Paulo: Ed. Hucitec; Ed. Unijuí; Fapesp, 2003; HOBSBAWM, Eric J. Nações e Nacionalismo desde 1870. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991; SÁ, Maria Elisa Noronha de. Civilização e Barbárie. A construção da ideia de nação: Brasil e Argentina. Rio de Janeiro: Ed. Garamond, 2012; PALTI, Elías. La Nacíon como problema. Los historiadores y la “cuestión nacional”. México: Fondo de Cultura Económica, 2003; SMITH, Anthony D. The Nation in History. Historiographical Debates about Ethnicity and Nationalism. Hanover: University Press of New England, 2000; PAMPLONA, Marco Antonio; DOYLE, Don (orgs.). Nacionalismo no Novo Mundo a Formação de Estados-nação. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2008.

10 Este artigo é resultado da pesquisa de pós-doutorado intitulada Um olhar sobre o Império do Brasil: viagens, exílios e impressões de letrados argentinos sobre o Brasil no século XIX que realizei no segundo semestre de 2015, no Centro de História Intelectual da Universidad de Quilmes, em Buenos Aires, sob a supervisão do Prof. Jorge Myers, com financiamento de uma Bolsa de Estágio Sênior no Exterior da Capes. Também como resultado desta pesquisa foi publicado o texto ‘Ojeada sobre el Brasil’: impressões de Sarmiento sobre o Império do Brasil em meados do século XIX. In: SÁ, Maria Elisa Noronha de (org.). História Intelectual latino-americana. Itinerários, debates e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2016. Neste texto analisei as imagens do Império do Brasil nos escritos de Domingo Faustino Sarmiento, especialmente nos seus artigos publicados no El Mercurio e no El Progreso, em 1842 e 1844, reunidos nos volumes VI, intitulado Política Argentina. 1841-1851, e XIII, Argirópolis, das suas Obras Completas.

11 Ver AMANTE, Adriana. Poéticas y políticas del destierro. Argentinos en Brasil en la época de Rosas. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2010; Adriana Amante. Brasil: el Oriente de América. In: MYERS, Jorge; BATTICUORE, Graciela; GALLO, Klaus (orgs.). Resonancias románticas: ensayos sobre historia de la cultura argentina 1820-1890. Buenos Aires: Eudeba, 2005; PAGLIAI, Lucilla. Alberdi y el Brasil en los escritos del Ciclo de la Guerra del Paraguay: las funciones de una función en bloque. Revista Digital Nuevo Mundo, Mundos Nuevos. Coloquios, 2009, La Guerra del Paraguay: historiografías, representaciones, contextos, Anual del CEL, Buenos Aires, Museo Histórico Nacional 3-5 de noviembre de 2008; DALFRÉ, Liz Andréa. O diagnóstico de Domingo Faustino Sarmiento sobre o Império Brasileiro em 1842. Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v.7, n.1, jan./jun. 2014, p. 177-194; BRUNO, Paula. Martín García Meróu. Vida intelectual y diplomática en las Américas. Quilmes: Universidad Nacional de Quilmes Editorial, 2019; MERÓU, Martín García. El Brasil intelectual. Impresiones y notas literárias. Buenos Aires: Félix Lajouane Editor, 1900.

12 Sobre a Geração de 37 ver MYERS, Jorge. La revolución en las ideas: la generación romántica de 1837 en la cultura y en la política argentinas. In: GOLDMAN, Noemí (org.). Nueva Historia Argentina. Revolución, República, Confederación (1806-1852). Tomo 3. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1998; HALPERÍN DONGHI, Tulio. Una Nación para el desierto argentino. Buenos Aires: Editores de América Latina, 1997; HALPERÍN DONGHI, Tulio. Proyecto y construcción de una nación (1846-1880). Buenos Aires: Editora Espasa Calpe Argentina S.A./Ariel, 1995; BIAGINI, Hugo E. La Generación del Ochenta. Cultura y Política. Buenos Aires: Editorial Losada S.A., 1995; KATRA, William H. La Generación de 1837. Buenos Aires: Emecé, 2000; BOTANA, Natalio. La tradición republicana. Buenos Aires: Sudamericana, 2ª ed., 1997; ROMERO, José Luis. Las ideas políticas en Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2ª ed., 2008; WASSERMAN, Fabio. La Generación de 1837 y el proceso de construcción da la identidad nacional argentina. Boletín del Instituto de Historia Argentina y Americana “Dr. Emilio Ravignani”, Tercera serie, n. 15, 1er semestre de 1997.

13 MYERS, Jorge. La revolución en las ideas: la generación romántica de 1837 en la cultura y en la política argentinas. Op. Cit., p. 384.

14 Ibidem.

15 Para uma comparação entre o Romantismo brasileiro e o argentino e também para a análise de como as diferentes vertentes do Romantismo europeu foram apropriadas e resignificadas no contexto americano ver: RICUPERO, Bernardo. O Romantismo e a Ideia de Nação no Brasil (1830-1870). São Paulo: Martins Fontes, 2004.

16 ALBERDI, Juan Bautista. En Río de Janeiro. In: Escritos Póstumos. Memórias y Documentos. Tomo XVI. Buenos Aires: Imprenta Juan Bautista Alberdi, 1901, p. 9-29. Nesta viagem nasceu o poema El Éden, que Alberdi escreveu com Juan Maria Gutiérrez, publicado depois no Chile, e que recorda as peripécias da travessia dos dois por mar em direção à Europa, em 1843.

17Archivo Alberdi. Biblioteca Furt, Los Talas, Luján, Província de Buenos Aires.

18 PAGLIAI, Lucilla. Alberdi y el Brasil en los escritos del Ciclo de la Guerra del Paraguay: las funciones de una funcion en bloque. Revista Digital Nuevo Mundo, Mundos Nuevos, Coloquios, 2009, La Guerra del Paraguay: historiografías, representaciones, contextos, Anual del CEL, Buenos Aires, Museo Histórico Nacional, 3-5 de noviembre de 2008, p. 2. http://nuevomundo.revues.org/55609

19 Sobre este gênero - os guias e almanaques destinados aos viajantes que se inscrevem numa larga tradição de cultura de viagem, ver: CLIFFORD, James. Routes. Travel and Translation in the late Twentieth Century. Boston: Harvard University Press, 1997; PRATT, Mary Louise. Os Olhos do Império. Relatos de viagens e transculturação. Bauru: Edusc, 1999; PRIETO, Adolfo. La literatura autobiográfica argentina. Buenos Aires: Centro Editor da América Latina, 1982; PRIETO, Adolfo. Los viajeros ingleses y la emergencia da la literatura argentina. 1820-1850. Buenos Aires: Sudamericana, 1996; VIÑAS, David. La mirada a Europa: del viaje colonial al viaje estético. In: Literatura argentina y realidad política. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, 1992.

20 MYERS, Jorge. Prólogo. In: Rumbos patrios: la cultura del viaje entre fines de la Colonia y la independencia, MYERS, Jorge. (ed.). Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011, p. 9-45.

21 ALBERDI, Juan Bautista. Autobiografía. In: Grandes escritores argentinos, Alberto Palcos (dir.), tomo X Buenos Aires: Jackson Editores, 1953, p. 27-64.

22 ALBERDI, Juan Bautista. Loc. Cit.

23 ALBERDI, Juan Bautista. En Río de Janeiro. Op. Cit., p. 17.

24 Ibidem, p. 26.

25 Ibidem, p. 12 e 13.

26 Ibidem, p. 12.

27 Ibidem, p. 16.

28 Ibidem, p.16.

29 PAGLIAI, Lucila. Op. Cit.

30 ALBERDI, Juan Bautista. Tobias o la cárcel a la vela. In: Obras Completas. Tomo II, Buenos Aires: Imp. Lit. Y Enc. de La Tribuna Nacional, 1886, p. 343-387.

31 ALBERDI, Juan Bautista Alberdi. El Imperio del Brasil y las Repúblicas Hispanoamericanas (El Mercurio de Valparaíso, 21, 23 y 24 de abril de 1844) in: BARROS, Carolina (comp.). Alberdi Periodista en Chile. Buenos Aires: Imprenta Verlap, 1997, p. 53-63.

32 ALBERDI, Juan Bautista. Memoria sobre la conveniencia y objeto de un Congreso General Americano. In: Obras Completas. Tomo II, Buenos Aires: Imp. Lit. Y Enc. de La Tribuna Nacional, 1886, p. 387-413.

33 ALBERDI, Juan Bautista. Bases y puntos de partida para la organización política de la República Argentina. In: Obras Completas. Tomo III. Buenos Aires: Imp. Lit. Y Enc. de La Tribuna Nacional, 1886.

34 ALBERDI, Juan Bautista. El Imperio del Brasil. Op. Cit., p. 54.

35 Ibidem, p. 55.

36 Loc. Cit.

37 A Confederação Peru-Boliviana foi um Estado confederado de breve existência que reuniu dois países, Bolívia e Peru, numa só nação entre 1836 e 1839, sendo que o Peru se dividiu entre dois estados, o Estado norte-peruano e o Estado sul-peruano. Seu único presidente foi Andrés de Santa Cruz, que era até então o presidente da Bolívia. Foi dissolvido após a Batalha de Yungay, na qual foi derrotado por uma coligação entre Argentina e Chile e os próprios peruanos revoltosos.

38 ALBERDI, Juan Bautista. Memoria sobre la conveniencia y objeto de un Congreso General Americano. Op. Cit.

39Ostensor Brasileiro, n. 37, Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1845.

40 BARATTA, Victoria. La Guerra del Paraguay y el proceso de construcción de la identidad nacional argentina (1864-1870). 2013. 335 p. Tesis de doctorado - UBA, Buenos Aires, 2013, p. 10.

41 Ibidem, p. 105-108.

42 ALBERDI, Juan Bautista. Prefácio. In: El Imperio del Brasil ante la democracia de América. Coleccion de los últimos Escritos dados à la luz por Don J. B. Alberdi, Paris: Imprenta A.E. Rochette, 1869.

43 Ibidem, p. II.

44 Ibidem, p. XLIX.

45 Ibidem, p. XIX.

46 Ibidem, p. XXV.

47 Ibidem, p. XXXIV.

48 Ibidem, p. LXXII.

49 ALBERDI, Juan Bautista. Las Disensiones de las Repúblicas del Plata y las Maquinaciones del Brasil. Op. Cit.

50 Ibidem, p. 8.

51 Ibidem, p. 10.

52 Ibidem, p. 38.

53 Pagliai, Alberdi y el Brasil en los escritos del Ciclo de la Guerra del Paraguay, p. 5.

Recebido: 17 de Maio de 2019; Aceito: 09 de Fevereiro de 2020

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Doutora em História (UFF) e Professora Assistente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Puc-Rio). E-mail: maisa@puc-rio.br.

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