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Topoi (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 2237-101X

Topoi (Rio J.) vol.14 no.27 Rio de Janeiro July/Dec. 2013

https://doi.org/10.1590/2237-101X014027008 

Artigos

"Monarquia mais dilatada que se viu no mundo": considerações sobre dimensão de domínios e imaginação política em frontispícios no império espanhol

Jorge Victor de Araújo Souza


RESUMO

Segundo o autor seiscentista Sebastian Covarrubias Orozco, o ato de representar era fazer presente alguma coisa usando palavras ou figuras. Tal processo, afirma, era essencial para fixar algo na imaginação. Partindo da análise de gravuras em frontispícios e outras imagens, este artigo traça considerações acerca da relação entre imaginação política e dimensão do domínio espanhol. O debate sobre representação figurativa contribui para o entendimento da cultura política na Época Moderna ao propor reflexão sobre as relações entre os espaços constituintes de um império ultramarino.

Palavras-Chave: imaginação política; frontispícios; gravuras; império espanhol; iconografia.

ABSTRACT

According to seventeenth-century author Sebastian Covarrubias Orozco, representation consists in making something present through words or figures. This process, he pondered, was essential to record something in one's imagination. Departing from an analysis of frontispieces' engravings and other images, this article considers the relationship between political imagination, on one hand, and the extension of the Spanish dominion, on the other. The debate on figurative representation contributes to the understanding of political culture in Modern Age, as it suggests a reflection on the accurate dimensions of an overseas empire.

Key words: political imagination; frontispieces; engravings; Spanish empire; iconography.

Texto completo disponível apenas em PDF.

Full text available only in PDF format.

* O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq, através de uma Bolsa PDJ para pesquisa desenvolvida na Universidade Federal Fluminense. Agradeço a leitura atenta e as sugestões de Ronaldo Vainfas, Ronald Raminelli, Sílvia Borges, Carlos Zeron, Larissa Viana e Heleno Alvares. Agradeço igualmente a Leslie Tobias Olsen, do Departamento de Imagens da John Carter Brown Library, e Daniela Pires, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin-USP.

1 FAJARDO, Diego Saavedro. Idea de un principe politico-christiano. Valencia, 1800. Tomo I, p. 18.

2 COVARRUBIAS OROZCO, Sebastian. Tesoro de la lengua castellana, o española. Madri, 1611. p. 1260.

3 Pierre Civil, professor da Sorbonne, especialista na sociedade espanhola nos séculos XVI e XVII, considera o frontispício como parte fundamental de uma edição. Para Civil, tais imagens estão impregnadas de discursos pré-textuais que podem muito bem servir como fontes para pesquisas em torno das relações de poder, como demonstra sua análise do frontispício de uma edição da Historia de las ordenes militares de Santiago, Calatrava y Alcántara, publicada em 1629, onde aponta as representações do Conde Duque de Olivares em relação às do próprio rei. CIVIL, Pierre. Libro y poder real: sobre algunos frontispícios da primera mitad del siglo XVII. In: REDONDO, Augustín; GARCÍA, Pedro Manuel (Coord.). El escrito em el Siglo de Oro: praticas y representaciones. Salamanca: Universidade de Salamanca, 1999. p. 69-83. Já Marc Fumaroli, outro historiador francês, na década de 1990 demonstrou as maneiras como os frontispícios podem ser instigantes objetos para o estudo histórico. O interesse de Fumaroli é centrado nas práticas retóricas dos séculos XVI e XVII. O entrelaçamento entre textos e imagens gravadas para formação de discursos sobressai em sua análise do frontispício de um panegírico jesuítico de suma importância - o Imago primi saeculi Societas de Jesu, editado em Antuérpia, no ano de 1640 -, que, segundo sua constatação, está situado entre o barroco e o classicismo. FUMAROLI, Marc. Baroque et classicisme: L'Imago primi saeculi Socitatis Jesu (1640) et ses adversire's. in:____ L'école du silence. Le sentiment des images au XVIIe siècle. Paris: Flammarion, 1994. p. 343-365.

4 BERNAL, Antonio Miguel. España, proyecto inacabado. Los costes/benefícios del Imperio. Madri: Marcial Pons, 2007. p. 82.

5 Esta concepção de mundialização a qual me refiro pode ser observada, sobretudo, nos estudos do historiador Serge Gruzinski. GRUZINSKI, Serge. Las cuatro partes del Mundo. Historia de una mundialización. México: FCE, 2010. Sobre "retórica visual", ver: LINCHTENSTEIN, Jacqueline. La couleur eloquente. Rhétorique et peinture à L'Âge Classique. Paris: Flammarion, 1989.

6 DYM, Jordana. Ensenanza en los jeroglíficos y emblemas. Igualdad y lealtad en Guatemala por Fernando VII (1810), in Secuencia. Revista de historia e Ciencias Sociales, num. Conmemorativo, México, p. 75-102, 2008.

7 Este mote é lembrado por um insigne jesuíta português ao tratar dos descobrimentos: "Deram-lhe armas de cavalheiro e pôs nelas Colon por orla, esta letra: Por Castilla y Aragon, Nuevo Mundo halló Colon. E desta casa descendem hoje os Almirantes das Índias de Castela, com titulo de Duques de Beragua". VASCONCELLOS, Simão de. Chronica da Companhia de Jesu do Estado do Brasil e do que obraram seus filhos nesta parte do Novo Mundo. Lisboa: Typographia do Panorama, 1865. v. I, p. 30.

8 PAGDEN, Anthony. Spanish imperialism and the political imagination. Studies in European and Spanish-American social and political theory, 1513-1830. New Haven: Yale Press, 1990. p. 1.

9 BAXANDALL, Michael. Padrões de intenção. A explicação histórica dos quadros. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 31-44.

10 EARL, Rosenthal. The invention of the columnar device of emperor Charles V at the Court of Borgundy in Flanders in 1516. Journal of the Warburg and Courtauld Institute, v. 36, p. 198-230, p. 220, 1973.

11 Um levantamento do debate historiográfico sobre Carlos V e a temática do poder imperial foi realizado por Ana Paula Vosne Martins, que salientou a heterogeneidade das pesquisas empreendidas em diversos países, assim como as distintas abordagens empregadas. MARTINS, Ana Paula Vosne. Milles christianus: Carlos V e o tema imperial. In: DORÉ, Andréa; LIMA, Luís Filipe Silvério; SILVA, Luiz Geraldo (Org.). Facetas do império na história: conceitos e métodos. São Paulo: Hucitec, 2008. p. 212-223.

12 EARL, Rosenthal. Plus ultra, non plus ultra, and the columnar device of emperor Charles V. Journal of the Warburg and Courtauld Institute, v. 34, p. 204-228, p. 212, 1971.

13 CAÑIZARES-ESGUERRA, Jorge. Católicos y puritanos en la colonización de América. Madri: Marcial Pons, 2008. p. 164.

14 BERNAL, Antonio Miguel. España, proyecto inacabado, op. cit. p. 28.

15 TRINDADE, Joelson Biltran. O império dos mil anos e a arte do "tempo barroco": a águia bicéfala como emblema da cristandade. Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 18, n. 2, p. 11-91. jul./dez. 2010.

16 RIBADENEYRA Y BARRIENTOS, Don Antonio Joaquin de. Manual compendio de el regio patronato indiano. Madri, 1755. p. 53.

17 CURTO, Diogo Ramada. Cultura política no tempo dos Filipes (1580-1640). Lisboa: Edições 70, 2011. p. 245-257.

18 HEREDIA, Ivan Francisco Fernandes de. Trabajos y afanes de Hercules - floresta de sentencias y exemplos. Madri: por Francisco Sanz, 1682.

19 Ibid., p. 297.

20 CAÑIZARES-ESGUERRA, Jorge. Católicos y puritanos en la colonización de América, op. cit. p. 60-64.

21 FREYRE, Francisco de Brito. Nova Lusitânia: história da guerra brasílica. Lisboa, 1675. b. 3.

22 PINELO, Antonio de León. Tratado de confirmaciones reales de encomiendas, oficios y casos en que se requieren para las Indias Occidentales. Madri, 1630. Prólogo não paginado.

23 Ibid.

24 LEÓN CÁZARES, María del Carmen. Reforma o extinción: un siglo de adaptaciones de la Orden de Nuestra Señora de la Merced en Nueva España. México: Unam, 2004. p. 210-232.

25 Fama y obras posthumas del fenix de Mexico, décima musa, poetisa americana, sor Juana Ines de la Cruz. Madri, 1700. p. 121.

26 Ibid., p. 123.

27 Ibid., p. 122.

28 LA PUENTE, Juan de, frey. La conveniencia de las dos monarquias catolicas, la de la precedencia de los reyes catolicos de España a todos los Reyes del Mundo. Madri, 1612. p. XXII.

29 Ibid.

30 Ibid., p. XXIII.

31 HANSEN, João Adolfo. Alegoria: construção e interpretação da metáfora. São Paulo: Atual, 1986.

32 RAMINELLI, Ronald. Império da fé: ensaio sobre os portugueses no Congo, Brasil e Japão. In: FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de Fátima (Org.). O Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p. 225-247.

33 FLORENCIA, Francisco de. Historia de la provincia de la Compañia de Jesus de Nueva España. Mexico, 1694. p.

34 PRAZ, Mario. Imágenes del barroco. Estudios de emblemática. Madri: Ediciones Siruela, 2005. p. 205.

35 PANOFSKY, Erwin. Significado das artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2002. p. 66-67.

36 BOXER, Charles R. A Igreja militante e a Expansão Ibérica, 1440-1770. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

37 A monarquia católica é um excelente ponto de referência para estudos que abarcam histórias conectadas, como bem demonstrou Serge Gruzinski. GRUZINSKI, Serge. Os mundos misturados da monarquia católica e outras connected histories. Topoi. Revista de História do Programa de Pós-graduação em História Social da UFRJ, Rio de Janeiro, v. 2, p. 175-195, 2001.

38 Disponível em: <http://potosiprincipleprocess.files.wordpress.com/2011/11/principio-potosc3ad-catc3a1logo-esp.pdf>. Acesso em: 26 fev. 2013.

39 ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e persuasão. Ensaios sobre o barroco. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 18.

40 Sobre a importância de meios visuais na Época Moderna, sobretudo na Espanha do período estudado, ver: MARAVALL, José Antônio. A cultura do barroco. Análise de uma estrutura histórica. São Paulo: Edusp, 2009. p. 389-405.

41 ALPERS, Svetlana. A arte de descrever. A arte holandesa no século XVII. São Paulo: Edusp, 2009.

Recebido: 27 de Fevereiro de 2013; Aceito: 03 de Maio de 2013

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Doutor em história pela Universidade Federal Fluminense. E-mail: jvictoraraujos@gmail.com.

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