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Topoi (Rio de Janeiro)

versão On-line ISSN 2237-101X

Topoi (Rio J.) vol.14 no.27 Rio de Janeiro jul./dez. 2013

https://doi.org/10.1590/2237-101X014027010 

Artigos

O pecado do historiador: para uma leitura d'A Feiticeira, de Jules Michelet

Maria Juliana Gambogi Teixeira


RESUMO

Desde sua publicação, em 1862, a recepção de A Feiticeira foi marcada pela perplexidade diante da maneira como seu autor, Jules Michelet, integrou o mito à narrativa histórica. Esse procedimento, que inspirou uma fortuna crítica disposta a ler tal obra mais sob a ótica literária do que como trabalho de história, tende a distorcer os objetivos e propósitos visados pelo historiador. Este artigo visa apresentar uma interpretação para as heterodoxias narrativas de Michelet como o resultado de uma reflexão eminentemente historiográfica. Para isso, sustento que a compreensão do papel central do mito, tal como mobilizado em A Feiticeira, apoia-se na constituição de um "método histórico", cujo estabelecimento e fundamentação são diretamente derivados da leitura e da tradução que Michelet propôs para a obra do filósofo napolitano Giambattista Vico, em particular, a Ciência nova.

ABSTRACT

Since its publication in 1862, the reception of The Sorceress has been marked by a bewilderment prompted by the way Jules Michelet employs the myth as a form of historical narrative. In fact, his procedure has inspired readings that consider the book a work of literature, rather than a History book. This is very misleading, for it distorts Michelet's own goals and methods. This paper presents an interpretation of Michelet's heterodox narratives as a historiographical work. I argue that, in order to understand the central role of mythological structures in the "historical method" developed in The Sorceress, one needs to pay attention to the fact that it is grounded on the work of Neapolitan philosopher Giambattista Vico, especially in Michelet's own translation of Scienza nuova.

Key words: Jules Michelet; A Feiticeira; Giambattista Vico; Ciência nova; mito.

Key words: Jules Michelet; The Sorceress; Giambattista Vico; Scienza nuova; myth.

Texto completo disponível apenas em PDF.

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1 1 As três edições brasileiras da obra em questão apresentam problemas, maiores ou menores, que arrolaremos a seguir. A edição do Círculo do Livro, hoje disponível apenas em sebos, subtrai todo o capítulo "Notas e esclarecimentos", capítulo metodológico no qual o historiador arrola fontes e comenta os fundamentos de sua interpretação. Já a edição da Aquariana, disponível no mercado, traz apenas a primeira metade do livro, deixando de lado tanto a segunda metade quanto o capítulo metodológico. A única edição que não faz cortes na obra é a proposta pela Nova Fronteira (também esgotada), que, no entanto, transfere o capítulo metodológico do fim (como aparece no original) para o início do livro.

2 2 Para uma análise mais detida acerca da concepção e da recepção de A Feiticeira, ver VIALLANEIX, Paul. Préface. In: MICHELET, Jules. La Sorcière. Paris: GF-Flammarion, 1966. p. 15-24; PETITIER, Paule (Org.). La Sorcière de Jules Michelet - l'envers de l'histoire. Paris: Honoré Champion, 2004; MICHELET, Jules. La Sorcière. Nouvelle édition critique avec introduction, variantes, et examen du manuscrit, publié par Wouter Kusters. Nijemegen: Katholieke Universiteit, 1989.

3 3 Há uma curiosa variação tipográfica da palavra "feiticeira" no corpo do texto em questão. Surgindo ora em maiúscula, ora em minúscula, essa mobilidade tipográfica, porque proposta por um autor bastante cuidadoso com a preparação de seus originais, não merece ser desprezada. Com efeito, um padrão gráfico parece se depreender dessa variabilidade, indiciando que o substantivo em maiúscula (Feiticeira) refere-se, prioritariamente, à personagem que ocupa a primeira metade do livro, ao passo que o mesmo termo, em minúscula (feiticeira), remete ao período de popularização do fenômeno, temática da segunda parte da obra. Uma vez que este texto cuida de entender principalmente essa primeira metade, optamos por seguir exatamente o procedimento de Michelet, grafando o termo em maiúscula, tanto nas referências ao título do livro, quanto nos momentos em que nomeamos sua personagem principal.

4 4 "Maintenant, voici mon péché ou m'attend la critique. Dans cette longue analyse historique et morale de la création de La Sorcière jusqu'en 1300, plutôt que de traîner dans les explications prolixes, j'ai pris souvent un petit fil biographique et dramatique, la vie d'une même femme pendant trois cents ans. - Et cela (notez bien) dans six ou sept chapitres seulement. - Dans cette partie même, si courte, on sentira aisément combien tout est historique et fondé." MICHELET, Jules. La Sorcière, op. cit. p. 296. Salvo menção oposta, esta e todas as outras traduções repertoriadas neste artigo são de minha inteira responsabilidade.

5 5 Essa chave, de extração historiográfica e, sobretudo, francesa, é visada criticamente por Marcel Gauchet em seu livro Philosophie des sciences historiques. Le moment romantique (Paris: Editions du Seuil, 2002), e cujo argumento adoto aqui. Sem qualquer pretensão exaustiva, repertoriamos, a seguir, alguns artigos exemplares dessa matriz de recepção: ARIÈS, Philippe. A história "científica". In: ARIÈS, Philippe. O tempo da história. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989. p. 208-231; LE GOFF, Jacques. Pour une autre Moyen Âge. Paris: Gallimard, 1977; NORA, Pierre. Le troisième homme. L'Arc, Paris, n. 53, p. 48-58, 1972.

6 6 A matriz principal dessa leitura se encontra na recepção micheletiana de Roland Barthes, muito particularmente no artigo: BARTHES, Roland. La Sorcière. In: BARTHES, Roland. Oeuvres complètes. Paris: Seuil, 1993. t. I, p. 1250-1259.

7 7 Ambas as citações se encontram em La Sorcière, a primeira no "Avis de la seconde édition"; a segunda no capítulo metodológico, intitulado "Notes et éclaircissements".

8 8 A recepção "literária" da obra de Michelet é contemporânea ao historiador e foi um problema que ele não cessou de enfrentar e combater ao longo de toda a obra. No geral, seus prefácios constituem o espaço privilegiado para esse tipo de debate, também registrados em seus diários e sua correspondência. A título de exemplo, que se relembre sua carta a Taine, em resposta a uma resenha do crítico tratando de sua História da França no século XVI. Nessa carta, em tom de duvidosa cordialidade, Michelet lhe responde afirmando que "sendo novo na crítica, ignorais ainda que esse nome de poeta que me outorgais é justamente a acusação sob a qual se acreditou até agora espezinhar o historiador. Essa palavra respondeu a tudo". A carta foi publicada, entre outros, em BARTHES, Roland. Michelet. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 84.

9 9 Elementos cronológicos e interpretativos de La Sorcière parecem encontrar eco em publicações da historiografia contemporânea sobre o assunto. A título de exemplo, destaco apenas um tópico, dos muitos que podem ser elencados: os trezentos anos de vida de sua feiticeira original remetem, segundo o corpo e as notas do texto, aos séculos XII e XIV. Longe de ser arbitrária, a cronologia dessa história encontra apoio e endosso em alguns estudiosos. Sem qualquer pretensão à exaustividade, podemos citar História do medo no Ocidente (São Paulo: Companhia das Letras, 1996), de Jean Delumeau, para quem essas datas demarcam um percurso histórico de progressão do medo cujas características ajudam a compreender não poucos traços delineados por Michelet em La Sorcière. Destacamos, ainda, GINZBURG, Carlo. História noturna: decifrando o sabá. São Paulo: Companhia das Letras, 1991; Jean Chelini, em particular os capítulos "Ruptures et refus de l'unité, les instruments nouveaux de l'unité" e "Les temps des schismes". In: CHELINI, Jean. Histoire religieuse de l'occident medieval. Paris: Hachette, 1991 e, ainda, GAUVARD, Claude; DE LIBERA, Alain; ZINK, Michel. Dictionnaire du Moyen Age. Paris: PUF, 2002.

10 10 Citado em VIALLANEIX, Paul. Introduction. In: MICHELET, Jules. Œuvres complètes. Paris: Flammarion, 1971. t. I, p. 275.

11 11 Acerca da maneira como Michelet releu Vico, ver, em particular: REMAUD, Olivier. Michelet - la magistrature de l'histoire. Paris: Michalon, 1998; REMAUD, Olivier. Les archives de l'humanité: essai sur la philosophie de Vico. Paris: Seuil, 2004; CRISTOFOLINI, Paolo. Vico et l'histoire. Paris: PUF, 1995.

12 12 "A filosofia contempla a razão, de onde vem a ciência do verdadeiro; a filologia estuda os atos da liberdade humana, ela segue a autoridade; e é daí que vem a consciência do certo. - Assim, nós compreendemos sob o nome de filólogos todos os gramáticos, historiadores, críticos que se ocupam do conhecimento das línguas e dos fatos (tanto fatos interiores da história dos povos, como leis e costumes, quanto fatos exteriores, como guerras, tratados de paz e de aliança, comércio e viagens). Esse mesmo axioma mostra-nos que os filósofos ficaram a meio caminho ao negligenciarem dar a seus raciocínios uma certeza tirada da autoridade dos filólogos; que os filólogos cometeram o mesmo erro, pois não deram aos fatos esse caráter de verdade que poderiam ter tirado dos raciocínios filosóficos. Se os filósofos e os filólogos tivessem evitado essa dupla armadilha, teriam sido mais úteis à sociedade e nos teriam poupado a pesquisa dessa nova ciência." VICO, Giambattista. Principes de la philosophie de l'histoire. In: MICHELET, Jules. Œuvres complètes, op. cit. t. I, p. 433

13 13 "Dans cette variété infinie d'actions et de pensées, de mœurs et de langues que nous présente l'histoire de l'homme, nous retrouvons souvent les mêmes traits, les mêmes caractères. Les nations les plus éloignées par les temps et par les lieux suivent dans les révolutions politiques, dans celles du langage, une marche singulièrement analogue. Dégager les phénomènes réguliers des accidentels, et déterminer les lois générales qui régissent les premiers; tracer l'histoire universelle, éternelle, qui se produit dans le temps sous la forme des histoires particulières, décrire le cercle idéal dans lequel tourne le monde réel: voilà l'objet de la nouvelle science. Elle est tout à la fois la philosophie et l'histoire de l'humanité." MICHELET, Jules. Discours sur Vico. In: MICHELET, Jules. Œuvres complètes, op. cit. t. I, p. 288.

14 14 LACERDA, Sônia. Metamorfoses de Homero. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003. p. 243.

15 15 "Rappelons d'abord cet axiome: Les hommes sont portes naturellement à consacrer le souvenir des lois et institutions qui font la base des sociétés auxquelles ils appartiennent. - 2. L'histoire naquit d'abord, ensuite la poésie. En effet, l'histoire est la simple énonciation du vrai, dont la poésie est une imitation exagérée. (...) - 3. Les poètes ayant certainement précédé les historiens vulgaires, la première histoire dut être la poétique. - 4. Les fables furent à leur origine des récits véritables et d'un caractère sérieux, et mythos, fable, a été défini par vera narratio. (...) - 6. Les caracteres poétiques, qui sont l'essence des fables, naquirent d'une impuissance naturelle des premiers hommes, incapables d'abstraire du sujet ses formes et ses propriétés; en conséquence, nous trouvons dans ces caractères une manière de penser commandée par la nature aux nations entières, à l'époque de leur plus profonde barbarie." VICO, Giambattista. Principes de la philosophie de l'histoire, op. cit. p. 540.

16 16 Parece-nos justo dizer que a configuração inicial do medievo no pensamento micheletiano é extremamente devedora das observações feitas por Vico sobre o período. Se, como afirma Remaud, Michelet não desconfigura os fundamentos da "história ideal eterna", a noção de corso, implícita nessa dinâmica, também deve ter sido bem compreendida por Michelet. Se isto é fato, cabe notar que, com Vico (e possivelmente com Michelet), o corso não se confunde com a descrição histórica e repetitiva de eventos particulares, mas remete à ideia de um quadro epistemológico, "um simples mecanismo sem qualquer ideia explícita de progresso e cujas etapas são expostas por Vico de maneira neutra". GIRARD, Pierre. Le vocabulaire de Vico. Paris: Ellipses, 2001. p. 10.

17 17 "Une chose promettait, il est vrai, la paix qui renouvelle: toutes les écoles étaient finies, la voie logique abandonnée. Une méthode infiniment simple dispensait du raisonnement, donnait à tous la pente aisée qu'il ne fallait plus que descendre. Si le credo était obscur, la vie était toute tracée dans le sentier de la légende." MICHELET, Jules. La Sorcière, op. cit. p. 53.

18 18 MICHELET, Jules. La Sorcière, op. cit. p. 54.

19 19 "Elle a sa racine profonde dans le sol; le peuple l'y sème, et la famille l'y cultive, et tous y mettent la main, les hommes, les femmes et les enfants. La vie précaire, inquiète, de ces temps de violence, rendait ces pauvres tribus imaginatives, crédules pour leurs propres rêves, qui les rassuraient. (...) Vox populi, vox Dei! (...) Mais comment l'ont-ils trouvée? On lui montrait des témoins véridiques, irrécusables: l'arbre, la pierre, qui ont vu l'apparition, le miracle." Ibid., p. 54.

20 20 "Rapportée à l'abbaye, la légende trouvera un moine, propre à rien, qui ne sait qu´écrire, qui est curieux, qui croit tout, toutes les choses merveilleuses. Il écrit celle-ci, la brode de sa plate rhétorique, gâte un peu. Mais la voici consignée et consacrée, qui se lit au réfectoire, bientôt à l'église. Copiée, chargée, surchargée d'ornements souvent grotesques, elle ira de siècle en siècle, jusqu'à ce que honorablement elle prenne rang à la fin dans la Légende dorée." Ibid., p. 55.

21 21 Ibid., p. 295.

22 22 Esse é o argumento principal de Jurgen Trabant, para quem uma das originalidades do pensamento viconiano está em seu modo de refletir sobre a linguagem, abolindo o hiato entre o mundo das coisas e o mundo das ideias, ao dispor a "res linguística" como meio - in mezzo - ou como laço de união entre ambas as instâncias. Diz o autor: "Vico dispõe a imaginação e a corporeidade como fundamentos primeiros da razão. (...) A interioridade do espírito é ultrapassada, então, pela linguagem - ou pela semiose - à medida que, através do signo, estabelece-se uma ligação sintética do dentro e do fora e, consequentemente, do interior ao exterior (...) no meio, 'in mezzo' da res cogitans e da res extensa, está a res linguística". Ver TRABANT, Jurgen. La sématologie de Vico. In: GIRARD, Pierre; REMAUD, Olivier. (Orgs.). Recherches sur la pensée de Vico. Paris: Ellipses, 2003. p. 54.

23 23 "Dans la mesure où la langue n'est pas séparable du régime temporel dans lequel elle se forme, le philologue postule que chaque document contient les moyens de contredire les interprétations qui le rendent anachronique. La vérité du texte devient index sui. La langue et son histoire contextuelle sont les seules à pouvoir fournir les critères de la vérification du sens. La premier exercice de la raison critique est un exercice de lecture littérale et comparative qui interrompt le cycle des compréhensions déformantes." REMAUD, Olivier. Les archives de l'humanité. Paris: Seuil, 2004. p. 258.

24 24 "Le péché intellectualiste, ce que Vico appelle la boria dei dotti, la 'vaine prétention des érudits', consiste à projeter sur un univers qui ne relève pas de la raison les catégories d'une raison 'pleinement développée', qui ne s'épanouit chez l'homme qu'au terme d'un long processus historique dont les premières étapes sont marquées par la prédominance des sens et de l'imagination. Vico polémique donc aussi bien contre ceux qui voudraient que, dans les temps reculés, les hommes, ou certains d'entre eux, aient été doués d'une sagesse 'cachée', dissimulée volontairement derrière des formulations symboliques, que contre ceux qui, au nom de leur raison 'pleinement développée', traitent d'absurdités sans signification les mythes, rites et coutumes des primitifs." PONS, Alain. De la "nature commune des nations" au peuple romantique, note sur vico et Michelet. Romantisme, n. 9, p. 46, 1975.

25 25 REMAUD, Olivier. Les archives de l'humanité. Paris: Seuil, 2004. p. 206.

26 26 Ibid., p. 206.

27 27 Ibid.

28 28 Sobre os desvios interpretativos de Michelet no que toca à obra viconiana, ver, em particular, os artigos que Alain Pons dedicou ao tema.

29 29 "C'est seulement en 553 que l'Église a pris l'atroce résolution de damner les esprits ou démons (mots synonymes en grec), sans retour, sans repentir possible. Elle suivit en cela la violence africaine de saint Augustin, contre l'avis plus doux des Grecs, d'Origène et de l'antiquité (Haag, Hist. des dogmes, I, 80-83). - Dès lors on étudie, on fixe le tempérament, la physiologie des Esprits. Ils ont et ils n'ont pas de corps, s'évanouissent en fumée, mais aiment la chaleur, craignent les coups, etc. Tout est parfaitement connu, convenu, en 1050 (Michel Psellus, Energie des esprits ou démons)." MICHELET, Jules. La Sorcière, op. cit. p. 295.

30 30 Ibid., p. 65.

31 31 Ibid., p. 60.

32 32 "Nul de mes prédécesseurs ne s'en est enquis Ils ne s'informent pas des degrés successifs par lesquels on arrivait à cette chose horrible. Leur Sorcière surgit tout à coup, comme du fond de la terre. Telle n'est pas la nature humaine." Ibid., p. 295.

33 33 Ibid., p. 295.

34 34 "Si la femme amoureuse, jalouse et délaissée, si l'enfant chassé par la belle-mère, si la Mére battue de son fils (vieux sujets de légendes), si elles ont pu être tentées, invoquer le mauvais Esprit, tout cela n'est pas la Sorcière." Ibid., p. 36.

35 35 "Dans ce chapitre et le suivant, j'ai marque les situations, les sentiments, les progrès dans le désespoir, qui peuvent amener le traité énorme du pacte, et, ce qui est bien plus que le simple pacte, l'horrible état de la sorcière. (...) Pour la facilité de l'exposition, j'ai rattaché les détails de cette délicate analyse à un léger fil fictif. Le cadre importe peu du reste. L'essentiel, c'est de bien comprendre que de telles choses ne vinrent point (comme on tâchait de le faire croire) de la légèreté humaine, de l'inconstance de la nautre déchue, des tentations fortuites de la concupiscence. Il y fallut la pression fatale d'un âge de fer, celle des nécessités atroces; il fallut que l'enfer même parût un abri, un asile, contre l'enfer d'ici-bas." Ibid., p. 78.

36 36 "Pour que la volonté en vienne à cette extrémité terrible de se vendre pour l'éternité, il faut qu'elle ait désespéré. Ce n'est guère le malheureux qui arrive au désespoir; c'est le misérable, celui qui a connaissance parfaite de sa misère, qui en souffre d'autant plus et n'attend aucun remède. Le misérable, en ce sens, c'est l'homme du quatorzième siècle, l'homme dont on exige l'impossible (des redevances en argent)." Ibid., p. 78.

37 37 "La cruelle histoire du passé que je raconte ici, ne reproduira pas ses dogmes monstrueux, ses effroyables rêves. En bronze, en fer, ils sont fixés à leur place éternelle dans la fatalité du temps." Ibid., p. 296.

38 38 "Personne, que je sache, n'avait bien vu cela. - Pourquoi? L'imagination, une vaine poésie puérile brouillait, confondait tout. On s'amusait à ce sujet terrible qui n'est que larmes, et sang. Moi, je lai pris à cœur. J'ai laissé les mirages, les fumées fantastiques, les vagues brouillards où l'on s'y complaisait." Ibid., p. 289.

Recebido: 23 de Junho de 2013; Aceito: 04 de Setembro de 2013

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Doutora em estudos literários pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professora adjunta II de língua e literatura francesa na Faculdade de Letras da UFMG. Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: juliana.gambogi22@gmail.com.

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