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Revista Brasileira de Estudos da Presença

On-line version ISSN 2237-2660

Rev. Bras. Estud. Presença vol.10 no.3 Porto Alegre  2020  Epub May 18, 2020

https://doi.org/10.1590/2237-266097876 

PERFORMANCE E TRANSGÊNERO

Transformistas vs Travestis: as experiências transgênero no Miss Gay Internacional by Theatron

Transformistas vs Travestis: transgender experiences inside the Miss Gay Internacional by Theatron

IÉcole des hautes études en sciences sociales - EHESS, Paris, França


Resumo:

Este artigo toma como ponto de partida o concurso de beleza Miss Gay Internacional by Theatron, organizado em uma casa noturna de Bogotá, na Colômbia. O texto analisa o evento e constata uma realidade complexa e discordante entre a visão dos organizadores, segundo os quais o concurso é uma plataforma para o transformismo como performance artística, e a de militantes LGBT, para os(as) quais esse evento é discriminatório, na medida em que os produtores limitam a participação de mulheres trans. Opondo-se a um contexto global propício à renovação nesse tipo de espetáculos, a competição analisada parece apresentar certa resistência às mudanças em relação à binariedade dos gêneros.

Palavras-chave: Colômbia; Concursos de Beleza; Estudos LGBT; Gênero; Performatividade

Abstract:

This article takes as its starting point the Miss Gay Internacional by Theatron beauty contest, organized by a night club in Bogota, Colombia. The text examines this event and finds a complex and discordant reality between the vision of the organizers, according to whom the competition functions as a platform for transformista artistic performances, and that of some LGBT activists, for whom the event is discriminatory, to the extent that its producers limit the participation of transgender women. In contrast to a global atmosphere conducive to renewal of this type of show, the competition analyzed seems to present resistance to changes related to gender binarity.

Keywords: Colombia; Beauty Contests; LGBT studies; Gender; Performativity

Résumé:

Cet article prend comme point de départ le concours de beauté Miss Gay Internacional by Theatron, organisé par un établissement nocturne de Bogota, en Colombie. Le texte examine cet événement et constate une réalité complexe et discordante entre la vision des organisateurs, selon lesquels le concours fonctionne comme une plateforme pour le transformismo en tant que performance artistique, et celle de certains et certaines activistes LGBT, pour lesquels et lesquelles cet évènement est discriminatoire, dans la mesure où ses producteurs limitent la participation des femmes trans. En opposition a une ambiance globale propice au renouveau dans ce type de spectacles, la compétition analysée semble présenter des résistances aux changements en relation à la binarité des genres.

Mots-clés: Colombie; Concours de Beauté; Études LGBT; Genre; Performativité

Criado em 2001, o concurso Miss Gay Internacional by Theatron faz parte da programação do Theatron de Película, uma casa noturna de Bogotá (Colômbia), dirigida preferencialmente ao público LGBT1. Esse evento constitui o objeto de estudo de um projeto de pesquisa de doutorado, atualmente em andamento, realizado a partir de uma abordagem pluridisciplinar que combina estudos sobre as artes cênicas, sobre o gênero e sobre os fenômenos migratórios. Além da observação participante no local e de algumas entrevistas semiestruturadas, também faz parte deste trabalho a realização de uma pesquisa online sobre o concurso, que inclui o exame de diversos vídeos publicados na Internet e a análise de abundantes imagens e comentários publicados nas redes sociais, em relação a esse tema.

Neste artigo, examinarei algumas reflexões sobre as experiências trans (conforme foram categorizadas por Franklin Gil Hernandez em 2013) observáveis no evento analisado: onde estão os limites entre a performance cênica dos(as) participantes e suas performances de gênero cotidianas? Seria a classificação binária das pessoas (cisgênero2 ou transgênero) necessária para estudar o travestimento como forma espetacular? Em que medida excluir do concurso as pessoas consideradas transgênero coloca em destaque as relações de poder entre pessoas LGBT? Para tentar responder a essas questões, começarei por alguns esclarecimentos de ordem linguística. Após, farei uma breve síntese da história do evento em questão. Finalmente, analisarei dois pontos identificados durante o trabalho de campo: o exame médio do concurso estudado e um concurso internacional aberto à participação de mulheres transgênero.

Gay, travesti ou transformista? Um problema de terminologia

Desde 2009, vídeos do concurso Miss Gay Internacional… são publicados regularmente na plataforma YouTube. A cada edição, podemos observar o mesmo incômodo manifesto em alguns comentários dos espectadores que visualizam os vídeos, sempre em relação ao termo gay utilizado no nome do concurso. Um primeiro exemplo: “Pacoyasrrael: eu não entendo... se são transexuais que dizem não ser gays; então por que elas participam de eventos gays?”3. Eis a resposta dos organizadores do concurso: Theatron de Película: são homens transformistas4. Alguns espectadores propõem uma mudança de nome (Miss Trans Internacional, Miss Travesti Internacional etc.), enquanto outros manifestam seu descontentamento diante da relação entre a etiqueta identitária gay e uma prática como o travestimento, julgada inadequada para pessoas LGBTI que afirmam certos modelos de masculinidade: “César Beltrán: isso aí não é um concurso de gays, é um concurso de travestis. Travecas… bixas… loucas…”5.

Buscando um contexto terminológico mais claro, proponho distinguir o termo gay, ligado à orientação sexual e a um possível pertencimento comunitário, dos outros termos ligados às questões de gênero. No Dictionnaire des cultures gays et lesbiennes, Didier Eribon apresenta um resumo histórico da evolução da palavra gay do século XVIII até hoje, baseado nos trabalhos de alguns especialistas norte-americanos e europeus (Foucault, 1984; Chauncey, 1995)6. No entanto, a aplicabilidade dessa história aos contextos latino-americanos é relativa: o termo anglófono gay é bastante utilizado nos países hispanófonos e, junto ao termo homossexual, ele é empregado como uma versão mais neutra, ou mesmo politicamente correta, de termos como marica7 e suas múltiplas variantes em espanhol (marico, maricón, maricona, etc.)8.

O Theatron de Película, por sua vez, define-se como “um lugar icônico da festa gay”9 e em suas mensagens publicitárias esta palavra é onipresente. São mencionados nessas mensagens Gayshira ou Gayoncé, como avatares de divas pop internacionais, as apresentadoras Gaysell Bundchen10 ou Gaylin Ferral11, bem como eventos festivos como o Gayvengers12, a festa temática de Halloween proposta pelo estabelecimento em outubro de 2019. Aliás, algumas pessoas denunciam a preferência pelo público homossexual masculino (dos quatorze espaços da casa noturna, apenas um é destinado exclusivamente às mulheres)13 e, às vezes, pessoas travestidas são barradas na entrada. Conforme o depoimento de Fernando14, um transformista venezuelano, que vive em Bogotá desde 2017:

Paul - Alguns homens gostam de se vestir de mulher quando saem para dançar. É o seu caso? Fernando - Não... Sim, eu gosto, mas ao mesmo tempo me dá medo, pois no Theatron, eles não deixam entrar todo mundo […]. Uma vez, eu fui com um amigo, ele veio travestido e, na porta, eles disseram : ‘Você não pode entrar’. Claro... também era por causa do look dele... para mim, também foi por causa de como ele estava vestido naquela noite. Claro, eu não vou me vestir assim, mas... em todo caso, eu prefiro não correr o risco (Fernando Marcano, 10 de julho de 2018)15.

No contexto dos concursos de beleza transformistas, o uso da palavra travesti é múltiplo: utilizado com admiração quando uma candidata apresenta uma boa passabilidade [passing] de gênero16, esse termo também pode ter uma conotação insultante ou evidenciar a desigualdade das condições de participação entre candidatas trans e candidatas cisgênero. Nesse sentido, a obra de Don Kulick (1998) sobre os travestis da Bahia, no Brasil, me parece uma referência importante. Kulick também faz referência a dois termos amplamente utilizados na América Latina: transexual e transformista. Os travestis entrevistados insistem em se diferenciar das mulheres transexuais, que qualificam, às vezes, como “doentes mentais” (Kulick, 1998, p. 84)17. Eles também buscam afastar-se dos homens transformistas, considerados como manifestações fraudulentas dos gêneros feminino e masculino (Kulick, 1998, p. 64)18. Por ser considerada muito ligada ao campo médico, na Colômbia, a palavra transexual19 é às vezes substituída pelo termo espanhol transgenerista (um equivalente de “transgênero”, que inclui diversas identidades adotadas pelas pessoas trans)20. Quanto à palavra transformista, a definição dada por Kulick em 1997 é a seguinte:

Os transformistas são homens homossexuais que vivem vestidos como homens durante o dia, utilizando um nome masculino e agindo de maneira masculina. No entanto, à noite eles colocam perucas, vestidos e maquiagens para ir a clubes gays e, às vezes, apresentar-se nesses clubes [...] ou para se prostituir (Kulick, 1998, p. 64)21.

Vinte anos após o trabalho de Kulick, esses mesmos termos são utilizados pelas pessoas que praticam o transformismo em Bogotá, mesmo com o surgimento de novas categorias identitárias relativas às sexualidades ou ao gênero (pessoas queer, pansexuais, não binárias, de gênero fluido etc.). Roxana22, uma artista e militante transgênero da cidade, explica:

Bem, o que acontece é que em um momento da história, as pessoas começaram a se classificar como transformistas, travestis ou transexuais, e elas começaram a associar esses termos às suas corporalidades... mas não necessariamente às suas identidades de gênero. Então, na época era assim: a gente era transformista (se ainda não tivesse começado a transição de gênero), travesti (quando já tinha seios, cabelos compridos e vivia o dia inteiro como mulheres) ou então transexual (se já tivéssemos feito a redesignação genital do sexo) (Roxana Miranda, 11 de julho de 2018)23.

Esta tríade transformista-travesti-transexual pressupõe um processo evolutivo linear, que vai das primeiras explorações travestidas até uma redesignação de gênero definitiva. Semelhante hipótese, já desenvolvida em diversos trabalhos sobre as experiências transgênero na América Latina24, parece confirmada pela vivência de alguns dos participantes do concurso. No entanto, não se trata de uma tendência majoritária: boa parte dos participantes destacam sua condição de homens gays cisgênero, que praticam o travestimento como uma atividade de entretenimento ocasional. Com o intuito de estudar a evolução no uso dos termos transformista (utilizado oficialmente pelos organizadores do concurso) e travesti (utilizado não oficialmente pelos participantes e espectadores do concurso), proponho um resumo da história do concurso, de sua criação até agora.

Vinte anos de Transições: o concurso Miss Gay Internacional by Theatron

Criado em 2001 no bar Zona Franca (o local que precedeu o atual Theatron de Película), o concurso conta atualmente com dezoito edições sucessivas. Dividi seu percurso histórico em três etapas distintas: primeiro, entre 2001 e 2003, quando ocorreram duas edições iniciais, de maneira amadora. Tendo sido espectadora do concurso desde sua criação, Roxana é uma de nossas testemunhas privilegiadas de sua história: ela menciona um evento inicial, destinado a artistas locais e mais ou menos iniciantes na prática do transformismo. A artificialidade é uma das características que aparece com frequência na descrição dessa primeira etapa do concurso:

[…] É preciso dizer que, no início, o Miss Gay… era um concurso realizado exclusivamente com artistas de Bogotá, como eu… a maquiagem era muito marcada, muito marcada […]. Nossas maquiagens eram fortes, muito visíveis, por causa de nossa barba, entre outras coisas… As perucas eram grandes, exageradas e rígidas, bem anos 1980… Os vestidos também, eram duros e com enchimentos… (Roxana Miranda, 11 de julho de 2018)25.

Posteriormente, essa primeira estética transformista do concurso será considerada excessiva pelos próprios protagonistas. Como exemplo, vejamos a apresentação das candidatas da primeira edição do concurso:

Fonte: Página Oficial no Facebook do Miss Gay Internacional

Imagem 1 Cartaz promocional do Miss Gay Internacional… 2001 

Depois, entre 2004 e 2014, progressivamente, o evento se abre à participação de pessoas de outras regiões do país e, particularmente, da cidade de Medellín. A presença dessas candidatas, mais jovens e com uma morfologia vista como mais andrógina, faz com que o concurso evolua, em um plano formal: do transformismo quase anacrônico de Bogotá dos anos 1980-1990, a competição passa a uma estética dita travesti, paradoxalmente marcada pela noção de naturalidade:

Quando as meninas de Medellín chegam, elas vêm com uma experiência completamente diferente: uma apresentação mais natural, na qual elas penteavam seus próprios cabelos, que já eram longos, ou colocavam apenas um pequeno aplique, e estavam prontas... Uma maquiagem leve, apenas um pouco de rímel, lápis de olho e batom... E os vestidos... era a época dos vestidos muito transparentes: como elas tinham o corpo adequado para esse tipo de roupas (e, mesmo hoje, com frequência elas têm esse tipo de corpo), então elas chegaram com força, como foi o caso de Danna Sultana, por exemplo…(Roxana Miranda, 11 de julho de 2018)26.

Entre as onze ganhadoras desse período, oito vinham de Medellín. E, entre essas oito pessoas, ao menos quatro fizeram a transição em mulheres transgênero após sua participação no concurso. Nesse sentido, a referência a Danna Sultana27 não é sem importância: depois de ter sido coroada Miss Gay Internacional… em 2005, essa participante começou sua transição de gênero para, após, seguir uma carreira como artista, instalar-se em Bogotá e, depois, em Nova York.

Fonte: Website oficial de Danna Sultana

Imagem 2 Danna Sultana 

Finalmente, de 2014 até hoje, a abertura geográfica do concurso ultrapassa as fronteiras da Colômbia: pessoas de países como Brasil, Costa Rica, México, Nicarágua e Venezuela começam a participar da competição. A estética travesti, vinda de Medellín, é deslocada para um conjunto de diversos estilos transformistas, com uma clara predominância da estética das rainhas de beleza venezuelanas:

Os transformistas venezuelanos são como as rainhas venezuelanas. Elas têm uma maneira específica de se preparar e se apresentar em cena, que nós não tínhamos aqui na Colômbia. Por exemplo, quase todas elas têm uma maneira de se pentear, com cachos que não são completamente lisos, nem completamente cacheados, assim como uma maneira específica de se maquiar… Além disso, diferente dos meninos de Medellín, a maioria dos transformistas venezuelanos não são tão femininos em sua vida cotidiana. Mas eles fazem um transformismo muito bem feito, com uma mudança de aspecto realmente radical (Roxana Miranda, 11 de julho de 2018)28.

As interseções entre experiências de gênero e pertencimentos locais estão intimamente ligadas nesta pesquisa. Por exemplo: Saphira von Teese29, a ganhadora da edição 2015-2016 do concurso, é um personagem interpretado pelo transformista venezuelano Alexei Quintero. Mas também é a primeira participante não colombiana que ganha o concurso. Diante desse retorno da estética transformista, ainda mais reforçado pelo triunfo de um artista estrangeiro, diversos comentários de insatisfação foram publicados pelos espectadores nas redes sociais. A resposta dos organizadores, publicada na página Facebook oficial do evento, é a seguinte:

A reivindicação da arte transformista e a projeção do evento: Durante os dois últimos anos, uma avalanche de críticas e comentários depreciativos foi feita nas redes sociais contra Maria Antonia Cadavid (Miss Gay Internacional 2013-2014), Taliana del Castillo (Miss Gay Internacional 2014-2015) e Marianella del Castillo (participante da edição de 2014-2015 do concurso). Os difamadores as chamavam de ‘travecas’, ‘mulheres em tempo integral’, ‘cabelos compridos’ [pelilargas] ou ‘travestis sem peitos’, entre outros adjetivos pejorativos. Bem, para a surpresa de muitos, o evento deste ano escolheu seis homens que representassem a essência da arte do transformismo: homens carecas, sem cirurgias plásticas notórias [grifo meu] e com um processo de produção que pedia não apenas um grande investimento econômico, mas também muito tempo de preparação […] para ganhar um lugar no mais disputado evento de beleza transformista da América Latina […]. E agora, o público está insatisfeito porque eles todos eram transformistas completos? Agora, há insatisfação por parte do público? Com todo o respeito, deixem-me dizer que neste concurso (e em todos os concursos do mundo) é a comissão de seleção quem escolhe! […] Abram suas mentes e olhem além do que veem nas fotos! Não temos a intenção de convencê-los, mas propomos que se abram à possibilidade de que, na diversidade, sejamos todos humanos e maravilhosos!30

Fonte: Página Oficial no Facebook do Miss Gay Internacional

Imagem 3 Saphira von Teese, 2016 

Em meio aos conflitos entre apreciadores das estéticas travesti e transformista, e em razão da abertura dos organizadores do concurso aos(às) participantes estrangeiros(as) (considerados(as) como uma oportunidade de tornar o concurso conhecido no plano internacional), os(a) artistas colombianos(as) começaram a perceber os(as) candidatos(as) vindos da Venezuela como uma presença invasiva e preocupante:

Paul - Como esta situação vai evoluir, na sua opinião? Roxana - Bem […] As meninas colombianas estão preocupadas, porque em diversos concursos elas têm a impressão de que o papel delas é apenas de pano de fundo, em relação às venezuelanas. Elas têm a impressão de que é impossível concorrer em pé de igualdade, mesmo que nós sejamos as anfitriãs […]. Então, estamos começando a nos colocar certas questões: nosso transformismo vai ter que se adaptar ao transformismo venezuelano? Vamos continuar participando para perder a cada vez? Ou vamos ter que nos adaptar definitivamente a todos os costumes que chegam da Venezuela? (Roxana Miranda, 11 de julho de 2018)31.

O estudo das interações entre as populações colombianas e venezuelanas no concurso Miss Gay Internacional by Theatron constitui o tema central de minha pesquisa de doutorado32. Todavia, este artigo se concentra especificamente na problemática das experiências transgênero. Para isso, passo agora à análise de duas etnografias coletadas durante o trabalho de campo. A primeira é o exame médico, uma etapa indispensável na competição estudada; e a segunda é a participação de uma candidata transgênero no Miss Universo, um fato sem precedentes na história dos concursos de beleza contemporâneos.

‘É você, a que está tomando hormônios?’: o exame médico

Desde a primeira metade do século XX, as avaliações científicas são uma prática constante dos concursos de beleza. Por exemplo: a partir de uma etnografia sobre o concurso Miss Itália 2001, Anne Monjaret e Federica Tamarozzi (2005) propuseram o termo ginometria para definir “o estudo de proporções e as técnicas de medida do corpo feminino”33. Essa noção me parece aplicável a meu objeto de estudo, no qual trata-se de excluir os corpos que apresentam uma construção feminina permanente. Durante os anos 1950, um instituto de educação física tinha a responsabilidade de verificar a saúde das candidatas ao concurso Miss Itália. No entanto, no Miss Gay Internacional… o exame médico funciona mais como uma etapa classificatória, levando à distinção entre transformistas e outras categorias de participantes:

Pré-requisito: […] 3. Participantes 100 % transformistas. Esta medida visa garantir a todos os participantes o mesmo acesso ao concurso, razão pela qual não serão permitidas cirurgias de mudança de sexo, nem próteses mamárias […]. Inscrição: […] 7. Os pré-selecionados deverão submeter-se a um exame médico e a uma audição, em data que será comunicada posteriormente34.

Essa medida de controle também lembra o concurso Miss Gay América, uma das mais antigas competições de drag-queens dos Estados Unidos. Nesse evento, as cirurgias plásticas e o consumo de hormônios são proibidos, a fim de preservar “a arte da ilusão feminina”35. No concurso Miss Gay Internacional…, uma busca de igualdade entre participantes é usada como argumento pelo médico responsável pelo exame, como mostra a entrevista realizada por uma das apresentadoras do evento, na edição de 2019-2020:

Daniela Patricia Olivieri - Conte para nós em que consiste este exame médico e porque ele é importante em um concurso de transformismo. Jorge Luis Mendivil - […] Nós verificamos que os candidatos não têm nenhum tipo de implante ou de cirurgias, e que não tomem hormônios. O tratamento hormonal pode gerar algumas vantagens, que não estão ao alcance das outras candidatas. Então, o que é mais importante para os candidatos? Mostrar que dominam a arte do transformismo, pois é o que valorizamos realmente aqui, no Theatron36.

Fonte: Perfil Oficial no Instagram do Theatron de Película

Imagem 4 Daniela Patricia Olivieri e Jorge Luis Mendivil durante o Miss Gay Internacional… 2019-2020 

Os termos “implantes” e “cirurgias” me parecem interessantes na reflexão sobre diversas cartografias corporais da feminilidade, correspondentes a diferentes contextos geoculturais. Seguem dois exemplos latino-americanos: no fim dos anos 1990, Don Kulick referia-se à importância dos glúteos, a bunda, como “símbolo e essência do feminino” no Brasil (Kulick, 1998, p. 70)37. Ao contrário, em sua etnografia de 2014 sobre as rainhas de beleza e as transformistas venezuelanas38, Marcia Ochoa comenta uma prática comum a estas duas populações: “Uma somatecnologia praticada tanto pelos transformistas quanto pelas misses é a cirurgia plástica. Especialmente (mas não exclusivamente) o aumento mamário” (Ochoa, 2014, p. 173)39.

Nessa oposição entre a parte de cima e a parte de baixo do corpo, a Colômbia parece estar mais próxima da Venezuela: como prova o sucesso da telenovela Sin tetas no hay paraiso [Sem peitos não há paraíso]40, de 2006, na qual foram abordados assuntos como a cirurgia plástica, a prostituição, a mobilidade social feminina ou o estilo designado como narco-estética, pelo jornalista Omar Rincón41. No entanto, no concurso Miss Gay Internacional… a situação parece inverter-se: os implantes mamários e o consumo de hormônios constituem atos médicos proibidos para a participação no evento.

Contudo, as declarações dos representantes de Theatron… sobre as intervenções cirúrgicas ditas notórias, abrem o debate sobre outras práticas de construção da corporalidade e do gênero dos(as) participantes. Segundo declarações de Andrea Sarna, apresentadora da edição 2010-2011 do concurso: “O exame médico atesta que não houve tratamento hormonal, implantes mamários... mas, é claro, todo mundo tem direito a pequenos retoques [grifo nosso]: nariz, glúteos, lipoaspiração etc.”42. Esse fato será confirmado por outras pessoas entrevistadas, inclusive Christian43, um participante colombiano:

Christian - (sobre a primeira vez em que participou do Miss Gay Internacional… em 2017) Não… agora, minha preparação é muito melhor... Eu tive que fazer algumas cirurgias. Paul - Quais? Christian - Bem: eu refiz o nariz, diminuí as maçãs do rosto, lipoaspirações e lipoesculturas... Sim, para ter mais chances […], eu fiz um investimento grande... muito, muito grande... Estamos falando de milhões de pesos! (Risos) (Christian Peñaranda, 12 de julho de 2019)44.

Sendo que nos concursos analisados os indicadores de feminilidade considerados permanentes são o consumo de hormônios, as próteses mamárias (e, em certa medida, os cabelos longos) etc., poderíamos então concluir que outras intervenções corporais - inclusive implantes nos glúteos - constituem pequenos retoques sem caráter de gênero? Vejamos a vivência de Daxon45, um candidato venezuelano que participou da edição 2016-2017 do concurso:

Na época, eu tinha deixado meus cabelos crescerem e tinha feito um regime bastante estrito, para poder usar um biquíni […]. Mas, nos ensaios, notei que os outros riam de mim e eu me perguntava: ‘Mas o que está acontecendo?’ Quando fui ao exame médico o doutor me disse: ‘Ah... é você, a que está tomando hormônios? Você já é quase uma mulher?’ Eu respondi: ‘Não, absolutamente!’ E ele me disse: ‘Sim, sim... vire de costas’ […] E ele apalpou minhas nádegas. Eu disse: ‘Essa [os implantes nos glúteos] é a única cirurgia que eu fiz em toda a minha vida’. […] - O.K. Não é o que os outros pensam... e mesmo seus torcedores. - Ah é? Mas… o que eles dizem? - Eles pensam que você já está em processo de transição...’ (Daxon Prato, 14 de julho de 2019)46.

Não sabemos se o médico encarregado do exame em 2016 era Jorge Luis Mendivil. Mas suas declarações de 2019 mostram que ele parece ser atencioso com os(as) candidatos(as) do evento:

Daniela Patricia Olivieri - Como nossos participantes se comportaram este ano? Jorge Luis Mendivil - (Risos) Todos eles colaboraram. É claro, havia um pouco de stress: para alguns era a primeira vez e outros não sabiam em que consistia o exame […]. Às vezes, eles tinham medo de que tentássemos invadir a privacidade deles, uma coisa que respeitamos profundamente. Mas não... tudo correu bem e não houve problemas com ninguém47.

Essa desproporção entre a vivência subjetiva dos(as) participantes e a versão oficial dos organizadores é uma constante, ou ela pode variar de uma edição do concurso para outra? É difícil afirmar com certeza. De qualquer forma, existem três detalhes na descrição do ato médico que considero reveladores: primeiramente, o caráter físico do exame, que não inclui análises hormonais. Essa etapa pode confirmar a presença de órgãos genitais masculinos e a ausência de implantes mamários, mas não pode infirmar a presença das identidades de gênero femininas. Também, há a tentativa de desestabilização psicológica (“é você, a que está tomando hormônios?”): ela serviria realmente para descobrir as subjetividades transgênero entre os(as) participantes? Ou trata-se apenas de um jogo de poder? Finalmente, um fato sociológico interessante é o uso da fofoca como mecanismo de controle dos(as) participantes (“Eles pensam que você já está em processo de transição”). Por exemplo, paralelamente às dúvidas de alguns(mas) participantes em relação a suas identidades de gênero, Daxon, por sua vez, manifesta suspeitas em relação a outros(as) candidatos(as), que ele considera travestis ou mulheres trans em transição:

Daxon - Olhe, uma outra menina, a que representava a Angola [na edição 2016-2017 do concurso]: ela realmente estava tomando hormônios e eles [os organizadores] não fizeram nada… Paul - Ah é? Daxon - Sim, este rapaz já havia tomado hormônios… ele acabou colocando implante, agora ele tem seios […]. Sim, ele vive na Espanha agora… ele acaba de participar do Trans Star48.

‘É aqui que ela deveria ter participado’: o caso de Angela Ponce

Em junho de 2018, algumas semanas antes de nossa primeira pesquisa de campo em Bogotá, a manequim espanhola Angela Ponce49 se tornaria a primeira candidata transgênero a participar do concurso Miss Universo. Essa decisão abriu um debate entusiástico sobre a presença de participantes trans nos concursos de beleza internacionais, competições que, tradicionalmente, são reservadas às pessoas cisgênero. Esse debate também marca a edição 2018-2019 do concurso Miss Gay Internacional…: assim que o vídeo do concurso colombiano foi colocado online, diversos comentários foram publicados sobre a rainha de beleza espanhola:

Emilia Ulloa - O espanhol que estava no Miss Universo deveria participar deste concurso aqui. Aqui é o lugar dele: com homens que sonham ser mulheres. Josecito - É aqui que ela deveria ter participado, Angela Ponce. Henriquez Aguila - Onde está Angela Ponce? Este é o concurso dela. Miss Trans, e não Miss Gay50.

Uma controvérsia semelhante ocorre no concurso analisado. Um paradoxo torna-se aparente: mesmo que seja teoricamente reservado a homens que praticam o travestimento de forma ocasional, em 2018 o concurso Miss Gay Internacional… será acompanhado de uma sessão de perguntas sobre a vivência das pessoas transgênero. Das seis questões propostas aos finalistas, cinco tratavam de aspectos específicos das experiências transgênero. Segue um primeiro exemplo, relativo à sua possível participação nos concursos de beleza tradicionais:

Gaysell Bundchen (apresentadora principal) - Na sua opinião, por que é importante que os concursos de beleza internacionais permitam a participação de mulheres trans? María Fernanda del Castillo (Miss Porto Rico) - Primeiramente, é importante mencionar que as mulheres trans nasceram sendo mulheres... e elas constroem sua identidade de gênero progressivamente [sic]. Consequentemente, penso que os concursos de beleza ajudam as mulheres trans a se afirmar como mulheres e, desta maneira, eles transmitem uma mensagem de inclusão e de respeito para a sociedade51.

Habitualmente, o concurso tem uma dupla de apresentadoras: a apresentadora principal (atualmente é a personagem Gaysell Bundchen) e uma coapresentadora. Em 2018-2019, esse papel foi ocupado por La Negra, uma mulher transgênero bastante conhecida no meio LGBTI de Bogotá52. Esse detalhe não passou despercebido por alguns participantes, que aproveitaram para falar da sororidade comunitária LGBT:

Gaysell Bundchen (apresentadora principal) - Se você tivesse que explicar para uma criança o que é ser trans, o que você diria a ela? Sashira Evanks (Miss Venezuela) - É muito simples. Eu diria que cada pessoa pode decidir o que quer ser e o aspecto que deseja ter pelo resto de sua vida. E eu explicaria que todos temos direito ao nosso espaço e a expressar o que quisermos, pois as mulheres trans - e aqui temos um belo exemplo [em La Negra] - não merecem nossas críticas, mas sim nossos aplausos53.

Fonte: Canal no YouTube da Noider TV

Imagem 5 Da esquerda para a direita: Gaysell Bundchen, uma candidata finalista e La Negra,durante o Miss Gay Internacional… 2017-2018 

Esses exemplos ilustram o caráter politicamente correto das respostas dadas, mais habituais nos concursos de beleza tradicionais. Contudo, alguns dias antes da edição 2018-2019 do concurso, o transformista venezuelano Fernando (que também tinha sido pré-selecionado para participar dessa edição do evento) me deu seu ponto de vista sobre a participação de Angela Ponce no concurso Miss Universo. Uma posição bastante engajada, mas completamente oposta às respostas dos(as) outros(as) candidatos(as):

Paul - Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Fernando - Sim… eu pensei que você ia me perguntar se eu estava de acordo com... com a coroação do transexual na Espanha.

Paul - Claro… o que você pensa disso?

Fernando - Eu acompanho os concursos de beleza desde pequeno... e, francamente, não estou de acordo.

Paul - Ah é?

Fernando - Não. Eu penso que na vida, cada um tem seu espaço para expressar o que gosta de fazer... Se a organização do Miss Universo faz isso para ganhar mais dinheiro (e, na minha opinião, é por isso que ela está fazendo isso), então ela deveria criar um concurso específico para elas (as mulheres trans). Um concurso no qual cada país escolheria sua representante transexual e onde realmente existiria igualdade... Ela (Angela Ponce) diz que está buscando igualdade… que as pessoas a reconheçam como mulher.

Paul - Você não concorda?

Fernando - Quero dizer… na minha opinião, elas (as mulheres transgênero) não deveriam concorrer com mulheres (cisgênero).

Paul - E seus amigos que praticam o transformismo aqui em Bogotá, eles concordam com vocês ou vocês têm opiniões divergentes?

Fernando - Bem… alguns dizem: ‘Parabéns para ela’. Eu também acho legal que ela tenha ganho em seu país… mas devemos nos recolocar em nossa essência [grifo nosso]. É por isso que existem concursos como o Miss International Queen ou o Miss Trans Star International. Se ela quisesse realmente mostrar seu ponto de vista, ele poderia ter participado desse tipo de evento […]. Ela tem o direito de ter seu sonho de participar do Miss Universo… mas, francamente, eu não concordo54.

Esses argumentos nos lembram os comentários publicados no vídeo da edição 2018-2019 do concurso. Vários fãs desse tipo de evento preconizam a continuidade de uma compartimentação que lhes parece reconfortante: concursos diferenciados para mulheres cisgênero, para homens transformistas e para pessoas transgênero. Sendo que nos concursos de beleza as respostas consensuais são quase obrigatórias, uma última questão se impõe: as duas primeiras respostas citadas anteriormente esconderiam reações pessoais menos receptivas a mudanças nesse tipo de competição?

E a ganhadora é… a resistência à mudança!

Em seu trabalho de 2017 sobre os concursos transgênero na Bolívia, Pascale Absi descreve uma situação inversa da que ocorre na competição analisada aqui. Alguns desses concursos proíbem a participação de homens transformistas e exigem, entre os critérios de seleção, características como cabelos compridos naturais ou próteses mamárias. Ao mesmo tempo, Absi identifica certa porosidade entre os concursos transformistas e transexuais, já que as pessoas transgênero, com frequência, passam por uma primeira etapa transformista que, às vezes, é bastante significativa em sua construção de gênero (Absi, 2017).

Em Bogotá, houve uma proposta semelhante: o concurso Mujer T, criado em 2013 pela prefeitura de Bogotá. Inspirada, em parte, pelos concursos de beleza tradicionais, essa competição tinha o objetivo de valorizar o trabalho das mulheres transgênero nos diversos projetos comunitários da cidade. No entanto, o evento provocou uma grande polêmica no próprio meio militante LGBT local: diante do desacordo entre militantes gays e trans (em geral, favoráveis à iniciativa) e intelectuais feministas (contrárias ao próprio conceito de concurso de beleza), o evento não foi mais realizado, a partir de 201555.

Em relação à participação de pessoas transgênero no concurso Miss Gay Internacional…, coletei diversas opiniões, que vão da crítica engajada até a justificação normativa. Mesmo sendo uma artista que se apresenta no Theatron de Película, na qualidade de militante, Roxana considera problemáticos os critérios de seleção aplicados no concurso estudado aqui:

Roxana - Aqui [na Colômbia] houve um processo muito forte de exclusão das mulheres transexuais nas competições. Paul - Ah é? Roxana - Sim. Aqui em Bogotá, bem como na maioria das regiões do país, se você é uma mulher travesti, você não tem o direito de competir em um concurso transformista […]. Por exemplo, se você tem seios, cabelos compridos ou se você se apresenta de uma maneira feminina permanente, não deixam você participar de eventos como o Miss Gay Internacional… (Roxana Miranda, 11 de julho de 2018)56.

Por parte de outros colaboradores do Theatron…, os comentários são mais amenos. A seguir, apresentamos a opinião de Argenis, transformista venezuelano que dá vida a Daniela Patricia Olivieri, ganhadora do Miss Gay Internacional… de 2016-2017 e coapresentadora da edição 2019-2020 do evento57:

Se analisarmos a história do concurso, antes, havia muitas meninas com seus cabelos naturais, que já estavam em processo [de transição]… e ninguém se importava. No entanto, de alguns anos para cá, eles [os organizadores do concurso] começaram a colocar limites para evitar que as meninas que já são operadas pudessem participar, porque... na verdade, Theatron já tinha espaços para elas. Eles tinham criado La Rosca de la Moda, um evento apenas para meninas trans. Esse espetáculo é concebido para elas. Mas o Miss Gay Internacional… é destinado exclusivamente para os artistas transformistas, para encontrar um equilíbrio, e que cada um possa ter seu espaço… (Argenis Gonzáles, 3 de julho de 2018)58.

De fato, a programação do Theatron… inclui eventos como La Rosca de la Moda, um desfile com criadores locais e manequins transgênero, destinado a “dar visibilidade às mulheres trans”59, ou o concurso Miss Universo Drag Star60, um espetáculo com uma encenação parcialmente inspirada do famoso reality show RuPaul’s Drag Race61. Entretanto, para as pessoas envolvidas nesses concursos, a figura da rainha de beleza seria mais interessante que a da top model ou da drag-queen? Durante a pesquisa de campo, encontrei alguns artistas bastante versáteis, com domínio de diversas aptidões cênicas. Mas a maioria dos entrevistados mostra ter uma clara preferência pela performance própria às rainhas de beleza:

Paul - Você já explorou outras formas do transformismo, como a drag-queen? Argenis - Não. Na verdade, eu trabalhei meu personagem como uma miss e rainha de beleza, com tudo o que envolve o mundo dos concursos de beleza […]. Além disso, eu tenho dificuldade para me adaptar aos shows [Risos]. Mas, na verdade, eu não imagino Daniela [Patricia Olivieri] em um espetáculo onde ela seria obrigada a brincar e fazer palhaçadas, porque… porque ela perderia sua sutilidade de rainha de beleza, capaz de deslumbrar o público apenas com sua maneira de andar. (Argenis Gonzáles, 3 de julho de 2018)62.

De acordo com sua etnografia das drag-queens norte-americanas durante os anos 1970, Esther Newton propõe a existência de duas etapas na vida profissional de uma drag-queen: uma etapa inicial de glamour (focada na beleza do personagem), seguida de uma etapa de especialização, na qual cada artista desenvolveria seus pontos fortes (canto, dança, comédia etc.) (Newton, 1972, p. 41). Tendo em vista o peso simbólico dos concursos de beleza em boa parte da América Latina (Deshoullière; Dziubinska, 2017), teria essa fase de glamour proposta por Newton tomado um lugar mais determinante para os transformistas latino-americanos? Se isso for correto, seria lógico que as pessoas interessadas pelo concurso Miss Gay Internacional… sintam uma atração especial pelas competições de beleza, como espetáculos que reúnem as noções de feminilidade e de poder. No caso das mulheres trans, essa atração poderia ser ainda mais significativa se elas reconhecem, nos concursos, um espaço de legitimação pública de sua identidade de gênero.

Diante dos processos discriminatórios inerentes aos concursos de beleza tradicionais, baseados em critérios específicos (sexo designado no nascimento, idade, estado civil, nacionalidade, categorização étnica etc.), os concursos LGBT poderiam ser considerados como eventos mais inclusivos, semelhantes a certos eventos destinados às populações excluídas desse tipo de competições (pessoas em excesso de peso, racializadas, casadas, mais velhas etc.). Mas na análise desse concurso específico, é necessário considerar outras formas de categorização e discriminação, como a transfobia, a xenofobia, a discriminação de classe ou de raça, as quais modificam constantemente as interações sociais dentro do evento.

Em minha opinião, algumas particularidades interessantes do concurso Miss Gay Internacional… emergem de seu estado de contradição, negociação e reconstrução permanentes, tanto no âmbito dos pertencimentos geopolíticos quanto no das identidades de gênero. Inicialmente voltado à população local, sua extensão geográfica o transformou pouco a pouco em um espaço de competição entre artistas de origens, práticas e estéticas diversas. Originalmente concebido para proporcionar a jovens homens gays a oportunidade de interpretar uma rainha de beleza de forma ocasional, esse concurso navega entre os estilos travestis e transformistas, buscando conciliar os interesses econômicos de seus produtores, os diferentes gostos de seus espectadores e as expectativas dos(as) militantes LGBT mais engajados(as).

Em um contexto de liberação da palavra feminina, marcado por fenômenos midiáticos como os movimentos #metoo, o francês #balancetonporc ou #niunamas [n.d.t.: ou o brasileiro #meuamigosecreto], alguns concursos de beleza voltados às mulheres cisgênero parecem adaptar-se progressivamente em sintonia com os tempos atuais. Assim, o concurso Miss Venezuela, atualmente sob a direção de três antigas rainhas de beleza, começa a repensar a questão das intervenções cirúrgicas. O concurso Miss América elimina a etapa do desfile de maiô, considerado como objetificante para os corpos femininos. Enfim, o concurso Miss Universo abre suas portas à participação de mulheres transgênero, com toda a polêmica que acabamos de examinar brevemente. No entanto, parece que no caso do Miss Gay Internacional by Theatron, a comunidade de produtores, participantes e espectadores ainda apresenta certa resistência a esse tipo de mudança estrutural. Nesse tipo de evento performativo, no qual as noções de corpo, beleza, gênero, pertencimento nacional e engajamento comunitário estão em constante interação, me parece que as contradições entre discurso e prática, em relação às experiências transgênero, ainda vão se estender por muito tempo.

Referências

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1Assim: “LGBT é a sigla para ‘lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros’. No sentido estrito, ela reúne as pessoas com orientações sexuais e identidades de gênero ligadas a estas quatro palavras, bem como as comunidades que surgiram delas”. Ver: <https://es.wikipedia.org/wiki/LGBT>. Consultado em: 31 de janeiro de 2020. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “LGBT es la sigla compuesta por las iniciales de las palabras Lesbianas, Gais, Bisexuales y Transgénero. En sentido estricto agrupa a las personas con las orientaciones sexuales e identidades de género relativas a esas cuatro palabras, así como las comunidades formadas por ellas”.

2Assim: “O cisgênero é um tipo de identidade de gênero na qual o gênero de uma pessoa corresponde a seu sexo biológico, designado no nascimento. A palavra é construída por oposição a transgênero, para uma pessoa que se identifica a um gênero diferente daquele de seu sexo biológico designado no nascimento”. Ver: <https://fr.wikipedia.org/wiki/Cisgenre>. Consultado em: 31 de janeiro de 2020. Nota do tradutor: na versão em francês “Le cisgenre est un type d’identité de genre où le genre ressenti d’une personne correspond à son sexe biologique, assigné à sa naissance. Le mot est construit par opposition à celui de transgenre, pour une personne qui s’identifie à un autre genre que celui de son sexe biologique et assigné à sa naissance”.

3Ver: PARTE 3: Miss Gay Internacional 2015 – Desfile en traje de Coronación, vídeo publicado por Theatron de Película em 5 de agosto de 2015, consultado em 3 de janeiro de 2018 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=XGytyvz_PRs>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “Pacoyasrrael: No entiendo, si son transexuales y ellas dicen que no son gais, ¿por qué participan en estos eventos gay?”.

4Ver: PARTE 3: Miss Gay Internacional 2015 – Desfile en traje de Coronación, vídeo publicado por Theatron de Película em 5 de agosto de 2015, consultado em 3 de janeiro de 2018 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=XGytyvz_PRs>. Tendo em vista o significado específico que possuem no contexto estudado, conservo alguns termos em espanhol, como transformista, travesti ou transexual, pois são de uso corrente entre as pessoas que participam do concurso analisado. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “Theatron de Película: Son hombres transformistas”.

5Ver: Miss Gay Internacional 2018-2019, vídeo publicado por Theatron de Película em 8 de agosto de 2018, consultado em 22 de outubro de 2019 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=pYkuVWPz-yg&t=11s>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “César Beltrán: Eso no es un concurso de gays, es un concurso de travestis. Transformistas, maricones... locas”.

6Eribon (2003, p. 210-212).

7Assim: “Originalmente, esta expressão era uma forma familiar do nome próprio Maria, utilizada na Espanha desde o século XV em relação às marionetes. Ela passa a ser empregada para os homossexuais na América Latina a partir do século XIX e, mais tarde, volta para a Espanha”. Nota do tradutor: na versão em francês “[...] À l’origine, ce mot était une forme familiale du nom propre María, utilisé en Espagne depuis le xve siècle par rapport aux marionnettes. Il sera appliqué aux homosexuels seulement à partir du xixe siècle en Amérique latine, pour ensuite être rapatrié en Espagne” (Forigua Cruz, 2016, p. 79-80).

8Para mais informações, ver a entrada Maricón no Diccionario Etimológico Español Chile, disponível em: <http://etimologias.dechile.net/?maricon>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020.

9Ver: <https://www.facebook.com/theatron.co>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “un icono de la rumba gay”.

10Ver: <https://www.instagram.com/gaysell/>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020.

11Ver: <https://www.facebook.com/aelyngaylin.ferral>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020.

12Ver: <https://www.shock.co/eventos/gayvengers-unidos-en-theatron-ie39>. Consultado em: 31 de janeiro de 2020.

13Ver: Derecho de admisión vs Discriminación en Bares LGBT, vídeo publicado por Seentido em 14 de março de 2013, consultado em 25 de outubro de 2019 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=m5D1DXeuxt0>.

14Fernando Marcano é comissário de bordo e trabalhador independente, originário do departamento de Vargas, na Venezuela. Nome artístico: Maria Fernanda Marcano.

15Nota do tradutor: na versão em francês “Paul – Il y a des garçons qui aiment s’habiller en femme pour aller en boîte. N’est-ce pas ton cas? / Fernando – Non… Oui, ça me plaît, mais en même temps ça me fait peur, car à Theatron, ils ne laissent pas rentrer tout le monde […]. Une fois, je suis allé avec un ami, il est venu en travesti et ils lui ont dit à la porte: ‘Tu ne peux pas passer’. Bien sûr… il s’agissait aussi de son look… pour moi, c’est aussi la façon dont il s’était habillé ce soir-là. Évidemment, je ne vais pas m’habiller comme ça non plus, mais… en tout cas, je ne prendrai pas le risque”.

16Assim: “No contexto de gênero, o passing refere-se à capacidade de uma pessoa de ser considerada, à primeira vista, como uma pessoa cisgênero”. Ver: <https://fr.wikipedia.org/wiki/Passing_(genre)>. Consultado em: 31 de janeiro de 2020. Nota do tradutor: na versão em francês “Dans le contexte du genre, le passing réfère à la capacité d’une personne à être considérée, en un seul coup d’œil, comme une personne cisgenre”.

17Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em inglês “mentally disturbed”.

18Assim: “Os travestis se mostram suspeitos e desconfiados com relação aos transformistas, que consideram como fraudes – tanto quando estão travestidos (pois os transformistas não são mulheres, nem travestis) quanto quando estão vestidos como homens, durante o dia”. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em inglês: “For their part, travestis are suspicious and distrustful of transformistas, whom they regard as frauds – both when they are in female drag (because they are not women or travestis) and when they are dressed as male during the day”.

19Sobre a evolução histórica do termo transexual, ver: Vasquez Garcia (2018, p. 13-34). Consultado em 21 de janeiro de 2020 e disponível em: <https://www.academia.edu/37156243/_La_invención_del_sujeto_transexual_en_Bianciotti_Ma_C._González_Ma_N._y_Fernández_Matos_D._comps_En_todos_los_colores._Cartografías_del_género_y_las_sexualidades_en_Latinoamérica_Barranquilla_Red_HILA_Universidad_Simón_Bolívar_2018_pp._13-34>.

20Ver: <http://www.sdp.gov.co/transparencia/informacion-interes/glosario/transgenerista-o-transgenero>. Consultado em: 23 janeiro de 2020.

21Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em inglês “Transformistas are homosexual males who lives their lives during the day dressed in male clothing, answering to a male name, and acting in a male fashion. At night, however, they sometimes don wigs, dresses, and make up, either to visit gay clubs and perhaps perform there […] and/or to prostitute themselves”.

22Ver: <https://www.instagram.com/casaroxanna/?hl=es>. Consultado em 23 de janeiro de 2020. Roxana Miranda é militante e funcionária pública, originária do departamento de Cundinamarca, na Colômbia. Chamada de Alfredo Ruiz no nascimento, ela se define como uma pessoa não binária.

23Nota do tradutor: na versão em francês “Eh bien, ce qu’il se passe, c’est qu’à un moment de l’histoire, les gens ont commencé à se classer en tant que transformistas, travestis ou transexuales, et ils ont commencé à associer ces termes à leur corporalité… mais pas forcément à leur identité de genre. Donc, à l’époque c’était comme ça: on était transformista (si on n’avait pas encore entamé la transition de genre), travesti (car on avait déjà des seins, des cheveux longs et on vivait toute la journée en tant que femmes) ou bien transexual (si nous avions déjà réalisé une réassignation génitale de sexe)”.

24Cutuli (2012, p. 161-181). Disponível em: <https://www.academia.edu/2095226/_Antropología_y_travestismo._Revisando_las_etnografías_latinoamericanas_recientes>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020.

25Nota do tradutor: na versão em francês “[…] Il faut dire qu’au début, le Miss Gay… fut un concours réalisé exclusivement avec des artistes de Bogotá, comme moi… le maquillage était alors extrêmement marqué, très marqué […]. Nos maquillages étaient très forts, très visibles, évidemment à cause de notre possession masculine de la barbe, parmi d’autres choses… Les perruques étaient grandes, élaborées et rigides, très années 1980… Les robes aussi, elles étaient raides et rembourrées…”.

26Nota do tradutor: na versão em francês “Quand les filles de Medellín débarquent, elles arrivent avec une expérience complètement différente: une mise en beauté très naturelle, où elles coiffaient leurs cheveux, déjà longs, ou bien mettaient juste un petit postiche, et le travail était fait… Un maquillage très doux, à peine un peu de mascara, du crayon et du rouge à lèvres… Et les robes… c’était l’époque des robes très transparentes: comme elles avaient le corps adéquat pour ce type de tenues (et même aujourd’hui, elles ont souvent ce type de corps), alors elles sont arrivées en frappant fort, comme ce fut le cas de Danna Sultana, par exemple…”.

27Ver: <https://www.instagram.com/dannasultana/?hl=es>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020.

28Nota do tradutor: na versão em francês “Les transformistas vénézuéliens sont comme les reines vénézuéliennes. Elles ont une façon particulière de se préparer et se montrer sur scène, que nous n’avions pas ici en Colombie. Par exemple, elles ont presque toutes une façon de se coiffer, avec des bouclettes qui ne sont ni complètement lisses ni complètement bouclées, ainsi qu’une façon particulière de se maquiller… En plus, à la différence des garçons de Medellín, la plupart des transformistas vénézuéliens ne sont pas aussi féminins dans leur vie quotidienne. Mais ils font un transformismo très bien fait, avec un changement d’aspect vraiment radical”.

29O nome artístico atual desta artista é Saphira Rocks (von Teese). Ver: <https://www.instagram.com/saphirarocks/?hl=es>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020.

30Ver: <https://www.facebook.com/pg/MissGayInternacional/posts/?ref=page_internal>. Consultado em: 31 de janeiro de 2020. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “La reivindicación del arte transformista y la proyección del evento […] Si bien en los 2 últimos años se generó una lluvia de críticas y comentarios despectivos en redes sociales en contra de las misses Maria Antonia Cadavid (2013) y Taliana del Castillo (2014) y como no Marianella del Castillo también de 2014, Llamándolas: ¡Travestis, Mujeres de tiempo completo, pelilargas o Travestis sin tetas entre cientos de calificativos despectivos en contra de ellas! Pues para sorpresa de muchos el evento este año eligió a 6 chicos que representan completamente la esencia del arte transformista en su totalidad, chicos CALVOS, SIN INTERVENCIONES QUIRURGICAS de gran notoriedad, y con un proceso de producción y TRANS/FORMACIÓN que requirió no sólo de una gran inversión económica sino también de largas jornadas de preparación [para] lograr un cupo en el codiciado top 6 del evento de belleza transformista por excelencia en Latinoamérica […] y ahora se molestan porque todos fueron transformistas completos, ahora hay descontento por el público, permitan me decirles con respeto que en este y todos los reinados del mundo es el jurado calificador quien elige! […] ¡Expandan su MENTE, y visionen más allá de lo que ven en FOTOS!!! ¡No pretendo que compartan mi opinión sólo que se abran a la posibilidad de aceptar que en la DIVERSIDAD todos y todas somos maravillosos y humanos!”.

31Nota do tradutor: na versão em francês “Paul – De quelle façon penses-tu que cette situation peut évoluer? / Roxana – Eh bien […] Les filles colombiennes sont inquiètes, parce que dans de nombreux concours elles ont l’impression que leur rôle est de faire tapisserie à côté des Vénézuéliennes. Elles ont l’impression que c’est impossible de concourir sur un pied d’égalité, même si c’est nous les locales […]. Donc, nous commençons à nous poser des questions: notre transformismo va-t-il devoir s’adapter au transformismo vénézuélien? Va-t-on continuer à participer pour perdre à chaque fois? Ou va-t-on devoir s’adapter définitivement à toutes les coutumes qui arrivent du Venezuela?”.

32 Forigua Cruz (s. d.) Sans genre, mais avec patrie: La participation vénézuélienne dans le Miss Gay Internacional by Theatron (Bogotá, Colombie, 2015-2020). Tese de doutorado em andamento, sob a direção de Anne Monjaret (CNRS, EHESS).

33Monjaret e Tamarozzi (2005). Disponível em: <https://www.cairn.info/resume.php?ID_ARTICLE=ETHN_053_0425>. Consultado em: 25 de janeiro de 2020. Nota do tradutor: na versão em francês “Gynométrie” e “l’étude de proportions et les techniques de mensurations du corps féminin”.

34Como, atualmente, o site de Theatron de Película está sendo reestruturado, o regulamento do concurso não está disponível online. A versão que apresentamos aqui é uma tradução do regulamento publicado no site para a edição 2018-2019 do concurso. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “REQUISITOS […] 3-. TRANSFORMISTAS 100% (Esta medida pretende que todos los participantes tengan igualdad de oportunidades en el concurso, por tal motivo no se aceptan cirugías de cambio de sexo ni prótesis mamarias) […] INSCRIPCION […] 7-. Los preseleccionados deberán presentarse a un examen médico y un casting en la fecha que previamente se informará”.

35Ver: <http://www.missgayamerica.com/about-mga.html>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em inglês “the art of female illusion”.

36Ver: <https://www.instagram.com/tv/B0koX3ygpwS/>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “Daniela Patricia Olivieri: Cuéntanos un poquito: ¿de que va este examen médico? ¿y por qué es importante en un concurso de transformismo como este? / Jorge Luis Mendivil: […] Nosotros revisamos que [los participantes] no tengan ninguna clase de implantes, de cirugías, de hormonización, pues porque efectivamente el cambio hormonal puede generar ciertas ventajas que no puedan tener otras candidatas. Entonces, ¿que es lo importante? Demostrar que realmente tiene el arte de hacer el transformismo, porque eso es realmente lo que aprecia aquí en Theatron…”.

37Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em inglês “the symbol and essence of feminine allure”.

38Assim: “Na Venezuela e neste artigo, a palavra transformista não tem o mesmo sentido que ela tem nas outras regiões do mundo hispanófono. Na Venezuela, transformista é uma categoria de gênero utilizada com relação a pessoas designadas do sexo masculino no nascimento e que se transformam em mulheres ou em ‘garotas de aspecto feminino’. Frequentemente, o trabalho sexual faz parte desta identidade. No entanto, é preciso destacar que todas as mulheres trans na Venezuela não são transformistas ou trabalhadoras do sexo” (Ochoa, 2011). Disponível em: <https://www.academia.edu/422329/Pasarelas_y_Perolones_Mediaciones_Transformistas_en_la_Avenida_Libertador_de_Caracas>. Consultado em: 21 de janeiro de 2020. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “Transformista no tiene el mismo sentido en Venezuela y en este artículo que en otras partes del mundo hispanohablante. En Venezuela, transformista es una categoría de género que refiere a personas asignadas sexo masculino que se transforman en mujeres o en ‘chicas de apariencia femenina’. El trabajo sexual muchas veces forma parte de esta identidad. Vale reconocer que no todas las mujeres trans en Venezuela, son transformistas ni trabajadoras sexuales”.

39Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em inglês “The somatechnology that unites both transformistas and misses is plastic surgery, particularly (but not exclusively) breast augmentation”.

40Ver: <https://www.caracolinternacional.com/es/produccion/sin-tetas-no-hay-paraiso>. Consultado em: 21 de janeiro de 2020.

41Assim: “O narco não é apenas um tráfico ou um business. Ele também é uma estética que cruza e justapõe a cultura e a história da Colômbia, e que se manifesta atualmente na música, na televisão, na língua e na arquitetura. [...] Não é mau gosto, é apenas outra estética. Uma estética comum nas comunidades carentes, excluídas da modernidade, para as quais o dinheiro é a única possibilidade de existir no mundo” (Rincón, 2009). Disponível em: <https://nuso.org/articulo/narcoestetica-y-narcocultura-en-narcolombia/>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “Lo narco no es solo un tráfico o un negocio; es también una estética, que cruza y se imbrica con la cultura y la historia de Colombia y que hoy se manifiesta en la música, en la televisión, en el lenguaje y en la arquitectura […] No es mal gusto, es otra estética, común entre las comunidades desposeídas que se asoman a la modernidad y solo han encontrado en el dinero la posibilidad de existir en el mundo”.

42Ver: Miss Gay 2010, vídeo publicado pela Revista Semana em 24 de maio de 2010, consultado em 22 de outubro de 2018 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=dKQ0GYBwanY>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “En este examen médico se mira que ustedes [los participantes] no tengan hormonas, ni implantes mamarios. Pero pues se pueden tener sus retoquitos, ¿no? Por ejemplo: nariz, implantes de cola, liposucción…”.

43Christian Peñaranda é militante e funcionário público, originário do departamento de César, na Colômbia. Nome artístico: Mila dy Mauri Kavacs.

44Nota do tradutor: na versão em francês “Christian – (En parlant de sa première participation dans le Miss Gay Internacional… en 2017) No… maintenant ma mise en beauté est bien meilleure… J’ai dû réaliser quelques chirurgies. / Paul – Lesquelles? / Christian – Bon: je me suis fait refaire le nez, une réduction des joues, des liposuccions et lipoinjections… Oui, pour avoir toutes mes chances […], j’ai réalisé un grand investissement… très, très grand… Nous parlons de millions de pesos! [Rires]”.

45Daxon Prato é cabelereiro e maquiador, originário do departamento de Merida, na Venezuela. Nome artístico: Mayré Zambrano.

46Nota do tradutor: na versão em francês “À l’époque, j’avais laissé pousser mes cheveux et j’avais fait un régime très strict, afin de pouvoir porter un maillot de deux pièces […]. Mais dans les répétitions, j’ai remarqué que les autres rigolaient en me regardant, et je me disais: ‘Mais qu’est-ce qu’il se passe?’ Enfin, quand je suis allé à l’examen médical le docteur m’a dit: ‘Ah… c’est toi, celle qui est sous hormones? Tu es déjà presque femme?’ J’ai répondu: ‘Non, pas du tout!’ Et il m’a dit: ‘Mais oui… Tourne-toi’ […] Et il m’a palpé les fesses. Je lui ai dit: ‘Ça [les implants fessiers], c’est la seule chirurgie que je me suis faite dans toute ma vie’. […] – O.K. Ce n’est pas ce que pensent les autres… et même pas tes supporteurs. – Ah, bon? Mais… qu’est-ce qu’ils disent? – Ils pensent que tu es déjà en processus de transition…’”.

47Ver: <https://www.instagram.com/tv/B0koX3ygpwS/>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “Daniela Patricia Olivieri: Cuéntame, ¿como estuvieron los participantes este año? / Jorge Luis Mendivil (risas): No, realmente todos colaboraron, pero pues siempre el nerviosismo era lo predominante… Porque tal vez algunos era primera vez, otros no sabían realmente lo que se iba a hacer en el examen […] si íbamos a hacer algo que… pues tal vez iba a ir en contra de su privacidad. Pero aquí más que todo respetamos la privacidad, y eso es algo fundamental. Pero realmente, solamente todos colaboraron [sic] y, digamos, no hubo ningún inconveniente con ninguno de ellos”.

48Daxon Prato, 14 de julho de 2019. O Miss Trans Star International é um concurso de beleza para mulheres transgênero, que ocorre desde 2010 em Barcelona, na Espanha. Para mais informações, ver: <http://www.misstransstarinternational.com/>. Nota do tradutor: na versão em francês “Daxon – Remarque, l’autre fille là, celle qui représentait l’Angola (dans l’édition 2016-2017 du concours): elle était vraiment sous hormones et ils [les organisateurs] n’ont rien fait… / Paul – Ah, bon? / Daxon – Bah, oui, ce garçon avait déjà pris des hormones… il a fini par se faire la poitrine, maintenant il a des seins […]. Oui, il habite en Espagne maintenant… il vient de participer au Trans Star”.

49Ver: <https://www.instagram.com/angelaponceofficial/?hl=es>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020.

50Ver: Miss Gay Internacional 2018-2019, vídeo publicado online por Theatron de Película em de 8 agosto de 2018, consultado em 22 de outubro de 2019 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=pYkuVWPz-yg&t=11s>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “Emilia Ulloa: Que concurse aquí el español que concursó en Miss Universo. Este es su lugar: con hombres que sueñan ser mujeres […] / Josecito: Aquí es donde debe estar Angela Ponce […] / Henriquez Aguila: ¿Donde esta Angela Ponce? Este es su concurso: Miss Trans, no Miss Gay”.

51Ver: Miss Gay Internacional 2018-2019, vídeo publicado online por Theatron de Película em de 8 agosto de 2018, consultado em 22 de outubro de 2019 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=pYkuVWPz-yg&t=11s>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “Gaysell Bündchen: ¿Porque cree que es importante que los concursos de belleza internacionales les den cabida a las mujeres trans? / María Fernanda del Castillo: Es importante aclarar que las mujeres trans nacen siendo mujeres, y su identidad de género la construyen a través del tiempo en la sociedad [sic]. De esta manera, creo que los concursos de belleza logran reconocer a las mujeres trans como mujeres mismas, y de esta manera llevar un mensaje de respeto e inclusión a la sociedad”.

52Ver: <https://www.instagram.com/lanegra7000/>. Consultado em 23 de janeiro de 2020.

53Ver: Miss Gay Internacional 2018-2019, vídeo publicado online por Theatron de Película em de 8 agosto de 2018, consultado em 22 de outubro de 2019 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=pYkuVWPz-yg&t=11s>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “Gaysell Bündchen: ¿Si tuviera que explicarle a un niño sobre ser trans, que le diría? / Sashira Evanks: Es sencillo: simplemente le diría que cada persona tiene la potestad de decidir que quiere y como debe verse en el resto de su vida. Y le explicaría que en este mundo todos tenemos cabida, y derecho a expresar lo que queremos. Porque las mujeres trans, y aquí esta el vivo ejemplo [señalando a La Negra], no son para señalarlas, sino para aplaudirlas”.

54Fernando Marcano, 10 de julho de 2018. O Miss International Queen é um concurso de beleza para mulheres transgênero, que ocorre desde 2004 em Pattaya, na Tailândia. Para mais informações, ver: <https://www.missinternationalqueen.com/>. Nota do tradutor: na versão em francês “Paul – Il y a autre chose que tu voudrais rajouter? / Fernando – Oui… je croyais que tu allais me demander si j’étais d’accord avec… avec le couronnement du transexual en Espagne. / Paul – Bien sûr… qu’en penses-tu? / Fernando – Moi, je suis les concours de beauté depuis tout petit… et franchement je ne suis pas d’accord. / Paul – Ah bon? / Fernando – Non. Je pense que dans la vie chacun a son espace pour exprimer ce qu’il aime faire… Si l’organisation du Miss Univers fait ça pour gagner plus d’argent (et à mon avis, c’est pour cela qu’elle le fait) alors, elle n’a qu’à créer un concours spécialement destiné pour elles (les femmes trans). Un concours où chaque pays choisira sa représentante transsexuelle, et où il existera vraiment de l’égalité… Elle (Angela Ponce) dit qu’elle recherche l’égalité… que les gens la reconnaissent en tant que femme. / Paul – Tu n’es pas d’accord? / Fernando – C’est-à-dire… à mon avis, elles (les femmes transgenres) ne devraient pas concourir avec des femmes (cisgenre). / Paul – Et tes amis qui pratiquent le transformismo ici à Bogotá, sont-ils d’accord avec toi, ou avez-vous des opinions divergentes? / Fernando – Bon… certains disent: ‘Bravo pour elle’. Moi aussi, je trouve chouette qu’elle ait gagné dans son pays… mais on doit se replacer dans son essence [c’est moi qui souligne]. C’est pour cela qu’il existe des concours comme le Miss International Queen ou le Miss Trans Star International. Si elle voulait vraiment faire connaître son point de vue, alors elle pouvait participer dans ce type d’évènement […]. Elle a le droit d’avoir son rêve de participer au Miss Univers… mais franchement je ne suis pas d’accord”.

55Ver: <https://sentiido.com/lo-que-ha-dejado-la-polemica-mujer-t-bogota/>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020.

56Nota do tradutor: na versão em francês “Roxana – Ce qui se passe ici [en Colombie], c’est qu’il y a eu un très fort processus d’exclusion des femmes transsexuelles dans les compétitions. / Paul – Vraiment? / Roxana – Oui. Ici à Bogotá, ainsi que dans la plupart des régions du pays, si tu es une femme travesti, tu n’as pas le droit à concourir dans une compétition transformista […]. Par exemple, si tu as des seins, si tu as des cheveux longs ou si tu es construite d’une façon féminine permanente, alors on ne te permet pas de participer dans des événements comme le Miss Gay Internacional…”.

57Ver: <https://www.instagram.com/danielapatriciaolivieri/?hl=es>. Consultado em: 23 de janeiro de 2020. Argenis Gonzales é jornalista, originário do departamento de Yaracuy, na Venezuela. Nome artístico: Daniela Patricia Olivieri.

58Nota do tradutor: na versão em francês “Si nous analysons l’histoire du concours, avant il y avait beaucoup de filles avec leurs cheveux naturels, qui étaient déjà en processus [de transition]… et personne ne faisait vraiment attention. Par contre, depuis quelques années, ils [les organisateurs du concours] ont commencé à rétablir des limites, afin d’éviter que des filles déjà opérées puissent participer, parce que… en fait, Theatron leur avait déjà réservé des espaces. Ils avaient créé La Rosca de la Moda, un événement où participent seulement des filles trans. Ce spectacle est conçu pour elles. Mais le Miss Gay Internacional… est destiné exclusivement aux artistes transformistas, histoire de trouver un équilibre, et que chacun puisse avoir son espace…”.

59Ver: Aftermovie ‘La Rosca De La Moda 2019’, vídeo publicado online por Theatron de Película em 12 de abril de 2019, consultado em 21 de janeiro de 2020 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=SMBtdOdCLp0>. Nota do tradutor: traduzido a partir da versão em francês, realizada pelo autor; na versão em espanhol “visibilizar a las mujeres trans”.

60Ver: After Movie Drag Star 2019, vídeo publicado por Theatron de Película em 13 de dezembro de 2019, consultado em 31 de janeiro de 2020 e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7GpnbTuWLHs>.

61Ver: <https://fr.wikipedia.org/wiki/RuPaul%27s_Drag_Race>. Consultado em: 20 de janeiro de 2020.

62Nota do tradutor: na versão em francês “Paul – As-tu déjà exploré d’autres formes du transformismo, comme la drag-queen? / Argenis – Non. En fait, j’ai travaillé mon personnage en tant que miss et reine de beauté, avec tout ce qui concerne le monde des concours de beauté […]. En plus j’ai du mal à m’adapter aux shows [Rires]. Mais en fait, je n’imagine pas Daniela [Patricia Olivieri] dans un spectacle où elle serait obligée de gambader et faire des cabrioles, parce que… parce qu’elle perdrait sa subtilité de reine de beauté, capable d’éblouir le public juste avec sa façon de marcher”.

Este texto inédito, traduzido por André Mubarack, também se encontra publicado em francês neste número do periódico.

Editora-responsável: Anna Mirabella

Recebido: 31 de Outubro de 2019; Aceito: 20 de Fevereiro de 2020

Paul Forigua Cruz é doutorando em Antropologia social e Etnologia na École des hautes études en sciences sociales (EHESS). ORCID: http://orcid.org/0000-0001-7692-3969 E-mail: venecofrance@gmail.com

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