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Epidemiologia e Serviços de Saúde

Print version ISSN 1679-4974On-line version ISSN 2237-9622

Epidemiol. Serv. Saúde vol.28 no.3 Brasília  2019  Epub Oct 28, 2019

http://dx.doi.org/10.5123/s1679-49742019000300005 

ARTIGOS ORIGINAIS

Autopercepção positiva da alimentação: um estudo de base populacional no extremo sul do Brasil*

Autopercepción positiva de la alimentación: un estudio de base poblacional en el extremo sur de Brasil

Karla Pereira Machado1 
http://orcid.org/0000-0003-1765-1435

Juliana dos Santos Vaz2 
http://orcid.org/0000-0002-2880-767X

Raúl Andrés Mendoza-Sassi1 
http://orcid.org/0000-0002-4641-9056

1Universidade Federal do Rio Grande, Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública, Rio Grande, RS, Brasil

2Universidade Federal de Pelotas, Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Alimentos, Pelotas, RS, Brasil


Resumo

Objetivo:

analisar a prevalência de autopercepção positiva da alimentação e sua associação com fatores sociodemográficos, comportamentais, morbidades, autopercepção da saúde e do peso e cuidados com o peso corporal, no município de Rio Grande, RS, Brasil, em 2016.

Métodos:

estudo transversal realizado com adultos e idosos residentes no município. Foram aplicados 13 indicadores de alimentação saudável e autopercepção de alimentação (desfecho). Empregou-se regressão de Poisson.

Resultados:

a amostra foi de 1.243 indivíduos, dos quais 72,4% referiram autopercepção positiva da alimentação. Indicadores como consumo semanal de verduras ou legumes (RP=1,33 - IC95% 1,22;1,45) e frutas (RP=1,35 - IC95% 1,22;1,48) foram positivamente associados ao desfecho. Não houve diferença significativa entre os sexos.

Conclusão:

a autopercepção de alimentação positiva se associa com indicadores de alimentação entre adultos e idosos, podendo ser útil em estudos epidemiológicos.

Palavras-chave: Consumo de Alimentos; Autorrelato; Inquéritos Epidemiológicos; Estudos Transversais

Resumen

Objetivo:

investigar la prevalencia de autopercepción positiva de la alimentación, sus factores sociodemográficos y comportamentales, morbilidades, autopercepción de la salud/peso y cuidados con el peso corporal en el municipio de Rio Grande, RS, Brasil, en 2016.

Métodos:

estudio transversal realizado con adultos y ancianos residentes en el municipio de Rio Grande; se aplicaron 13 indicadores de alimentación saludable y autopercepción de la alimentación; se utilizó la regresión de Poisson.

Resultados:

la muestra fue de 1.243 individuos, 72,4% refirió autopercepción positiva de la alimentación; indicadores como consumo semanal de verduras o legumbres (RP=1,33 - IC95% 1,22;1,45) y frutas (RP=1,35 - IC95% 1,22;1,48) fueron positivamente asociadas al desenlace (p<0,001); no hubo diferencia significativa entre los sexos.

Conclusión:

la autopercepción positiva de la alimentación se asocia con indicadores de alimentación entre adultos y ancianos pudiendo ser útil en estudios epidemiológicos.

Palabras-clave: Consumo de Alimentos; Autoinforme; Encuestas Epidemiológicas; Estudios Transversales

Abstract

Objective:

to analyze prevalence of positive self-perception of diet and association with sociodemographic and behavioral factors, morbidity, self-perception of health and weight, and body weight care, in the city of Rio Grande, RS, Brazil, in 2016.

Methods:

this was a cross-sectional study conducted with adults and elderly people resident in the city of Rio Grande using 13 indicators of healthy eating and positive self-perception of diet (outcome); Poisson regression was used.

Results:

the sample consisted of 1,243 individuals, 72.4% of whom reported positive self-perception of diet; indicators such as weekly consumption of greens or vegetables (PR=133 - 95%CI 1.22;1.45) and fruit (PR=1.35 - 95%CI 1.22;1.48) were positively associated with the outcome; no significant difference was found between sexes.

Conclusion:

positive self-perception of diet is associated with healthy eating indicators among adults and the elderly and can be useful in epidemiological surveys.

Keywords: Food Consumption; Self Report; Health Surveys; Cross-Sectional Studies

Introdução

O Guia Alimentar para a População Brasileira e os dez passos para uma alimentação saudável - documento oficial do Ministério da Saúde, dedica-se à abordagem e recomendação de uma alimentação adequada e saudável, configurando-se como instrumentos de extrema importância no sentido de se alcançar uma mudança de comportamento na população brasileira.1-3 Quando o nível de informação do indivíduo sobre saúde e nutrição é adequado e sua percepção individual é crítica, torna-se possível a adesão a um maior número de indicadores saudáveis,4,5 independentemente da renda. Esta, ou o preço dos alimentos, é um dos principais fatores de influência no comportamento saudável, e, por conseguinte, um quesito a ser avaliado na hora da escolha e compra de alimentos.6

A relação entre a autopercepção da qualidade da alimentação do indivíduo e a ocorrência de uma alimentação realmente saudável, contudo, é pouco explorada na literatura nacional e internacional. Os estudos existentes sobre o tema avaliaram esse desfecho, principalmente entre escolares e adolescentes, e identificaram uma relação direta entre autopercepção positiva da alimentação e hábitos alimentares mais adequados.1,2,4 Nas pesquisas sobre alimentação e nutrição, o hábito alimentar é avaliado mediante aplicação de um questionário de frequência alimentar ou a partir de inquéritos padronizados que, geralmente, demandam longo tempo de realização.7,8 Trata-se de instrumentos pouco práticos em situações nas quais o contato entre o profissional de saúde e o indivíduo é breve. A importância de propor uma questão sobre a autopercepção, capaz de identificar o hábito alimentar dos indivíduos4,9 e o risco representado pelo hábito de uma alimentação não saudável, deve se refletir na indicação de grupos-alvo para possíveis intervenções.10

O objetivo do presente artigo foi analisar a prevalência de autopercepção positiva da alimentação e sua associação com fatores sociodemográficos, comportamentais, morbidades, autopercepção de saúde/peso e cuidados com o peso corporal no município de Rio Grande, estado do Rio Grande do Sul, Brasil, em 2016.

Métodos

Trata-se de um estudo transversal de base populacional realizado no sul do Rio Grande do Sul, parte de uma pesquisa maior, intitulada ‘Saúde da População Riograndina, RS’,11 cuja finalidade foi investigar diversos aspectos característicos do perfil de saúde da população de Rio Grande. Este município, situado no extremo sul do estado, possuía aproximadamente 200 mil habitantes12 e apresentava um índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,744 no ano de 2010.13 Em 2015, a atividade portuária se mantinha como sua principal base econômica, e o produto interno bruto (PIB) do município se aproximava dos R$ 35.000,00 per capita/ano.

A população-alvo do estudo foi composta por indivíduos com 20 anos ou mais de idade, residentes na área urbana de Rio Grande. Foram excluídos aqueles que estavam institucionalizados em asilos, hospitais e presídios, ou que apresentavam alguma incapacidade física e/ou mental para responder ao questionário.

O cálculo amostral foi realizado utilizando-se, como parâmetro, uma prevalência do desfecho estudado de 51%,2,10,14 nível de confiança de 95% e erro aceitável de 3 pontos percentuais. Para os fatores associados, considerou-se uma razão de prevalência (RP)13 de 1,5, nível de confiança de 95%, poder de 80%, frequência de expostos entre 35 e 50%, além de efeito de delineamento de 1,5, 10% para perdas e 15% para controle de fatores de confusão. Afinal, o tamanho da amostra totalizou 1.152 indivíduos. Os cálculos foram realizados pelo programa Epi Info 7.0 (Centers for Disease Control and Prevention, Atlanta, Estados Unidos). Como esta pesquisa integrava um estudo maior, com diferentes desfechos, decidiu-se utilizar o maior tamanho de amostra calculado (n=1.423), tornando o estudo representativo para as diferentes variáveis independentes investigadas, sendo considerado um poder de 90% para o n de 1.243.

Para garantir a representatividade da amostra, o processo de amostragem ocorreu em dois estágios: setor censitário e domicílio, de acordo com os dados do Censo Demográfico 2010.12 Inicialmente, foram identificados os 293 setores censitários da zona urbana de Rio Grande, e destes, feita a seleção sistemática sobre todos os domicílios urbanos (77.835), colocados em ordem decrescente conforme a renda média mensal do chefe de família; após a seleção aleatória do primeiro domicilio, seguiu-se a seleção sistemática, mediante “pulo” de 1.080 domicílios, selecionando-se, assim, os 72 setores censitários.

Logo, promoveu-se a seleção aleatória para determinar os domicílios investigados, chegou-se a 711 residências, considerando-se um “pulo” de 32 residências, e uma média esperada de 2,08 indivíduos por domicílio.12 A seleção dos setores e dos domicílios foi realizada mediante probabilidade proporcional à população e ao número de domicílios por setor.

A coleta de dados aconteceu entre abril e julho de 2016, realizada por nove entrevistadoras previamente treinadas. As entrevistas foram feitas no domicílio selecionado, com todos os moradores elegíveis, seguindo o roteiro de um questionário estruturado, padronizado e previamente testado, composto por questões sociodemográficas e de saúde geral, pré-codificadas.

O desfecho do estudo, a autopercepção positiva da alimentação, foi investigado pela questão “Como o Sr.(a) considera a sua alimentação?” e com as seguintes alternativas de resposta para ela: ‘muito boa’, ‘boa’, ‘regular’, ‘ruim’ ou ‘muito ruim’. Para fins de análise, essa variável foi dicotomizada entre positiva (muito boa/boa) e negativa (regular/ruim/muito ruim).

Foram utilizados 13 indicadores de alimentação saudável, coletados sobre uma semana habitual para os indivíduos, estabelecidos conforme as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira. A publicação, reformulada em 2014,3 orienta a preferência pelo consumo de alimentos in natura ou minimamente processados, ao invés de alimentos ultraprocessados, de forma a constituir uma dieta com refeições saudáveis.3 Eis os indicadores utilizados:

  • I) realização do café da manhã;

  • II) realização do almoço;

  • III) realização do lanche ou café da tarde;

  • IV) realização do jantar;

  • V) realização do lanche ou café antes de dormir;

  • VI) hábito de comer gordura aparente da carne vermelha e/ou comer a pele do frango; e

  • VII) sal adicional.

Os indicadores I a VII foram coletados de forma dicotômica (sim/não); para I a V, considerou-se consumo apropriado quando a resposta era ‘sim’, e para VI e VII, quando a resposta era ‘não’.

Outros seis indicadores relativos à frequência de consumo foram coletados:

  • VIII) número de dias na semana em que costuma comer leguminosas;

  • IX) número de dias na semana em que costuma comer verduras ou legumes;

  • X) número de dias na semana em que costuma comer frutas;

  • XI) número de dias na semana em que costuma comer peixe;

  • XII) número de dias na semana em que costuma comer alimentos com açúcar como ingrediente - sorvetes, chocolates, bolos, biscoitos ou doces -; e

  • XIII) número de dias na semana em que costuma tomar refrigerante ou suco artificial.

Tais indicadores foram coletados de forma politômica: (a) nunca/quase nunca; (b) 1 a 2 dias por semana; (c) 3 a 4 dias por semana; (d) 5 a 6 dias por semana; (e) todos os dias (inclusive sábado e domingo). Posteriormente, para fins de análise, os indicadores foram dicotomizados com base nas orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira, adaptado.3 Para os indicadores VIII a XI, o consumo foi considerado adequado quando a frequência foi igual ou superior a 3 vezes por semana; já para os indicadores XII e XIII, considerou-se consumo adequado as frequências ‘nunca/quase nunca’ e ‘1 a 2 dias por semana’.

As variáveis independentes incluídas foram:

  • a) Sociodemográficas

  • - sexo (masculino; feminino);

  • - idade (em anos: 20-29; 30-39; 40-49; 50-59; 60 ou mais);

  • - raça/cor da pele autorreferida (branca; preta/parda/amarela/indígena);

  • - estado civil (casado; solteiro; divorciado/separado/viúvo);

  • - escolaridade (em anos de estudo: 0-4; 5-8; 9-11; 12 ou mais); e

  • - renda (em quartis: 1º quartil [mais pobre], R$ 293,3 a R$ 520,0; 2º quartil, R$ 750,0 a R$ 905,5; 3º quartil, R$ 1.166,7 a R$ 1.500,0; e 4º quartil [mais rico], R$ 2.200,0 a R$ 4.400,0), considerando-se o salário mínimo de R$ 880,00 reais no ano de 2016.

  • b) Comportamentais (opções de resposta: ‘sim’ ou ‘não’)

  • - tabagismo (não fumante; ex-fumante/fumante);

  • - consumo de bebida alcoólica (não bebe; bebe menos de uma vez por semana/número de vezes em que bebe, por semana);

  • - atividade física no lazer, medida pela seção ‘Lazer’ do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ-SHORT), que define a condição de ativo como o indivíduo que mantém ≥150 minutos de atividade física por semana;15

  • c) Índice de massa corporal (IMC) (baixo peso; eutrópico; sobrepeso; obeso);

  • d) Morbidades autorreferidas (presença ou ausência) de diabetes; hipertensão; depressão variável coletada pelo instrumento Patient Health Questionnaire (PHQ-9), que define a condição de depressão ≥9;16

  • e) Segurança alimentar, medida pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) (segurança alimentar; insegurança alimentar leve; insegurança alimentar moderada/grave);17

  • f) Autopercepção de saúde (excelente/muito boa; boa; regular/ruim)

  • g) Autopercepção do peso corporal (normal; muito magro/magro/um pouco magro; muito gordo/gordo/um pouco gordo); e

  • h) Cuidados com o peso corporal, variável coletada mediante a proposição da questão “O(a) Sr.(a) está fazendo alguma coisa para perder peso ou ganhar massa muscular?” e suas opções de resposta ‘sim’ ou ‘não’.

Todos os questionários foram revisados e duplamente digitados por diferentes digitadores, utilizando-se o software EpiData® 3.1 (EpiData Association, Dinamarca). O controle de qualidade foi realizado com a repetição parcial de 10,5% das entrevistas com perguntas-chave selecionadas, para avaliar a confiabilidade do instrumento. O valor médio do coeficiente de concordância de Kappa entre as perguntas foi de 0,80 (variação de 0,27 [número de vezes na semana em que caminhava no tempo livre] a 0,93 [existência de telefone fixo no domicílio]), revelando concordância substancial.18

Primeiramente, foram calculadas as frequências absoluta e relativa das cinco categorias da escala de Likert contidas no desfecho (autopercepção positiva da alimentação), e a prevalência e o intervalo de confiança de 95% (IC95%) do desfecho dicotomizado.

Para estudar o impacto das variáveis independentes sobre o desfecho, foi utilizada a regressão de Poisson, levando-se em consideração o efeito do delineamento do estudo. Foram calculadas as razões de prevalência (RP) e seus IC95%. Empregou-se um modelo hierárquico de quatro níveis. O primeiro nível foi composto pelas variáveis demográficas e socioeconômicas, e o segundo nível, pelas variáveis comportamentais. O terceiro nível contemplou variáveis referentes a morbidade e segurança alimentar, e o quarto nível, as variáveis de autopercepção de saúde, autopercepção e cuidados com o peso corporal. As exposições de interesse foram ajustadas para variáveis de mesmo nível e de níveis superiores, permanecendo no modelo apenas aquelas com p≤0,20. O teste estatístico empregado foi o teste de Wald.

Logo, foi estimada a RP e o IC95% de cada um dos indicadores de consumo alimentar. Finalmente, a aplicação do teste de proporções permitiu a análise das diferenças entre os indicadores de consumo alimentar e o desfecho ‘autopercepção saudável’, estratificado por sexo.

Para a análise dos dados, foi utilizado o programa Stata® versão 14.0 (StataCorp/College Station, Estados Unidos). O nível de significância menor que 5% foi adotado para testes bicaudais, e o efeito de delineamento amostral foi levado em consideração em todas as análises, utilizando-se o comando survey (svy).

O protocolo da pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa na Área da Saúde (CEPAS) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), sob o número 20/2016. Os princípios éticos foram assegurados, foi apresentado aos entrevistados o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assinado por todos, de maneira a garantir o direito de não participação na pesquisa e o anonimato dos participantes.

Resultados

Foram respondidos 1.243 questionários (8,9% de perdas e recusas). O desfecho do estudo foi respondido por 1.240 indivíduos. Mais da metade era do sexo feminino (56,4%), a maioria autodeclarou-se de raça/cor da pele branca (83,1%) e a média de idade foi de 47 anos (desvio-padrão [DP]: ±16,6 anos). Cerca de 57% tinham mais de 9 anos de estudo, e a mediana de renda foi de R$ 1.000,00 (P25: R$ 625,00-P75; R$ 1.764,00). A maioria dos indivíduos não realizava atividade física de lazer (77,5%) e a insegurança alimentar foi encontrada em 34,5% dos domicílios (Tabela 1).

Tabela 1 - Descrição da amostra de adultos e idosos (n=1.243), Rio Grande, Rio Grande do Sul, 2016 

Variáveis Amostra geral
N %
Sexo
Masculino 542 43,6
Feminino 701 56,4
Idade (em anos)
20-29 226 18,2
30-39 225 18,1
40-49 240 19,3
50-59 237 19,1
≥60 315 25,3
Raça/cor da pele (n=1.241)
Branca 1.301 83,1
Preta/parda/amarela/indígena 210 16,9
Estado civil
Casado 476 38,3
Solteiro 545 43,8
Divorciado/separado/viúvo 222 17,9
Escolaridade (em anos de estudo) (n=1.241)
0-4 190 15,3
5-8 343 27,6
9-11 367 29,6
≥12 341 27,5
Renda em quartis (n=1.123)
1º quartil (mais pobre) 284 25,3
2º quartil 306 27,2
3º quartil 255 22,7
4º quartil (mais rico) 278 24,8
Tabagismo
Não 1.003 81,5
Sim 230 18,5
Consumo de bebida alcoólica (n=1.242)
Não 896 72,1
Sim 346 27,9
Atividade física no lazera (n=1.233)
Insuficientemente ativo 956 77,5
Suficientemente ativo 277 22,5
Índice de massa corporal (IMC) (n=1.189)
Baixo peso 14 1,2
Eutrófico 431 36,2
Sobrepeso 458 38,5
Obeso 286 24,1
Diabetes (autorreferida) (n=1.239)
Não 1.149 92,7
Sim 90 7,3
Hipertensão (autorreferida) (n=1.242)
Não 879 70,8
Sim 363 29,2
Depressãob (n=1.238)
Não 893 72,1
Sim 345 27,9
Autopercepção de alimentação saudável (n=1.240)
Negativa 342 27,6
Positiva 898 72,4
Insegurança alimentarc (n=1.224)
Segurança alimentar 802 65,5
Insegurança alimentar leve 330 27,0
Insegurança alimentar moderada/grave 92 7,5
Autopercepção de saúde
Excelente/muito boa 263 21,2
Boa 560 45,0
Regular/ruim 420 33,8
Autopercepção do peso corporal (n=1.242)
Normal 123 9,9
Muito magro/magro/um pouco magro 563 45,3
Muito gordo/gordo/um pouco gordo 556 44,8
Cuidados com o peso corporal
Não 973 78,3
Sim 270 21,7
Total 1.243 100,0

a) Segundo a sessão ‘Lazer’ do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ-SHORT), que define como ativo o indivíduo que mantém ≥150 minutos de atividade física por semana.

b) Segundo o instrumento Patient Health Questionnaire (PHQ-9), que define a condição de depressão ≥9.

c) Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA).

A frequência da autopercepção alimentar foi 16,9% muito boa; 55,5% boa; 23,2% regular; 3,4% ruim; e 1,0% muito ruim. Quando dicotomizada, a prevalência de autopercepção positiva da alimentação foi de 72,4% (IC95% 69,9;74,9).

As RP brutas e ajustadas para o desfecho se encontram na Tabela 2. Na análise ajustada, as mulheres apresentaram menor prevalência do desfecho, em comparação aos homens (RP=0,94 - IC95% 0,80;1,00). Os indivíduos na idade de 60 anos ou mais apresentaram 1,28 vez maior probabilidade do desfecho, comparados àqueles com 20-29 anos; a probabilidade também foi maior para os situados no quartil de renda mais elevada (RP=1,17 - IC95% 1,04;1,32), em relação aos do quartil mais pobre. No segundo nível, os indivíduos que realizavam 150 minutos ou mais de atividade física no lazer apresentaram um aumento no desfecho (RP=1,17 - IC95% 1,08;1,26). No terceiro nível, os indivíduos que relataram morbidades como diabetes (RP=0,98 - IC95% 0,84;1,14) e depressão (RP=0,78 - IC95% 0,81;0,95) tiveram uma probabilidade menor de apresentar autopercepção positiva da alimentação. Em relação à insegurança alimentar, os indivíduos que apresentaram insegurança leve tiveram menor probabilidade do desfecho (RP=0,88 - IC95% 0,81;0,95).

Tabela 2 - Prevalência e análise bruta e ajustada de fatores associados à autopercepção positiva da alimentação em adultos e idosos (n=1.240), Rio Grande, Rio Grande do Sul, 2016 

Variáveis Prevalência de autopercepção positiva da alimentação (n=898) N (%) Análise bruta Análise ajustada
RPa (IC95% b) pc RPa (IC95% b) pc
1º nível
Sexo 0,297 0,071
Masculino 400 (73,9) 1,00 1,00
Feminino 498 (71,2) 0,97 (0,90;1,03) 0,94 (0,88;1,00)
Idade (em anos) <0,001 <0,001
20-29 142 (62,8) 1,00 1,00
30-39 140 (62,2) 0,98 (0,84;1,14) 0,93 (0,80;1,08)
40-49 163 (67,9) 1,08 (0,93;1,25) 1,06 (0,92;1,22)
50-59 190 (80,2) 1,26 (1,12;1,44) 1,23 (1,09;1,39)
≥60 263 (84,3) 1,33 (1,17;1,51) 1,28 (1,13;1,44)
Raça/cor da pele (n=896) 0,594 0,249
Branca 739 (71,9) 1,00 1,00
Preta/parda/amarela/indígena 157 (74,8) 1,03 (0,93;1,14) 1,05 (0,95;1,16)
Estado civil 0,028 0,641
Casado 360 (75,8) 1,00 1,00
Solteiro 367 (67,6) 0,90 (0,82;0,98) 0,99 (0,89;1,09)
Divorciado/separado/viúvo 171 (77,0) 1,01 (0,93;1,11) 0,96 (0,87;1,05)
Escolaridade (em anos de estudo) (n=897) 0,081d 0,395d
0-4 144 (76,6) 1,00 1,00
5-8 257 (74,9) 0,98 (0,88;1,10) 0,99 (0,88; 1,11)
9-11 260 (71,0) 0,93 (0,82;1,06) 0,96 (0,83;1,11)
≥12 236 (69,2) 0,92 (0,81;1,03) 0,95 (0,82;1,11)
Renda em quartis (mediana; P25/P75 em R$)e (n=810) 0,002d 0,017d
1º quartil mais pobre (R$ 293,3 a R$ 520,0) 183 (64,4) 1,00 1,00
2º quartil (R$ 750,0 a R$ 905,5) 219 (72,3) 1,13 (1,01;1,25) 1,09 (0,98;1,22)
3º quartil (R$ 1.166,7 a R$ 1.500,0) 187 (73,3) 1,14 (1,01;1,28) 1,07 (0,95;1,20)
4º quartil mais rico (R$ 2.200,0 a R$ 4.400,0) 221 (79,5) 1,24 (1,10;1,40) 1,17 (1,04;1,32)
2º nível
Tabagismo atual 0,205 0,398
Não 740 (73,2) 1,00 1,00
Sim 158 (69,0) 0,94 (0,86;1,04) 0,95 (0,84;1,07)
Consumo de bebida alcoólica (n=897) 0,564 0,927
Não 643 (71,0) 1,00 1,00
Sim 254 (73,6) 1,03 (0,95;1,11) 1,00 (0,91;1,09)
Atividade física no lazerf (n=893) <0,001 <0,001
Insuficientemente ativo 667 (69,8) 1,00 1,00
Suficientemente ativo 226 (81,6) 0,86 (0,80;0,92) 1,17 (1,08;1,26)
Índice de massa corporal (IMC) (n=854) 0,009d 0,015d
Baixo peso 11 (78,6) 1,00 1,00
Eutrófico 325 (75,6) 0,96 (0,74;1,25) 0,90 (0,69;1,17)
Sobrepeso 329 (71,8) 0,91 (0,71;1,17) 0,86 (0,67;1,10)
Obeso 189 (66,1) 0,85 (0,65;1,09) 0,80 (0,62;1,05)
3º nível
Diabetes (autorreferida) (n=895) 0,972 0,761 0,071
Não 829 (72,3) 1,00 1,00
Sim 66 (73,3) 1,00 (0,88;1,14) 0,98 (0,84;1,14)
Hipertensão (autorreferida) 0,791 0,094 <0,001
Não 637 (72,6) 1,00 1,00
Sim 261 (72,1) 0,99 (0,92;1,07) 0,93 (0,85;1,01)
Depressãog (n=896) <0,001 <0,001 0,249
Não 697 (78,1) 1,00 1,00
Sim 199 (57,7) 0,74 (0,68;0,81) 0,78 (0,81;0,95)
Insegurança alimentarh (n=884) <0,001 0,006 0,641
Segurança alimentar 604 (75,5) 1,00 1,00
Insegurança alimentar leve 214 (64,9) 0,86 (0,80;092) 0,88 (0,81;0,95)
Insegurança alimentar moderada/grave 66 (71,7) 0,95 (0,81;1,12) 1,01 (0,85;1,22)
4º nível
Autopercepção de saúde <0,001 d 0,001d 0,398
Excelente/muito boa 210 (79,9) 1,00 1,00
Boa 439 (78,4) 0,98 (0,91;1,06) 0,98 (0,89;1,07)
Regular/ruim 249 (59,7) 0,74 (0,66;0,83) 0,75 (0,66;0,86)
Cuidados com o peso corporal <0,001 0,030 0,927
Não 682 (70,3) 1,00 1,00
Sim 216 (80,0) 1,15 (1,07;1,23) 1,10 (1,01;1,21)
Autopercepção do peso corporal (n=897) <0,001 <0,001 <0,001
Eutrófico 89 (73,0) 1,00 1,00
Magro (muito magro/um pouco magro/magro) 452 (80,4) 1,09 (0,97;1,23) 0,99 (0,88;1,14)
Gordo (muito gordo/um pouco gordo/gordo) 356 (64,1) 0,88 (0,77;1,00) 0,80 (0,69;0,95)

a) RP: razão de prevalência.

b) IC95%: intervalo de confiança de 95%.

c) Valor-p obtido pelo teste de Wald de heterogeneidade.

d) Valor-p obtido pelo teste de Wald para tendência linear.

e) Considerando salário mínimo brasileiro em 2016 de R$ 880,00.

f) Segundo a sessão ‘Lazer’ do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ-SHORT), que define como ativo o indivíduo que mantém ≥150 minutos de atividade física por semana.

g) Segundo o instrumento Patient Health Questionnaire (PHQ-9), que define a condição de depressão ≥9.

h) Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA).

Nota: Foi considerado o efeito de delineamento amostral.

No quarto nível, observou-se que aqueles cuja percepção da própria saúde era regular ou ruim apresentaram menores prevalências de percepção positiva da alimentação (RP=0,75 - IC95% 0,66;0,86) (p=0,001), na comparação com quem relatou autopercepção de saúde excelente ou muito boa. Os indivíduos que referiram cuidado com o peso corporal tiveram maior probabilidade de perceber sua alimentação como positiva (RP=1,10 - IC95% 1,01;1,21).

Dos 13 indicadores que compõem a alimentação adequada, dez se mostraram significativamente associados com o desfecho (Tabela 3). A proporção de indivíduos com indicadores de alimentação saudável e autopercepção positiva da alimentação foram superiores a 70,0%. Não houve diferença nas prevalências dos indicadores de alimentação saudável entre homens e mulheres (Tabela 4).

Tabela 3 - Associação entre autopercepção positiva da alimentação e indicadores de alimentação saudável em adultos e idosos (n=1.240), Rio Grande, Rio Grande do Sul, 2016 

Variáveis Autopercepção positiva da alimentação
RPa IC95% b
Realização do café da manhã
Não 1,00 -
Sim 1,46 1,22;1,75
Realização do almoço
Não 1,00 -
Sim 1,77 1,00;3,13
Realização do lanche ou café da tarde
Não 1,00 -
Sim 1,16 1,05;1,30
Realização do jantar
Não 1,00 -
Sim 0,95 0,84;1,07
Realização do lanche ou café antes de dormir
Não 1,00 -
Sim 1,19 1,11;1,27
Consumo de leguminosasc
Inadequado 1,00 -
Adequado 1,18 1,04;1,32
Consumo de verduras ou legumesc
Inadequado 1,00 -
Adequado 1,33 1,22; 1,45
Consumo de frutasc
Inadequado 1,00 -
Adequado 1,35 1,22;1,48
Consumo de peixec (n=1.177)e
Inadequado 1,00 -
Adequado 1,15 1,04;1,26
Consumo de refrigerante e sucos artificiaisd
Inadequado 1,00 -
Adequado 1,15 1,06;1,24
Consumo de alimentos docesd (n=1.239)e
Inadequado 1,00 -
Adequado 1,01 0,93;1,09
Sal adicionald
Não 1,00 -
Sim 0,90 0,76;1,03
Hábito de comer gordura aparente de carne vermelha e/ou pele de frango
Não 1,00 -
Sim 0,85 0,77;0,93

a) RP: razão de prevalência.

b) IC95%: intervalo de confiança de 95%.

c) Adequado = quando relatado consumo de 3 dias ou mais por semana.

d) Adequado = quando relatado consumo até 2 dias por semana.

e) Valor da amostra disponível para essa variável.

Nota: Foi considerado o efeito de delineamento amostral.

Tabela 4 - Associação entre a autopercepção positiva da alimentação e indicadores de alimentação saudável, estratificada por sexo, em adultos e idosos (n=898), Rio Grande, Rio Grande do Sul, 2016 

Variáveis Ocorrência de autopercepção de alimentação positiva
Feminino (n=498) n (%) Masculino (n=400) n (%) Valor pa
Realização do café da manhã 452 (73,6) 354 (78,7) 0,075
Realização do almoço 493 (71,8) 398 (74,3) 0,402
Realização do lanche ou café da tarde 416 (72,5) 297 (77,8) 0,068
Realização do jantar 458 (70,7) 366 (73,9) 0,287
Realização do lanche ou café antes de dormir 145 (82,4) 131 (0,4) 0,443
Consumo de leguminosas adequadob 387 (73,6) 332 (76,5) 0,319
Consumo de verduras ou legumes adequadob 360 (79,7) 248 (79,7) 1,000
Consumo de frutas adequadob 358 (79,6) 254 (81,2) 0,549
Consumo de peixe adequadob 33 (82,5) 37 (82,2) 0,906
Consumo de refrigerante e sucos artificiais adequadoc 231 (66,0) 225 (69,7) 0,238
Consumo de alimentos doces adequadoc 249 (71,5) 189 (73,4) 0,527
Não adiciona mais sal à comida 454 (71,2) 362 (75,7) 0,130
Não consumo de gordura aparente de carne vermelha e/ou pele de frango 182 (63,4) 206 (68,2) 0,133

a) Valor-p obtido pelo teste de proporções.

b) Adequado = quando relatado consumo de 3 dias ou mais por semana.

c) Adequado = quando relatado consumo até 2 dias por semana.

Discussão

Entre os principais achados do presente estudo, destaca-se a prevalência de autopercepção positiva da alimentação e sua associação com dez indicadores de consumo alimentar adequado. Os indivíduos de mais idade, maior renda e considerados suficientemente ativos apresentaram maior frequência de autopercepção positiva de sua alimentação, contrariamente aos que referiram depressão e insegurança alimentar leve.

A prevalência de autopercepção positiva da alimentação, observada no presente estudo, é semelhante à encontrada em outras investigações realizadas no Brasil.10,19 Em 2016, um estudo desenvolvido na região Sul do país revelou uma prevalência de 69% de autopercepção positiva da alimentação, em uma amostra de adultos e idosos usuários da rede urbana de atenção básica à saúde.10 No estudo conduzido pelo National Health and Nutrition Exame Survey (NHANES) 2005-2006, entretanto, somente 33% da população adulta dos Estados Unidos perceberam sua dieta como excelente ou muito boa (escore alto) e 42% consideraram-na boa (escore médio).14 A prevalência da autopercepção positiva da alimentação observada nos Estados Unidos seria próxima à do presente estudo se, no estudo norte-americano, a classificação ‘boa’ (escore médio) tivesse sido considerada como positiva. Diferenças metodológicas, como o tipo de instrumento utilizado para medir o desfecho, podem ser observadas entre estudos, ressaltando a importância da definição dos critérios de avaliação no sentido de se permitir maior comparabilidade entre a literatura.

Diferenças na autopercepção positiva da alimentação podem ocorrer também por outros motivos, entre os quais se destacam os culturais (diferentes considerações do que é adequado, conforme países e culturas) e os temporais (diferentes épocas em que os estudos são realizados). Primeiramente, é importante definir uma alimentação adequada, de acordo com as recomendações do Ministério da Saúde - a exemplo do Guia Alimentar para a População Brasileira -,3 considerando-se a variabilidade do conceito ao longo do tempo, conforme os motivos anteriormente citados, e sua influência na percepção sobre o que cada pessoa considera adequado em termos da própria alimentação.

No presente estudo, dos 13 indicadores de alimentação saudável estudados, dez foram associados ao desfecho. A associação da autopercepção de alimentação com desfechos em saúde e de alimentação é relatada em outros estudos de destaque na literatura.14,19-21 Logo, a autopercepção de alimentação pode ser uma forma simples e viável de inferir a qualidade da alimentação do indivíduo.4,22

O sexo feminino apresentou menor percepção alimentar positiva do que o sexo masculino, possivelmente explicada pelo fato de as mulheres demonstrarem mais atenção a aspectos de cuidados com a saúde e a alimentação e, sendo assim, terem uma melhor identificação do que é saudável e se mostrarem mais criteriosas em sua autoavaliação.10 Os homens, historicamente associados a piores cuidados com a saúde e uma alimentação com mais gorduras e maior ingestão de bebidas alcoólicas, possivelmente têm menor percepção do impacto desses hábitos sobre a manutenção de uma vida saudável.10,19

A idade se associou a uma melhor autopercepção da alimentação. Sabe-se que indivíduos de mais idade apresentam maior variedade no consumo dos alimentos.6,8,14,20 Os idosos também podem restringir o consumo de alguns alimentos, como medida preventiva e/ou terapêutica frente a doenças crônicas e, como consequência dessa atitude, considerar sua alimentação mais saudável.8,14 No presente estudo, a escolaridade não apresentou diferença estatística com a percepção da alimentação. Não obstante, outros estudos encontraram indivíduos com menor escolaridade a apresentar menor percepção alimentar, menor acesso à informação e ao cuidado em saúde.23,24

Quanto à renda e à segurança alimentar, ambas se associaram ao desfecho. Sabe-se que, entre os indivíduos mais pobres, o preço é um critério de escolha para a aquisição de produtos alimentícios e pode influenciar não só a diminuição da quantidade de alimentos, como também a perda de sua qualidade nutritiva e variedade,6,23 impactando de forma negativa o comportamento de consumo saudável.5,6,21

Observou-se que indivíduos com pior percepção de seu estado de saúde tiveram uma redução da percepção positiva de sua alimentação, ao contrário dos indivíduos considerados ativos fisicamente, que tiveram uma melhor percepção em relação aos inativos. É consenso na literatura que indivíduos com melhor percepção de saúde são mais propensos a cuidar de sua saúde como um todo, apresentando comportamentos mais saudáveis.10,19,21,25,26

Entre os avaliados com depressão, verificou-se pior percepção da alimentação, o que reforça a importância da atenção à alimentação nesse grupo. Indivíduos deprimidos apresentam comportamentos não saudáveis como, por exemplo, má alimentação, ingestão alimentar compensatória de acordo com o presente estado de humor, sedentarismo e alterações no sono.14

O estudo em tela apresenta algumas limitações. A primeira está no delineamento transversal, pois é possível que indivíduos com autopercepção positiva da alimentação tenham realizado mudanças recentes em seus hábitos alimentares, e a alimentação saudável referida seja um hábito mais recente, não de longa data. Tampouco se descarta outros tipos de viés, como aqueles relacionados ao consumo alimentar e à possibilidade de os indivíduos responderem o que acreditam ser mais adequado, ou ainda, socialmente aceito, sobretudo quando questionados por outra pessoa. Entretanto, os itens de consumo alimentar foram associados de forma significativa a perguntas de autopercepção positiva, sugerindo que os indivíduos foram consistentes em suas respostas. O delineamento transversal é útil na identificação de grupos-alvo, como, por exemplo, indivíduos que pretendam ou se sintam no dever de melhorar sua alimentação, ou com morbidades já instaladas - diabetes, hipertensão, hipercolesterolêmia -, necessitados de ações efetivas e específicas. Outra limitação refere-se ao uso de questões subjetivas, cujas respostas são condicionadas à interpretação do indivíduo sobre o que é questionado.

Entre os pontos fortes do estudo, destaca-se o delineamento de base populacional e o baixo número de perdas e recusas, reduzindo-se a probabilidade de viés de seleção, além do treinamento dos entrevistadores e do controle de qualidade aplicado.

Como conclusão, os achados mostraram que a autopercepção positiva de uma alimentação se relacionou com dez dos 13 indicadores alimentares avaliados. O autodiagnóstico negativo da alimentação pode sensibilizar e estimular a necessidade de mudanças comportamentais, assim como provocar o processo de adoção de hábitos alimentares adequados. Essa informação pode ser útil aos profissionais diretamente envolvidos com a orientação de saúde dos indivíduos. Contudo, mais estudos sobre o tema são necessários para melhor compreender como a autopercepção se reflete nas práticas alimentares.

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*Artigo derivado da dissertação de mestrado intitulada ‘Autopercepção de alimentação saudável, fatores associados e sua comparação com o hábito alimentar entre indivíduos de 18 anos ou mais em área urbana do extremo sul do Brasil’, defendida por Karla Pereira Machado junto ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade Federal do Rio Grande, em 2017.

Recibido: 06 de Septiembre de 2018; Aprobado: 11 de Mayo de 2019

Endereço para correspondência: Karla Pereira Machado - Rua General Osório, S/N, Rio Grande, RS, Brasil. CEP: 96200-400. E-mail:karlamachadok@gmail.com

Contribuição dos autores

Machado KP participou do delineamento do estudo e do trabalho de campo, analisou os dados coletados, interpretou os resultados e foi responsável pela redação do manuscrito. Vaz JS contribuiu nas análises dos dados, redação e revisão do manuscrito. Mendonza-Sassi RA contribuiu com a supervisão do trabalho, desde sua concepção até sua finalização, revisou as análises dos dados, participou na interpretação de resultados e revisão crítica do conteúdo do manuscrito. Todos os autores aprovaram a versão final e são responsáveis por todos os aspectos do trabalho, incluindo a garantia de sua precisão e integridade.

Editora associada: Doroteia Aparecida Höfelmann - orcid.org/0000-0003-1046-3319

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