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Revista Brasileira de História da Educação

versão impressa ISSN 1519-5902versão On-line ISSN 2238-0094

Rev. Bras. Hist. Educ. vol.21  Maringá  2021  Epub 22-Fev-2020

https://doi.org/10.4025/rbhe.v21.2021.e159 

ARTIGO ORIGINAL

A revista Amauta (1926-1930): estudo de uma tribuna educativa latino-americana

The Journal Amauta (1926-1930): a study of a Latin American educational tribune

Kildo Adevair dos Santos1  * 
http://orcid.org/0000-0002-4484-2782

Dalila Andrade Oliveira1 
http://orcid.org/0000-0003-4516-6883

Danilo Romeu Streck2 
http://orcid.org/0000-0001-7410-3174

1Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

2Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS, Brasil.


Resumo:

O artigo analisa a revista Amauta (1926-1930), editada pelo pensador peruano José Carlos Mariátegui, apresentando suas principais contribuições para o fortalecimento dos processos educacionais emancipatórios da América Latina. O estudo foi desenvolvido por métodos qualitativos de coleta de dados e técnicas de pesquisa bibliográfica e documental. Os resultados da investigação apontam a originalidade da proposta epistemológica de Amauta, assim como suas contribuições para a pedagogia latino-americana, numa perspectiva que valoriza a identidade cultural a partir dos próprios espaços educativos. A análise destaca os seguintes aspectos: educação dos indígenas; teoria educacional; docência e ação organizativa dos professores; organização da educação; e movimento estudantil e universidade.

Palavras-chave: Mariátegui; emancipação; pedagogia latino-americana

Resumen:

El artículo analiza la revista Amauta (1926-1930), editada por el pensador peruano José Carlos Mariátegui, presentando sus principales aportes al fortalecimiento de los procesos educativos emancipatorios en América Latina. El estudio fue desarrollado por métodos cualitativos de recolección de datos y tecnicas de investigación bibliográfica y documental. Los resultados de la investigación apuntan a la originalidad de la propuesta epistemológica de Amauta, así como a sus aportes a la pedagogía latinoamericana, en una perspectiva que valora la identidad cultural desde los propios espacios educativos. El análisis destaca los siguientes aspectos: educación de los pueblos indígenas; teoría educativa; enseñanza y acción organizativa de docentes; organización de la educación; y movimiento estudiantil y universidad.

Palabras clave: Mariátegui; emancipación; pedagogía latinoamericana

ABSTRACT

Abstract: This article analyzes the journal Amauta (1926-1930), edited by the Peruvian thinker José Carlos Mariátegui, presenting its main contributions to strengthening emancipatory educational processes in Latin America. The study was developed by means of qualitative data collection methods, as well as bibliographic and documentary research techniques. The results of the investigation point out the originality of Amauta’s epistemological proposal, as well as its contributions to the Latin American pedagogy, from a perspective that values cultural identity by taking into account the educational spaces themselves. The analysis highlights the following aspects: education of indigenous people; educational theory; teaching and teachers’ organizational action; organization of education; and student movement and university.

Keywords: Mariátegui; emancipation; Latin American pedagogy

Introdução

Este artigo tem o objetivo de analisar a revista Amauta1 (1926-1930) e apresentar suas principais contribuições para o fortalecimento dos processos educacionais emancipatórios na América Latina. O estudo busca enfatizar a importância da revista Amauta não só pelo seu valor como fonte documental de uma época, mas por representar o projeto político e cultural do pensador peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930), que fez desta revista uma das principais plataformas educativas latino-americanas.

O esforço intelectual de pensar a América Latina a partir de sua própria história é um desafio para o pensamento crítico latino-americano e compreendemos que, desde a década de 1920, Mariátegui tem sido uma fonte importante, pois é um dos intelectuais peruanos mais influente do século XX. Em sua curta existência produziu uma extensa obra escrita, editorial e política, como segue: a revista Nuestra Época (1918); o jornal La Razón (1919); a revista Amauta (1926-1930); e o jornal Labor (1929); além de ter sido diretor da revista Claridad (1923-1924). Sua obra escrita está publicada em 20 tomos, sendo o libro sete ensaios de interpretação da realidade peruana o mais editado. Mariátegui também fundou o Partido Socialista Peruano (1928) e a Confederação Geral de Trabalhadores do Peru (1929). Suas ideias orientaram os enfoques teóricos mais conhecidos das ciências sociais na América Latina, como a Filosofia da Libertação (Salazar Bondy, 1995), a Teoria da Dependência (Marini, 2000), a Teologia da Libertação (Gutiérrrez, 2000), a Pedagogia do Oprimido (Mazzi Huaycucho, 2007), e o enfoque Decolonial (Quijano, 1986).

As influências e confluências do pensamento de Mariátegui nos enfoques latino-americanos dão testemunho da sua importância para o desenvolvimento do pensamento crítico-social da região. Compreendemos que voltar ao seu pensamento seja relevante no atual cenário e, por isso, destacamos, a partir da revista Amauta, suas contribuições para o fortalecimento do pensamento pedagógico latino-americano, assim como para os processos emancipatórios da América Latina.

O estudo foi desenvolvido por métodos qualitativos de coleta de dados, em que foram utilizados procedimentos técnicos das modalidades de pesquisa bibliográfica e documental. Para o tratamento dos dados, optamos pela análise de conteúdo. As atividades de coleta de dados iniciaram-se com a realização de conversas (Certeau, 1994) com professores e pesquisadores da obra de Mariátegui, o que possibilitou melhor direcionamento nas buscas do material, que foram realizadas nas principais bibliotecas de Lima, no Peru. Selecionamos os materiais referentes à produção de Mariátegui, como segue: 1) a revista Nuestra Época (1918), o jornal La Razón (1919), a revista Claridad (1923-1924), a revista Amauta (1926-1930) e o jornal Labor (1928-1929). A escolha da revista Amauta como objeto deste estudo se justifica por ser o trabalho editorial de Mariátegui de maior abrangência na América Latina e de maior reconhecimento na historiografia peruana, que será apresentada e analisada, ulteriormente, em tópico específico.

Selecionamos os 32 números da revista Amauta, publicados no período de 1926 a 1930. As atividades de busca neste acervo resultaram em um conjunto de dados (88 textos com conteúdos educacionais), os quais foram submetidos a uma leitura flutuante, com o objetivo de realizar uma pré-análise, consequentemente, a exploração do material, a definição de temáticas, a identificação das unidades de registro e das unidades de contexto nos documentos, onde buscamos realizar o tratamento dos resultados, interpretação e inferências.

A pesquisa foi desenvolvida na perspectiva do pensamento crítico latino-americano - “[...] aquele que tem reivindicado nossa trajetória histórica frente aos esquemas eurocêntricos, assim como tem procurado sistematicamente fortalecer nossa identidade, questionando o pensamento conservador criado pelas potências centrais do capitalismo” (Sader, 2008, p. 9) - que vai além das relações econômicas, considerando as interconexões entre as esferas histórica, política, social e cultural.

Além desta introdução, o artigo apresenta um breve balanço da literatura, trazendo em perspectiva histórica os estudos sobre a revista Amauta. Na sequência, o estudo traz uma análise da revista Amauta, identificando os textos com conteúdos educacionais. Em seguida, o artigo apresenta análises destes textos, em que busca identificar suas contribuições para o fortalecimento dos processos educativos emancipatórios da América Latina. Por fim, o estudo apresenta algumas considerações gerais.

A revista Amauta em perspectiva história: breve balanço da literatura

Neste tópico apresentamos, em perspectiva histórica, um breve balanço da literatura sobre alguns dos estudos mais comentados sobre a revista Amauta, com o propósito de indicar a construção de uma tendência rumo às análises dos aspectos culturais das temáticas publicadas nas páginas da revista pela sua proximidade com o tema da educação.

Os estudos sobre a revista Amauta iniciaram com Tauro Del Pino (1960), com a publicação do seu livro Amauta y su influencia, no qual o autor realiza uma organização temática da revista. As contribuições deste estudo são relevantes porque possibilitam a compreensão da origem e dos objetivos de Amauta, assim como da sua biografia e da sua fisionomia bibliográfica, indicando caminhos para a realização de estudos mais específicos sobre os temas da revista.

Os trabalhos de Falcón (1979), Chavarría (1979), Messeguer Illán (1974) e Baines (1972) tiveram a revista Amauta como objeto de suas reflexões para discutir a polêmica entre Víctor Raúl Haya de la Torre2 e José Carlos Mariátegui. Este debate constitui um importante capítulo da história das ideias políticas do século XX e forma parte da luta de classes que se foi configurando no Peru. Ela está além dos problemas táticos sobre o partido3 e expressa a oposição entre as alternativas programáticas de duas classes, tanto na concepção de sociedade peruana quanto sobre o caráter da revolução, entendida de um lado como um processo reformista democrático nacional da pequena burguesia e do outro como um processo socialista revolucionário do proletariado (Cotler, 2014).

Nos anos finais da década de 1970 e início dos anos 1980, foram realizados os estudos de Goloboff (1983), Alcibíades (1982), Núñez (1979), e Wise (1978). Estes trabalhos trouxeram interpretações da revista Amauta numa perspectiva que enfatizava o aspecto cultural. Estes autores discutiram ideias artísticas, literárias e a temática indigenista, além do impacto que Amauta exerceu sobre a formação cultural da sociedade peruana. Neste mesmo contexto, destacaram-se as reflexões elaboradas por Flores Galindo (1980), no livro La agonía de Mariátegui: la polémica con la Komintern, onde o autor recupera a imagem da revista como uma tarefa coletiva, representando a voz de uma geração.

O estudo realizado por Wise (1987) trouxe importantes contribuições para a interpretação da revista Amauta ao apontá-la como uma verdadeira fonte para a história cultural peruana. Também o estudo de Goicochea (1993) apresentou a revista Amauta como o projeto cultural de Mariátegui, onde este articulou a cultura peruana, congregando os intelectuais de diferentes regiões e de diferentes interesses, mas que tinham uma característica comum: a busca pelo novo e de alternativas para resolver a questão nacional. De forma teórica, a articulação da cultura peruana foi alcançada por meio do exercício de repensar o Peru desde uma perspectiva esquecida, a do índio.

A recente literatura dispõe de estudos que destacam o projeto da revista Amauta no que tange à sua influência nos processos organizativos dos trabalhadores; na perspectiva da inclusão da mulher nos espaços culturais e políticos das sociedades latino-americanas; e no objetivo de questionar a epistemologia eurocêntrica nas ciências sociais, que era dominante no cenário intelectual e político na década de 1920 (Mazzi Huaycucho, 2017; Guardia, 2017; Germaná, 2017).

Percebe-se que a revista Amauta influenciou a imprensa peruana, sobretudo aquela que cobria a pauta dos trabalhadores. Especificamente, esta revista impactou a imprensa mineira da cidade peruana de Morococha, entre os anos 1926 a 1930, onde Mariátegui disseminou suas ideias revolucionárias, contribuindo para a emergência de um novo tipo de classe trabalhadora, a qual se afastou paulatinamente das influências do anarco-sindicalismo e acolheu as ideias do sindicalismo revolucionário (Mazzi Huaycucho, 2017; Sobrevilla, 2012).

O estudo de Guardia (2017) indica que a revista Amauta representava a expressão mais avançada do pensamento de Mariátegui e tal expressividade abriu espaços para as mulheres publicarem na revista. Entre as vozes femininas destacaram-se: Ángela Ramos (1926) e Dora Mayer de Zulen (1927), que criticaram a educação patriarcal e sentimental da mulher peruana; Miguelina Acosta Cárdenas (1928), que criticou a situação de exploração e miséria na qual viviam os indígenas peruanos; Judith Arias e Cesar Acurio (1929), Gabriela Mistral (1927) e María Wiesse (1927), que defenderam a educação para as crianças como uma possibilidade de transformação social; Mary González (1929) e María Augusta Arana (1928), que defenderam a participação das mulheres nas organizações das lutas sindicais contra as legislações que oprimiam o proletariado feminino; e Magda Portal (1927), que se destacou como poeta e militante política.

Em relação ao questionamento da racionalidade eurocêntrica moderna, o estudo de Germaná (2017) indica que foi por meio do projeto da revista Amauta que Mariátegui desenvolveu suas análises da realidade peruana, debatendo com o marxismo-leninismo, da III Internacional Comunista, o nacionalismo radical, de Víctor Raúl Haya de la Torre, e a intelectualidade ‘criolla-oligárquica’. Dessa forma, Germaná (2017) explora algumas das orientações epistemológicas de Amauta que apontam, embora de maneira incipiente, a revista como uma fonte da perspectiva da decolonialidade do saber.

A revisão da literatura permite ver os esforços de muitos pesquisadores que se dedicaram a estudar a revista Amauta e, apoiados em importantes investigações documentais, publicaram seus estudos. Estas publicações foram além das discussões teóricas e políticas que predominavam nos estudos mariateguianos e abordaram os aspectos culturais, ainda pouco estudados sobre a obra de Mariátegui.

Todavia, não foram encontrados estudos sobre a temática educativa nas páginas da revista. Entendemos, assim, que o presente estudo possa contribuir para preencher esta lacuna.

Amauta: uma revista cultural e científica

Na América Latina, a década de 1920 presenciou uma proliferação de revistas literário-artísticas e políticas de tipo vanguardista, de curta duração e de números limitados. Os movimentos literários, artísticos e políticos na região se propagaram, principalmente, por meio destas revistas, entre as quais se destacaram: Repertorio Americano (1919-1958), da Costa Rica; Martin Fierro (1924-1930), da Argentina; Claridad (1926-1941), da Argentina; Amauta (1926-1930), do Peru; Revista Avance (1927-1930), de Cuba; e Contemporáneos: Revista Mexicana de Cultura (1928-1931).

No contexto peruano, a revista Amauta foi contemporânea de várias outras, tais como Variedades (1908-1932); Mecurio Peruano (1918-1931); Mundial (1920-1931); Flechas (1924); Trampolín-Hangay-Rascacielos (1926-1927); Poliedro (1926); Guerrilla (1927); La Sierra (1927-1930); Nueva Revista Peruana (1929-1930). Estas circulavam na cidade de Lima e algumas compartilhavam pontos de contato com as temáticas da revista Amauta. Destacaram-se também as revistas originadas na região Sul dos Andes, sobretudo, Kosko e Kuntur (1927), de Cusco, e Boletín Titikaka (1926-1930), da cidade de Puno.

Neste conjunto de revistas, Amauta se destacou por sua qualidade literária, pela sua tendência interpretativa baseada no materialismo histórico e por ser uma revista não dogmática, sendo considerada como uma das mais representativas da época (Carter, 1968).

Considera-se que a revista Amauta representou um movimento, uma corrente de renovação no campo intelectual peruano e latino-americano.

Queríamos que ‘Amauta’ tivesse um desenvolvimento nacional, orgânico, autônomo e individual. Por isso, iniciamos buscando seu título na tradição peruana. ‘Amauta’ não devia ser um plágio ou uma tradução. Pegamos uma palavra Inka para criá-la novamente. Para que o Peru índigena, a América indígena, sentisse que esta revista era deles. E apresentamos ‘Amauta’ como a voz de um movimento e de uma geração (Mariátegui, 1928, p. 1, grifo do autor, tradução nossa)4.

De acordo com Mariátegui (1926), Amauta foi pensada para ser uma revista com conteúdo, distinta no contexto peruano da época, em que predominavam os rótulos e a retórica. Esta afirmação poderia ser uma estratégia para conquistar leitores, em um contexto de surgimento de outras revistas. Conforme Mariátegui (1926, p. 1, tradução nossa)5, a revista teve como propósito

O objetivo desta revista é levantar, esclarecer e aprender sobre os problemas peruanos a partir dos pontos de vista doutrinário e científico. Mas sempre consideraremos o Peru dentro do panorama mundial. Estudaremos todos os grandes movimentos de renovação - políticos, filosóficos, artísticos, literários, científicos. Tudo o que é humano é nosso. Esta revista vinculará os novos homens do Peru, primeiro com os dos outros povos da América, depois com os dos outros povos do mundo [...].

A estrutura da revista Amauta variou, de acordo com os distintos momentos, épocas e etapas que atravessou. Durante estes processos, publicou artigos, nos mais diversos campos do conhecimento, e a educação figurou como uma temática importante no projeto da revista.

Amauta pode ser caracterizada pelo perfil amplo, não estando fechada em uma proposta dogmática. Seu projeto foi o de expressar um pensamento alternativo à tradição cultural oligárquica que dominava os centros culturais e a sociedade peruana. Ao longo de sua trajetória teve ênfases distintas que identificamos nas três etapas a seguir apresentadas.

As edições de Amauta (número 1 a 16) foram de 44 páginas e os números (17 a 30) de 104. Já os números 31 e 32 foram de 84 páginas. Todos os números da revista ofereceram em suas páginas reproduções de obras pictóricas e ilustrações. Também compunham a revista as seções El proceso del gamonalismo, Vida económica, Panorama móvil e Livros y Revistas. As edições da revista (números 1 ao 16) ainda foram vendidas por 0,40 centavos e as referentes aos números (17 ao 32) por 0,80 centavos (Tauro del Pino, 1960).

As edições de Amauta que vão do número um ao nove (de setembro de 1926 a setembro de 1928) podem ser consideradas como uma primeira etapa, a qual se caracterizou por sua amplitude quanto aos temas de debate, crítica e análise sobre a realidade peruana. Nesta primeira etapa destacaram-se as temáticas da arte, poesia, literatura, educação e letras em geral, o que não significou o abandono pelas discussões políticas, como pode ser constatado com os artigos de orientação anti-imperialista, publicados na sua nona edição (Martínez de la Torre, 1930).

A segunda etapa de Amauta marcou o início de uma nova jornada e de um novo modelo de trabalho. A revista se converteu em um fator de orientação política dos trabalhadores. Em setembro de 1928, Mariátegui proclamou que Amauta passava de revista da nova geração para converter-se em uma revista socialista. “A primeira etapa de ‘Amauta’ terminou. Na segunda etapa, não precisa mais ser chamada de revista da ‘nova geração’, da ‘vanguarda’, da ‘esquerda’. Para ser fiel à Revolução, basta ser uma revista socialista” (Mariátegui,1928, p. 2, grifo do autor, tradução nossa)6.

Esta nova definição constituiu um ponto de inflexão no tipo de política editorial, o que gerou transformações na estrutura da revista. Nesta segunda etapa, Amauta passava a ser um caminho por onde se impulsionava uma plataforma política e um novo projeto de país, sob as orientações do socialismo. No editorial Aniversario y Balance, do número 17 da revista, Mariátegui (1928, p. 1, tradução nossa)7 afirmou que

Amauta não é uma diversão nem um jogo de intelectuais: professa uma fé histórica, confessa uma fé ativa e multitudinária, obedece a um movimento social contemporâneo. Na luta entre dois sistemas, entre duas ideias, não nos ocorre sentir-nos espectadores ou inventar um terceiro termo [...]. Em nossa bandeira, inscrevemos esta palavra única, simples e grandiosa: Socialismo [...].

A partir da publicação do décimo até o 29º número, Amauta foi desenvolvendo um debate entre as concepções indigenistas, nacionalistas radicais e socialistas, até adotar uma política revolucionária com o objetivo de desenvolver um enfoque que apontava para a construção de um socialismo indo-americano (Löwy, 2005), por meio de uma linha de pensamento que inaugurava as bases de um marxismo latino-americano (Löwy, 2016).

A terceira etapa de Amauta pode ser compreendida nas publicações dos seus últimos três números, após a morte de Mariátegui, em abril de 1930. Esta etapa se caracteriza pelas tentativas de continuidade da etapa anterior, sob a direção de Ricardo Martínez de la Torre.

Contudo, a revista publicou seu último número (nº 32) em agosto/setembro do ano de 1930. Este fato está relacionado à morte de Mariátegui, principal referência para o funcionamento da revista; à mudança de conteúdo (influência da III Internacional Comunista), o que causou o afastamento de alguns colaboradores mais próximos e a ruptura das relações com intelectuais estrangeiros; e a crise econômica que afetou os anunciantes (Portocarrero Grados, 1996). Para Quijano (1994), o último número de Amauta foi marcado por textos em que as ideias centrais contradiziam o essencial que Mariátegui havia ensinado, dado que Ricardo Martínez de la Torre escolheu caminhar por outros caminhos, isto é, pelas orientações do marxismo ortodoxo.

Mariátegui, por meio da revista Amauta, se propôs a ampliar o campo cultural peruano e conquistar espaço e público com o objetivo de construir um novo Peru. Este projeto ( com base nos estatutos políticos e culturais do socialismo ( era uma tarefa que devia levar a cabo o enfrentamento do autoritarismo político da aristocracia governante e as misérias às quais foram submetidos os indígenas, os campesinos e os trabalhadores.

Amauta pretendeu que o novo sujeito latino-americano deveria estar representado em um projeto cultural e político cujo objetivo fosse gerar consciência crítica e coletiva e recuperar o significado histórico do sujeito autóctone peruano, pautado nas páginas da revista. O Quadro 1 apresenta um levantamento dos temas abordados com o respectivo número e textos a eles referidos, organizados durante o processo de leitura flutuante.

Fonte: Os autores

Quadro 1 Temas e quantidade de textos publicados na Revista Amauta (1926-1930) 

No que tange às temáticas das artes, poesias, contos, romances e literatura, Amauta publicou 310 textos sobre o contexto específico peruano; 132 deles referentes aos contextos latino-americanos; e 73 que contemplaram os contextos europeu, asiático e estadunidense, o que indicava a visão local, regional e global de Mariátegui.

Em relação aos 43 autores peruanos que publicaram em Amauta, indicamos os que escreveram com maior frequência: Antenor Orrego, Dora Mayer de Zulen, Mariátegui, Ricardo Martínez de la Torre e Victor Raúl Haya de la Torre. Estes concentraram suas reflexões em temas, tais como índios, América Latina, imperialismo, arte, capitalismo, pensamento e educação. Quanto aos autores europeus, eles direcionaram suas discussões para as temáticas da psicanálise, arte e sociedade, marxismo, revoluções chinesa e russa. Os autores latino-americanos concentraram suas análises em temas como o Estado, a igreja, a revolução mexicana e a reforma universitária. Assim, consideramos que Amauta consolidou-se em um espaço plural de produção de conhecimentos culturais e científicos, caracterizando-se como uma revista aberta e, sobretudo, avessa ao dogmatismo.

A organização por temas e quantidade de textos divulgados em Amauta, apresentada no Quadro nº 1, mostra o campo da educação como a terceira temática mais publicada na revista, uma frequência relevante que possibilitou a elaboração de uma categoria de análise, indicando a importância do tema para Mariátegui. Amauta tinha o objetivo de que a educação peruana pudesse sair do modelo educativo elitista e dogmático, que havia sido conduzido pela classe política dominante. A revista propiciou um espaço para se discutirem e se avaliarem os métodos, as orientações e as teorias educacionais que a classe governante defendia, e incentivou a análise e a crítica dos níveis educativos no Peru e em alguns países da região.

Amauta pautou a educação como uma temática importante na construção do projeto de desenvolvimento de uma nova identidade nacional peruana e latino-americana. Mariátegui, na direção da revista Amauta, cumpriu um papel importante de orientação acerca do problema educacional em todos os níveis e, no centro deste debate, manteve-se o interesse mais agudo nos processos de luta pela reforma universitária (Melis, 1999). A Tabela 1 apresenta a frequência de artigos sobre educação publicados em cada um dos números da revista.

Tabela 1 Número de artigos sobre a temática educativa publicados em Amauta (1926-1930). 

Ano Volume Número de artigos
I 1 3
I 2 3
I 3 3
I 4 1
II 5 3
II 6 5
II 7 4
II 8 4
II 9 2
II 10 5
III 11 3
III 12 10
III 13 1
III 14 4
III 15 2
III 16 3
III 17 2
III 18 2
III 19 3
III 20 2
IV 21 2
IV 22 3
IV 23 3
IV 24 4
IV 25 -
IV 26 2
IV 27 2
V 28 -
V 29 1
V 30 2
V 31 1
V 32 3
Total - 88

Fonte: Os autores.

Os artigos sobre a temática educativa publicados em Amauta formam um conjunto de 88 textos8, os quais estavam distribuídos nos 32 números da revista que foram publicados no período de setembro de 1926 até setembro de 1930. Somente em duas edições (números 25 e 28) não foram localizados textos sobre o tema da educação.

As autoras e autores dos textos sobre educação na revista Amauta formaram um grupo de 48 pessoas e nove instituições (associações, federações e organizações). Do número total de pessoas que escreveram na revista, 20% eram estrangeiras, sendo elas pertencentes à região latino-americana (Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Cuba, México, Uruguai e Venezuela). Em relação à região europeia, figuraram autores da Alemanha, Espanha e Rússia.

Os outros colaboradores de Amauta foram autores nacionais, pertencentes às diversas regiões do país (Arequipa, Ayacucho, Cajamarca, Cusco, Puno, Trujillo), em que se destacaram Carlos Velásquez, Miguelina Acosta Cardenas, Luis Enrique Galván, por publicarem com maior frequência na revista. Os autores constituíram uma rede de colaboradores, numa perspectiva de interesses diversificados, pois representavam realidades regionais diferentes e, ao mesmo tempo, possibilitavam as discussões em prol da formação de uma nacionalidade peruana.

As mulheres que publicaram a temática educativa na revista Amauta foram Gabriela Mistral, Maria Judith Arias, Maria Wiesse e Miguelina Acosta Cardenas. A educadora chilena Gabriela Mistral defendeu, nas páginas da revista, os princípios da educação nova atrelados aos princípios do cristianismo. Maria Judith Arias se dedicou à educação indígena por meio do projeto La escuela Hogar, a qual consistia em atender as particularidades dos indígenas, a partir de suas próprias circunstâncias. Em relação à Maria Wiesse, a peruana contribuiu com Amauta através de seus textos que focavam a educação das crianças pequenas e a importância da fantasia no processo educativo. Miguelina Acosta Cardenas também se dedicou à educação das crianças indígenas por meio da proposta das Escolas Rurais Ambulantes.

Estes autores e autoras foram jornalistas, advogados, artistas, docentes e escritores que utilizaram formatos variados de escrita, nos quais se destacaram as crônicas, os ensaios e os artigos de opinião, numa mescla de linguagem acadêmica, científica e jornalística. Os públicos-alvo destes autores foram os professores, intelectuais, estudantes, dirigentes sindicais, campesinos e os trabalhadores em geral.

Amauta tornou-se uma tribuna peruana que permitiu que uma rede de intelectuais das províncias estivesse em conexão constante com a intelectualidade limenha. Esta rede possibilitou o conhecimento daquelas realidades, e, principalmente, trouxe temas importantes, como o problema do índio (marginalizado nas províncias) para o centro da discussão em âmbito nacional. Amauta foi distribuída em quase todas as capitais das províncias peruanas, por meio de seus agentes e colaboradores, como nos casos de Cusco, Huaraz, Chiclayo, Arequipa e Trujillo, alcançando a intelectuais, campesinos, trabalhadores e o povo em geral.

A revista tornou-se também uma tribuna latino-americana, construindo uma plataforma educativa integrada por países como a Argentina, o Chile, Costa Rica, a Colômbia, Cuba, o Equador, o México e o Uruguai, permitindo uma troca de informações e saberes. Além disso, abriu espaços para publicações de organizações sindicais e temas latino-americanos, como a reforma universitária, a revolução mexicana, as discussões do novo direito na Argentina, assim como as lutas educativas da Associação de Professores do Chile.

Os textos que formam a temática educativa na revista Amauta tinham entre seus principais assuntos a educação dos indígenas; a teoria educacional; a docência e ação organizativa dos professores; organização da educação; e o movimento estudantil e a universidade, os quais serão abordados no próximo tópico.

A temática educacional na revista Amauta: contribuições para os processos emancipatórios latino-americanos

A educação dos indígenas

Os textos publicados na revista Amauta, os quais tratam da questão da educação dos indígenas apresentam críticas aos modelos educacionais clássicos voltados para uma formação livresca. Eles focaram suas críticas contra a tendência que oferecia uma educação que não dialogava com as realidades das comunidades indígenas, representadas por ações governamentais e algumas iniciativas filantrópicas, como as experiências dos internatos indígenas dos grupos salesianos (Acurio &Arias, 1929).

Esta perspectiva crítica aparecia na maioria dos textos onde se buscou apresentar novas alternativas para a construção e o desenvolvimento de um modelo educativo capaz de compreender as realidades da vida indígena. Neste sentido, foi proposta a criação de um sistema de professores e professoras ambulantes, no contexto das Escuelas rurales ambulantes para a educação das crianças, onde os docentes deveriam estar preparados para viver o cotidiano das comunidades indígenas (Acosta Cárdenas, 1929).

Amauta ainda publicou um modelo de educação indígena com base nas experiências educacionais mexicanas, onde a educação do índio foi desenvolvida seguindo os princípios de uma educação rural, defendendo que em países agrícolas, como é o México, “[...] revelaria um colonialismo mental absurdo, a introdução de bons sistemas educacionais para os cidadãos” (Cox, 1928, p. 15, tradução nossa)9.

A experiência educativa apresentada em Amauta por Acurio e Arias (1929), sob o nome de La escuela Hogar, consistia em atender as necessidades e particularidades dos indígenas a partir de suas próprias circunstâncias. Esta proposta criticou o modelo das escolas ambulantes, por apresentar um modelo educacional apressado e incapaz de se aprofundar na realidade da vida das crianças. Para os autores “[…] uma escola para o índio tem que conviver com ele persistentemente, tem que interpretar suas ações e sentimentos e esse trabalho não se faz em poucos dias, mas em muitos anos” (Acurio & Arias, 1929, p. 29, tradução nossa)10.

Amauta ainda apresentou a contribuição do educador peruano José Antonio Encinas, o qual indicou que a educação do índio deveria ser concomitante ao problema econômico, que por sua vez estava diretamente relacionado à questão da terra. Assim, Encinas (1930, p. 76) propôs o lema de Escuela con tierra própria. Esta escola, também denominada de escola social, poderia transformar a condição do índio, pois considerava sua vida integralmente.

Compreendemos que Amauta denunciou os programas educativos estatais que não consideravam os indígenas como peruanos iguais, caracterizando-os como uma ‘raça inferior’, demonstrando, por seu posicionamento consciente, que a organização da República peruana não se diferenciou em nada do sistema colonial. Os textos em Amauta defenderam uma educação capaz de compreender e dialogar com as realidades das comunidades indígenas, atendendo suas necessidades e particularidades, com o objetivo de construir e de desenvolver uma escola da comunidade, entendendo que a educação do índio estava relacionada ao problema econômico e, sobretudo, à questão da terra.

Amauta foi, assim, um espaço no qual a crítica era acompanhada de propostas que valorizavam a cultura e os conhecimentos dos povos indígenas. Evidencia-se nas discussões que se trata de uma questão complexa para a qual também não existe uma resposta simples e única dada à diversidade dos próprios povos indígenas e os vínculos estabelecidos com outras culturas da região.

Teoria educacional

A revista Amauta apresentou discussões sobre as principais tendências teóricas da época. O texto inaugural sobre esta temática defendeu o projeto de uma nova educação, com base numa concepção educativa que propunha que a escola deveria girar em torno dos interesses das crianças, enfatizar os aspectos psicológicos do ensino e a humanização da didática. Esta proposta tinha como fundamento as experiências das denominadas escolas ativas e escolas experimentais de “Dewey, Merriam, Causinet, Sary, Montessori, Decroly, Claparéde, Lunacharsky, Kerschensteiner, Tagore, etc.” (Velasquez, 1926, p. 25).

A perspectiva da educação nova defendeu a necessidade de se desenvolver um processo educacional com base nos pressupostos da investigação científica, buscando as contribuições das mais variadas áreas do conhecimento. Foi neste contexto que Mistral (1927) apresentou suas ideias sobre a ‘escola nova’ para a América Latina, propondo uma escola com tendência social, pública, científica e garantidora dos direitos das crianças. Para Mistral (1927, p. 6, tradução nossa)11, “[…] a nova escola [...] é uma criação espiritual e só pode ser feita por novos homens e mulheres”.

Amauta discutiu os problemas educativos de sua época, tendo como foco a pedagogia e a cultura, em que apresentou contribuições da corrente neo-herbatiana, enfatizando as ideias da pedagogia social de Natorp, assim como as ideias de Kerschenteiner e Dewey. Ainda refletiu sobre os escritos de Maria Montessori, discutiu as ideias da ‘pedagogia dos valores’, assim como a ‘pedagogia da personalidade’ (Mantovani, 1928). Apontou, além disso, as contribuições do ‘idealismo pedagógico italiano’, com base no pensamento de Benedetto Croce e Giovanni Gentile, corrente teórica que representou uma reação ao positivismo pedagógico da época (Mantovani,1928).

A revista trouxe ao público os conhecimentos teóricos sobre a infância e as reflexões a respeito da importância da fantasia e da imaginação para o processo educacional (Wiesse, 1927). Apresentou discussões sobre a temática da escola e a religião, em que criticou as propostas educativas da burguesia que historicamente utilizou da religião como plataforma ideológica para disseminar seus interesses políticos (Hierl, 1930).

Foram publicados ainda os princípios teóricos educacionais da Auto-educación Obrera, organizado pela Internacional Sindical Roja, uma estratégia de aperfeiçoar os conhecimentos dos trabalhadores cuja experiência concreta deu-se na Rússia, antes da Revolução. A revista também disseminou os princípios da ‘Pedagogia Proletária’, da Internacional de Trabajadores de la Enseñanza (1930), que lutava por uma pedagogia real no contexto das classes sociais.

Amauta apresentou as ideias teórico-educacionais de José Martí, considerando-o como um educador revolucionário da região (Foncueva, 1928). Essa vinculação é particularmente relevante para a construção pedagógica na América Latina (Streck, Moretti, & Adams, 2019; Streck, 2010), pois identifica uma trajetória histórica fundada em princípios de emancipação e de justiça social, que valoriza os saberes da cultura local, mas está aberta para uma gama de interlocuções teóricas, desde a pedagogia social e o movimento da escola nova à pedagogia socialista e proletária.

Assim, compreendemos que Amauta publicou propostas de uma educação nova com base nos métodos científicos e nos novos processos de ensino e de aprendizagem, com ênfase nos conhecimentos filosóficos, psicológicos, sociológicos, estéticos, e com uma tendência social, defensora dos direitos das crianças e da cultura. Esta proposta educacional seria, ao mesmo tempo, contrária a uma tendência educacional religiosa e classista que reproduzia os interesses das classes dominantes. Nesta perspectiva, Amauta apresentou a proposta educacional das Oficinas de Auto-educación para desenvolver práticas de atividades independentes, assim como insistiu na necessidade do acesso aos processos culturais para os trabalhadores, porque compreendia que a cultura era um forte instrumento de dominação política.

Docência e ação organizativa dos professores

A revista Amauta sempre abriu espaços para que as reflexões mais autorizadas da época pudessem apresentar as realidades sobre as questões do magistério latino-americano. Nestes espaços, o magistério foi pensado e apresentado como uma ação importante na luta contra o imperialismo e na possível transformação e emancipação da região. As análises sobre o magistério publicadas por Amauta trouxeram perspectivas revolucionárias, reformistas, progressistas e idealistas.

Numa perspectiva crítica, Amauta defendeu que o magistério deveria assegurar a independência econômica, pois seria ela a fonte para as outras independências, como orientava a Covención Internacional de Maestros. Criticou o governo por não ter consciência de que o investimento na formação e na carreira dos professores era tão importante como os gastos em segurança nacional, pois o mesmo supervalorizava o exército em detrimento do magistério (Urquieta, 1928).

Amauta publicou os eventos das organizações de professores da região latino-americana, como a primeira e segunda Convenção Internacional de Professores, em Buenos Aires e Montevidéo, respectivamente, e a Convenção Nacional dos professores argentinos, realizada em Córdoba. A Convenção Internacional de Professores de Buenos Aires esteve representada pelas melhores forças de renovação do continente, tendo participado docentes do Uruguai, do Chile, do Paraguai, do Peru, da Guatemala, da Bolívia e da Argentina (Delafuente, 1928).

No texto que apresentou a mensagem da Internacional de los Trabajadores de la Enseñanza (ITE) à Convenção Nacional dos professores argentinos, reunidos em Córdoba, a revista Amauta destacou a importância da organização sindical dos professores, assim como a denúncia da falta de políticas de financiamento educacional, de carreira e salários, da questão de gênero e das condições de trabalho dos docentes.

Por meio do texto da Internacional do Magistério Americano (IMA), a revista denunciou a brutal perseguição aos docentes chilenos que dirigiam a Associação Geral dos Profesores e aos demais que não compartilhavam as ideias da ditadura no país. Como uma ação para ajudar os docentes, a IMA fez a seguinte recomendação:

1º Denunciar por meio da imprensa e outros elementos de comunicação as violentas medidas de que são objeto os educadores chilenos; 2º Realizar atos de protesto contra os autores das perseguições, e de adesão às vítimas; 3º Denunciar a Ditadura, sua condenação, e seus agentes diplomáticos no exterior; 4º Trabalhar pela expatriação dos professores declarados desempregados; 5º Comunicar ao IMA todas as resoluções aprovadas (Internacioanal do Magistério Americano, 1929, p. 81-82, tradução nossa)12.

Amauta assumiu o compromisso de disseminar a luta em prol dos movimentos dos docentes latino-americanos, abrindo espaços para suas reivindicações, seus eventos e seus objetivos de construir outros processos educacionais para a região. Para isso, defendeu a independência econômica como possibilidade de docência como profissão devidamente reconhecida na sociedade, destacou a importância da organização sindical e denunciou a falta de políticas em relação ao financiamento e à carreira docente.

Organização da educação

O conjunto de textos sobre organização da educação publicados na revista Amauta indicam a necessidade de se aprofundar os conhecimentos sobre as crianças para tornar a educação escolar mais científica, defendendo processos pedagógicos que pudessem acompanhar o desenvolvimento integral dos estudantes (Galvan, 1928a).

Amauta publicou as reflexões sobre o El plan de la reforma educacional en Chile e apontou que a Reforma (1926) foi iniciada por docentes da escola primária para realizar um progresso pedagógico. Esta reforma pode ser sintetizada em três aspectos básicos:

1º As finalidades e ideais do ensino que determinam os postulados teóricos (eixo filosófico); 2º A organização do serviço na realidade tangível, que é a adaptação à prática dos problemas delineados (eixo técnico-administrativo); e 3º A condição e preparação do professor que é o elemento motor humano da escola e trabalhador no empreendimento educacional (eixo ativo) (Galvan, 1928b, p. 61, tradução nossa)13.

Ainda neste contexto, discutiu-se a finalidade filosófica da educação proposta pela reforma chilena, a autonomia e descentralização das atividades pedagógicas, a obrigatoriedade e a gratuidade do ensino.

Outro número da revista apresentou um informe sobre a organização da educação pública na Rússia, destacando os avanços educacionais alcançados após a Revolução de 1917. Naquele período foram criadas as Faculdades Obreras, sendo o principal meio de elevação da cultura dos jovens campesinos e trabalhadores. Destarte, também foi organizada uma campanha contra o analfabetismo que contemplou mais de 1 milhão de estudantes adultos (Lunatcharsky, 1929).

No que tange à organização educacional peruana, Sal y Rosas (1929, p. 88, tradução nossa)14, indicou que a “[...] organização educacional ainda é um caso estranho de hibridismo embrionário no qual tentativas e adaptações mais ou menos infelizes foram estratificadas […]”, onde a política educativa contemplava somente as características e necessidades da costa, provocando uma subordinação dos processos culturais da serra, a qual representava a maior parte do Peru. Nos próprios dizeres de Sal y Rosas (1929, p. 89, tradução nossa)15:

Nossa política educacional deve estar informada sobre o ideal de fazer da educação pública não apenas aquela rotina administrativa transplantada da Europa ou da América do Norte, mas um instrumento civilizador de ação construtiva fecunda. [...] Para isso, sua estrutura deve ser moldada dentro da realidade física e espiritual de cada região [...] dentro das linhas gerais e orientação nacionalista que exige a criação de um espírito e uma cultura genuinamente peruanos.

O conteúdo do texto supramencionado evidencia o projeto da revista Amauta no trabalho educativo de preparação para a construção de um novo país. A ação da revista, de disseminar e aprofundar os conhecimentos das realidades regionais e gerar novas perspectivas que representassem o ‘Peru profundo’, indicava o objetivo da revista de romper com as estruturas que marginalizavam a maioria dos povos peruanos e reproduziam os privilégios para uma minoria.

Amauta publicou um texto do Movimento Sindical que apresentava a organização do proletariado peruano, cujo objetivo foi desenvolver seus próprios órgãos de cultura que, sob a iniciativa da Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru (CGTP), resolveram criar as escolas Obreras e Campesinas. O projeto da CGTP, de desenvolver seus próprios órgãos de cultura, foi pensado e organizado por Mariátegui com o propósito de possibilitar a formação dos trabalhadores a partir das suas próprias realidades.

A organização educacional também foi abordada no texto ‘La plástica revolucionaria mexicana y las escuelas de pintura al aire libre’, de Casanovas (1929). Trata-se de uma experiência que representou os princípios revolucionários do povo mexicano, na qual as escolas foram abertas a todos e sem privilégios de classes. Assim, fizeram da arte um expoente social, concedendo às classes populares possibilidades de expressão artística, para que, por meio dela, pudessem exteriorizar suas vidas integralmente.

Vê-se nos textos que a preocupação com a estrutura e organização do ambiente educacional estava intimamente relacionada com a dimensão pedagógica e esta, por sua vez, com a dimensão política. Não se tem na revista Amauta um modelo de reforma a ser implantado no Peru e em outros países da região. Há um olhar atento para a realidade educacional internacional num contexto de grandes mudanças sociais e políticas.

Amauta pensou o Peru em correlação com outros países e a cultura peruana foi pensada dialeticamente com a universal. Esta foi uma característica importante da revista para o campo educacional, porque concebeu o processo educativo numa perspectiva de formação integral dos sujeitos, com a capacidade de relacionar as experiências internacionais com as realidades nacionais, por meio do diálogo de saberes, e, assim, gerar conhecimentos novos e alternativos.

O movimento estudantil e a universidade

Os textos sobre o movimento estudantil latino-americano e a universidade estão relacionados com a denúncia e a orientação contra os processos imperialistas estadunidenses que avançavam sobre a região. Professores como Alberto Ulloa, Manoel Ugarte, Alfredo Palacios, entre outros, exerceram importantes influências na formação das juventudes que buscavam construir uma nova América Latina.

Para Haya de la Torre (1926a), a juventude latino-americana aprendeu logo cedo os objetivos e as articulações do governo estadunidense de imperar sobre os povos e, principalmente, sobre os latino-americanos. Assim, insistiu na defesa de uma frente intelectual latino-americana e denunciou o caráter retórico e reprodutor das ciências, da literatura e das artes desenvolvidas pelas oligarquias regionais (Haya de la Torre, 1926b).

No que se refere à Federação de Estudantes do Peru, Amauta publicou seus princípios no que tange às lutas para reformar a universidade, buscando implantar a autonomia, a participação dos estudantes nos governos universitários, a renovação dos métodos pedagógicos, a criação de novas cátedras e o fortalecimento da perspectiva científica. Além da reforma universitária, os estudantes defenderam um processo de socialização da cultura e de solidariedade entre indígenas e operários.

Amauta defendeu a necessidade de se desenvolver um projeto de universidade que pudesse observar uma obra comum, a qual estivesse de acordo com as demandas da época. Esta proposta se originou diante da constatação de que a universidade latino-americana seguia sendo uma mistificação, sendo necessária a criação de uma nova universidade (Sánchez Viamonte, 1926).

O projeto de uma universidade nova foi pensado no contexto da relação entre universidade e vocação política, pois era importante a universidade oferecer formação dos novos políticos para os países latino-americanos. A necessidade de uma nova formação política foi resultado das transformações ocorridas pela guerra europeia e a posterior reação ditatorial e militar que influenciaram na definição da vocação política daquele século, o que provocou a inquietação social e a crise dos antigos sistemas.

Amauta discutiu a importância da universidade e da cultura para o nacionalismo, e que estas estavam ligadas aos trabalhos desenvolvidos por meio das investigações científicas (Galvan, 1927). Na esteira da nova geração latino-americana, Amauta sugeriu que a renovação do espírito universitário passaria pelo ingresso de novos professores, administradores e estudantes que pudessem implantar novas perspectivas de acordo com as circunstâncias dos novos tempos (Fernández, 1928).

Nesta perspectiva, defendeu-se uma reorganização científica da universidade, na qual César Tello se empenhou em demonstrar que era “[...] na Universidade do Futuro, na Universidade com universalidade, onde se ensinam todas as Artes e todas as Ciências, e que, ao mesmo tempo, possa ser uma oficina para investigar cientificamente” (Arca Parró, 1928, p. 28, tradução nossa)16. Ao lado da concepção de universidade científica, Amauta defendeu a cultura universitária e a cultura popular, com o objetivo da construção de uma universidade integralizada, conciliando universidade e povo, trabalhador manual e trabalhador intelectual (Orrego, 1928).

O sentido social da reforma indicava também que a missão vital da universidade estava relacionada com a exigência de melhores sistemas de ensino (Ramirez Castilla, 1929). Embora afinada com os movimentos da reforma universitária, Amauta realizou uma leitura crítica da Reforma Universitária de Córdoba, considerando que “[...] foi o ponto de partida do ‘movimento revolucionário’ pequeno-burguês latino-americano” (Martínez de la Torre,1930, p. 48, grifo do autor, tradução nossa)17.

A composição social da universidade argentina passou da classe que representava o velho regime político e econômico para a nova geração, formada pela pequena burguesia e a classe trabalhadora, as quais se depararam com uma universidade arcaica, teológica e medieval. Não obstante, a Reforma de Córdoba foi anticlerical, de caráter continental e anti-imperialista.

Amauta indicou que os estudantes e professores se uniram na luta em benefício da emancipação dos povos latino-americanos contra o processo imperialista estadunidense. A juventude latino-americana foi orientada a combater os ataques oligárquicos e imperialistas e construir um projeto de uma nova América Latina, em que fez das universidades uma tribuna contra os interesses da velha ideologia burguesa das classes dominantes, o que provocou a incorporação de importantes professores na causa juvenil, tais como Vasconcelos, Ingenieros, Palacios e Varona.

Amauta propôs a criação de uma nova universidade com base no conhecimento da cultura e da investigação científica, assim como de novos métodos. Um ensino baseado na implantação de seminários, da investigação e incentivando a produção original de professores e instituições. A autonomia universitária se daria pelo ingresso de novos professores, administradores e estudantes que pudessem responder às necessidades dos novos tempos, formando instituições de cultura revolucionária.

Amauta indicou ainda que as propostas de reforma universitária estiveram ligadas às classes médias revolucionárias e foram manifestações das lutas de classes desenvolvidas nos contextos sociais e políticos latino-americanos. A revista apresentou o caráter e o alcance da reforma no Peru, mas também ressaltou seu sentido latino-americano, compreendendo que o movimento não estava relacionado somente ao âmbito universitário, mas aos aspectos políticos e sociais, confrontando os setores conservadores e reacionários que a compreendiam como um problema especificamente acadêmico. Seria uma universidade para todos, aberta ao mundo das ideias e da vida, um espaço de pluralidades, de cultura e, principalmente, de construção científica.

Considerações Finais

A partir das análises realizadas nos textos com conteúdos educacionais na revista Amauta, consideramos que esta foi a mais importante plataforma educativa que compôs o projeto cultural e político de Mariátegui, no qual a revista promoveu a discussão de relevantes temas para o campo educacional, como a educação dos indígenas, as teorias pedagógicas, a docência, a organização da educação, o movimento estudantil e a universidade.

Mariátegui, por meio de Amauta, compreendeu o processo educativo a partir da união entre a razão e a imaginação. A capacidade de convergência entre estas duas categorias, caracterizadas pela relação de tradições culturais distintas (andina e europeia), possibilitou-lhe ensaiar a elaboração de outra epistemologia, composta de reciprocidade e solidariedade andinas e da democracia e liberdade ocidental.

Amauta se tornou o espaço intelectual onde começaram a ser fomentadas propostas de estudos, análises e conhecimentos dos problemas latino-americanos, sob o ponto de vista cultural e científico, que questionaram os cânones do pensamento eurocêntrico e estadunidense, apontando a necessidade de se gerar outras bases epistemológicas a partir das próprias realidades e circunstâncias.

Temos na revista Amauta traços de um projeto educacional capaz de vincular as contribuições da ciência, da cultura e do conhecimento popular, como também de criar espaços de investigação, análises, diálogos e produção teórica desde suas próprias experiências. Do exercício de organização da cultura e da política realizado pela revista, constatamos uma contribuição fundamental para os atuais processos pedagógicos emancipatórios latino-americanos, uma chave analítica e interpretativa, onde se pode buscar a compreensão da realidade com ferramentas elaboradas a partir das próprias circunstâncias, gerando um pensamento alternativo e original.

A revista Amauta, por meio do seu pressuposto teórico-metodológico, perseguiu a necessidade de descobrir, em cada realidade particular, o método e a teoria que fossem capazes de compreendê-la e transformá-la, sem considerar como determinante a racionalidade instrumental eurocêntrica, mas a própria realidade latino-americana, desenvolvendo uma maneira distinta de observar, analisar e interpretar a realidade. Esta é uma contribuição importante para fortalecer os processos pedagógicos emancipatórios latino-americanos.

Tendo como base da reflexão e da prática à realidade regional e nacional, o projeto educativo propagado pelas páginas da revista Amauta indica-nos uma educação fechada a qualquer tipo de dogmatismo e avessa aos processos de imitação e cópia. A proposta deve-se manter autônoma, levantando-se contra qualquer espécie de ideologia obscurantista e quaisquer novas comunidades epistêmicas que se apresentem como detentoras do conhecimento universal. Contrapõe-se à proposta reducionista da educação como mera formação de mão de obra, e ao colonialismo mental, cultural e científico.

Portanto, a ação organizativa da cultura e da política proposta pela revista Amauta nos possibilita pensar projetos educativos a partir dos grandes problemas nacionais, típicos das realidades e circunstâncias dos países periféricos. São projetos que objetivam pesquisar, analisar e interpretar as reais condições de dependência e compreender que é possível construir outro destino histórico para a América Latina. A inspiração de Amauta se encontra presente hoje em muitas experiências educativas como nas práticas educativas autônomas e emancipatórias dos Zapatistas, na recuperação pedagógica do buen vivir e em inúmeras práticas em contextos escolares e não escolares. Esperamos ter conseguido evidenciar neste artigo que Amauta, enquanto uma tribuna educacional, é um marco na construção de uma práxis pedagógica emancipatória na América Latina.

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1Amauta no idioma quéchua significa mestre e sábio, e era a pessoa que se dedicava à educação formal dos filhos dos incas. Todavia, o título da revista traduziu a adesão de Mariátegui à raça indígena, em que a palavra Amauta adquiriu uma nova acepção, passando a ser uma plataforma educativa do povo latino-americano.

2Haya de la Torre (1895-1979) foi um político peruano, fundador da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA) e ideólogo do mais importante partido de massa existente no Peru, o Partido Aprista Peruano.

3Refere-se à decisão de Víctor Raúl Haya de la Torre de fazer da APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana) o Partido Nacionalista Peruano.

4“Hemos querido que ‘Amauta’ tuviese un desarrollo orgánico, autónomo, individual, nacional. Por esto, empezamos por buscar su título en la tradición peruana. ‘Amauta’ no debía ser un plagio ni una traducción. Tomábamos una palabra inkaica, para crearla de nuevo. Para que el Perú índio, la América indígena, sintieran que esta revista era suya. Y presentamos ‘Amauta’ como la voz de un movimiento y de una generación”.

5“El objeto de esta revista es el de plantear, esclarecer y conocer los problemas peruanos desde puntos de vista doctrinarios y científicos. Pero consideraremos siempre al Perú dentro del panorama del mundo. Estudiaremos todos los grandes movimientos de renovación -políticos, filosóficos, artísticos, literarios, científicos. Todo lo humano es nuestro. Esta revista vinculará a los hombres nuevos del Perú, primero con los de los otros pueblos de la América, en seguida con los de los otros pueblos del mundo […]”.

6“La primera jornada de ‘Amauta’ ha concluido. En la segunda jornada, no necesita ya llamarse revista de la ‘nueva generación’, de la ‘vanguardia’, de las ‘izquierdas’. Para ser fiel a la Revolución le basta ser una revista socialista”.

7“Amauta no es una diversión ni un juego de intelectuales puros: profesa una fe histórica, confesa una fe activa y multitudinaria, obedece a un movimiento social contemporáneo. En la lucha entre dos sistemas, entre dos ideas, no se nos ocurre sentirnos espectadores ni inventar un tercer término […]. En nuestra bandera, inscribimos esta sola, sencilla y grande palabra: Socialismo […]”.

8Estes textos estão disponíveis em Santos (2020).

9“[...] revelaria absurdo colonialismo mental, la introducción de sistemas educacionales buenos para gentes ciudadanas”.

10“[...] una escuela para el índio ha de convivir con él de manera persistente, ha de interpretar sus acciones y sus sentimientos y esta obra no se realiza en pocos días sino en muchos años”.

11“[...] la escuela nueva […] es una creación espiritual y sólo la pueden hacer hombres y mujeres nuevos”.

12“1º Denunciar por la prensa y otros elementos de vulgarización las medidas violentas de que son objetos los educadores chilenos; 2º Celebrar actos de protesta contra los autores de las persecuciones, y de adhesión a las víctimas; 3º Hacer llegar su condenación, directamente, a la Dictadura, y a sus agentes diplomáticos en el exterior; 4º Trabajar por la expatriación de los maestros declarados cesantes; 5º Comunicar a la IMA, todas las resoluciones que se adopten”.

131º Las finalidades y los ideales de la enseñanza que determinan postulados teóricos (eje filosófico); 2º La organización del servicio en la realidad tangible, que es la adecuación a la práctica de los problemas esbozados por aquel (eje técnico-administrativo); y 3º La condición y preparación del maestro que es el elemento humano motor de la escuela y obrero en la empresa educativa (eje activo)

14“[...] organización educacional es todavía un extraño caso de hibridismo embrionario en que se han estratificado ensayos y adaptaciones más o menos infortunados [...]”.

15“Nuestra política educativa debe informarse en el ideal de hacer de la enseñanza pública no ya aquella rutina administrativa transplantada de Europa o Norteamérica, sino un instrumento civilizador de fecunda acción constructiva. [...] Para ello hay que plasmar su estructura dentro de la realidad física y espiritual de cada región [...] dentro de las líneas generales y orientación nacionalista que reclama la creación de un espíritu y una cultura genuinamente peruanos”.

16“[...] en la Universidad del Futuro, en la Universidad con universalidad, donde se ensiñen todas las Artes y todas las Ciencias, y, que, al mismo tiempo, sea um taller para investigar científicamente”.

17“[...] fue el punto de partida del ‘revolucionarismo’ pequeño-burgués latinoamericano”.

Como citar este artigo: Santos, K. A., Oliveira, D. A., & Streck, D. R . A revista Amauta (1926-1930): estudo de uma tribuna educativa latino-americana. (2021). Revista Brasileira de História da Educação, 21. DOI: http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v21.2021.e159.

Recebido: 14 de Junho de 2020; Aceito: 10 de Outubro de 2020; Publicado: 11 de Janeiro de 2021

*Autor para correspondência. E-mail:kildoadevair@yahoo.com

Kildo Adevair dos Santos é doutor em Políticas Públicas da Educação e Profissão Docente no Doutorado Latino-Americano da FAE/UFMG. Membro do Grupo de Estudos sobre Política Educacional e Trabalho Docente - Gestrado/FaE/UFMG. Membro do Grupo de pesquisas Mediações Pedagógicas e Cidadania - Unisinos. Pesquisador associado do Instituto de Estudos Peruanos - IEP. Coordenador pedagógico na rede municipal de educação de Ibituruna/MG. E-mail: kildoadevair@yahoo.com https://orcid.org/0000-0002-4484-2782

Dalila Andrade Oliveira é professora titular de Políticas Públicas em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Professora Visitante do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba. Pesquisadora PQ-1A/CNPq. Coordenadora do Grupo de Estudos Sobre Políticas Educacionais e Trabalho Docente. E-mail: dalila@ufmg.br https://orcid.org/0000-0003-4516-6883

Danilo Romeu Streck é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) - São Leopoldo/RS. Pesquisador do CNPq - Nível 1A. Coordenador do grupo de pesquisa Mediações Pedagógicas e Cidadania. É editor executivo da RevistaInternational Journal of Action Research. E-mail: streckdr@gmail.com https://orcid.org/0000-0001-7410-3174

Editor-associado responsável: José Gonçalves Gondra (UERJ) E-mail: gondra.uerj@gmail.com https://orcid.org/0000-0002-0669-1661

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