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Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

On-line version ISSN 2316-4018

Estud. Lit. Bras. Contemp.  no.51 Brasília May/Aug. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/2316-40185120 

entrevistas

“Minha escrita começa sempre do nós”: entrevista com Mel Adún

Graziele Frederico1 

Lúcia Tormin Mollo2 

Paula Queiroz Dutra3 

1 Doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil. E-mail: grafrederico@gmail.com

2 Doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil. E-mail: ltorminmollo@gmail.com

3 Doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil. E-mail: qpaulad@gmail.com


Mel Adún (1978), residente em Salvador, é escritora, pesquisadora, membro e assessora de imprensa do Coletivo Ogum’s Toques Negros. Também é colaboradora em vários números dos Cadernos negros. Iniciou sua carreira literária em 2007, realizando diversos escritos (romances, contos e poesias). Seus textos trazem uma forte presença do lugar feminino e, especialmente, do feminino negro. Em 2015, publicou o livro infantil A lua cheia de vento.

Qual a sua relação com a literatura?

Minha relação com a literatura é antiga. Não sei precisar quando começou, mas se fez presente na minha vida a partir das leituras, sempre que possível, de mainha. A literatura sempre foi uma companhia e hoje continua sendo. O diálogo com o mundo não fica só na minha cabeça, transpassa para o papel nas formas mais variadas.

Você acha importante se dizer autora negra dentro do campo literário brasileiro? O rótulo demarca ou aprisiona sua trajetória?

Afirmar nos coloca um passo à frente da suposta democracia racial brasileira. Ser chamada de escritora negra não me aprisiona; não aprisiona meu texto. Muito pelo contrário. Liberta-me de ter que pisar em ovos ao mesmo tempo que me desafia no exercício da escrita. O que nos aprisiona, nos torna invisível e nos mata, é o racismo.

O racismo presente na sociedade brasileira afeta a sua produção?

Indiscutivelmente, sim. O texto sempre passará por mim. O que não significa que a minha produção seja “diminuída” pelo racismo.

Quais temas te interessam, te instigam a escrever?

Os temas do mundo, desse mundo nosso, me interessam. Contar casos, histórias ouvidas aqui e acolá me inspiram. Acredito que o ser humano tem muita coisa a dizer o tempo todo. Além de fazer parte de nossa cultura tentar aprender a partir de outros. Quando eu digo aprender é num sentido bem amplo. Pode ser aprender a rir, a refletir ou até mesmo só apreciar. Posso dizer que minha escrita começa sempre do nós.

Qual relação da sua escrita com suas experiências?

Acredito que seja fundamental, mas jamais determinante.

Qual o peso que o machismo ainda tem no Brasil atual?

Com certeza mais pesado que um oceano lotado de Baleias Azuis. Quando temos dados como: 3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos; ou 56% dos homens admitem que já cometeram alguma agressão contra suas companheiras. Ou quando lemos que um homem matou por amor, por ciúme ou inconformado com o término da relação. A sociedade ainda nos vê como propriedade do homem.

É possível desvincular a produção literária de um ato político?

Não há neutralidade. Escrever é um ato político e perante o genocídio da população negra, tanto físico quanto intelectual, posso dizer que viver, nesse país racista, tanto para a mulher negra, quanto para o homem negro, também é.

O que o corpo significa na sua produção?

Significa o meu lugar de fala. A fala de uma mulher negra completa. Com desejos, medos, alegrias, frustrações. O corpo das possibilidades infinitas que nos foram negadas na “literatura brasileira”. Um corpo com nome, sobrenome, profissão, família. Um corpo que não é mais objeto do outro. Um corpo que demanda o diálogo.

Qual a importância da literatura num país com tamanhas desigualdades sociais?

A maior das importâncias! A literatura brasileira legitimou e naturalizou o racismo brasileiro cotidiano.

Qual sua análise sobre um aumento dos mais diversos tipos de intolerância (religiosa, de gênero, étnico-racial, social) no país? Vivemos tempos mais violentos?

Não tenho dados exatos, mas acredito que o Brasil sempre foi violento, racista, machista, homofóbico, sexista etc. Com as novas mídias existe um aumento, sim, das informações traficadas. Sabemos em tempo real o que o braço armado do Estado faz nas periferias de boa parte do Brasil. Sabendo ainda que não é o Brasil todo que possui acesso às novas mídias, o que nos diz que ainda haverá um aumento.

Qual a importância da liberdade e da democracia para a literatura?

Sem elas não existe literatura.

Quais autoras/es, pensadoras/es, pessoas têm influência na sua obra?

Bell Hooks, Conceição Evaristo, Adélia Prado, Virginia Wolf, Ronald Augusto, Edimilson Pereira, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Alex Ratts, Guellwaar Adún, Toni Morrison, entre outras e outros que me amparam atualmente

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