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Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

On-line version ISSN 2316-4018

Estud. Lit. Bras. Contemp.  no.51 Brasília May/Aug. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/2316-40185121 

entrevistas

“Escrevo porque não dá para não escrever”: entrevista com Miriam Alves

Graziele Frederico1 

Lúcia Tormin Mollo2 

Paula Queiroz Dutra3 

1 Doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil. E-mail: grafrederico@gmail.com

2 Doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil. E-mail: ltorminmollo@gmail.com

3 Doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil. E-mail: qpaulad@gmail.com


Miriam Alves (1952), nascida em São Paulo, é poeta, dramaturga e prosadora. Publicou os livros de poemas Momentos de busca (1983) e Estrelas nos dedos (1985); a peça Terramara (1988), em coautoria com Arnaldo Xavier e Cuti; os contos de Mulher mat(r)iz (2011); o conjunto de ensaios BrasilAfro autorrevelado (2010); e o romance Bará (2015), entre outros. Integrou o movimento Quilombhoje-Literatura de 1980 a 1989. Nos Estados Unidos, participou de debates sobre a literatura afro-brasileira e feminina nas Universidades do Texas, Tennessee e Illinois. Publica poemas nos Cadernos negros desde 1982 e foi traduzida em várias antologias, como a edição bilíngue Black notebooks: contemporary Afro-Brazilian literary movement.

Qual a sua relação com a literatura?

Minha relação com a literatura é visceral e imprescindível. Primeiro, desde a infância me reconheço como leitora. Fui criada numa família negra de leitores. Minha mãe, tendo estudado até o segundo ano primário, adorava ler os clássicos da literatura brasileira aos quais tinha acesso nas casas dos patrões. Ela trabalhava como empregada doméstica desde criança. Seu livro predileto era O cortiço, de Aluísio de Azevedo. Ela costumava contar as histórias desses romances para os filhos. Meu pai estudou até o segundo ano de técnico de contabilidade, e seus autores prediletos eram os clássicos da literatura portuguesa. E em casa tínhamos um grande baú, no qual guardávamos esses tesouros e, em tempos chuvosos, quando não podíamos brincar no quintal, ficávamos limpando, lendo e ouvindo minha mãe e meu pai contar histórias. Acredito que essa prática familiar me despertou para a leitura e para a escrita também. Escrevo desde os 10 anos. Era a forma de registrar sentimentos, as coisas que as crianças não podiam dizer. Com o tempo, fui sonhando em ser escritora, descobri que o que eu fazia era literatura. Atualmente, escrevo porque não dá para não escrever. É algo que está em mim.

Você acha importante se dizer autora negra dentro do campo literário brasileiro? O rótulo demarca ou aprisiona sua trajetória?

Sim, considero importante me dizer escritora negra brasileira. E não é rótulo. É uma atitude política. Na verdade, se dizer escritora negra e reconhecer o movimento literário que surgiu em 1978, com a publicação do primeiro Cadernos negros em São Paulo, que foi um marco para questionar a literatura brasileira como um lugar da hegemonia branca do saber e de ideias que privilegia a produção do escritor branco, de classe média alta, heteronormativo e com grande influência do pensamento eurocêntrico, se autorreferenciando como universal. A literatura negra, numa manifestação coletiva, surge da necessidade de escritores negros e escritoras negras serem autores e sujeitos da história. História nos dois sentidos, no sentido do ficcional, poético, literário, e no sentido de fazer história mesmo. Então, não é um rótulo e não aprisiona: liberta. Liberta não só eu que escrevo, mas também os leitores negros e brancos.

O racismo presente na sociedade brasileira afeta a sua produção?

O racismo presente na sociedade brasileira afeta a vida de 51% de sua população de forma brutal e subliminar. É genocida. Leva à morte física e mental. Impede a realização plena do ser humano. Mantém uma expressiva maioria na linha da pobreza e abaixo da linha da pobreza. Mantém no cárcere simbólico e real. Cerceia o ir e vir nos centros urbanos e fora deles. Extermina os jovens negros. Existe todo um aparato institucional para isso, difícil de ser desmontado, porque é necessária a mudança de pensamento e de ideias, formais e informais, que norteiam e normalizam isso.

Quais temas te interessam, te instigam a escrever?

Os temas que me interessam e sempre me interessaram são os sentimentos e os relacionamentos humanos de forma geral. Eu praticamente enfoco todos eles na minha escrita, partindo sempre da minha inserção social, ou seja, de mulher negra. E o que me instiga a escrever são fatos e como eu e o outro interagimos com esses fatos. Por exemplo, a janela quebrada de um coletivo, como os passageiros se relacionam com isso e como eu vejo essas manifestações. A ideia surge em forma de poema, crônica, ensaio, novela, ou ainda um romance. Minha escrita começa primeiramente por uma elaboração mental, um pensamento que vai tomando forma e depois deságua na palavra escrita.

Qual a relação de sua escrita com suas experiências?

No surgimento da literatura negra, em 1978, não era só escrita de autoria negra. Tinha um propósito político-cultural. Autores negros e autoras negras pensando o ato de escrever no coletivo e reunindo-se para pensar isso e propor não só saídas estéticas como também ações que pudessem furar o bloqueio editorial. Bom, de certa forma, isso aconteceu, e essa manifestação literária passou a ter uma visibilidade a princípio acadêmica. A partir daí foram criadas algumas teorias e formas de ver e relacionar essa escrita. Uma das formas de entendimento, já que partíamos de nosso lugar de inserção social, foi de considerar essa escrita como um relato, um diário de existência. De certa maneira é, mas não é só isso. Fazemos literatura, usamos os recursos da literatura, que são complexos, para escrever. E esses textos percorrem vários fluxos narrativos até se tornarem uma obra. Assim sendo, não se resume ao ato de relatar a vivência, escrever a vivência pura e simplesmente. Entram também os sonhos, os desejos, o voo subjetivo. Ao introjetar emoções perante fatos, ações e conhecimentos, estimula-se a memória emocional, que é o arcabouço utilizado pelo(a) escritor(a) para elaboração dos textos. Comigo, enquanto escritora negra, não é diferente. É desse arcabouço que lanço mão na construção de meus escritos.

Qual o peso que o machismo ainda tem no Brasil atual?

O machismo ainda é muito forte nas relações cotidianas e também nas relações políticas. Estamos vendo pela TV, vindas do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, cenas de machismo explícito e escroto. Fora isso, tem as novelas dos vários horários e de vários canais abertos de televisão propagando valores machistas. Está em todas as esferas da sociedade brasileira - para ficar aqui mesmo no Brasil -, mas é mundial. Uma construção de poder e dominação. E, por estarmos falando de literatura, não só os clássicos brasileiros, mas outros também, perpetuam esses valores. Eu me lembro na minha adolescência como fiquei chocada com A megera domada, de William Shakespeare- do século XVI, o livro, e depois o filme de, 1967 -, em que a personagem é colocada em situação constrangedora até, no final, fazer um discurso de aceitação do poder dos homens. Parece ser um argumento de séculos passados, mas que é reproduzido em diversas obras até hoje. Sem contar o peso desse machismo quando acrescentamos o quesito raça, aí a coisa complica um pouco mais.

É possível desvincular a produção literária de um ato político?

Não. Escrever é um ato político.

O que o corpo significa em sua produção?

O corpo negro resgatado tornar-se sujeito - é isso que significa. Um corpo sobre o qual pesou todo o tipo de violência de não pertencer a si e pertencer a outro durante vários séculos. Sobre ele incidem vários tipos de signos pejorativos. Um corpo desumanizado, objetificado por força de arbitrariedade e conceitos errôneos, que, radicados, perduram até hoje e justificam arbitrariedades e violência. O corpo negro presente em minha produção é uma atitude política e sociocultural de retomá-lo, ressignificá-lo, dar outra proporção de sentidos ao corpo, reapropiar-se dele.

Qual a importância da literatura num país com tamanhas desigualdades sociais?

Sem dúvida, as desigualdades sociais desse país são imensas e gritantes. A literatura não tem uma ação imediata para equilibrar isso. Mas tem, sim, um papel político-cultural somado a outras ações políticas de reparação. Pois bem, falando da literatura negra, chegamos num momento nesse país em que existe uma geração de negros universitários, mestrandos e doutorandos, só para ficar na área de Letras. E, nas minhas várias palestras pelas universidades do Brasil, deparei-me com vários deles, que elegeram autores e autoras negros para concluir seus cursos. Em conversas informais, e mesmo em depoimentos após palestras, eles relatam primeiro o prazer de se verem nos escritos, uma relação de pertencimento, além da possibilidade de fazer ciência com o que lhe é próximo e próprio, uma sensação prazerosa de encontro. Segundo, como uma relação menos prazerosa, devido ao confronto com a estrutura de poder do saber hegemônico das instituições universitárias, que, além de não conceberem essa literatura como forma literária de sujeitos, parece não conceber também o sujeito negro falar sobre isso sem objetificar a fala. Além do que, as várias teorias de apoio ainda não dão conta desse sujeito negro como sujeito e nem os pensadores e teóricos negros brasileiros e estrangeiros como possibilidade teórica de análise. É um confronto que só pode existir a partir do momento que existimos enquanto escritores, poetas, ficcionistas, ensaístas, negros a partir da trajetória que percorremos.

É possível vislumbrar uma melhora na inserção no mercado editorial a partir de novas mídias, como as redes sociais?

Mercado editorial é um campo muito complicado. O mercado editorial também é ideológico e difunde e cerceia o que é interessante para manter uma hegemonia cultural. Para furar esse bloqueio do mercado, criamos mecanismos como as cooperativas literárias, tipo a do Quilombhoje entre outras; e a parceria com pequenas e grandes editoras, nas quais pagamos uma parte da edição e nos responsabilizamos por sua distribuição e comercialização. Isso acaba criando um mercado paralelo, com pouco fôlego para competir com o mercado editorial, e de certa forma se torna limitado. Quanto às redes sociais, elas ajudam a difundir o nome e o trabalho de uma maneira mais ampla, mas, em contrapartida, o retorno financeiro disso é quase nenhum. Às vezes os textos vão parar em teses, jornais e revistas, e nem ficamos sabendo, e em outras oportunidades nem dão crédito ao autor.

Qual sua análise sobre o aumento dos mais diversos tipos de intolerância (religiosa, de gênero, étnico-racial, social) no país? Vivemos tempos mais violentos?

Para começar, não houve aumento porque nunca houve diminuição. O que está acontecendo é uma maior visibilidade a partir das redes sociais e de vídeos feitos por qualquer um que tem um celular nas mãos. Só para lembrar, as religiões de matrizes africanas sempre foram perseguidas e criminalizadas, sempre prenderam e espancaram babalorixás e yalorixás. O samba também foi perseguido e marginalizado, como foi o hip-hop e está sendo o funk. E não vivemos num país mais violento, vivemos num país que foi criado como nação a partir de estupros, genocídios de indígenas, os verdadeiros donos das terras, que foram distribuídas em capitanias hereditárias por invasores que tinham dívidas de justiça com a corte portuguesa. Depois, ainda tem o trabalho forçado escravizando povos de vários “países” do continente africano e as várias atrocidades contra homens, mulheres e crianças negras registradas por Debret e Rugendas, que estão estampadas e banalizadas até hoje nos livros escolares. Tivemos 21 anos de violência política na ditadura militar. Não, não vivemos tempos mais violentos, sempre foram tempos violentos. A cordialidade do brasileiro, o país harmônico e a democracia racial são mitos de brasilidade criados e difundidos.

Quais autoras/es, pensadoras/es, pessoas têm influência na sua obra?

São tantos, mas vou relacionar alguns. As pensadoras, Neusa Santos Souza - o livro Tornar-se negro foi um marco. Lélia Gonzales, com Lugar de negro; Sueli Carneiro nos seus vários discursos e posicionamentos sobre o feminismo negro. Os pensadores Louis Althusser, com Aparelhos ideológicos de Estado; Félix Guattari, com Micropolítica: cartografias do desejo. Autores como Gabriel García Márquez, de Cem anos de solidão; Aluísio de Azevedo, d’O cortiço; Jorge Amado, de Gabriela cravo e canela e Tieta do agreste; Clarice Lispector, d’A hora da estrela e Via crucis do corpo; Toni Morisson, de Amada; Carolina Maria de Jesus, não só pelo Quarto de despejo, mas pelo projeto de vida que ela tinha de se tornar escritora dentro de uma realidade impossível e ter se tornado de fato. A teimosia das biografias em colocar como pontual e factual o fato de ela se tornar escritora a desconsidera como sujeito de sua própria história. Ela tinha isso como meta e objetivo de vida, ela menciona isso o tempo todo em seus diários, por mais que a adversidade de sua existência apontasse em outra direção

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