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Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

On-line version ISSN 2316-4018

Estud. Lit. Bras. Contemp.  no.51 Brasília May/Aug. 2017

https://doi.org/10.1590/2316-40185123 

entrevistas

“A poesia tem seus limites”: entrevista com Ronald Augusto

Graziele Frederico1 

Lúcia Tormin Mollo2 

Paula Queiroz Dutra3 

1 Doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil. E-mail: grafrederico@gmail.com

2 Doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil. E-mail: ltorminmollo@gmail.com

3 Doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil. E-mail: qpaulad@gmail.com


Ronald Augusto (Rio Grande, 4 de agosto de 1961) é um poeta experimental, inicialmente ligado à poesia marginal, crítico de poesia, editor, músico e letrista do Rio Grande do Sul, além de ser notabilizado por seus estudos sobre literatura negra. É um dos editores associados ao website Sibila, criado pelo poeta Charles Bernstein e por Régis Bonvicino.

Qual a sua relação com a literatura?

É uma relação um pouco conflituosa, por algumas razões. Uma delas, a impaciência com a literatura, tem mais a ver com as circunstâncias de lugar e tempo em que minha prática está implicada, ou seja, tem momentos em que, diante do que é festejado como “grande literatura”, sinto-me bastante contrariado, porque, hoje, produtores e recepção parecem estar pouco exigentes, resignados demais com a facilidade, com a rapidez, a síntese e o biográfico. Enfim, certos valores estéticos que, do meu ponto de vista, podem ser úteis a propósitos determinados e viáveis em algumas circunstâncias, acabaram se impondo por si mesmos como uma espécie de padrão poético comunicativo. Clichês do tipo “menos é mais”, “a arte se confunde com a vida”, “escrita competente”, “literatura como ferramenta de transformação” etc., tudo isso entra na conta dos modos de consagração por via da impostura do mercado cultural. Em alguma medida, sem desprezar outras razões, eu escrevo também contra esse estado de coisas.

Você acha importante se dizer autor negro dentro do campo literário? O rótulo demarca ou aprisiona?

Acho importante, sim. Tem branco demais empatando a nossa passagem. Mas essa mesma vertente negra, na medida em que se afirma como ruptura perante o sistema canônico, eventualmente oblitera vozes que desbordam, aqui e ali, do tom e dos estilemas esperados para um “autor negro”. Aprecio antes o idiossincrático do que o gesto de “cerrar fileiras”. Em outras palavras, gosto de me sentir implicitamente, e não superficialmente, um poeta negro. Se meu trabalho for analisado por uma ótica, digamos assim, “conteudística”, talvez ele não se revele tão convincente e útil, mas isso pouco me importa. Minha trajetória até agora tem sido bastante plural e se, em algum momento, ela for aprisionada ou demarcada, não será, espero, por minha culpa, mas por culpa desse ou daquele leitor aferrado ao seu intento interpretativo.

O racismo presente na sociedade brasileira afeta a sua produção?

Me afeta como homem, como pessoa e, de maneira indireta e não documental, vai acabar aparecendo de um jeito transfigurado na minha condição de poeta. A propósito de coisa parecida, Octavio Paz escreve que a vida não explica diretamente o poema e o poema tampouco explica a vida, pois há algo que está apenas no poema e que não está na vida do poeta. Por outro lado, tem coisas que só cabem na vida do sujeito, coisas que nenhum símbolo dá conta de traduzir. Para alguns pode parecer difícil de acreditar, mas a poesia tem seus limites, felizmente ela não é uma panaceia.

Quais temas te interessam, te instigam a escrever?

Não tenho temas preferidos, inclusive, porque entendo que não há um sentido (tema) que preceda ou seja posterior à fatura do poema, isto é, o desejo de formar um poema engendra simultaneamente os seus processos significantes ou o seu “tema”. A temática pode resultar numa camisa-de-força. Sinto-me movido pela forma, mas quando digo “forma” é importante frisar que isso não quer significar “embelezar o poema”, não se trata de algo decorativo, não é uma moldura para a ideia. Aliás, alguém já disse que o conteúdo é uma função da forma. Um poema, como qualquer objeto de arte, é uma forma significante.

Qual relação de sua escrita com suas experiências?

Todas essas experiências interferem de maneira indireta e não documental em minha escrita. Em termos estritamente poéticos, considero-as secundárias ou complementares, porém não irrelevantes.

Qual o peso que o machismo ainda tem no Brasil atual?

Um peso intolerável. Entretanto, mesmo considerando a significação da solidariedade dos homens nessa luta de combate às violências contra as mulheres, acho que o discurso da sororidade é muito mais relevante do que qualquer coisa que eu diga a respeito. Enfim, eu tento não atrapalhar a luta feminista e, ao mesmo tempo, busco fazer um exercício de escuta. Os homens precisam fazer isso em relação às mulheres, e os brancos em relação aos negros.

É possível desvincular a produção literária de um ato político?

Sim, é possível, mas isso só vai resultar no anacronismo da “poesia pura”, além disso, será uma “poesia pura” de fachada. Ruídos ideológicos, políticos, sempre entram na economia construtiva do poema, a questão é saber o quanto o poeta está consciente desse controverso insumo em sua escrita e como ele consegue transfigurar isso de um modo que resulte em algo esteticamente funcional, isto é, de modo que o poema se sustente em pé.

O que o corpo significa em sua produção?

Pois é, não sei ao certo se o corpo é de fato uma dimensão predominante na literatura de autoria negra. A impressão que eu tenho é que, grosso modo, essa dimensão é bastante ratificada nos textos das mulheres (brancas e negras, mas respeitando especificidades) que, por sua vez, com isso retificam uma série de convenções e estereótipos com que as vozes dos homens tentam moldar o corpo e o desejo femininos. No meu trabalho não penso o corpo ou a metáfora do corpo como algo fundamental. O que eu acho importante é que as dimensões oral e sonora da poesia representam emanações do corpo, isto é, a palavra é uma coisa material, não é apenas ideia, é som, vocalização e cadência, enfim, o poema quando dito à viva voz é o e do corpo; o poema é uma coisa, um objeto no mundo. Poesia é um complexo semiótico relativo ao corpo e sua expressividade.

Qual a importância da literatura num país com tamanhas desigualdades sociais?

Ah, essa é uma questão complicada. Não faço nenhum tipo da aposta que aponte, por exemplo, na direção de uma suposta responsabilidade social da literatura. Mas é bem possível que essa responsabilidade social da literatura encontre algum autor interessado em justificá-la com sua obra. As desigualdades sociais devem ser resolvidas principalmente pela sociedade através de políticas públicas, através das lutas sociais contra todas as formas de desrespeito e assimetria no que toca aos direitos dos sujeitos.

Qual sua análise sobre o aumento dos mais diversos tipos de intolerância (religiosa, de gênero, étnico-racial, social) no país? Vivemos tempos mais violentos?

Minha análise não ultrapassa os limites do bom senso que concorda que estamos correndo um risco de retrocesso. Há pessoas com mais experiência do que eu e com instrumental teórico mais eficiente do que disponho para fazer uma análise radical e justa da coisa. Temos que lutar para que esses tempos violentos não durem muito.

Qual importância da liberdade e da democracia para a literatura?

A importância é relativa. Por um lado, é possível se produzir boa literatura sob regimes autoritários, por outro lado, sob a égide de regimes democráticos muita literatura de péssima categoria foi e é produzida (e o que é pior, festejada); o mesmo vale se invertêssemos os termos dessa equação. Mas eu prefiro, naturalmente, escrever em uma situação em que minhas liberdades fundamentais estejam garantidas.

Se fosse possível criar uma imagem do Brasil a partir dos escritores contemporâneos, qual imagem você acha que teríamos representada?

Em termos canônicos, o Brasil seria e é representado por escritores brancos, homens. Mas por enquanto.

Quais autoras/es, pensadoras/es, pessoas têm influência em sua obra?

Em primeiro lugar, Manuel Bandeira, porque é um poeta completo no que diz respeito aos valores da poesia moderna, seu verso livre é de uma elegância sem limites, sua poesia é irônica e autoirônica. A poesia de Bandeira, em vários aspectos, é antecipatória da dicção de João Cabral (outro grande poeta), sua poesia tem lances experimentais e concretos, seu lirismo não é edulcorado. Bandeira é superior ao Drummond, o próprio itabirano admitiu isso. Mas eu não posso deixar de mencionar Dante, Mallarmé e Cruz e Sousa. Os três são grandes poetas, portanto, se eu ficasse indiferente às realizações textuais que eles levaram a cabo estaria marcando passo relativamente à minha formação como poeta. Dante sintetiza duas vertentes fundamentais da tradição poética, a épica e a lírica trovadoresca. Além disso, incorporou filosofia, teologia, ciência e política em sua Commedia. Mas a força de sua poesia está nessa conjunção entre a épica e o trovadorismo, que acaba conferindo à sua linguagem um tom entre trágico e cortês; seus tercetos denunciam uma severa compaixão relativamente às almas que vagam nos reinos ínferos. Ninguém conseguiu imagens e metáforas mais nítidas e precisas do que Dante. Cruz e Sousa e Mallarmé são os simbolistas dos simbolistas. Cruz e Sousa quase funda o neobarroco devido aos excessos de seu discurso (aliás, os representantes do simbolismo latu sensu de Edmund Wilson, são todos barroquizantes: Joyce, W. B. Yeats, T. S. Eliot...); em âmbito nacional, e pelo viés das nossas contradições étnicas, Cruz e Sousa está para a poesia assim como Aleijadinho está para as artes. Mallarmé já foi chamado de o “Dante da idade industrial”. Mas ele é genial porque libertou a poesia do objeto, da fidelidade ao significado, da recusa ao vazio. Depois do poema Un coup de dés a poesia virou uma arte também do espaço. A sintaxe de Mallarmé é a coisa mais estranha que já vi. Também gosto muito de Ezra Pound. Já no que respeita à prosa, Machado de Assis é o maioral. Seu intersemiótico Memórias póstumas de Brás Cubas é um livro extremamente iconoclasta ou um cruel divertissement bem ao estilo do século 19. Mas, para quem não sabe, o humor de Machado de Assis não tem nenhuma relação com esse da inflação do stand-up cuja gargalhada é reacionária e nada inventiva, humor fácil que reproduz todos os preconceitos naturalizados e que se submete ao vale-tudo de fazer rir doa a quem doer. O humor autoirônico de Machado não é o do “atendimento ao cliente”. Veja, por exemplo, como o autor defunto conclui o prólogo ao leitor de suas memórias póstumas: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”. Um clássico perverso, crítico.

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