SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue57A body of readingA stranger in the classroom: interculturality, literary reading and teaching author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Print version ISSN 1518-0158On-line version ISSN 2316-4018

Estud. Lit. Bras. Contemp.  no.57 Brasília  2019  Epub May 20, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/2316-40185716 

SEÇÃO TEMÁTICA: Leitura e Experiência

Experiências com as leituras de João Gilberto Noll

Experiments with the Readings of João Gilberto Noll

Experiencias con las lecturas de João Gilberto Noll

Ricardo Araújo Barberena* 
http://orcid.org/0000-0002-6619-4341

*Professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: ricardo.barberena@hotmail.com


Resumo

O presente texto está pautado por uma espécie de profanação do artigo acadêmico. A partir de uma explícita exposição da subjetividade e da confessionalidade, orquestra-se um ensaio-experimento (ensaio-experiência), marcado pela fusão entre escrita criativa e teoria literária. Ao recorrer ao texto dramático, busco registrar dialogicamente quinze horas de interlocução com João Gilberto Noll. Relendo meus diários de anotações encontrei muitas frases do autor. Escrever um texto dramático foi uma forma de experimentar outras formas de teorizar sobre a literatura brasileira contemporânea. Acredito que é chegado o tempo de contrabandos epistemológicos e diásporas disciplinares. Alinhada à afirmação deleuziana de que cada conceito é uma territoriedade, a presente dramaturgia busca uma condição de clandestinidade com relação às canônicas formulações ensaísticas. Quando JGN lia seus textos publicamente, sempre havia uma mistura de desconforto e inquietação. A presente peça-ensaio também busca uma forma de escrita disruptiva: uma teatralidade do conhecimento.

Palavras-chave: leitura; João Gilberto Noll; subjetividade; experiência

Abstract

The present text is based on a kind of desecration of the academic article. An essay-experiment, marked by the fusion of creative writing and literary theory, in which is constructed an explicit exposition of subjectivity and confession. Making use of the dramatic form, I seek to reconstruct fifteen hours of dialogue with João Gilberto Noll. In the rereading of my notes, I found many of the author’s own phrases. Writing a dramatic text was a way of experimenting with other forms of theorizing about contemporary Brazilian literature. I believe the time has come for disciplinary diasporas and epistemological bootlegging. Aligned with the Deleuzian assertion that each concept is a territoriality, the present dramaturgy offers a behind-the-scenes glimpse at the construction of the canonical essay. When JGN read his texts in public there was always a mixture of discomfort and restlessness. This essay-play also seeks to present a form of disruptive writing: a theatricality of knowledge.

Keywords: reading; João Gilberto Noll; subjectivity; experience

Resumen

El presente texto está pautado por una especie de profanación del artículo académico. A partir de una explícita exposición de la subjetividad y de la confesionalidad, se orquesta un ensayo-experimento (ensayo-experiencia), marcado por la fusión entre escritura creativa y teoría literaria. Al recurrir al texto dramático, busco registrar dialógicamente quince horas de interlocución con João Gilberto Noll. Releyendo mis diarios de anotaciones encontré muchas frases del autor. Escribir un texto dramático fue una forma de experimentar otras formas de teorizar sobre la literatura brasilera contemporánea. Creo que ha llegado el tiempo de contrabandos epistemológicos y diásporas disciplinares. Alineada la afirmación deleuziana de que cada concepto es una territorialidad, la presente dramaturgia busca una condición de clandestinidad con relación a las canónicas formulaciones ensayísticas. Cuando JGN leía sus textos públicamente siempre había una mezcla de incomodidad e inquietud. La presente pieza-ensayo también busca una forma de escritura disruptiva: una teatralidad del conocimiento.

Palabras clave: lectura; João Gilberto Noll; subjetividad; experiencia

Sofro de uma espécie de timidez crônica. Seus sintomas são bem estranhos, por sinal. Há anos manifesta-se uma curiosa equação interpessoal, pois quando falo para grupos não tenho problemas. Por sorte não ocorrem maiores constrangimentos em aulas, conferências, simpósios. Mas existe certo nível de angústia, tensão e expectativa ao conhecer uma única pessoa que seja.

Talvez devido a essa agitação nervosa me recorde dos detalhes de uma tarde de inverno. Lá estava eu na sala da coordenação do Delfos à espera de João Gilberto Noll. Como ele se encontrava levemente atrasado, as doses de café iam se multiplicando. Finalmente, depois de alguns eternos minutos, surgiu uma figura longilínea de passos lentos e olhar indefeso. Seus olhos sequestravam a minha atenção, pois pareciam carregar uma mistura de ternura e sofreguidão. Vestido com calças jeans, boné e camisa social fechada até o último botão, ressaltavam-se as costas levemente arqueadas. Mascava chicletes com um ar de doçura e parcimônia. Era quase impossível encontrar naquela figura humana a fúria bacântica dos seus livros. Ele estava pronto para ouvir e se doar com toda a singeleza e a humildade que podem ser reunidas num ser humano. Sem que eu desconfiasse, nesse exato momento, iniciava uma jornada de amizade. Eu havia escolhido Noll para ser o primeiro escritor a ser convidado pelo Delfos. Hoje, passados mais de quatro anos desse encontro, mais de cinquenta escritores já palestraram. Naqueles terríveis primeiros segundos de interação, descobria, ainda intuitivamente, um dos maiores segredos do convívio com JGN: o silêncio é uma arma poética de reflexão, interação, sensibilização e desaceleração do mundo. Cada frase era seguida por vales de não-dizer, construindo-se uma interação afetiva antifonocêntrica. No mesmo momento, em ato contínuo, me vinha à cabeça um texto de Roland Barthes no qual ele se perguntava quantas vezes deveria falar num jantar para não parecer antissocial. E a cada silêncio, grávido de sentidos, Noll inseria um espaço de sacralização do silêncio. Logo comecei a refletir sobre a possível caoticidade do curso que iniciaria em alguns minutos. Perguntava-me internamente: Será que ele fará essas pausas gigantescas na sua exposição? Como os alunos vão reagir diante de uma performance tão antiacadêmica? Bom, era chegada a hora de ir para a mesa no salão principal onde mais de cinquenta alunos esperavam avidamente, pois, ao longo de três dias, teríamos mais de quinze horas de entrevista/mediação com o escritor.

Parte I: a fúria da linguagem

Uma sala com sessenta cadeiras vermelhas. Ao fundo do salão, uma mesa com dois microfones, dois copos e um jarro com água. O público da palestra, por volta de sessenta pessoas, é composto por alunos de graduação e pós-graduação. Ao lado esquerdo da mesa, um telão no qual é projetado o cartaz do Curso de João Gilberto Noll. Ouve-se o som de relâmpagos.

PROFESSOR

(aproxima-se do microfone e coça a barba) Bom-dia a todos! Hoje é um dia muito especial para o Delfos. Com o curso do escritor João Gilberto Noll, damos início a um conjunto de eventos voltados para a Escrita Criativa. É uma honra receber um escritor tão significativo para a literatura brasileira contemporânea. Teremos três dias para muitos debates. A ideia é que seja uma longa conversa. Falaremos sobre muitos assuntos. Bom, vamos começar. Como pontapé inicial, gostaria de perguntar sobre a importância das tuas apresentações públicas e da leitura ritual.

JOÃO GILBERTO NOLL

(olha para cima e faz longa pausa suspirando) Bom dia a todos os alunos! (segue-se uma longa pausa). Para mim ler publicamente me aproxima do sonho de ser cantor. Me lembro do impacto na primeira vez que ouvi Ave Maria.... a de Schubert... sabe, fui educado como um menino religioso. (olha para cima) A literatura é um ato litúrgico. Ela não é apenas reconstituição histórica, pois o que me move para a escrita é uma premência e uma agonia. (longa pausa seguida de um tímido sorriso) A literatura é sempre uma possibilidade de um gozo.

PROFESSOR

(para de anotar as frases do escritor e segura o microfone novamente) É legal pensar que essa questão do som e sentido também está presente inclusive nos formalistas russos... Eles cunham a expressão “invólucro sonoro da palavra”. (coça a cabeça) Só não me lembro em qual texto exatamente. O Paul Zumthor também tem um livro muito interessante... acho que é Literatura e Performance... queria te perguntar agora sobre processo de criação. Noll, como tu organiza o teu processo de criação? Tu estrutura todo o enredo? Tu sabe bem como será o final e o nó narrativo?

JOÃO GILBERTO NOLL

(olha para o professor lentamente com voz suave e com comoção) Eu sou um autor da linguagem. Quando sento na frente do computador não sei o que vai dar. Tenho dito que sou um escritor pulsional. Sabe... não há controle sobre a criação. (põe a mão na cabeça e faz longa pausa) Não tenho a menor ideia da próxima linha. Pra mim o mistério da literatura é o culto da indeterminação. A função do escritor é fazer uma elegia do difuso e do indeterminado.

PROFESSOR

(anota as frases do escritor no seu caderno e retoma o microfone) É interessante que essa anti-estruturalidade acaba destruindo uma das máximas da modernidade: a função faz a forma. Pensar a literatura como pulsão é também pensar a literatura como exorcismo e como catarse. Seria uma certa força que não pode ser dominada por uma artesania narrativa que não tem determinados moldes já estabelecidos. Assim se abre espaço para uma criação mais intuitiva, anti-cartesiana e anti-logocêntrica. (com entusiasmo) Noll, tu concorda com o Barthes quando ele fala num método desejante?

JOÃO GILBERTO NOLL

(amável, mas firme) A escrita tem que ser um exercício desejante. Porque tudo conspira para que essa chama se apague. Sou a favor de uma narrativa de cunho poético. (longuíssima pausa) Eu não sou um romancista. Eu não sou narrador do grande romance. Não tenho paciência para o grande Romance. Me interessa a literatura da voz. (voz baixa e levemente trêmula) Tenho apreço pela musicalidade. Não intelectualizo o que vou escrever. Em certos momentos troco de palavra porque preciso de uma palavra de duas sílabas. (longa pausa) Busco frases longas e serpenteantes. Um limiar entre prosa e poesia.

PROFESSOR

(descontraído e empolgando-se) É muito legal pensar essa tua afirmação. Porque tu relativiza o próprio estatuto do romance burguês. Aquele que tem uma grande história para contar. Sempre penso sobre isso. Até no meu grupo de pesquisa já falei sobre a importância da prosa poética. Sou um defensor da literatura que alguns chamam de derramada. O pessoal do Delfos1 tá cansado de ouvir eu falar isso. A gente pode ser político e transformador também fora do realismo. (pausa) Queria saber de ti como tu pensa a linguagem literária. (enfatizando) Como tu definiria a tua linguagem? Sempre penso no Gullar que fala na linguagem como espanto. E os formalistas que falavam em estranhamento.

JOÃO GILBERTO NOLL

(examinando longamente o público à frente) Me encanta a sensibilidade da linguagem. (como se falasse consigo mesmo) Ela é uma forma de chegar ao outro. (reflexivo) Nisso existe um tesão! (enorme pausa) O melhor de estar vivo é a linguagem. (leve sorriso, olhar vago) Para falar de um elefante eu não preciso ir até a África e buscar um elefante. (pausa) Eu sou um animal literário. (coloca as duas mãos na cabeça) Eu seria como um jazzista que improvisa. Eu vou para o teclado como se fosse para o piano. As coisas pulsionais se projetam... como pintores abstratos que jogam tintas nas telas. Depois tento lapidar num segundo momento. A literatura salva o sujeito. (melancólico e sombrio) Se não fosse a literatura, eu seria uma lápide.

Parte II: os temas de João

Uma sala com sessenta cadeiras vermelhas. Ao fundo do salão, uma mesa com dois microfones, dois copos, um jarro com água, uma garrafa térmica. Em torno de quarenta pessoas, o público da palestra é composto por alunos de graduação e pós-graduação. Ao lado esquerdo da mesa, um telão no qual é projetado o cartaz do Curso de João Gilberto Noll. A claridade que entra pelas janelas é resultado de um dia ensolarado.

PROFESSOR

(entusiasmado) Boa tarde a todos. Ontem foi um dia mágico e epifânico. O Noll trouxe muitas reflexões que ainda devem estar ressoando nas nossas cabeças. Hoje continuaremos a nossa conversa. (mudança no tom de voz, agora mais concentrado) Pra começar, queria saber sobre os temas dos teus romances. Fica uma sensação de que se trata sempre do mesmo protagonista. Perdido nas suas angústias, taras e imperfeições. Seria isso?

JOÃO GILBERTO NOLL

(arruma os óculos e o boné). Sim. (enorme pausa) O narrador-personagem não foi um projeto. (suspira longamente) Mas o protagonista é sempre o mesmo. (com intensa comoção, lenta, voz aumentando gradativamente) É como se habitasse em mim um ser. (tensão crescente) Eu não quero perder ele!!! De forma alguma! (pausa) Eu tenho um mundo dentro de mim muito desenvolvido. A sede é sempre a mesma! (tom angustiado) Eu não me considero um autor autobiográfico.

PROFESSOR

(toma um longo gole d´água) Essa tua última afirmação é muito interessante. Hoje temos muitos escritores que buscam na autoficção uma estética confessional. (pausa) Mas tu não fica preso ao biográfico. Talvez tua preocupação seja a fala dessa voz que habita tua interioridade. Por isso o nome do personagem é sempre João? Por isso sempre a mesma cidade? (tom cordial) Seria uma cartografia lírica do desamparo e da solidão?

JOÃO GILBERTO NOLL

(como quem fala consigo mesmo. Brando) Quero as conversas das esquinas. (enorme pausa) A literatura é uma forma desgovernada de enunciar o mundo. (pausa igualmente longa) Me criei lendo portas dos banheiros públicos. Eu sou leitor de Padre Vieira, mas quando vou urinar a porta do banheiro também me influencia. (categórico, mas suave) Eu bebo muito das ruas. Porto Alegre tem sido uma cidade-mito. (pausa) A caminhada pelas ruas é doentia e doação. Eu sou um escritor das ruas... Não dos anteriores.

PROFESSOR

(olhando demoradamente para o escritor) Essa tua colocação é fundamental pra entender o papel da prosa urbana no teu projeto literário. E talvez isso explique porque muitas vezes ignoram a tua obra em disciplinas de literatura sul-rio-grandense. (sorrindo sarcasticamente) A tua literatura não cheira a cavalo. Quem espera aquela figura do gaúcho acaba se dando mal. Tive um professor que não posso falar o nome porque é bem conhecido que falava que a tua literatura era afetada. (levantando a voz) Adjetivo calhorda. O Caio sofria o mesmo problema. (com ironia) Sim, pra mim é afetada. Afeta nossa existencialidade e nossa identidade. Afeta nossa forma de ver o humano. O demasiadamente humano. E sempre é na cidade, né? Me lembro daquele texto do Borges que fala que no Corão não tinha camelo. É por aí?

JOÃO GILBERTO NOLL

(esfrega as mãos) (pausa) Não procuro descrever localisticamente... (longuíssima pausa) Me sinto tão estrangeiro quanto em qualquer outro lugar... (pausa) Sou maluco por cidades!

PROFESSOR

(hesitante) Noll eu queria falar um pouco sobre o imaginário do abjeto. (pausa) Como tu vê essa questão do grotesco? (com provocação) Tu acha que é a literatura deve mostrar um lado velado do humano? (pausa) (muda o tom) A tua literatura também é uma literatura do dejeto? Das secreções e excreções?

JOÃO GILBERTO NOLL

(sôfrego) Escatologia... Não consigo segurar. (longa pausa) A vida é feita de fatores excretores! (esfregando as mãos) Quero representar o ser humano como um todo... (enorme pausa) Urina, esperma, sangue... (com embriaguez filosófica e reflexiva) Não me interessa acontecimentos. Desejo a musicalidade de uma estética do grotesco. (num suspiro) Eu não poderia falar essas coisas no meio social... Tenho vergonha... (num sopro de voz) A literatura deve levantar o tapete. No meu entender, o ato de escrever deve dar nome às coisas... As coisas que são lançadas pelo corpo humano. (lento e feroz) Urina, esperma, fluxo menstrual... Uma relação espinhosa e demencial com o mundo. (pausa) Me interessa a beleza feroz... As coisas cruas. Devem ser celebradas liturgicamente... Uma estética feia. (num brusco lamento) Busco a fisicalidade do corpo... A celebração do corpo excretor.

PROFESSOR

(fascinado) Tu falando sobre essa natureza feia me lembra o clássico texto do Victor Hugo sobre a beleza e o grotesco. Me lembra também a frase do Breton. Ele fala no Nadja que a beleza será convulsiva ou não será. (pausa) Não é preciso um cenário edificante para achar beleza. Também sempre vem na cabeça aquele documentário da Estamira. (muda o tom, veemente) Uma pensadora poderosa no meio dos dejetos do lixão. O Bauman naquele livro Vidas desperdiçadas também fala sobre os refugos humanos. A temática da solidão seria uma consequência natural dessa visão de prótese do humano? Por que tanta solidão na tua literatura?

JOÃO GILBERTO NOLL

(dolorosamente) Escrever é um trabalho solitário... (pausa) Sou um animal literário. Escolhi a solidão literária. (num súbito desespero, unindo as mãos) A solidão é o sentimento profundo da minha obra. (longa pausa) O bálsamo para a solidão é o sexo. (doce) O tema central da minha obra é a necessidade de se fundir ao Outro... Superar a solidão... Numa fusão cósmica... (lamento profundo) Se jogar nessa vertigem... (pausa) Uma especulação pelas calçadas... Uma solidão na multidão e nos passeios...Um sentimento de isolamento.

PROFESSOR

(comovido) Noll, lembro da orelha que você escreveu para o meu livro. (Mostra o livroDas luzes às soleiras: perspectivas críticas na literatura brasileira contemporânea) Tu podia ler a tua definição de escrever no tempo contemporâneo?

JOÃO GILBERTO NOLL

(carinhosamente pega o livro e começa a ler a orelha) O que é escrever ficção hoje? Talvez seja habitar uma espécie de “grau zero” onde a tradição esteja gravemente desestabilizada, e que assim aflua ao agora em estado de deformação, corrosão. O eixo da nova era não está tanto no protagonista exemplar mas no déficit que ele deve expor sem relutância no meio do entrevero de sua história. Ah, existem momentos de contemplação lírica em sua viagem (como não?), mas ela vem sob uma membrana amortecida, lembranças do que se perdeu. No entanto, mesmo assim, não podemos retirar a palavra “exultação” do nosso vocabulário. Seja no sexo compulsivo, no enlace amoroso, em que pese às vezes provisório, no escárnio carnavalesco, em todas essas formas existe a tentativa de se sair do impasse. É da força que pode advir nesse universo ficcional que surge a sua função política, não um regramento salvacionista, as microexplosões balsâmicas que afasta o leitor do conformismo, abrindo-lhe de surpresa um limiar. (pausa) (sorri docemente). Ficou bom, né? É isso mesmo.

Parte III: o canto de João

Uma sala com sessenta cadeiras vermelhas. Ao fundo do salão, uma mesa com dois microfones e dois copos. Em torno de vinte pessoas. Ao lado esquerdo da mesa, um telão no qual é projetado o cartaz do Curso de João Gilberto Noll. Dia ensolarado.

PROFESSOR

(cansado e com felicidade) Boa tarde a todos! Chegamos ao nosso último momento. Hoje o Noll selecionou três trechos pra ler aqui no Curso. (pausa) Todo mundo sabe que a leitura de Noll não é só uma leitura. É um lamento. É uma espécie de canto gregoriano que nos leva pra outra dimensão da palavra. (maravilhado) Esse é um daqueles momentos únicos que sentimos o cimento respirar. O silêncio pulsa aqui no Delfos (triunfante) Noll, por favor... Lê pra gente os trechos selecionados.

JOÃO GILBERTO NOLL

(aproxima-se do microfone, rosto totalmente crispado) (voz monofônica e monódica) (segura o livroSolidão continentale procura a folha selecionada) Um dia me pegaram cheirando o cu de um colega no banheiro do colégio. Até hoje não entendi de onde vinha o gozo especialíssimo naquele contato com as vísceras humanas. (pausa) Claro, fui duplamente estigmatizado: por gostar também de garoto e dos miasmas anais. O colega mudou de escola. Corri pelo recreio e bati a cabeça três vezes no muro. Vi que saía sangue da minha testa e pensei em tudo que pudesse me tirar daquela vergonha enquanto me aplaudiam por tirar sangue de mim. Escutei até um olé. De vergonha em vergonha eu ia viver a minha vida. Escondido na província, dando aulas de português para os gringos que trabalhavam em duas multinacionais da região. (enorme pausa) (pega o livroAcenos e afagose busca as páginas selecionadas) (rosto está completamente crispado numa expressão de profunda sofreguidão) Tanto nos esfregávamos brigando que nossos corpos ficavam aqui e ali bem rubros, unhados até. Em certos pontos do meu corpo apareciam profundos arranhões -, um deles até tirava sangue. Parecíamos répteis serpenteando, deitados de lado, agora frente a frente. Onde o corpo de um recuava, o do outro avançava. De repente, aflito, trêmulo, o guri me trouxe o cu para perto da minha boca. O cu cheirava, um cheiro de intimidade abusiva, mas não havia como desdenhar essa intimidade, pois era justamente ali que eu viajava inebriado no mais secreto dele, sem nada pedir ou oferecer, sem nada pensar. Eu solenemente escondia dele o meu envolvimento com seu cu. Era justamente ali que a vontade de se misturar mais me tomava. Cheguei bem perto e lambi. Ele estremeceu. [...] Preferia estar ali, com o cu do menino na cara, a estar com minha fuça esterilizada pelos cadernos do dever diário. (toma um copo d´água) (pega o livroA fúria do corpoe procura a página selecionada) (voz continua monofônica) O meu nome não. Vivo nas ruas de um tempo onde dar nome é fornecer suspeita. A quem? Não me queira ingênuo: o nome de ninguém não. Me chame como quiser, fui consagrado a João Evangelista, não que meu nome seja João, absolutamente, não sei de quando nasci, nada, mas se quiser o meu nome busque na lembrança o que de mais instável lhe ocorrer. (enorme pausa) (busca outro trecho do livro Fúria do corpo) (olha para cima como se pedisse alguma ajuda) (fecha os olhos por longos segundos) E como se fosse a última noite, avanço em direção ao menino que está de costas e de um bote puxo sua cueca e debaixo d’água meto meu caralho duro no cu do menino como se a matéria atraísse a matéria e jamais se colidissem porque meu caralho entrava como se tivesse sido feito para aquele cu e o menino urrava e da minha boca era expelida a saliva da consagração e eu mordia os cabelos do menino e arrancava com os dentes feixes do cabelo do menino e o menino urrava e eu blasfemava contra a Criação e o menino fechava os olhos sacudia a cabeça e urrava e seu cu era fundo e o meu caralho sempre avançava mais e eu montei no menino com os pés em volta de suas ancas e as ondas escuras batiam violentas arrebentavam na nossa foda e o sal nos salgava e nos ardia e eu trouxe a cabeça do menino pra trás e a minha língua tocou a sua garganta e a língua do menino alcançou o céu da minha boca e eu senti uma agulha penetrar pelo meu cérebro e o fulminar do nosso gozo único.

PROFESSOR

(profundamente emocionado) (olhos marejados) O que dizer agora? Só me resta agradecer ao Noll. Nesses três dias o tempo parou aqui no Delfos. Entramos numa outra dimensão da realidade. Noll, esta sempre será a tua casa. E te esperamos em breve. (comovido) Muito obrigado. (inicia-se uma forte salva de palmas)

Epílogo

PROFESSOR

(sozinho na mesa) (agora se dirige à plateia) (as cadeiras estão vazias) (em tom explicativo) Este ensaio-dramático nasce da vontade de uma constante fusão entre escrita criativa e teoria literária. Também nasce do desejo de inovar nossa cena univeristária. (pausa) Acredito que todo conceito é uma territorialidade, como afirmou Deleuze. (com confiança) E é chegado o tempo de viver a desterritorialidade disciplinar e os contrabandos epistêmicos. (pausa) Gostaria de ressaltar que todas as falas do Noll são retiradas do meu caderno de anotações. Elas foram minuciosamente registradas durante o Curso do Noll no Delfos. As falas são ipsis litteris. (pausa) Foram muitos encontros com o Noll. (com emoção) Ficamos amigos. A sua morte é irreparável. Deixa um vazio. Precisamos celebrar a vida ao longo da vida. A vida é um dom. (suspiro) Certa vez, tarde da noite, num bar da cidade baixa, Noll pegou no meu braço e disse “Cara, como é bom estar vivo”. (com voz lenta e melancólica) Pois é, Noll... (pausa) Este ensaio-diálogo foi uma singela forma de viver mais um pouco contigo. Obrigado por tudo.

Fim.

Referências

BARBERENA, Ricardo [s.d.]. Caderno pessoal. Porto Alegre: [s.n.]. [ Links ]

BARBERENA, Ricardo (2014). Das luzes às soleiras: perspectivas críticas na literatura brasileira contemporânea. Porto Alegre: Luminara. [ Links ]

NOLL, João Gilberto (2008a). A fúria do corpo. Rio de Janeiro: Record. [ Links ]

NOLL, João Gilberto (2008b). Acenos e afagos. São Paulo: Record. [ Links ]

NOLL, João Gilberto (2012). Solidão continental. São Paulo: Record . [ Links ]

1Espaço de Documentação e Memória Cultural da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Recebido: 05 de Julho de 2018; Aceito: 21 de Fevereiro de 2019

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons