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Audiology - Communication Research

versão On-line ISSN 2317-6431

Audiol., Commun. Res. vol.24  São Paulo  2019  Epub 06-Jun-2019

https://doi.org/10.1590/2317-6431-2018-2079 

Artigo Original

Associação entre os aspectos da avaliação clínica da língua realizada em crianças

Izabela Marques Nascimento1 
http://orcid.org/0000-0001-5533-345X

Luana Cristina de Sousa Silva1 
http://orcid.org/0000-0002-9695-7610

Mariana Souza Amaral2 
http://orcid.org/0000-0003-2190-0115

Andréa Rodrigues Motta3 
http://orcid.org/0000-0002-1582-3785

Renata Maria Moreira Moraes Furlan4 
http://orcid.org/0000-0001-7588-9316

1Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix – Belo Horizonte (MG), Brasil.

2Programa de Pós-graduação em Ciências Fonoaudiológicas, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil.

3Departamento de Fonoaudiologia, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil.

4Departamento de Fonoaudiologia, Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix – Belo Horizonte (MG), Brasil.


RESUMO

Objetivo

Pesquisar a existência de associação entre os aspectos da avaliação clínica da língua.

Métodos

Estudo transversal observacional, com 80 crianças brasileiras, saudáveis, faixa etária entre 8 e 12 anos, sendo 36 (45%) do gênero masculino e 44 (55%) do gênero feminino. Foram avaliados aspectos da língua relacionados à morfologia, frênulo, mobilidade, praxias e força. Foram obtidas as associações entre os aspectos da avaliação clínica, considerando nível de significância de 5%.

Resultados

Houve associação entre largura e altura; entre extensão do frênulo e as provas de sugar a língua no palato, vibrar, protrair/retrair e tocar comissuras direita e esquerda e lábios superior e inferior e entre a fixação do frênulo no assoalho da boca e as provas de sugar a língua no palato e vibrar. A prova de estalar ápice de língua apresentou associação com estalar o corpo. Estalar a língua (ápice ou corpo) apresentou associação com sugar a língua no palato, vibrar, protrair/retrair, tocar comissuras direita e esquerda e lábios superior e inferior e força. A prova de sugar a língua no palato apresentou associação com vibrar, protrair/retrair, tocar comissuras direita e esquerda e lábios superior e inferior e força de língua e a prova de vibrar a língua, com protrair e retrair e força de língua. Também houve associação entre protrair e retrair e tocar comissuras direita e esquerda e lábios superior e inferior.

Conclusão

Os aspectos da língua na avaliação clínica apresentaram associações entre si.

Palavras-chave:  Língua; Avaliação; Fonoaudiologia; Sistema estomatognático; Força muscular

ABSTRACT

Purpose

Investigate the possible association between myofunctional aspects of the tongue clinical evaluation.

Methods

Observational, cross-sectional study conducted with 80 healthy Brazilian schoolchildren aged 8-12 years: 36 (45%) males and 44 (55%) females. The following aspects of the tongue were assessed: morphology, frenulum, mobility, praxis, and force. Association between the aspects of clinical evaluation was obtained considering a statistical significance level of 5%.

Results

The following associations were observed: between tongue width and height; between frenulum length and the tasks of sucking the tongue on palate, tongue vibration, tongue protrusion/retraction, and touching right and left commissures and upper and lower lips; between frenulum attachment to the floor of the mouth and the tasks of sucking tongue on palate and tongue vibration. In the snap task, tongue apex snap was associated with tongue body snap. Tongue snap (apex or body) was associated with sucking the tongue on palate, tongue vibration, tongue protrusion/retraction, touching right and left commissures and upper and lower lips, and tongue force. Sucking tongue on palate was associated with tongue vibration, tongue protrusion/retraction, touching right and left commissures and upper and lower lips, and tongue force. Tongue vibration was associated with tongue protrusion/retraction and tongue force. Association was also observed between the tongue protrusion/retraction task and touching right and left commissures and upper and lower lips.

Conclusion

Association between tongue aspects was verified in the clinical evaluation.

Keywords:  Tongue; Evaluation; Speech, Language and hearing sciences; Stomatognathic system; Muscle strength

INTRODUÇÃO

A língua é um órgão muscular que participa de funções importantes para o sistema estomatognático, como mastigação, deglutição e fala(1). No ato da mastigação, a língua auxilia na fase de trituração(2), mantendo o alimento sobre as superfícies oclusais e propicia a formação do bolo alimentar(2). Na deglutição, o alimento é direcionado pela língua para a faringe(3) e, durante a fala, é uma das estruturas responsáveis pelos pontos articulatórios dos fonemas(4). Além disso, realiza a limpeza da cavidade oral, após o consumo de alimentos(2).

Os músculos que constituem a língua são responsáveis pela movimentação e modificação em sua forma, sendo extrínsecos (palatoglosso, genioglosso, hioglosso e estiloglosso) e intrínsecos (longitudinal superior, longitudinal inferior, transverso e vertical)(1). Os músculos intrínsecos estão contidos na própria língua, enquanto os extrínsecos originam-se em estruturas adjacentes e inserem-se na língua(1). Os músculos intrínsecos e extrínsecos da língua são interdependentes, visto que suas fibras encontram-se entrelaçadas tridimensionalmente(1,5). Por isso, a maioria dos movimentos realizados pela língua requer a contração de vários músculos simultaneamente, havendo constante interação entre os músculos extrínsecos e intrínsecos da língua, nas diversas funções que ela desempenha(1,5). Devido à disposição de suas fibras musculares, organizadas tanto paralelamente, quanto perpendicularmente ao eixo, a língua é considerada um hidrostato muscular, sendo capaz de mudar sua forma, sem alterar o volume. Logo, qualquer diminuição do comprimento deste órgão em uma direção ocasiona o aumento compensatório em, pelo menos, outra direção(6). O afilamento, por exemplo, é provocado pela contração do músculo transverso, o que diminui a seção transversal; a retrusão é provocada pela contração dos músculos longitudinais e a lateralização é resultado da contração concomitante dos músculos longitudinais, unilateralmente, e do músculo transverso(6).

A língua contém, em sua região anterior, alta concentração de fibras musculares resistentes à fadiga (tipo I) e de contração rápida (tipo IIa). Essa composição fornece o suporte estrutural para a realização dos movimentos da fala, que são rápidos, repetitivos e não requerem muita força. Fibras tipo IIb encontram-se na base da língua. Tais fibras possuem maior capacidade de geração de força, o que é necessário durante a deglutição. A alta capacidade de produção de adenosina trifosfato (ATP) das fibras tipo I e IIa, predominantes na língua, a tornam resistente à fadiga muscular(7).

Não apenas o tipo da fibra muscular difere entre as regiões da língua, como também as concentrações dos tecidos. A região anterior da língua tem maior concentração de tecido conjuntivo do que as regiões média e posterior. O tecido conjuntivo proporciona resistência e flexibilidade, necessárias à rápida sequência de movimentos e mudanças de forma realizados pela região anterior da língua, durante a fala(8). Outro fator responsável pela realização de movimentos finos e precisos pelo terço anterior da língua é a maior concentração de unidades motoras nessa região. Já a região posterior, tem maior concentração de tecido muscular e maior diâmetro das fibras musculares, favorecendo a realização de força(8). Devido à complexa organização de suas fibras musculares e à grande quantidade de motoneurônios que compõem o XII nervo craniano, responsável por sua inervação motora, a língua executa diversos movimentos em curtos períodos de tempo(9).

Os aspectos musculares e anatômicos da língua, tais como força, mobilidade, praxias, postura, morfologia e frênulo, devem estar em harmonia, para o adequado desempenho das funções estomatognáticas. Quando há suspeita de alterações, cada aspecto deve ser avaliado minuciosamente e separadamente(10). A avaliação clínica da língua é a mais comumente utilizada, mas se limita, pelo fato de ser perceptiva, podendo o diagnóstico variar entre os profissionais(11). Mesmo com a criação e o uso de instrumentos de avaliação objetiva, que têm crescido nessa área(12-14), a avaliação clínica qualitativa continua sendo o método mais utilizado na prática. No entanto, as relações entre os aspectos da língua, obtidos na avaliação clínica qualitativa, ainda são pouco estudadas. Uma pesquisa(15) verificou a associação entre os aspectos da avaliação clínica da língua de adultos saudáveis e encontrou que o grau de tensão influencia no desempenho das praxias linguais. Os autores verificaram, ainda, que as alterações na prova de vibração vieram acompanhadas de outras dificuldades, como no estalo e na elevação da língua. Outra pesquisa, que avaliou a língua de 120 crianças, constatou que naquelas com tônus de língua normal, as praxias de língua se encontravam regulares e, nas crianças que apresentaram o tônus de língua alterado, as praxias também se mostraram alteradas(10).

Sendo a população infantil parte considerável do público que procura atendimento fonoaudiológico, é importante observar e entender as relações entre os aspectos clínicos da língua, nessa população. A literatura apontou que os aspectos orofaciais miofuncionais são pouco pesquisados em crianças(16). Dessa forma, um estudo abordando esses aspectos poderá ajudar os fonoaudiólogos a realizar diagnósticos mais precisos na área de motricidade orofacial e propor planejamentos terapêuticos adequados. Diante disso, o objetivo deste estudo foi pesquisar a existência de associação entre os aspectos da avaliação clínica da língua de crianças. Acredita-se que haja relação entre os vários aspectos da avaliação da língua.

MÉTODOS

Esta pesquisa caracterizou-se por um estudo transversal observacional, realizado nas Clínicas Integradas de Saúde do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e em uma escola da rede pública de Belo Horizonte (MG). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Metodista Izabela Hendrix, sob o número 2.141.922, e pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG, sob os números 692.875 e CAAE – 67187417.5.0000.5149.

Participantes

Foram incluídas na amostra 80 crianças brasileiras, saudáveis, faixa etária entre 8 e 12 anos, (média = 10,52 anos, desvio padrão = 1,4 anos), sendo 36 (45%) do gênero masculino e 44 (55%) do gênero feminino.

Os critérios de inclusão foram: estar na faixa etária estabelecida, ausência de glossectomias, pelvectomias ou paralisia de língua, ausência de diagnóstico de transtorno invasivo do desenvolvimento, ausência de diagnóstico de doenças neurológicas ou sindrômicas e não ter diagnóstico de perda auditiva. Como critério de exclusão, foram considerados: crianças que não compreendessem as tarefas solicitadas na avaliação, que não conseguissem concluir todas as etapas da avaliação clínica, e que apresentassem ausência de concordância entre os avaliadores na avaliação clínica da língua.

Avaliação clínica

Os participantes foram recrutados na sala de espera das Clínicas Integradas de Saúde do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, no Ambulatório de Fonoaudiologia da UFMG e em uma escola da rede pública de Belo Horizonte. Cada um dos participantes foi informado sobre os objetivos e métodos da pesquisa e recebeu o Termo de Assentimento para ser assinado. O responsável recebeu o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para autorizar a realização da pesquisa com a criança. Aqueles que concordaram em participar e assinaram os termos foram submetidos à avaliação clínica da língua, realizada por dois fonoaudiólogos, sendo, pelo menos um deles, especialista em motricidade orofacial, ou por um fonoaudiólogo especialista em motricidade orofacial e um aluno do oitavo período do curso de Fonoaudiologia do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, previamente treinados para a realização da avaliação clínica da língua. No total, cinco avaliadores participaram da coleta de dados: três fonoaudiólogos e dois alunos do oitavo período do curso de Fonoaudiologia. Dentre os três fonoaudiólogos, dois eram especialistas em motricidade orofacial, com experiência de dez e de 23 anos na área, e um fonoaudiólogo tinha experiência de um ano na área. O diagnóstico foi estipulado por consenso e, quando não houve concordância entre as avaliações dos dois avaliadores, o indivíduo foi excluído da amostra.

A avaliação clínica da língua foi realizada por meio da antroposcopia e teve a duração aproximada de 20 minutos, sendo avaliados cinco aspectos: morfologia, frênulo, mobilidade, praxias e força(17).

Na avaliação dos aspectos morfológicos, foram observadas largura e altura da língua, classificadas em normal ou alterada.

Para avaliar o frênulo lingual, foi solicitado ao participante que elevasse a língua dentro da cavidade oral, sem tocar o palato, e foram observadas as fixações do frênulo no assoalho da boca e na língua. Também foi observada a extensão, se adequada, curta ou longa(17). Os casos com histórico de frenotomia ou frenectomia prévia foram registrados.

Na avaliação da mobilidade, foi solicitado que o participante realizasse movimentos de estalar o ápice e o corpo da língua, sugar a língua no palato duro e mantê-la por cinco segundos e vibrá-la(15), sendo o modelo fornecido pelo avaliador. Cada uma destas tarefas foi classificada como adequada, alterada ou ausente.

Na avaliação das praxias (coordenação), foi solicitado, mediante modelo fornecido pelo avaliador, que o participante alternasse protrusão e retração lingual e tocasse o ápice da língua, sequencialmente, nas comissuras direita e esquerda e nos lábios superior e inferior(15). Quando o participante não conseguia realizar os movimentos solicitados, considerou-se como alterado. Todas as tarefas de mobilidade e de praxias em que houve presença de movimentos associados de mandíbula e musculatura perioral foram anotadas, sendo considerados como movimentos associados, as contrações não esperadas de lábios e os movimentos de mandíbula durante a realização das tarefas de língua.

Para avaliar a força da língua, foi solicitado que o participante protraísse a língua empurrando-a contra uma espátula de madeira, posicionada verticalmente, a poucos centímetros da boca, realizando a tarefa de contrarresistência, mantendo a força por alguns segundos(15). A força foi considerada adequada quando a protrusão com contrarresistência foi mantida sem tremores e sem deformação da língua; reduzida, quando a musculatura conseguia resistir apenas levemente contra a resistência feita pela espátula, havendo tremores e deformação e reduzida no ápice, quando apenas o ápice lingual apresentava deformação e/ou tremores.

Análise dos dados

Com a finalidade de descrever a amostra, realizaram-se medidas de tendência central (média) e variabilidade (desvio padrão) para as variáveis contínuas e análise de frequência para as variáveis categóricas.

Aplicou-se o teste Qui-quadrado e teste exato de Fisher, com a finalidade de avaliar a associação entre as variáveis força, mobilidade, praxia, morfologia e frênulo. Considerou-se nível de significância de 5%. Os dados foram analisados utilizando o programa estatístico IBM SPSS.

RESULTADOS

Foram avaliadas 80 crianças, sendo 36 (45%) do gênero masculino e 44 (55%) do gênero feminino. A idade dos participantes apresentou a seguinte distribuição: 12 (15%) com 8 anos, 7 (8,8%) com 9 anos, 13 (16,3%) com 10 anos, 23 (28,7%) com 11 anos e 25 (31,3%) com 12 anos.

Com relação aos aspectos morfológicos da língua, 77 (96,3%) apresentaram altura adequada e 71 (88,8%) apresentaram largura adequada. Quanto ao frênulo lingual, 69 (86,3%) apresentaram extensão de frênulo adequada e 10 (12,5%) apresentaram frênulo curto; 71 (89,9%) apresentaram fixação na parte média da língua, 3 (3,8%) apresentaram fixação no ápice e 5 (6,3%), entre a parte média e o ápice. Já com relação à fixação no assoalho da boca, 64 crianças (81%) apresentaram fixação entre as carúnculas e 15 (6,3%), na crista alveolar. Uma criança já havia sido submetida à frenectomia e, por isso, não participou da avaliação deste aspecto.

Com relação à mobilidade, 68 (85%) estalaram o ápice da língua adequadamente, 69 (86,3%) estalaram o corpo da língua; 68 (85%) sugaram a língua no palato de maneira adequada e 62 (77,5%) vibraram a língua corretamente. Com relação às praxias, 72 crianças (90%) realizaram adequadamente a tarefa de protrair e retrair a língua e 71 (88,8%) tocaram o ápice sequencialmente nas comissuras direita e esquerda e nos lábios superior e inferior, acertadamente. Movimentos associados de lábios e/ou língua apenas foram notados nas tarefas de praxias, sendo que, na tarefa de protrair e retrair a língua, um participante apresentou compensação de lábios e, na tarefa de tocar comissuras direita, esquerda, superior e inferior, um participante apresentou compensação de lábios e 2, de mandíbula.

Com relação à força de língua, 35 (43,8%) apresentaram força adequada, 21 (12,5%) apresentaram redução de força no ápice lingual e 24 (30%) apresentaram redução na força em toda a língua.

Em relação à associação entre largura e altura da língua e as demais variáveis de interesse, foi encontrada associação somente entre as variáveis altura e largura, entre si, indicando que indivíduos com largura alterada tenderam a apresentar, também, alteração na altura da língua (Tabela 1).

Tabela 1 Associação entre largura e altura da língua e as demais variáveis de interesse 

Provas Largura da língua Altura da língua
Normal Alterada valor de p Normal Alterada valor de p
n % n % n % n %
Altura da língua
Normal 70 90,9 7 9,1 0,002** - - - - -
Alterada 1 33,3 2 66,7 - - - - -
Extensão do frênulo
Adequado 62 89,9 7 10,1 0,366* 66 95,6 3 4,3 0,508*
Curto 8 80 2 20 10 100 0 0
Fixação do frênulo na língua
Na parte média 65 91,5 6 8,5 0,337* 69 97,2 2 2,8 0,237*
Entre a parte média e o ápice 4 80,0 1 20,0 5 100 0 0
No ápice 1 33,3 2 66,7 2 66,7 1 33,3
Fixação do frênulo no assoalho da boca
Entre as carúnculas 58 90,6 6 9,4 0,249** 64 100,0 0 0 0,237**
Na crista alveolar 12 80,0 3 20,0 12 80,0 3 20
Estalar ápice lingual
Adequado 59 86,8 9 13,2 0,185* 65 95,6 3 4,41 0,465*
Alterado 6 100,0 0 0 6 100,0 0 0
Ausente 6 100,0 0 0 6 100,0 0 0
Estalar o corpo da língua
Adequado 60 87,0 9 13,0 0,208* 66 95,6 3 4,35 0,487*
Alterado 5 100,0 0 0 5 100 0 0
Ausente 6 100,0 0 0 6 100 0 0
Sugar língua no palato
Adequado 59 86.8 9 13,2 0,185* 65 95,6 3 4,4 0,465*
Alterado 7 100,0 0 0 7 100,0 0 0
Ausente 5 100,0 0 0 5 100,0 0 0
Vibrar a língua
Adequado 55 88,7 7 11,3 0,983* 61 98,4 1 1,61 0,063*
Alterado 9 81,8 2 18,2 10 90,9 1 9,1
Ausente 7 100,0 0 0 6 85,7 1 14,3
Protrair/retrair língua
Adequado 67 88,2 9 11,8 0,471* 73 96,0 3 3,95 0,690*
Alterado 3 100,0 0 0 3 100,0 0 0
Movimento associado de lábios 1 100,0 0 0 1 100,0 0 0
Tocar comissuras direita e esquerda e lábios superior e inferior
Adequado 62 87,3 9 12,7 0,263* 68 95,8 3 4,2 0,536*
Alterado 6 100,0 0 0 6 100,0 0 0
Movimento associado de lábios 1 100,0 0 0 1 100,0 0 0
Movimento associado de mandíbula 2 100,0 0 0 2 100,0 0 0
Força de língua
Adequada 33 94,3 2 5,7 0,171* 33 94,3 2 5,7 0,421*
Reduzida 18 85,7 3 14,3 20 95,2 1 4,8
Reduzida no ápice 20 83,3 4 16,7 24 100,0 0 0

*Teste Qui-quadrado;

**Teste Exato de Fisher

Legenda: n = número de sujeitos; p = nível de significância

Quanto à associação entre extensão e fixação do frênulo da língua e as demais variáveis de interesse, foram encontradas associações entre extensão do frênulo e as tarefas de tocar as comissuras direita e esquerda, lábio superior e inferior, protrair e retrair a língua, vibrar a língua, sugar a língua no palato e também entre fixação do frênulo no assoalho da boca e as tarefas de sugar a língua no palato e vibrar a língua, indicando que os indivíduos que tiveram frênulo alterado apresentaram dificuldades de mobilidade e praxias linguais (Tabela 2).

Tabela 2 Associação entre extensão e fixação do frênulo da língua e as demais variáveis de interesse 

Provas Extensão do Frênulo Fixação do frênulo na língua Fixação do frênulo no assoalho da boca
Adequada Curta valor de p Na parte média Entre a parte média e o ápice No ápice valor de p Entre as carúnculas Na crista alveolar valor de p
n % n % n % n % n % n % n %
Fixação do frênulo na língua
Parte média 63 88,7 8 11,3 0,139 - - - - - - - - - - - -
Entre parte média e ápice 3 60,0 2 40,0 - - - - - - - - - -
No ápice 3 100,0 0 0 - - - - - - - - - -
Fixação do frênulo no assoalho da boca
Entre carúnculas 58 90,6 6 9,4 0,071 60 93,7 3 4,7 1 1,6 0,285 - - - - -
Na crista alveolar 11 73,3 4 26,7 11 73,3 2 13,3 2 13,3 - - - -
Estalar ápice lingual
Adequado 61 91,0 6 9,0 0,065 61 91,0 4 6,0 2 3,0 0,224 56 83,6 11 16,4 0,173
Alterado 4 66,7 2 33,3 6 100,0 0 0 0 0 5 83,3 1 16,7
Ausente 4 66,7 2 33,3 4 66,6 1 16,7 1 16,7 3 50,0 3 50,0
Estalar o corpo da língua
Adequado 61 89,7 7 10,3 0,119 62 91,2 4 5,9 2 2,9 0,226 56 82,4 12 17,6 0,457
Alterado 4 80 1 20 5 100,0 0 0 0 0 5 100,0 0 0
Ausente 4 66,7 2 33,3 4 66,6 1 16,7 1 16,7 3 50,0 3 50,0
Sugar língua no palato
Adequado 61 91,0 6 9,0 0,019 60 89,5 4 6,0 3 4,5 0,233 55 82,1 12 17,9 0,028
Alterado 6 85,7 1 14,3 7 100,0 0 0 0 0 7 100,0 0 0
Ausente 2 40,0 3 60,0 4 80,0 1 20,0 0 0 2 40,0 3 60,0
Vibrar a língua
Adequado 56 91,8 5 8,2 0,028 56 91,8 3 4,9 2 3,3 0,276 53 86,9 8 13,1 0,014
Alterado 9 81,8 2 18,2 10 90,9 1 9,1 0 0 9 81,8 2 18,2
Ausente 4 57,1 3 42,9 5 71,4 1 14,3 1 14,3 2 28,6 5 71,4
Protrair/retrair língua
Adequado 67 89,3 8 10,7 0,021 67 89,3 5 6,7 3 4,0 0,420 61 81,3 14 18,7 0,757
Alterado 1 33,3 2 66,7 3 100 0 0 0 0 2 66,7 1 33,3
Movimento associado de lábios 1 100,0 0 0 1 100 0 0 0 0 1 100,0 0 0
Tocar comissuras direita e esquerda e lábios superior e inferior
Adequado 64 91,4 6 8,6 0,002 63 90,0 4 5,7 3 4,3 0,724 57 81,4 13 18,6 0,796
Alterado 2 33.3 4 66,7 5 83,3 1 16,7 0 0 4 66,7 2 33,3
Movimento associado de lábios 1 100 0 0 1 100 0 0 0 0 1 100,0 0 0
Movimento associado de mandíbula 2 100 0 0 2 100 0 0 0 0 2 100,0 0 0
Força de língua
Adequada 34 97,1 1 2,9 0,063 34 97,1 1 2,9 0 0 0,192 30 85,7 5 14,3 0,348
Reduzida 18 78,3 5 21,7 20 87,0 1 4,3 2 8,7 17 73,9 6 26,1
Reduzida no ápice 17 80,9 4 19,1 17 80,9 3 14,3 1 4,8 17 80,9 4 19,1

Teste Qui-quadrado

Legenda: n = número de sujeitos; p = nível de significância

No que diz respeito à associação entre estalar o ápice e o corpo da língua e as demais variáveis, foram encontradas associações significativas entre estalar o ápice da língua e estalar o corpo da língua, bem como das provas de estalo de língua (corpo ou ápice) com sugar a língua no palato, vibrar a língua, protrair e retrair a língua, tocar as comissuras e força de língua (Tabela 3).

Tabela 3 Associação entre estalar o ápice e o corpo da língua e as demais variáveis 

Provas Estalar ápice de língua Estalar corpo de língua
Normal Alterada Ausente valor de p Normal Alterada Ausente valor de p
n % n % n % n % n % n %
Estalar o corpo da língua
Adequado 67 97,1 2 2,9 0 0 <0,001 - - - - - - -
Alterado 1 20,0 4 80,0 0 0 - - - - - -
Ausente 0 0 0 0 6 100 - - - - - -
Sugar língua no palato
Adequado 61 89,7 5 7,4 2 2,9 0,005 63 92,7 3 4,4 2 2,9 <0,001
Alterado 5 71,4 1 14,3 1 14,3 4 57,1 2 28,6 1 14,3
Ausente 2 40,0 0 0 3 60,0 2 40,0 0 0 3 60,0
Vibrar a língua
Adequado 57 91,9 3 4,8 2 3,2 0,001 57 91,9 3 4,8 2 3,2 0,006
Alterado 8 72,7 2 18,2 1 9,1 9 81,8 1 9,1 1 9,1
Ausente 3 42,9 1 14,3 3 42,9 3 42,9 1 14,3 3 42,9
Protrair/retrair língua
Adequado 68 89,5 4 5,3 4 5,3 <0,001 69 90,8 3 3,9 4 5,3 <0,001
Alterado 0 0 1 33,3 2 66,7 0 0 1 33,3 2 66,7
Movimento associado de lábios 0 0 1 100,0 0 0 0 0 1 100,0 0 0
Tocar comissuras direita e esquerda e lábios superior e inferior
Adequado 64 90,1 3 4,2 4 5,6 <0,001 64 90,1 3 4,2 4 5,6 0,004
Alterado 2 33,3 2 33,3 2 33,3 3 50,0 1 16,7 2 33,3
Movimento associado de lábios 0 0 1 100,0 0 0 0 0 1 100,0 0 0
Movimento associado de mandíbula 2 100,0 0 0 0 0 2 100,0 0 0 0 0
Força de língua
Adequada 35 100,0 0 0 0 0 0,001 35 100 0 0 0 0 0,001
Reduzida 15 62,5 3 12,5 6 25,0 15 62,5 3 12,5 6 25,0
Reduzida no ápice 18 85,7 3 14,3 0 0 19 90,5 2 9,5 0 0

Teste Qui-quadrado

Legenda: n = número de sujeitos; p = nível de significância

No que se refere à associação entre sugar a língua no palato e vibrar a língua e as demais variáveis de interesse, foram encontradas associações significativas entre sugar a língua no palato e as tarefas de vibrar a língua, protrair e retrair, tocar comissuras direita e esquerda, lábios superior e inferior e força de língua, bem como entre vibrar a língua e as provas de protrair e retrair e força de língua (Tabela 4).

Tabela 4 Associação entre sugar a língua no palato e vibrar a língua e as demais variáveis de interesse 

Provas Sugar a língua no palato Vibrar a língua
Normal Alterada Ausente valor de p Normal Alterada Ausente valor de p
n % n % n % n % n % n %
Vibrar a língua
Adequado 57 91,9 4 6,5 1 1,6 0,001 - - - - - - -
Alterado 8 72,7 2 18,2 1 9,1 - - - - - -
Ausente 3 42,9 1 14,3 3 42,9 - - - - - -
Protrair/retrair língua
Adequado 66 86,8 7 9,2 3 4,0 0,045 61 80,3 9 11,8 6 7,9 0,009
Alterado 1 33,3 0 0 2 66,7 1 33,3 1 33,3 1 33,3
Movimento associado de lábios 1 100,0 0 0 0 0 0 0 1 100,0 0 0
Tocar comissuras direita e esquerda e lábios superior e inferior
Adequado 63 88,7 5 7,0 3 4,2 0,008 57 80,3 8 11,3 6 8,4 0,097
Alterado 4 66,7 0 0 2 33,3 3 50,0 2 33,3 1 16,7
Movimento associado de lábios 1 100,0 0 0 0 0 0 0 1 100,0 0 0
Movimento associado de mandíbula 0 0 2 100,0 0 0 2 100 0 0 0 0
Força de língua
Adequada 35 100 0 0 0 0 0,001 31 88,6 3 8,6 1 2,9 0,037
Reduzida 14 58,3 6 25,0 4 16,7 14 58,3 5 20,8 5 20,8
Reduzida no ápice 19 90,5 1 4,8 1 4,8 17 80,9 3 14,3 1 4,8

Teste Qui-quadrado

Legenda: n = número de sujeitos; p = nível de significância

Quanto à associação entre provas de praxias da língua e as demais variáveis de interesse, foram encontradas associações apenas entre protrair e retrair e tocar nas comissuras direita e esquerda, no lábio superior e inferior (Tabela 5).

Tabela 5 Associação entre provas de praxias da língua e as demais variáveis de interesse 

Provas Protrair/Retrair Tocar comissuras direita, esquerda, superior e inferior
Normal Alterada Ausente valor de p Adequado Alterado Movimento associado de lábios Movimento associado de mandíbula valor de p
n % n % n % n % n % n % n %
Tocar comissuras direita e esquerda e lábios superior e inferior
Adequado 71 100 0 0 0 0 <0,001 - - - - - - - - -
Alterado 3 50,0 3 50,0 0 0 - - - - - - - -
Movimento associado de lábios 0 0 0 0 1 100,0 - - - - - - - -
Movimento associado de mandíbula 2 100,0 0 0 0 0 - - - - - - - -
Força de língua
Adequada 35 100 0 0 0 0 0,072 34 97,1 1 2,9 0 0 0 0 0,466
Reduzida 22 91,7 2 8,3 0 0 21 87,5 2 8,3 0 0 1 4,2
Reduzida no ápice 19 90,5 1 4,8 1 4,8 16 76,2 3 14,3 1 4,8 1 4,8

Teste Qui-quadrado

Legenda: n = número de sujeitos; p = nível de significância

DISCUSSÃO

A presente pesquisa avaliou aspectos de morfologia, frênulo, mobilidade, praxias e força de língua em crianças de 8 a 12 anos de idade. A faixa etária escolhida deveu-se ao fato de que o desempenho motor da língua sofre pouca variação nesta fase. O diâmetro e a mielinização dos axônios do trato corticobulbar, que controla a movimentação da língua, sofrem aumento rápido e não linear até aproximadamente os 8 anos. Após esta idade, continuam a aumentar, porém, de maneira mais gradual, ao final da infância e na adolescência(18). Uma pesquisa que mediu a força da língua de crianças e adolescentes apontou para um rápido aumento de força dos 3 aos 8 anos. Após os 8 anos, a força continuou aumentando, mas de maneira mais gradativa, até atingir o pico, por volta dos 16 anos(18).

O aspecto que teve o menor número de indivíduos considerados alterados foi a altura da língua, enquanto a força foi o aspecto com maior número de alterações. No estudo que avaliou os aspectos da língua em adultos(15), a força também foi um fator com grande quantidade de indivíduos alterados (62,5% da amostra) e, em uma pesquisa que investigou a prevalência de alterações fonoaudiológicas em crianças, os autores observaram que 67,4% das alterações orofaciais miofuncionais estavam relacionadas com a tensão das estruturas avaliadas(16). Um estudo(10) sugeriu que a força muscular interfere na capacidade da língua de realizar movimentos em sequência. Tal associação concorda com o presente estudo, ao mostrar que os indivíduos que apresentaram diminuição da força da língua, também demonstraram dificuldade na realização das praxias linguais. Uma explicação para tal achado é que a quantidade de força que a língua é capaz de exercer não depende apenas da concentração de tecido muscular, diâmetro e tipo das fibras musculares, mas também da ativação neural, ou seja, do número de unidades motoras recrutadas na contração muscular, da velocidade e da coordenação do recrutamento das unidades motoras(7). Por isso, a inadequada ativação neural pode ser vinculada à diminuição de força, coordenação e precisão dos movimentos.

Na presente pesquisa, com relação aos aspectos morfológicos, foi encontrada associação entre largura e altura da língua. Estudos apontaram que a largura da língua geralmente encontra-se alterada em respiradores orais(19), devido à postura rebaixada que assume para passagem de ar pela cavidade oral e pode ser resultado da fraqueza do músculo transverso. Já a altura da língua, está relacionada ao músculo vertical. Juntos, transverso e vertical realizam o afilamento lingual(6), que foi avaliado na tarefa de força, nesta pesquisa. No entanto, não foi encontrada relação destas variáveis com a força da língua, sugerindo que as alterações entre largura e altura da língua dos indivíduos desta pesquisa são, provavelmente, variações anatômicas individuais e não resultado de alterações na força. O volume aumentado da língua, tanto na largura quanto na altura, tem sido relacionado ao acúmulo de gordura na língua, condição encontrada em indivíduos com apneia obstrutiva do sono(20). Tal condição, porém, não foi investigada na presente pesquisa.

Com relação ao frênulo lingual, houve alterações nas provas de mobilidade e praxias em indivíduos com alterações no frênulo, sendo a associação significativa entre extensão do frênulo e provas de mobilidade e praxia e entre fixação do frênulo no assoalho e mobilidade da língua. Um estudo apontou que indivíduos com alteração de frênulo possuem maiores chances de apresentar alterações na mobilidade da língua(21). O mesmo estudo também indicou que 35% das pessoas com frênulo alterado apresentaram mobilidade alterada, enquanto apenas 15% de indivíduos com frênulo normal tiveram alteração na mobilidade. Outra pesquisa encontrou que, quando há uma alteração no frênulo de língua, a mobilidade lingual pode ficar prejudicada(22). Em outro artigo, também foi observado que o frênulo curto e anteriorizado apresentou maior alteração nas praxias para cima e vibração(23) e que a tarefa de sucção encontrava-se alterada nos frênulos curto e anteriorizado. A presente pesquisa confirmou que alterações da extensão e fixação do frênulo no assoalho podem gerar alterações na mobilidade de língua. Isso ocorre pelo fato de o frênulo lingual apresentar alta quantidade de fibras de colágeno tipo I, resistente à tração, o que pode justificar a restrição do movimento da língua(24). Uma criança que havia sido submetida previamente a frenectomia não foi excluída do estudo, apenas foi excluída da avaliação do frênulo, participando, assim, da avaliação dos demais aspectos, uma vez que se considerou importante investigar a língua de crianças, independente de alterações ou queixas, anteriores ou atuais, relacionadas à língua ou às funções orais. A exclusão de crianças com alterações limitaria a faixa de desempenho obtida, conforme notado em pesquisa prévia, realizada com indivíduos adultos(15).

As associações encontradas nas tarefas de mobilidade e praxias concordaram com a literatura. Em um estudo, foi relatado que indivíduos que possuem comprometimento nas praxias têm dificuldade de vibrar a língua e sugá-la(25). Em estudo realizado com adultos(15), o estalo de língua apresentou associação com vibração de língua e ambas as provas apresentaram associação com a classificação da tensão, mostrando a relação dessas provas com a força da língua, o que corresponde com os achados da presente pesquisa.

Com relação às praxias, houve associação entre protrair e retrair e tocar a língua nas comissuras, mas não houve associação com a força da língua. Tal achado discorda de uma pesquisa realizada com crianças pré-escolares, na qual foi constatada diminuição da força de língua em crianças com dificuldade de realização das provas de praxias linguais não verbais(10). Poucos foram os indivíduos que realizaram movimentos associados de lábios ou mandíbula, durante as praxias. Autores também verificaram pouca ocorrência de movimentos associados de lábios e maior ocorrência de movimentos associados de mandíbula, porém, em proporção maior (18,8%)(15), em comparação com esta pesquisa (2,5%). Os participantes com movimentos associados de lábios apresentaram dificuldade em estalar o ápice e o corpo da língua e de vibrar a língua, enquanto os participantes com movimentos associados de mandíbula tiveram dificuldade para sugar a língua no palato. Além disso, participantes com movimentos associados de lábios ou de mandíbula apresentaram redução de força da língua. Portanto, tais contrações não esperadas parecem ser compensações para auxiliar a realização do movimento pelo participante, frente à dificuldade de força ou mobilidade na língua.

Diante destes achados, verificou-se que os aspectos miofuncionais da língua na avaliação clínica realizada em crianças apresentaram diversas associações entre si. O fonoaudiólogo deve, portanto, estar atendo durante o processo avaliativo. A interdependência entre as alterações pode influenciar o prognóstico, sendo que, quando existem vários aspectos alterados, pode ser necessária a abordagem concomitante de dois ou mais aspectos na terapia.

A avaliação qualitativa da língua, apesar de prática rotineira na clínica fonoaudiológica, especialmente na área de motricidade orofacial, ainda é pouco estudada, principalmente quanto ao desempenho de crianças(16). Diferentes estudos foram desenvolvidos para investigar provas específicas de língua, como força(26), mobilidade(27), praxias(14,28,29) e/ou frênulo(22), em indivíduos com condições clínicas variadas. No entanto, este estudo inova, ao investigar a relação existente entre as diferentes provas da avaliação da língua. Tal conhecimento é importante para auxiliar o profissional no processo de avaliação, possibilitando um olhar diferenciado, a partir do desempenho do paciente em cada prova da avaliação. Uma avaliação clínica bem feita é importante para o sucesso terapêutico.

Uma limitação encontrada nesta pesquisa foi que alguns aspectos importantes da língua não foram avaliados, tais como tremor de língua, posição habitual, simetria e mucosa. As avaliações foram realizadas por duplas de avaliadores, de forma concomitante, e nem sempre pelos mesmos avaliadores, visto que cinco avaliadores participaram da coleta. Além disso, dois desses avaliadores eram estudantes da graduação, o que constitui outra limitação deste estudo, embora todos tenham sido treinados previamente quanto aos critérios de classificação de cada prova. Também não foram avaliadas as funções do sistema estomatognático. É importante ressaltar que existem as dificuldades inerentes à subjetividade da avaliação clínica, sendo que, para minimizá-las, a avaliação foi sempre realizada por dois avaliadores. Sugere-se a realização de novas pesquisas que investiguem as funções orofaciais, associando-as com as provas da avaliação clínica, uma vez que é ainda desconhecido o quanto o desempenho da língua em tarefas isoladas está relacionado ao seu desempenho nas funções.

CONCLUSÃO

Foi encontrada associação entre largura e altura da língua; extensão de frênulo e sugar a língua no palato, vibrar, protrair/retrair, tocar a língua nas comissuras direita/esquerda, lábio superior/inferior; fixação do frênulo no assoalho e sugar a língua no palato e vibrar; estalar o ápice da língua e estalar o corpo; estalar a língua (ápice ou corpo) e sugar a língua no palato, vibrar, protrair/retrair, tocar nas comissuras direita/esquerda, lábio superior/inferior e força de língua; sugar a língua no palato e vibrar, protrair/retrair, tocar nas comissuras direita/esquerda e lábio superior/inferior e força de língua; vibrar a língua e protrair/retrair e força de língua; protrair/retrair e tocar a língua nas comissuras direita/esquerda, lábio superior/inferior.

Trabalho realizado no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix – Belo Horizonte (MG), Brasil.

Financiamento: Nada a declarar.

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Recebido: 20 de Setembro de 2018; Aceito: 12 de Fevereiro de 2019

Conflito de interesses: Não.

Contribuição dos autores: IMN e LCSS foram responsáveis pela elaboração do projeto de pesquisa, revisão da literatura, coleta e análise de dados e redação do artigo; MSA e ARM colaboraram na coleta e análises dos dados e revisão crítica do artigo; RMMMF participou da elaboração do projeto de pesquisa, coleta e análise de dados, revisão crítica do artigo e orientação geral do estudo.

Autor correspondente: Renata Maria Moreira Moraes Furlan. E-mail: renata.furlan@izabelahendrix.metodista.br

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