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PRESS RELEASE

Dados vol.58 no.1 Rio de Janeiro maio 2015



 

Press Release

A Desigualdade É mais Alta e Estável do que se Imaginava

Marcelo Medeiros1 

Pedro H. G. Ferreira de Souza2 

Fábio Avila de Castro3 

1Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor da Universidade de Brasília (UnB). E-mail: mclmdr@unb.br.

2Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). E-mail: pedro.ferreira@ipea.gov.br.

3Auditor da Receita Federal. E-mail: fabioavcastro@yahoo.com.br.


A desigualdade no Brasil é mais alta do que se imaginava e permanece estável desde, pelo menos, 2006. Essas são as principais conclusões de um estudo publicado em maio de 2015 em DADOS – Revista de Ciências Sociais, por Marcelo Medeiros, Pedro H. G. F. Souza e Fabio A. Castro. Esse estudo coloca em xeque parte do que se sabia sobre o nível de desigualdade no país e como essa desigualdade se comporta no tempo.

O que há de novo é o uso de dados do imposto de renda da pessoa física para calcular a desigualdade. Tradicionalmente, o monitoramento da distribuição da renda no Brasil é feito com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a PNAD, um levantamento de excelente qualidade, mas que sabidamente subestima os mais ricos. O imposto de renda, no entanto, tem informações mais completas sobre a renda dos ricos.

O estudo destaca algo importante, mas que até o momento recebia pouca atenção: informação detalhada sobre os ricos faz diferença, pois eles detêm uma parcela enorme da renda no Brasil. Seu poder de alavancagem sobre a desigualdade é grande. E isso responde por boa parte da diferença entre o que sabíamos com as PNAD e o que sabemos agora. Por exemplo, a desigualdade de renda entre os adultos medida com o imposto de renda é substantivamente maior do que aquela que medíamos nas PNAD. Além disso, enquanto nas PNAD a desigualdade de renda cai de 2006 a 2012, com os dados de imposto de renda ela é estável durante esse período, com flutuações mínimas.

A renda no Brasil é extremamente concentrada. Quase metade da renda do país é recebida pelos 5% mais ricos, um quarto pelo 1% no topo. A concentração é tamanha que um décimo de toda a renda de 2012 foi apropriada pelos 0,1% mais ricos, um grupo que tem cerca de 140 mil pessoas. E esse quadro é praticamente o mesmo desde, pelo menos, 2006.

A metodologia para obter esses resultados depende de imputações e combinações de dados de fontes diferentes. Isso tem riscos inerentes e, portanto, as conclusões desse estudo devem ser tratadas com cautela. É possível, por exemplo, que a desigualdade ainda esteja subestimada. É bem provável que, no futuro, novas pesquisas venham a revisar esses resultados, quando houver acesso a dados mais completos do imposto de renda.

O que não há dúvida é de que temos um sinal de que é importante entender os ricos para se entender a desigualdade no Brasil. Até agora nossas pesquisas mediam apenas uma parte da desigualdade. Medíamos bem os pobres. Agora podemos medir melhor o outro lado da desigualdade brasileira, os ricos.

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