As estruturas analíticas (frameworks) utilizadas na avaliação benefício-risco constituem estruturas conceituais que apoiam a tomada de decisão e são geralmente categorizadas em descritivas ou quantitativas. Neste artigo, apresentamos as principais estruturas analíticas descritivas para avaliação benefício-risco que podem ser aplicadas no contexto de avaliação de tecnologias em saúde.
O que são estruturas analíticas?
Embora não haja uma definição universal de estrutura analítica, o termo refere-se, em geral, a estrutura conceitual que integra pressupostos, valores e práticas que estabelece conexões entre o domínio científico e o político. Sua principal função consiste em fornecer uma linguagem comum que orienta quais conceitos e quais relações fundamentais devem ser mensuradas e comparadas nas pesquisas empíricas1.
Estruturas analíticas para avaliação benefício-risco
No contexto da avaliação benefício-risco, estruturas analíticas possibilitam uma abordagem sistemática, explícita, transparente e reprodutível para avaliar e comunicar o balanço entre os principais benefícios e riscos (ou danos) de uma tecnologia, com as incertezas associadas.
Estruturas analíticas descritivas são arcabouços com instruções qualitativas que orientam desde o planejamento da avaliação benefício-risco até o momento em que um julgamento final sobre o balanço benefício-risco é realizado. Elas podem ser utilizadas para selecionar, organizar, resumir e comunicar as justificativas das decisões. A estrutura analítica descritiva constitui o fundamento indispensável de qualquer avaliação benefício-risco2.
Entre as principais estruturas analíticas descritivas para avaliação benefício-risco, destacam-se: a “Benefit-Risk Action Team (BRAT)”; a “Problem, Objectives, Alternatives, Consequences, Trade-offs, Uncertainty, Risk, and Linked decisions (PrOACT-URL)” e a “US Food and Drug Administration - Benefit-Risk Framework (FDA BRF)”3), (4. A PrOACT-URL e a FDA BRF foram desenvolvidas por agências regulatórias. A European Medicines Agency (EMA), por exemplo, é responsável pela autorização final de comercialização de produtos medicinais para a União Europeia. Somente após essa autorização é que se inicia o processo de avaliação de tecnologias em saúde.
Benefit-Risk Action Team (BRAT)
A estrutura analítica BRAT foi desenvolvida pela Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA) em colaboração com diversas empresas associadas5. Ela foi criada com base em revisão de literatura sobre os métodos existentes para avaliação benefício-risco, a qual evidenciou que nenhum dos métodos disponíveis incluía todos os critérios desejáveis - facilidade de uso, capacidade de atualização, integração de múltiplos benefícios e riscos, flexibilidade para aplicação em diversas áreas terapêuticas e a habilidade de incorporar as preferências das partes interessadas, como pacientes, médicos e reguladores6.
A BRAT foi desenvolvida com o propósito de aprimorar a avaliação benefício-risco e recomendar uma abordagem transparente e sistemática para apoiar a tomada de decisão. A estrutura analítica avalia separadamente os benefícios e os riscos, o que facilita sua comparação e evita a síntese dos dados em modelos estatísticos complexos, que podem ser de difícil compreensão para os leitores.
Entre 2008 e 2009, a BRAT foi aprimorada em colaboração com epidemiologistas, testada em casos simulados e avaliada por especialistas regulatórios e clínicos. Desenvolvida especificamente para avaliação benefício-risco de produtos farmacêuticos, a estrutura analítica fundamenta-se em metodologias consolidadas, como revisões sistemáticas de evidências e de metanálises e análise de decisão multicritérios7.
A BRAT apresenta as seguintes características: enfatiza a construção da árvore de valor, seleção e preparação de dados; avalia benefícios e riscos separadamente, não integrados na estrutura; pode incorporar a ponderação de resultados, sem se concentrar no cálculo de pontuações de benefício-risco geral6), (7), (8.
Ela é aplicada na tomada de decisão e na comunicação da avaliação benefício-risco entre as empresas farmacêuticas e os órgãos regulatórios por meio de um processo realizado em seis etapas6), (7), (8 (Tabela 1).
Problem, Objectives, Alternatives, Consequences, Trade-offs, Uncertainty, Risk and Linked decisions (PrOACT-URL)
A PrOACT-URL foi desenvolvida pela EMA em colaboração com a London School of Economics e a University of Groningen, no âmbito do EMA Benefit-Risk Methodology Project, entre 2010 e 20119. Esse projeto revisou os métodos reconhecidos para avaliação benefício-risco e aqueles apresentados nos relatórios do Committee for Medicinal Products for Human Use (CHMP), com a sugestão da incorporação de critérios e de diretrizes específicas sobre benefícios e riscos, bem como o desenvolvimento de metodologias para análise sistemática do balanço benefício-risco9.
A PrOACT-URL segue a metodologia de tomada de decisão PrOACT, desenvolvida por cientistas da teoria da decisão10. Foi desenvolvida para melhorar a transparência, a consistência e a comunicação da avaliação benefício-risco, sendo especificamente direcionada para a tomada de decisões regulatórias sobre produtos medicinais9.
Sua abordagem qualitativa é suficiente para a maioria dos casos. Em situações mais complexas, no entanto, sua estrutura tem sido usada como base para outras metodologias11, porque permite a integração com outras metodologias quantitativas, como modelos de análise de decisão e análise de decisão multicritérios12.
A PrOACT-URL permite o uso de diferentes julgamentos e de fontes por diferentes partes interessadas, como desenvolvedores de medicamentos, órgãos regulatórios, órgãos de avaliação de tecnologias em saúde, prescritores e pacientes13. A flexibilidade dela é tal que sua implementação na avaliação benefício-risco pode se estender por todas as etapas do ciclo de vida de uma tecnologia em saúde, o que evidencia sua aplicabilidade ao campo da avaliação de tecnologias em saúde3. Um modelo quantitativo desenvolvido por um regulador pode ser reutilizado pelo órgão de avaliação de tecnologias em saúde, que pode adicionar critérios de custo e QALY, além de calcular a razão de custo-efetividade incremental14.
A PrOACT-URL13), (15 é realizada em 12 etapas (Tabela 2). A etapa seis sugere a criação de uma tabela de efeitos, que apresenta todos os efeitos favoráveis e desfavoráveis que os avaliadores consideram influenciar o balanço entre benefícios e riscos, juntamente os comentários sobre as incertezas que, na visão dos avaliadores, persistem na avaliação13.
Etapas da estrutura analítica problem, objectives, alternatives, consequences, trade-offs, uncertainty, risk and linked decisions (PrOACT-URL)
É importante ressaltar que ambas as estruturas analíticas, BRAT e PrOACT-URL, têm como base princípios bem estabelecidos de análise de decisão6. As raízes comuns dos métodos resultam em muitas semelhanças e uma relação estreita entre eles. A principal diferença é que os dois últimos passos da estrutura analítica ProACT-URL consideram questões mais amplas, como atitudes de risco do tomador de decisão e consistência com decisões anteriores semelhantes, questões que não são partes formais da BRAT15.
US Food and Drug Administration - Benefit-Risk Framework (FDA BRF)
A FDA BRF foi desenvolvida pela FDA (Food and Drug Administration) e sua implementação teve início em 201312. Essa estrutura analítica fornece uma abordagem estruturada para avaliação benefício-risco de medicamentos e de produtos biológicos, com a contemplação de questões relevantes para a tomada de decisão regulatória e para a comunicação interna à FDA e ao público16.
Na FDA, a avaliação benefício-risco não termina com a aprovação de um medicamento, mas continua ao longo de todo o seu ciclo de vida do medicamento, pois os benefícios e os riscos podem mudar com o tempo, a partir de novas informações sobre sua eficácia ou segurança. No período pós-comercialização, o balanço benefício-risco é reavaliado com base na literatura científica, estudos pós-marketing, relatos de eventos adversos, erros de medicação, qualidade do produto e dados de experiência do paciente16.
A FDA reconhece a importância de incorporar a contribuição dos pacientes no desenvolvimento dos medicamentos e nas decisões regulatórias, com a consideração das suas experiências e das suas perspectivas essenciais para compreender o impacto da doença, os benefícios mais relevantes e a aceitação dos riscos ao longo do ciclo de vida do medicamento16.
A FDA BRF16 oferece diretrizes claras e de fácil aplicação. Analisa as dimensões de decisão, que inclui a análise da condição, as opções de tratamento atuais, os benefícios, os riscos e o gerenciamento desses riscos. Considera-se também as evidências e as incertezas relacionadas a esses fatores, que levam às conclusões e às razões subjacentes, ou seja, às implicações para a tomada de decisão. (Tabela 3)
Descrição dos fatores de decisão, evidências, incertezas, conclusões e razões para avaliação benefício-risco, por meio da estrutura analítica US food and drug administration - benefit-risk framework (FDA BRF)
Aplicação de estruturas analíticas descritivas para avaliação benefício-risco no contexto da avaliação de tecnologias em saúde
A utilização de estruturas analíticas descritivas em avaliação benefício-risco tem sido observada ao longo das três últimas décadas (2000, 2010, 2020), com vistas a aplicação de abordagens mais estruturadas, objetivas e transparentes, com consequente melhora na comunicação e na tomada de decisões3), (11), (12), (17. No contexto da avaliação de tecnologias em saúde, de acordo com uma revisão de escopo publicada em 2024, as estruturas analíticas descritivas mais citadas foram a PrOACT-URL e a BRAT. Já as mais recomendadas foram a PrOACT-URL e a FDA BRF4.
A BRAT, a PrOACT-URL e a FDA BRF compartilham características comuns, como praticidade, consistência, transparência, abordagem sistemática e contexto de decisão. Também compartilham a qualidade e a interpretação das evidências, a transparência da priorização e da ponderação de benefícios e de riscos e o monitoramento das incertezas. Finalmente, as três compartilham a avaliação, o resumo e a comunicação de dados e de informações relevantes por meio de ferramentas visuais como árvores de valor ou tabelas de efeitos, que serão discutidas no último artigo desta série3.
A FDA mantém o uso de uma estrutura analítica descritiva para avaliação benefício-risco, apesar de reconhecer o potencial dos métodos quantitativos. A EMA tem avançado na adoção de estruturas analíticas quantitativas18, que serão abordadas no próximo artigo desta série.
É preciso salientar que, nos casos em que uma nova tecnologia aumenta os benefícios e diminui os riscos, ou quando os riscos superam claramente os benefícios, a aplicação de uma estrutura analítica descritiva é suficiente para determinar o balanço benefício-risco dessa tecnologia19. Recentemente, o Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation (GRADE) estabeleceu o uso de limiares de decisão que podem apoiar os julgamentos sobre o balanço entre os benefícios e os riscos (danos) na avaliação de tecnologias em saúde20, que serão apresentados no penúltimo artigo desta série.
No que se refere ao contexto brasileiro de avaliação de tecnologias em saúde, a implementação dessas estruturas analíticas pode representar uma oportunidade para qualificar ainda mais a deliberação em instâncias, como a Conitec, especialmente ao tornar mais explícitos os critérios e as incertezas envolvidos nas recomendações. Os desafios para tanto, contudo, incluem a necessidade de capacitação técnica, a adaptação às especificidades institucionais e regulatórias do Sistema Único de Saúde e a integração com os atuais fluxos de avaliação e de participação social.
As terapias gênicas e, em geral, as tecnologias destinadas ao tratamento das doenças raras são bons exemplos que podem ser objetos das capacitações técnicas. Essas tecnologias exigem uma atenção diferenciada das agências regulatórias e de avaliação de tecnologias em saúde, já que a avaliação benefício-risco tende a ser mais complexa e com elevado grau de incerteza decorrente da escassez de dados, do número reduzido de pacientes e de limitações metodológicas dos estudos disponíveis.
Recomenda-se que os estudos completos de avaliação de tecnologias em saúde considerem a inclusão de pelo menos uma estrutura analítica descritiva estruturada17, com vistas a apresentar de forma transparente os julgamentos de valor e a fundamentação que apoiaram a tomada de decisão, com garantia de que os principais aspectos do processo de avaliação não foram negligenciados. O balanço entre benefícios e riscos (danos) baseado em evidências também deve ser comunicado explicitamente nos processos decisórios.
Disponibilidade de dados
Os dados estão disponíveis no corpo do manuscrito.
Referências bibliográficas
- 1 Partelow S. What is a framework? Understanding their purpose, value, development and use. J Environ Stud Sci. 2023; 13, 510-9.
-
2 CIOMS Working Group. Benefit-Risk Balance for Medicinal Products [Internet]. Geneva: Council for International Organizations of Medical Sciences (CIOMS); 2025 [cited 2026 Feb 26] Available from: Available from: https://cioms.ch/wp-content/uploads/2025/05/DraftCover-WGXII_BR-front_updated-2025.png
» https://cioms.ch/wp-content/uploads/2025/05/DraftCover-WGXII_BR-front_updated-2025.png - 3 Kürzinger ML, Douarin L, Uzun I, El-Haddad C, Hurst W, Juhaeri J et al. Structured benefit-risk evaluation for medicinal products: review of quantitative benefit-risk assessment findings in the literature. Ther Adv Drug Saf. 2020; 11: 1-12.
- 4 Suzumura EA, de Oliveira Ascef B, Maia FHDA, Bortoluzzi AFR, Domingues SM, Farias NS et al Methodological guidelines and publications of benefit-risk assessment for health technology assessment: a scoping review. BMJ Open. 2024; 14: e086603.
- 5 Pignatti F, Ashby D, Brass EP, Eichler HG, Frey P, Hillege HL et al. Structured frameworks to increase the transparency of the assessment of benefits and risks of medicines: current status and possible future directions. Clin Pharmacol Ther. 2015; 98(5): 522-33.
- 6 Coplan PM, Noel RA, Levitan BS, Ferguson J, Mussen F. Development of a framework for enhancing the transparency, reproducibility and communication of the benefit-risk balance of medicines. Clin Pharmacol Ther. 2011; 89(2): 312-5.
- 7 Levitan BS, Andrews EB, Gilsenan A, Ferguson J, Noel RA, Coplan PM, et al. Application of the BRAT framework to case studies: observations and insights. Clin Pharmacol Ther. 2011; 89(2): 217-24.
- 8 Caron B, D’Amico F, Jairath V, Netter P, Danese S, Peyrin-Biroulet L. Available methods for benefit-risk assessment: lessons for inflammatory bowel disease drugs. J Crohns Colitis. 2023; 17(1): 137-43.
-
9 European Medicines Agency (EMA). Benefit-risk methodology project [Internet]. 2009. [cited 2026 Feb 26]. Available from: Available from: https://www.ema.europa.eu/en/documents/report/benefit-risk-methodology-project_en.pdf
» https://www.ema.europa.eu/en/documents/report/benefit-risk-methodology-project_en.pdf - 10 Hammond JS, Keeney RL and Raiffa H, Smart choices: a practical guide to making better decisions. Boston: Harvard University Press; 1999. 256p.
- 11 Mt-Isa S, Hallgreen CE, Wang N, Callréus T, Genov G, Hirsch I et al. Balancing benefit and risk of medicines: a systematic review and classification of available methodologies. Pharmacoepidemiol Drug Saf. 2014; 23(7): 667-78.
- 12 Juhaeri J. Benefit-risk evaluation: the past, present and future. Ther Adv Drug Saf. 2019; 10: 2042098619871180.
-
13 European Medicines Agency (EMA). Science Medicines Health. EMA/297405/2012 - Revision 1 Human Medicines Development and Evaluation - Benefit-risk methodology Project Work package 4 report: Benefit-risk tools and processes [internet] London; 2012. [cited 2023 July 15]. Available from: Available from: https://www.ema.europa.eu/en/documents/report/benefit-risk-methodology-project-work-package-4-report-benefit-risk-tools-processes_en.pdf
» https://www.ema.europa.eu/en/documents/report/benefit-risk-methodology-project-work-package-4-report-benefit-risk-tools-processes_en.pdf -
14 European Medicines Agency (EMA). Benefit-risk methodology project. work package 3 report: Field tests. 2011. [cited 2026 Feb 26] Available from: Available from: https://www.ema.europa.eu/en/documents/report/benefit-risk-methodology-project-work-package-3-report-field-tests_en.pdf
» https://www.ema.europa.eu/en/documents/report/benefit-risk-methodology-project-work-package-3-report-field-tests_en.pdf - 15 Nixon R, Dierig C, Mt-Isa S, Stöckert I, Tong T, Kuhls S et al. A case study using the PrOACT-URL and BRAT frameworks for structured benefit risk assessment. Biom J. 2016; 58(1): 8-27.
-
16 The United States Food and Drug Administration (FDA). Benefit-risk assessment for new drug and biological products guidance for industry. 2023. [cited 2026 Feb 26] Available from: Available from: https://www.fda.gov/media/152544/download
» https://www.fda.gov/media/152544/download - 17 Hughes D, Waddingham E, Mt-Isa S, Goginsky A, Chan E, Downey GF et al. Recommendations for benefit-risk assessment methodologies and visual representations. Pharmacoepidemiol Drug Saf. 2016; 25: 251-62.
- 18 Angelis A, Phillips LD. Advancing structured decision-making in drug regulation at the FDA and EMA. Br J Clin Pharmacol. 2021; 87(2): 395-405.
- 19 Colopy MW, Damaraju CV, He W, Jiang Q, Levitan BS, Ruan S et al. Benefit-risk evaluation and decision making: some practical insights. Ther Innov Regul Sci. 2015; 49(3), 425-33.
- 20 Wiercioch W, Morgano GP, Piggott T, Nieuwlaat R, Neumann I, Sousa-Pinto B et al. GRADE guidance: using thresholds for judgments on health benefits and harms in decision making (GRADE Guidance 42). Ann Intern Med. 2025; 178(11): 1644-52.
Editado por
-
Editor-chefe:
Jorge Otávio Maia Barreto 0000-0002-7648-0472
-
Editor cientifico:
Everton Nunes da Silva 0000-0001-8747-4185
