Resumo
Objetivo: Analisar os acidentes ofídicos ocorridos no Brasil entre 2010 e 2022 com foco sobre: características sociodemográficas das vítimas, gênero das serpentes envolvidas, sazonalidade, distribuição geográfica, grau de risco e relação com os biomas, através de um estudo descritivo baseado em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação sobre acidentes causados por Bothrops, Crotalus, Lachesis e Elapidae.
Métodos: Foram calculadas taxas de incidência, mortalidade e letalidade por gênero de serpente, idade e sexo. A análise espacial utilizou estatísticas bayesianas e o índice de Getis-Ord (Gi*) para identificar áreas de maior concentração de casos e classificar o risco regional (de muito baixo a muito alto).
Resultados: Entre 2010 e 2022, foram registrados 329.269 acidentes ofídicos no país, com predominância dos casos botrópicos (70,6%). No mesmo período, ocorreram 1.514 óbitos, sendo 74,2% associados a acidentes botrópicos, 20,7% a crotálicos, 4,7% a laquéticos e 0,4% a elapídicos. Apesar da menor frequência, os acidentes crotálicos apresentaram a maior letalidade anual (0,1%). A maioria das vítimas eram homens (77,8%), pardos (58,4%), adultos (76,3%), com baixa escolaridade (48,0%) e residentes em áreas rurais (63,9%). Óbitos foram associados a atrasos no atendimento. Os acidentes botrópicos permaneceram estáveis, os crotálicos e elapídicos aumentaram, enquanto os laquéticos diminuíram. Os casos ocorreram majoritariamente entre outubro e março, exceto no Nordeste, entre dezembro e junho. Geograficamente, os padrões seguiram os biomas.
Conclusão: Os resultados reforçam a necessidade de estratégias regionais específicas para vigilância, prevenção e manejo eficaz, fundamentadas nos padrões geográficos, sazonais e demográficos observados.
Palavras-chave:
Acidentes Ofídicos; Animais Peçonhentos; Antivenenos; Áreas de Risco; Estudo Descritivo.
Abstract
Objective: To analyze snakebite accidents that occurred in Brazil between 2010 and 2022, focusing on the sociodemographic characteristics of victims, snake genus involved, seasonality, geographic distribution, degree of risk and relationship with biomes. This descriptive study was based on data taken from the Notifiable Health Conditions Information System on accidents caused by Bothrops, Crotalus, Lachesis and Elapidae.
Methods: Incidence rates, mortality rates and case fatality ratios were calculated according to snake genus, age and sex. Spatial analysis used Bayesian statistics and the Getis-Ord index (Gi*) to identify areas with the highest concentration of cases and classify regional risk (from very low to very high).
Results: Between 2010 and 2022, 329,269 snakebite accidents were recorded in Brazil, with a predominance of bothropic cases (70.6%). In the same period, 1,514 deaths occurred, 74.2% of which were associated with bothropic snakebites, 20.7% with crotalic snakebits, 4.7% with lachetic snakebites and 0.4% with elapid snakebites. Despite their lower frequency, crotalic snakebites had the highest annual case fatality ratio (0.1%). Most victims were males (77.8%), of Brown skin color (58.4%), adults (76.3%), with low levels of schooling (48.0%), and living in rural areas (63.9%). Deaths were associated with delays in care. Bothropic snakebites remained stable, crotalic and elapid snakebites increased, while lachetic snakebites decreased. Cases occurred mostly between October and March, except in the Northeast, where they were mostly between December and June. Geographically, the patterns followed the biomes.
Conclusion: The results reinforce the need for specific regional strategies for surveillance, prevention and effective management, based on the observed geographic, seasonal and demographic patterns.
Keywords:
Snake Bites; Animals, Poisonous; Antivenins; Risk Areas; Descriptive Study.
Resumen
Objetivo: Analizar los accidentes por mordeduras de serpiente ocurridos en Brasil entre 2010 y 2022, centrándose en las características sociodemográficas de las víctimas, los géneros de serpientes involucradas, la estacionalidad, la distribución geográfica, el grado de riesgo y la relación con los biomas. Este estudio descriptivo se basó en datos del Sistema Nacional de Información de Enfermedades de Declaración Obligatoria sobre accidentes causados por Bothrops, Crotalus, Lachesis y Elapidae.
Métodos: Se calcularon las tasas de incidencia, mortalidad y letalidad por género de serpiente, edad y sexo. El análisis espacial utilizó estadística bayesiana y el índice Getis-Ord (Gi*) para identificar las áreas con mayor concentración de casos y clasificar el riesgo regional (de muy bajo a muy alto).
Resultados: Entre 2010 y 2022, se registraron 329.269 accidentes por mordeduras de serpiente en el país, con predominio de casos botrópicos (70,6%). En el mismo período se produjeron 1.514 muertes, de las cuales el 74,2% estuvieron asociadas a accidentes con Bothrops, el 20,7% con Crotalus, el 4,7% con Lachesis y el 0,4% con Elapidae. A pesar de su menor frecuencia, las mordeduras de serpientes crotálicas tuvieron la tasa de letalidad anual más alta (0,1%). La mayoría de las víctimas fueron hombres (77,8%), mestizos (58,4%), adultos (76,3%), con bajos niveles de educación (48,0%) y residentes en áreas rurales (63,9%). Las muertes se asociaron con retrasos en la atención. Las mordeduras de serpientes botrópicas se mantuvieron estables, las mordeduras de serpientes crotálicas y elápidas aumentaron, mientras que las mordeduras de serpientes del género Lachesis disminuyeron. Los casos ocurrieron principalmente entre octubre y marzo, excepto en el noreste, entre diciembre y junio. Geográficamente, los patrones siguieron los biomas.
Conclusión: Los resultados refuerzan la necesidad de estrategias regionales específicas para la vigilancia, prevención y gestión eficaz, basadas en los patrones geográficos, estacionales y demográficos observados.
Palabras clave:
Mordeduras de Serpientes; Animales Ponzoñosos; Antivenenos; Áreas de Riesgo; Estudio Descriptivo.
Esta pesquisa utilizou bancos de dados de domínio público e anonimizados.
Introdução
O envenenamento por picadas de serpentes é uma doença tropical negligenciada que resulta em aproximadamente 138 mil mortes anuais no mundo, além de causar sofrimento e incapacidades, especialmente em comunidades pobres de países de baixa e média renda 1. Reconhecendo a gravidade, em 2017, a Organização Mundial da Saúde incluiu o envenenamento por picada de cobra na lista de doenças tropicais negligenciadas e, em 2019, aprovou a Estratégia para uma resposta globalmente coordenada a uma doença tropical negligenciada prioritária, na qual estabeleceu a meta de reduzir em 50% as mortes e as incapacidades relacionadas ao ofidismo até 2030 através de esforços globais. As principais estratégias são: (i) melhorar a vigilância do agravo; (ii) aumentar o conhecimento epidemiológico dos envenenamentos, para identificar e atender de forma mais eficaz as populações que necessitam de maior educação preventiva, tratamento adequado e assistência a longo prazo devido a sequelas; e (iii)ampliar a disponibilidade, a acessibilidade e a redução do custo dos antivenenos em nível global, para garantir tratamentos farmacoterapêuticos seguros e eficazes para os acidentados 2,3.
No Brasil, pela vasta biodiversidade, os acidentes com animais peçonhentos têm grande relevância à saúde pública. No período analisado, o país ocupava o terceiro lugar no mundo em número de acidentes ofídicos, ao lado do Vietnã, ficando atrás da Índia e do Sri Lanka 4,5. Em 2023, foram registrados 32.595 acidentes e 143 óbitos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, que juntas notificaram quase dois terços dos casos, apesar de abrigarem apenas 36% da população brasileira. Esses acidentes são agravados por fatores como a invasão de habitats naturais e o acúmulo de lixo e de entulho, que atraem pequenos animais, alimento para as serpentes 6.
Desde a criação do soro antiofídico por Vital Brazil e a fundação do Instituto Butantan, em 1901 7, até a implementação do Programa Nacional de Ofidismo, em 1986, após uma grande crise na produção de soro no país, que culminou com a morte de uma criança em Brasília 8, o Brasil tem investido no controle de acidentes por animais peçonhentos. As notificações desses acidentes são realizadas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e ganharam maior representatividade, especialmente a partir de 2010, após a inclusão do agravo na lista de notificações obrigatórias 9. À época, essas informações forneceram dados fundamentais para a vigilância epidemiológica e o planejamento de ações de saúde pública.
No país, as serpentes das famílias Viperidae (jararacas, cascavéis e surucucus) e Elapidae (corais) são responsáveis pelos acidentes botrópicos, crotálicos, laquéticos e elapídicos, respectivamente 10. Dentre elas, o gênero Bothrops responde pela maioria dos acidentes, enquanto o Crotalus apresenta a maior letalidade 11.
O tratamento do envenenamento após acidente exige a aplicação de antiveneno (soro) específico para cada tipo de acidente. Esses soros são fornecidos exclusivamente pelo Ministério da Saúde, fazem parte do Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica e estão incluídos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. Esses imunobiológicos só são disponibilizados gratuitamente em unidades de saúde públicas, que são pontos estratégicos designados pelo Sistema Único de Saúde para atender a população. No Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, estão descritos os protocolos de tratamento, incluindo o número de frascos a serem utilizados conforme a gravidade do acidente (leve, moderado ou grave) 12.
Os antivenenos são produtos biológicos obtidos a partir do plasma processado e purificado de equinos previamente imunizados com antígenos de venenos animais. Seu processo de fabricação é demorado e depende da resposta imunológica dos animais, tornando seu uso restrito a casos realmente necessários. Para minimizar complicações e reduzir o risco de sequelas, o tratamento deve ser administrado o mais rápido possível, idealmente dentro das primeiras seis horas após a picada 12.
Diante desse cenário, o principal objetivo deste estudo foi analisar os acidentes ofídicos ocorridos no Brasil entre 2010 e 2022 com foco nas características sociodemográficas das vítimas, no gênero das serpentes envolvidas, na sazonalidade, na distribuição geográfica, no grau de risco e na relação com os biomas.
Os resultados obtidos têm o objetivo de contribuir para a identificação de áreas de maior risco, subsidiando estratégias de prevenção, a alocação de recursos em regiões prioritárias e o planejamento adequado do atendimento e da distribuição de soros, conforme o tipo de acidente e de padrões regionais.
Métodos
Tipo de estudo e fonte de dados
Tratou-se de estudo descritivo sobre acidentes ofídicos ocorridos no Brasil entre 2010 e 2022. Os dados foram extraídos do Sinan, sendo selecionadas todas as notificações de acidentes com animais peçonhentos que envolviam serpentes dos gêneros Bothrops, Crotalus, Lachesis e da família Elapidae. Foram incluídos apenas os registros com dados completos sobre o tipo de serpente e a localização do acidente. Considerou-se como acidente autóctone aquele em que o município de residência do paciente coincidiu com o município de ocorrência.
Contextualização
As variáveis analisadas incluíram características sociodemográficas dos acidentados (idade, sexo, raça/cor da pele e escolaridade), além de informações espaço-temporais (data do acidente, município de residência e ocorrência, zona de ocorrência) e variáveis relacionadas ao atendimento e ao desfecho do caso (tempo entre acidente e atendimento, bem como evolução clínica). As informações demográficas e geográficas adicionais foram obtidas junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, incluindo dados sobre os biomas nacionais (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal) 13.
Análise estatística
Foram calculadas as taxas de incidência, mortalidade e letalidade por gênero de serpente, faixa etária (0-9 anos, 10-19 anos, 20-59 anos e ≥60 anos) e sexo. A taxa de incidência anual foi obtida dividindo-se o número médio de acidentes pela população estimada para 2016 dividida por 13 (número de anos do estudo), multiplicando-se por 100 mil habitantes. A taxa de mortalidade foi calculada da mesma forma, substituindo-se o número de acidentes pelo número de óbitos. A letalidade foi determinada pela razão entre o número de óbitos e o número total de acidentes, multiplicada por 100 mil habitantes.
Para a análise temporal, foi avaliado o número de acidentes segundo o gênero da serpente, a região geográfica, o ano de ocorrência (temporalidade) e o mês de ocorrência (sazonalidade). A distribuição espacial das taxas de incidência foi analisada por meio de taxas ajustadas por estimativas bayesianas empíricas locais 14, considerando apenas os acidentes autóctones por tipo de serpente e por município de ocorrência. Para identificar áreas de concentração de casos, aplicou-se o índice de Getis-Ord (Gi*), capaz de detectar aglomerados espaciais com valores acima ou abaixo da média regional, além de quantificar discrepâncias 15.
A contagem anual de ocorrências foi normalizada em escores Z e organizada anualmente pelo valor máximo dentro do limite geográfico 16. A estratificação de risco foi realizada com base na frequência percentual dos municípios identificados como áreas de concentração de casos ao longo do período de estudo, sendo classificados em cinco níveis: muito baixo (≤20%), baixo (20%-40%), médio (40%-60%), alto (60%-80%) e muito alto (>80%). As análises foram realizadas com o auxílio dos softwares Excel, GeoDa, QGIS, R (versão 4.3.2) e Tabwin, e os resultados foram apresentados por meio de mapas qualitativos separados por gênero de serpente, cujo acesso à base de dados encontra-se na plataforma Zonedo 17.
Resultados
Entre 2010 e 2022, no Brasil, foram notificados 329.269 acidentes causados por serpentes peçonhentas. Desse total, 283.245 (70,6%) foram botrópicos, 33.447 (8,3%) crotálicos, 8.861 (2,2%) laquéticos e 3.716 (0,9%) elapídicos. No mesmo período, foram registrados 1.514 óbitos relacionados a esses acidentes, sendo 1.123 (74,2%) atribuídos a acidentes botrópicos, 314 (20,7%) a crotálicos, 71 (4,7%) a laquéticos e 6 (0,4%) a elapídicos. A análise da autoctonia dos acidentes revelou que uma parcela dos casos ocorreu fora do município de residência: 7,3% nos botrópicos, 9,6% nos crotálicos, 7,7% nos elapídicos e 5,0% nos laquéticos.
A raça/cor da pele parda foi a mais prevalente nos acidentes e óbitos, mas observou-se uma alta proporção de indígenas entre os acidentes laquéticos (9,6% dos acidentes e 25,4% dos óbitos). Os acidentes ofídicos foram mais frequentes entre homens (77,8%), pardos (58,4%), adultos entre 20-59 anos (76,3%) e pessoas com escolaridade até o ensino fundamental (48,0%). A maioria ocorreu em zonas rurais (63,9%), embora os acidentes crotálicos e os elapídicos tenham apresentado proporções relevantes em áreas urbanas (42,2% e 46,6%). Quanto ao tempo de atendimento, 65,3% das vítimas de acidentes botrópicos, crotálicos e elapídicos foram atendidas em até três horas, enquanto nos acidentes laquéticos esse percentual foi menor (44,1%), com 35,4% recebendo atendimento entre três e 12 horas (Tabela suplementar 1).
Ainda em relação à avaliação sociodemográfica, a análise da escolaridade das vítimas de acidentes ofídicos, segundo as regiões do Brasil, revelou uma predominância de indivíduos com baixa escolaridade, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O analfabetismo era mais prevalente nas regiões Norte e Nordeste, enquanto as regiões Sul e Sudeste apresentaram menores proporções de analfabetismo. A presença de escolaridade superior (completa ou incompleta) foi reduzida em todas as regiões. Destacou-se, contudo, o elevado percentual de registros com escolaridade ignorada, com 28,4% na região Norte, 40,7% na Nordeste, 33,2% na Centro-Oeste, 26,6% na Sul e 39,4% na Sudeste, o que comprometeu a qualidade dos dados e limitou análises mais precisas (Tabela suplementar 2).
Nos óbitos, o perfil socioeconômico foi semelhante ao dos acidentados, mas houve maior proporção de vítimas indígenas nos casos elapídicos (16,7%) e laquéticos (25,4%). A baixa escolaridade (51,1%) foi mais comum entre os óbitos, e a predominância dos acidentes em zonas rurais foi ainda mais acentuada (78,9%). O tempo para atendimento foi significativamente maior nos casos fatais, especialmente nos acidentes laquéticos.
Os acidentes botrópicos foram os mais frequentes no Brasil, com incidência 7,4 vezes maior que os crotálicos, 77,5 vezes maior que os elapídicos e 30,9 vezes maior que os laquéticos. Homens foram os mais afetados em todos os tipos de acidentes, com destaque para os laquéticos e os crotálicos, nos quais a incidência foi três vezes maior do que em mulheres, enquanto nos acidentes elapídicos essa diferença foi 1,5 vez. Os acidentes crotálicos apresentaram a maior letalidade, seguidos pelos laquéticos, pelos botrópicos e pelos elapídicos. Idosos foram os mais propensos a óbito após acidente ofídico. A letalidade variou regionalmente, sendo maior nas regiões Norte e Centro-Oeste para os acidentes botrópicos, crotálicos e laquéticos, e, na região Sul, para os crotálicos e elapídicos. Por faixa etária, os acidentes botrópicos foram mais comuns entre 10-19 anos e 20-59 anos, com 12,0 e 11,4 casos por 100 mil habitantes ao ano. Os acidentes crotálicos afetaram mais adultos e idosos, enquanto os elapídicos e laquéticos seguiram o padrão dos botrópicos (Tabela 1).
Quanto à distribuição regional, os acidentes botrópicos foram mais prevalentes na região Norte e menos prevalente na Sudeste. Os crotálicos tiveram maior incidência na região Centro-Oeste e menor na Sul. Os acidentes elapídicos foram mais frequentes na região Nordeste e menos, de forma similar, nas regiões Sul e Sudeste. Já os laquéticos predominaram na região Norte e foram menos frequentes na Sudeste. Na região Sul, não era esperada a notificação de acidentes laquéticos, pois não há registro de serpentes desse gênero em vida livre na área (Tabela 1) (18).
No período avaliado, os acidentes ofídicos apresentaram diferentes tendências temporais. Os acidentes botrópicos mantiveram um padrão de ocorrência estável na região Centro-Oeste, tendência de elevação no número de acidentes nas regiões Norte e Nordeste e de diminuição nas regiões Sul e Sudeste. Os acidentes crotálicos e elapídicos demonstraram uma tendência de aumento, a partir de 2013, nas regiões Sul e Nordeste e de estabilidade nas outras. Já os acidentes laquéticos apresentaram uma redução acentuada e contínua no número de casos na região Norte desde 2010 (Figuras 2A a 2D).
Geoespacialidade da América do Sul com detalhamento do território brasileiro: (A) regiões brasileiras; (B) biomas e unidades federativas (UF)
Análises temporal (A-D) e sazonal (E-H) dos acidentes ofídicos estratificadas por tipo de acidente e região. Brasil, 2010-2022 (n=329.269)
Na análise da sazonalidade, considerando o mês de ocorrência, houve padrões regionais distintos. Nos acidentes botrópicos, as regiões Centro-Oeste, Norte, Sudeste e Sul apresentaram maior frequência entre outubro e março, enquanto na região Nordeste o período de maior ocorrência foi entre fevereiro e junho, em sentido oposto às demais regiões. Nos acidentes crotálicos, as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul seguiram um padrão semelhante, com maior número de casos entre novembro e abril, enquanto nas regiões Norte e Nordeste a sazonalidade foi mais acentuada entre dezembro e junho. Os acidentes elapídicos mostraram um padrão uniforme entre as regiões, com maior ocorrência de casos entre janeiro e maio. Já nos acidentes laquéticos, destacou-se a região Norte, com aumento dos casos a partir de dezembro, atingindo o pico em março e registrando o menor número de ocorrências entre agosto e setembro (Figuras 2E a 2H).
Independentemente do gênero de serpente causadora do acidente, houve uma grande correlação entre os padrões espaciais de distribuição das taxas anuais de incidência, os locais de maior risco e os locais onde ocorreram os óbitos após os referidos acidentes (Figuras 3 e 4).
Distribuição espacial dos acidentes botrópicos (n=283.245) (A-C) e laquéticos (n=8.861) (D-F) por municípios e estados estratificada por taxas de incidência bayesianaa (A e D), áreas de risco (B e E) e número de óbitos (C e F). Brasil, 2010-2022
Os acidentes botrópicos foram amplamente distribuídos por todo o território brasileiro, porém, conforme mostrado na Figura 3A, e podendo relacionar à distribuição dos biomas na Figura 1, as regiões com as maiores taxas anuais de incidência dos acidentes botrópicos encontravam-se nos biomas Amazônia, Mata Atlântica e em parte do bioma Cerrado, o que coincidiu também com o mapa de risco para esse tipo de acidente e com a maior ocorrência de óbitos (Figuras 3A a 3C). Os acidentes laquéticos apresentaram um padrão de distribuição mais característico e restrito, sendo mais frequente na região Norte e no extremo do bioma Mata Atlântica, entre os estados da região Nordeste e o Espírito Santo (Figura 3D). Já os acidentes crotálicos apresentaram padrão de distribuição onde há predomínio do bioma Cerrado e nos estados que ficam no extremo norte do bioma Amazônia (Amapá e Roraima) (Figura 4A). Por fim, os acidentes elapídicos apresentaram locais com maior risco de acidentes nos biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica (Figura 4D).
Distribuição espacial dos acidentes crotálicos (n=33.447) (A-C) e elapídicos (n=3.716) (D-F) por municípios e estados estratificada por taxas de incidência bayesianaa (A e D), áreas de risco (B e E) e número de óbitos (C e F). Brasil, 2010-2022.
Discussão
Entre 2010 e 2022, os acidentes ofídicos no Brasil mostraram padrões marcantes em relação à distribuição geográfica, ao perfil das vítimas e às características clínicas. Observou-se o predomínio de acidentes botrópicos, responsáveis por dois terços dos casos e dos óbitos, o que pode refletir a ampla distribuição e a adaptabilidade das serpentes do gênero Bothrops. Apesar de menos frequentes, os acidentes crotálicos apresentaram maior letalidade, evidenciando sua gravidade clínica. A maioria das vítimas era composta por homens adultos, pardos, com baixa escolaridade e residentes em zonas rurais, indicando uma relação entre vulnerabilidade socioeconômica, exposição ocupacional e dificuldades no acesso ao atendimento. Notou-se ainda que acidentes laquéticos, embora em declínio, seguem sendo relevantes devido à alta letalidade e à ocorrência em regiões remotas, como a Amazônia. A sazonalidade dos casos variou regionalmente, com maior concentração no período chuvoso, sugerindo a influência de fatores ecológicos e climáticos sobre a atividade das serpentes e o risco de acidentes.
Entre as limitações do estudo, destaca-se a dependência de dados secundários provenientes do Sinan, os quais estão sujeitos a subnotificação, inconsistências e preenchimento incompleto. Além disso, erros na identificação das serpentes ou no tipo de envenenamento podem gerar distorções nos dados, como a possível superestimação dos acidentes laquéticos em decorrência da nomenclatura popular indistinta em algumas regiões. Outra limitação refere-se à ausência de dados detalhados sobre o local de ocorrência dos óbitos e à diferenciação entre áreas urbanas e rurais, o que compromete análises mais refinadas sobre os fatores de risco e o acesso aos serviços de saúde. Além disso, a baixa completitude das variáveis relacionadas ao nível de escolaridade dos acidentados limita a análise mais detalhada do perfil sociodemográfico das vítimas.
A alta frequência de acidentes botrópicos está de acordo com estudos anteriores que destacam a ampla distribuição das serpentes do gênero Bothrops em todos os biomas brasileiros, desde florestas densas até áreas antropizadas 11,19. Essa plasticidade ecológica favorece o contato com humanos em diferentes contextos. Já a elevada letalidade dos acidentes crotálicos pode ser atribuída à toxicidade do veneno e à rápida progressão dos sintomas clínicos, exigindo diagnóstico precoce e administração imediata de soro antiofídico, como observado também em estudo de coorte retrospectivo na região Centro-Oeste 20. Quanto aos acidentes laquéticos, além da gravidade do envenenamento, fatores geográficos e culturais dificultam o acesso ao atendimento, especialmente entre populações indígenas que, por vezes, recorrem inicialmente à medicina tradicional. Essa barreira cultural foi igualmente observada em pesquisa qualitativa realizada com comunidades amazônicas 21,22.
O perfil sociodemográfico das vítimas é consistente com achados de outras pesquisas com delineamento transversal realizadas em zonas rurais das regiões Nordeste e Norte do país, que apontam a predominância de acidentes entre adultos jovens, trabalhadores rurais e homens 9,23. Isso sugere que atividades econômicas ao ar livre estão diretamente relacionadas à exposição ao risco. Já a maior frequência de óbitos entre indígenas, especialmente por acidentes laquéticos, pode ser explicada tanto pelo isolamento geográfico quanto pela limitação de recursos nos serviços locais de saúde, como já descrito em investigações na Amazônia Legal 24.
A análise temporal revelou a estabilidade dos acidentes botrópicos, provavelmente associada à ampla distribuição do gênero e à constância do contato com humanos. Em contrapartida, o aumento dos acidentes crotálicos pode estar relacionado à expansão dessas espécies em áreas degradadas, conforme descrito em estudos sobre alterações no uso do solo e mudanças climáticas 11,19,25. A redução dos casos laquéticos, por sua vez, pode decorrer da retração dos habitats das serpentes e da melhoria nos sistemas de notificação. A sazonalidade observada coincide com o período de maior atividade das serpentes e aumento de práticas agrícolas 26,27.
A análise espacial apontou maior letalidade nos acidentes registrados nas regiões Norte e Centro-Oeste, coerente com estudos anteriores que associam mortalidade ao tempo prolongado entre o acidente e o atendimento médico, reflexo da baixa cobertura de serviços de saúde em regiões remotas 23. A presença de notificações de acidentes laquéticos fora da área de ocorrência da espécie reforça a hipótese de erro de identificação ou a confusão de nomenclatura regional, como ocorre no Alto Juruá, onde Bothrops atrox é chamada de "surucucu", o mesmo nome dado a Lachesis muta28,29. Tais erros comprometem a precisão dos dados e exigem investimentos em educação e em capacitação dos profissionais responsáveis pela notificação.
A ocorrência de acidentes não autóctones reforça a mobilidade das vítimas e os desafios logísticos para o atendimento rápido. Estratégias como a ferramenta online do estado de São Paulo para localização de unidades com soro antiofídico demonstram potencial para mitigar atrasos e devem ser replicadas em outras regiões 30. A padronização da nomenclatura regional e a capacitação dos profissionais de saúde podem contribuir significativamente para a melhoria da qualidade das notificações e da resposta assistencial.
Em síntese, os achados deste estudo revelam a complexidade dos acidentes ofídicos no Brasil, fortemente condicionados por fatores ecológicos, climáticos, geográficos e sociais. A predominância de acidentes botrópicos, a elevada letalidade de crotálicos e laquéticos e a desigualdade no acesso aos serviços de saúde evidenciam a necessidade de estratégias regionais específicas para vigilância, prevenção e manejo quanto aos acidentes ofídicos. Além disso, destaca-se a importância de ações voltadas ao aprimoramento da qualidade dos dados registrados no Sinan, a fim de permitir análises mais consistentes e aprofundadas sobre o perfil das vítimas. Os resultados obtidos neste estudo oferecem subsídios para políticas públicas mais eficazes e equitativas, especialmente voltadas para populações vulneráveis e para regiões de difícil acesso, promovendo uma abordagem integrada entre saúde, meio ambiente e manejo animal.
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Disponibilidade de dados
O banco de dados, os códigos, os métodos e outros materiais utilizados e resultantes da pesquisa utilizados neste estudo estão disponíveis para consulta na plataforma Zenodo. Disponível em: Freitas GD de, Oliveira A de. Acidentes ofídicos no Brasil (2010-2022): um retrato nacional dos padrões sociodemográficos, geográficos e temporais em estudo descritivo [Internet]. Zenodo; 2025. Available from: https://doi.org/10.5281/zenodo.15571022.
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Uso de inteligência artificial generativa
Não empregada.
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Peer Reviewers:
Allan Ribeiro Reis Scharf Costa - https://orcid.org/0000-0001-7579-5598
Editado por
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Editor-in-Chief:
Jorge Otávio Maia Barreto - https://orcid.org/0000-0002-7648-0472
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Scientific Editor:
Maria Auxiliadora Parreiras Martins - https://orcid.org/0000-0002-5211-411X
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Associate Editor:
Renato Azeredo Teixeira - https://orcid.org/0000-0002-8682-3176
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Peer Review Administrator:
Izabela Fulone - https://orcid.org/0000-0002-3211-6951
O banco de dados, os códigos, os métodos e outros materiais utilizados e resultantes da pesquisa utilizados neste estudo estão disponíveis para consulta na plataforma Zenodo. Disponível em: Freitas GD de, Oliveira A de. Acidentes ofídicos no Brasil (2010-2022): um retrato nacional dos padrões sociodemográficos, geográficos e temporais em estudo descritivo [Internet]. Zenodo; 2025. Available from: https://doi.org/10.5281/zenodo.15571022.








