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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.12 no.2 São Paulo  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642001000200010 

FREUD, AS ENGUIAS E A RUPTURA EPISTEMOLÓGICA

 

César Ades1
Instituto de Psicologia - USP

 

 

Por duas vezes, em Viena, cruzei-me com Freud. Era em 1992. Eu tinha ido visitar o professor Walter Hödl do Instituto de Zoologia da Universidade de Viena, pesquisador interessado pelos anuros (sapos e rãs) brasileiros. Aproveitei minha estada para ir até a rua Bergasse, número 19. Os lugares guardam a memória de quem neles viveu. Impressionou-me entrar no prédio, que eu conhecia de fotografias, tudo parecia igual à época em que Freud clinicava e varava as noites teorizando e trabalhando em suas notas e em seus livros; só não estavam o divã, os livros e a coleção de estatuetas. Mas, como mais tarde vim a saber, Freud também tinha freqüentado a Zoologia, não sei se no mesmo prédio da Universidade de Viena que eu conheci.

Depois de uma viagem à Inglaterra em que leu, entre outros, Huxley, Lyell e Darwin, Freud, aluno de segundo ano de medicina, foi trabalhar no Instituto de Zoologia e Anatomia Comparadas, junto a Carl Claus, "um dos divulgadores mais eficientes e prolíficos de Darwin, em língua alemã" segundo Gay (1989, p. 45), do qual tomo estas informações. Claus deve ter ficado encantado com Freud, talvez porque, além de sua aptidão científica, conhecesse algo a respeito da teoria da evolução. Mandou-o em 1876 para Trieste, onde tinha montado uma estação de zoologia experimental. A tarefa que Claus tinha confiado a Freud era verificar a existência, em enguias (provavelmente Anguilla anguilla), de um órgão geminado descrito pelo pesquisador polonês Sirsky que, em alguns desses animais, substitui os ovários e que talvez constituísse as gônadas dos machos. A diferenciação entre machos e fêmeas ainda era um mistério; constituía um "problema deixado em suspenso por séculos" (segundo Freud, 1877). Pode parecer simbólico ter Freud iniciado sua carreira científica por meio da investigação de gônadas e da base anatômica do comportamento reprodutivo, mas provavelmente o interesse maior era do orientador. Conta Gay que, de qualquer modo, além de enguias, Freud se interessou pelas moças de Trieste que, em suas cartas, qualificou de "deusas italianas," mas as quais não ousou abordar.

Freud passou dois meses em Trieste; no resto do tempo examinou animais que eram trazidos para o laboratório, em Viena. Dissecou algo como 400 enguias, além de examinar os órgãos sexuais de algumas enguias marinhas (Conger vulgaris). Apresentou suas observações na sessão de 15 de março de 1877 do Instituto e publicou o artigo "Beobachtungen über Gestaltung und feineren Bau der als Hoden beschriebenen Lappeorgane" (Observações sobre a configuração e a estrutura fina dos órgãos lobados, descritos como sendo os testículos das enguias). Trata-se do primeiro artigo publicado por Freud, e é citado por ele no currículo apresentado em 1897 à Universidade de Viena, quando concorreu, sem sucesso, ao título de "professor extraordinarius."

São muito pouco conhecidos os primeiros passos da carreira de Freud, dados sob a égide da zoologia. Talvez tenha o próprio Freud sido responsável por este descaso, ao considerar como de menor importância seus trabalhos iniciais: sequer menciona, em seu ensaio autobiográfico, a fase de sua vida em que trabalhou com Claus. Sacks (1998), que se interessou por Freud como neurologista, não cita em seu texto o estudo das enguias. O desconhecimento leva inclusive a equívocos. Um psicanalista francês referiu-se, recentemente, ao artigo de 1877, escrevendo que, nele, Freud "coloca as bases de uma teoria do funcionamento das células neurais que ainda não eram chamadas de neurônios" (Plon, 2000, p. 38). O estudo das enguias, na verdade, só tem a ver com a histologia dos tecidos reprodutivos.

Consegui ler "Observações sobre a configuração e a estrutura fina do órgão lobado..." na tradução francesa de Max Kohn, que fez sua dissertação de doutorado sobre os escritos pré-psicanalíticos de Freud. Era como se eu estivesse consultando um artigo recente em biologia, com o desconto das técnicas histológicas recentes, é claro. Freud incluiu, no anexo de seu artigo, desenhos esquemáticos a respeito da forma e da estrutura do órgão lobado; teríamos hoje belas fotos obtidas ao microscópio de varredura. Mas o espírito de precisão, eu diria até de minúcia, a preocupação em examinar uma amostra ampla (embora não seja questão de estatística), distinguindo animais em estágios diferentes de desenvolvimento, a atenção dada aos possíveis vieses decorrentes da técnica de exame, a cautela na interpretação dos resultados, o confronto das observações próprias com as publicadas, nada têm a dever em relação ao que hoje constitui a praxe, na área.

Predomina o apego ao pormenor. Cito um trecho, para dar o sabor de um estilo que não se permite omitir nada, nem mesmo os aspectos raros:

cada órgão lobado consiste numa faixa (Streifen) estreita, uma espécie de fita, de pequenos lobos, que esta fita carrega em sua extremidade livre. Os lobos (Läppchen) são firmes e esbranquiçados; os maiores se encontram na parte anterior, os menores na parte caudal do órgão... a parte caudal não consiste mais numa série de pequenos lobos, mas em duas, a série exterior se situa na continuidade do órgão, a série interior representa o que Sirsky chamou "pars accessoria" ou "pars recurrens". A "pars accessoria" falta freqüentemente de um lado ou de ambos, mais comumente do lado direito porque o órgão lobado da direita não desemboca tão longe quando o da esquerda. (Freud, 1877, p. 11)

Mas Freud não descreve apenas por descrever. Preocupa-se em desvendar a estrutura na qual os elementos (tecidos, células) se interconectam, os arcabouços e lacunas que eles formam, as células que se inserem em vasos ou aberturas, enfim, tudo que poderia prenunciar a função e garantir que se está de fato diante de um órgão diferente do ovário. A cada passo, a hipótese geral parece ter guiado a dissecção. Freud presta uma atenção especial às celulas soltas contidas no órgão lobado e que ele chama "células de conteúdo" (Inhaltzellen).

Particularmente interessante é a abordagem sistêmica que Freud adota, colocando os dados de estrutura na perspectiva do processo e do desenvolvimento. Pergunta-se Freud, por exemplo, "se o órgão lobado é um órgão ‘sui generis’ ou uma modificação do ovário, que se tenha desenvolvido a partir de um estado muito primitivo deste órgão" (1877, p. 13). E responde pela negativa, pois, ao examinar o órgão em diversos estágios de crescimento, nunca deixou de notar diferenças em relação ao ovário. Lamenta, contudo, não ter conseguido enguias suficientemente maduras para poder seguir até o fim as transformações: de posse de um conhecimento dos estágios todos, seria mais fácil e mais seguro concluir-se que o órgão lobado constitui de fato o testículo do peixe. As células de conteúdo, Freud as encontra freqüentemente num estado de proliferação e infere que darão origem, através de um processo de subdivisão, aos lóbulos. A estrutura vai se constituindo a partir da transformação dos elementos que a constituem, num processo em que os estágios se superam uns aos outros, conservando, contudo, sinais de sua origem.

À página 17 da tradução está um trecho notável em que Freud parece discutir consigo próprio. Começa dizendo que os resultados da histologia do órgão lobado não depõem diretamente a favor da hipótese de que ele seja a gônada masculina tão procurada. Em seguida, adotando a posição contrária, acrescenta que não há porque não considerar este órgão como tal, uma vez que se apresenta na forma imatura e que, portanto, poderia eventualmente transformar-se em gônada masculina plena e funcional. Sabe-se bem, agora, que as enguias de rios e de lagos, quando chegam à maturidade, procuram o oceano onde nadam e se deixam levar pela corrente, durante meses, até alcançar o local, no mar alto, onde as fêmeas irão botar milhões de ovos. Freud supõe que, na véspera de sua viagem para o mar, as enguias não estejam ainda prontas do ponto de vista reprodutivo. Daí a dificuldade de lhes saber o sexo.

Enfatizei o aspecto sistêmico do pensamento do jovem Freud, que se deixa surpreender mesmo no relato da tediosa e aparentemente infindável tarefa de dissecar enguias e de descrever-lhes as partes reprodutivas. Outro peixe, a lampréia Petromyzon, entra na história, por intermédio do Professor Ernst Brücke, do laboratório de fisiologia, no qual Freud foi trabalhar, de 1876 a 1882, encontrando "paz e plena satisfação e pessoas que eu podia respeitar e tomar como modelos" (Freud, 1925, p. 57). Embora certamente mais satisfatória, do ponto de vista pessoal, mais criativa e importante do que o trabalho inicial com Claus, a pesquisa no laboratório de Brücke constitui um desdobramento daquele trabalho. Nela está presente a mesma perspectiva de respeito estreito ao dado empírico - afinal, na pesquisa anatômica, a prova de que algo é o caso passa muitas vezes pela dissecção de um órgão, pelo desenho ou fotografia de uma estrutura, por um corte, enfim, por evidências visíveis - e o mesmo cuidado metodológico. Freud publicou, na época, pelo menos três artigos metodológicos em que descreveu técnicas para a preparação do sistema nervoso, incluindo um a respeito de um corante à base de ouro, graças ao qual pôde visualizar os gânglios espinhais de Petromyzon.

Como na fase das enguias, o pensamento de Darwin constituía o contexto silencioso, mas importante, das pesquisas. Não tanto pela aplicação precisa dos princípios da seleção natural (não havia a variedade suficiente de espécies em comparação, nem o enfoque ecológico que esta aplicação requer), como pelo uso das idéias gerais subjacentes à teoria evolucionária, com destaque aos determinantes históricos e à possibilidade de uma estrutura transformar-se em outra, por "obra do entrechoque de forças cegas e profanas" (Gay, 1989, p. 49). Claus, defensor ativo das idéias de Darwin, foi quem inculcou a Freud a nova biologia darwiniana (Ritvo, 1972); o grupo de Brücke também se colocou decididamente no caminho do pensamento evolucionário.

É dentro da perspectiva darwiniana que ganham relevo as descobertas de Freud a respeito da estrutura do sistema nervoso das lampréias. No seu artigo de 1878 (que conheço apenas através do resumo do próprio Freud, 1897), ele parte das diferenças, então concebidas como categóricas, entre as células neurais de peixes e as de outros animais, e fornece indicações que prevalecem transições. "Há muito se acreditava," escreve Freud (1897),

que as células ganglionares dos peixes fossem bipolares e as dos animais superiores unipolares ... O uso de uma impregnação à base de ouro permitiu ter uma visão de conjunto, completa, dos gânglios espinhais de Petromyzon; suas células têm todas as transições entre a bipolaridade e a unipolaridade com divisão das fibras em forma de T.

Em outras palavras, fica demonstrada, a partir das evidências visíveis a que eu me referi anteriormente, a existência de gradações entre o "inferior" e o "superior," e fica reforçada a idéia de que há um processo histórico capaz de mediar entre formas aparentemente distintas e independentes. Diante dos muitos tipos de tentilhões, coletados em ilhas vizinhas do arquipélago dos Galápagos, Darwin se impressionou pela existência de gradações e de intermediários e neles viu, ao mesmo tempo, um motivo de enfraquecimento da idéia da espécie enquanto entidade fechada e absoluta (a espécie é um momento de um processo constante de diferenciação) e mais um dado a favor da existência, entre formas diferentes de vida, de uma ligação que remonta ao passado (Darwin, 1859/1988).

Muitos dos que relatam as descobertas de Freud dão destaque ao fato de que, através de suas pesquisas com Pteromyzon e outros animais, chegou bem perto de enunciar a teoria do neurônio enquanto elemento neural isolado e distinto (em contraposição à idéia geralmente aceita da substância neural como uma rede sem elementos constitutivos). Freud também ficou sentido por ter deixado Ramón e Cajal e Waldeyer levar a palma. Não havia sequer a desculpa, invocada no episódio similar da descoberta dos efeitos anestésicos da cocaína, de ter ido visitar a noiva depois de dois anos de ausência, perdendo, assim, a chance de ganhar o reconhecimento da comunidade científica.

Se gastei um tempo evocando Freud estudioso de peixes é porque acho sua atividade científica inicial pouco conhecida e, o que é mais sério, mesmo quando conhecida, raramente levada em conta na caracterização de sua obra e de seu pensamento. Acho significativo que, num livro dedicado ao "homem Freud," a psicanalista Flem (1991) não inclua sequer um parágrafo ao Freud neurologista e estudioso do sistema nervoso. Tem-se a impressão de que os escritos "pré-psicanalíticos" de Freud pertencem a uma pré-história que nada tem a ver com a psicanálise. Obedecendo a outra intenção epistemológica, não se integram no modo como hoje se concebe a pesquisa psicanalítica, nem do ponto de vista empírico (que relevância tem a descrição das células do aparelho reprodutor de enguias para a metapsicologia?), nem do ponto de vista do modo de aquisição do conhecimento. Saindo da Universidade de Viena (isto acontece na página 50 da biografia de mais de 500 páginas de Freud escrita por Gay, 1989), parece que Freud largava o modo "acadêmico" de produção de saber e criava para a psicanálise trilhos próprios que abandonaram, e que alguns acham que nunca reencontrarão, a direção da pesquisa científica como é comumente definida.

É verdade, como já disse, que Freud teve responsabilidade por este recalcamento de sua fase inicial de pesquisador. No seu ensaio autobiográfico (1925), declarou ter sido sua motivação, desde a juventude, dirigida mais para entender o ser humano do que para investigar fenômenos da natureza. Raramente se referia ao seu período de anatomista e neurologista, talvez até achasse inferior ou menos relevante a produção desta época de sua vida. Imagino que o nome Darwin não tenha mais saído de sua pena, fora a menção feita no texto autobiográfico. A um psiquiatra suíço que lhe pedia separatas dos primeiros trabalhos neurológicos do pai, Anna respondeu que Freud achava que ele se desapontaria, se os lesse (Gay, 1989, p. 46). Com a "desneurologização" de seu pensamento e com a abertura, efetuada com arrojo e busca de independência, de um campo próprio em que imperasse a causação psicológica, Freud gerou uma ruptura epistemológica que seus discípulos e a psicanálise subseqüente ampliaram a ponto de, segundo muitos, de um lado e de outro da fronteira, tornar impensável um retorno conciliador.

Embora a ruptura, que Sacks (1998) caracteriza propriamente como uma travessia (crossover), seja parte da história da psicanálise e um determinante importante de sua natureza atual, ela deve ser re-examinada, em função do contexto científico presente, especialmente se estivermos preocupados com o papel da psicanálise como disciplina universitária e como disciplina de pesquisa. Não me parece interessante nem produtivo o isolamento de perspectivas epistemológicas e, em particular, o da psicanálise, dentro da psicologia. Usando de metáfora, seria conceber as perspectivas como espécies estanques, monádicas, ao invés de perceber o dinamismo que as opõe e as transições que elas poderiam gerar em suas fronteiras de conflito e de interação. Outra travessia é possível.

Alguns quiseram ver, na atitude minuciosa do Freud anatomista do sistema nervoso de peixes, um prenúncio do modo cuidadoso e especialmente exaustivo através do qual analisaria e relataria seus casos clínicos. Segundo Gay (1989), "a busca das gônadas da enguia contribuiu para ensinar a Freud a observação paciente e exata, o tipo de atenção concentrada que mais tarde julgaria tão indispensável ao ouvir seus pacientes" (p. 46). Não acho que a paciência e a capacidade de prestar uma atenção concentrada sejam os aspectos mais relevantes, no caso, e sim a natureza do olhar quando usado com propósito descritivo. A atividade descritiva parte do pressuposto embutido de que há algo para ser descrito, algo que independe do observador, não no sentido de não existirem categorias prévias, próprias do observador, dentro das quais os perceptos serão selecionados e ordenados e interpretados, mas no sentido de que há algo, fora do observador, capaz de informar, de surpreender, de confirmar ou desmentir idéias previamente constituídas, em suma, algo dotado de estrutura própria. O olhar descritivo, próprio da atitude naturalista do biólogo que Freud foi, em que medida não constitui a própria base do olhar descritivo da pesquisa clínica?

Se há uma intencionalidade comum ao olhar psicanalítico e ao olhar descritivo da ciência natural (Fulgêncio Jr., no prelo, nota que "há, na observação clínica, um grande conjunto de dados que podem ser denominados claramente de descritivos ou fenomenológicos ... há em Freud uma apreensão fenomenológica do insconsciente, da sexualidade, das fases do desenvolvimento infantil, do tipo de relação médico-paciente ..."), é possível que se estabeleça uma interação em torno de fenômenos aceitos enquanto fenômenos, tanto por psicanalistas, como por outros cientistas. O caso do apego é paradigmático: todos sabem da iniciativa de Bowlby (1969, 1981), psicanalista inglês que transpôs a fronteira com a etologia, justapondo informações e conceitos que pareciam incomensuráveis (melhor dizer: incomunicáveis), a serviço da compreensão de como crianças estabelecem um laço com o adulto que cuida delas, principalmente com a mãe. De repente, o comportamento do filhote de primata que se agarra ao ventre da mãe, enquanto esta braqueia pela copa das árvores, não parece mais tão exótico nem tão irrelevante e o comportamento da criança que segura, desesperadamente, as pernas da mãe, quando esta quer se afastar, insere-se num cenário muito mais amplo e antigo do que normalmente se quer imaginar.

Esta é uma interação que eu chamaria de "centrada no fenômeno." Outra, "centrada na teoria", é a que pode ser levada adiante em nível conceitual, buscando paralelismos nos princípios básicos de explicação e nas noções mais abrangentes. É assim que despontam com uma certa insistência propostas de um namoro entre a psicanálise e o pensamento evolucionário, tal como aplicado ao comportamento humano (Dunn 1993; Kriegman, 1990; Migone & Liotti, 1998). Freud e Lorenz, que não chegaram a se conhecer pessoalmente, embora vivessem na mesma Viena das primeiras décadas do século XX, talvez, finalmente, venham a ter contato. Pergunta LeCroy (2000): "Seria Freud o primeiro psicólogo evolucionário?"; e Morehead (1999): "Édipo, Darwin e Freud: uma grande família feliz?" (Morehead, 1999). É cedo ainda para celebrar a reunificação da família, celebremos a abertura do diálogo.

Embora o velho Freud não prestasse tanta atenção à produção "zoológica" do jovem Freud (Gay, 1989), ele era ambos, como se depreende deste trecho de uma carta a Abraham, datada de setembro de 1924:

É exigir muito em termos da unidade da personalidade tentar fazer com que eu me identifique com o autor do artigo sobre os gânglios espinhais do petromyzon. No entanto, eu devo ser ele e eu penso que eu fiquei mais feliz com esta descoberta do que com outras que eu tenha feito depois (citado por Sacks, 1998, p. 221, grifo meu).

A idéia perigosa de Darwin (Dennett, 1995) que contaminou Freud, bem no começo de sua carreira, talvez chegue a contaminar o legado de seu pensamento. Seria, de certa forma, pela segunda vez.

 

Agradecimentos

Agradeço a Leopoldo Fulgêncio Jr. pelas boas discussões e por ter posto à minha disposição o primeiro artigo de Freud (1876).

 

Referências

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Recebido em 10.07.2001
Aceito em 05.10.2001

 

 

 

1 Endereço para correspondência: Instituto de Psicologia. Av. Prof. Mello Moraes, 1721, São Paulo, SP – CEP 05508-900. E-mail: cades@usp.br