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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.14 no.6 Ribeirão Preto Nov./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692006000600002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Educação permanente: uma ferramenta para pensar e agir no trabalho de enfermagem1

 

 

Carlos Alberto Caciquinho RicaldoniI; Roseni Rosangêla de SenaII

IEnfermeiro, Mestre, Especialista em Enfermagem do Trabalho, Especialista em Administração Hospitalar, Membro do Núcleo de Pesquisa e Estudo sobre Prática e Ensino em Enfermagem - NUPEPE EEUFMG, Hospital Mater Dei; e-mail: carlosalberto@materdei.com.br
IIEnfermeira, Doutor, Professor Adjunto da Escola de Enfermagem da Universidade de Minas Gerais-aposentada, Coordenador do NUPEPE/EEUFMG, Consultor da Fundação Kellogg; e-mail: rosenisena@uol.com.br

 

 


RESUMO

Esta pesquisa torna-se importante na medida em que contribui para a reflexão sobre ações educativas dirigidas aos trabalhadores de enfermagem, com enfoque na finalidade, nos instrumentos e nos sujeitos responsáveis pelo cuidado. Teve como objetivo geral analisar os efeitos das ações de educação permanente na qualidade de assistência de enfermagem, em um hospital privado, de grande porte, no município de Belo Horizonte, MG. Optou-se por um estudo qualitativo na corrente filosófica da dialética, tendo como sujeitos 02 enfermeiros, 17 auxiliares e técnicos de enfermagem do 8º e 9º andares e a gerente de enfermagem. Os resultados revelaram que as ações educativas não estão articuladas ao processo de trabalho e que existe a necessidade de aprimoramento gerencial dos enfermeiros, possibilitando a realização da pedagogia de problematização. Conclui-se que deveria ser revista a inserção dos profissionais da enfermagem no contexto do processo de trabalho, articulada com a capacitação baseada na estratégia da educação permanente.

Descritores: educação em enfermagem; capacitação; educação continuada em enfermagem


 

 

INTRODUÇÃO

A educação tem sido considerada como instrumento para mudanças e transformações em uma sociedade. As transformações sociais e educacionais têm repercussões nos modos de produzir, nos diferentes campos do saber e de produção de bens e de serviços.

No âmbito da educação e da saúde, a acumulação do conhecimento, traduzido em tecnologias e indicadores da qualidade dos processos de trabalho, tem influenciado a organização do trabalho, exigindo que os trabalhadores adquiram novas habilidades de forma dinâmica.

O desenvolvimento tecnológico está associado à crescente demanda e às necessidades, qualitativa e quantitativa, de saúde das populações e requer incorporação de processos de educação permanente, vinculados a um programa de desenvolvimento das pessoas em uma realidade concreta de vida e de trabalho(1-2).

Assim, compreende-se que a educação é uma estratégia para que o indivíduo tenha maior capacitação e maior possibilidade de construir-se dentro do mundo do trabalho, como sujeito que constrói e desconstrói, em um movimento dinâmico e complexo mediado, por valores políticos, culturais e éticos.

A educação dos trabalhadores é fator essencial para o desenvolvimento da sociedade que vive em constantes transformações. No mundo do trabalho, a possibilidade de educação permanente deve contemplar a incorporação de novas tecnologias, e a própria pressão social deve desencadear processos que assegurem a cidadania. As necessidades emergentes de mudanças sociais e educacionais não se restringem a aspirações do adulto em um mundo de transformações. Elas se direcionam como demanda das próprias organizações sociais, que requerem a incorporação do processo de educação permanente, vinculado a programas de desenvolvimento(1). É necessário reconhecer que "hoje, muitos educadores, perplexos diante das rápidas mudanças da sociedade, na tecnologia e na economia, perguntam sobre o futuro de sua profissão, alguns com medo de perdê-la sem saber o que devem fazer"(3). O sistema educacional permanece, hegemonicamente, um sistema de treinamento subalterno para gente subalterna, desvinculando do aprender a aprender e do saber pensar. Com isso não emerge a qualidade buscada(4).

Neste trabalho o conceito de educação permanente é adotado como um contínuo de ações de trabalho-aprendizagem que ocorre em um espaço de trabalho/produção/educação em saúde, que parte de uma situação existente (geralmente uma situação-problema), e se dirige a superá-la, a mudá-la, a transformá-la em uma situação diferente e desejada(2).

Apesar de o hospital, cenário do estudo, há muitos anos contar com a capacitação em serviço, que tem como objetivo capacitar os trabalhadores de enfermagem para a assistência de qualidade, não alcançou a efetiva articulação das ações de capacitação com os processos gerenciais e assistenciais. Até o início deste estudo, em 2004, apesar dos esforços, não foi construída e utilizada uma metodologia que fosse coerente com os processos da educação permanente em serviço, tornando-se necessária a identificação dos mecanismos e instrumentos que articulem as atividades de capacitação no cotidiano do trabalho de enfermagem, ou seja, atividades inseridas no processo de trabalho da equipe de enfermagem.

Este estudo vem contribuir para a reflexão das ações educativas destinadas aos trabalhadores de enfermagem no hospital, cenário do estudo, com enfoque na finalidade, nos instrumentos e nos sujeitos responsáveis pelo cuidado de enfermagem. Os resultados do estudo deverão contribuir para que os trabalhadores de enfermagem reflitam sobre sua práxis considerando a integralidade, as possibilidades de exercer o cuidado sem fragmentá-lo em tarefas e/ou procedimentos. Além disso, poderá contribuir para definir novas modalidades, mecanismos e instrumentos da capacitação em serviço em articulação com a gerência e os setores assistenciais no hospital.

 

O OBJETO E MÉTODO DO ESTUDO

Ao analisar os conceitos e métodos dos processos de Educação Permanente em Saúde, é importante considerar que o serviço, o trabalho, a assistência, a educação e a qualidade (como reflexo do desfrute da cidadania na saúde) têm como finalidade e razão de ser contribuir para satisfazer as necessidades e demandas individuais e coletivas de saúde da população, como um processo de reflexão e crescimento da instituição em constante ciclo de mudanças e transformações(2).

Nesse processo de múltiplas determinações e relações, evidencia-se o papel fundamental das instituições de serviço para o desenvolvimento permanente das capacidades dos profissionais, contribuindo para o bem-estar social. Uma compreensão de relação entre a educação e o trabalho, "a educação tradicional e a nova têm em comum a concepção da educação como processo de desenvolvimento individual. Todavia, o traço original da educação deste século é o deslocamento de enfoques do indivíduo para o social, para o político e para o ideológico/ético. A pedagogia institucional é um exemplo disso. A experiência de mais de meio século de educação dos países socialistas também o testemunha. A educação, no século XX, tornou-se permanente e social. (...) Entretanto, as idéias universalmente difundidas, entre elas é a de que não há idade para se educar, de que a educação se estende pela vida e que ela não é neutra"(3).

O desafio da educação permanente é estimular o desenvolvimento da consciência nos profissionais sobre o seu contexto, pela sua responsabilidade em seu processo permanente de capacitação. Por isso, é necessário rever os métodos utilizados nos serviços de saúde para que a educação permanente seja, para todos, um processo sistematizado e participativo, tendo como cenário o próprio espaço de trabalho, no qual o pensar e o fazer são insumos fundamentais do aprender e do trabalhar. Independente da perspectiva que a educação contemporânea tomar, uma educação voltada para o futuro será centrada na educação crítica, reflexiva e transformadora, superando os limites impostos pelo Estado e pelo mercado, portanto, educação muito mais voltada para a transformação social do que para a transmissão cultural(3). Por isso, acredita-se que a pedagogia da práxis, como pedagogia transformadora, em suas várias manifestações, pode oferecer um referencial mais efetivo do que as pedagogias centradas na transmissão cultural.

O presente estudo objetiva analisar os efeitos das ações de educação permanente na qualidade de assistência de enfermagem, em um hospital privado, de grande porte, no município de Belo Horizonte, MG. Ao abordar o objeto deste estudo - educação permanente como uma ferramenta para a qualidade da assistência de enfermagem - optou-se por um estudo qualitativo, aceitando a definição das pesquisas qualitativas como "aquelas capazes de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais, sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas"(5).

Considerando as relações sociais e os processos de transformação existentes no cotidiano, que envolve a práxis dos profissionais da enfermagem, este estudo teve, como referencial teórico-filosófico, a dialética.

A formação das categorias analíticas foi sustentada pela experiência do pesquisador na capacitação dos profissionais de enfermagem e na revisão bibliográfica sobre o tema educação permanente, tendo como definição:
- processo de trabalho de enfermagem - esse processo é marcado pela divisão técnica do trabalho, integrando trabalhadores de diferentes níveis de escolaridade: auxiliares, técnicos de enfermagem e enfermeiro. A capacitação dos profissionais integra o pensar e fazer para garantir a qualidade da assistência de enfermagem e a satisfação do trabalhador em relação ao seu trabalho e finalidade do mesmo;
- educação permanente - é um processo educativo que ocorre no espaço do pensar e do fazer no trabalho. Tem como desafio estimular o desenvolvimento dos profissionais sobre um contexto de responsabilidades e necessidades de atualização, uma vez, que a educação permanente é um processo de reflexão e crescimento com ciclos de mudanças e transformações, considerando para isso o serviço, o trabalho, o cuidado, a educação e a qualidade da assistência;
- processo de articulação entre teoria e prática - a teoria e a prática interagem e se completam, pois a teoria precisa da prática para ser real e a prática da teoria para continuar inovadora. É através dessa interação articulada que ocorre a transformação do sujeito, fazendo-o aprender e interagir com o mundo.

A instituição cenário do estudo é um hospital de grande porte, com 334 leitos, divididos em dois blocos, interligados, totalizando 25 andares e quatro unidades externas, sendo: um local de atendimentos, de grande complexidade com dois Centros Cirúrgicos e um Obstétrico, Pronto-Socorro com atendimento para urgência de Clínica Médica, Pediatria, Cardiologia, Otorrinolaringologia, Cirurgia Plástica, Cirurgia Geral, Ortopedia, Neurologia, Geriatria, Oftalmologia e Ginecologia. Existem ainda Unidades de Internação, Berçário, UTIP (Unidade de Tratamento Intensivo Pediátrico), CTI (Centro de Tratamento Intensivo) e vários setores de diagnóstico e SECIH (Serviço de Epidemiologia e Controle de Infecção Hospitalar). O hospital foi inaugurado em 1º de junho de 1980. E, em 1996, teve início a sua expansão com a construção de um novo edifício, com 18 pavimentos, em 26 mil metros de área construída, triplicando a capacidade de atendimento do hospital.

O hospital tem como propósito a melhor qualidade de assistência, a satisfação do usuário, e dos trabalhadores. Como resultado desse esforço, em fevereiro de 2004, o hospital passou pelo processo de avaliação da Organização Nacional de Acreditação (ONA), com acreditação em nível três, que se caracteriza como nível de excelência. Diante desse título, o hospital passou a ser considerado um dos melhores hospitais do Brasil, levando em consideração que, até 2004, das trinta e três instituições hospitalares que passaram pelo processo da acreditação em todo país, somente duas fazem parte dessa categoria. A acreditação exige manter um processo de educação permanente que considere os avanços tecnológicos e as alternativas e modalidades assistenciais.

Foram definidos neste estudo, como sujeitos, os profissionais enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem que atuam no hospital cenário do estudo no 8º e 9º andares do bloco 2 e que tenham participado dos programas de capacitação da instituição. A gerente de enfermagem também fez parte dos sujeitos da pesquisa. Totalizando vinte e três convidados, com o comparecimento de dezessete profissionais.

A inclusão desses dois setores foi definida, juntamente, com a gerente de enfermagem, sustentando-se nos critérios de inclusão: unidades com equipes recém-formadas, com enfermeiras que envolvem a equipe no processo de capacitação e estão incluídas na definição das prioridades da política institucional. A realização deste estudo foi orientada pela Resolução 196/96, do Ministério da Saúde, obedecendo-se às exigências para a realização da pesquisa com seres humanos. Com autorização da diretoria do hospital, aprovação pelo comitê de ética de UFMG, e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido pelos sujeitos de pesquisa.

As questões norteadoras, em ordem de apresentação, foram: descreva o seu trabalho, no seu setor. Como é o seu trabalho, no seu setor? Como você se capacitou, ou capacita, para esse trabalho?

Para alcançar os objetivos propostos neste estudo, foram escolhidos instrumentos coerentes com o método e o objeto desta pesquisa. Assim, para a coleta de dados foram utilizadas técnicas de grupo focal e entrevista individual com as informantes chave. O grupo focal foi definido como técnica de entrevista coletiva, permitindo reflexão e interação dos grupos sobre uma pergunta orientadora proposta pelo pesquisador(6). As sessões do grupo focal foram gravadas e filmadas pelo pesquisador e, posteriormente, transcritas na íntegra por uma aluna da iniciação científica do NUPEPE (Núcleo de Pesquisa e Estudo sobre Ensino e a Prática de Enfermagem da Escola de Enfermagem da UFMG) e revisadas pelo pesquisador. A coleta de dados ocorreu entre os dias 14/06 e 19/06/2004.

Para o tratamento dos dados qualitativos, considerando a fundamentação teórica sistematizada da análise do discurso, que permitiu a compreensão dos fenômenos, onde "a linguagem contém uma visão de mundo, que determina nossa maneira de perceber e conceber a realidade e impõe-nos essa visão. A linguagem é como um molde, que ordena o caos, determinando o que é uma coisa, um conhecimento etc., cria uma imagem ordenada do mundo"(7). Os textos narrativos, resultantes das transcrições dos grupos focais e entrevistas, foram interpretados a partir da segmentação dos discursos o que permitiu ao autor perceber em cada uma de suas passagens as relações existentes entre eles, possibilitando a construção das categorias empíricas (processo de trabalho e educação permanente) que serão discutidas a seguir.

 

A EDUCAÇÃO PERMANENTE: UMA AÇÃO EDUCATIVA E TRANSFORMADORA

A relação do cuidado é uma interdependência baseada no dia-a-dia do profissional de enfermagem, "segundo a qual a ação do cuidar é interdependente e se constrói no cotidiano das atividades de enfermagem, na sua dimensão objetiva, na subjetividade de quem cuida e do ser cuidado e, através da mediação das interações de espaço-tempo, parte-se para pensar nessa construção nas suas dimensões individual e coletiva"(8).

A análise dos dados primários permitiu inferir que o cuidado está mais próximo do auxiliar e técnico de enfermagem do que no enfermeiro. Os enfermeiros estão mais preocupados com as questões administrativas, provocando distanciamento do cuidado. Dentro da questão administrativa, existe a preocupação dos enfermeiros com o prontuário e o controle dos materiais e medicamentos. Essa preocupação tem aderência com a origem da inserção da enfermagem nas instituições hospitalares com a função de reduzir custos. A imagem que se tinha da mulher na época do início da enfermagem era de um espírito caritativo e com o papel de administrar o lar sem questionar, ou seja, o surgimento dessa profissão vem com a função de controle, como se estivesse pensando em economia doméstica(9).

Mais recentemente, o controle dos custos está sendo assumido nas instituições com a "idéia da necessidade do controle rígido do custo, como inevitável para sobreviver em um ambiente competitivo entre prestadores de serviço, para o financiamento e para a clientela, advogando que só quem for econômico e satisfizer o cliente permanecerá"(10).

Os profissionais expressaram a preocupação quanto à exigência da instituição cenário do estudo, no que se refere ao controle dos insumos, controle de custo e registros. Os profissionais têm percepção de que exigências de controle têm deixado para o segundo plano a sistematização da assistência de enfermagem. Importante recomendar que o cuidado de enfermagem prestado pelo enfermeiro não deve ficar restrito a visitas para levantamento de queixas e realização de procedimentos, mas deve implantar mecanismos para assegurar que o enfermeiro garanta a integralidade e a qualidade da unidade.

As ações de controle e supervisão do trabalho dos auxiliares e técnicos de enfermagem estão muito direcionadas para a manutenção de um micromundo hospitalar, restrito ao enfermeiro que, de certa forma, é cobrado pelo funcionamento do mesmo, tanto administrativamente, nos controles e registros, como na assistência, voltada para satisfação do paciente, usuário e dos demais trabalhadores.

Apreende-se dos enunciados das enfermeiras entrevistadas que o enfermeiro analisa seu trabalho mais direcionado para as ações administrativas e manifesta frustração por não agir com maior presença em ações assistenciais. Cabe aqui um questionamento: será que não é uma forma de o enfermeiro manter o modus operandi hegemônico sem estabelecer estratégias para a superação do mesmo e a construção de uma nova prática cuidativa? Talvez por insuficiente capacitação para realizar as ações de assistência ou por sofrerem grande pressão, os enfermeiros controlam o processo de trabalho da forma pouco sistematizada, o que gera fragmentação na organização do processo.

A educação permanente dos profissionais deve constituir parte de pensar e fazer dos trabalhadores com a finalidade de propiciar o crescimento pessoal e profissional dos mesmos e contribuir para a organização do processo de trabalho, através de etapas que possam problematizar a realidade e produzir mudanças.

A análise dos dados permite inferir que os profissionais, auxiliares e técnicos de enfermagem vêem seu trabalho como um fator importante, porém, reforçam que é um trabalho difícil. Talvez por conviver com o sofrimento ou, ainda, por haver interação paciente/usuário e enfermagem centrada em relações de subjetividade da qual emergem vínculo, responsabilização, confiança, amizade, cumplicidade e, muitas vezes, conflitos.

A organização do setor com disponibilização de material, segundo os auxiliares e técnicos de enfermagem entrevistados, é de fundamental importância para a realização e a qualidade do cuidado. Quando os materiais não são disponíveis, ocorre comprometimento da qualidade do cuidado.

A análise dos dados dos entrevistados e das observações possibilita dizer que a organização do trabalho é um processo sistêmico e desencadeia relações de apoio e colaboração, produzindo a articulação do trabalho de enfermagem com o de outros setores que fornecem insumos para a qualidade do cuidado como: farmácia, CME (Central de Materiais Esterilizados), almoxarifado, nutrição e lavanderia. Verificou-se que existe necessidade de reorganizar o processo de trabalho nas unidades de internação com enfoque no cuidado centrado no usuário.

Os enfermeiros são vistos pelos auxiliares e técnicos de enfermagem entrevistados como referência para sanar dúvidas, ou para responder a questionamento sobre procedimentos realizados e dificuldades na incorporação de novas tecnologias. Outra forma descrita para aprender é aquela que se dá por meio do apoio dos outros colegas. Descreveram que existe, nesse caso, a possibilidade de aprender "errado", recebendo orientações não adequadas e/ou insuficientes de outro colega. A aprendizagem construída à parte das relações entre os colegas de trabalho pode deixar de ter um padrão na realização das técnicas. O procedimento padronizado busca segurança para os pacientes. Os enfermeiros são questionados quando um auxiliar ou técnico de enfermagem está realizando procedimentos diferentes em relação aos outros colegas.

Segundo os entrevistados, no momento do acompanhamento dos profissionais na realização das atividades, tem-se a oportunidade de aplicar a pedagogia da problematização, possibilitando a reflexão crítica do ato de cuidar e não somente a técnica a ser realizada. Nesse momento, é possível indagar o porquê de se fazer dessa ou de outra forma? A pedagogia da problematização pode favorecer a aprendizagem por contribuir para a continuidade na práxis, ou seja, na possibilidade transformadora da realidade(11).

A pedagogia problematizadora no processo de capacitação foi destacada como instrumento que permite aprendizado contínuo e respaldado na prática. Cabe, portanto, indagar se os enfermeiros conhecem e dominam essa concepção pedagógica e se há, por parte deles, tempo e interesse em desenvolvê-la.

A análise dos dados empíricos, gerados por este estudo, mostra desarticulação da capacitação realizada no hospital/cenário com o processo de trabalho do administrar e cuidar. Verificou-se que a desarticulação está diretamente relacionada à forma de realização das atividades de capacitação, a qual não possibilitou aos trabalhadores de enfermagem compreender o motivo de realizar determinada atividade e/ou procedimento no seu cotidiano de trabalho. Entretanto, constatou-se que algumas mudanças ocorreram no "setor de treinamento" em resposta às reflexões feitas pela equipe durante a realização do presente estudo. Foi proposta a mudança do nome de setor de treinamento para Educação Permanente. Essa mudança está sustentada em uma abordagem conceitual e metodológica que articula os processos de capacitação, a organização e o desenvolvimento no trabalho, considerando a cotidianidade desse e o pensar, o saber e o sentir dos trabalhadores de enfermagem.

 

SÍNTESE PROVISÓRIA: O INÍCIO DE UMA GRANDE CAMINHADA

Os processos de educação permanente impõem aos serviços e setores de treinamento/capacitação e de educação permanente das instituições de serviço de saúde a adoção de concepção pedagógica problematizadora, com o propósito de estimular a reflexão da prática e a construção do conhecimento.

O papel da educação permanente é estratégico para a organização do processo de trabalho de enfermagem em articulação com as demais práticas de enfermagem e demais setores do hospital. A educação permanente deve estar sustentada nos conceitos e metodologia crítica e reflexiva. Esse processo implica em reconhecer que as práticas rotineiras, descontextualizadas dos reais problemas, dificilmente permitirão o desenvolvimento da capacidade de reflexão(12). Pensar propostas inovadoras de educação permanente supõe um desafio de gerenciar experiências de aprendizagem que interessem as pessoas envolvidas, que possibilitem elos no processo de compreensão e construção dos conhecimentos, que promovam modos de pensar inteligentes, criativos e profundos, para favorecer o desenvolvimento pessoal e social, a capacidade reflexiva dos trabalhadores em serviço. Esses processos devem permitir aos trabalhadores aprender, no complexo mundo contemporâneo, todo elo, no contexto de uma aprendizagem solidária e democrática, que oferece ao profissional ajuda e tende a fortalecer processos de crescimento pessoal e transformação no âmbito profissional. A autonomia na aprendizagem desenvolve a capacidade de aprender a aprender e a consciência da necessidade da formação permanente.

Torna-se evidente a necessidade de um programa de capacitação dos enfermeiros para adotar a educação permanente, sustentada em concepção e que propicie o crescimento dos sujeitos, fundamental na determinação da qualidade do cuidado.

Recomenda-se que seja adotada a concepção da pedagogia crítico-reflexiva com metodologias que permitam a problematização das situações vivenciadas no dia-a-dia do trabalho, bem como a construção de intervenções que possibilitem as mudanças não somente dentro da instituição, mas na relação social do indivíduo como sujeito que presta o cuidado ao paciente.

Identifica-se, também, a necessidade de a instituição investir na capacitação do enfermeiro no campo da gerência, considerando que os auxiliares e técnicos de enfermagem manifestaram, entre outras, a preocupação de que o enfermeiro precisa se comprometer com o trabalho da equipe. A capacitação gerencial deve permitir ao enfermeiro a aquisição de competências na área político-gerencial, que permitam visão ampla e integral da instituição e ação mais pró-ativa, na sua relação com os demais trabalhadores de enfermagem, com os outros profissionais da instituição e com o paciente.

Apresenta-se, como proposta, utilizar a sistematização da assistência de enfermagem para planejamento, execução e avaliação do cuidado. Nesse contexto, o controle poderia ser mais eficaz, sendo possível para o enfermeiro a visão do todo e a concretização da realização do seu objeto - o cuidado.

Este estudo não se torna acabado em nenhum instante, uma vez que veio para ampliar as reflexões sobre a capacitação e o processo de trabalho dentro de uma instituição hospitalar, tendo em vista a educação permanente em enfermagem como ferramenta para a qualidade da assistência.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em: 11.3.2005
Aprovado em: 29.5.2006

 

 

1 Trabalho extraído da Dissertação de Mestrado