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Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702

Educ. Pesqui. vol.31 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022005000300008 

EM FOCO: PESQUISA-AÇÃO SOBRE A PRÁTICA DOCENTE

 

Apresentação

 

 

No processo contínuo de construção de conhecimentos sobre a prática docente, instala-se a crescente compreensão da inadequação entre os fundamentos da metodologia de base cartesiana e os pressupostos de uma epistemologia crítica da prática docente. Nesse processo, vai se clarificando a emergência de novas concepções sobre a prática docente, o que colocará em evidência o professor que deve e pode ser reflexivo, bem como que não há saídas prescritivas à prática docente, mas soluções formativas, afinadas com teorias pedagógicas com finalidades emancipatórias.

O processo de formação do professor reflexivo vai, aos poucos, requerendo um novo enfoque às metodologias investigativas, pautado em procedimentos científicos que permitam aos pesquisadores não só apreenderem e compreenderem a prática reflexiva, mas construí-la em processo. Nas duas últimas décadas, tem se presenciado, tanto no Brasil como em diversos países, movimentos, estudos e investigações que valorizam metodologias de pesquisa que incluam os práticos como co-protagonistas nos procedimentos de pesquisa e de autoformação.

Na dimensão da prática docente, os estudos têm superado os pressupostos da racionalidade técnica e caminhado na direção de uma racionalidade crítica. Tais estudos passam a revalorizar a articulação entre teoria e prática na formação inicial e continuada de docentes, no pressuposto do reconhecimento da importância dos saberes da experiência, intensificados pela reflexão crítica, com vistas à melhoria da prática docente, que é ressignificada como uma prática social que se faz e se reconstrói em diálogos com suas circunstâncias. Vista dessa forma, essa prática solicita autores, requer protagonistas, pretende exercer-se por meio de sujeitos que se expressam, que se comunicam, que assumem as transformações que a realidade impõe.

Nessa perspectiva de diálogo e formação, as transformações da prática passam a ser consideradas como sínteses de mediações, continuamente renovadas, entre ação e reflexão e requerem o papel ativo do professor construindo o seu próprio desenvolvimento profissional.

Essa nova maneira de conceber a prática requer que os docentes apropriem-se de saberes que vão adquirindo em processos reflexivos com o coletivo dos profissionais e em contínuo diálogo com as teorias.

Nessa perspectiva, ampliam-se os estudos que admitem a relevância da participação dos sujeitos da prática como colaboradores, interlocutores ou mesmo co-autores na elaboração de conhecimento científico sobre os sentidos do fazer profissional.

A legislação que subsidia políticas públicas de formação de professores no Brasil já considera que pesquisadores e docentes têm muito a ganhar quando caminham e refletem juntos, articulando saberes mútuos que dão novo significado às pesquisas e qualificam o trabalho e a formação dos docentes. Esse caminho partilhado pode perspectivar a produção de uma nova ética, que estruture de forma mais coletiva as relações entre teoria e prática, respeitando e recriando uma nova cultura democrática no processo de pesquisa e de formação docente.

As atuais abordagens de pesquisa-ação, voltadas à formação de docentes, têm procurado romper com a perspectiva positivista da elaboração do conhecimento em educação. Esse rompimento acontece especialmente no espaço em que a pesquisa positiva, fundada na experimentação, postula-se neutra e autônoma em relação à realidade social. Historicamente, a pesquisa-ação tem assumido uma postura diferenciada diante do conhecimento, uma vez que busca, ao mesmo tempo, conhecer e intervir na realidade pesquisada. Essa imbricação entre pesquisa e ação faz com que o pesquisador, inevitavelmente, faça parte do universo investigado, o que, de alguma forma, rompe com a possibilidade de uma concepção de neutralidade e de controle das circunstâncias de pesquisa.

As formas de fazer pesquisa-ação vão, historicamente, assumindo múltiplas e variadas vertentes. Ainda há hoje, no Brasil, muita controvérsia sobre as possibilidades da formação do professor-pesquisador e, mais que isso, das possibilidades de se realizar uma pesquisa na qual o investigador seja, ao mesmo tempo, aquele que pesquisa, aquele que participa, aquele que constrói, no coletivo das práticas, o conhecimento educacional.

No entanto, o exercício dessa forma de pesquisa tem sido cada dia mais intenso no universo educativo e isso parece referendar que os espaços de distanciamento, entre a pesquisa acadêmica e a prática docente, começam a diminuir sensivelmente, ao mesmo tempo em que os espaços de diálogo entre pesquisadores e práticos vão se consolidando e fazendo parte das preocupações de uns e expectativas dos outros, o que por certo produzirá uma ressignificação mútua dos saberes da prática e dos conhecimentos da área.

Essa relação que, em última instância, refere-se à articulação entre teoria e prática, pesquisa e formação, está ainda permeada de não ditos, de dúvidas e de contradições, entre as quais, destacam-se:

  • quais os limites que se impõem entre a ação docente e a pesquisa?
  • como conciliar os papéis de pesquisador-colaborador e docente-colaborativo?
  • como colocar a questão do colaborativo em caminho de mão dupla, do docente ao pesquisador e do pesquisador ao docente, numa relação que é, sabidamente, hierárquica, permeada de conflitos e de relações diferenciadas de poderes?
  • como distinguir, na prática, a ação pesquisada de uma pesquisa-ação?

Pensando nessas e em outras dissonâncias, inerentes à prática da pesquisa-ação na formação docente, é que convidamos alguns autores a refletirem sobre as potencialidades e perspectivas dessa metodologia de pesquisa quando aplicada à prática docente. Seus artigos representam uma parte desse vasto universo, em que distintas perspectivas teóricas coexistem.

David Tripp, professor da Murdoch University na Austrália, escreveu o artigo Action research: a methodological introduction, em que analisa as possibilidades metodológicas dessa forma de investigar, pautada em diversas pesquisas que vem realizando junto a professores. O autor estrutura seu texto a partir de onze características dessa metodologia, por meio das quais vai traçando um contínuo entre uma ação que se realiza, uma ação que se pesquisa e uma pesquisa-ação de cunho científico. Considera diferentes tipologias de pesquisa-ação e comenta as dificuldades de um relatório científico desse processo investigativo.

Interrogando sobre as possibilidades dessa forma de pesquisa contribuir para a profissionalização do professor, Gilles Monceau, professor de Ciências da Educação da Universidade de Paris VIII, escreve um artigo sobre Transformer les pratiques pour les connaître: recherche-action et professionnalisation enseignante, em que discute as implicações entre a pesquisa-ação e a prática docente, referendando a importância de um procedimento que atua no coletivo dos profissionais. Considera o autor que a pesquisa-ação encontra-se em processo de redefinição a partir dos aportes da pesquisa socioclínica e dos estudos em andamento sobre o professor pesquisador.

Maria Amélia Santoro Franco, coordenadora do Mestrado em Educação da Universidade Católica de Santos, traça um panorama amplo e detalhado da bibliografia referente à pesquisa-ação, descrevendo e analisando suas principais vertentes. Discute as dimensões ontológica, epistemológica e metodológica dessa forma de pesquisa e analisa a possibilidade de sua aplicação no campo das práticas educativas e, para tanto, propõe procedimentos para sua operacionalização, num processo crítico que denomina de pedagogia da pesquisa-ação.

Baseado em trabalhos recentes que vem desenvolvendo, Rafael Avila Penagos, professor de Educação da Universidade Pedagógica na Colômbia, considera que o princípio fundamental para a operacionalização de uma investigação-ação pedagógica (IAPE) é o da reflexividade. Em seu artigo, La producción de conocimiento en la investigación acción pedagógica (IAPE). Balance de una experimentación, argumenta que qualquer proposta voltada à investigação-ação deverá ter por princípio a produção de condições para o exercício da reflexão coletiva. Considera que essa forma de investigação permite ao professor sair de seu isolamento e integrar-se ao coletivo; e mais que isso, permite que as práticas pedagógicas saiam do ocultamento e se coloquem no âmbito da discussão pública.

Marília Gouvea de Miranda, professora na Faculdade de Educação da UFG, e Anita C. Azevedo Resende, professora na Faculdade de Educação da UFG e do Departamento de Psicologia da UCG, apresentam ensaio Sobre as armadilhas do praticismo na pesquisa-ação, em que discutem as potencialidades e os limites da pesquisa-ação, alertando o leitor para as armadilhas do praticismo e da instrumentação da teoria. Para tanto, analisam os pressupostos epistemológicos da investigação educativa, situando os impasses das ciências humanas e sociais frente às relações entre sujeito e objeto, teoria e prática, no mundo moderno.

Com base em duas experiências que coordenou junto a equipes pedagógicas da universidade com escolas públicas no estado de São Paulo, Selma Garrido Pimenta, diretora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, escreve o artigo Pesquisa-ação crítico-colaborativa: construindo seu significado a partir de experiências com a formação docente, em que analisa o processo de reconfiguração do sentido e do significado da pesquisa-ação como pesquisa crítico-colaborativa. O artigo reflete os desdobramentos que foram ocorrendo no próprio processo de pesquisa, a partir do qual a autora discute a pertinência da metodologia adotada e seu potencial de impacto na formação e atuação docente.

 

Maria Amélia Santoro Franco