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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.18 no.2 Ribeirão Preto mar./abr. 2010

https://doi.org/10.1590/S0104-11692010000200004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Produção de subjetividade e sexualidade em mulheres vivendo com o HIV/Aids: uma produção sociopoética

 

 

Arisa Nara Saldanha de AlmeidaI; Lia Carneiro SilveiraII; Maria Rocineide Ferreira da SilvaIII; Michell Ângelo Marques AraújoIV; Terezinha Andrade GuimarãesV

IEnfermeira, Mestranda, Universidade Estadual do Ceará, CE, Brasil. Bolsista CAPES. E-mail: arisinha2003@yahoo.com.br
IIEnfermeira, Doutor em Enfermagem, Professor, Universidade Estadual do Ceará, CE, Brasil. E-mail: silveiralia@gmail.com
IIIEnfermeira, Doutoranda em Saúde Coletiva, Universidade Estadual do Ceará, CE, Brasil. Professor, Universidade Estadual do Ceará, CE, Brasil. E-mail: rocineideferreira@gmail.com
IVEnfermeiro, Doutorando em Enfermagem, Universidade Federal do Ceará, CE, Brasil. Professor, Faculdade Católica Rainha do Sertão, CE, Brasil. E-mail: micenf@yahoo.com.br
VPsicóloga, Mestre em Saúde Pública, Hospital São José de Doenças Infecciosas, CE, Brasil. E-mail: terezinha_andrade@terra.com.br

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi apreender as possibilidades de produção de subjetividade acerca da sexualidade em um grupo de mulheres vivendo com o HIV/AIDS, a partir do método da sociopoética. Os sujeitos foram nove mulheres com HIV/AIDS assistidas no hospital público de referência para doenças infecciosas de Fortaleza, CE. Os resultados apontam que a sexualidade aparece em várias dimensões: no ato sexual, no conhecer o próprio corpo, na realização profissional, nos sentimentos de desejo e amor, além do sentimento de liberdade. Conclui-se que a sexualidade se encontra na totalidade do indivíduo, ela não se limita à questão do ato sexual, vai muito mais além e se configura como realidade dinâmica.

Descritores: Sexualidade; Mulheres; Síndrome de Imunodeficiência Adquirida.


 

 

Introdução

O aumento da contaminação pelo vírus da AIDS vem cada vez mais atingindo mulheres, de baixa renda e escolaridade, em idade reprodutiva e de comportamento heterossexual, revelando que “não existem mais populações de risco, mas um conjunto de fatores que levam pessoas a contrair o vírus”(1). Esses fatores estão relacionados a problemas estruturais subjetivos e objetivos como pobreza, violência, baixa escolaridade, iniquidade de gênero, falta de acesso aos serviços de saúde, entre outros.

Além dessas estratificações macro, percebe-se também micromodelações, de caráter subjetivo, que passam a acompanhar o imaginário da AIDS: a angústia e o medo com a proximidade daquilo que é desconhecido, a dificuldade para descristalizar territórios já estabelecidos como também a necessidade de lidar com a própria sexualidade.

A sexualidade é uma dimensão da vida humana que se sabe ser profundamente determinada pelo contexto sociocultural em que acontece(2). Além disso, vale ressaltar que ela não se dá a partir de uma ordem natural e inata, mas é criada e construída por meio da sedimentação de identificações sucessivas em diversos níveis (simbólico, imaginário e fantasmático), resultado de encontros desse sujeito com o significante(3).

Nesse contexto, em pessoas vivendo com o HIV/AIDS, a maneira de lidar com a vida e com a sexualidade assume diversas conotações. É imprescindível conhecer o que as vivências de mulheres portadoras do HIV/AIDS têm em comum e o que é específico a cada uma para o enfrentamento das dificuldades decorrentes da doença.

Assim, levando em consideração a produção de subjetividade em mulheres vivendo com o HIV/AIDS, faz-se necessário questionar: como essas mulheres reconstroem sua subjetividade, sua sexualidade e seu processo de singularização ao conviver com a AIDS.

Dessa forma, essa proposta tem como objetivo apreender as produções de subjetividades e os novos conceitos sobre sexualidade em um grupo de mulheres vivendo com o HIV/AIDS, a partir do método da sociopoética.

 

Construindo o caminho: método da sociopoética

Trata-se de pesquisa qualitativa, sendo que o objetivo do pesquisador não é resolver uma questão empírica (embora seja possível o surgimento de propostas práticas), mas, sim, de examinar as “verdades” normativas que permeiam o contexto histórico, desempenhando papel de desconstrução do que está posto e a abertura para novas produções a partir da consciência crítica, tanto por parte dos/as participantes como do/a pesquisador/a(4).

Partindo dessa delimitação conceitual, chegou-se à inquietação que diz respeito à maneira de abordar a produção de subjetividade no campo de interseção sexualidade/AIDS e na busca de um método que permitisse mergulhar nesse processo sem, no entanto, congelá-lo. Encontrou-se na sociopoética os instrumentos e as técnicas necessárias para operacionalizar esse objetivo.

A sociopoética é abordagem de pesquisa que pretende analisar criticamente a realidade social, possibilitando trabalhar as transversalidades dos desejos e poderes que agem na vida social(5). Para que isso seja possível, cabe ao facilitador utilizar-se de dispositivos, ou seja, montagens ou artifícios que propiciem o surgimento de inovações, de diferenças, de singularidades. Os dispositivos podem ser caracterizados por um fato, uma pessoa, um tempo, um objeto ou uma tarefa que intervém durante a pesquisa, permitindo multiplicar as respostas e reações, já institucionalizadas, frente a determinada situação.

Etapas da pesquisa

O método proposto pela sociopoética e que foi utilizado neste estudo é o do grupo-pesquisador, cuja proposta valoriza o aspecto político da produção do conhecimento em saúde ao promover nova relação de forças, revertendo o modelo baseado na verticalidade de um pesquisador que interpreta a fala dos sujeitos, impondo sua palavra como final. Nesse momento, aquele que antes era assujeitado como objeto do saber médico, passa a ser sujeito na produção de conhecimento acerca do processo saúde-doença, valorizado em sua autonomia(6). Detalhes das etapas da pesquisa estão mostradas a seguir.

Negociação

O local de escolha para a realização dos estudos foi um hospital público de referência para doenças infecciosas do município de Fortaleza, CE. Os sujeitos da pesquisa foram mulheres com HIV, assistidas pela mesma instituição. Os critérios para inclusão foram: ser assistida no ambulatório de aconselhamento de HIV/AIDS da referida instituição, durante o mês de maio de 2007; ser soropositiva para o HIV; residir na cidade de Fortaleza; ter idade mínima de 18 anos e ter disponibilidade para participar da pesquisa. Foi realizada oficina de negociação no dia 15/6/2007 com todas as mulheres contactadas, onde foi apresentada a proposta da pesquisa e identificadas as possíveis interessadas em participar. No final, aceitaram participar do estudo nove mulheres.

A produção dos dados

Esse momento de produção vem romper com as práticas instituídas de pesquisa, em que o sujeito da pesquisa é explorado e alienado como mero fornecedor dos dados da pesquisa. Por isso, na pesquisa sociopoética fala-se em “produção de dados” e não em “coleta de dados”. Acredita-se que o conhecimento vai sendo construído, coletivamente, entre o pesquisador e o sujeito da pesquisa(6). A produção deu-se com a realização de oficina, na qual se utilizou de técnicas/dispositivos que permitiram fazer funcionar os princípios da sociopoética. A oficina começou com uma atividade de preparação corporal (relaxamento) e, em seguida, teve início a produção dos dados, onde foi utilizada a técnica do “bicho da sexualidade”, na qual cada copesquisadora escolhe um animal que esteja associado à sexualidade. Em seguida, cada mulher pintou seu animal na tela de tecido, com posterior discussão acerca do tema, buscando resgatar conhecimentos oriundos da razão, intuição e emoção. As falas foram gravadas e transcritas para se realizar a terceira etapa. A oficina teve duração de duas horas.

Análise dos dados

Nesse momento também a participação do grupo-pesquisador é a chave do processo. Essa etapa ocorreu em uma oficina específica, onde o grupo realizou a análise, comentando os dados produzidos a partir de seus referenciais de vida. Posteriormente, o pesquisador responsável pela pesquisa também realizou suas análises individualmente, utilizando-se de ângulos diferentes. Nessa fase, foi realizada a análise da produção verbal do grupo, de acordo as técnicas de análise propostas pela sociopoética: análise classificatória, transversal e filosófica.

Foi garantido às pessoas que se disponibilizaram a participar do estudo o sigilo de identidade, assim como o direito de desistência caso não se sentissem aptas ou com interesse suficiente sobre o assunto para participarem. Assegurou-se os princípios descritos na Resolução nº196/96 que trata de pesquisa envolvendo seres humanos. E, para garantir os preceitos éticos, a pesquisa foi submetida à apreciação do comitê de ética da instituição onde se realizou o estudo e obteve parecer favorável, sob Protocolo n.005/2007 (CEP-HSJ).

 

Apresentação das categorias: o bicho da sexualidade

O primeiro tratamento dos dados verbais é feito através da categorização das falas, procurando identificar palavras-chave, cortando e classificando os dados de acordo com suas relações de compossibilidade (análise classificatória). Esse momento é aquele que permite identificar as séries e perceber como se distribuem. Procurou-se organizar as falas de acordo com os temas que emergem da própria fala do grupo. Em seguida, buscou-se as convergências, divergências, oposições e complementaridades, resultando as seguintes categorias: 1- sentimentos atribuídos ao relaxamento; 2 - sentidos atribuídos ao bicho da sexualidade; 3 - sentidos atribuídos à sexualidade; 4 - sentidos atribuídos à soropositividade; 5 - sexualidade e corpo e 6 - maternidade e HIV.

Após a categorização das fala, realizou-se a análise transversal, a qual busca ligar aquilo que foi separado na análise anterior, geralmente produzindo um texto mais poético que se propõe a buscar as relações entre as falas de uma mesma categoria e entre categorias diferentes. Esse momento é inspirado no pensamento intuitivo e fluido, onde se vai juntando trechos da própria fala do grupo-pesquisador para criar um texto único. O texto originário desta pesquisa será apresentado a seguir.

 

Análise transversal - sexualidade x HIV, que bicho é esse?

A produção do grupo foi iniciada com relaxamento, quando foram vivenciadas várias sensações, desde um momento gostoso, de paz, lembranças de infância, reflexões sobre a vida, até lembranças de um passado sofrido. Em meio a essas emoções, nem todo mundo conseguiu se voltar para a proposta de criação do bicho da sexualidade.

Tudo que era possível falar, nesse momento, era sobre uma casa grande e bonita, mas (...) vazia. A vida pode ser assim, grande e vazia, e aí você precisa procurar ajuda lá fora, encontrar outras pessoas, ajudar quem sofre, levantar o astral. De outra forma não dá para suportar a dor: a dor de ficar sozinha, a dor de um passado insuportável que assola a casa como uma árvore grande e seca. Faz parte da história. A falta de carinho pode ser o mais pesado desse passado ou, ainda, uma violência como o estupro.

Por falar em carinho, pode-se afirmar que ele é até mais importante que a relação sexual em si, pois sexualidade não é só sexo selvagem. É sentir prazer em fazer qualquer coisa, em ficar ao lado de uma pessoa, é ficar conversando, se tocando. É ter do seu lado uma pessoa que cuida, que se preocupa, que lhe admira. Existem ainda pessoas que fogem do sexo, que não sentem nenhum prazer na relação sexual, pois o sexo não é só esse mar calmo e tranquilo. Também pode ser um mar intenso que, de tão quente, pode assustar. É um mar de muito prazer, o prazer de uma mulher prazerosa, plena.

Esse mar pode se transformar em tormenta quando suas águas se misturam com as águas trazidas pelo HIV. São águas de lágrimas que a transformam numa pessoa sem ânimo para nada, sem gosto pela vida. A descoberta da soropositividade vem como um choque, inundando a pessoa de sentimentos negativos, dúvidas e medo. É uma luz que está prestes a queimar, ela acende e apaga, levando a vontade de viver. Nesse momento o apoio da família é essencial. Porém, muitas mulheres não encontram esse apoio, mas, sim, o preconceito daqueles que viram as costas a elas. O importante é que, com o tempo, você consegue erguer a cabeça e fazer planos para o futuro e viver intensamente.

Mas, nem todo mundo percebe o HIV como a pior parte: o pior é conviver com as lembranças do passado, coisas que machucam mais do que o HIV. E, embora possa parecer contraditório, existe até quem se sinta mais feminina, mais mulher, mais fêmea, depois do HIV que antes dele, soltando toda sua sexualidade.

As relações entre homem e mulher, após a descoberta do vírus, também não são fáceis. Acontece haver, por vezes, sentimento de revolta, de desgosto, de nojo. Porque é difícil nascer mulher, namorar, se envolver e de repente ter um pênis entrando em você e lhe contaminando com um vírus. Nesse caso, passam tantas coisas terríveis pela cabeça que se pode chegar a nunca mais querer ter sexo.

Para muitas mulheres o sentimento de raiva é tão grande que elas não conseguem perdoar. Como pode o seu companheiro saber da existência do vírus, mas mesmo assim não prevenir a esposa? Muitos deles nem aceitam que a esposa sugira o uso do preservativo, pois acham que estão sendo traídos. Mesmo assim, a mulher tem que exigir, mesmo sendo os dois sejam soropositivos, mesmo que seja meia-noite, tem que procurar o preservativo e usar, pois só quem passa por essa doença sabe o que ela provoca.

Dentre os efeitos da AIDS, os mais temidos são os que aparecem no corpo: o medo de ficar feia, magra e queda do cabelo. As mulheres vaidosas adoram cuidar de seu corpo e os efeitos da AIDS podem afetar muito sua sexualidade. Afinal, sexualidade não é só sexo: é você conhecer seu corpo, é viver o corpo. São os momentos de realizações, nos sentimentos de prazer e amor, no estar bem consigo mesma, no desejo e no prazer de trabalhar. É você ter liberdade de escolha.

Outra questão difícil de lidar entre a sexualidade e a AIDS é a maternidade. No período gestacional, a mulher se encontra bastante sensível e, nesse caso, tendo que enfrentar as dúvidas, os medos, as incertezas do HIV. É um sofrimento para a mãe saber que quem vai infectar o seu bebê é ela, e não o pai, o homem que a infectou. Enfim, viver a sexualidade pode ser assumir vários bichos: a sexualidade pode ser um pássaro fiel, que constrói seu ninho e forma a família. Pode ser sensível e carinhosa como uma ovelha ou um gato (e por que não uma cobra?). Pode ainda ser uma vaca forte, que cuida e alimenta. Pode ser também um coelho que, com medo de ficar magro, come sem parar. Mas pode também ser uma borboleta, livre para voar.

 

Discussão dos dados: análise filosófica

Nesse momento, é apresentada, aqui, a análise filosófica como proposta pelo método da sociopoética. O conhecimento produzido pelo grupo é de caráter filosófico, pois favorece a criação de novos questionamentos ou de novas maneiras de problematizar a vida, levando à criação de confetos (neologismo que liga conceitos e afetos)(5). Sendo assim, a análise filosófica é um exercício de escuta sensível à fala do grupo, tentando identificar as ideias que se tornam confetos. Além disso, nessa análise há a possibilidade de aproximar o conhecimento produzido pelo grupo-pesquisador com reflexões teórico-filosóficas de outros autores ou correntes, buscando suas correlações e divergências.

Ao retomar o discurso do grupo-pesquisador, identificou-se os vários confetos produzidos sobre a sexualidade, ou seja, os novos conceitos emergidos acerca do tema. Um dos confetos ressaltado foi o da casa grande e vazia. Esse confeto vem relacionar a sexualidade com o contexto da história de vida de cada sujeito. Ou seja, o significado da vida pode ser assim, grande e vazio. E, nessa casa, o que é mais insuportável são as lembranças do passado, acontecimentos traumáticos, experiências de carência e falta de afetividade. Segundo o grupo-pesquisador, essas experiências deixam traumas irreparáveis.

As numerosas narrativas de traumas infantis correspondem a uma realidade psíquica e não a um abuso realmente sofrido(7). O filhote do ser humano necessita invariavelmente de atenção e cuidados para sobreviver. Mas não é apenas de cuidados físicos que ele precisa. Há também, por parte do pequeno sujeito, demanda ilimitada de amor. Entretanto, exatamente por ser ilimitada essa demanda nunca pode ser plenamente satisfeita. Além disso, todo cuidado de que é objeto (como o toque dos cuidados maternos que provê a higienização do corpo) pode ser experimentado pelo bebê como um excesso e, como tal, traumático.

O livro “O Corpo Educado: pedagogias da sexualidade”(8) argumenta que, embora o corpo biológico seja o local da sexualidade, ela é mais do que simplesmente o corpo, sugerindo que o órgão mais importante nos humanos é aquele que está entre as orelhas. Assim, a sexualidade tem tanto a ver com nossas crenças, ideologias e imaginações quanto com o nosso corpo físico. Ainda, segundo o autor, a sexualidade é modelada por duas preocupações principais: a nossa subjetividade (quem e o que somos) e a sociedade (com a saúde, a prosperidade, o crescimento e o bem-estar da população como um todo). As duas estão intimamente conectadas porque no centro de ambas está o corpo e suas potencialidades(8).

O grupo-pesquisador também corrobora essa ideia mais ampliada de sexualidade ao afirmar que sexualidade é você sentir prazer em fazer qualquer coisa, em ficar ao lado de alguém, conversar, se tocar.

Outro confeto identificado na produção do grupo é o do mar calmo e intenso. Esse mar é calmo, pois muitas mulheres fogem do sexo, não sentem prazer nas relações sexuais. Porém, esse mar também é intenso, um mar de muito prazer que, quando se junta com as águas trazidas pelo HIV, se toma turbulento. Essas águas são lágrimas de pessoas que, ao se depararem com o vírus do HIV, se transformam em pessoas apáticas para a vida. A descoberta da soropositividade vem inundada de sentimentos negativos, de medo, de dúvidas e de morte. Além disso, os piores efeitos da AIDS são revelados no corpo: medo de ficar magra, de ficar feia e do cabelo cair.

Os sentimentos referidos com a revelação da soropositividade são: culpa, remorso, arrependimento, revolta, medo, desespero, desejo de suicídio, negação frente à aceitação do diagnóstico, raiva, agressividade, dificuldades para a atividade sexual, perda do desejo sexual. Sendo assim, as pessoas vivendo com HIV/AIDS precisam lutar em defesa da vida, em defesa da sua singularidade e diferenças, construir a sua cidadania feita por argamassa constituída de sensibilidade, afetividade, igualdade e solidariedade(9-10).

Observa-se que esse encontro com o HIV, vivenciado por alguns seres humanos, é muitas vezes manifestado por sentimentos de angústia. Essa angústia presente nos pacientes soropositivos também tem relação com a confrontação do desconhecido, que se mostra antecipadamente durante a vida e que, quando for conhecido, não haverá seguimento da mesma(11). Além disso, o preconceito social e a presença da morte também contribuem para esse sofrimento. O texto “Nossa atitude para com a morte” reforça que nunca se está suficientemente pronto para aceitar a morte. No inconsciente, o ser humano está convencido da imortalidade, pois vive na impossibilidade de pensar e de falar sobre uma experiência pela qual nunca passou(12). De fato, é impossível imaginar a própria morte e, sempre que se tenta fazê-lo, pode-se perceber que ainda se está presente como espectador.

Alem disso, diante da forma como o vírus é transmitido, algumas mulheres bloquearam seu desejo sexual, não conseguindo ter prazer em suas relações. A sexualidade reflete toda a expressão emocional da vivência, ao mesmo tempo que incorpora significado influenciado pelo momento histórico vivenciado(13).

A sexualidade é também trazida, aqui, através de um corpo renegado pela mulher, pois é um corpo doente. Dessa forma, os sentidos que se pode dar ao corpo e às suas possibilidades sexuais tornam-se, de fato, parte vital da formação individual, seja quais forem as explicações sociais(8).

Passa-se, aqui, então, ao confeto de mulher prazerosa – é a mulher que gosta de ter prazer. É aquela mulher quente que gosta de ter relação sexual. Nesse confeto, a sexualidade se volta para a questão da genitalidade, da relação homem/mulher, a busca de prazer. Essa relação faz parte do pensamento hegemônico acerca da sexualidade.

A sexualidade, no confeto acima, é reduzida à genitalidade, ao ato sexual, à reprodução, ou seja, a componentes estritamente biológicos, relativos à necessidade meramente orgânica. Essa linha de pensamento vem sendo construída desde a ciência ocidental a qual tem se ocupado do ato sexual e não na sexualidade. Aos processos subjetivos não é dada a devida atenção e os estudos centram-se na medicalização do sexo, ou seja, o corpo humano como máquina.

A sexualidade ocidental é mostrada como produto de uma construção, controle e perpassada pela produção de saber, caracterizada inicialmente pela obtenção de informação, construção de normas morais de conduta e de saberes relativos à prática da sexualidade(14).

Já na década de 90 do século XIX, o fundador da psicanálise elaborou nova concepção de sexualidade, ou seja, entendida como manifestação de ocorrência infantil e estruturante do comportamento do indivíduo durante a vida(15). Deve ser lembrado que a manifestação da sexualidade está vinculada à singularidade psíquica de cada um. Assim, a cada sujeito cabe tentar responder ao enigma que sua própria sexualidade lhe impõe – resposta essa que é única como é único cada ser humano(3).

Outro confeto emergido foi o significado do pênis – o significado diante da soropositividade é de nojo. Nojo por ser ele o elemento que transporta o vírus para dentro da vagina, através do esperma. São tantos sentimentos que perpassam o ser mulher, no primeiro momento, que ela não quer ter nunca mais o pênis dentro de si. Difícil é perdoar! Principalmente, quando o parceiro transmite já sabendo que tem o vírus. E ainda tem o preconceito de alguns que mulher casada não precisa usar camisinha, caso use é sinal de traição.

Esse confeto vem ressaltar o nojo ao pênis diante de uma situação traumática, a soropositividade ao HIV. Percebe-se o sentimento de angústia ao imaginar a penetração do pênis na vagina da mulher, pois, junto, vem o esperma que leva o vírus. A inibição genital se traduz na vida sexual do histérico, não, como se poderia supor, por indiferença perante a sexualidade, porém, na maioria das vezes, por aversão, um verdadeiro nojo de qualquer contato carnal(16).

O último confeto foi maternidade/HIV – esse confeto trata dos sentimentos e sensações vivenciados durante a gravidez de mulheres soropositivas. Esse momento é marcado por profundas sensações de dúvida, medo e incerteza. É um trauma para a mãe saber que seu bebê corre o risco de ser contaminado por ela. Dessa forma, o sentimento mais perturbador é o medo de transmitir para o filho.

Percebe-se ,nesse confeto, circunstância de profunda angústia, pois dois momentos contraditores habitam um mesmo cenário: vida e morte. A vida surge na concepção do filho, onde o medo de contaminar seu filho é marcado por sensações de sofrimento. E nesse medo de transmissão para seu filho surgem, também, as incertezas e o sentimento de morte. Essas duas percepções paradoxais, vida e morte, coabitam no inconsciente dessas gestantes, gerando enorme angústia(11).

 

Considerações finais

Pode-se observar que falar de sexualidade com mulheres, vivendo com HIV e ainda usando uma estratégia de grupo, ocasionou, num primeiro momento, sentimentos de hesitação e dificuldade de expressão, além de ser tema que emociona muito. No entanto, percebe-se, também, a importância desse momento para algumas mulheres. Trata-se de oportunidade para tentar verbalizar experiências dolorosas que precisam ser significadas.

Na produção do grupo-pesquisador a sexualidade aparece em várias dimensões: no ato sexual, no conhecer o próprio corpo, na realização profissional, nos sentimentos de desejo, amor e nojo, na relação com a maternidade, entre outras. Sendo assim, ela não se limita à questão do ato sexual, vai muito mais além e se configura como realidade construída simbolicamente.

Pôde-se, com este estudo, perceber como a sexualidade é significada a partir da vivência de cada um e enquanto para algumas mulheres, vivendo com o HIV, a sexualidade é representada como algo cotidiano, que faz parte de suas vidas, para outras, ela faz parte apenas da vida das mulheres saudáveis, não sendo permitida sua vivência para mulheres com HIV.

Entende-se, aqui, que a realização desse tipo de estudo junto às mulheres com HIV/AIDS tem sua importância marcada principalmente pelo fato de possibilitar a essas mulheres se apropriarem de suas próprias verdades, construindo um saber acerca de experiência que contemple a dimensão subjetiva, tantas vezes excluída no saber médico-científico.

 

Referências

 

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Endereço para correspondência:
Arisa Nara Saldanha de Almeida
Universidade Estadual do Ceará
Rua Paranjana, 1700
Campus do Itaperi
Itaperi
CEP: 60700-000 Fortaleza, CE, Brasil
E-mail: arisanara@gmail.com

 

 

Recebido: 19.3.2009
Aceito: 3.9.2009

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