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Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia

On-line version ISSN 1677-9487

Arq Bras Endocrinol Metab vol.49 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302005000100010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Homem XX: relato de três casos na faixa etária pediátrica

 

XX male: 3 case reports during childhood

 

 

Durval DamianiI; Dulce Rondina GuedesI; Daniel DamianiII; Vaê DichtchekenianI; José Rodrigues Coelho NetoI; Andréa Trevas Maciel-GuerraIII ; Gil Guerra-JúniorIII; Maricilda Palandi de MelloIII; Nuvarte SetianI

IUnidade de Endocrinologia Pediátrica – Instituto da Criança – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ICR – FMUSP)
IIUniversidade de Santo Amaro (UNISA), São Paulo, SP
IIIGrupo Interdisciplinar de Estudos da Determinação e Diferenciação do Sexo da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (GIEDDS – FCM – UNICAMP), Campinas, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

São apresentados três pacientes com a condição clínica conhecida como "homem XX", rara na faixa etária pediátrica, caracterizada por um fenótipo masculino (em geral não associado a ambigüidade genital), testículos, porém cariótipo 46,XX. O diagnóstico costuma ser feito no adulto devido à esterilidade; na faixa etária pediátrica, ele é feito nos casos com ambigüidade genital ou ginecomastia. Na maioria dos pacientes é detectado o gene SRY (Sex-determining Region of the Y chromosome), o que explica a diferenciação testicular, porém em 20% dos casos ele está ausente, o que torna evidente que a determinação gonadal é um processo dependente de múltiplos genes e fatores de transcrição. O diagnóstico de apenas 3 casos em dois serviços de referência num período de quase 30 anos indica sua raridade entre os casos de anomalias da diferenciação sexual.

Descritores: Diferenciação sexual; Homem XX; Infertilidade; Intersexo; Sexo reverso; Testículo


ABSTRACT

We report on three patients with the clinical condition known as "XX male", which is uncommon in the pediatric age group. Patients have a male phenotype (usually without ambiguous genitalia) and testes; however, the karyotype is 46,XX. The diagnosis is usually made in adult life due to infertility; it may also be done by the pediatrician when there is ambiguous genitalia or gynecomastia. The SRY gene (Sex-determining Region of the Y chromosome) is detected in most cases, thus explaining the origin of testicular development; however, it is absent in 20% of the cases, thus indicating that gonadal determination is a complex process which depends on the interaction of many genes and transcription factors. The finding of only 3 cases in two reference services in a 30-year period indicates the rarity of this disorder among intersex cases.

Keywords: Infertility; Intersex; Sex differentiation; Sex reversal; Testes; XX male


 

 

A CONDIÇÃO CLÍNICA CONHECIDA como Homem XX (OMIM 278850), descrita em 1964 por De la Chapelle, é uma entidade rara que incide em 1:20.000 recém-nascidos do sexo masculino (1). A maioria dos pacientes (80%) não apresenta ambigüidade genital; assim sendo, este é um diagnóstico dificilmente feito na faixa etária pediátrica. Eventualmente, o diagnóstico pode ser feito na época da puberdade, uma vez que 1/3 dos pacientes desenvolvem ginecomastia. Esses pacientes apresentam, em geral, diminuição da pilosidade facial e tendência à distribuição feminina de pêlos pubianos. Os testículos têm pequeno volume, e o aspecto histológico assemelha-se ao da síndrome de Klinefelter. Com relação à estatura, esta tende a ser intermediária entre a masculina e a feminina.

Os dutos de Wolff desenvolvem-se em estruturas masculinas (epidídimo, deferente, vesícula seminal, ductos ejaculatórios) e os ductos de Müller sofrem apoptose, resultado da atuação do hormônio anti-mülleriano produzido pelas células de Sertoli. A secreção de testosterona pelas células de Leydig costuma ser normal.

A detecção do gene SR (Sex-determining Region on the chromosome) em 80% dos pacientes elucidou o motivo pelo qual, na ausência do cromossomo Y, a gônada bissexual se diferencia em testículo. Os 20% que apresentam ambigüidade genital em geral não apresentam o SR e parecem fazer parte de um grande espectro que tem, de um lado, as mulheres normais, 46,XX, com ovários normais quanto a estrutura e função, passa por uma grande faixa em que coexistem tecido ovariano e testicular (hermafroditas verdadeiros) e culmina com o homem XX, onde somente tecido testicular se desenvolve (2).

Therkelsen, em 1964 (3), já aventava a hipótese de que uma translocação entre os cromossomos X e Y faria com que genes do Y responsáveis pela determinação testicular pudessem ser transferidos para o X aparentemente normal, mas que, na verdade, funcionaria como um "cavalo-de-tróia" e desencadearia a diferenciação do testículo. A quantidade de material do cromossomo Y translocada sobre o cromossomo X paterno varia desde a maior parte do braço curto até um minúsculo segmento adjacente à região pseudo-autossômica, e em 1/3 dos casos os pontos de quebra localizam-se dentro de uma região de 140kb que inclui o gene da proteíno-quinase no cromossomo Y (PRKY) e no X (PRKX). PRKX e PRKY apresentam 94% de homologia e orientação idêntica nos cromossomos sexuais (4).

Muito mais difícil, porém, é o entendimento de como a diferenciação testicular pode se dar em um indivíduo sem o cromossomo Y e sem o gene SR, o que ocorre em 20% dos casos de homens XX. Esse fato indica que genes autossômicos e/ou ligados ao X devem fazer parte de um mecanismo muito mais amplo de determinação gonadal do que inicialmente se supunha (5).

Uma vez que todos os homens XX são estéreis, é no momento da investigação da causa da esterilidade que o diagnóstico acaba sendo feito, ao ser detectado o cariótipo 46,XX em um indivíduo com fenótipo masculino. Embora em humanos a presença de dois cromossomos X seja necessária para a oogênese (que está, portanto, ausente nas mulheres XY), esta é incompatível com a espermatogênese; acredita-se, ainda, que os genes determinantes da espermatogênese encontram-se no cromossomo Y (6).

O estudo de homens XX, bem como de hermafroditas verdadeiros 46,XX (que também desenvolvem tecido testicular sem apresentarem cromossomo Y e, na sua grande maioria, sem apresentar SRY), pode permitir uma melhor compreensão acerca dos mecanismos envolvidos na determinação gonadal, ou seja, na transformação da gônada indiferenciada em testículo ou ovário. Assim sendo, o objetivo deste estudo foi apresentar as características clínicas e laboratoriais de 3 homens XX diagnosticados durante a infância.

 

PACIENTES E MÉTODOS

São apresentados três pacientes com o diagnóstico de Homem XX acompanhados na Unidade de Endocrinologia Pediátrica do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da FMUSP (casos 1 e 2) e no Grupo Interdisciplinar de Estudo da Determinação e Diferenciação do Sexo (GIEDDS) da FCM – UNICAMP (caso 3). Em nenhum dos casos havia consangüinidade.

Foram verificados retrospectivamente os seguintes dados: idade e queixa principal na 1ª consulta, características dos genitais externos e dos condutos genitais internos (por ultrassonografia), localização e biópsia das gônadas, resultado do cariótipo, e dosagens de testosterona total basal e após estímulo com gonadotrofina coriônica.

Nos três casos foi coletado sangue para extração de DNA de linfócitos periféricos pela técnica salting out ou por digestão com proteinase K e extração com fenol (7,8). O DNA extraído foi amplificado utilizando oito pares de primers nos casos 1 e 2 e três pares no caso 3, com o objetivo de estudar várias regiões do cromossomo Y.

A reação em cadeia da polimerase (PCR) foi realizada usando 100-500ng de DNA genômico, 200mM de dNTP, 15pmol de cada primer, 2,5 unidades de Taq polimerase (Amersham Pharmacia Biotech, Uppsala, Sweden), 50mM KCl, 1,5mM MgCl2 e 10mM Tris-HCl, pH 9,0 preenchendo um volume de 50mL. A reação de amplificação consistiu em um ciclo de 5 minutos a 94ºC, seguido por 40 ciclos de 1 minuto a 72ºC e um ciclo final de extensão a 72ºC por 5 minutos, utilizando um termocirculador (Gene ATaq Controller, Pharmacia LKB, Uppsala, Sweden; 9700, PE Applied Biosystems, Perkin-Elmer Corporation, Foster City, CA). Um DNA de controle positivo (masculino) e um negativo (feminino) foram utilizados. Em todos os pacientes foram feitos ciclos com os primers Ea/Eb, que amplifica uma região conservada de 317bp no SRY (HMG Box), e NTF/TSPY-C, que amplifica um fragmento de 418bp nos éxons 2-4 do gene TSPY.

O seqüenciamento do gene SRY foi feito usando o ABI Prism Big Dye Terminator Cycle Sequencing Ready Reaction Kit (PE Applied Biosystems). Os fragmentos seqüenciados foram analisados pelo ABI Prism 310/PE analyzer (Biosystems, Foster City).

 

RESULTADOS

Os resultados estão apresentados nas tabelas 1 e 2.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Em Serviços de Endocrinologia Pediátrica, o diagnóstico de homem XX é bastante raro. Em dois serviços de referência para anomalias de diferenciação sexual, num período bastante longo, apenas três casos foram detectados; nesse mesmo período, foram diagnosticados 36 casos de hermafroditismo verdadeiro nos dois serviços. Sua prevalência é, portanto, de 0,5 a 1% de todos os casos de anomalias da diferenciação sexual.

O diagnóstico acaba sendo feito pela presença de ginecomastia, como ocorreu no caso 3, ou por ambigüidade genital, como no caso 2. Curiosamente, no paciente 1, portador de síndrome de Down, o cariótipo foi feito não pela ambigüidade genital, pois apresentava genitália externa masculina normal, mas juntamente com a confirmação citogenética da síndrome de Down; o cariótipo 47,XX,+21 levantou a suspeita de tratar-se de hermafroditismo verdadeiro ou de homem XX, este último confirmado pela ausência de tecido ovariano.

Quanto ao SR, o primeiro caso apresentado pode ser explicado por translocação entre cromossomos X e Y, com material cromossômico adicional sobre o braço curto de um dos cromossomos X. Neste paciente, o ponto de quebra localiza-se na região de 140kb que inclui a proteíno-quinase do Y (PKRY) e do X (PRKX), um hot-spot para recombinação entre regiões homólogas nos cromossomos X (Xp22.3) e Y (4,9). Este paciente só foi diagnosticado por ser portador de Síndrome de Down, já que sua genitália externa não era ambígua. Esta associação nunca foi descrita na literatura, podendo tratar-se de coincidência dessas duas situações clínicas ou haver alguma relação entre elas ainda desconhecida. Ao exame anátomo-patológico, os testículos desse paciente eram disgenéticos, apesar de terem apresentado resposta adequada de testosterona ao estímulo com gonadotrofina coriônica.

Já os pacientes 2 e 3, nos quais o SR está ausente em sangue periférico (no caso do paciente 2, também nas gônadas), podem ser incluídos no grupo de 20% dos homens XX SR-negativos. O paciente 2 apresentava genitália ambígua; pode-se supor, portanto, que faça parte do espectro que inclui os hermafroditas verdadeiros 46,XX SR-negativos (2). O paciente 3, por sua vez, apresentava ginecomastia, microrquidia (testículos disgenéticos) e atraso puberal; seus níveis hormonais caracterizavam um hipogonadismo hipergonadotrófico.

Portanto, dois dos três pacientes apresentavam testículos disgenéticos, um SR-positivo e outro negativo. No paciente SR-positivo, o resultado normal do seqüenciamento afasta a possibilidade de alguma mutação nesse gene ter determinado a disgenesia testicular, pois mutações no SR têm sido responsabilizadas por 20% das disgenesias gonadais em pacientes com cariótipo 46,XY.

Em 1987, De La Chapelle aventou várias hipóteses para explicar a presença de testículos em homens XX na ausência do cromossomo Y: a existência de um pequeno fragmento de Y capaz de promover a determinação testicular que não seria detectado pelas técnicas empregadas até então ou a ocorrência de determinação testicular por outros mecanismos que não incluiriam a ação do então chamado fator de diferenciação testicular (TDF). Essa última situação incluía a presença de mosaicismo envolvendo uma linhagem celular contendo o cromossomo Y, que desencadearia a determinação testicular mas não seria detectável por ser limitada ao tecido gonadal ou por ser eliminada durante o desenvolvimento, e a mutação em um gene autossômico ou ligado ao X que se tornaria um gene determinante de testículo (10).

Quanto a essa última hipótese, se considerarmos que a tendência intrínseca da gônada seja a de diferenciação masculina e que este processo encontra-se usualmente reprimido, o SR poderia funcionar como um desrepressor; na ausência desse gene, uma mutação no repressor poderia criar a condição de diferenciação testicular com SR ausente (11,12).

Portanto, apesar do SRY ser a principal chave na diferenciação testicular, um grande grupo de evidências indica que o controle da gonadogênese é ainda um processo muito complexo, devendo haver um número indefinido de genes autossômicos ou ligados ao X nessa cascata de transcrição. O conhecimento desses fatores de uma forma mais completa pode auxiliar sobremaneira a compreensão destes verdadeiros enigmas da diferenciação sexual (13).

 

AGRADECIMENTOS

Os estudos com marcadores moleculares das diversas regiões do cromossomo Y em dois dos pacientes (casos 1 e 2) foram realizados pela Dra. Ângela Morganti e Érica Cristina P. Bertelli.

 

REFERÊNCIAS

1. De La Chapelle A, Hortling H, Niemi M, Wennstrom J. XX sex chromosomes in a human male: first case. Acta Med Scand (suppl) 1964;412:25-38.        [ Links ]

2. Abbas N, Toublanc J, Boucekkine C, Toubalnc M, Affara NA, Job JC, et al. A possible common origin of Y negative human XX males and XX true hermaphrodites. Hum Genet 1990;84:356-60.        [ Links ]

3. Therkelsen AJ. Sterile male with the chromosomal constitution 46,XX. Cytogenetics 1964;3:207-18.        [ Links ]

4. Schiebel K, Winkelmann M, Mertz A, Xu X, Page DC, Weil D, et al. Abnormal XY interchange between a novel isolated protein kinase gene, PRKY, and its homologue, PRKX, accounts for one third of all (Y+) XX males and (Y-) XY females. Hum Mol Genet 1997;6:1985-9.        [ Links ]

5. McLean HE, Warne GL, Zajac JD. Intersex disorders: shedding light on male sexual differentiation beyond SRY. Clin Endocrinol 1997;46:101-8.        [ Links ]

6. Vogt P, Edelmann A, Kirch S, Henegariu O, Hirschmann P, Kiesewetter F, et al. Human Y chromosome azoospermia factors (AZF) mapped to different subretions in Yq11. Hum Mol Genet 1996;5:933-43.        [ Links ]

7. Miller AS, Dykes DD, Polesdy KF. A simple salting out procedure for extracting DNA from human nucleated cells. Nucleic Acids Res 1988;16:1215-7.        [ Links ]

8. De Araujo M, Sanches MR, Suzuki LA, Guerra Jr G, Farah SB, De Mello MP. Molecular analysis of CYP21 and C4 genes in Brazilian families the classical congenital adrenal hyperplasia. Braz J Med Biol Res 1996;29:1-13.        [ Links ]

9. Plöchi E, Vlasak L, Rittinger O, Bergendi E, Stopar M, Kurnik P, et al. Clinical, cytogenetic and molecular analysis of three 46,XX males. J Pediatr Endocrinol Metabol 1999;12:389-95.        [ Links ]

10. De La Chapelle A. The Y-chromosomal and autosomal testis-determining genes. Development 1987;101:33-8.        [ Links ]

11. Hiort O, Holterhus PM. The molecular basis of male sexual differentiation. Eur J Endocrinol 2000;142:101-10.        [ Links ]

12. Kolon TF, Ferrer FA, McKenna PH. Clinical and molecular analysis of XX sex reversed patients. J Urol 1998;160:1169-72.        [ Links ]

13. MacLaughlin DT, Danahoe PK. Mechanisms of disease: sex determination and differentiation. N Engl J Med 2004;350:367-78.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Durval Damiani
Rua Bela Cintra 2117, apto 9
01415-002 São Paulo, SP
E-mail: durvald@iconet.com.br

Recebido em 29/09/04
Aceito em 14/11/04

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