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Arquivos Brasileiros de Oftalmologia

Print version ISSN 0004-2749On-line version ISSN 1678-2925

Arq. Bras. Oftalmol. vol.65 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27492002000600007 

Conhecimento e atitude da população do Hospital São Paulo sobre doação de córneas

 

Knowledge and attitude of the general population regarding corneal transplantation

 

Adriana Maria Rodrigues1
Elcio Hideo Sato2

 

 


RESUMO

Objetivo: O presente estudo teve por objetivo analisar o conhecimento e atitude da população em geral sobre transplante de córneas e, desta forma, tentar identificar as principais deficiências e barreiras para o aumento do número de doações. Métodos: Foi aplicado questionário a 321 pessoas que transitavam pelo Hospital São Paulo, centro de referência da cidade de São Paulo. Resultados: Do total de pessoas questionadas, 79,4% diziam-se doadoras de córneas e 20,6%, não. O principal motivo encontrado da não-doação foi o medo referente à venda de órgão e incerteza de receber o tratamento adequado à medida que se considera um doador em potencial. Foi encontrada uma diferença estatisticamente significante entre o conhecimento sobre transplante de córnea e o fato de dizer-se doador. Conclusão: Concluímos que melhoria na informação da população em geral é fator decisivo para aumentar a demanda de doadores.

Descritores: Transplante de córnea; Banco de olhos; Doadores de tecidos; Obtenção de órgãos; Papel do médico; Consentimento esclarecido; Educação em saúde; Conhecimento, atitudes e prática; Questionários


 

 

INTRODUÇÃO

Sabe-se hoje que o transplante de córnea constitui uma alternativa terapêutica cada vez melhor para grande parte das doenças corneanas. Os avanços constantes nas técnicas relacionadas aos Bancos de Olhos, no processamento dos órgãos, na avaliação e conservação das córneas têm propiciado um aumento no número de cirurgias, bem como uma melhora importante nos resultados pós-operatórios, elevando o transplante de córnea à posição de líder em número de procedimentos entre os transplantes de órgãos e tecidos em geral(1).

No entanto, o número de transplantes de córnea no mundo, bem como de todos os demais, está aquém do necessário. O número de cirurgias realizadas, na maioria dos serviços, é ainda pequeno em relação à demanda de pacientes à espera desse tipo de tratamento. A principal barreira para a melhora deste panorama é a falta de doadores esclarecidos e este, parece ser um reflexo da desinformação por parte da população e da classe médica, bem como de obstáculos legais e religiosos(2-4).

Este estudo tem por objetivo avaliar o perfil do doador e do não doador de córneas da população em geral que freqüenta o Hospital São Paulo, centro de referência localizado na região Sul da cidade de São Paulo.

 

MÉTODOS

No período de dezembro de 1999 a abril de 2000 foi aplicado um questionário sob a forma de entrevista aos transeuntes de 2 locais escolhidos: enfermarias do Hospital São Paulo, excluindo enfermarias oftalmológicas, e entrada do Pronto Socorro do Hospital São Paulo. O questionário constava de 23 perguntas com dados de identificação pessoal como idade, sexo, cor e grau de escolaridade e dados sobre o conhecimento específico da doação de córneas com as principais dúvidas e as causas de não doação. Foram entrevistadas 321 pessoas.

As pessoas entrevistadas foram divididas em dois grupos: doadores e não doadores, sendo realizada uma análise descritiva dos dados obtidos e análise estatística de freqüência através do programa SPSS com os testes: Qui Quadrado e exato de Fisher.

 

RESULTADOS

Das 321 pessoas entrevistadas no Hospital São Paulo, 255 (79,4%) diziam-se doadoras de córnea e 66 (20,6%) não doadoras.

A maioria das pessoas entrevistadas encontravam-se entre as idades 20 aos 50 anos.

Não foi encontrada diferença entre os sexos e, os dados mostraram um predomínio de brancos em 93% dos questionamentos.

O grau de escolaridade dos entrevistados (Tabela 1) foi analisado e mostrou que, entre as pessoas que se apresentavam apenas o ensino fundamental, 22% diziam-se doadoras e 30,3% não doadoras; com o ensino fundamental e médio, 40,4% afirmavam ser doadores e 42,4% não e, com o ensino superior, 37,6% das pessoas diziam-se doadoras e 27,3% não. Não foi encontrada diferença estatisticamente significante em relação à doação e grau de escolaridade (P=0,3255).

 

 

Das 321 pessoas entrevistadas todas tinham ouvido falar em transplante de órgãos e destas, 297 conheciam transplante de córnea. Das pessoas que ouviram falar em transplante de córneas, 242 (81,5%) diziam-se doadoras e 55 (18,5%) não. Das 55 que não tinham conhecimento sobre doação, 11 (45,9%) eram não doadoras de todos os órgãos. Houve uma diferença estatisticamente significante com relação ao conhecimento e o fato de dizer-se doador (P=0,0033).

De todas as 297 pessoas que conheciam o transplante de córnea a grande maioria afirmou ter obtido esse conhecimento através da televisão, apenas 2 pessoas através do rádio e 2 de jornais

Para as pessoas que conheciam o transplante de córneas foram feitos questionamentos a respeito deste conhecimento. Aproximadamente 93% das pessoas sabiam a finalidade do transplante de córneas sendo que, 154 (51,8%) disseram não haver limite de idade para ser um doador e 105 pessoas (35,3%) não sabiam se existia algum limite etário que impedisse a doação, para alguns os extremos de idade seriam limitantes da doação.

Quando os indivíduos que conheciam transplante de córnea foram questionados sobre contra-indicação 69,4% disseram não haver contra-indicação para este tipo de transplante e 30,6% responderam que sim, dos quais a maioria apontou a infecção como contra-indicação absoluta à doação.

Questionou-se ainda sobre qual seria o momento ideal para que as córneas fossem retiradas e 4 (1,3%) disseram ser antes da morte, 182 (61,3%) logo após a morte e 111 (37,4%) não souberam responder a esta pergunta.

Entre os não doadores, foi questionada sua posição e os motivos de não ser doador e os valores encontrados foram: 24 (36,4%) a religião limita a doação, 7 (23%) motivos pessoais e, para 35 (53%) pessoas o motivo da recusa a ser doador é medo e insegurança quanto ao destino do órgão doado e dúvidas quanto a possível negligência de tratamento pelo fato de ser doador.

De todos as pessoas que se diziam doadoras, 80,4 % autorizariam a doação de familiares o restante não. A justificativa para a não autorização foi a necessidade de autorização em vida deste doador. Nenhum dos não doadores autorizariam a doação de familiares

Para todas as 321 pessoas entrevistadas foi questionado qual seria o momento adequado para a abordagem dos familiares e, 167 (52%) responderam que seria durante a internação, 123 (38,3%) logo após o falecimento e para 31 (9,7%) pessoas o melhor seria aguardar um tempo após a morte para que a família seja abordada. Foi ainda perguntado quem deveria fazer esta abordagem e aproximadamente 90 % citou o médico que cuida do paciente como a pessoa mais indicada para fazer a solicitação a doação, apenas 5% colocou o oftalmologista como a pessoa mais indicada.

Todas as pessoas questionadas responderam que a afirmação de ser um doador no ato da internação poderia mudar o tratamento a ser despendido ao paciente durante a sua permanência no hospital visando a captação do órgão doado.

Como tentativa de saber o que poderia interferir na decisão de ser ou não doador, foi perguntado às pessoas o que as faria mudar de opinião. Para 58,6% dos doadores um erro na abordagem poderia fazer com que passassem a ser não doador e em 38,4%, a falta de confiança no médico responsável pela captação faria mudar de idéia. Para os não doadores, 47% passaria a ser doador dependendo de uma abordagem bem feita e 34,9% a presença de confiança na equipe médica; apenas 18,1% não mudariam de opinião.

Quanto à doação obrigatória de órgãos, 84,7% das pessoas mostraram-se contrárias a este fato alegando a possível "venda de órgãos".

De todas as pessoas entrevistadas, aproximadamente 95% gostaria de obter mais informações sobre os transplantes, especificamente o transplante de córnea.

 

DISCUSSÃO

A demanda de doações de córnea tem aumentado muito nos últimos anos com a melhoria nas perspectivas de tratamentos bem como o uso de córneas de forma terapêutica(5). Hoje ainda uma das maiores limitações para o aumento dos transplantes é o número de doações(1-4).

Do total de entrevistados no Hospital São Paulo, 79,4% diziam-se doadores de córneas, no entanto no mesmo período de dezembro de 1999 a abril de 2000 houveram apenas 140 doações refletindo menos de 1% da população que freqüenta este Hospital. Esta disparidade entre o número de doadores em potencial e o número de doações efetivas encontrada em nosso estudo foi discutida por muitos autores(1-3,6).

O nível de escolaridade não interferiu na decisão de ser ou não doador apresentando uma diferença não estatisticamente significativa entre os diferentes graus de escolaridade (P<0,3255).

Fato importante para que aumente o número de doadores foi apontado por Farge(1), no qual ressalta a necessidade de voluntários e profissionais médicos e não médicos trabalhando ativamente nos programas de captação de órgãos. No nosso estudo, a maioria das pessoas que não conheciam transplante de córnea não eram doadoras enquanto que, das que conheciam, apenas 18,5% não eram doadoras portanto esses dados ressaltam a necessidade de informação.

A televisão foi o meio de divulgação mais lembrada, como um veículo mais popular e de linguagem mais direta, podendo ser uma grande aliada nas campanhas de divulgação de transplantes.

Os baixos níveis de conhecimento quanto ao procedimento bem como os motivos para a não doação nos mostrou a necessidade de programas de divulgação do transplante de córnea para que conceitos inadequados não sejam impedimentos para que aumente o número de doadores, assim como mostra Basu em seu trabalho(7).

A não autorização da doação de familiares como causa dessa negação nos leva à necessidade de discussões sobre este assunto dentro do âmbito familiar. O estudo publicado por Loewenstein em 1991(3) confirmou que o fato das pessoas autorizarem a doação de órgãos em cartões de doação ou carteira de motorista estimularia a reflexão da família e permitiria que a decisão dos familiares levasse em conta a vontade do ente falecido.

O momento da abordagem e quem aborda os familiares são fatos muito importantes para a decisão de um possível doador. Para a maioria dos entrevistados o médico que cuida do paciente é quem deve fazer essa abordagem, para estas pessoas, este médico teria uma maior proximidade e confiança dos familiares além de um melhor preparo para responder a possíveis questionamentos. Este dado difere dos encontrados na literatura, os quais dizem não haver diferença entre quem faz a abordagem(2) ou que as enfermeiras seriam as pessoas recomendadas para estas abordagens(8).

A abordagem e a confiança na equipe médica, como mostram outros estudos(2), leva a um aumento direto no número de doações, nossa avaliação confirmou estes dados quando se observa a mudança de opinião das pessoas passando de não doador para doador na dependência de uma abordagem adequada com profissionais treinados e capacitados para este fim.

A doação obrigatória e a autorização a doação no ato da internação foram muito contestadas pelas pessoas entrevistadas, todas se mostraram contra alegando temor quanto à comercialização de órgãos e, por este motivo, mudanças no tratamento despendido durante a mesma. Segundo dados da Associação Brasileira dos Transplantes de Órgãos (ABTO), quando foi implantada o decreto de lei que regulamentou os transplantes no país (lei 10211 de 2001 com modificação da lei 9434 de 1997), 62% dos documentos de identidade que foram emitidos na época da implantação da lei em 1997 apresentavam o carimbo de não doador, demonstrando a falta de informação do que significa ser um doador e o temor quanto a este fato.

A maioria dos entrevistados gostariam de mais informações sobre transplante de córnea, sendo este mais um dado mostrando a necessidade de programas de divulgação. Para este fim, como tem sido sugerido em vários estudos(1-2,8), torna-se necessária a criação de comissões e centrais de doação de órgãos bem como a realização de campanhas de esclarecimento.

Comparada com a publicidade que é dada a outros setores da medicina, o transplante de córnea não é muito divulgado, mas ele marca a diferença na qualidade de vida das pessoas que dele necessitam. Este fato deve ser entendido para que se tenha uma melhor informação, divulgação e motivação das pessoas e profissionais da área médica(4), para que a recuperação visual não tenha como limitante a falta de doadores.

 

 


ABSTRACT

Purpose: To analyze the knowledge and attitude of the general population in order to identify the main deficiencies and to suggest measures to increase the number of cornea donations by the general population. Methods: Study through questionnaire polls answered by 321 people at the São Paulo Hospital. Results: Among the general population, 79.4% said to be cornea donors. The reason for the other 20.6% not to be donors was fear of trade of organ and not to receive proper treatment by the medical staff for being a potential donor. There was a statistically significant difference of knowledge about transplantation between those who said to be donors and those who did not. Conclusion: The authors concluded that better information on corneal transplantation for the general population would be of great help in increasing the number of cornea donations.

Keywords: Corneal transplantation; Eye banks; Tissue donors; Organ procurement; Physician's role; Informed consent; Health education; Knowledge, attitudes, practice; Questionnaires


 

 

REFERÊNCIAS

1. Farge EJ, Silverman ML, Khan MM, Wilhelmus KR. The impact of state legislation on eye banking. Arch Ophtalmol 1994;112:180-5.        [ Links ]

2. Diamond AG, Campion M, Mussoline JF, D'Amico RA. Obtaining consent for eye donation. Am J Ophthalmol 1987;103:198-203.        [ Links ]

3. Loewenstein A, Rahmiel R, Varssano D, Lazar M. Obtaining consent for eye donation [commented on Isr J Med Sci 1991;27:89-91]. Isr J Med Sci 1991;27:79-81.        [ Links ]

4. Alves MR, Crestana FP, Kanatami R, Cresta FB, José NK. Doação de córneas: opinião e conhecimento de médicos intensivistas do Complexo Hospital das clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Rev Med (São Paulo) 1997;76:315-9.        [ Links ]

5. Haysshi S, Sato EH, Freitas D, Lottenberg CL, Ferraz JM, Nose W. Transplante terapêutico em úlceras de córnea bacterianas ativas. Arq Bras Oftalmol 1991;52:73-80.        [ Links ]

6. Abram HS, Zwaag RV, Johnson HK. Physicians' attitudes toward organ donation. South Med J 1975;68:443-6.        [ Links ]

7. Basu PK, Hazariwala KM, Chipman ML. Public attitudes toward donation of body parts, particulary the eye. Can J Ophthalmol 1989;24:216-20.        [ Links ]

8. McGough EA, Chopek MW. The physician's role as asker in obtaining organ donations. Transplant Proc 1990;22:267-72.        [ Links ]

 

 

1 Médica Oftalmologista, estagiária da Escola Paulista de Medicina.
2 Professor assistente e colaborador do setor de doenças externas e córnea da Escola Paulista de Medicina, coordenador do Banco de Olhos do Hospital São Paulo.

Endereço para correspondência: Rua Síria, 290/10º andar - São Paulo (SP) CEP 03086-040.
E-mail: adrianar@oftalmo.epm.br

Recebido para publicação em 13.08.2001
Aceito para publicação em 18.03.2002

Nota Editorial: Pela análise deste trabalho e por sua anuência na publicação desta nota, agradecemos ao Dr. José Guilherme C. Pêcego.

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