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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Print version ISSN 0004-282X

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.51 no.2 São Paulo June 1993

https://doi.org/10.1590/S0004-282X1993000200026 

In memoriam

 

 

JOSÉ RIBEIRO PORTUGAL, pioneiro da neurocirurgia brasileira, faleceu no dia 21 de julho de 1992, na cidade do Rio de Janeiro, com a idade de 91 anos. Era natural de Santa Rita do Sapucaí, no sul do Estado de Minas Gerais. Foi para o Rio de Janeiro a fim de estudar Medicina, tendo cursado a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde se formou em 1926. Durante o curso médico foi monitor de Anatomia, tendo estudado, com maior atenção, anatomia do sistema nervoso. Em 1927 doutorou-se com tese sobre anatomia do trigêmeo. Em 1929 fez concurso para Livre Docência na Cadeira de Técnica Operatória, defendendo tese sobre «Tratamento Cirúrgico da Nevralgia do Trigêmeo».

O Professor de Neurologia, Antonio Austregésilo, teve grande influência na formação do Prof. Portugal e no desenvolvimento da Neurocirurgia. Em 1928, Austregésilo viajou aos Estados Unidos para visitar os principais serviços de Neurocirurgia e observar o desenvolvimento da nova especialidade. Na volta ao Rio de Janeiro, convidou o Prof. Alfredo Monteiro, eminente cirurgião, para desenvolver a Neurocirurgia na Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina, onde construiu um centro cirúrgico. Portugal era assistente de Monteiro e o acompanhou no início da Neurocirurgia do Rio de Janeiro. Este, após alguns anos, abandonou a nova especialidade, permanecendo na Cirurgia Geral. Portugal integrou-se ao grupo dos professores de Neurologia e desenvolveu, com grande sacrifício, a Neurocirurgia, na Clínica Neurológica da Faculdade e depois no seu serviço particular na Beneficência Portuguesa.

Teve influência na formação de Portugal, o Prof. Manuel Balado, de Buenos Aires, a quem ele visitava quase todos os anos. Elm 1945, Portugal apresentou, no I. Congresso Sulamericano de Neurocirurgia, realizado em Montevideo, a sua técnica para a Neurotomia Retrogasseriana, por via intra-dural. Participou de todos os Congressos Sulamericanos, que posteriormente se transformaram em Latinoamericanos, apresentando trabalhos e fazendo relatórios sobre Temas Oficiais.

Somente em 1948, quando era um neurocirurgião de grande prestígio no Brasil e no exterior, foi, pela primeira vez, aos Estados Unidos, tendo visitado os principais serviços de Neurocirurgia. A partir deste lano, Portugal começa também a participar de Congressos na América e Europa.

Portugal considerava, como fundamental, na formação do neurocirugião, o estudo aprofundado da Clínica Neurológica, bem como o conhecimento da Fisiologia e Patologia nervosas.

Portugal foi exímio neurocirurgião, operava com grande precisão e rapidez.

O Prof. José Ribeiro Portugal, apesar de ter muito cedo conseguido se distinguir no meio médico, dentro e fora do Brasil, sempre foi um homem simples. Era o mais típico mineiro que conheci. Era um homem tranquilo, modesto e jamais agredia as pessoas com quem trabalhava. Tinha um carinho especial com os seus assistentes, procurando sempre desculpar seus erros, estimulando-os com seu exemplo de dedicação ao trabalho e ao estudo.

Apesar de sua grande atividade como neurocirurgião, conseguiu tempo para se dedicar à organização de Sociedades) científicas, como a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e a Academia Brasileira de Neurocirurgia, com a finalidade de melhorar o nível técnico dos neurocirurgiões.

Portugal deixou dezenas de discípulos, que se radicaram em quase todos os estados brasileiros, do Rio Grande do Sul ao Pará. Os primeiros alunos de Portugal foram Santos Machado e Jaime Viana, ambos da Bahia. O terceiro foi Renato Barbosa, formado em Belo Horizonte e trabalhando até hoje no Rio de Janeiro. Renato Barbosa foi de todos os Assistentes de Portugal o que mais se destacou no Brasil. Fora do Brasil, o destaque fica com Mario Brock, hoje professor de Neurocirurgia na Universidade Livre de Berlim. Destacam-se também entre os alunos de Portugal Feliciano Pinto e Pedro Sampaio no Rio de Janeiro e Francisco Guerra em Uberaba. Nós tivemos a sorte de trabalhar com tão insigne mestre durante sete anos, de dezembro de 1946 a janeiro de 1954, e a ele devemos muito do que aprendemos e lastimamos profundamente a sua morte.

 

Mario Ferreira Coutinho

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