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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.51 no.4 Campinas  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942001000400001 

EDITORIAL

 

Agonistas α2 -adrenérgicos: perspectiva atual

 

 

Os agonistas a2-adrenérgicos constituem uma classe de drogas com propriedades potencialmente úteis em anestesia e terapia intensiva, que incluem 1: efeito anti-hipertensivo, analgesia, sedação, diminuição da concentração alveolar mínima (CAM) dos anestésicos inalatórios, redução de tremores pós-operatórios.

O efeito anti-hipertensivo da clonidina, protótipo dos agonistas a2-adrenérgicos, é devido à simpatolise resultante da inibição do locus ceruleus (núcleo ligado à atividade noradrenérgica situado no tronco cerebral) bem como da inibição da liberação de noradrenalina no neuroefetor 2. Na realidade, a curva dose-resposta não é tão simples: enquanto a clonidina reduz a atividade noradrenérgica em baixas doses (que são as utilizadas no controle da hipertensão), ela potencializa esta atividade em altas doses, pela ativação de receptores a2B-adrenérgicos localizados nas células musculares lisas dos vasos de resistência. De qualquer modo, hipotensão arterial e bradicardia (ou diminuição da taquicardia) podem acompanhar o emprego da clonidina em anestesia e terapia intensiva.

A analgesia parece estar ligada ao efeito sobre o corno posterior da medula espinhal, onde a clonidina provoca aumento da liberação de acetilcolina 3; a administração concomitante de neostigmina potencializa o efeito analgésico dos agonistas a2-adrenérgicos 4.

A sedação decorre do efeito destas drogas sobre o locus ceruleus do tronco cerebral e possui uma característica interessante: embora aparente sedação profunda, comprovada pelo índice bispectral (BIS), o indivíduo pode ser completamente acordado através de um estímulo externo (auditivo, por exemplo) e não demonstrar nenhum comprometimento do desempenho psicomotor 5. Isto dificilmente se consegue com outros fármacos utilizados para sedação e pode constituir uma vantagem evidente, como por exemplo em pacientes sedados na Unidade de Terapia Intensiva que podem ser solicitados a colaborar com o fisioterapeuta, voltando a dormir quando deixados em silêncio após a sessão 6. É interessante salientar também que a dexmedetomidina, o mais recente agonista a2-adrenérgico liberado para uso clínico, diminui significativamente o consumo de propofol para obtenção de determinado nível de sedação, podendo o paciente ser facilmente acordado e retornar ao estado de sono conforme as necessidades 7.

O efeito da clonidina reduzindo a CAM de agentes inalatórios foi bem estudado e levanta a possibilidade de interações com depressores do Sistema Nervoso Central a nível supraespinhal 8, 9.

A clonidina administrada por via venosa elimina a ocorrência de tremores pós-operatórios em pacientes operados tanto sob anestesia geral como sob o efeito de bloqueio peridural 1,10,11. O mecanismo está por ser melhor esclarecido.

Em função dos efeitos acima descritos, em especial o analgésico e o sedativo, os agonistas a2-adrenérgicos estão incorporados ao arsenal terapêutico de anestesiologistas e intensivistas. A dexmedetomidina é altamente específica para o receptor a2, de tal modo que sua relação de especificidade a2/a1 é cerca de 7 vezes maior que a da clonidina; por outro lado, possui meia-vida de eliminação plasmática de aproximadamente 2 horas, bem menor que a da clonidina, que é superior a 8 horas 12,13. Estas propriedades, aliadas a um efeito redutor moderado e mais previsível sobre a pressão arterial e a freqüência cardíaca, fazem dela um agente promissor na busca da otimização dos cuidados com sedação e analgesia.

 

José Roberto Nociti, TSA
Rua Stélio Machado Loureiro, 21
Alto da Boa Vista
14025-470 Ribeirão Preto, SP

 

REFERÊNCIAS

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