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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.55 no.2 Campinas Mar./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942005000200010 

>A serendipidade na medicina e na anestesiologia

ARTIGO DIVERSO

 

A serendipidade na medicina e na anestesiologia*

 

A serendipidade en la medicina y en la anestesiologia

 

 

Nilton Bezerra do Vale, TSAI; José Delfino, TSAII; Lúcio Flávio Bezerra do ValeIII

IProfessor de Farmacologia e Anestesiologia da UFRN; Anestesiologista da Maternidade Escola Januário Cicco
IIProfessor de Anestesiologista do CCS da UFRN
IIIAnestesiologista da MEJC da UFRN e do Hospital Memorial de Natal

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Neste trabalho foram examinados mais de uma centena dos mais felizes acoplamentos de uma mente brilhante com a sorte benfazeja (serendipidade), através da releitura das mais relevantes histórias sobre invenções e descobertas relacionadas à ciência (n = 46), à Medicina (n = 46) e à Anestesiologia (n = 16).
CONTEÚDO: Conceito de serendipidade; exemplos célebres de serendipidade em Ciência e Tecnologia; serendipidade na pesquisa e prática médicas; serendipidade na Anestesiologia; serendipidade e criatividade na pesquisa. Através da história do desenvolvimento médico, a natureza provou que o caminho mais efetivo e mais barato na obtenção de drogas, instrumentos e serviços pode ser a sorte fortuita porque muitas descobertas são serendípticas. Este artigo educacional encoraja o anestesiologista a apreciar os eventos relacionados com invenções e descobertas científicas, mostrando-lhe que a serendipidade é possível, desde que seja aguardada. Cada descoberta ou invenção inclui história, biografia e explicação científica ou anedótica. Além das descobertas tradicionais como pão, vinho, gravidade, fotografia, velcro, air-bag, etc., há outras relacionadas à Medicina (microscópio, Raio X, vacina, penicilina, insulina, laser, esfregaço de Papanicolaou, etc.), e à Anestesiologia, como: isomeria, luvas, N2O, éter, barbitúrico, benzodiazepínicos, tampão sangüíneo, entre outros. Criatividade e serendipidade podem servir de linha mestra para pesquisa clínica e básica de invenções pioneiras para avanços médicos e anestesiológicos. Realmente, devem-se controlar tópicos relacionados com biologia, anatomia, física, química, fisiologia, farmacologia, astronomia, arqueologia e... muita sorte.
CONCLUSÕES: Embora acidentes na pesquisa e na sala de operação sejam lamentáveis, há aqueles que acontecem e, às vezes, podem levar a avanços espetaculares, como tratamentos heróicos e até Prêmios Nobel. Manter a mente aberta é um traço comum àqueles que ensejam contar com a sorte grande, como afirmava o físico americano Henry (1842): "As sementes da descoberta flutuam constantemente à nossa volta, mas apenas lançam raízes nas mentes bem preparadas para recebê-las".

Unitermos: ANESTESIA: Geral, Local; MEDICINA: história; SERENDIPIDADE


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: En este trabajo fueron examinados más de una centena de los más felices acoplamientos de una mente brillante con la suerte caridosa (serendipidade), a través de la relectura de las más relevantes historias sobre invenciones y hallazgos relacionados a la ciencia (n = 46), a la Medicina (n = 46) y a la Anestesiología (n = 16).
CONTENIDO: Concepto de serendipidade; ejemplos célebres de serendipidade en Ciencia y Tecnología; serendipidade en la pesquisa y práctica médicas; serendipidade en la Anestesiología; serendipidade y creatividad en la pesquisa. A través de la historia del desarrollo médico, la naturaleza probó que el camino más efectivo y más barato en la obtención de drogas, instrumentos y servicios puede ser la suerte casual porque muchos hallazgos son serendípticos. Este artículo educacional alienta el anestesiologista a apreciar los eventos relacionados con invenciones y hallazgos científicos, mostrándole que la serendipidade es posible, desde que sea aguardada. Cada descubierta o invención incluye historia, biografía y explicación científica o anecdótica. Además de los hallazgos tradicionales como pan, vino, gravedad, fotografía, velcro (cinta adhesiva), air-bag, etc., hay otras relacionadas a la Medicina (microscopio, Rayo X, vacuna, penicilina, insulina, láser, esfregadura de Papanicolaou, etc.), y a la Anestesiología, como: isomería, guantes, N2O, éter, barbitúrico, benzodiazepínicos, tampón sanguíneo, entre otros. Creatividad y serendipidade pueden servir de línea maestra para pesquisa clínica y básica de invenciones pioneras para avances médicos y anestesiológicos. Realmente, se deben controlar tópicos relacionados con biología, anatomía, física, química, fisiología, farmacología, astronomía, arqueología y... mucha suerte.
CONCLUSIONES: Aunque accidentes en la pesquisa y en la sala de operación sean lamentables, hay aquéllos que acontecen y, a veces, pueden llevar a avances espectaculares, como tratamientos heroicos y hasta Premios Nobel. Mantener la mente abierta es un trazo común a aquellos que desean contar con la gran suerte, como afirmaba el físico americano Henry (1842): "Las semillas del hallazgo flotan constantemente alrededor nuestro, pero apenas lanzan raíces en las mentes bien preparadas para recibirlas".


 

 

INTRODUÇÃO

Temor da morte, vicissitudes existenciais e exigências no sobreviver foram a fonte criadora da Medicina (arte de curar) e das religiões (vida após a morte) nas civilizações primitivas. À luz da história, busca da saúde e preservação da vida nem sempre fizeram jus a uma caminhada gloriosa e altruísta, pois sempre se depara com a irracionalidade social e atitudes egoístas 1-5. A assertiva de Demócrito (460 a.C.): "Tudo o que existe no universo é fruto do acaso e da necessidade", resultaria no aforismo popular: "A necessidade é a mãe da invenção." Seguindo a linha da história médica e anestesiológica, pode-se predizer que novos avanços técnicos e científicos deste século continuarão a superar em muito as grandes invenções e descobertas médicas dos dois últimos milênios. Felizes "acasos acidentais" continuarão a exercer papel importante, pois representaram 60% dos maiores feitos da Medicina: penicilina, vacina, anestesia, DNA, raios X. e microscópio, inclusive com outorga de três prêmios Nobel 6-13 (Quadro I).  A crescente influência da fisiologia, biofísica, bioquímica, farmacologia e nanotecnologia de monitoração, no célere processo evolutivo da medicina moderna, deverá ir muito além do que se pode imaginar hoje em dia. Sem dúvida, seria fascinante prever quais serão os próximos passos de avanço no acompanhamento do paciente anestésico-cirúrgico 9-14.

A descoberta mais importante da Medicina ocidental foi elucidar o circuito fechado entre coração e vasos por onde circula o sangue com seus nutrientes e gases para perfusão tissular. Descrições anteriores da circulação como a do imperador chinês Huan-Ti (2650 a.C.) e do médico romano Celsus (50 d.C) não são conclusivas. O trabalho individual de Harvey (1628) sobre a circulação marcou o início do estudo científico da fisiologia através do inédito princípio da experimentação médica. Com seu De Motu Cordis, o cientista inglês conseguiu a dinamização da precisão anatômica da Fabrica de Vesalius (1543) com auspicioso avanço no estudo da fisiologia sobre aspectos fundamentais do corpo humano e seu funcionamento. O corpo sadio é conseqüência do estar em movimento, pois a própria vida é representada por uma série de movimentos em busca de manutenção da homeostase e reostase do meio interno, segundo os princípios defendidos a posteriori por C. Bernard (1813-1878) e Cannon (1923). A partir do século XVII, a maioria das grandes descobertas ocorreu em universidades através de método científico baseado nos ditames mecanicistas e racionalistas de Bacon (1561-1626) e Descartes (1596-1650), contra o empirismo de métodos especulativos anteriores. O novo método científico passou a conduzir o raciocínio lógico e experimental para elucidar os grandes enigmas das ciências básicas da vida 9-19.

Conceito de Serendipidade

Embora o progresso científico seja comumente considerado como resultante de pesquisa rigorosa e de análise multifatorial consistente, não se pode excluir a boa sorte e a surpresa acidentais nas descobertas e invenções. Mais de duas dezenas dentre as maiores invenções da ciência e da Medicina que, inclusive, fizeram jus ao prêmio Nobel, decorreram de acasos felizes. Assim, no desenvolvimento de um protocolo de pesquisa, fatos inesperados ou intercorrentes do acaso fortuito (em inglês, serendipity), podem ser benéficos e até proporcionarem novos achados científicos. Muitas das descobertas da Ciência e da Medicina aconteceram sem que se tivesse a menor idéia do que estava sendo descoberto. O elo comum entre descobertas, como Raios X, penicilina, vacinação, estetoscópio, anafilaxia e anestesia, pode ser sorte, acaso e viés, nem sempre programado. Segundo Pasteur (1848), bafejado várias vezes pela serendipidade "no campo da observação, o acaso favorece apenas aos espíritos bem preparados". O físico americano Henry (1842) expressou idéia similar: "As sementes da descoberta flutuam constantemente à nossa volta, mas apenas lançam raízes nas mentes bem preparadas para recebê-las" 20-25. Na bíblia, encontra-se algo similar na parábola do semeador "somente cresceu a semente que caiu em terreno fértil. (Mc, 4:8) 25. Esta coincidência ou acaso feliz estão implícitas na palavra serendipidade, estando a história da ciência médica cheia delas 14,15,20-24.

A palavra serendipity deve ser traduzida por serendipidade. Etimologicamente, a terminação -ty, em inglês, originou-se do latim -tatis e do inglês médio -tie que evoluíram para -dade na tradução em português: gravity (gravidade), normality (normalidade), reality (realidade), quality (qualidade), honesty (honestidade), etc., embora haja exceção como pureza (purity). Serendipidade também começa a entrar no vocabulário do dia-a-dia para designar acasos felizes que levam a descobertas inesperadas, sobretudo no mundo da ciência. O adjetivo mais adequado seria serendíptico(a) 26,27. Ao contrário de outras palavras e/ou neologismos, a origem de serendipidade pode ser datada com precisão: 28 de janeiro de 1754. Sir Horace Walpole (1717-1797), escritor e político inglês cunhou pela primeira vez essa palavra em sua correspondência, para exprimir descobertas ocasionais diferentes daquelas que estavam sendo procuradas. Numa carta escrita ao amigo H. Mann, descreveu a sorte que teve de encontrar uma pintura antiga da condessa de Toscana, Bianca Capello: "Esta descoberta é quase daquele tipo a que chamarei serendipidade, uma palavra muito expressiva, a qual, como não tenho nada de melhor para lhe dizer, vou passar a explicar: uma vez li um romance bastante apalermado, chamado Os Três Príncipes de Serendip: enquanto suas altezas viajavam, estavam sempre a fazer descobertas, por acidente e sagacidade, de coisas que não estavam a procurar..." Assim, ela origina-se de Serendip, nome antigo do Ceilão (atual Sri-Lanka), uma corruptela persa do sânscrito Sinhaladvipa, "a ilha onde moram os leões", para os nomes mais conhecidos Sinhala ou Sinhalese. Trata-se de um conto oriental no livro Os Três Príncipes de Serendip publicado em Veneza (1557), por Tramezzino sobre a viagem dos três filhos do rei Giaffer com a narrativa de suas inesperadas descobertas 4,20-24. Na literatura brasileira, destaca-se um personagem folclórico análogo aos príncipes na figura de Pedro Malasarte: "atirou no que viu, mas matou o que não viu..". Uma análise mais coerente da História dos Três Príncipes do Ceilão demonstra que Walpole foi traído por sua memória: as descobertas de serendipidade nada devem ao acaso, pois os problemas e enigmas enfrentados pelos príncipes foram resolvidos por sagazes deduções 1-5,20,24. Inclusive a intenção do inglês era criar um estado mental desfavorável, combinando a etimologia latina para serena (do latim, serena) e estupidez (do latim, stupiditas) 20,24,26,27. Nos anais das descobertas científicas, a serendipidade é um encontro feliz para o pesquisador que tenha sua mente preparada para entender o novo quadro e dele estabelecer deduções coerentes, como já afirmara o químico Pasteur e o físico Henry 1,4-6. Até o procedimento lógico da indução deve estar aberto e sem preconceito, pois a capacidade de observação não deve ser privada de um certo grau de fantasia e abstração; seria um passo mais adiante, facultando a capacidade de dedução e possibilitando aceitação do imprevisto não apenas como uma falha, mas como potencial solução de um problema ou desvio para nova descoberta. Alguns autores, inclusive, já estão programando softwares especiais para facilitar o processo de pesquisa serendíptica 5,22.

A visão linear no desenvolvimento da ciência como resultado direto da racionalidade está longe da verdade, pois um surpreendente número de descobertas científicas são feitas por acasos felizes: o acaso e o caos se intrometem a todo momento e podem alterar as condições experimentais para melhor ou para pior, já que o achado final não se buscava diretamente 21-24. Beveridge, em seu livro Seeds of Discovery (Sementes da Descoberta), distingue três diferentes tipos de descobertas casuais: 1º - intuição a partir de justaposição de idéias (inspiração, insight, etc.); 2º - intuição do tipo eureka! (achei!); 3º - serendipidade (descoberta acidental feliz) 3,4. Na vida acadêmica existem inúmeras ocasiões para se vivenciar a serendipidade. Na sua rotina de trabalho, quando o cientista busca seus resultados através de uma hipótese experimental de trabalho e do plano preestabelecido para confirmá-la. No desenvolvimento atento do protocolo, exercitando-se a serendipidade, podem-se descobrir muitas coisas que não eram objeto de busca inicial. Alguns autores até sonharam com o "feliz acaso" na véspera do ensaio (anel benzeno de Kekulé, em1865, acetilcolina de Loewi, em 1921), enquanto outros tiveram o fortuito insight numa noite de insônia...(o velcro de Mestral, em 1948, mistura enantiomérica de Simonetti, em 1999). Desta ficção imaginada no antigo Ceilão (Serendip), nasceu este neologismo moderno que atualmente pode ser vivenciado durante busca em um dicionário (encontra-se uma outra palavra que não se buscava inicialmente...); na consulta à lista telefônica (depara-se com outro endereço, há muito procurado...); ou ainda no uso de palavras-chave nas buscas na rede Internet (Ovid, MedLine, portais favoritos, etc.). Aliás, alguns autores já consideram a rede WEB como a maior forjadora de serendipidade no mundo da ciência hodierna 2,4,6,22. O termo também se tem generalizado até para denominar restaurantes, lojas e empresas de turismo, entre outras, onde se espera que os clientes aí façam felizes descobertas por acaso de coisas muito interessantes e agradáveis, pelas quais não estavam inicialmente procurando 2,6,24. Qual o papel da sorte ou do feliz acaso em descobertas à base de serendipidade? Além do acaso inesperado e de sorte, descobertas fortuitas diferem daquelas que estavam sendo objeto da busca pelo método científico por exigirem qualidades especiais no pesquisador para "ver os que os outros viram e pensar nos que os outros não pensaram".(Szent-Gyorgyi, Nobel de 1937). São qualidades do pesquisador serendíptico: curiosidade, paciência, empenho, organização, teimosia, isto é, capacidade de insight ("estalo") no lugar certo, na hora certa, além de muita transpiração e inspiração. É importante, porém, buscar e fazer a releitura do papel dos pesquisadores que se empenharam anteriormente sobre o mesmo assunto e tinham objetivos análogos. A mais espetacular descoberta médica - a penicilina - é o mais conhecido exemplo de serendipidade. Não fora a descoberta acidental do vidro pela atividade vidreira egípcia na cozedura da louça de barro (6.000 anos a.C.) e se as lentes de rudimentar microscópio de van Leeuwenhoek (1675) não descobrissem existência de micróbios na gota d'água proveniente de chuva coletada havia dias, Fleming (1928) não teria conhecimento bacteriológico, nem interesse em observar o crescimento de Staphylococcus aureus em meio de cultura; sobretudo, quando o mofo do gênero Penicillium que, por acaso, era proveniente do andar inferior do hospital onde se estudava micologia, "contaminara" e impedira o crescimento dos estafilococos. Valeu também o interesse prévio do escocês pelo estudo da ação bactericida da lisozima da lágrima (1922). Relatos chineses, egípcios e gregos antes de Cristo já referem uso de pão mofado para tratamento de feridas infectadas. Culturas contaminadas por fungos geraram uma série de observações sobre crescimento bacteriano entre microbiologistas do século XIX, como: O mofo Penicillium glaucum não inibir crescimento bacteriano (Roberts,1874); o bacilo Anthrax não crescer em cultura contaminada por mofo (Pasteur e Joubert,1860). Lister (1871), criador da anti-sepsia cirúrgica, notar que amostras de urina contaminadas por fungos não permitiam o crescimento bacteriano. Na tese de doutoramento de Duschene(1897), há descrição da eficácia antimicrobiana em animais do mofo do gênero Penicillium. No entanto, somente no verão londrino de 1928, Fleming isolou o fungo que inibia o crescimento dos Staphylococci no meio de cultura, batizando-o de penicilina, embora sempre achasse improvável seu futuro uso sistêmico. Na realidade, não fora o denodo do australiano Florey (1898-1868) e dos pesquisadores de Oxford, Abraham e Chain (1906-1979), a penicilina não teria sido utilizada sistemicamente pela primeira vez em osteomielite (1941), nem cultivada em larga escala em barris de cerveja para ser purificada, cristalizada e comercializada universalmente a partir do esforço de guerra aliado, salvando milhões vida de infecções domésticas ou hospitalares. Chain, Florey e Fleming dividiram o Prêmio Nobel de 1945 3,10,13,14,20-23.

Exemplos Célebres de Serendipidade em Ciência e Tecnologia

Muitas descobertas tecnológicas acidentais são importantes em nosso dia a dia, mesmo estando fora da área biológica. Nem sempre descobertas e invenções são frutos da inteligência superdotada e de uma destacada criatividade, pois numerosos produtos, procedimentos técnicos e princípios científicos foram descobertos ao acaso. Por vezes, são estórias fascinantes e até anedóticas por revelarem o espírito curioso e inquiridor da mente humana através dos tempos 6-14,16,22. Acidentais ou não, invenções (pão, vinho, microscópio, dinamite, teflon, velcro, etc.) e descobertas (vacina, penicilina, RX, plásticos, etc.) são atos humanos impregnados de curiosidade, perseverança, teimosia e sorte. Alguns acasos felizes já ocorreram antes de Cristo, como é o caso da fermentação do pão e do vinho. O pão originou-se na antiga civilização egípcia: os grãos de trigo eram esmagados entre pedras, misturados à água (contaminada com leveduras do gênero Saccharamyces?),sendo a massa colocada a secar no sol até que formasse bolhas (gás CO2 proveniente do açúcar fermentado), quando então era aquecida entre pedras quentes. A receita ainda hoje continua a exigir tempo (repouso da massa), calor (sová-la a 28 ºC) e amor. A fermentação da uva pela levedura Bortrytis cinerea (contaminação da casca) para produção de vinho remonta há 8000 anos antes de Cristo. Na antiga Mesopotâmia, algum camponês distraído esqueceu um cacho de uva; reencontrando dias após, saboreou-as e ficou muito alegre graças à alcoolemia 28-30. (É o que faz ainda hoje a gralha azul com o pinhão da Araucária no Paraná). No século VIII, Carlos Magno exigiu dos monges vinho branco (da uva sem casca), pois o tinto sujava sua barba. No quadro II, estão resumidas as principais invenções e descobertas serendípticas, cronologicamente distribuídas segundo uma linha do tempo.

Serendipidade na Pesquisa e Prática Médicas

A pesquisa sistemática e levada a cabo por cérebros privilegiados ou temperamentos muito teimosos tem logrado êxito em seus objetivos e metas, sobretudo no âmbito das Universidades. Nos dois últimos séculos das maiores descobertas e invenções, iniciou-se a abertura para a integração das ciências básicas e a Medicina. Segundo antigos relatos chineses, curandeiros descobriram que os ferimentos sofridos em batalhas por guerreiros, quando provocados por dardos e flechas, eram menos dolorosos e de cicatrização mais rápida do que os provocados por outras armas contundentes e perfurantes. Desta observação "médica fortuita" nasceu a acupuntura, trocando-se dardos por agulhas para aumentar a energia "yang" na guerra e na paz! Nas pesquisas, as fronteira das ciências naturais já não estão bastante claras e definidas, sempre havendo condições de "achados" casuais e fortuitos: a procura de um resultado pode levar a outro, às vezes, de maior valor 21,22. A serendipidade exerceu um papel maior na descoberta e desenvolvimento de aparelhos, drogas e tratamentos; inclusive, algumas descobertas serendípticas deram lugar a novas idéias que influenciaram importantes investigações científicas de fenômenos naturais 1,4,20-23,31-48.

O quadro III faz o acompanhamento cronológico da participação da serendipidade nas descobertas e invenções pertinentes à prática médica - aparelhos e processos fisiopatológicos - bem como a análise cronológica de toda a evolução terapêutica medicamentosa e biológica em todos os tempos a partir de achados serendípticos.

Serendipidade na Anestesia

Na história da ciência e da Medicina (Quadro II e Quadro III), inúmeros e reconhecidos casos de serendipidade mudaram radicalmente o destino da humanidade. A partir da síntese da uréia (Whöler,1828), a maioria das drogas descobertas passaram a ser sintéticas, sendo pesquisadas a partir do método de tentativa e erro, contrastando com o século XIX em que predominavam os fármacos de origem natural (vegetal, animal e mineral). A descoberta da anestesia geral e da analgesia local no século XIX afastou o terror do sofrimento que se supunha implacável e constituiu uma barreira contra a tortura de uma dor cirúrgica sem remédio. No quadro IV, pode-se acompanhar o avanço tecnológico na síntese de drogas anestésicas (analgésicos, anestésicos, amnésticos e bloqueadores neuromusculares), seja as não específicas, seja também aquelas capazes de interagir seletivamente com receptores e neurotransmissores centrais e/ou periféricos, mas não se pode prescindir da participação serendíptica. Além disso, far-se-á uma releitura dos mecanismos e procedimentos que são foco de pesquisa na Anestesiologia moderna desde que tenham sido fruto de uma serendipidade 3,5,21,49-62.

Avanço técnico e científico na área de medicamentos, monitores e técnicas relacionados ao ato anestésico, tem aumentado paulatinamente os índices de segurança, com redução da morbimortalidade anestésico-cirúrgica. A primeira anestesia peridural realizada por Corning (1885) não pode ser considerada serendíptica, pois nem ele mesmo entendeu o que tinha feito, pois a sua concepção anatômica era falha e os objetivos clínicos: tratamento e cura de um masturbador compulsivo (incontinência seminal) e de uma neuropatia crônica não foram atingidos 60. Vale salientar que trabalhos científicos na área de cronobiologia, cronotoxicologia e cronofarmacologia vêm demonstrando ser a ritmicidade intrínseca à matéria viva, de modo que achados experimentais ligados a variações sazonais e/ou circadianas também não podem ser mais rotuladas como casuais ou serendípticas. Já em 1810, Virey demonstrou que a morfina exercia melhor seu efeito analgésico à noite, pois de manhã predominaria a ação constipante. Atualmente, sabe-se da variação circadiana das drogas lipossolúveis de ação central, como pode ser exemplificada pela maior potência vespertina do anestésico local amino-amida e noturna do etomidato e do halotano 28,61,62. No entanto, não se pode negar que importantes descobertas científicas, (Anexo I) médicas (Anexo II) e anestésicas (Anexo III) podem ser rotuladas como serendípticas, sem que nenhuma delas prescindisse do engajamento do pesquisador no assunto estudado, de acurado senso de observação e de habilidade criativa para que o experimento não fique desapercebido na mídia. Em pelo menos duas situações anestésicas, a serendipidade também tem influenciado na opção terapêutica e tática, objetivando otimizar resultados e minimizar complicações: tratamento da cefaléia pós-punção espinhal ou no pré-condicionamento anestésico na abordagem anestésica de pacientes cardíacos. Nesta situação em cirurgia cardíaca (1999), preconiza-se o emprego de agentes inalatórios halogenados em cardiopatas com isquemia do miocárdio para melhorar condições hemodinâmicas, quando o uso do isoflurano fora inicialmente condenado no coronariopata, sobretudo devido ao "roubo" do fluxo coronariano. Premência em reduzir altos custos hospitalares para cirurgia vinha norteando a cirurgia cardíaca para descarte precoce hospitalar do paciente (fast track). A técnica de altas doses de opióides como analgésico único começou a ser preterida para agentes inalatórios de ação curta, pois permitem extubação e alta de UTI mais precoces, redução de episódios isquêmicos no pós-operatório e menor custo hospitalar. Investigações clínicas e laboratoriais demonstraram que breves surtos de isquemia (< 2 h) são protetores, isto é, "pré-condicionam, protegendo" contra prolongados períodos isquêmicos do miocárdio 63-65. Este mecanismo é similar à hormese, sendo multifatorial ao envolver elementos axoplasmáticos e da membrana neuronal: proteína G, PKC, NO, O-- e receptores de canais de K+. Os halogenados exerceriam este efeito protetor contra isquemia miocárdica com melhora da função ventricular e menor liberação de enzimas pós-isquemia com redução da morbimortalidade e não simplesmente uma redução de custos ou uma mera economia hospitalar 34,63-65. O tampão sangüíneo autólogo peridural (blood patch) é o tratamento mais efetivo (93%-97%) da cefaléia após punção da dura-máter (1% a 70%). Em 1898, Bier vivenciou a desagradável experiência de 7 dias de cefaléia pós-raquianestesia, mas já correlacionara corretamente a etiologia com a hipotensão liquórica 66. Revisando a sua casuística de raquianestesia, Gormley (1960) verificou a menor incidência de cefaléia nos pacientes em que durante a execução da punção espinhal tinha aparecido sangue na agulha! Resolveu então injetar por via peridural 2 a 3 ml de sangue autólogo em 7 pacientes com cefaléia pós-raquianestesia e observou alívio completo em 30 minutos. Somente doze anos após, DiGiovanni e Dunbar retomaram a idéia e fizeram estudos mais sistemáticos (mais de 100 casos) e com tampão de maiores volumes (> 12 ml) com bons resultados, seja em função do fechamento do buraco da agulha com fibrina (reação inflamatória) ou seja por aumento de pressão peridural com menor tração das meninges. Atualmente, a prevenção é a opção por agulha finas e a terapia é divida em etapas: 1ª - repouso no leito, líquidos e analgésicos; 2ª - teofilina, cafeína, ACTH ou sumatriptam; na 3ª etapa, o tratamento heróico é o tampão sangüíneo autólogo peridural com taxa de alívio entre 80% a 97% após 24h do seu início, já na presença de processo inflamatório 34,66-72.

Serendipidade e Criatividade na Pesquisa

Dentre as teorias filosóficas e psicológicas que estudam a criatividade, algumas são descritivas, apoiando-se em depoimentos de cientistas, ressaltando o caráter inconsciente do trabalho e outras enfatizam os traços motivacionais e cognitivos do indivíduo 1-6. Criatividade também é um neologismo (do inglês: creativeness, creative) No Dicionário da Língua Portuguesa há diversas definições para criar: dar existência, tirar do nada, sustentar, produzir, inventar, etc. Na atividade diária anestésica podemos encontrar atividades que foram decorrentes da criatividade serendíptica, isto é, decorrentes de alguma coisa não habitual ou intencional, mas simplesmente casual. Alguns exemplos: sedação consciente com N2O em consultório diante de sua reduzida analgesia e discreta ação alucinógena. (Wells,1844); indução com tiopental, quando seu precursor, o ácido barbitúrico não sulfurado, é desprovido de qualquer efeito cerebral e ainda pode provocar crise de porfiria ao induzir a D-ALAsintetase (Bayer,1864;Lundy,1934). O ato da criatividade serendíptica pode ocorrer durante ou fora do processo de criatividade não-casual, por exemplo: análise a posteriori da descrição de Aserinsky sobre movimentos rápidos dos olhos (REM) dos recém-nascidos pelo professor Kleitman (1952)); também pode acontecer em tempos diferentes, como a descoberta de O2 de Priestley (1774) que somente foi confirmada após a replicação por Lavoisier (1777).

Por outro lado, o resultado da criatividade intencional ou não-serendíptica é muito mais freqüente por ser programada com metas e objetivos definidos previamente. Exemplos: analgesia tópica da cocaína: já havia relatos de língua "dormente" pelos incas (1533), von Anrep (1858), Niemann (1860), Freud (1884) e, sobretudo, pela sua solubilização em ácido clorídico, realizada por Niemann (1860), tornando-a injetável (mais estável e solúvel em água) pela agulha de Pravaz (1851) ou Wood (1853) iniciou-se, então, a anestesia locorregional (Köller,1884); analgesia e inconsciência por aspiração do éter foi o ponto de partida para anestesia geral inalatória (Morton,1846) além de conhecer o trabalho de seu professor de química, usando éter para anestesia animal, há boatos de que havia um dentista presente nas anestesias do cirurgião Long (1842); a analgesia espinhal pela raquianestesia (Bier,1898), permitindo cirurgias intra-abdominais com paciente consciente, foi facilitada pelo uso de conhecimentos anatômicos corretos e acesso à calibrosa agulha de Quincke para punção lombar (1881) 34,66.

Finalmente, seja qual for a contribuição serendíptica, o sucesso experimental baseia-se quase sempre em esforços de muitos pesquisadores e pensadores que o precederam com inspiração e transpiração. Se é mais fácil observar o previsível e o lógico, sempre será mais difícil ver aquilo que contraria todas as expectativas, pois uma visão estereotipada pode rebaixar e banalizar o trabalho experimental, mesmo que seja extremamente difícil, criativo e instigante. É um ato de coragem enfrentar no laboratório, fenômenos que se "recusam" a respeitar as teorias estabelecidas, desde que não se descarte a possibilidade de um achado serendíptico: a verdade de hoje pode ser o "modismo" de amanhã! Por isso, atualização na área de atuação (básica ou aplicada) deve ser sempre determinante na vida do pesquisador, seja através de revisões bibliográficas periódicas, seja na participação ativa de cursos, seminários, congressos ou via Internet. Os fenômenos da natureza estão mecanicamente atados uns aos outros e impregnados de historicidade, pois muitas descobertas e invenções serendípticas ou não, devem ser creditadas, em grande parte, a todos aqueles que se empenharam anteriormente e cuja história nunca deveria ser esquecida 1,4,5,20,24. Parodiando o pensamento grego clássico: "Os deuses são mais complexos em seus desejos do que os mortais cuja cultura é sempre mais ambivalente, uma tragédia examinada à exaustão em busca de um sentido para a vida humana."

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Dr. Nilton Bezerra do Vale
Av. Getúlio Vargas, 558/702 Petrópolis
59012-360 Natal, RN

Apresentado em 31 de maio de 2004
Aceito para publicação em 08 de outubro de 2004

 

 

* Recebido da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC) da UFRN

 

 

Anexo I

Anexo II

Anexo III