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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.55 no.3 Campinas May/June 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942005000300012 

INFORMAÇÃO CLÍNICA

 

Anestesia em paciente portadora de doença de moyamoya. Relato de caso*

 

Anestesia en paciente portadora de enfermedad de moyamoya. Relato de caso

 

 

Adriano Bechara de Souza HobaikaI; Vera Coelho Teixeira, TSAII; Marcos Guilherme Cunha Cruvinel, TSAIII; Alexandre Cordeiro UlhoaIV

IEx-ME2 em Anestesiologia do CET/SBA do Hospital Felício Rocho
IICoordenadora do CET/SBA do Hospital Felício Rocho
IIIEspecialista em Clínica Médica; Anestesiologista do Hospital Life Center
IVNeuroradiologista do Hospital Felício Rocho e do Hospital das Clínicas da UFMG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A doença de moyamoya é uma vasculopatia cerebral progressiva rara, mais freqüentemente diagnosticada em populações asiáticas, mas que também vem sendo identificada no Brasil. Durante a sua vida, pacientes portadores desta doença podem ser submetidos aos mais variados tipos de procedimentos cirúrgicos. O anestesiologista deve entender a fisiopatologia da doença e instituir as medidas peri-operatórias mais adequadas, no intuito de melhorar o prognóstico destes pacientes.
RELATO DO CASO: Paciente do sexo feminino, 22 anos, com insuficiência renal crônica, portadora da doença de moyamoya, submetida à intervenção cirúrgica para instalação de fístula arteriovenosa. A anestesia foi induzida com fentanil, propofol e atracúrio e mantida com sevoflurano. Durante o procedimento, a paciente foi mantida em normocapnia e normotermia. A extubação foi realizada e a paciente transferida à sala de recuperação pós-anestésica sem complicações.
CONCLUSÕES: Este artigo apresenta os cuidados anestésicos dispensados a uma paciente portadora da doença de moyamoya.

Unitermos: ANESTESIA, Geral: inalatória; DOENÇAS: moyamoya


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: La enfermedad de moyamoya es una vasculopatia cerebral progresiva rara, más frecuentemente diagnosticada en individuos asiáticos, y que también viene siendo identificada en Brasil. Durante su vida, pacientes portadores de esta enfermedad pueden ser sometidos a los más variados tipos de procedimientos quirúrgicos. El anestesiologista debe entender la fisiopatología de la enfermedad e instituir las medidas peri-operatorias más adecuadas, en el designio de mejorar el pronóstico de estos enfermos.
RELATO DEL CASO: Paciente del sexo femenino, 22 años, insuficiencia renal crónica, portadora de la enfermedad de moyamoya, sometida a intervención quirúrgica para la instalación de fístula arteriovenosa. La anestesia fue inducida con fentanil, propofol y atracúrio y mantenida con sevoflurano. Durante el procedimiento, la paciente fue mantenida en normocapnia y normotermia. La extubación fue realizada y la paciente transferida a la sala de recuperación pos-anestésica sin complicaciones.
CONCLUSIONES: Este artículo presenta los cuidados anestésicos dados a una paciente portadora de la enfermedad de moyamoya.


 

 

INTRODUÇÃO

A doença de moyamoya é uma vasculopatia encefálica progressiva não inflamatória, não aterosclerótica e não amiloidótica, que acomete mais freqüentemente indivíduos japoneses e seus descendentes, apesar de ser descrita em todo o mundo. É uma condição rara e caracterizada por estenose ou oclusão bilateral da porção terminal da artéria carótida interna e/ou das porções proximais das artérias cerebrais anteriores e/ou cerebrais médias. O diagnóstico é confirmado por angiografia cerebral, onde os vasos patológicos se apresentam semelhantes à "nuvem da fumaça de cigarro", daí a origem do termo japonês moyamoya 1,2. Malformação vascular congênita ou arterite adquirida podem estar envolvidas na etiologia desta doença. Exames de autópsia evidenciam redução do calibre dos vasos com fibrose, por aumento da espessura da íntima e por degeneração da lâmina elástica interna.

Existem dois picos etários de aparecimento dos sintomas: na primeira e na terceira décadas. Em crianças, a doença de moyamoya se manifesta principalmente por fenômenos neurológicos isquêmicos como paresia, alterações sensoriais, cefaléia, convulsão e movimentos involuntários; na idade adulta, se apresenta mais comumente por hemorragia intracraniana. Ainda podem estar presentes convulsões, fraqueza muscular e redução do nível de consciência 3. Com a evolução da doença, o quociente de inteligência pode se reduzir em até 60%, em um período de 5 a 9 anos 4. Freqüentemente, esta doença está associada a outras morbidades como asma, síndrome de Down e hipotireoidismo.

Algumas técnicas cirúrgicas de neovascularização têm sido utilizadas com o intuito de aumentar o fluxo da circulação colateral intracraniana, através de bypass extracraniano-intracraniano e têm apresentado bons resultados na prevenção dos episódios isquêmicos em crianças 5,6. Devido aos eventos hemorrágicos, estes pacientes também podem ser submetidos à drenagem ventricular, drenagem de hematoma, pinçamento de aneurisma e derivação ventriculoperitoneal 7.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo feminino, 22 anos, 41 kg, não-oriental, com diagnóstico de doença de moyamoya há 16 anos, submetida à intervenção cirúrgica para realização de fístula arteriovenosa no membro superior direito. Apresentava crises convulsivas freqüentes, retardo mental e atrofia de membros inferiores. Portadora de hipertensão arterial e insuficiência renal crônica. Em uso oral regular de fenitoína (anticonvulsivante) e codergocrina (vasodilatador periférico).

Na véspera do procedimento, através de cateter de duplo lúmen, foram administrados 600 mL de concentrado de hemácias, durante a sessão de hemodiálise. Exames pré-operatórios: hemoglobina 11,0 mg/dL, potássio sérico 4,9 mmol/L e atividade da protrombina de 71%.

A paciente foi monitorizada com oxímetro de pulso, ECG, aparelho para medida automática de pressão arterial não-invasiva, capnografia e termômetro, posicionado na nasofaringe. A anestesia foi induzida com fentanil (0,25 mg), propofol (150 mg) e atracúrio (25 mg), para facilitar a intubação traqueal, e mantida com administração inalatória de sevoflurano (2% a 3%). A ventilação mecânica dos pulmões foi ajustada para obter uma PETCO2 próxima de 36 mmHg. A paciente foi mantida aquecida através de circulação forçada de ar quente e, líquidos venosos foram infundidos em temperatura morna. O procedimento durou 72 minutos, a extubação foi realizada sem complicações e a paciente foi transferida para sala de recuperação pós-anestésica.

 

DISCUSSÃO

Em 1997, foram registrados no Japão, aproximadamente 3800 casos de doença de moyamoya 5, em que fatores genéticos parecem estar envolvidos 8,9. Em um estudo cooperativo recente, realizado na Coréia, mais de 330 pacientes portadores da doença foram identificados 3. No Brasil existem aproximadamente 21 casos publicados até 1999, o que provavelmente é um número infra-estimado 10.

A conduta anestésica destes pacientes deve priorizar a manutenção do fluxo sangüíneo encefálico, pois estados peri-operatórios desfavoráveis podem desencadear eventos neurológicos negativos. Manter a normocapnia é fundamental, pois existem evidências de que tanto a hipocapnia como a hipercapnia reduzem o fluxo sangüíneo encefálico nestes pacientes 11. A ventilação controlada dos pulmões apresenta vantagens no estabelecimento da normocapnia, pois permite alterações mensuráveis dos parâmetros ventilatórios. Fatores como hipovolemia e hipotensão arterial também foram identificados na gênese da isquemia peri-operatória e devem ser evitados 12. Idealmente, deve ser mantido um estado de hipervolemia nestes pacientes e um debito urinário próximo de 2 mL.kg-1.h-1. Os valores de hematócrito não devem estar acima do normal, pois podem precipitar isquemia encefálica e a anemia deve ser corrigida no pré-operatório, a fim de aumentar o transporte de oxigênio. Há a sugestão de que os valores de hematócrito devem permanecer entre 30% e 42%, com uma leve hemodiluição, o que pode ser benéfico pela redução da viscosidade sangüínea 13. Normotermia também é recomendada, pois foi verificado que pacientes portadores da doença de moyamoya podem apresentar vasoespasmo na vigência de hipotermia, enquanto que a hipertermia pode também precipitar fenômenos isquêmicos 14. Em crianças, a isquemia decorrente de hiperventilação peri-operatória causada pelo choro é uma complicação comum e importante e suas principais causas são a ansiedade e a dor pós-operatória. Sedação pré-operatória eficaz e controle álgico rigoroso devem ser implementados de rotina, sendo recomendado que se mantenha o acesso venoso pelo menos por uma semana 15. Em relação à administração de anestésicos voláteis, a opção pelo isoflurano, assim como pelo sevoflurano, parece segura, por proporcionar um grau de proteção encefálica significativa durante a isquemia temporária 16-18.

A espectroscopia infravermelha é um método não-invasivo de monitorização transcraniana contínua da oxigenação encefálica. Sua utilização deve ser feita quando há risco de isquemia encefálica. Nestas situações, a monitorização bilateral deve ser utilizada 19. Os pacientes com doença de moyamoya são mais susceptíveis à isquemia encefálica, portanto, a monitorização da oximetria transcraniana pode ser muito útil.

A paciente ainda apresentava insuficiência renal crônica, o que impediu o estabelecimento da hipervolemia e hemodiluição, além de não ser possível medir o débito urinário. A normocapnia foi mantida com a ventilação mecânica dos pulmões e o ajuste adequado da PETCO2 à capnografia. A hipotermia foi controlada com infusão venosa de solução fisiológica a 0,9% morna e circulação forçada de ar quente sobre o corpo da paciente.

A anestesia - regional ou local - associada à sedação, poderia ser utilizada na paciente, porém, devido ao grau de retardo mental e agitação psicomotora, optou-se por anestesia geral com indução venosa, o que proporcionou um curso anestésico suave, além de permitir um controle adequado da PETCO2.

Na doença de moyamoya, apesar de algumas condutas anestésicas estarem estabelecidas, todas as comorbidades do paciente devem ser avaliadas criteriosamente pelo anestesiologista e condutas peri-operatórias específicas devem ser estabelecidas para cada caso.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Dr. Adriano Bechara de Souza Hobaika
Rua Elza Brandão Rodarte, 137/1602 Belvedere
30320-630 Belo Horizonte, MG
E-mail: hobaika@globo.com

Apresentado em 27 de julho de 2004
Aceito para publicação em 27 de janeiro de 2005

 

 

* Recebido do Hospital Felício Rocho, Belo Horizonte, MG