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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.58 no.6 Campinas Nov./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942008000600010 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Compressão da cartilagem cricóide. Aspectos atuais*

 

Compresión del cartílago cricoides. Aspectos actuales

 

 

Eduardo Toshiyuki Moro, TSAI; Alexandre Goulart, TSAII

ICo-Responsável pelo CET-SBA da Faculdade de Medicina da PUC/SP; Membro da Comissão Científica da SAESP (2006-2007)
IIInstrutor do CET-SBA da Faculdade de Medicina da PUC/SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Sellick descreveu a importância da pressão aplicada na cartilagem cricóide para a prevenção da regurgitação do conteúdo gástrico durante a indução da anestesia. Desde então a manobra tem sido universalmente aceita pelos anestesiologistas como um passo fundamental durante a indução com a técnica de seqüência rápida. O presente artigo teve como objetivo discutir as indicações, a técnica, as complicações e os motivos pelos quais alguns autores têm contestado a eficácia dessa técnica.
CONTEÚDO: Foram revisadas as indicações, a técnica e as complicações da manobra de compressão da cartilagem cricóide. Também foram discutidos os aspectos que têm motivado alguns autores a abandonar a manobra de Sellick durante a indução anestésica com a técnica de seqüência rápida.
CONCLUSÕES: A aplicação da manobra de compressão da cartilagem cricóide exige o conhecimento da anatomia da via aérea superior e da força correta a ser empregada. Estudos endoscópicos e radiológicos, assim como pacientes que apresentaram aspiração pulmonar a despeito da aplicação da manobra de Sellick, têm colocado em questão a utilidade da técnica. Além disso, quando mal empregada, pode causar deformidade dessa cartilagem, fechamento das cordas vocais e dificuldade de ventilação. Apesar do papel de destaque representado pela manobra de Sellick na prevenção da aspiração pulmonar, não há garantia de proteção das vias aéreas para todos os pacientes, sobretudo quando a técnica não é corretamente aplicada.

Unitermos: COMPLICAÇÕES: aspiração pulmonar, conteúdo gástrico; INTUBAÇÃO, Traqueal: manobra de Sellick, seqüencial rápida.


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Sellick describió la importancia de la presión aplicada en el cartílago cricoides para la prevención de la regurgitación del contenido gástrico durante la inducción de la anestesia. Desde entonces, la maniobra ha sido universalmente aceptada por los anestesiólogos como un paso fundamental durante la inducción con la técnica de secuencia rápida. El presente artículo, tuvo el objetivo de discutir las indicaciones, la técnica, las complicaciones y los motivos por los cuales algunos autores han refutado la eficacia de la mencionada técnica.
CONTENIDO: Han sido revisadas las indicaciones, la técnica y las complicaciones de la maniobra de compresión del cartílago cricoides. También se analizaron los aspectos que han hecho con que algunos autores abandonen la maniobra de Sellick durante la inducción anestésica con la técnica de secuencia rápida.
CONCLUSIONES: La aplicación de la maniobra de compresión del cartílago cricoides exige el conocimiento de la anatomía de la vía aérea superior y de la fuerza correcta a ser empleada. Estudios endoscópicos y radiológicos, como también pacientes que presentaron aspiración pulmonar pese al uso de la maniobra de Sellick, han colocado en tela de juicio la utilidad de la técnica. Además de eso, cuando se usa mal, puede causar deformidad de ese cartílago, el cierre de las cuerdas vocales y dificultad de ventilación. A pesar del papel de destaque representado por la maniobra de Sellick en la prevención de la aspiración pulmonar, no se garantiza la protección de las vías aéreas para todos los pacientes, principalmente cuando la técnica no está correctamente aplicada.


 

 

INTRODUÇÃO

A compressão da cartilagem cricóide foi descrita inicialmente por Monro (1774) 1: "Quando a insuflação pulmonar é feita pela boca, parte do ar é direcionado para o estômago, mas isso pode ser prevenido pela compressão da porção inferior da laringe. A pressão deve ser aplicada na cartilagem cricóide, para que ocorra fechamento do esôfago e a passagem de ar pela laringe não seja interrompida."

Sellick 2, em 1961, descreveu a importância da pressão aplicada na cartilagem cricóide para a prevenção da regurgitação do conteúdo gástrico durante a indução da anestesia. Desde então, a manobra foi aceita pelos anestesiologistas como um passo fundamental durante a indução com a técnica de seqüência rápida. No entanto, após a observação de casos de aspiração pulmonar em pacientes submetidos à compressão da cartilagem cricóide 3,4, além de estudos endoscópicos 5 e radiológicos 6,7 que contestam a eficácia da manobra, muitos autores têm questionado a indicação desse procedimento 8-10.

Qual seria a explicação para a ocorrência de aspiração pulmonar nos casos em que a compressão na cartilagem cricóide foi aplicada?

Diferenças anatômicas entre indivíduos, alterações da anatomia das vias aéreas induzidas pela manobra, aplicação incorreta da técnica, diminuição do tônus do esfíncter esofágico inferior são as razões mais sugeridas para explicar a incapacidade da manobra de Sellick em evitar a regurgitação em alguns casos 8. O presente artigo teve como objetivo discutir as indicações, a técnica, as complicações e os motivos pelos quais alguns autores têm contestado a indicação dessa técnica.

 

VARIAÇÃO INDIVIDUAL DA ANATOMIA DAS VIAS AÉREAS

O esôfago proximal tem início na porção inferior da cartilagem cricóide. Esta é considerada a única estrutura cartilaginosa das vias aéreas superiores cuja forma representa um anel completo. A aplicação de força na face anterior da cartilagem cricóide comprime o esôfago contra a coluna vertebral entre a quinta e a sexta vértebra cervical (C5 e C6), desde que essas estruturas estejam alinhadas no plano axial. A técnica é semelhante para adultos e crianças, exceto pelo tamanho reduzido e pela posição mais cefálica da cartilagem cricóide nos pacientes de menor idade 1.

O mecanismo proposto para a manobra de Sellick tem como base a suposição de que o esôfago está situado diretamente atrás da cartilagem cricóide. Como esta representa um anel completo, a sua compressão contra a coluna vertebral deveria ocluir o esôfago, impedindo a passagem do conteúdo gástrico para a orofaringe.

No estudo original de Sellick 2, foram avaliados 26 pacientes considerados de risco para aspiração pulmonar do conteúdo gástrico. Estes foram colocados em posição supina, com o dorso discretamente rebaixado para que, por efeito da gravidade, não houvesse aspiração de material regurgitado. A cabeça foi posicionada em completa extensão, o que aumentaria a convexidade anterior da coluna cervical, retificaria o esôfago e preveniria o deslocamento deste para uma posição lateral durante a manobra de compressão da cartilagem cricóide. No entanto, atualmente se recomenda a "posição olfativa" (flexão do pescoço associada à hiperextensão da articulação atlantoocciptal) como a mais adequada para a ventilação e a intubação traqueal 12.

Em dois estudos radiológicos (ressonância magnética e tomografia computadorizada) 6,7 que avaliaram voluntários não-anestesiados com a cabeça em "posição neutra", mais de 50% dos indivíduos apresentavam o esôfago em posição lateral com relação à linha média do corpo vertebral. Quando a posição da cartilagem cricóide foi considerada, a incidência de desvio lateral foi de 33%. Segundo Smith e col. 6, após a aplicação da manobra de Sellick, esses valores foram de 90% e 67%, respectivamente. Algumas estruturas cartilaginosas das vias aéreas superiores têm o formato em "U", como é o caso da cartilagem tireóide ou a traquéia. A compressão dessas estruturas, além de ser ineficaz, pode dificultar a intubação traqueal ou causar lesão das vias aéreas 1.

 

PRESSÃO INTRAGÁSTRICA

Fanning 13, em 1970, foi o primeiro autor a relatar a pressão intragástrica necessária para superar a força gerada pela compressão da cartilagem cricóide. Segundo o estudo, realizado em cadáveres, se a manobra fosse aplicada de forma adequada, a pressão intra-esofágica produzida (em torno de 50 cmH2O) deveria ser superior a observada no estômago de indivíduos em jejum (18 cm H2O), durante a eructação (20 cm H2O) ou nos casos em que há aumento da pressão intragástrica por fasciculação induzida pela succinilcolina (>40 cm H2O). No entanto, durante o vômito, quando a pressão esofágica pode ser superior a 60 cmH2O, a manobra deve ser suspensa, pois pode haver ruptura esofágica.

A compressão da cartilagem cricóide aumenta o tônus do esfíncter esofágico superior 14, mas diminui o do inferior 15, o que sugere a presença de mecanorreceptores na faringe que promoveriam relaxamento reflexo desse esfíncter. Esse efeito, porém, parece não provocar refluxo gastroesofágico 16.

 

FORÇA APLICADA

Em seu trabalho original 2, Sellick não cita a força aplicada na cartilagem cricóide. Segundo o autor: "no começo da anestesia, aplica-se a compressão na cartilagem cricóide"; "mesmo o paciente consciente pode tolerar uma moderada pressão sem desconforto"; "assim que a consciência é abolida, uma pressão firme deve ser empregada". A força aplicada na cartilagem cricóide deve ser suficiente para ocluir o esôfago, mas sem obstruir ou dificultar a ventilação. A partir da década de 1990, o foco dos estudos sobre a compressão na cartilagem cricóide passou a ser a força aplicada nessa estrutura e não mais a pressão gástrica.

Meek e col. 17 empregaram um modelo de via aérea para avaliar a compressão na cartilagem cricóide realizada por 135 anestesiologistas e observaram que apenas um terço dos profissionais aplicou a força recomendada. Entre enfermeiros, Koziol e col. 18 avaliaram 102 profissionais e observaram que apenas 5% destes aplicaram a força considerada adequada. Além disso, um número considerável de indivíduos identificou a cartilagem tireóide como a estrutura a ser comprimida.

Vanner e Pryle 19 observaram que 30N (equivalente a 3 kg) era a força aplicada na cartilagem cricóide necessária para prevenir a regurgitação de solução fisiológica a 0,9% em dez cadáveres com pressão esofágica de até 55 cmH2O.

Em indivíduos acordados, a aplicação de força maior que 20 N na cartilagem cricóide pode causar dor, tosse e náuseas. Assim, durante a indução da anestesia, enquanto o paciente estiver consciente, a força deve ser de cerca de 10 a 20N e de 30 a 40N quando houver perda da consciência 20.

 

TREINAMENTO

A aplicação da manobra de Sellick exige o conhecimento da anatomia das vias aéreas superiores e da força correta a ser empregada.

Segundo a técnica single hand, o polegar e o dedo médio são colocados em cada lado da cartilagem cricóide enquanto o dedo indicador é posicionado acima. Essa disposição tem como objetivo dificultar o movimento lateral da cartilagem 2. Uma desvantagem dessa técnica seria a flexão da cabeça induzida pela força aplicada indiretamente na coluna cervical, o que pode diminuir a visualização da glote 9.

Uma alternativa proposta para a compressão da cartilagem cricóide é a manobra denominada two hands. A diferença para a técnica em que se utiliza apenas uma mão é que, neste caso, um assistente deve apoiar a face posterior do pescoço com a mão para contrapor a força aplicada na cartilagem cricóide 21.

Alguns estudos têm demonstrado que uma parcela considerável dos anestesiologistas e de outros profissionais diretamente envolvidos com a anestesia não conhece ou apresenta dificuldade em realizar a compressão da cartilagem cricóide de forma correta 17,22. Além disso, o conhecimento sobre a força a ser aplicada, adquirido por meio de treinamento em modelos mecânicos, diminui com o tempo. Flucker e col. 23 empregaram seringas de 50 mL, cujos bicos estavam fechados, como meio de simular a força aplicada na cartilagem cricóide. Os autores observaram o volume de ar comprimido pelo êmbolo e transformaram os valores observados em medidas de força. O modelo foi considerado eficaz como forma de treinamento, mas a duração da habilidade adquirida diminuía muito após um mês.

Diversas formas têm sido descritas para habilitar os anestesiologistas a aplicar de forma correta a manobra de Sellick: cricoid yoke, simuladores mecânicos, manequins e modelos laringotraqueais 24,25. Infelizmente, esses instrumentos são caros, de difícil acesso para a maioria dos serviços de anestesiologia no Brasil e os treinamentos para manutenção da habilidade deveriam ser repetidos periodicamente 26.

Segundo Kopka e Robinson 27, a seringa de 50 mL é eficaz como modelo de treinamento, mesmo quando empregada imediatamente antes da aplicação clínica da manobra de Sellick. Portanto, seria alternativa a proposta, pouco prática, da realização periódica de treinos em modelos mecânicos. Uma referência prática para conhecer a força a ser aplicada na cartilagem cricóide seria o emprego de seringas de 20 mL (BD®). A força necessária para comprimir 10 mL de ar, quando o bico da seringa se encontra fechado, é de cerca de 30N 28.

 

MANOBRA DE SELLICK E A LARINGOSCOPIA

Segundo um levantamento realizado na Inglaterra por meio de questionários enviados para preceptores e residentes, dos 220 profissionais que responderam, todos relataram aplicar a manobra de Sellick durante a indução da anestesia com a técnica de seqüência rápida, 28% presenciaram casos de regurgitação apesar da aplicação da manobra e metade relatou, ao menos uma vez, falha de intubação traqueal durante a aplicação da compressão da cartilagem cricóide. O trabalho avaliou também qual a força adequada a ser empregada segundo a opinião dos entrevistados. As respostas variaram de 1 a 44N para pacientes conscientes e de 2 a 80N para os inconscientes. Muitos não sabiam a força indicada ou a descrevia como "suficiente", "força para quebrar um ovo" ou "varia" 29. Por outro lado, em estudo sobre a aplicação da manobra de Sellick em crianças, apenas 59% dos anestesiologistas entrevistados afirmaram empregar a técnica. Quando a idade considerada era a escolar, a freqüência observada foi de 96% 30.

Quando aplicada de forma incorreta, a manobra de Sellick pode dificultar a intubação e a ventilação 31. Palmer e col. 32 aplicaram uma força de 20N na cartilagem cricóide de pacientes anestesiados e avaliaram, por meio de fibroscopia, a incidência de deformidade da cartilagem e de fechamento das cordas vocais induzido pela manobra. Segundo os autores, foi observado o contato entre a porção anterior e a posterior da cartilagem cricóide em 24% dos indivíduos e em 40% houve fechamento das cordas vocais. Quando a força aplicada foi de 30N, a incidência dessas alterações aumentou para 43% e 50%, respectivamente.

Em alguns casos, a visualização das cordas vocais somente é possível após a manipulação externa de estruturas, como a cartilagem tireóide. A manobra de BURP (backward, upward, rightward pressure on the thyroid cartilage) tem sido considerada uma opção interessante para esses casos 33, mas não deve ser confundida com a descrita por Sellick 2.

Os efeitos da compressão na cartilagem cricóide na laringoscopia foram avaliados por diferentes autores e os resultados foram conflitantes 34-36. Uma provável explicação para a diferença nos resultados observados é a variação anatômica das vias aéreas entre os indivíduos avaliados. A manobra de BURP, quando aplicada em combinação com a manobra de Sellick, pode piorar a visualização da glote 36.

 

MANOBRA DE SELLICK EM SITUAÇÕES "NÃO VENTILO, NÃO INTUBO"

Quando a dificuldade de manipulação das vias aéreas somente é percebida após a indução da anestesia geral, a ventilação sob máscara facial seria imediatamente recomendada, mas no paciente de estômago cheio essa conduta exige alguns cuidados. Segundo Moynihan e col. 37, a pressão na cartilagem cricóide é capaz de impedir a insuflação gástrica desde que a ventilação seja aplicada com pressão menor que 40 cmH2O. Nessa situação, seria possível ventilar o paciente de forma suave, desde que a manobra de Sellick fosse aplicada de forma correta.

Caso a visão das cordas vocais proporcionada pela laringoscopia ou a ventilação com a máscara facial não sejam adequadas, deve-se diminuir a força e reavaliar a posição onde a compressão está sendo aplicada. A prevenção da aspiração pulmonar é fundamental, mas a permeabilidade das vias aéreas deve prevalecer.

A ventilação e a oxigenação podem ser facilitadas pelo emprego da máscara laríngea convencional ou da ProSeal®, mas, de acordo com alguns estudos, a manobra de Sellick dificulta o correto posicionamento de ambos os instrumentos de acesso à via aérea 38,39. Nesses casos, pode ser necessária a interrupção da manobra temporariamente, o que parece ser uma opção razoável, já que a compressão da cartilagem cricóide pode se tornar ineficaz após poucos minutos de aplicação 40.

 

MANOBRA DE SELLICK E A SONDA GÁSTRICA

É comum a prática da inserção da sonda gástrica antes da anestesia nos pacientes de risco para aspiração pulmonar, com o objetivo de drenar líquidos e gases presentes no estômago. Sellick recomenda, em seu trabalho original 2, que a sonda seja retirada antes da indução da anestesia. Porém, dois estudos em cadáveres mostraram que a eficácia da manobra de Sellick não está diminuída com a sua presença 19,41. Assim, a sonda funcionaria como passagem segura do conteúdo gástrico quando uma compressão eficaz na cartilagem cricóide fosse aplicada.

Vale lembrar que a sondagem gástrica não é um procedimento isento de riscos. Kristensen e col. 42 estudaram a resposta hemodinâmica de 20 indivíduos, não-anestesiados e considerados de estômago cheio que foram submetidos à drenagem pré-operatória do conteúdo gástrico. Segundo os autores, as alterações cardiovasculares foram semelhantes às observadas durante a intubação traqueal de pacientes acordados.

Parece não haver diferença significativa na incidência de aspiração pulmonar quando diferentes calibres de sonda gástrica são empregados 43. Um balão associado à sonda tem sido empregado com sucesso, com o objetivo de ocluir a cárdia e, portanto, impedir o refluxo gastroesofágico 44. Essa sonda com balão gástrico tem sido estudada em conjunto com a máscara laríngea. Observou-se que a sonda não interferia na inserção da máscara laríngea e que esta não impedia a inserção da sonda. Essa associação representa uma boa opção para a manipulação de vias aéreas difíceis em pacientes sob risco de aspiração 45.

 

COMPLICAÇÕES

A manobra de Sellick não é um procedimento isento de riscos. Podem ocorrer eventos menores, como náuseas, vômitos, dor ou alterações hemodinâmicas durante a aplicação da compressão da cartilagem cricóide. A aplicação incorreta da manobra pode causar deformidade dessa cartilagem, fechamento das cordas vocais e dificuldade de ventilação, sobretudo em mulheres. A força aplicada deve ser suficiente para prevenir a aspiração, mas não tão grande a ponto de causar obstrução das vias aéreas ou permitir ruptura esofágica, caso haja vômitos 45.

 

CONCLUSÕES

A aplicação da manobra de compressão da cartilagem cricóide exige o conhecimento da anatomia das vias aéreas superiores e da força correta a ser empregada. Estudos endoscópicos e radiológicos, assim como pacientes que apresentaram aspiração pulmonar a despeito da aplicação da manobra de Sellick, têm colocado em questão a utilidade da técnica. Além disso, quando mal empregada, pode causar deformidade dessa cartilagem, fechamento das cordas vocais e dificuldade de ventilação. Apesar do papel de destaque representado pela manobra de Sellick na prevenção da aspiração pulmonar, não há garantia de proteção das vias aéreas para todos os pacientes, sobretudo quando a técnica não é aplicada de forma correta.

 

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Endereço para correspondência:
Dr. Eduardo Toshiyuki Moro
Av. Araçoiaba, 85 - Condomínio Lago Azul
18190-000 Araçoiaba da Serra, SP
E-mail: edumoro@terra.com.br

Apresentado em 5 de setembro de 2007
Aceito para publicação em 28 de julho de 2008

 

 

* Recebido do CET-SBA da Faculdade de Medicina da PUC/SP, Sorocaba, SP