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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.56 no.3 Brasília May/June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672003000300007 

PESQUISA/RESEARCH/INVESTIGACIÓN

 

A enfermagem frente a problemas de relacionamento na família

 

Nursing in light of family relationship problems

 

La enfermería frente a problemas de relaciones familiares

 

 

Sonia Silva MarconI; Maria Angélica Pagliarini WaidmanII

IEnfermeira, Doutora em Filosofia da Enfermagem, Professora da Universidade Estadual de Maringá, Coordenadora do NEPAAF - Núcleo de estudos, pesquisa, assistência e apoio à familia, E-mail: ssmarcon@uem.br
IIEnfermeira, Doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina, Professora da Universidade Estadual de Maringá, Membro do NEPAAF

 

 


RESUMO

O objetivo é apresentar alguns aspectos do relacionamento familiar decorrentes de problemas na comunicação. Trata-se de parte de um estudo qualitativo trigeracional, sobre a experiência de famílias ao criarem seus filhos. Adotou como linha metodológica o método histórico e na coleta de dados, uma associação da observação participante à história de vida. Foram identificados a existência de problemas/dificuldades de comunicação familiar no âmbito intra e intergeracional, bem como de mudanças nesta comunicação ao longo das três gerações, no que se refere à forma, qualidade, quantidade, tipos, recursos, entre outros. Conclui-se que existem muitos problemas/dificuldades de comunicação no interior da família, especialmente no âmbito intergeracional, devendo a enfermagem estar atenta para estas questões, se pretende uma assistência global à família.

Descritores: Relação familiar; comunicação familiar; família


ABSTRACT

The objective is to present some aspects of the family relationship due to communication problems. It is a part of a three generation qualitative study about the experience of families as they raise their children. The historical method was adopted as the methodological line and in the collection of data, in association of the participant observation of life history. The existence of problems/difficulties were identified in family communication within the scope of intra- and inter-generation, as well as changes in this communication throughout the three generations with respect to form, quality, quantity, types, resources, and others. The conclusion is that there are many problems/difficulties in communication within the family, especially within the inter-generation sphere, and nursing staff should be aware to these issues if a global assistance is intended for the family.

Descriptors: family relation; family communication; family


RESUMEN

El objetivo es presentar algunos aspectos de las relaciones familiares procedentes de problemas en la comunicación, identificados en un estudio calitativo trigeneracional, sobre la experiencia vivida por familias al criar a sus hijos. Se ha adoptado el método histórico y en la recogida de datos, una asociación entre la observación participante y la historia de vida. Se han identificado problemas/dificultades de comunicación familiar en el ámbito intra e intergeneracional, así como, cambios en esta comunicación a lo largo de las tres generaciones, respecto a la forma, calidad, cantidad, tipos y recursos. Se concluye que existen muchos problemas y dificultades de comunicación dentro de la familia, especialmente en el ámbito intergeneracional, y que la enfermería debe estar atenta a estas cuestiones si pretende una asistencia completa a la familia.

Descriptores:Relación familiar; Comunicación familiar; familia


 

 

1 Introdução

Foi só nos últimos anos, mais precisamente a partir da década de 80, que começamos a observar na literatura uma preocupação por parte da enfermagem brasileira em dar conta de um novo/velho objeto de trabalho, que é a família; preocupação esta que, ao mesmo tempo, tem representado um desafio e, para transpô-lo, temos verificado uma busca constante de conhecimentos, tendo em vista a criação e desenvolvimento de um referencial teórico que fundamente a assistência de enfermagem à família. Neste sentido, vários estudos têm sido realizados com o objetivo de conhecer e compreender a família brasileira - que possui características e peculiaridades próprias de sua cultura - em seu processo de viver (1).

Em nosso entendimento, o que deve mover a prática e a pesquisa da enfermagem são as situações concretas vivenciadas pelas famílias em seu cotidiano e a necessidade de compreender suas relações com seus membros e com outros grupos que compõem a sociedade, não de forma isolada, mas como elas ocorrem na realidade.

A preocupação da enfermagem brasileira em se instrumentalizar para assistir adequadamente a família enquanto unidade de cuidado tem desencadeado uma série de pesquisas(2) cujos resultados nos têm permitido concluir que para assistir a família, a enfermagem necessita desenvolver e utilizar uma metodologia de trabalho específica, já que a família se caracteriza por ser um "corpo social", onde prevalece a rede de relações e as interações entre os indivíduos; interações estas que podem assumir diferentes formas em diversos momentos no ciclo da vida em família.

Dada a relevância da qualidade destas interações na manutenção da saúde de seus membros, ao cuidar da família, os profissionais de enfermagem precisam voltar-se para todas as suas relações, tanto intra como extrafamiliares, visto que interações perturbadas entre dois membros de uma família podem, em algum momento e dependendo do suporte da família ou de suas reservas de enfrentamento, perturbar toda a rede de interação da mesma, pois já é consenso entre pesquisadores nesta área que, dependendo das condições das interações entre os membros familiares, a saúde da família como um todo estará comprometida. Portanto, ao assistir a família, os profissionais de enfermagem devem se interessar pelas relações familiares e pela interação global da família, onde se inclui, de maneira determinante, a comunicação, já que comunicação é a base da interação, para não dizer que é a própria interação humana(3).

A comunicação é uma forma de o ser humano sair de sua solidão e relacionar-se com o outro, processo ao sair do qual ele estará enriquecido(4). Apesar de nem sempre a comunicação ser um ato positivo e satisfatório, toda interação produz conhecimento, pois os seres humanos aprendem com as boas e más experiências no decorrer da vida, basta apenas que eles encontrem um significado nelas(4).

 

2 Buscando comrpeender o papel da comunicação em nossas vidas

A proposta de focalização do tema Comunicação automaticamente nos leva a refletir sobre uma velha tese: a de que grande parte dos problemas vivenciados pelos usuários dos serviços de saúde estão relacionados, de alguma forma, a problemas de comunicação, seja entre eles mesmos, seja com seus familiares, com a equipe de saúde e com as pessoas com quem vivem no seu dia-a-dia.

Isto por sua vez, nos impulsionou a desenvolver este paper com o objetivo de refletir sobre as relações familiares a partir de dados coletados em 1998, em um estudo cujo objeto de investigação não era a comunicação/relação familiar.

A ausência de comunicação ou mesmo uma comunicação não efetiva entre a população e os profissionais de saúde, ao lado de fatores individuais, têm dificultado o estabelecimento de comportamentos preventivos em saúde, como, por exemplo, a aderência de indivíduos hipertensos ao tratamento recomendado, além de contribuir negativamente no estabelecimento de desmame precoce, despreparo para o aleitamento materno, gravidezes não planejadas, descontentamento com a assistência à saúde recebida, entre outros.

Como profissionais de saúde precisamos estar atentos para o fato de que a comunicação, a confiança e o risco desenvolvem-se como um paradigma ou um constructo no qual cada fator afeta e é afetado por todos na comunicação interpessoal(5), como uma variável importante que influencia a qualidade de nossas interações. Na verdade, a confiança permite maior efetividade da comunicação na medida em que, a depender dela, a pessoa sente-se mais à vontade para externar de modo sincero o que pensa e o que sente. A comunicação ser mais aberta ou mais fechada dependerá, em primeira instância, do grau de confiança que existe entre emissor e receptor da mensagem. De qualquer maneira, sempre existirá o risco de a mensagem ser rejeitada ou distorcida, o que na área da saúde concorre para a adoção ou não de medidas preventivas.

Comunicação também é convivência, está na raiz da comunidade, que nada mais é do que um agrupamento caracterizado por forte coesão derivada do consenso espontâneo entre os seus componentes(6). Existem autores que defendem que o grande objetivo da comunicação é o entendimento entre os homens(5), que ao se comunicarem compartilham elementos de comportamento, ou modos de vida, pela existência de um conjunto de regras(7).

A comunicação permite ao ser humano se relacionar com os demais, atuando como um intercâmbio recíproco de informações, idéias, crenças, sentimentos e atitudes entre duas pessoas ou entre um grupo de pessoas(8) , constituindo por isto, um processo natural, universal de interpelação e influencia recíproca entre as partes de uma organização e entre esta e seu ambiente. É portanto, um processo dinâmico que exige adaptações contínuas por aqueles envolvidos. Um ditado popular afirma que, conversando, a gente se entende. No entanto, nos dias atuais, existe uma real preocupação com a ausência de diálogo vivenciada em muitos lares, dada a exiguidade de tempo, decorrente da correria diária observada nos grandes centros. As famílias, nas raras oportunidades em que se encontram todos juntos, não conversam a fundo acerca de seus problemas comuns, porque, além de ser pouco o tempo disponível, existe algo que monopoliza a atenção e a conversa, e que todos os outros se calam para ouvir: a televisão.

Mas a comunicação não se dá apenas através de palavras, que apenas são uma de suas manifestações, a verbal; existem também a não verbal, representada por gestos, expressão facial, postura corporal, e a comunicação paraverbal, exemplificada pelo tom de voz, ritmo das palavras, pausa. Todas estas formas de expressão podem ser utilizadas para a comunicação de nossos mais íntimos sentimentos e pensamentos(9). Além disso, os seres humanos, com sua capacidade intelectual, descobriram e/ou inventaram outras formas para manifestar os sentimentos básicos da natureza humana, como a pintura, escultura, arquitetura, dança, música, entre outros.

Surge daí a grande importância da comunicação na família; afinal, nós, pais, se não queremos ser traídos por nossas atitudes e comportamentos, não devemos nos preocupar só com o que falamos na frente de nossos filhos, mas sim com o conjunto de todo o nosso comportamento. Afinal, todos estamos sujeitos a esta traição, uma vez que os filhos, via de regra, estão atentos à forma como agimos para nela se espelharem, e o resultado é que, como eles não têm o senso de discernimento, acabam por reproduzir tanto os bons como os maus exemplos. Lembramo-nos de um caso em que uma mãe, ao questionar o filho de sete anos sobre o porquê de ele sempre responder a qualquer questionamento (especialmente quando feito pela mãe) com aspereza e em um tom de voz bastante elevado, ouviu: Ué, não é assim que você fala com a gente! Eu falo igual você fala.

Portanto, se aceitamos que comunicação é a ação de pôr em comum, de compartilhar idéias, sentimentos e atitudes e que por isto identifica-se com o processo social básico - a interação(10); e mais, que comunicação é uma troca de experiências socialmente significativas, um esforço para a convergência de perspectivas e para a reciprocidade de pontos de vista, ousamos inferir que no cotidiano das famílias, muitas vezes não há comunicação efetiva e sim, uma circulação de informações e isto, com certeza, não contribui muito para o crescimento e desenvolvimento dos indivíduos.

 

3 A família e os problemas cotidianos de comunicação

A nossa experiência em desenvolver trabalhos com famílias há pelo menos seis anos nos faz perceber que a ausência ou o déficit de comunicação prejudicam os relacionamentos, tanto os intra como os extrafamiliares. Muitas vezes o profissional que cuida da família não está preparado para desenvolver uma comunicação terapêutica com ela, o que é referido como falta de habilidade do profissional em realizar uma comunicação com o cliente de forma a ajudá-lo a comunicar-se, identificar e enfrentar seus problemas emergentes e encontrar um sentido na sua experiência(9). Assim sendo, acreditamos que, se os profissionais estiverem instrumentalizados para se comunicarem com a família de forma terapêutica, talvez eles possam ajudá-la em suas dificuldades, favorecendo assim sua relação com o mundo que a cerca.

Desta forma, apresentamos a seguir, à luz do referencial de Stefanelli(9), alguns exemplos que demonstram a existência de problemas na comunicação familiar, problemas estes que muitas vezes passam despercebidos pelos profissionais de saúde e até pela própria família, enquanto unidade. Os exemplos apresentados foram extraídos de uma pesquisa relacionada com a experiência vivenciada por famílias ao criarem seus filhos.

As premissas da Interação Simbólica, referencial adotado no desenvolvimento do estudo, reforçam a idéia de que existe relação entre qualidade da comunicação e saúde familiar, pois, de acordo com este referencial, a saúde familiar é uma experiência dinâmica de vida, decorrente de uma interação positiva, ou seja, aquela que possibilita a cada membro da família e à própria família (enquanto unidade) crescer, desenvolver-se e desempenhar seus papéis. O comprometimento na saúde familiar, por sua vez, surge em decorrência de uma interação perturbada, negativa, ou de uma superinteração, que dificulta ou impossibilita o desempenho de papéis, o crescimento e o desenvolvimento da família e de cada um de seus membros.

Os dados do referido estudo apontaram a existência de mudanças e mesmo de algumas divergências intergeracionais sobre "a criação dos filhos", especialmente a normas, formas, estratégias e disponibilidades. Estas mudanças, por sua vez, têm interferido na comunicação familiar, no que se refere à forma, qualidade, quantidade, tipo, recursos, entre outros aspectos.

Os problemas de comunicação identificados são tanto de ordem inter como intrageracional. Na comunicação intergeracional, por exemplo, observamos que os avós de hoje se ressentem muito da forma como são tratados pelos netos:

Depois que eles pegam uma certa idade, não conversam mais com a gente [...] chegam aqui, sentam na frente da televisão e ali ficam, só respondem o que lhes é perguntado sem nem sequer tirar os olhos da televisão, às vezes nem bênção pede.

Neste exemplo podemos constatar que a avó se queixa do não-atendimento de uma das funções da comunicação, o entretenimento, que tem por objetivo aliviar a ansiedade, divertir e criar clima favorável entre o emissor e receptor da mensagem(9).

O clima favorável ao início da interação, como pode ser percebido, é abortado pelo neto por uma manifestação não verbal, o "não tirar os olhos da televisão", revelando a influência direta da televisão, bem como do papel que esta desempenha na vida diária, principalmente de crianças e adolescentes.

Observamos, através deste exemplo, que os avós passaram muito rapidamente de uma posição onde eram respeitados e tinham suas opiniões e experiências de vida valorizadas, para uma posição de quase desprezo na família, configurado pela ausência de tempo para escutar suas histórias. Isto é preocupante à medida que sabemos que estes comportamentos refletem, em certa medida, os valores e ensinamentos da família como um todo. Ou seja, hoje não existe uma preocupação real por parte dos pais em valorizar, perante as crianças, a experiência de vida dos mais velhos, o que muitas vezes era expresso pelo respeito para com eles.

E isto, a falta de respeito aos mais velhos, é um aspecto bastante reprovado pelos avós:

No meu tempo meu pai não permitia que um filho faltasse com respeito aos mais velhos, a gente sabia que se tivesse alguém em casa, a gente só ia na sala cumprimentava e já saía, não é como hoje que as crianças nem deixa a gente conversar, querem tudo na hora, respondem e gritam o tempo todo com os pais.

Os avós também se queixam do distanciamento dos netos. Queixam-se de que hoje em dia raramente são procurados por eles, especialmente os adolescentes, para opinarem sobre algum problema ou mesmo para um desabafo, o que nos leva a inferir que pode existir uma falta de confiança na capacidade deles em contribuir, de alguma forma, na solução de problemas corriqueiros, o que desvaloriza e não reconhece suas experiências de vida.

Quando são pequenos, eles chegam e abraçam, beijam, gostam de ficar no colo [...] depois eles nem chegam perto, a bênção não pedem mais, só fala "oi" de longe mesmo.

Aliás, isto não acontece só com os avós: os pais também revelam que os jovens freqüentemente demonstram não confiar neles, o que é exemplificado com o relato a seguir:

[...] às vezes parece que somos desconhecidas, que não existe nenhum laço entre nós... ontem mesmo, os meninos não estavam em casa e almoçamos só nós duas. Sabe o que é duas pessoas sentarem na mesma mesa e não abrirem a boca. Com as amigas ela está o tempo todo sorrindo e conversando."

Os problemas de relacionamento entre pais e filhos têm início na mais tenra idade. Os atritos relacionados à dificuldade que se enfrenta cotidianamente, na hora de vestir a criança, por exemplo, ao que parece, constituem um problema recente na família brasileira de classe média, pois pelo que lembramos, as crianças de nossa geração não discutiam com suas mães o que vestir e o que deixar de vestir, mas nossos filhos fazem do vestir uma questão de honra e por conseguinte, uma fonte de discórdia na família. Isto mesmo, discórdia sim, visto que a constância deste tipo de reação não se restringe a causar problemas apenas entre a mãe e a criança (já que a mãe quase sempre é responsável pela vestimenta da criança), pois muitas vezes a interferência do pai, no sentido de achar que é a mãe que não sabe conduzir a situação, passa a constituir causa de atrito também na relação conjugal.

Os modos de comunicação que estão sendo adotados por estes pais podem ser considerados patológicos para o desenvolvimento da criança, pois além de muitas vezes discutirem sobre as divergências educacionais na frente da criança, também têm se utilizado da dupla mensagem e da desconfirmação. A primeira ocorre quando nela estão implícitos conteúdos contraditórios ou quando a forma verbal da mensagem dá uma informação contraditória ao que é demonstrado na forma não verbal, gerando ansiedade, insatisfação e insegurança. Já a desconfirmação surge quando os pensamentos e sentimentos do outro não são considerados(9).

No exemplo citado anteriormente, as manifestações patológicas da comunicação ocorrem porque, embora os pais quase sempre iniciem o duelo (expressão usada por uma mãe), dizendo não aos pedidos dos filhos, à medida que eles começam a fazer algum tipo de birra, para se livrarem mais rapidamente da situação, eles acabam cedendo.

Contudo, os problemas de comunicação na família não são só no âmbito intrageracional, visto termos identificado, inclusive com bastante freqüência e de forma bastante clara, a presença destes problemas no relacionamento entre casais, por exemplo. O não-saber-ouvir fica evidente no seguinte depoimento:

Não sou estimulada a contar as coisas que acontecem no serviço para o meu marido, porque a sensação que tenho é de que estou falando com as paredes. Ele não faz nenhum tipo de comentário, às vezes vai saindo enquanto ainda estou falando [...].

Neste exemplo podemos dizer que não houve comunicação, pois no sentido etimológico, a palavra comunicar vem do latim comunicare, que significa pôr em comum. Comunicação também pode ser vista como um processo de compreender, compartilhar mensagens enviadas e recebidas, sendo que as mensagens e o modo como se dá seu intercâmbio exercem influência no comportamento das pessoas nele envolvidas, a curto, médio e longo prazo(9). É também através da comunicação que podemos satisfazer nossas necessidades de inclusão - aceitação pelo outro, controle - ser responsável e capaz de se adaptar ao meio; e afeição - expressar e receber amor (9)

Além disso, no cotidiano da vida de alguns casais, a presença de determinadas barreiras à comunicação é uma constância, sendo que no estudo realizado junto às famílias sobre a criação dos filhos, a barreira identificada com maior freqüência foi a imposição de esquema de valores:

A gente não conversa sobre isto, não dá para conversar [...] para ele eu nunca estou certa, tudo que faço ele critica [...] ele faz com que eu me sinta uma péssima mãe e às vezes eu fico até com dor na consciência, achando que não estou sendo mesmo [...].

[...] isto é uma coisa que me irrita profundamente, qualquer coisinha eles já vêm falando em tom de ameaça que vão contar para o pai que eu briguei ou que bati e o pai, de certa forma, reforça este comportamento, porque mesmo quando eu estou totalmente certa, tudo o que ele consegue fazer é, inclusive na frente das crianças, ficar balançando a cabeça negativamente, ou então fala mesmo, critica minha atitude dizendo que tenho que conversar mais, e etc.

Com relação a estes exemplos temos a considerar que esta mãe, por não perceber suas crenças e valores respeitados e, provavelmente, também por se sentir desvalorizada pelo esposo e, de certa forma, ameaçada pela tirania dos filhos, não consegue estabelecer uma comunicação eficiente em seu meio familiar com relação, especificamente, às normas e valores necessários à criação dos filhos. Porém, o pior é que, muito provavelmente, todo o processo de comunicação desta família deve estar comprometido, interferindo numa interação familiar harmoniosa e consequentemente na saúde familiar. É possível relacionar esta questão com a já discutida anteriormente quando o marido não valoriza a expressão da esposa em relação a seu trabalho. É notória a dificuldade dos membros familiares em comunicar-se, levando a uma reação em cadeia de desrespeito e desvalorização entre as pessoas que compõem o ambiente familiar, o que nos leva a inferir que isto faz com que todos se sintam insatisfeitos e algumas vezes infelizes.

O desrespeito a valores e crenças existentes na comunicação intergeracional no que se refere ao cuidado das crianças, além de bastante comum entre os casais, também pode existir entre irmãos, como pode ser constatado no exemplo a seguir:

[...] achei melhor ir morar sozinha, apesar das dificuldades. Minha irmã adorava ele, comprava de tudo, mas ele começou a assimilar os valores dela e não os meus, algumas coisas assim [...] que eu pensava de outra forma [...] isso de dar mais autonomia para ele. E ficava muito paparicado, muito em cima dele, uma criança que não podia se sujar, não podia cair. Na alimentação também, de agasalhar demais. [...] era um cuidado excessivo mesmo. Eu queria que fosse mais solto, mais [...] que fosse normal.

Outra barreira também identificada com muita freqüência na comunicação familiar é a "ausência de significação comum", como pode ser constatada no exemplo a seguir:

[...] depois que os meus pais se separaram, a nossa relação com a minha mãe não é mais a mesma, parece que ficou uma relação vazia, não tem assunto. Na verdade a gente evita ficar sozinha com a minha mãe, mas também [...] a gente tem que se policiar o tempo todo, pensar em tudo o que vai falar, porque senão, dá a maior confusão: muito choro, ela acaba passando mal, a pressão sobe [...] A gente também não consegue aceitar a idéia de uma pessoa se autodestruir da forma que ela esta fazendo por causa de uma separação.

Neste caso, a separação conjugal da mãe não tem o mesmo significado para as filhas, provavelmente porque estas não vivenciaram este processo, além do que, na geração delas, isto é bem mais freqüente do que na geração de sua mãe. A ausência de um significado comum faz que as filhas se sintam impacientes para conversar sobre estes assuntos; o que as leva, inclusive, a evitar uma comunicação efetiva com a mãe, pois temem que o assunto venha à tona e não consigam controlar-se, no sentido de não dizer o que pensam, pois acreditam que isto poderia piorar o estado de saúde da mãe. Outro aspecto que sobressai deste exemplo é a ausência de empatia por parte das filhas. A empatia existe quando ocorre a percepção do mundo do outro, o que por sua vez está relacionado ao envolvimento emocional e respeito mútuo que ocorrem no relacionamento interpessoal(9). No exemplo em questão, não está ocorrendo uma comunicação empática, já que as filhas, embora estejam muito preocupadas com a saúde da mãe, não estão conseguindo transmitir-lhe que compreendem como ela vivencia seu mundo, o que seria mais eficaz em sua recuperação.

É possível perceber então que, de maneira geral, no interior da família podem ser observadas "perturbações" em todas as formas de comunicação. Em algumas situações a comunicação não verbal, representada por algumas características da fala, favorece uma ausência de efetividade na comunicação, inclusive quando os indivíduos não estão ocupando o mesmo espaço físico, o que possibilitaria a observação das referidas manifestações, como pode ser observado no exemplo a seguir:

Eu telefono para a minha mãe praticamente todos os dias e às vezes percebo que ela não está bem pelo tom de voz, mesmo que ela insista em dizer que está tudo bem e que é só impressão [...] A voz fica um pouco pastosa, parece que ela está sonolenta. Sei que ela faz isto para não me preocupar, mas é pior porque daí não conversamos sobre o problema real e eu fico mais preocupada. Tem dias que eu chego ligar 3 ou 4 vezes só para ver se, pela voz, descubro se ela está melhor.

Neste exemplo entra em cena uma outra forma de comunicação, a qual é denominada de paraverbal ou paralingüística, que é expressa pelo tom da voz, ritmo com que são pronunciadas as palavras, presença de choro, pausa, entre outros. Apesar de este tipo de comunicação ser muito importante para as pessoas observarem algum tipo de mensagem não expressa por palavras, ela muitas vezes passa despercebida pelas pessoas, devido à atribulação presente nos dias de hoje. É neste sentido que o profissional precisa saber ouvir, ou seja, ouvir nas entrelinhas(9). Este tipo de comunicação paraverbal é um veículo muito importante para os profissionais de saúde perceberem a individualidade de cada um e oferecer um cuidado integralizado e único.

Ainda referindo-nos a este tipo de comunicação, é importante destacar que ele é fácil de ser percebido entre os membros familiares, em função da convivência cotidiana, o que favorece a percepção de alterações na saúde e bem-estar das pessoas através de suas formas de agir, aqui denominadas de comunicação paraverbal. Neste contexto, se faz necessário que o profissional discuta com os membros familiares a importância de cada um conhecer e comunicar-se com o outro e, assim, evitar problemas cotidianos que possam interferir na saúde física ou mental da família como um todo.

3.1 Relação familiar e comunicação

A família pode ser vista como um "ambiente" seguro, aonde todos retornam para descansar e repor suas energias físicas ou mentais, ou como o reduto que "suga energia", ao invés de revitalizar as pessoas. Isto porque a constância de problemas emocionais, tensões e brigas no meio familiar acaba por prejudicar a produtividade de todos (seja na escola seja no trabalho), além de atrapalhar o desenvolvimento afetivo de cada um de seus membros e da família como um todo. Para que o indivíduo possa se desenvolver e adquirir as condições físicas e mentais necessárias a cada etapa de desenvolvimento na vida, assim como garantir o alcance de uma identidade, de uma maneira própria de ser, ele precisa ter a oportunidade de estabelecer vínculos afetivos significativos.

Neste contexto, a família, que é o primeiro grupo do qual a criança faz parte, tem por função socializá-la e adaptá-la à convivência na sociedade, oferecendo e ensinando-lhe os padrões e os modelos de comportamentos adotados em sua cultura. Isto inclui, entre outras coisas, ensinar-lhe o cuidado físico, a lidar com as emoções, a se relacionar em família e também dentro de outros grupos.

Levando-se em consideração as mudanças no ciclo de vida familiar, evidenciamos que ao longo dos anos não são só os filhos que crescem fisicamente e precisam se desenvolver emocionalmente: os pais também precisam aprender a ser pais, aprender a atuar como orientadores de uma família em constante transformação. As experiências vivenciadas são únicas para cada família e todos os seus membros, independentemente de quaisquer condições, têm um papel a desempenhar dentro da família, de forma que todos devem ser responsabilizados pelo produto final.

O percurso enfrentado pela família não é possível nem tranqüilo se não se trocam impressões sobre como uns vêem os outros e como todos vêem o funcionamento da família que, no mínimo, ajudam a compor. A comunicação, portanto, é extremamente importante. É através do dialogo que os pais poderão encontrar a fórmula ideal para conduzirem da melhor forma possível a educação e o desenvolvimento dos filhos e da família como um todo.

Se aceitamos que os pais são as figuras significativas que funcionam como modelo e que através dos padrões oferecidos, o indivíduo aprenderá não só a se comportar socialmente - e diante de certas situações, segundo os padrões de sua cultura -, como também incorporará disposições emocionais (maneiras típicas de reagir afetivamente) aceitamos o fato de que os pais estão o tempo todo ensinando a seus filhos muito mais do que imaginam. Assim, nem é preciso que eles falem sobre tudo, a criança por si só está constantemente atenta ao modo pelo qual os pais se relacionam com ela, entre si e com outras pessoas.

Disso concluímos que, mesmo por trás de comportamentos mais superficiais do dia-a-dia, como por exemplo, aprender a se comportar à mesa de refeições, na rua ou no mercado, estão presentes modelos psicológicos menos aparentes. Isto é, os padrões de relacionamento ocorridos entre a criança e os pais constituem modelos para seus relacionamentos futuros.

Diante dessas questões, pressupomos que numa família sadia, as necessidades de todos os seus membros, independentemente de suas condições (sexo, idade, estado físico e psiquismo, etc.), são, dentro do possível, atendidas. Isto porque existe interesse mútuo sobre como cada um se sente em relação ao convívio com os outros e quais as suas necessidades.

Do mesmo modo, numa família sadia, todos aprendem de alguma maneira a dar de si e a receber dos demais, pois existe a consciência de que depende essencialmente da família o alicerce necessário para garantir o crescimento individual de cada um de seus membros. A família sadia portanto, é a que lida com várias verdades possíveis, e não com um comportamento em bloco, onde todos devem funcionar da mesma forma. Pais e filhos são capazes de dialogar sobre qualquer assunto, não só porque os pais em sua maioria, esperam que os filhos possam se comportar dentro dos valores que eles adotam, mas porque acreditam que os filhos necessitam receber informações e que o diálogo e a conversa mais aberta podem ser os principais recursos para a aprendizagem entre eles.

 

4 Cosiderações finais

A agitação diária e as dificuldades das mais variadas ordens nos fazem colocar-nos, de forma geral, como ouvintes desatentos, o que favorece a criação ou solidificação de obstáculos concretos à comunicação efetiva. Isto porque, além de percebermos a mensagem parcial ou superficialmente, sem captar sua intenção ou a do emissor, também desvalorizamos os demais tipos de comunicação, os quais são emitidos continuamente, com o intuito de facilitar o entendimento ou aceitação do que é comunicado.

As dificuldades de comunicação entre os seres humanos são reais e estão presentes em todos os segmentos, a começar pela família. Estas dificuldades atuam como verdadeiros entraves na efetivação de interações sociais. Na família, isto é particularmente acentuado em situações intergeracionais, traduzidas por expressões tais como: Eu não consigo conversar com ele e Não existe diálogo entre nós, que constituem a maioria das queixas de adolescentes em relação aos pais e destes em relação àqueles.

Percebemos que a família, ao longo dos tempos, em decorrência de algumas mudanças na sociedade (evasão rural, migrações para as cidades grandes, desemprego, pobreza, falta de espaço, baixa remuneração, etc.), sofreu mudanças e inovações em sua forma de organização, influenciando o modo de vida das pessoas e sobremaneira, a forma de relacionamento entre pais e filhos e na família de modo mais amplo.

Ademais, estas mudanças relacionam-se também com a influência externa, ou melhor, com a influência negativa dos meios de comunicação, que de certa forma, impõem alguns valores, representados, por exemplo, pelas "coisas de marca" que as crianças e jovens tanto fazem questão de ter, provocando uma verdadeira revolução no sistema de crenças e valores da família.

Além disso, as mudanças evidenciadas na comunicação familiar também guardam relação com a necessidade de sobrevivência e com a competitividade hoje existente no mercado de trabalho, a qual afasta os indivíduos do seio familiar; afastamento este que pode ser físico ou não, visto que mesmo quando as pessoas não são obrigadas a passar muitas horas fora de casa, trabalhando e/ou estudando, elas não permanecem verdadeiramente em casa, pois suas preocupações com o trabalho/estudo dominam seus pensamentos, sentimentos e comportamentos.

Isto é particularmente acentuado na enfermagem, que, devido às dificuldades econômicas decorrentes de baixos salários, leva os profissionais, de todas as suas categorias, a enfrentarem duas e às vezes até três jornadas de trabalho, levando-nos a questionar: A comunicação em nossas famílias tem sido efetiva?

Assim, o cuidar da família torna-se muito complexo, uma vez que envolve compreendê-la em sua totalidade e interagir com ela em seu processo de viver, ser saudável/ adoecer. Esta interação é uma troca de saberes, onde ambos, a família e os profissionais de enfermagem, podem sair enriquecidos. Para tanto, precisamos estar cônscios de que a família, além de se constituir em unidade de cuidado, também deve ser considerada responsável pelo cuidado de seus membros, e nestes casos, a forma como se dá a comunicação no interior da família representa um importante aspecto não só de investigação da enfermagem, mas também de sua prática, visto que comunicação não efetiva pode conduzir a uma deficiência no nível de saúde familiar.

Sabemos que existem muitos problemas de comunicação no interior da família. Se as comunicações no uso diário podem ser efetivas e produtivas ou a causa de confusão e desalento(5), a enfermagem, que pretende uma assistência global à família, deve estar atenta a estas questões.

Acreditamos que no cotidiano de sua prática profissional, os enfermeiros são capazes de identificar uma série de problemas na comunicação mantida no seio das famílias, porém, é bem possível que eles não se sintam preparados para atuar neste campo, basicamente por 3 (três) motivos: 1) em sua formação profissional eles não foram suficientemente preparados para trabalhar tais aspectos; 2) eles próprios vivenciam uma série de problemas de comunicação na sua família e no social mais amplo; e 3) para atuar neste nível é preciso existir um canal aberto à sua comunicação com a família, o que pressupõe a existência de interação e confiança.

Não obstante, acreditamos que os motivos citados podem ser, com algum esforço, superados, cabendo ao profissional enfermeiro a busca do conhecimento necessário para embasar a sua atuação e dos recursos que favorecerão o estabelecimento de novos meios de relacionamento com a sua e com outras famílias (aquelas que são clientes), procurando abordá-las, não só de forma a valorizar o seu ciclo de desenvolvimento, mas também de percebê-las enquanto

 

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