SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.56 issue4Rethinking the Teaching Major in Nursing under current Curricular GuidelinesInterdisciplinary teaching for health: planning nurse undergraduate programs author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.56 no.4 Brasília July/Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672003000400024 

DIRETRIZES CURRICULARES - IMPLEMENTAÇÃO E AVALIAÇÃO - RELATOS DE EXPERIÊNCIA DAS DCN

 

Saúde mental como tema transversal no curriculo de enfermagem

 

Mental Health and its interdisciplinary teaching in the Nursing curriculum

 

Salud mental como tema transversal en el currículo de enfermería

 

 

Ana Ruth Macêdo Monteiro

Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professora adjunta da Universidade Estadual do Ceará, E-mail: renrut@uece.br

 

 


RESUMO

Busca-se com este estudo averiguar a possibilidade do conteúdo de saúde mental ser transversal nas disciplinas dos cursos de graduação em enfermagem, descrevendo a experiência desenvolvida em uma universidade pública e conhecendo a percepção dos acadêmicos sobre essa prática. Participaram da pesquisa 27 alunos. Foi utilizado o questionário. No que diz respeito à inserção da saúde mental em outras disciplinas, 18,5 % considerou ótima, 70,5% boa e 11% como regular. Quanto a sua aplicabilidade 7,5% conseguiu aplicar o que foi visto, 81,5% aplicou algumas vezes, mas acredita que poderá utilizar e 11% não conseguiu aplicar, mas acredita que poderá utilizar. A saúde mental aplicada a várias disciplinas no curso de enfermagem é percebida pelos alunos como base para oferecer ao cliente, família e comunidade uma atenção globalizada.

Descritores: saúde mental; enfermagem; transdisciplinaridade


ABSTRACT

Our aim in this study was to check if the contents of the mental health subject area may permeate the courses forming the Undergraduate program in nursing, by describing the experience developed in a public university and by getting to know what the academics' perception of that practice was. Twenty-seven students took part in the research. A questionnaire was used. Concerning the introduction of the mental health subject area in other disciplines, 18,5% of the respondents claimed it was great, 70,5% said it was good, and 11% considered it as regular. As to its applicability, 7,5% got to use what they had learned, 81,5% used it sometimes, but they believe it is of use, and 11% of the respondents didn't get to use it, but believe it can be used. The application of the mental health subject area contents to several courses in the nursing program is perceived by students as a basis for a global health care to be supplied to customers, family, and community.

Descriptors: mental health; nursing; transdisciplinary teaching


RESUMEN

Se busca con este estudio averiguar la posibilidad de que los contenidos de salud mental sean transversales en las disciplinas de los cursos de Enfermería, al describir la experiencia que fue desarrollada en una universidad pública y saber lo que conocían los académicos sobre esa práctica. Participaron de la investigación 27 alumnos. Se utilizó un cuestionario. Respecto a la inserción de la salud mental como materia en otras disciplinas, el 18,5% lo consideró óptimo, el 75,5% bueno y el 11% regular. Cuanto a su aplicabilidad un 7,5% consiguió aplicar lo que fue visto, un 81,5% lo aplicó algunas veces, pero cree que lo podrá utilizar y un 11% no lo consiguió aplicar, mas cree que lo podrá utilizar. La salud mental aplicada a varias disciplinas en el curso de enfermería está percibida por los alumnos como base para ofrecerle al cliente, a la familia y a la comunidad una atención holística.

Descriptores: salud mental; enfermería; transdisciplinaridad


 

 

1 Introdução

O curso de graduação em Enfermagem vem passando por vários momentos de reflexões com vistas às novas tendências da profissão que tem influência direta das políticas públicas no atual cenário nacional.

A construção de um projeto político pedagógico que insira o profissional enfermeiro na realidade político social vigente é o grande desafio a ser enfrentado pelos docentes das Universidades públicas e privadas.

As Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Enfermagem estabelecem que os conteúdos essenciais devem estar relacionados com o processo saúde-doença do cidadão, da família e da comunidade, integrando à realidade epidemiológica e profissional, proporcionando à integralidade das ações do cuidar em enfermagem(1) .

O mesmo documento estabelece que os conteúdos teóricos e práticos devem contemplar a assistência de enfermagem em nível individual e coletivo prestada à criança, ao adolescente, à mulher e ao idoso, considerando os determinantes sócio-culturais, econômicos e ecológicos do processo saúde-doença, bem como, os princípios éticos, legais e humanísticos inerentes ao cuidado humano.

Considerando essa discussão político-pedagógica, é que se reflete sobre a transversalidade de alguns conteúdos necessários à prática do cuidar em Enfermagem nas demais fases do ciclo de vida do indivíduo.

Foi contemplada, neste trabalho, a saúde mental como abordagem transdisciplinar, com vistas a amparar o profissional, que se busca formar, no cuidado ao cliente, família e comunidade.

Falar sobre saúde mental e a prática do enfermeiro de uma maneira geral, não é uma das tarefas mais fáceis, pois, tem-se a idéia de que saúde mental está apenas ligada a questões psiquiátricas, e que o enfermeiro só pode desenvolver ações de saúde mental dentro dos hospitais psiquiátricos, hospitais-dia, CAPS/NAPS ou outra, instituições de assistência psico-social.

Sabe-se que a prática assistencial do enfermeiro é voltada para a ação do cuidar e, cuidar é mais que um ato, é uma atitude de ocupação, preocupação, responsabilização e de envolvimento afetivo com outro. Então, ao prestar cuidado, o profissional se torna responsável pelo corpo, mas um corpo vivo, com sua subjetividade e significância(2).

O homem é um ser complexo com manifestações e respostas espirituais, psíquicas, culturais, sociais e biológicas que interagem entre si e que o personificam, tornando-o um ser singular.

É na singularidade do cliente que a enfermagem deve estabelecer suas intervenções, sempre em busca de atingir as demais dimensões do homem. E, dentre elas, encontra-se a saúde mental que exerce uma grande influência na resposta à doença ou no processo de adaptação ao novo estilo de vida.

Percebe-se como a ação do enfermeiro tem amplitude e, o quanto sua prática não pode estar restrita a apenas cuidar da doença ou preveni-la; quer seja, nos níveis primário, secundário ou terciário. É preciso considerar o ser cuidado como pensante e possuidor de vontade, sentimentos e expectativas.

Para dar tal resposta o enfermeiro, na sua formação básica, precisa de suporte. E, se nos currículos acadêmicos a parte de saúde mental ainda continua sendo abordada de forma dicotomizada, com certeza a reprodução na prática continuará a mesma.

Questiona-se, porém, como aplicar a saúde mental na assistência de enfermagem nos demais ciclos vitais do homem? Como ministrar conteúdos referentes à criança e adolescente, ao adulto na sua fase reprodutiva, produtiva e ao idoso, sem integrar aspectos ligados à saúde mental? Como realizar educação em saúde sem considerar a comunicação como terapêutica em busca de uma relação de ajuda junto ao cliente?

Diante de tais questões, vê-se uma grande lacuna na formação do enfermeiro e na resposta que vem sendo dada pelos profissionais em sua prática assistencial, voltada apenas para uma ação direcionada dentro do modelo biomédico.

Os enfermeiros estão cada vez mais preparados tecnicamente para intervirem em situações críticas e especializadas, porém, deve-se considerar que esse saber é utilizado em circunstâncias que envolvem pessoas e, portanto, exige momentos de interação.

Sendo a comunicação um processo básico para toda a ação humana, na prática de enfermagem não é diferente. Na relação com o cliente, é preciso que o enfermeiro reconheça-o como ser humano único, que também tem esperança, alegria, tristeza e medos e, que essa manifestação de sentimentos interfere no seu processo saúde-doença.

A enfermeira possui uma ferramenta singular que pode ter mais influência sobre os clientes do que qualquer outra ação terapêutica, que é ela mesmo, ou seja, o modo como ela faz o uso de si mesma, nas interações individuais com o cliente(3).

A competência interpessoal, usada pela enfermeira de modo terapêutico, vai permitir que atenda às necessidades do paciente em todas as suas dimensões, levando em consideração a sua cultura e o seu ambiente(4).

Para identificar fenômenos e propor intervenções, a enfermeira utiliza uma base de dados fidedignos que são clarificados e validados junto ao cliente. Dessa forma, ela consegue atender às suas necessidades, não com base nos seus valores pessoais, mas nos valores da pessoa que está sendo assistida.

A prática assistencial do enfermeiro, necessariamente, está voltada para o outro, e considerá-lo como ser biograficamente situado no mundo é contribuir com a promoção da saúde do cliente.

Neste contexto, busca-se com este estudo averiguar a possibilidade do conteúdo de saúde mental ser transversal nas disciplinas dos cursos de graduação em enfermagem, descrevendo a experiência desenvolvida em uma universidade pública e conhecendo a percepção dos acadêmicos sobre essa prática.

Para tanto, este estudo desenvolveu-se em uma universidade pública do Estado do Ceará, com os alunos dos dois últimos semestres do curso de Enfermagem. Participaram da pesquisa 27 alunos dentre os 54 matriculados no oitavo e nono semestres. O instrumento utilizado foi o questionário, com perguntas abertas e fechadas que foi entregue a todos os alunos juntamente com o termo de consentimento que assegurava o sigilo das informações e o anonimato dos sujeitos, bem como, a liberdade em desistir de participar sem que haja risco.

Utilizou-se a sigla Ac acompanhada de número para identificar os depoentes.

 

2 Descrição da experiência

A prática da saúde mental como conteúdo transversal no currículo do curso de graduação em Enfermagem da Universidade Estadual do Ceará teve seu início no ano de 2000, na disciplina de Enfermagem em Saúde do Adulto I (Saúde da mulher).

Tal experiência foi apresentada no Seminário Nacional de Diretrizes em Educação em Enfermagem - SENADEn sediado na cidade de Fortaleza sob o tema: Saúde Mental na Disciplina de Enfermagem em Saúde do Adulto I. Os dados revelaram que 90,9% dos alunos consideram o conteúdo importante por auxiliar no entendimento do indivíduo na sua fase reprodutiva; 10,1% afirmou que o mesmo é necessário porém, dispensável, já que o conteúdo específico da disciplina aborda tal enfoque; 34,1% avalia a inserção do conteúdo de saúde mental na disciplina como ótima, 56,8% como boa e 9,1% como regular. Quanto a sua aplicabilidade nas aulas práticas, 45,4% conseguiu aplicar, 43,2% utilizou algumas vezes e 11,4% não conseguiu aplicar. Quanto a continuidade do conteúdo, 93,2% considera que deve continuar e 6,8% que não.

Após essa experiência inicial, foi dado continuidade à inserção em outras disciplinas - Enfermagem em Saúde da Criança e do Adolescente, Enfermagem em Saúde do Adulto II(adulto) e Enfermagem em Saúde do Adulto III(idoso), como continuidade da Disciplina Enfermagem em Saúde Mental; ficando como uma parte aplicada do conteúdo saúde mental.

Busca-se em cada disciplina, proporcionar ao aluno o desenvolvimento da habilidade de avaliar o cliente em todos os seus aspectos, oferecendo-lhe uma assistência holística, bem como, a oportunidade de refletir sobre a sua própria condição de ser sujeito de seu processo saúde-doença.

O ser humano é ao mesmo tempo físico, psíquico, cultural, social, histórico. Portanto, faz-se necessário introduzir e "desenvolver na educação características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humano"(5:14) e das disposições, tanto psíquicas quanto culturais, tornando a condição humana essencial do ensino.

A partir dessas considerações, percebe-se o quanto é importante para a formação do enfermeiro que este conheça o indivíduo em suas múltiplas facetas, com o intuito de aproximar-se da sua essência enquanto ser assistido e, poder oferecer-lhe uma assistência mais integralizada e mais adequada à sua condição de ser-no-mundo.

Ao ser ofertado ao aluno conhecimentos sobre pré-natal, parto e puerpério, como não abordar a condição emocional dessa mulher em momento tão significativo da sua existência? Como não tomar ciência de manifestações psíquicas peculiares à gravidez e ao puerpério e de que forma estas podem influenciar no novo ser em formação? Essas e outras questões são tratadas na disciplina de Enfermagem em Saúde do Adulto I no nosso currículo.

Na abordagem à criança e ao adolescente busca-se desenvolver conteúdos sobre o desenvolvimento psicológico do homem, o ser adolescente, a criança/adolescente hospitalizado, doenças crônicas, principais transtornos psiquiátricos na criança e no adolescente e a assistência de enfermagem sistematizada e temas emergentes como: violência doméstica, abuso sexual e dependência química. São desenvolvidas aulas práticas em creches, salas de espera com adolescentes, unidade de internação tipo enfermaria para pacientes oncológicos.

Os transtornos psiquiátricos no adulto e a saúde mental com clientes em condição clínica e/ou cirúrgica são desenvolvidos na disciplina Enfermagem em Saúde do Adulto II. São aplicadas, também, aulas práticas na rede hospitalar voltadas ao conteúdo administrado.

Quanto à Saúde do idoso, ainda estão sendo desenvolvidas ações mais integralizadas ao que é específico da disciplina. No momento, apenas o conteúdo referente aos transtornos psiquiátricos no idoso, especificamente às demências é o que está sendo enfocado.

 

3 Percepção dos alunos

Considerando que o conteúdo de saúde mental ainda não se encontra estruturado na disciplina de Enfermagem em Saúde do Adulto III(Idoso), foi avaliado apenas a inserção nas disciplinas de Enfermagem em Saúde da Criança e do Adolescente, Enfermagem em Saúde do Adulto I(mulher), Enfermagem em Saúde do Adulto II(adulto).

Dos alunos que participaram do estudo 37% é do nono semestre e 63% do oitavo.

No que diz respeito à inserção da saúde mental nas disciplinas já referidas, 18,5 % considerou ótima, 70,5% boa, e 11% como regular. Dentre as justificativas afirmaram que perceberam o conteúdo bem mais inserido nas disciplinas de Enfermagem em Saúde da criança e do Adolescente e Enfermagem em Saúde do Adulto I, sendo pouco enfatizado em Saúde do Adulto II; que há coerência entre a saúde mental e o conteúdo específico da disciplina; que a disciplina é enriquecida com a saúde mental aplicada; que é regular por não gostar de saúde mental; que possui uma visão ampla do conteúdo, facilitando a assimilação; que o tempo é limitado para a bordagem teórica, sendo parcialmente contemplado nas aulas práticas; que não sobrecarrega a disciplina de Enfermagem em Saúde Mental; que ajuda o aluno a compreender melhor o contexto biopsicossocial.

A partir dessas justificativas todos os alunos consideraram o conteúdo de saúde mental junto às disciplinas importante, por auxiliar no entendimento do indivíduo no seu ciclo de vida, bem como na vivência diária como profissional.

Percebe-se que a experiência de tornar a saúde mental aplicada às disciplinas do curso de enfermagem promove um entrelaçamento de informações que dão ao aluno embasamento para desenvolver sua prática com propriedade. Referem importante a abordagem das várias dimensões do humano, sugerindo aspectos a melhorar para obter um maior êxito na relação com o cliente.

A sociedade comporta as dimensões histórica, econômica, sociológica, religiosa [...] O conhecimento pertinente deve reconhecer esse caráter multidimensional e nele inserir estes dados [...] O conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade [...] de fato há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo [...] A complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade(5:38).

Justifica-se, então, a intencionalidade de proporcionar essa interação entre conteúdos que abrangem o todo do homem, a quem é direcionado o cuidar em enfermagem. O mesmo autor revela que o recorte das disciplinas dificulta o apreender "o que está tecido junto" e que o conhecimento especializado é uma forma de abstração, extraindo o objeto do seu contexto, do seu conjunto, da relação da parte com o todo(5).

Quanto à sua aplicabilidade 7,5% conseguiu aplicar o que foi visto, 81,5% aplicou algumas vezes, mas acredita que poderá utilizar e 11% não conseguiu aplicar, mas acredita que poderá utilizar.

Quanto à continuidade da saúde mental aplicada às disciplinas, 59,5% dos alunos afirmam que deverá continuar; 15% que deverá ser inserido em outras disciplinas, como Enfermagem em Saúde do Adulto III e Planejamento e Políticas de Saúde; e 25,5% relata que deverá continuar com algumas sugestões como: dirigir o conteúdo para as áreas de atuação do enfermeiro, principalmente em Enfermagem em Saúde do Adulto II; outra disciplina para o conteúdo dos transtornos psiquiáticos, como Enfermagem psiquiátrica.

Estes dados nos informam que há necessidade de se repensar a forma como estão sendo dirigidas as aulas práticas durante as disciplinas que possuem a saúde mental aplicada. A adesão e aceitação da proposta são explícitas, bem como o envolvimento dos alunos, demonstrados pelas sugestões para melhoria da sua aplicabilidade, denotando a importância de se manter a proposta.

Na formação do enfermeiro é fundamental que sejam desenvolvidos conhecimentos e habilidades para a utilização de estratégias preventivas de doenças, estímulos a comportamentos saudáveis na população a partir de ações educativas, que requerem habilidade de comunicação e interação com grupo que só poderão ser desenvolvidas a partir da adoção da transdisciplinaridade no currículo de Enfermagem(6).

A experiência com a aplicabilidade da saúde mental nas disciplinas do curso está sendo revelada como possibilidade para a vivência da transdisciplinaridade, bem como a abertura para que outros conteúdos possam ser inseridos.

A humanização do cuidado com o cliente cirúrgico, no cotidiano assistencial, o enfermeiro se depara com seres que possuem individualidade, com problemas e características próprias e, que, quando passa para a condição de pessoa hospitalizada ou com algum agravo de saúde, ele está sob diversas interferências em seu estado físico e/ou psíquico(7).

Quanto à percepção do acadêmico de enfermagem sobre a transversalidade do conteúdo de saúde mental nas disciplinas eles assim se manisfestaram:

A saúde mental é um ponto fundamental para desenvolver uma atenção holística e, portanto fundamental para o desenvolvimento da atenção de Enfermagem de qualidade. (Ac. 8)

É importante realmente ter esta visão da saúde mental nestas disciplinas, principalmente quando se vê saúde mental não como doença, mas sim como promoção da saúde mental. (Ac. 24)

A saúde mental aplicada a várias disciplinas no curso de enfermagem é percebida pelos alunos como base para oferecer ao cliente, família e comunidade uma atenção globalizada. Essa visão dos acadêmicos mostra o quanto eles estão atentos à assistência e se inserindo de maneira reflexiva no cotidiano da profissão.

Compreender o humano é compreender sua unidade na diversidade, sua diversidade na Unidade. É preciso conceber a unidade do múltiplo, a multiplicidade do uno. A Educação deverá ilustrar este princípio de unidade/diversidade em todas as esferas(5:55).

Acredita-se que trabalhar essa unidade/diversidade nos currículos dos cursos de graduação é promover discussões que favoreçam reflexão crítica dos alunos, dando-lhes subsídios através da transdisciplinaridade.

O objetivo das diretrizes curriculares é garantir a capacitação de profissionais com autonomia e discernimento para assegurar a integralidade da atenção e a qualidade e humanização do atendimento prestado aos indivíduos, famílias e comunidades(1). A manifestação dos alunos elaborando sugestões para essa prática de saúde mental aplicada, é uma resposta para o que está se buscando, conforme os depoimentos abaixo:

Considero que a saúde mental é de grande importância para os alunos de graduação, para isso é necessário que se reveja o modo de ensino e as formas de avaliação durante as disciplinas de Saúde do adulto I e principalmente saúde do Adulto II. Melhorando isso, existirá um grande proveito da Saúde mental na vida pessoal, profissional e na aplicação desta.(Ac. 20)

Precisa haver uma ênfase maior nos conteúdos ministrados. (Ac. 12)

Uma abordagem maior em sala de aula, com dinâmicas que melhorem a percepção e sensibilidade do docente para a abordagem em saúde mental. Aplicação do conteúdo no campo de estágio, mais diretamente com estudos de casos específicos sobre as condições de saúde mental dos pacientes, debates e atividades de melhoria da qualidade de vida do paciente hospitalizado e sua família, o que perpassa toda a questão do atendimento, do cuidado prestado ao paciente.(Ac. 3)

Percebe-se através dos relatos acima o compromisso dos alunos no sentido de estarem buscando a sua formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, preconizada pelas diretrizes curriculares, como promotor da saúde integral do ser humano.

Porém, é preciso reconhecer que a própria estrutura da universidade favorece a fragmentação do conhecimento através de suas disciplinas. Mesmo com as mudanças curriculares ainda há um predomínio da área biomédica e biológica dentro inclusive das disciplinas das ciências da Enfermagem(8).

Para tanto, a educação deve mostrar e ilustrar a multifacetas do humano: o humano, o social, individual, o histórico.. porém todos entrelaçados e inseparáveis que se traduz no estudo da complexidade humana(9).

Como a enfermagem busca compreender o indivíduo como um todo, acredito que a saúde mental deveria estar sempre presente nas disciplinas, tanto na saúde mental do paciente quanto do aluno, que eu acho essencial. (Ac.15)

Este relato é um clamor para o humano, centrando a atenção não apenas na saúde mental do cliente, mas de quem cuida, pois a promoção da saúde mental é intrínseca ao processo saúde doença, e, essa relação só será possível a partir de um trabalho interno do cuidador.

Morin(5) faz a relação entre a visão simplificada e a complexa, e considera que na visão complexa não apenas "a parte está no todo, mas que o todo está no interior da parte, que está no interior do todo"(5:128).

Acredita-se que com a (re)construção do projeto político pedagógico, os cursos de enfermagem tem caminhado em busca de um paradigma centrado na integralidade das ações do cuidar, com reflexões acerca da prática docente e de como será a atuação junto aos alunos no processo de des-organização/auto-organização do conhecimento em enfermagem.

 

4 Considerações finais

A transversalidade de conteúdos no currículo de cursos de Graduação em Enfermagem se faz necessário quando se busca a integralização das ações no processo de cuidar.

É com esse pensamento que acreditamos na possibilidade desta realidade com a saúde mental, experienciando a sua projeção além da disciplina específica - Enfermagem em Saúde Mental e aplicando-a a conteúdos das disciplinas de Enfermagem em Saúde do Adulto I, Enfermagem em saúde do Adulto II e Enfermagem em Saúde da Criança e do Adolescente.

A percepção dos alunos sobre a inserção da saúde mental em disciplinas no sentido de construir conhecimento com uma visão globalizada do homem, que favoreça a ação com o cliente, foi revelada nos depoimentos como importante, com reflexões críticas e sugestões que denotavam um compromisso com a formação do enfermeiro.

Perceber a enfermagem em sua complexidade é repensar a formação do enfermeiro sem dicotomias, sem especializar as abordagens, mas antes buscar a integração entre os conteúdos, a aproximação das partes, acreditando que a visão dual não permite ver o homem em sua essência e nem mesmo atingi-lo para que o cuidado possa ser processado.

 

Referências

1. Ministério da Educação (BR). Conselho Nacional de Educação. Diretrizes curriculares nacionais do curso de graduação em enfermagem: resolução n. 3/2001. Brasília (DF); 2001.         [ Links ]

2. Boff L. Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela terra. Petrópolis (RJ): Vozes; 1999.         [ Links ]

3. Taylor CM. Fundamentos de enfermagem psiquiátrica de Mereness. Porto Alegre (RS): Artes Médicas; 1992.         [ Links ]

4. Stefanelli MC. Comunicação com paciente: teoria e ensino. São Paulo: Robe; 1993.         [ Links ]

5. Morin E. Os sete saberes necessários à educação do futuro [tradução de Catarina Eleonora F. Da Silva e Jeanne Sawaya]. 3ª ed. São Paulo: Cortez; 2001.         [ Links ]

6. Urbano LA. As reformulações na saúde e o novo perfil do profissional requerido. Revista de Enfermagem da UERJ, Rio de Janeiro maio/ago;10(2):142-5.         [ Links ]

7. Medina RF, Backes VMS. A humanização no cuidado com o cliente cirúrgico. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília (DF) 2002 set/out;55(5):522-7.         [ Links ]

8. Lunardi VL, Borba MR. O pensar e o fazer da prática pedagógica: a busca de uma nova enfermeira. In: Saupe R, organizador. Educação em enfermagem: da realidade construída à possibilidade em construção. Florianópolis (SC): Editora da UFSC; 1998.         [ Links ]

9. Morin E. Introdução ao pensamento complexo [tradução de Dulce Matos]. 2 ª ed. Lisboa: Epistemologia e Sociedade; 1990. 177 p.         [ Links ]

 

 

Data de recebimento: 31/08/2003
Data de aprovação: 30/10/2003