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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. bras. enferm. vol.61 no.1 Brasília Jan./Feb. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672008000100008 

PESQUISA

 

Análise histórica do Jornal da ABEn: mudanças e transformações no Século XXI

 

Historical analysis of ABEn's Newsletter: changes and transformations in the XXI Century

 

Analísis histórica del Informativo de la ABEn: cambios y transformaciones en el Siglo XXI

 

 

Abel Silva de MenesesI; Luana de Lima KadogutiI; Maria Cristina SannaII

IUniversidade de Santo Amaro, Faculdade de Enfermagem, São Paulo, SP
IICentro de Estudos e Pesquisas sobre História da Enfermagem, São Paulo, SP

Correspondência

 

 


RESUMO

Trata-se de um estudo descritivo-exploratório e interpretativo, apresentando criticamente as matérias de 19 exemplares do "Jornal ABEn", editados no primeiro lustro do século XXI, sob a ótica do aluno de graduação em Enfermagem. O estudo objetivou identificar, quantificar e analisar criticamente o conteúdo das publicações deste periódico, que veicula, desde 1958, informações de interesse geral e de caráter político, norteando os rumos da Enfermagem. A análise dos dados permitiu observar que esse periódico deu um relevante salto de qualidade a partir de meados 2002, e que a autoria prevalente das matérias é de membros da diretoria da ABEn Nacional, enquanto que as temáticas predominantes são as de políticas de saúde e de ensino superior de Enfermagem.

Descritores: História da Enfermagem; Sociedades de Enfermagem; Publicações Periódicas.


ABSTRACT

This is an descriptive-exploratory and interpretative study that presents and criticizes matters of 19 issues of ABEn's Newsletter published in the beginning of XXI Century, under the nursing student's view. The study aimed at identifying, quantifying and analyzing the content of this publication that is published since 1958, whose content offers information of general and political interest to guide Nursing routes. The analysis allowed to observe that the periodical had jumped in quality since the beginning of 2002, and that prevalent authorship is of membership directors of National ABEn, while predominant thematic are related to health policies and nursing education.

Descriptors: Nursing History; Nursing Societies; Periodicals.


RESUMEN

Tratase de un estudio descritivo-exploratório y interpretativo, presentando criticamente las matérias de 19 ejemplares del Informativo de la ABEn, publicados en el primer lustro del Siglo XXI, bajo la otica del estudiante de enfermería. El estudio objectivó identificar, cuantificar y analisar el contenido de las publicaciones de este periódico que es publicado desde el 1958 con informaciones de interés general y politico que sirve como norte para los rumos de la enfermería. La analisis permitió observar que lo periódico ha ganado en calidad a partir del comenzo del 2002 y que la autoría prevalente de las materias es de los miembros de la directoría de la ABEn Nacional y que la temáticas más importantes son relacionadas a las políticas de salud y de enseñanza en enfermería.

Descriptores: História da la Enfermería; Sociedades de Enfermería; Publicaciones Periódicas.


 

 

INTRODUÇÃO

A Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) tem, ao longo de sua história, marcos de forte participação no tocante às lutas em que representou a Enfermagem, dentre as quais pode-se citar, com expressividade, ações no campo político, científico e cultural, contribuindo na configuração das bases para a prática profissional baseada em evidências(1-3). Dentre os marcos culturais e de atuação política da ABEn está um periódico de grande relevância editado pela entidade, o "Jornal ABEn", criado em 1958 com a denominação estatutária de "Boletim Informativo", em cuja época tinha a finalidade declarada de manter os associados cientes das notícias mais significativas sobre a profissão. A partir da edição de número um de 2003 (volume 45), o mesmo periódico passou a ser denominado "Jornal ABEn" e, atualmente, não é apenas um informativo de notícias, mas tornou-se um periódico de caráter político e educativo(4,5).

Um jornal é um veículo de comunicação escrita, cujo foco é a acessibilidade de um público específico às informações que seus editores desejam transmitir(6). Nessa perspectiva, o Jornal ABEn visa alcançar os enfermeiros, auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem, acadêmicos de graduação e alunos de educação profissional, com o intuito de integrar, promover, defender, articular, representar, divulgar, coordenar, e congregar os profissionais e estudantes de Enfermagem.

Considerando que esse meio de divulgação é de grande valia para a Enfermagem e que este veículo está no limiar dos 50 anos de prestação de serviços, aventou-se o propósito de analisar o tipo de informação que dirige aos leitores.

Embora as comemorações de efemérides sejam entendidas apenas como fatos históricos que delimitam um marco temporal de uma trajetória de existência, há de se considerar que nem sempre o tempo de existência constitui competência para modular reciprocamente, tal qual um triângulo equilátero, a ligação entre os três pontos principais deste sistema de veiculação: instituição, informação e leitor. Isto sim é razão suficiente para promover investigação a respeito do período citado e não somente a integralização de anos redondos de existência.

Sabe-se que é dever dos setores de informação ter sensibilidade e estar preparados para o desafio de novas mudanças e transformações que se sucedem, para suprir, no caso em foco, não só o que realmente a Enfermagem necessita como informação mas, também, para veiculá-la de forma a ser compreendida por níveis heterogêneos de capital intelectual, segundo as categorias de profissionais de Enfermagem. Tendo estas características, a informação passa a ser consciente, suscita a reflexão e gera idéias, atingindo seu real objetivo: ser compreendida, o que torna mais oportuna a realização da presente investigação.

Neste sentido, o propósito do presente trabalho é apreciar, através dos jornais publicados no século vinte e um, a trajetória percorrida pela entidade no período, descrevendo, também, as mudanças observadas no veículo oficial de divulgação da ABEn Nacional, contribuindo para a discussão sobre a acessibilidade da Enfermagem ao seu conteúdo para gerar uma reflexão crítica construtiva e até a proposição de mudanças.

 

OBJETIVOS

- Identificar e quantificar o conteúdo das publicações do Jornal ABEn, relacionando autoria, temática, seção, ordenação, diagramação e imagem;

- Analisar criticamente as temáticas publicadas e a forma de apresentação do jornal.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo exploratório descritivo e interpretativo, baseado na análise compreensiva da apresentação das matérias de 19 exemplares do "Jornal ABEn" editados no primeiro lustro do século XXI. A análise documental deste jornal foi baseada na óptica dos acadêmicos do 4º ano do Curso de Graduação em Enfermagem de uma universidade particular paulistana. Os exemplares, capturados sob a forma original e completa de cada edição, foram submetidos à leitura exaustiva pelos pesquisadores, a fim de examinar as seguintes variáveis selecionadas para o estudo: patrocinador, que identifica as instituições ou órgãos que patrocinam o volume; fonte, subdividido em dois itens: tamanho e variedades empregadas no volume mais tipo e quantidade de fontes; autor, identificando o mesmo segundo identificação pessoal, formação, titulação acadêmica e cargo ocupado em entidades; temática, o que envolve o assunto abordado; seção, em qual das seções do jornal encontra-se a matéria; ordem, página em que se localiza a matéria; diagramação, se agradável ou não com relação à disposição do conteúdo; e imagem, se presente ou não, qualidade de resolução e relação de pertinência com o conteúdo.

Procedeu-se à anotação dos dados selecionados, registrados num instrumento construído sob a forma de tabela, usando o programa Microsoft Excel, na qual foram lançados os itens selecionados por categorias referentes a cada variável. Vale frisar que foi usado como recurso para pré-teste do instrumento, um dos números do mesmo jornal, do ano de 2000, o que indicou adequação do instrumento elaborado. Após a coleção dos dados, foi feita a apuração de freqüência relativa e absoluta das variáveis de maior relevância, seguida da análise temática do conteúdo das matérias apresentadas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Considerando, como observações preliminares, a estrutura física do jornal ABEn, foi possível observar que o mesmo sofreu consideráveis transformações, dignas de um periódico de relevância nacional: Até 2001, seus exemplares apresentaram formato tablóide, com poucas páginas (de 8 a 12) impressas em papel comum, havia uso excessivo de fotografias, as seções e temas pareciam ser distribuídos aleatoriamente e, na capa, havia muitas informações; Em meados de 2002, período de transição, observou-se a ocorrência de uma reformatação estrutural do jornal, passando do formato tablóide para o A3, o número de páginas aumentou para 16, a apresentação da capa pareceu mais discreta e com características de editorial, a quantidade de fotografias diminuiu e apareceram ilustrações temáticas, e a qualidade do papel mudou para o de textura polida, facilitando o manuseio já que este não se deteriora com facilidade à manipulação; Em 2003, a formatação anterior permaneceu; entretanto, o número de páginas aumentou para 20, mantendo-se inalterado até o final do período estudado.

Patrocínio

A edição de qualquer material informativo de renome é uma tarefa árdua para qualquer conselho editorial, muito mais quando se pesa o nível de qualidade do conteúdo e material gráfico, bem como a disponibilidade de exemplares que proporcionem boa cobertura geográfica para a abrangência de seus leitores. Para isso, o maior desafio é conseguir recursos financeiros para custear esse conjunto, já que o número de associados, em relação ao contingente nacional de profissionais, é diminuto, fator gerador de instabilidade financeira. Para fazer frente a esse desafio é comum e lícito buscar patrocínio para o veículo de divulgação.

A esse propósito, observou-se a evidência de patrocínio a partir do número 02 de 2002, início de sua reformatação estrutural, quando o jornal deu um salto de qualidade no seu projeto gráfico, com diagramação mais moderna, papel de boa qualidade e aumento do número de páginas. A partir de então, é observado em todos os exemplares que o custeio das edições foi financiado por três instituições públicas, a saber: Programa de Sustentabilidade para a Implantação das Diretrizes Curriculares dos Cursos de Graduação em Enfermagem, Cooperação ABEn e, Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde-DEGES-SGTE-MS.

Organização - Seção, Ordenação e Diagramação

A organização das seções do Jornal ABEn observada antes do número 02 de 2002 não tem uma ordenação lógica muito evidente; entretanto, a partir deste, notou-se regularidade nas seções de "capa", "ajustando contas" e "informes" e, no número três do mesmo ano, houve a introdução de nova seção, intitulada "Memória ABEn", que também se mantém regular. A partir de 2003, observou-se a presença de outras seções regulares: "pavilhão" e "agenda de trabalho". O restante do conteúdo variou segundo o contexto político da época de edição. Das seções variáveis, as mais observadas foram: "notícias", "eventos", "artigos", "regulação profissional" e "entrevistas".

Há de se ressaltar que, excepcionalmente, nos números um, dois e quatro de 2005, segundo os editores, propositalmente não consta, nos jornais, a seção "ajustando contas".

As notícias veiculadas no jornalismo impresso são apresentadas, aos leitores, sem que eles percebam que há certo grau de hierarquia e visibilidade para a seleção de sua leitura(6). Por isso, a construção das páginas de um jornal em relação à seqüência de apresentação da informação nessas páginas e sua hierarquia não é uma tarefa fácil. Desse modo, é preciso ter sensibilidade para determinar a relevância da informação e sua forma de apresentação, de forma que este conjunto se torne atrativo para o leitor. Isto significa que, quando esse conjunto não agrada, o leitor logo abandonará a leitura, mudando de página. Diante disso, considerando as seções regulares de maior relevância, pôde-se observar que sempre há uma matéria na capa com características de editorial, mas que dá uma introdução de cunho político e que, na maioria das vezes, destaca o assunto principal das temáticas apresentadas, bem como o uso de epígrafes da literatura brasileira (prosa e música), como forma de contextualizar melhor o assunto. Exceto nos números um, dois e quatro de 2005, as matérias da capa foram assinadas diretamente pela presidenta da entidade.

Uma atitude louvável dos editores deste periódico, observada na última página do primeiro exemplar de 2002, e depois na segunda página dos demais, foi a introdução da seção "ajustando contas", na qual aparecem o balanço patrimonial da ABEn e o demonstrativo de resultados. De fato, é extremamente relevante a prestação de contas para os associados, pois, ter transparência nas finanças favorece a honra e a confiança que os associados depositam na instituição. Porém, é importante dizer que, na óptica dos avaliadores, foi unânime a idéia de que esta seção deveria aparecer nas últimas páginas, como observado na sua primeira aparição, ou, por exemplo, precedendo a seção "Memória ABEn". Até porque, o início do jornal, sob o ponto de vista da diagramação, é considerado área nobre(5). Contudo, mesmo que o ajuste de contas tenha seu valor de transparência, é pouco atrativo para o leitor, o que não justifica a exclusão desta mensagem do jornal, atitude que poderia descaracterizar sua missão.

A mesma avaliação se deu à seção "agenda de trabalho ABEn", localizada na terceira página, obtendo o mesmo julgamento que sua precedente, ou seja, deveria localizar-se nas últimas páginas, por exemplo, precedendo a seção "ajustando contas".

A seção "Memória ABEn", desde sua instalação em 2002, sempre ocupou a(s) última(s) página(s) porém, isto não descaracteriza sua importância para a Enfermagem, porque seu conteúdo alicerça e embasa o pensamento da Enfermagem em relação ao elo de ligação entre a relevante participação política da ABEn no passado e o que isto representa para a profissão na atualidade.

Recursos Visuais - Fontes e Imagens

Considerando os recursos visuais, em relação à fonte, seu uso pareceu bastante adequado para o jornal. O recurso é moderno, contemporâneo e não há uso abusivo de cores. Quanto aos tipos, as fontes variaram, em geral, entre dois tipos: Arial e Times New Roman. Já em relação ao tamanho, foi percebida grande amplitude de variação - de dois a oito tamanhos diferentes em uma mesma página. Em média, a fonte variou em quatro tamanhos diferentes em uma mesma página. O tamanho da fonte nos textos e o espaço das entrelinhas, foram considerados bastante adequados para o fluir bem na leitura.

Além desses recursos, a presença de imagens em um jornal é fundamental para atrair a atenção e validar as informações textuais dirigidas aos leitores, ativando conexões cerebrais entre o texto (fala) e a memória fotográfica do leitor, auxiliando-o tanto na compreensão do texto, quanto na reflexão sobre a informação que esta contém. Dessa forma, a apresentação de qualquer imagem deverá remeter ao conteúdo da informação de forma subliminar.

Considerando isto, das imagens que aparecem ilustrando o Jornal ABEn, boa parte são excertos de obras de arte, como indica o crédito atribuído aos autores, e, por vezes, pareceram não compatíveis com o conteúdo dos textos que ilustravam. Este julgamento se deu na tentativa de relacionar a imagem com o conteúdo do texto de referência. Em relação à qualidade, por vezes apareceram imagens desfocadas propositalmente. Embora isto seja pertinente, quando usado como recurso para pano de fundo, observou-se, com certa freqüência, que as imagens não se enquadravam nesse conceito. Verificou-se em alguns momentos o uso excessivo de fotografias, nem sempre acompanhadas de legendas e algumas com baixa resolução.

Em todos os jornais foi observado, na parte superior da capa, tomando pelo menos, 30% desta, a imagem de mãos, todas de pinturas de autores estrangeiros clássicos de renome. A idéia de imagens de mãos talvez seja menção subliminar à arte do cuidar, marca característica da Enfermagem. Considerando a Enfermagem atual como prática baseada em evidências e que transita por outros processos de trabalho além do Assistir (Ensino, Pesquisa, Administração e Participação Política), seria interessante alternar ou conjugar esta imagem com outras que remetessem também ao raciocínio, para integrar a idéia da ciência à arte do cuidar.

Autoria

Quanto à autoria, a Tabela 1 permite visualizar com maior clareza a disposição das matérias veiculadas nos jornais, segundo a qualificação/vínculo institucional da autoria. Há de se ressaltar que a qualificação da autoria se deu na seguinte hierarquia: Membros da diretoria – ABEn Nacional; Membros da Diretoria – ABEn Seção; Professor Universitário – mestre/doutor; Membro de outra instituição pública e outros. A classificação foi feita observando-se que, quando um autor, por exemplo, concomitantemente é membro de diretoria da ABEn e professor universitário, foi considerada a qualificação/vinculo institucional de maior relevância, de acordo com a hierarquia descrita.

Considerando os dados apresentados na Tabela 1, é inegável que a autoria prevalente das matérias, no decorrer dos anos estudados (74,9%), é quase exclusiva de membros da Diretoria da ABEn Nacional, principalmente aqueles que ocupam cargos de presidente, diretor de pesquisa, diretor de educação e diretor de assuntos profissionais, tendo certa expressividade em todos os números de 2001 e a partir do número 3 de 2004. Nos números 3 de 2001 e 2004, a autoria é exclusiva de membros da Diretoria da ABEn Nacional – o primeiro justifica-se, pela comemoração dos 75 anos da ABEn e o segundo, por fazer um balanço administrativo sobre a gestão 2001-2004. Em seguida, observou-se expressiva participação de professores universitários, com titulação de doutores, mestres e eventualmente especialistas (14,7%). Por fim, mas não menos significativa, tem-se a participação de membros da ABEn Seção (4,8%), seguida de membros de outra instituição pública (4,3%).

Uma observação panorâmica da Tabela 1 induz a pensar que as matérias veiculadas podem carregar apenas o estilo e a ótica de um grupo fechado de pessoas. Entretanto, levando em consideração a relação entre as categorias de qualificações da autoria (Tabela 1) e o conteúdo das matérias (Tabela 2) dos jornais, no geral, acaba-se por revelar um grupo pró-ativo, no tocante ao contexto nacional e internacional em que a Enfermagem brasileira se encontra atualmente. Apesar disso, em alguns momentos, o jornal pareceu muito centrado no âmbito político interno e institucional, muitas vezes remetendo a reflexões de cunho histórico e político desse naipe. Isto, se é relevante sob alguns aspectos, por outro parece ser bastante seletivo em relação ao segmento de leitores que o veículo pretendeu atingir. Percebeu-se ainda, a falta de um espaço para alunos de enfermagem publicarem assuntos de seu interesse.

Em resumo, ao observar a trajetória histórica da ABEn, percebe-se extrema e criteriosa dedicação na criação de espaços de organização e formação política da Enfermagem em geral, envolvendo profissionais de enfermagem de nível médio, estudantes de enfermagem, enfermeiros e docentes. Ao selecionar parte deste público como leitor preferencial do Jornal ABEn, entende-se que a entidade corre o risco de fugir da sua missão, que é a de formação política para prover, aos profissionais de Enfermagem, uma influência modificadora.

Conteúdo

As matérias veiculadas no Jornal ABEn transitaram nos cinco campos de atuação da Enfermagem: ensino, pesquisa, administração, assistência e participação política, incluindo a categoria outra, para as temáticas que não se relacionavam com as anteriores, como se verá a seguir. A relação entre ano e número do jornal e o tipo de temática abordada, é mostrada na Tabela 2.

Considerando a Tabela 2, a seguir se fará uma breve consideração sobre os pontos mais relevantes observados em cada número do jornal ABEn:

- N1/2001- Neste número, a maior parte dos discursos são multipolarizados o que justificaria a prevalência de assuntos categorizados na temática "outra" (36,3%), a outra parte relevante dos discursos diz respeito à pesquisa (27,3%). Em relação à isto, a ABEn na ocasião da 11ª Conferência Nacional de Saúde (CNS), realizada em Brasília, manifestou preocupação em relação ao processo de globalização e o impacto do neoliberalismo no Sistema Único de Saúde (SUS), observando a conseqüente mudança nas condições de saúde no Brasil e a relação disto com as desigualdades sociais. Dentre as atividades que a ABEn realizou nesta Conferência, podemos citar: 1) Reunião em parceria com a Federação Nacional dos Enfermeiros (FNE) e em conjunto com os delegados para propor a criação de meios ou condições favoráveis para a ampla atuação da Enfermagem na Saúde Coletiva e, garantir a consolidação do SUS - defendendo as conquistas dos direitos dos usuários e dos trabalhadores, que deste dependem para continuar produzindo; 2) Lançamento de um número especial da Revista Brasileira de Enfermagem (REBEn), editada em parceria com o Ministério da Saúde (MS), sobre o Programa da Saúde da Família (PSF); 3) Instalou um STAND com o objetivo de divulgar a categoria dos profissionais de Enfermagem; 4) Participou das atividades do FENTAS, dividindo o STAND, o boletim e participando das reuniões convocadas; 5) Traçou em conjunto com a FNE, estratégias para dividir os delegados nas discussões, para que a Enfermagem estivesse representada em todos os assuntos da Conferência.

- N2/2001- As temáticas ensino, política e outra estão empatadas. Na temática ensino, há destaque para o 5° Seminário Nacional de Diretrizes para a Educação em Enfermagem SENADEn, abordando como tema as diretrizes curriculares. Dentre as matérias de destaque, está a comemoração dos 75 anos da ABEn. Nesta matéria há diversos predicados empregados para definir a trajetória da ABEn: sabedoria, prudência, qualidade de sábio e grande conhecimento. Todavia, ressaltou-se que isto se deveu através das grandes lutas da organização e do compromisso da entidade com a Enfermagem e a população Brasileira. Ressalta-se ainda, que no âmbito político, a ABEn traçou rumo diferente na década de 80, quando almejou articular a organização da enfermagem como classe trabalhadora, engajando a mesma em movimentos sociais da área da saúde, despertando assim a consciência crítica.

- N3/2001- A política, temática prevalente, deveu-se ao grande número de matérias destinadas para ao final da gestão de 1998-2001, abordando as seguintes realizações: a diretoria 1998-2001, presta contas de seu mandato referenciando o plano de trabalho assumido, com três eixos - "a defesa e consolidação da Enfermagem como prática social em favor da vida; a promoção e viabilização do desenvolvimento técnico científico político e profissional e; a organização administrativa das unidades de trabalho da ABEn" -; a conquista na elaboração das Diretrizes e Referenciais Curriculares, da Educação Profissional nas quais a ABEn participou na comissão da SENTEC/MEC; constituição da Comissão de Especialistas da Enfermagem da Secretária de Ensino Superior, com participação na composição das diretrizes curriculares de graduação; Projeto Internacional de Classificação das Práticas de Enfermagem, com o objetivo de instrumentalizar os profissionais de enfermagem para a assistência ao adolescente, dentre outras.

- N4/2001- Prosseguindo com final da gestão, novamente, a temática política teve prevalência, devido à nova diretoria da ABEn, gestão 2001-2004, empossada no 53° Congresso Brasileiro de Enfermagem (CBEn), em Curitiba-PR, no dia 13/10/2001. A nova diretoria prescreveu como meta de sua plataforma de trabalho, total mobilização para a "Construção Social da Enfermagem Brasileira", considerando como princípios inegociáveis de sustentação, a ética no pluralismo de idéias e a crença na capacidade política dos associados-profissionais e estudantes.

- N1/2002- Este número possui prevalência na temática outra (61,1%), tendo seu conteúdo bem diversificado, nota-se conteúdos como: premiações, eventos, projetos, agenda da presidenta, notas, homenagens e balanço patrimonial, dentre outros.

- N2/2002- Este número é representado pela forte prevalência da temática ensino (50,0%), seguida da política (28,5%). Nada se abordou sobre pesquisa e assistência. Este exemplar é uma edição especial sobre Educação. No enfoque principal, há discussões sobre mudanças e transformações na educação superior e de nível médio para os cursos de Enfermagem brasileiros. Este número foi dirigido ao VI Seminário de Desenvolvimento de Ensino de Enfermagem (SENADEn), espaço para discussões sobre o ensino de enfermagem. Aborda-se também a participação do estudante de enfermagem nos SENADEns e, propõe que seja assegurado espaço no Jornal ABEn para os estudantes de enfermagem veicularem notícias de seu interesse, porém isto não foi observado nos números posteriores do jornal, no período analisado.

- N3/2002- Do total de temáticas deste número, 46,5% se referiram à política, seguido de 16,5% para ensino, pesquisa e outra, e resultado nulo para a assistência. É inegável a prevalência de discursos políticos neste número, que se inicia com um monólogo da presidenta exortando à discussão sobre os desafios que a Enfermagem enfrentará em 2003, dando ênfase a luta por mudanças na organização do processo de trabalho em saúde, e fazendo um chamado para que todos os alunos e profissionais de Enfermagem associem-se a ABEn, para que esta ganhe mais força política. A agenda de trabalho demonstra um caráter político e estratégico sob a perspectiva de se construir um olhar político coletivo que oriente as ações de conjunto da Enfermagem. Outro discurso relevante diz respeito à política profissional, em que se observam críticas ao PL nº. 25/2002 apresentado ao Congresso Nacional (Ato médico). Observou-se, na seção memória ABEn, uma breve consideração sobre os primórdios do movimento associativo das enfermeiras diplomadas brasileiras.

- N1/2003- Neste número as temáticas foram bastante diversificadas, evidenciadas pelos 68,7% do total atribuídos à categoria outra. Entretanto, o número de matérias sobre política (18,8) e ensino (12,5%) continuou expressivo em relação ao conteúdo geral. Pesquisa e assistência não foram abordadas. Mesmo sendo o ensino a temática de menor porcentagem, sua expressividade está na abordagem ao processo de formação e aprendizado dos profissionais de Enfermagem: contempo-raneamente há um notável aumento no número de trabalhadores de "nível médio" para área da saúde, porém, a oferta de trabalho não é igualitária, que somada a formação incipiente, podem frustrar as aspirações desses profissionais; de outra forma, o jornal também observa a evidência do desenvolvimento de experiências de ensino que se estruturam em propostas para a formação e capacitação de profissionais de nível técnico de caráter permanente, para que não haja marginalização e desigualdades na formação de profissionais.

- N2/2003- A temática prevalente foi política (38,9%), seguida de outra (27,8%), ensino (22,2%) e assistência (11,1%), e foi nula para pesquisa e administração. A temática política mostra sua importância tanto estrutural quanto organizacional na Enfermagem, abordando a instigante luta por reformas trabalhistas, sindicais, administrativas e judiciárias, visando sempre a valorização do profissional.

- N3/2003- Desta vez a temática prevalente foi pesquisa (60,2%), seguida de outros (20,0%) e nula para assistência. As demais se equipararam em 6,6%. A temática pesquisa, neste exemplar, foi destaque na quantidade das matérias apresentadas. Isso se deveu a uma seção especial para Pesquisa e Pós-graduação, relatando a importância da informação e seu acesso rápido às bases de dados, que podem ser encontradas na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), que atualizam e aperfeiçoam os conhecimentos dos profissionais de enfermagem. A ABEn anunciou que recebeu um convite da Comissão Mista MCT/MEC, para participar da atualização da classificação das áreas do conhecimento – CAPES e CNPq, com a proposta de consolidar linhas de pesquisa. O 12º Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem (SENPE), ocorrido em Porto Seguro – BA, também foi destaque devido ao seu tempo de existência. O jornal ainda ressaltou a importância da pesquisa na área da enfermagem como forma significativa para a promoção em saúde e para o desenvolvimento social.

- N4/2003- Neste número, o que prevaleceu foram as temáticas diversas (42,8%), seguidas pela política (38,0%), as demais se equipararam em 4,8%. A temática política abordada como a segunda de maior destaque, discute formas e estratégias para aperfeiçoar a assistência à saúde das populações, através de alianças entre os profissionais de Enfermagem e os usuários do SUS, pela via das instâncias deliberativas e fiscalizadoras. Tornando esta uma forma de organização política que permita avaliar a situação atual do SUS e o impacto dos resultados das Conferências e Conselhos de Saúde. Os Conselhos de Saúde funcionam através das Conferências de Saúde, que por serem instancias deliberativas e fiscalizadoras, permitem que o cidadão possa participar da definição, execução e acompanhamento das políticas de governo no campo da saúde pública.

- N1/2004- Desta vez, a expressividade contemplou a temática assistência (28,1%), seguida por ensino (21,8%) e política (18,7%). Este ano foi instituído "ano da mulher" e, como não poderia deixar de ser, este número aclama as qualidades femininas, até porque a força de trabalho da Enfermagem é majoritariamente feminina e tem contribuído de forma significativa para a melhoria da saúde no país. O discurso avança para o campo da saúde coletiva e Sistematização da Assistência de Enfermagem no Sistema Único de Saúde (SAE no SUS), confirmando a expressividade da temática assistência. Tece-se também uma avaliação do ensino superior, enfatizando quão desafiante é manter/melhorar sua qualidade, apoiando os sistemas de avaliação nacional do ensino superior. No tocante à política, o discurso mais significativo, apresentado em espanhol, é da presidenta do comitê executivo da Federação Panamericana de Profissionais de Enfermagem (FEPPEN), que reitera a ousadia da ABEn e sua contribuição significativa para a Enfermagem latinoamericana e caribenha.

- N2/2004- O ensino e outros se equiparam com 21,8% e, mais uma vez, a assistência se expressou (26%), seguida pela política (17,4%). Seu discurso relaciona Enfermagem e responsabilidade ético-social, salientando o compromisso da Enfermagem na luta por um SUS mais justo. Em seguida, foi retomado o cunho político, enfatizando a participação da ABEn na Câmara Nacional de Regulação do Trabalho em Saúde do Ministério da Saúde (CRTS-MS), cujo assento garantido permitirá a participação da Enfermagem nas discussões e proposições sobre a regulação profissional para as profissões e ocupações na área da saúde. A agenda de trabalho da ABEn se mostrou recheada de compromissos relacionados às políticas de ensino e saúde coletiva.

- N3/2004- Neste número prevalece a política (35%) e equiparam-se administração e outros, com 20,0% cada, e ensino e assistência, com 10,0% cada. Suas matérias têm caráter exclusivamente político, percebido nas entrelinhas, mesmo quando se abordava outras temáticas. Seu conteúdo integral discorre sobre a gestão 2001-2004, descrevendo os desafios no início da gestão, os projetos desenvolvidos no decorrer desse período - resultados alcançados -, enfatizando a coragem e atitude da diretoria da ABEn no enfrentamento dos desafios e sua participação nas discussões nacionais como ator social relevante e propositivo, em todos os contextos sobre saúde e educação em Enfermagem.

- N4/2004- 40,0% das temáticas se referiram à política e depois ensino (30,0%) e pesquisa (13,3%). Iniciava-se a gestão 2004-2007 e observou-se, nas matérias, a preocupação com a elaboração de um plano para esta gestão, no qual se fala sobre a construção de uma ABEn contemporânea, buscando ampliar a capacidade de resposta aos seus associados para superar o circulo vicioso de precariedade pela falta de projetos, conquistar número de sócios e, consequentemente, reverter a ausência de recursos financeiros. Mais uma vez é retomado o tema "ano da mulher", com considerações sobre violência doméstica e desigualdade profissional.

- N1/2005- A maioria esmagadora das temáticas contemplou o campo da política (88,0%) com o slogan "repensar a ABEn", representado por um olhar panorâmico da história da entidade ao longo de quase um século de responsabilidades e lutas, contextualizando com a cotemporaneidade e a perspectiva de uma ABEn fortemente representativa, cuja evidência é percebida com a reforma do estatuto e talvez sua flexibilização aos desafios deste século. Critica com sabedoria a falta de ética do sistema COFEN/COREN, órgão disciplinador sem disciplina. Curiosamente a seção "Memória ABEn" deste número tece algumas considerações históricas sobre o Jornal ABEn. Isto demonstra a relevâcia desta seção para a compreensão das ações políticas da ABEn.

- N2/2005- Continua prevalente a temática política (38,5%), seguida das temáticas pesquisa (30,7%) e ensino (23,0%). O foco principal continua sendo o "repensar a ABEn" sob uma construção coletiva e integrada de idéias e muito trabalho, que é apresentado como plano de desenvolvimento institucional da gestão 2004-2007. Considerando que as ações e decisões da diretoria da entidade são baseadas no estatuto, inclusive o "repensar a ABEn", este número apresenta na seção "Memória ABEn", a trajetória de mudanças do estatuto da entidade de acordo com os desafios de cada época, até sua consolidação atual, resultando na ABEn que temos hoje.

- N3/2005- Sua temática expressiva é a política (54,6%), seguida de assistência e ensino que se equiparam (22,7%). Essas três temáticas têm seu discurso convergente no tocante à organização da Enfermagem brasileira, pois parece ainda, arraigada aos conceitos conservadores da ditadura militar (dividir para enfraquecer). Seu conteúdo manifesta ainda, a posição da ABEn em defesa da ética, frente à crise política nacional pelas irregularidades de congressistas e outros políticos. Também critica veementemente a política ditatorial do sistema COFEN/COREN, que pretendia legislar sobre o ensino da enfermagem brasileira.

- N4/2005- As temáticas mais contempladas foram pesquisa (45,5%) e política (31,8%). Este número é iniciado com um discurso político filosófico e chamado para a apreciação dos 80 anos da ABEn. Observa-se um ofício encaminhado ao presidente do CNPq, falando dos 80 anos da ABEn e a relevante contribuição científica da Enfermagem para o país. Vale frisar a participação expressiva da ABEn no projeto "Biblioteca Virtual em Saúde de Enfermagem", que objetiva reunir e disponibilizar gratuitamente e on-line, a produção científica da área.

Por fim, ao observar a tabela 2, percebe-se, no sub-total, extrema prevalência da temática política (34,9% do total geral), com ênfase em políticas públicas de Saúde e de Educação Superior para a Enfermagem, surpreendentemente seguida da temática outra (20,0%) e depois, ensino (18,0%), com ênfase na discussão de diretrizes curriculares para o ensino superior e para pós-graduação. A temática pesquisa teve sua expressividade devido aos eventos (Congressos e Seminários, dentre outros) realizados e/ou apoiados pela ABEn. A temática administração foi a menos abordada, talvez, porque a natureza do assunto remeta discussão para periódico científico. É curioso observar que estes focos temáticos não mudaram, quando comparado com estudo anterior(1), efetuado dez anos antes, no qual são avaliados os setenta anos de atuação ABEn.

 

CONCLUSÃO

O resultado da análise evidenciou que o veículo oficial de publicação da ABEn tem cumprido parcialmente a finalidade a que se destina, uma vez que o seu conteúdo e forma têm sido organizados para atingir um público específico, qual seja - os enfermeiros que estão próximos da academia e/ou do poder público nos setores de Educação e Saúde, limitando sua missão, que é a de formação política para promover a participação do conjunto dos profissionais de Enfermagem na criação de uma consciência de classe e uma prática política transformadora.

A autoria prevalente é de membros da Diretoria da entidade e as temáticas mais freqüentes são as Políticas de Saúde e de Ensino Superior para a Enfermagem, observando-se a presença de seções regulares e algumas matérias esparsas. Dentre os cinco campos de atuação da Enfermagem, o da política têm sido o menos cultuado pela maioria dos profissionais e entidades de enfermagem, e talvez, este seja o único periódico que realmente representa e desperta o senso político na Enfermagem, devendo receber maior empenho na sua elaboração e divulgação.

 

REFERÊNCIAS

1. Oliveira IRS, Barreto IS, Lima MG. Os Setenta Anos da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn). Rev Bras Enferm 1997; 50(3): 441-58.        [ Links ]

2. Carvalho M, Rodrigues RM. Revelando a participação dos(as) enfermeiros(as) na Associação Brasileira de Enfermagem-Regional Cascavel. Rev Bras Enferm 2001; 54(2): 278-87.        [ Links ]

3. ABEn. Desafios atuais. [on-line] 2005 [citado em: 1 set 2005]. Disponível em: URL: http://www.abennacional.org.br/dat.php        [ Links ]

4. Carvalho AC. Publicações. In: Associação Brasileira de Enfermagem 1926-1976. Brasília (DF): Editora Folha Carioca; 1976. p. 330-3.        [ Links ]

5. Paim L. Relatório da Comissão de Publicação e Divulgação da Associação Brasileira de Enfermagem – (CPD/ABEn). Rev Bras Enferm 1979; 32: 458-4.        [ Links ]

6. Barreto HDC, Santo TBE, Júnior OCS da, Porto F. "Saiu no jornal!" A morte de Florence Nigthingale na imprensa do Rio de Janeiro, 1910. Rev Pesq Cuidado é Fundamental 2004; 8(1/2): 49-58.        [ Links ]

 

 

Correspondência:
Abel Silva de Meneses
Rua do Chapadão, 70-A. Vila Célia
CEP - 05886-040. São Paulo, SP

Submissão: 08/08/2007
Aprovação: 21/11/2007

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