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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.74 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992008000500004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Manifestações otorrinolaringológicas e esofágicas da epidermólise bolhosa

 

 

Rodrigo Santana FantauzziI; Mariana Oliveira MaiaII; Flávia Coelho CunhaIII; Rodrigo Vidal SimõesIV; Denise Utsch GonçalvesV; Amélio Ferreira MaiaVI

IMédico Otorrinolaringologista, Membro Efetivo do Corpo Clínico do Hospital Municipal de Contagem
IIMédica, Residente do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da UFMG
IIIMédica Otorrinolaringologista, Membro do Corpo Clínico do Hospital Júlia Kubitschek
IVMédico Otorrinolaringologista, Membro Efetivo do Corpo Clínico do Hospital Militar do Estado de Minas Gerais
VDoutora Professora Adjunto do Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da UFMG, Otorrinolaringologista Orientadora plena do Programa de Pós-Graduação em Infectologia e Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da UFMG
VIMédico Otorrinolaringologista e Cirurgião de Cabeça e Pescoço, Coordenador da Clínica de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital Felício Rocho

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Epidermólise bolhosa (EB) é um conjunto de afecções bolhosas, de caráter hereditário, com diferentes quadros clínicos e diferentes modos de transmissão genética. Os indivíduos evoluem com bolhas na pele e mucosas, que surgem espontaneamente ou após mínimos traumatismos.
OBJETIVO: Descrever as manifestações otorrinolaringológicas, as complicações esofágicas relacionadas à EB e a experiência na conduta de pacientes com estenose esofágica decorrente da EB.
CASUÍSTICA E MÉTODO: Estudo descritivo de 60 pacientes com EB, atendidos de 1999 a 2006, no serviço de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital X, centro de referência para EB.
RESULTADOS: Dos 60 pacientes com idade média de 14,5 anos, 28 (46,6%) eram mulheres e 32 (53,4%) homens. Oito (13,4%) tinham o diagnóstico de EB simples, 51 (85%) EB distrófica e um (1,6%) caso de EB adquirida. Lábios, boca, língua e pavilhão auricular foram os locais mais acometidos (32 pacientes - 53,3%). Disfagia foi encontrada em 28 pacientes (46,6%). Após dilatação do esôfago todos apresentaram remissão do sintoma.
CONCLUSÃO: EB é uma doença rara e os pacientes devem ser encaminhados para tratamento em centros de referência. Portanto, é fundamental que os médicos envolvidos com os cuidados de pacientes com EB conheçam as condutas necessárias para melhorar a qualidade do tratamento sem prejuízos adicionais.

Palavras-chave: epidermólise bolhosa, esôfago, manifestações, otorrinolaringologia, tratamento.


 

 

INTRODUÇÃO

A Epidermólise bolhosa (EB) compreende um conjunto de afecções bolhosas, de caráter hereditário, com diferentes quadros clínicos e diferentes modos de transmissão genética1-4. Caracteristicamente, os indivíduos afetados desenvolvem bolhas na pele e mucosas, espontaneamente ou após mínimos traumatismos4,5. A EB afeta cerca de um em cada 50.000 nascimentos4. A formação de bolhas nesse grupo de doenças é devido à formação de planos de clivagem na pele e mucosas2,3,5-7. Clinicamente, compreendem três grandes grupos de epidermólise bolhosa: EB simples (autossômica dominante) com bolhas de localização epidérmica e que não deixam cicatrizes; EB juncional (autossômica recessiva) na qual as bolhas situam-se na lâmina lúcida e EB distrófica (autossômica dominante ou recessiva) caracterizada pela presença de atrofia, cistos tipo milium, distrofias ungueais, alterações pigmentares e lesões mucosas2,4.

Reconhecem-se, atualmente, 23 fenótipos de EB, cujo quadro clínico é variável e oscila desde quadros leves até formas letais4. O diagnóstico é realizado através das características clínicas e achados histopatológicos das lesões4. A microscopia eletrônica é o padrão ouro para o diagnóstico, mas a imunohistoquímica (em particular, anticorpo monoclonal) e biologia molecular têm alcançado definições sofisticadas da estrutura e função da junção dermoepidermal da pele normal e das alterações em cada grupo e subgrupo da EB4.

Manifestações otorrinolaringológicas são freqüentes na EB6-11. Estas manifestações estão relacionadas à formação de bolhas nas mucosas (principalmente na orofaringe e esôfago), seguido de ruptura e cicatrização hipertrófica, levando à anquiloglossia, microstomia, estenose de esôfago, estenose de laringe e estenose de vestíbulo nasal. Estenose de esôfago é uma complicação nos estágios avançados, sendo um dos grandes desafios para a especialidade12. Estudos descritivos abordando essa enfermidade ainda não foram publicados no Brasil.

O objetivo deste trabalho foi descrever as manifestações otorrinolaringológicas da epidermólise bolhosa, definindo melhores condutas clínicas e/ou anestésico-cirúrgicas, com conseqüente redução da morbi-mortalidade dos pacientes.

 

PACIENTES E MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo de 60 pacientes com EB acompanhados e tratados durante o período de Junho de 1999 a Dezembro de 2006. O projeto foi aprovado e registrado no Comitê de Ética e Pesquisa da Instituição sob o nº 136/05.

Os pacientes haviam sido referenciados pela Associação Mineira dos Parentes, Amigos e Portadores de Epidermólise Bolhosa (AMPAPEB) sendo este o critério de inclusão no estudo.

Todos os 60 pacientes foram submetidos a exame clínico otorrinolaringológico completo. Em casos de disfagia foram realizados videofluoroscopia e radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno (REED).

Em casos selecionados, foi necessária a realização de dilatação esofágica. A indicação do procedimento foi haver evidência clínica e radiológica de estenose esofágica severa. A dilatação esofágica foi realizada com a introdução de ogivas. Todos os procedimentos foram realizados com anestesia geral utilizando-se propofol, quelicim e midazolam. Cada procedimento foi realizado em apnéia e ventilação por máscara até a recuperação dos pacientes. Após os procedimentos, prescreveu-se corticosteróide, na dose de 0.5 a 1mg/kg/5 dias, medicação analgésica (paracetamol ou dipirona) e.ranitidina (150mg/10ml) ou omeprazol (20mg/12/12hs) durante 30 dias, prolongando-se o tratamento de acordo com a sintomatologia dispéptica de cada paciente. Nos pacientes com sintomas dispépticos e engasgos, sem disfagia significativa, administrou-se bloqueador de bomba de prótons ou bloqueador de receptor H2, nas mesmas doses prescritas anteriormente.

 

RESULTADOS

Dos 60 pacientes que participaram do estudo, 28 (46.6%) eram do sexo feminino e 32 (53.4%) do sexo masculino, sendo a idade média dos pacientes de 14,5 anos, com tempo de início dos sintomas variando desde o nascimento aos 22 anos de idade.

Oito (13.4%) tinham o diagnóstico clínico de EB simples, 51 (85%) de EB distrófica recessiva e um (1.6%) caso de EB adquirida.

Manifestações esofágicas foram encontradas em 28 (46.6%) pacientes. Em todos esses pacientes foram realizadas dilatações esofágicas após confirmação de estenose com estudos radiológicos (Figura 1).

 

 

Ocorreram duas complicações: um paciente submetido à dilatação esofágica evoluiu com formação de bolha no pós-operatório imediato, havendo necessidade de internação e cuidados clínicos até ruptura da bolha e retorno da deglutição. O outro apresentou perfuração de esôfago evoluindo com pneumomediastino e pneumoperitônio desde a região da carina até o mesocólon transverso. Este paciente queixou-se de dor retroesternal intensa e dor torácica durante os movimentos respiratórios no pós-operatório imediato. Foi submetido à Rx de tórax que não definiu o diagnóstico. Imediatamente, realizou-se TC de tórax que definiu o quadro de perfuração. Após iniciar clindamicina e gentamicina, o paciente foi encaminhado para a cirurgia geral que drenou o tórax, o mediastino e o abdômen (retroperitônio). O paciente evoluiu bem e recebeu alta hospitalar 30 dias após. Todos os pacientes evoluíram com melhora da disfagia após as dilatações (Figura 2).

 

 

Os lábios, a boca, a língua e o pavilhão auricular foram os locais mais acometidos pelas bolhas (Figuras 3 e 4), estando presentes em 32 pacientes (53.3%). Lesões bolhosas em conduto auditivo externo foram evidenciadas em dois pacientes (3.3%), sendo que nenhum deles apresentava sinais de estenose do conduto. Lesões ulcerativas e bolhas nas narinas foram encontradas em 11 pacientes (18.3%), sendo que três deles (27.2%) evoluíram com estenose narinária. Um paciente (1.6%) apresentou alteração laringotraqueal (estenose de comissura anterior) (Tabela 1).

 

 

 

 

 

 

Complicações anestésicas não foram observadas e nenhum paciente desenvolveu lesões cutâneas após os procedimentos.

 

DISCUSSÃO

A epidermólise bolhosa é um heterogêneo grupo de doenças sistêmicas caracterizada por fragilidade anormal da pele e mucosas3. Recentemente, investigações têm elucidado importantes defeitos genéticos4. Mutações no colágeno tipo VII têm sido identificadas na epidermólise bolhosa distrófica recessiva e dominante, enquanto a epidermólise bolhosa simples tem se mostrado como resultado de mutações nos genes para queratina 5 ou 143. Investigações mostraram que algumas formas de epidermólise bolhosa juncional são causadas por mutações no gene laminina3. Estes achados têm função prática no desenvolvimento de diagnósticos pré-natais acurados e de terapia genética3.

Dependendo do tipo de epidermólise bolhosa, os pacientes podem ter flictênulas na boca, esôfago, narinas, pavilhão auricular e laringe, resultando em considerável morbidade6-11,13-15. Anemia ferropriva é comum devido à perda de sangue que ocorre com a ruptura das bolhas7.

Em relação ao envolvimento extracutâneo, o trato gastrointestinal superior é o local mais freqüentemente acometido7,10. Podem ocorrer flictênulas e microstomia, levando à disfagia e odinofagia7. Achados radiológicos incluem estreitamentos, bolhas, irregularidade na mucosa e hérnia hiatal. A mucosa esofágica pode ser extremamente frágil na epidermólise bolhosa distrófica e perfuração tem sido relatada após endoscopia10.

Bolhas esofágicas geralmente evoluem para cicatrizes e estenoses, causando disfagia e sendo este um dos maiores problemas na epidermólise bolhosa distrófica recessiva7. Complicações como perfuração de esôfago, pneumomediastino, pneumoperitônio e mediastinite devem ser diagnosticadas precocemente, pois podem ser fatais12.

Os dentes são comumente acometidos na EB7,14,16. Tratamento preventivo é necessário e consultas freqüentes para limpeza e aplicação de flúor deverá ser iniciado na infância precoce7,14,16. Na presente casuística, todos os pacientes apresentaram mal estado de conservação dos dentes. Isso se deve à dificuldade de escovação adequada visto que mínimos traumatismos levam à formação de lesões.

Envolvimento da laringe é raro. Quando ocorre, é mais comum na epidermólise bolhosa juncional do que nas formas distrófica e simples8,9,13,17. Acometimento agudo da laringe por bolhas, evoluindo com rouquidão e estridor, implica em imediata intervenção otorrinolaringológica para avaliar sobre a necessidade de traqueostomia2.

Os pacientes com epidermólise bolhosa podem ser submetidos à instrumentação anestésica padrão, embora com maior risco de complicações17,18. Em revisão recente, de 129 induções anestésicas em 32 pacientes com EB, complicação séria não ocorreu em paciente algum submetido à entubação orotraqueal (10 episódios), máscara facial, bloqueio de nervo, agentes intramusculares ou intravenosos, e anestesia local. Similarmente, nenhuma complicação relacionada à entubação foi observada em outro relato de 113 entubações orais e 18 entubações nasais realizadas em 33 pacientes com EB17. É possível que o epitélio colunar pseudoestratificado que reveste a maior parte da laringe e da traquéia os fazem menos suscetível á formação de bolhas por fricção17. Embora se apresente como baixo o risco de complicações, todo instrumento que entre em contato com a pele e mucosa (máscara facial, laringoscópio e tubos endotraqueais) deve estar bem lubrificado17. Gazes lubrificadas estariam indicadas para fixar os eletrodos para monitorização cardíaca, esfignomanômetro e acessos venosos17.

Complicações como perfuração de esôfago, pneumomediastino, pneumoperitônio e mediastinite, devem ser diagnosticadas precocemente, pois podem ser fatais12.

 

CONCLUSÃO

A EB é doença rara e os pacientes são encaminhados para tratamento das complicações em centros de referência. Portanto, é fundamental que os médicos envolvidos com os cuidados destes pacientes conheçam as condutas necessárias para otimizar o tratamento sem prejuízo adicional à doença.

 

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Endereço para correspondência:
Clínica de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço
Hospital Felício Rocho
Avenida do Contorno 9530 3º andar Prado
Belo Horizonte MG 30110-934
Tel. (0xx31) 3292-8128

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 12 de junho de 2007. cod.4596.
Artigo aceito em 25 de agosto de 2007.

 

 

Hospital Felício Rocho.