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Revista de Antropologia

Print version ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. vol.40 n.2 São Paulo  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77011997000200009 

José Guilherme Magnani & Lillian de Lucca Torres (org.). Na metrópole: textos de antropologia urbana. São Paulo, EDUSP/FAPESP,1996, 319p.

 

Bernardo Lewgoy
Departamento de Antropologia/UFRGS
e doutorando em Antropologia/USP

 

Até recentemente a cidade de São Paulo, maior metrópole da América do Sul, era tradicionalmente conhecida pelas marcas distintivas do ethos do trabalho, pelos ritmos acelerados de uma máquina capitalista desenfreada, pela grandiosidade caótica e imponência amazônica de seus espaços construídos. Poucos eram os analistas que salientavam outros recortes para se perceber as vivências plurais dos paulistanos em seu meio urbano, no qual apropriações ligadas ao lazer, à festa e à religião parecem ser igualmente características do estilo de vida da aparentemente infindável miríade de grupos distintos que cruzam diariamente as ruas da metrópole.

No livro Na Metrópole: textos de antropologia urbana, organizado por José Guilherme Magnani e Lillian de Lucca Torres, este outro olhar sobre São Paulo é encarado como uma tarefa antropológica, aliás tributária de um diálogo com a melhor antropologia urbana brasileira. Trata-se de uma coletânea de oito trabalhos e um ensaio final, em que desfilam alguns dos ângulos mais característicos de São Paulo, como o lazer no Bexiga, Paulista e Consolação, a vida de jovens aficcionados de um night club, o estilo de vida de cinéfilos, o vigor entre alegre e guerreiro de torcedores de futebol (com sua ressemantização cíclica e quase totêmica do ambiente urbano em dias de jogo), a atualização de laços de solidariedade entre migrantes nordestinos e, último mas não menos importante, a constante presença do povo-de-santo adaptando-se e adaptando a cidade a seus códigos, mas também vivendo intensamente a festa, que repõe e produz significações no centro de sua vida ritual. Em sua maioria, os autores são ou foram orientandos de Magnani no PPGAS/USP, e participantes do Núcleo de Antropologia Urbana. É preciso destacar essa importante característica da antropologia urbana brasileira: não se trata de um olhar e de um estranhamento estrangeiro atuando sobre São Paulo ¾ como em Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss, ou em Um olhar francês sobre São Paulo, de Laplantine & Olivenstein ¾ em que a tradução de uma realidade percebida em bloco conduz a escrita à ânsia da totalização e apreende a diversidade de forma chapada. A antropologia é feita aqui por "iniciados", cúmplices desde antes senão dos grupos pesquisados, mas da trama de relações urbanas que impõe regras e preferências aos deslocamentos e vivências na metrópole. E isto, como sabemos, exige uma vigilância epistemológica adicional, um cuidado para não sobrepormos nossos valores e percepções ao(s) do(s) grupo(s) pesquisado(s). Ora é preciso adiantar que a maioria dos trabalhos atinge plenamente esse distanciamento, atingindo um patamar etnográfico de boa qualidade.

O texto de José Guilherme Magnani ("Quando o campo é a cidade: fazendo antropologia na metrópole") delimita as linhas programáticas que norteiam a obra. Os antropólogos após constituírem suas teorias, conceitos e métodos em sociedades observadas na escala da aldeia, defrontaram-se com o problema de abordar agrupamentos humanos situados em sociedades complexas, marcadas por uma história de longa duração, por transformações aceleradas em seus sistemas simbólicos e estilos de vida e pela onipresença da cidade, como o locus onde enraíza sua memória e experiências coletivas. Diante disso, intensificou-se a preocupação em dialogar com a produção sociológica clássica e moderna a respeito da cidade, em que os clássicos problemas religião e secularização, tradicional e moderno, comunidade e sociedade, rural e urbano, indivíduo e sociedade, passam a ser enfocados à luz do grande laboratório sociocultural representado pelas metrópoles no século XX, desde os trabalhos seminais da Escola de Chicago. Assim, uma rápida revisão do trajeto histórico que levou as ciências sociais a tomarem o ambiente urbano como objeto de reflexão conduz o percurso de reflexão a uma justificação do objeto de pesquisa, passando por uma leitura crítica da antropologia urbana em São Paulo até os anos 80. Tida por Magnani como fragmentária e incapaz de independizar-se da órbita teórico-metodológica dos estudos de índios, minorias étnicas e regionais, religiões e famílias, a antropologia urbana em São Paulo não chegou a constituir um campo próprio de estudos que levasse a sério as apropriações múltiplas do espaço urbano pelos moradores, em suas dimensões de lazer, trabalho, festa, crenças, etc. Só a partir dos anos 80 este quadro sofre uma mutação significativa, na qual se insere o próprio trabalho de Magnani, Festa no Pedaço.

O corpus teórico proposto a seguir ancora-se em alguns conceitos básicos, mais resultantes do clássico procedimento antropológico de alçar pacientemente certas noções nativas em categorias analíticas do que de uma conceitualização abstrata arbitrariamente imposta ao material. A reflexão do antropólogo freqüentemente extrai mais proveito da dinâmica do trabalho etnográfico, colada ao campo, que de sofisticadas e distantes problematizações, que muitas vezes se mostram de alto risco para dar conta de um fato local. A partir de noção de pedaço, termo nativo sabiamente designador de um segmento concreto da vida urbana, territorialmente circunscrito e marcador de um conhecimento de redes de parentesco e/ ou amizade que dão a tônica das práticas de sociabilidade que formam um certo tipo de identidade local, Magnani propõe novas noções para a antropologia urbana, a fim de elaborar experiências e dinâmicas culturais não capturáveis a partir daquela chave analítica, como, por exemplo, as práticas de lazer em zonas centrais da cidade, a imposição de significados ao ambiente urbano pelas torcidas de futebol, etc. Assim, ao lado do pedaço, as manchas, trajetos e circuitos surgem como ferramentas de reflexão e pesquisa para dar conta das múltiplas apropriações diferenciais do espaço urbano, em que os lugares e caminhos da cidade só fazem sentido se referidos a práticas culturais específicas dos grupos, como o lazer e a religião, dominantes ao longo da coletânea. A lógica pedestre de circulação pelos espaços da cidade partiu do desafio proposto aos jovens pesquisadores de trabalharem segundo o esquema cenários, atores e regras, evidenciando a preeminência de uma preocupação metodológica na feitura das pesquisas.

O artigo de Lilian de Lucca Torres "Programa de paulista: lazer no Bexiga e na Avenida Paulista com a Rua da Consolação" é uma aplicação etnográfica que testa as proposições de Magnani à luz da dimensão do lazer, sem descurar da memória coletiva dos lugares tratados. Afinal as sociabilidades não brotam do vazio mas surgem em espaços já enraizados na memória da cidade, como é o caso do Bexiga, tradicional bairro de imigração e boêmia de São Paulo, tão bem evocado nas poesias referidas ao longo do texto. Aliás, como em outros textos, está bem inserido este contraponto da poesia, enquanto metalinguagem indicativa de algo mais abrangente que a própria descrição etnográfica, mostrando a riqueza de recursos de que se valem os pesquisadores para evocar o universo pesquisado.

Em "As esquinas sagradas: o candomblé e o uso religioso da cidade", Vagner Gonçalves da Silva nos brinda com uma bela e original análise da dinâmica cultural de adaptação do candomblé à cidade de São Paulo, tão rarefeita em espaços naturais sacralizáveis perante as demandas tradicionais do povo-de-santo. Nele se desvenda etnograficamente a grande criatividade do candomblé para manter a lógica de seu sistema cosmológico e ritual num meio aparentemente infenso à sobrevivência desta religiosidade, podendo ser considerado um dos pontos altos do livro.

A capacidade que os torcedores de futebol têm de entrelaçar diversas dimensões, do pedaço ao time, e deste à cidade, numa vivência lúdica e dramática, atualizando um ethos particular que envolve o amoldamento dos trajetos e equipamentos urbanos ao império de suas significações apaixonadas e efervescentes, com grande riqueza e pertinência de detalhes, é o tema da etnografia de Luiz Henrique de Toledo, "A cidade das torcidas: representações do espaço urbano entre torcedores e torcidas de futebol na cidade de São Paulo". Os vários planos envolvidos são abordados, desde a transformação da cidade em dias de jogo, com suas implicações em termos de segurança pública (relacionada à imagem oficial dos perigos representados pelos torcedores) até as práticas e representações, bem como a ordenação e hierarquização dos torcedores dentro dos estádios.

A cinefilia acompanhou as tendências de desenvolvimento urbano em São Paulo, associada a um estilo de vida de classe média cuja memória e perfis atuais são pesquisados por Heloísa Buarque de Almeida no artigo "Janela para o mundo: representações do público sobre o circuito de cinema de São Paulo". A memória dos principais cinemas, linha de programação e tipos de público são abordados neste texto, que destaca a Mostra Internacional de Cinema como o locus atual para observar o estilo de vida dos cinéfilos urbanos.

"O retrato do Nation Disco Club: os neodândis do final dos anos 80", de Marinês Antunes Calil, em que pese o pendor literário e memorialista da autora, com seus inúmeros detalhes a respeito de um night club paulistano, é o texto em que os problemas de sobreposição dos gostos e estilo de vida da própria autora mais interferem na construção da pesquisa. Seu resultado é por demais impressionista, em detrimento de um olhar antropologicamente instruído, e talvez merecesse ser refeito com maior distanciamento. Mas o texto mantém o interesse enquanto um colorido depoimento a respeito dos hábitos noturnos de um segmento jovem de classe média paulistana.

As práticas dos nordestinos em São Paulo, suas estratégias de reafirmação de laços sociais, construção de identidade e relacionamento com redes familiares de origem é o tema escolhido por Rosani Cristina Rigamonte em "Severinos, Januárias e Raimundos: notas de uma pesquisa sobre os migrantes nordestinos na cidade de São Paulo". Do "Forró do Severino" ao ritual da espera de cartas trazidas por caminhões numa praça (mais confiável para os pesquisados do que o correio normal), vão sendo analisados os traços da presença dos nordestinos e sua adaptação ao ambiente urbano de São Paulo.

O último artigo etnográfico do livro, "Cidade em festa: o povo-de-santo (e outros povos) comemora em de São Paulo", de Rita de Cássia Amaral, conjuga maestria etnográfica com fôlego teórico, tomando o exemplo das festas das religiões afro-brasileiras para refletir sobre o próprio significado da festa na sociedade brasileira. As descrições etnográficas são extremamente acuradas conseguindo capturar com rara felicidade aspectos formais e informais da preparação e realização das festas, tão importantes que são para o candomblé. Também as ressonâncias da religiosidade afro-brasileira em outros setores, como na música popular, no rádio e no cinema são evocados dentro do texto, um dos melhores momentos da coletânea.

O posfácio de Maria Lúcia Montes procura refletir teoricamente a respeito das etnografias anteriores, amarrando as significações mais gerais das análises, de um ponto de vista antropológico. Ali retornam os conceitos desenvolvidos ao longo do livro, como o pedaço, as manchas, os trajetos e os circuitos, coabitando com referências temáticas como a questão da Nação e do poder político, e teóricas, como a indicação da possibilidade de uma antropologia da cidade transcendendo os limites auto-impostos de uma antropologia na cidade, como pretende o atual estado da arte da antropologia urbana.

Concluindo, a coletânea Na Metrópole nos mostra que a antropologia urbana brasileira, antes de ser um terreno esgotado, está bem viva e atuante, estimulando reflexões e trabalhos, com as marcas características de um campo de estudos em pleno amadurecimento, alimentando-se da incessante mutação do pólo urbano da sociedade brasileira.