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Revista de Antropologia

Print version ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. vol.48 no.2 São Paulo July/Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012005000200006 

ARTIGOS

 

O Museu Paulista e a história da antropologia no Brasil entre 1946 e 19561

 

 

Mariana Françozo

Doutoranda do Programa de Doutorado em Ciências Sociais – Unicamp

 

 


RESUMO

O presente artigo trata da história do Museu Paulista entre 1946 e 1956, com o objetivo de entender o lugar dessa instituição no campo da antropologia durante aquela década. Para isso, investigam-se as atividades desempenhadas pelos funcionários desse museu, bem como sua ligação com os outros centros de pesquisa em ciências sociais em São Paulo. Os dados levam à conclusão de que os antropólogos alemães tiveram, na primeira metade do século XX, papel fundamental no desenvolvimento e na consolidação das ciências sociais no Brasil.

Palavras-chave: Museu Paulista, história da antropologia, Herbert Baldus, história das ciências sociais no Brasil.


ABSTRACT

This paper deals with the history of the Museu Paulista between 1946 and 1956. Its aim is to understand the role of this institution in the field of anthropology during that decade. In order to do so, we investigate the activities pursued by its employees, as well as the relations between these anthropologist and the social sciences research centers in São Paulo. The conclusion shows that, in the first half of the 20th century, German anthropologists had a very significant role in the development and consolidation of the social sciences in Brazil.

Key-words: Museu Paulista, History of Anthropology, Herbert Baldus, History of the Social Sciences in Brazil.


 

 

Entre os anos de 1946 e 1956, o historiador Sérgio Buarque de Holanda foi diretor do Museu Paulista. Entre 1952 e 1954, porém, afastou-se do cargo para lecionar e pesquisar na Itália, deixando o etnólogo alemão Herbert Baldus como diretor-substituto da instituição. Em maio de 1954, Holanda recebeu uma carta do amigo Paulo Mendes de Almeida, na qual este comentava "O Baldus, ao que tenho sabido, está ficando aloprado com os negócios do nosso pobre esquecido museu" e, brincando com o sotaque do alemão, completava "[Baldus diz] Em boa horrra Sérrrgio caiu forrra"2.

As duas afirmações, se tomadas sozinhas, deixam uma impressão bastante negativa sobre a relevância e as atividades do Museu Paulista no período. O leitor poderia ser levado a crer que essa instituição não é de muito interesse nem oferece material de grande relevância para a análise da história da antropologia no Brasil. Entretanto, por trás dessas frases, há indícios de que tal suspeita talvez não se sustente: em primeiro lugar, se Herbert Baldus estava "ficando aloprado" com os negócios do museu, era porque de fato havia "negócios", isto é, o museu tinha uma série de atividades a serem coordenadas e organizadas – e estas eram provavelmente tantas, ou tão complexas, que deixavam Baldus "aloprado". Além disso, se Sérgio "caiu fora" e Baldus ficou em seu lugar, surge a pergunta: o que teria levado o alemão a aceitar assumir o cargo de direção de um "pobre esquecido museu"?

Ao contrário do que seria possível suspeitar, caso as afirmações do primeiro parágrafo fossem tomadas por si sós, fora de contexto, o Museu Paulista teve um lugar específico no campo das ciências em São Paulo, ao lado de duas outras instituições nas quais se ensinavam e pesquisavam sociologia, antropologia e política a partir dos anos 1930: a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e a Escola Livre de Sociologia e Política (doravante, ELSP). Para compreender o lugar ocupado pelo museu nesse contexto, e até mesmo para bem situar as atividades lá desenvolvidas no decênio que correu entre 1946 e 1956, é preciso um olhar que atente tanto para os projetos e os antropólogos que ali atuavam quanto para as associações e as trocas feitas entre o museu e outras instituições por meio do trabalho de seus pesquisadores.

Com efeito, entender as alianças e os conflitos entre intelectuais em um determinado período é também uma maneira de compreender como foram forjados seus temas e problemas de pesquisa, bem como suas opções interpretativas e metodológicas. Isto, por sua vez, pode ser feito por meio do estudo de uma instituição. Como afirma George Stocking Jr., "uma maneira frutífera de apreender os processos e dinâmicas da relação das idéias com seu contexto mais amplo pode ser através do estudo de contextos institucionais" (1968, p. 271).

Assim, neste artigo, procurarei situar o Museu Paulista no campo mais amplo das ciências sociais em São Paulo para entender o papel dessa instituição nesse mesmo campo. Para isso, começarei a análise traçando a história do museu até a reforma de 1946 e, em seguida, buscarei compreender as conseqüências que essa reforma trouxe para o lugar e o legado do Museu Paulista em face de seus pares institucionais em São Paulo3.

Também conhecido como Museu do Ipiranga, o Museu Paulista foi criado com a finalidade de ser um local privilegiado para o estudo da história natural da América do Sul. Era, portanto, um museu de ciências naturais. O prédio que o sedia foi construído entre 1885 e 1890, mas o museu propriamente dito foi criado com a aquisição de coleções de história natural e de objetos indígenas em 1893 e, dois anos depois, aberto ao público (Schwarcz, 1993, p. 79). Seu perfil original era condizente com as concepções das ciências do final do século XIX, e a instituição se apresentava como um museu de história natural de caráter enciclopédico: suas coleções, que versavam sobre história zoológica do reino animal e história natural do homem, eram compostas de peças utilizadas como evidências dos estágios evolutivos e regidas por premissas e normas científicas (Meneses, 1994, p. 574).

Seu primeiro diretor foi o alemão Hermann von Ihering (1850-1930), médico e naturalista que chegou ao Brasil em 1880 e residiu inicialmente no Rio Grande do Sul, tendo sido, em seguida, contratado como pesquisador-viajante do Museu Nacional (RJ). Após essa experiência museológica na então Capital Federal, assumiu a direção do Museu Paulista já no ano de sua fundação. Tinha grande interesse em zoologia, sendo os moluscos sua especialidade. Ao assumir a diretoria do museu, procurou expandir sua coleção e torná-lo de fato um museu sul-americano especializado em ciências naturais, cujas coleções deveriam ser compostas de peças coletadas em diversas regiões do continente e analisadas segundo os padrões europeus da época (Lopes, 1997, p. 270). A intenção de Von Ihering era transformar o Museu Paulista numa instituição nos moldes e no nível dos museus europeus, para que pudesse trabalhar lado a lado com eles. Como ficará claro a seguir, essa intenção não foi exclusiva desse diretor ao longo da história do museu.

Em 1895, Von Ihering criou a Revista do Museu Paulista. Os textos nela apresentados tratavam de temas tão variados como história do Brasil, arqueologia, botânica, zoologia e paleontologia. Aos poucos ela passou a publicar artigos voltados para apenas duas áreas do conhecimento, especializando-se em botânica e zoologia e, assim, refletindo os interesses do diretor (Schwarcz, 1993, p. 79-80). Por motivos de cunho político, incluindo sua participação num tenso debate sobre o extermínio dos índios4, Von Ihering deixou o Brasil em direção à Alemanha no final do ano de 1915.

Em 1916, Affonso d'Escragnolle Taunay (1876-1958) assumiu a diretoria do Museu Paulista. Filho de Alfredo d'Escragnolle Taunay e Cristina Teixeira Leite Taunay – respectivamente, visconde e viscondessa de Taunay –, formou-se engenheiro civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1900 e foi professor na Escola Politécnica de São Paulo na primeira década do século XX. Interessado e especialista que era em estudos de história, especialmente do bandeirismo paulista, foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto Histórico de São Paulo. Sua entrada no Museu Paulista, conseqüentemente, trouxe grandes mudanças para a instituição.

O novo diretor criou as seções de história nacional e de etnografia, antes inexistentes no museu, e as coleções relacionadas a esses temas foram aumentadas. Em 1922, lançou o periódico Anais do Museu Paulista, publicação centrada em temas de história nacional, que, para Taunay, era compreendida de uma perspectiva notadamente paulista.

Como aponta Ulpiano Meneses (1994, p. 576-77), a mitologia do bandeirante-herói foi em parte forjada no Museu Paulista. Outra instituição central na formação dessa historiografia paulista foi o Instituto Histórico de São Paulo, do qual Taunay também era membro. De acordo com Lilia Schwarcz, "São Paulo, que na época da formação do instituto [última década do século XIX] vivia um momento de pujança política e econômica, atribuía ao IHGSP a tarefa de restituir ao Estado símbolos de 'cultura e civilização', até então concentrados na corte" (1993, p. 127, acréscimo meu). Assim, durante a direção de Affonso Taunay, a seção de história do museu serviu como espaço privilegiado de estudos da história paulista, tida como história nacional5. O historiador abria, desse modo, uma nova fase dos estudos do museu, acentuada pelas saídas das seções de botânica e zoologia, respectivamente, em 1927 e 19396. Por ocasião dessas saídas, a publicação da Revista do Museu Paulista foi temporariamente suspensa.

Uma segunda e importante fase de mudanças no Museu Paulista viria em 19467. Com essa reforma, o historiador Sérgio Buarque de Holanda passou a ser o diretor do museu e, como tal, mudou o rumo das investigações feitas ali, do mesmo modo como suas obras do período propuseram um novo tipo de interpretação – menos idealizada, pode-se dizer – do processo de colonização do interior da América Portuguesa8. O diretor criou a seção de etnologia, fez duas novas contratações e retomou a publicação da Revista do Museu Paulista. Essas mudanças, que agora serão examinadas com mais detalhe, viriam a marcar o novo perfil daquela instituição, bem como acentuar sua atuação no campo da antropologia.

Tendo começado a trabalhar no museu em abril de 1946, em setembro daquele mesmo ano, Sérgio Buarque indicou ao secretário da Educação do estado de São Paulo, Plínio Caiado de Castro, a contratação de dois funcionários para a recém-criada seção de etnologia do Museu Paulista. Esses funcionários eram os etnólogos Herbert Baldus (1899-1970) e Harald Schultz (1909-1965).

Nascido na cidade de Wiesbaden, Alemanha, Herbert Baldus teve uma trajetória singular e de grande relevância para a antropologia no Brasil9. Durante seus anos de juventude, fez parte do Corpo Real Prussiano de Cadetes e lutou na Primeira Guerra Mundial. Sua educação militar foi responsável pela rígida disciplina e pelo gosto pelo treinamento físico que marcaram sua personalidade, inclusive nos anos em que viveu no Brasil. Sua primeira passagem pela América Latina ocorreu entre 1921 e 1928, tendo ido primeiramente à Argentina e, em seguida, se fixado em São Paulo. As motivações dessa primeira viagem estavam relacionadas a seu interesse pelo estudo dos grupos indígenas sul-americanos. Em 1929, retornou à Alemanha e cursou o doutorado em filosofia na Universidade de Berlim, oportunidade em que também estudou etnologia com Richard Thurnwald (1869-1954). Permaneceu naquele país até 1933. Por ocasião da subida dos nazistas ao poder, Baldus retornou definitivamente ao Brasil.

De acordo com o próprio etnólogo, Affonso Taunay, quando diretor do Museu Paulista, já havia manifestado interesse em contratá-lo para arrumar as coleções do museu, mas "falta de verba e outros obstáculos impediram tal projeto" (Baldus, 1948, p. 305). De qualquer modo, sabe-se que, em sua primeira estadia brasileira, Baldus "gravitou em torno do Museu Paulista" (Passador, 2002, p. 44), publicando alguns artigos na revista da instituição e pesquisando o material bibliográfico lá disponível. Sua efetiva contratação como técnico do museu, porém, só viria em 1946, por meio de Sérgio Buarque de Holanda10.

Naquele período, a coleção de etnografia da instituição encontrava-se abandonada, suas peças não organizadas ou catalogadas, e algumas delas já estavam inutilizadas. Assim, fazia-se necessária a contratação de um funcionário para a organização de tal coleção. Essa era uma das incumbências de Herbert Baldus, que também incluíam a busca de peças para o aumento da coleção e o preparo do material de colaboração a ser publicado na Revista do Museu Paulista. Por isso, ao se reportar ao secretário da Educação do estado de São Paulo, Sérgio Buarque escreveu:

Não creio que alguém esteja em melhores condições para se encarregar da organização do referido material do que o Prof. Baldus que se tem distinguido por numerosas publicações sobre assuntos de Etnografia americana e brasileira e por trabalho de campo em São Paulo, Paraná, Mato Grosso, região do Chaco e Paraguai oriental [...]. Como professor catedrático da Escola Livre de Sociologia e Política [...] desde 1939, tem contribuído largamente para a formação de estudiosos desse assunto11.

Um dos alunos de Baldus na ELSP foi precisamente Harald Schultz. Sobre ele, Sérgio Buarque afirmou:

Na qualidade de organizador e chefe do serviço de documentação fotocinematográfica e sonora do Serviço de Proteção aos Índios sob orientação do general Cândido Rondon, teve oportunidade de travar conhecimento com os problemas etnográficos brasileiros, participando de várias expedições a tribos e agrupamentos indígenas do Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul e noroeste de São Paulo12.

Harald Schultz, nascido em Porto Alegre, começou sua carreira como fotógrafo. Enquanto trabalhava no SPI, foi treinado no trabalho de campo por Curt Nimuendaju, tendo depois completado sua formação etnológica com Baldus, na ELSP, em 1947. Graças a intimidade e interesse pela atividade fotográfica, deixou após sua morte uma coleção de cerca de 12 mil negativos e 10 mil slides registrando 14 grupos indígenas no Brasil, além de 50 filmes etnográficos (Chiara, 1991, p. 623). Sua principal atividade foi a coleção e disseminação de material primário na área de etnologia.

Detentor de tais qualidades e competências, Schultz foi indicado para a função de assistente de etnografia para trabalhar ao lado de Herbert Baldus no museu. Seu contrato, de início, deveria valer apenas até o final de 1946. Contudo, esse etnólogo continuou trabalhando no Museu Paulista até seu falecimento em 1965. Em 1947, Herbert Baldus foi nomeado chefe da seção de etnologia pelo governador Adhemar de Barros.

Além da criação da seção de etnologia e das contratações de Baldus e Schultz, mais uma iniciativa de Sérgio Buarque de Holanda foi importante no sentido de incentivar as pesquisas etnológicas feitas no Museu Paulista. Em novembro de 1946, esse diretor manifestou ao secretário da Educação de São Paulo a intenção de retomar a publicação da Revista do Museu Paulista. Lembrando que ela havia sido extinta em 1938, afirma que desde então diversos institutos científicos, nacionais e estrangeiros tinham solicitado a retomada de sua publicação, o que atestaria sua importância. Dada a suficiência de verbas para esse fim, Sérgio Buarque indica que já teria preparado um primeiro número para o relançamento:

Assim tenho em vista contribuições obtidas pelo Prof. Herbert Baldus, técnico de Etnografia do Museu, relativas a assuntos etnológicos. Estão neste caso a importante monografia acerca da organização social dos tupinambá, de autoria do Prof. Florestan Fernandes, e também a tradução feita pelo Dr. Egon Schaden, da obra clássica de Paul Ehrenreich sobre a etnografia brasileira, que pela primeira vez será publicada em nossa língua13.

A proposta foi aprovada e a nova série da revista começou a ser publicada a partir de 1947, com um perfil muito diferente daquele das revistas publicadas até 1938. Até então, os artigos impressos tratavam majoritariamente de assuntos referentes às ciências naturais, especialmente zoologia. A partir de 1947, a publicação passou a veicular quase exclusivamente textos de antropologia. Analisando o conteúdo da revista nesses dois períodos, isto é, o primeiro de 1895 a 1938, e o segundo de 1947 a 1956, chega-se a dados esclarecedores: no primeiro período, foram publicados no total 228 artigos, dos quais 65% sobre zoologia, 10% sobre antropologia, 8% são biografias, 4% sobre lingüística, 4% sobre geologia, 1% sobre botânica e 1% sobre arqueologia, sendo 6% sobre outros assuntos. No segundo período, dos 74 artigos publicados, 74% são sobre antropologia, 8% são biografias, 6% sobre arqueologia, 4% sobre história, 1% sobre lingüística e 7% tratam de outros assuntos.

Os artigos de antropologia publicados pela revista formavam um conjunto bem ilustrativo do que se considerava o domínio dessa ciência naquela época. Em boa parte, eram artigos voltados para a etnologia indígena, escritos por etnólogos alemães e traduzidos para o português por Herbert Baldus ou Egon Schaden. Nesse grupo de artigos, figuram quatro textos de Max Schmidt (volume 1, nova série, 1947), a tradução da segunda parte de Vom Roraima zum Orinoco, de Theodor Koch-Grünberg (volume 7, n.s., 1953), o artigo "Contribuições para a Etnologia do Brasil", de Paul Ehrenreich (volume 2, n.s., 1948), e "Máscaras grandes do alto Xingu", de Fritz Krause (volume 12, n.s., 1960). No domínio da etnologia indígena, também eram veiculados artigos do próprio Herbert Baldus, de Harald Schultz, de Alfred Métraux, de Curt Nimuendaju, de Darcy Ribeiro e de Eduardo Galvão.

Essa revista tinha uma inclinação maior para os estudos relacionados a grupos indígenas. Esse fato não é de menor importância. Como afirma Mariza Corrêa, "os estudos etnológicos ocupam [...] um lugar central e definidor do que era a antropologia como disciplina entre os anos 1950 e o final dos anos 1970" (Corrêa, 2003b, p. 372). Também na Revista de Antropologia, que começou a ser editada em 1953, os artigos de etnologia ocupavam lugar de destaque no período14.

Além da etnologia, contudo, os estudos de comunidade, importante vertente da antropologia do período, também tinham lugar na revista. Como exemplo, podemos citar, de Donald Pierson e Carlos B. Teixeira, "Survey de Pecinguaba" (volume 1, n.s., 1947), de Charles Wagley e Thales de Azevedo, "Sobre métodos de campo no estudo de comunidade" (volume 4, n.s., 1950), e uma série de resenhas de obras dessa vertente, como aquela escrita por Gioconda Mussolini sobre o livro Cunha (volume 3, n.s., 1949), que fora publicado por Emilio Willems em 1947.

Ainda sobre a Revista do Museu Paulista, vale ressaltar o papel central que desempenhou publicando alguns textos que viriam a se tornar clássicos das ciências sociais no Brasil. De acordo com Luiz Jackson, essa revista "supriu por vezes a carência do mercado editorial de então, publicando vários trabalhos na íntegra" (Jackson, 2003, p. 62). Entre tais trabalhos, vale mencionar "A função social da guerra na sociedade tupinambá", de Florestan Fernandes (1952), e "A moda no século XIX", de Gilda de Mello e Souza (1951).

As mudanças até agora descritas tiveram, evidentemente, um grande impacto no perfil do Museu Paulista. Tendo sido primeiro um museu dedicado à zoologia, depois à zoologia e à história paulista, essa instituição passou, a partir de 1946, a incentivar e a realizar pesquisas nos domínios da antropologia e da arqueologia como suas principais atividades. Os relatórios da seção de etnologia, escritos e publicados por Baldus anualmente, na Revista do Museu, deixam clara essa nova vertente do museu.

No relatório referente ao ano de 1947 – primeiro, portanto, desta nova fase –, o antropólogo alemão registra a inauguração de cinco salas de exposição sobre índios sul-americanos e uma sala de exposição sobre arqueologia sul-americana. Do mesmo modo, relata os resultados de uma viagem de exploração etnográfica que ele e Harald Schultz fizeram naquele ano, a convite do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), entre os karajá no rio Araguaia. Ambos visitaram também uma série de postos indígenas instalados pelo SPI no estado de São Paulo, em uma excursão subvencionada pela Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo15.

As viagens etnográficas não se limitaram ao ano de 1947. Com efeito, em todos os relatórios da Seção de Etnologia entre os anos de 1948 e 1956, pode-se encontrar informações sobre expedições etnográficas feitas pelos funcionários do Museu Paulista, especialmente por Harald Schultz, em diversas regiões do Brasil. Em relatório referente ao ano de 1951, Baldus escreveu que "O Sr. Harald Schultz, pelas viagens realizadas, em 1951, e pelos seus ótimos resultados, tornou-se cada vez mais o orgulho de nossa seção" (Baldus, 1952, p. 532). Vale ressaltar, entretanto, que boa parte desses ótimos resultados se devia ao apoio e à participação de Vilma Chiara, esposa de Schultz, em suas expedições. Baldus fazia questão de reconhecer e agradecer essa participação. Em vários relatórios da Seção de Etnologia, quando relatava as viagens de Schultz, agradecia também a Vilma Chiara por seus préstimos (cf. Baldus, 1952, 1953, 1956).

Esses relatórios revelam que o museu não apenas incentivava e realizava pesquisa etnográfica por meio da atuação de seus funcionários, como também servia de ponto de referência para antropólogos e pesquisadores não diretamente ligados àquela instituição, mas que queriam desenvolver pesquisas antropológicas. Em julho de 1954, por exemplo, o estudante alemão Hans Becher iniciou uma especialização em antropologia, sob supervisão de Herbert Baldus, recebendo seu treinamento etnológico no Museu Paulista – treinamento este que incluiu uma viagem, no ano de 1955, pelo Norte do Brasil, entre os rios Demini e Araçá, que lhe rendeu cerca de 1.100 registros fotográficos, muitas anotações e dois adoecimentos por malária16.

Durante as comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo, em 1954, o Museu Paulista ajudou a organizar e a sediar o 31º Congresso Internacional dos Americanistas. A atuação de Baldus foi fundamental nesse sentido: em 1952, foi como representante do Governo Federal à 30ª edição desse congresso, na Inglaterra, para entregar o convite para que sua próxima edição ocorresse em São Paulo; tendo sido aceito o convite, o alemão se encarregou de comandar a organização do evento na condição de secretário-geral. É importante lembrar que, entre 1953 e 1954, isto é, durante a organização e a realização tanto do congresso como das comemorações do IV Centenário, o diretor do Museu Paulista, Sérgio Buarque de Holanda, encontrava-se afastado do cargo, sendo Herbert Baldus o seu substituto.

A esta altura, parece estar claro que uma das figuras mais importantes no Museu Paulista no período aqui estudado foi Herbert Baldus, tanto na coordenação das atividades de pesquisa da Seção de Etnologia quanto na direção da Revista do Museu Paulista. Como mostra Luiz Henrique Passador (2002), como representante daquela instituição, Baldus participou de vários congressos no Brasil e no exterior e organizou-os, estabelecendo contatos com antropólogos brasileiros e estrangeiros. Desse modo, ele pretendia colocar o museu numa rede de intercâmbio com outros centros de pesquisa em antropologia – e é importante ressaltar sua preferência por instituições e pesquisadores germânicos. Baldus foi o "principal articulador dessa conexão entre o Brasil e os estudiosos germânicos nas décadas de 1930 a 1960 do século passado, principalmente a partir de sua entrada nos quadros do Museu Paulista" (Passador, 2002, p. 100, acréscimos meus).

De fato, entre os anos de 1946 e 1953, esse antropólogo se empenhou em manter contato com etnólogos e diretores de museus europeus e norte-americanos, e estabeleceu com eles relações de intercâmbio acadêmico e institucional. Nesse período, ele trocou mais de 450 cartas com pesquisadores como, entre outros, Richard Thurnwald, do Institut für Soziologie und Ethnologie de Berlim, Franz Casper, do Museum für Völkerkunde de Hamburgo, Fritz Krause, etnólogo que vivia em Leipzig, Alfred Métraux, etnólogo francês, Robert Lowie, etnólogo austríaco radicado nos Estados Unidos, Stig Ryden, diretor do Museu de Etnografia de Goteburgo, e Ema Ness, diretora do Museu Etnográfico de Oslo.17

Em geral, tais cartas contêm agradecimentos pelo envio de publicações ou pedidos dessa ordem, especialmente de exemplares de revistas de antropologia das instituições a que os remetentes e destinatários das cartas pertenciam; avisos de recebimento de publicações; perguntas e respostas pontuais sobre o conteúdo das publicações; comentários sobre congressos internacionais; sugestões bibliográficas; e, especialmente, convites de Baldus para que outros pesquisadores publicassem textos na Revista do Museu Paulista.

Muitos convites surtiram efeito, pois, de fato, pode-se encontrar uma série de artigos desses correspondentes de Baldus em diversos números da nova série da Revista do Museu Paulista. Os nomes que mais comumente aparecem são os de Max Schmidt, Ettore Biocca, Franz Caspar, Fritz Krause e Stig Ryden18. Ademais, em sua Bibliografia crítica da etnologia brasileira (Baldus, 1954), Baldus incorporou os trabalhos de vários desses estudiosos em seu balanço sobre as pesquisas em etnologia do Brasil.

Essas cartas registram também o papel de elo que o antropólogo alemão desempenhava entre seus colegas. Em 1947, Baldus pediu ao editor alemão Karl Hiersemann que lhe enviasse o endereço e informações sobre o antropólogo Fritz Krause. Assim que a resposta chegou, Baldus escreveu a Krause propondo que este enviasse alguns de seus trabalhos, para que fossem traduzidos por Egon Schaden e depois publicados na Revista do Museu Paulista e na Sociologia. De fato, a negociação se concretizou em 1948, e os textos de Krause apareceram na Revista do Museu Paulista nos volumes 6 (Krause, 1952a e 1952b)19 e 12 (Krause, 1960) da nova série20. A parceria entre Schaden e Krause, mediada por Baldus, durou mais algum tempo – no ano de 1950 o segundo enviou de novo alguns textos para Baldus, pedindo que Schaden os traduzisse21.

Em 1949, o editor da Revista do Museu Paulista aceitou participar, com um artigo, de uma coletânea em homenagem a seu antigo professor Richard Thurnwald. Na carta ao editor Gerdt Kutscher, ele afirma ainda que dois de seus colegas também poderiam contribuir com a publicação: Emilio Willems e Egon Schaden22. Apesar da disponibilidade, apenas o antropólogo do Museu Paulista participou da publicação, uma vez que Schaden encontrava-se em pesquisa de campo quando do período de envio do texto ao editor alemão e Willems parece também ter tido problemas com o prazo final para o envio do artigo23. Apesar de serem os editores de três revistas supostamente concorrentes e de estarem ligados aos três principais centros de pesquisa em antropologia de São Paulo, Baldus, Schaden e Willems trabalhavam em parceria e de maneira muito próxima24. Suas atuações institucionais e acadêmicas, ao menos durante o final da década de 1940 e início da de 1950, resultaram antes em divulgação e incentivo do trabalho antropológico do que no acirramento da competição entre os periódicos e as instituições que eles representavam.

Além de veicular convites e assegurar a Baldus o papel de elo entre seus colegas no Brasil e no exterior, algumas cartas contêm um certo tom pessoal e revelam o círculo de relações sociais que ele estabelecera com alguns etnólogos alemães, tanto nos anos de sua formação naquele país quanto nos congressos internacionais que freqüentava. Nesse sentido, uma carta enviada em abril de 1947 por Baldus a seu antigo professor, Richard Thurnwald, mostra a amizade entre os dois: Baldus envia abraços à esposa de Thurnwald, lamenta a distância entre os três e revela sua vontade de voltar ao país de origem: "Minha saudade da Alemanha vale especialmente em relação ao Senhor e à paisagem alemã, e eu gostaria de matar essa saudade, ainda que só provisoriamente, com uma visita. Talvez isso seja possível no próximo ano ou no seguinte. Este ano ainda tenho uma expedição programada e acabei de voltar de uma outra"25. Thurnwald, por sua vez, responde ao amigo sugerindo cautela: "Seria muito bom se o Senhor viesse novamente a Alemanha. Mas dê tempo ao tempo. A passagem por esta Europa fria, cinzenta e brutal lhe será difícil. Aqui falta 'sol' em todos os sentidos"26.

A correspondência recebida pelo etnólogo também demonstra a estima que antropólogos estrangeiros nutriam por ele, bem como a confiança que nele depositavam. As cartas enviadas por Fritz Krause, sempre longas e em tom amigável, são bom exemplo disso. Em novembro de 1952, esse pesquisador de Leipzig escreveu ao amigo Baldus explicando as dificuldades que a política da Alemanha Oriental impunha a seu trabalho como antropólogo: problemas com a permissão de sair do país o teriam impedido de participar do 30º Congresso Internacional de Americanistas, naquele ano, em Cambridge. Krause acrescentou, ainda, um pedido para que Baldus escrevesse uma carta oficial, explicando os motivos que o levavam a enviar, periodicamente, livros pelo correio para o etnólogo de Leipzig, insistindo que o recebimento dos mesmos era fundamental para que Krause pudesse exercer seu ofício de antropólogo. Aparentemente, os pacotes enviados por Baldus pareciam suspeitos aos olhos do correio da Alemanha Oriental, e os livros nunca chegavam27.

Além desse aspecto prático e diretamente relacionado ao trabalho, as cartas de Baldus indicam também suas relações de amizade com alguns dos antropólogos com quem se correspondia. Nesse sentido, elas revelam uma atividade específica e muito interessante de Baldus: nos anos imediatamente posteriores ao final da Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha estava dividida e parte dela se encontrava sob domínio soviético, o antropólogo alemão enviava pacotes a seus conterrâneos contendo variados artigos de subsistência, como café, chocolate, açúcar, frutas secas, meias, sapatos e outros produtos. Esses pacotes, que Baldus chamava de "Lebensmittelpacketten" (pacotes de gêneros de primeira necessidade), foram enviados a Richard Thurnwald, Fritz Krause, Karl Hiersemann e outros28.

Baldus pedia que esses correspondentes lhe dissessem do que precisavam, pois ele estava "apto a ajudar em todos os sentidos"29. Tinha uma postura pacifista e uma forte oposição ao Nacional-Socialismo alemão, bem como à Segunda Guerra Mundial, muito bem expressas nessa atividade de ajuda humanitária e nas cartas que escrevia. Apesar de não haver provas documentais nesse sentido (Passador, 2002, p. 41), a alegação de que teria se associado ao grupo de espartaquistas, liderado por Rosa de Luxemburgo, após o fim da Primeira Guerra Mundial, pode explicar em parte essas posturas e atitudes.

Fica assim claro que Herbert Baldus teve central relevância no desenvolvimento não só da seção de etnologia do Museu Paulista, mas também no da antropologia brasileira como um todo. Por meio de sua atuação nesse museu, ele ajudou a colocar a antropologia brasileira em contato com as instituições e os pesquisadores estrangeiros dessa disciplina. Em outras palavras, Baldus teve um papel de "articulador das relações entre a antropologia brasileira e os demais centros produtores na Europa e Américas" (id., p. 99).

Essa articulação também se dava no âmbito da antropologia produzida no Brasil, mais especificamente em São Paulo, especialmente por meio das ligações de Baldus com Schaden, Willems e Roger Bastide. Durante os decênios de 1940 e 1950, as então recém-criadas Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (1934) e a Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (1933) figuravam como os dois centros mais atuantes na área de produção de pesquisas e teorias em antropologia. Ao lado dessas duas instituições, estava o Museu Paulista, com as atividades já descritas.

É preciso ter em mente que esses três centros de pesquisa e ensino, apesar de terem surgido com objetivos diferentes, trabalhavam de modo similar no que diz respeito a seus temas e agendas de pesquisa30. O clima não era exatamente amistoso, havia competição entre as escolas31. Entretanto, uma vez que alguns pesquisadores – como Baldus e Emilio Willems – chegaram a trabalhar nas duas instituições ao mesmo tempo, havia entre elas uma conexão bastante próxima. De acordo com Fernanda Peixoto e Júlio Simões:

[...] diferenças à parte, o fato é que as duas instituições foram mais parceiras que oponentes, colaborando na formação de pesquisadores, trocando alunos, participando de projetos comuns e das mesmas revistas. [...] Não se trata de negar as diferenças entre feitios institucionais e orientações metodológicas, como dito, mas de pensar [...] como há um repertório de questões e preocupações partilhado por todos aqueles envolvidos com a pesquisa antropológica e sociológica em São Paulo nos anos de 1950. (Peixoto & Simões, 2003, p. 388)

O exemplo mais vigoroso e bem-sucedido dessa "troca de alunos" e da conexão entre as duas escolas é, sem dúvida, Florestan Fernandes (1920-1995)32. Tendo concluído o curso de ciências sociais na USP em 1944, foi logo convidado a fazer parte do corpo docente da faculdade, aceitando o cargo de segundo professor assistente da cadeira de Sociologia II, cujo titular era Fernando de Azevedo (Arruda & Garcia, 2003, p. 65). Ao mesmo tempo, cursava a pós-graduação na ELSP, onde defendeu, sob orientação de ninguém menos que Herbert Baldus, a dissertação de mestrado A organização social dos tupinambá (Fernandes, 1949). Em 1951, defendeu a tese de doutoramento A função social da guerra na sociedade tupinambá (Fernandes, 1952 e 1970) para concorrer à cadeira de Sociologia II da USP.

É importante que se preste atenção à dedicatória desta segunda obra, oficialmente orientada por Fernando de Azevedo. Ela foi registrada por Florestan nos seguintes termos: "A Herbert Baldus e Roger Bastide, cuja influência foi tão importante em minha formação etnológica e sociológica, este trabalho é dedicado como testemunho de amizade e admiração" (Fernandes, 1970, p. 5)33. Daí se depreende quão próximas e pessoais eram as relações entre os antropólogos e sociólogos na São Paulo das décadas de 1940 e 1950, e como as pesquisas em sociologia e antropologia eram então completamente interligadas, no mesmo molde das ciências sociais em outras partes do mundo. As já mencionadas publicações, na Revista do Museu Paulista, das teses de Florestan Fernandes e de Gilda de Mello e Souza confirmam essa circulação dos pesquisadores e de seus trabalhos entre as instituições citadas.

É possível afirmar, assim, que, além de ter sido o articulador da antropologia brasileira no cenário da antropologia internacional, Herbert Baldus foi também o elo entre o Museu Paulista e os dois outros centros de pesquisa e formação em antropologia em São Paulo nas décadas de 1940 e 1950. Como chefe de seção e depois como diretor do museu, o antropólogo imprimiu, nos locais em que trabalhou, a marca do que Peixoto e Simões (2003, p. 388) chamaram de "repertório partilhado" entre os praticantes da antropologia e da sociologia no período.

Toda essa análise da história do Museu Paulista leva à seguinte conclusão quanto ao papel desempenhado por essa instituição no decênio aqui estudado: longe de ser um "pobre esquecido museu", o Museu Paulista foi na verdade um importante centro de pesquisas e divulgação da antropologia no Brasil. Além de conduzir explorações etnográficas em diversas regiões do país e de montar exposições sobre as culturas indígenas sul-americanas, a direção do museu também se empenhou em produzir um periódico especializado na disciplina antropológica, que veiculava artigos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros e fazia circular o que havia então de mais moderno em pesquisa etnológica. Como vimos, boa parte do sucesso desses projetos se deveu ao trabalho pessoal de Herbert Baldus.

Tal conclusão, por sua vez, permite levantar uma hipótese, ou melhor, fazer um convite a novas perguntas. Estando já claro o fundamental trabalho de Herbert Baldus para o desenvolvimento do Museu Paulista, bem como o de Egon Schaden e o de Emilio Willems na formação dos centros de pesquisa antropológica em São Paulo, cabe perguntar qual a relação entre a antropologia praticada e produzida no Brasil e as teorias e as correntes antropológicas dos países de língua germânica com as quais aqueles pensadores mantinham estreito contato. Em artigo sobre a ornitóloga alemã Emilia Snethlage, Mariza Corrêa aponta uma idéia interessante nesse sentido: no caso da antropologia brasileira, a paixão pelo detalhe etnográfico, tão cara à disciplina, pode ser um legado dos naturalistas que passaram pelos museus do Brasil entre o fim do século XIX e início do XX (Corrêa, 2003a, p. 105). Sabe-se que boa parte desses naturalistas era de origem alemã – seria este, então, um legado germânico34?

Dito de outra forma, se a história do Museu Paulista nos revela que havia uma forte ligação entre os antropólogos da Alemanha e do Brasil, vale a pena investigar não só o vínculo entre as antropologias dos dois países, mas também o modo com que outros pesquisadores alemães – antropólogos, sociólogos, etnólogos, naturalistas etc. – deixaram sua marca e se fizeram presentes no período de desenvolvimento inicial e de institucionalização das ciências humanas brasileiras, especialmente durante a primeira metade do século XX. Na esteira dos pioneiros trabalhos de Baldus (1954 e 1968) e Schaden (1956), e dos mais recentes de Thekla Hartmann (1977) e Vera P. Coelho (1993), prova-se bastante rico e promissor o estudo da presença da tradição germânica na antropologia do Brasil.

 

Notas

1 Este texto destaca parte dos resultados de minha pesquisa de mestrado desenvolvida no Programa de Mestrado em Antropologia Social do IFCH-Unicamp, com o auxílio de bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Agradeço a John Monteiro, meu orientador, pelas discussões e pela orientação do trabalho, a Heloisa Pontes, argüidora em minha banca de qualificação, a Mariza Corrêa, argüidora na qualificação e na defesa, e a Pedro M. Monteiro, membro da banca de defesa, pelas preciosas críticas e sugestões formuladas. Uma primeira versão do presente artigo foi apresentada ao fórum de pesquisa "Arquivos e Histórias da Antropologia no Brasil", na XXIV Reunião Brasileira de Antropologia, em Olinda-PE, em junho de 2004.

2 Carta de Paulo Mendes de Almeida a Sérgio Buarque de Holanda, de 13 de maio de 1954. Siarq: Cp 153.

3 Para uma descrição da história das coleções textuais e iconográficas do museu bem como de atividades relacionadas até 2002, conferir Makino et. al. (2002-2003).

4 Von Ihering fora acusado, em 1908, de ter proposto o extermínio dos índios num artigo de jornal. Para uma discussão desse episódio, cf. Lima (1989).

5 Sobre a atuação de Affonso Taunay como historiador e diretor do Museu Paulista, conferir Oliveira (1994).

6 A seção de botânica passou a integrar outro organismo, e a de zoologia se tornou o Departamento de Zoologia da Secretaria de Agricultura de São Paulo.

7 Duas importantes mudanças posteriores foram a incorporação do Museu à USP (em 1963) e o desmembramento do acervo etnológico, incorporado ao Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (em 1989).

8 Referimo-nos aqui aos livros Monções, de 1945, e Caminhos e fronteiras, de 1957. Conferir, respectivamente, Holanda (1990 e 2001). Para uma análise detalhada dessas duas obras, bem como de sua relação com a etnologia alemã, ver Françozo (2004).

9 Sobre a vida e a trajetória de Herbert Baldus, cf. Passador (2002).

10 Não se sabe ao certo quando e sob quais circunstâncias Baldus e Sérgio Buarque se conheceram. Uma hipótese plausível, contudo, é que eles tenham se encontrado pela primeira vez na Universidade de Berlim, onde ambos estudaram entre os anos de 1929 e 1930.

11 Carta de Sérgio Buarque de Holanda ao secretário da Educação do estado de São Paulo, Plinio Caiado de Castro, de 26 de setembro de 1946. AMP:P200.

12 Carta de Sérgio Buarque de Holanda ao secretário da Educação do estado de São Paulo, Plinio Caiado de Castro, de 27 de setembro de 1946. AMP:P200.

13 Carta de Sérgio Buarque de Holanda ao secretário da Educação do estado de São Paulo, Plinio Caiado de Castro, de 13 de novembro de 1946. AMP:P200.

14 Para uma análise comparativa dessas duas revistas, assim como dos periódicos Sociologia, Revista do Arquivo Municipal, Anhembi e Revista Brasiliense, conferir Jackson (2003).

15 A colaboração entre o Museu Paulista e a Escola Livre de Sociologia e Política pode ser em parte explicada pela figura de Herbert Baldus. O antropólogo trabalhou, durante as décadas de 1940 e 1950, nas duas instituições: no Museu, como chefe da Seção de Etnologia e diretor da revista, na ELSP, como professor de algumas disciplinas, como Índios do Brasil, Aculturação e Problemas de Mudança Cultural. [Histórico das disciplinas cursadas por Sérgio Buarque de Holanda na Escola Livre de Sociologia e Política, 1958. Siarq: Vp85.]

16 "Relatório de Expedição Científica de Orientando de Herbert Baldus", s/d, 6 fls. dat., AMPM/FMP P249 d11 [1956].

17 Esse conjunto de cartas, em sua maioria escritas em alemão, contém tanto as enviadas quanto as recebidas por Herbert Baldus. AMP: P249 a P252.

18 Conferir "Índice de Matérias" da Revista do Museu Paulista, nova série, volumes 1 a 10 (Revista do Museu Paulista, 1956-1958, p. 359-70).

19 Os artigos desse volume foram traduzidos por Sérgio Buarque de Holanda.

20 Contrato assinado por Herbert Baldus e Egon Schaden referente à tradução de textos de autoria do segundo. São Paulo/Lepizig, 14 de fevereiro de 1948. AMP: P249.

21 Carta de Herbert Baldus para Fritz Krause. São Paulo, 12 de abril de 1950. AMP: P250.

22 Carta de Herbert Baldus para Gerdt Kutscher. São Paulo, 15 de fevereiro de 1949. AMP: P249.

23 Carta de Herbert Baldus para Gerdt Kutscher. São Paulo, 8 de julho de 1949. AMP: P249.

24 Nesse sentido, vale ainda lembrar que Herbert Baldus foi o editor da Seção de Etnologia da revista Sociologia durante a década de 1940, mesmo após o surgimento da nova série da Revista do Museu Paulista, pela qual era responsável.

25 Carta de Herbert Baldus a Richard Thurnwald. São Paulo, 24 de abril de 1947. AMP: P249.

26 Carta de Richard Thurnwald a Herbert Baldus. Berlim, 12 de julho de 1947. AMP: P249.

27 Carta de Fritz Krause a Herbert Baldus. Leipzig, 27 de novembro de 1952. AMP: P251.

28 O envio de pacotes não era prática exclusiva de Baldus. Em uma carta a seu ex-aluno, Thurnwald comenta: "Recebemos pacotes também da América e da Suíça. Eles nos mantêm com a cabeça fora d'água" [Carta de Richard Thurnwald a Herbert Baldus. Berlim, 12 de julho de 1947. AMP: P249].

29 Carta de Herbert Baldus a Fritz Krause. São Paulo, 9 de outubro de 1947. AMP: P249.

30 Sobre a formação da Escola Livre de Sociologia e Política, conferir Limongi (2001) e Kantor, Maciel e Simões (2001). Para uma análise comparativa entre a formação das escolas de ciências sociais em São Paulo e no Rio de Janeiro, ver Miceli (2001).

31 Havia uma certa rixa entre alguns professores das duas faculdades. O comentário de Mário Wagner Vieira da Cunha sobre os professores Claude Lévi-Strauss (da USP) e Herbert Baldus (da ELSP) é um bom exemplo disso: "Havia uma briga muito grande entre ele [Lévi-Strauss] e Baldus, porque Lévi-Strauss pegava todos os livros de antropologia na biblioteca e levava pra casa e, como eram os únicos livros existentes no Brasil – naquele tempo era uma pobreza enorme de livros – eles ficavam sempre de briga. Havia uma competição, Baldus olhava para Lévi-Strauss e dizia assim: 'Ô menino, você não sabe nada!'. E Lévi-Strauss respondia: 'Não, mas vou saber'" (Cunha, 2001, p. 112).

32 Sobre a vida e a obra de Florestan Fernandes, conferir Peirano (1991), Pontes (1998) e Arruda e Garcia (2003), entre outros.

33 E já que se fala em agradecimentos e dedicatórias, vale a pena também atentar ao livro Organização social dos tupinambá, que traz a dissertação de mestrado de Florestan Fernandes (Fernandes, 1949): o autor o dedica a Fernando de Azevedo, e o prefácio, assinado por Herbert Baldus, termina com a seguinte frase: "Pela presente obra, porém, o autor não só obteve o grau de Mestre em Ciências Sociais [...]. Tornou-se mestre de verdade, o mestre Florestan Fernandes" (Baldus, 1949, p. 13).

34 Sobre a relação entre os pesquisadores alemães e os museus, notadamente sobre a "paixão museográfica alemã", conferir Grupioni (1998, p. 248-57).

 

Referências

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Fundo Sérgio Buarque de Holanda

• Série Correspondência

Carta de Paulo Mendes de Almeida a Sérgio Buarque de Holanda. São Paulo, 13 de maio de 1954. [Cp 153].

• Série Vida Pessoal

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Aceito em outubro de 2005.

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