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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

versão impressa ISSN 0037-8682versão On-line ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. v.34 n.6 Uberaba nov./dez. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822001000600005 

ARTIGO

Acidentes por centopéia notificados pelo "Centro de Informações Toxicológicas de Belém", num período de dois anos

Centipede accidents notified by "Centro de Informações Toxicológicas de Belém", over a two-year period

 

Eduardo Barroso1, Alexandre Shigemi Vicente Hidaka1, Amanda Xavier dos Santos1, Joana D'arc Matos França1, Adriana Maria Brito de Sousa1, Jorgianne Rodrigues Valente1, Andréa Franco Amoras Magalhães1 e Pedro Pereira de Oliveira Pardal1

 

 

Resumo Centopéias são animais invertebrados do filo dos artrópodes e da classe Chilopoda . Este trabalho objetiva estudar o perfil dos acidentes por centopéias notificados pelo "Centro de Informações Toxicológicas de Belém" (CIT-Belém). Foram estudados 76 protocolos registrados no período de março de 1998 a março de 2000. Corresponderam a 16,7% dos acidentes por animais peçonhentos, superados apenas pelo ofidismo (44,4%) e escorpionismo (20,5%). O local do acidente foi a residência em 86,8% dos casos. A faixa etária 20 - 49 anos foi a mais acometida (64,4 %) e 61,8 % dos casos registrados pertenciam ao sexo feminino. Membros superiores foram a parte do corpo mais acidentada (47,4%). Dor local ocorreu em 95,8 % dos pacientes e edema local leve em 52,1%. O tratamento foi predominantemente sintomático; 94,7% evoluíram para a cura e ignora-se a evolução nos outros 5,3 %. Sugere-se que o acidente por centopéia é benigno e doméstico e que tratamentos analgésicos são suficientes.
Palavras-chaves: Centopéias. Acidentes. Artrópodes. Animais peçonhentos.

Abstract Centipedes are arthropods of the class Chilopoda. The objective of this work was to study the incidence of accidents involving centipedes at "Centro de Informações Toxicológicas de Belém" (CIT-Belém) over a two-year period. Seventy-six patients were studied from March 30, 1998 until March 30, 2000. Centipede accidents occurred in 16.8% of all accidents by venomous animals at Centro de Informações Toxicológicas de Belém; compared to snake accidents, 44.4 % and scorpion accidents, 20.5%. The majority of cases occurred in the residence (86.8%). The most important age group was 20-49 years old (64.4%). The part of human body mostly affected was the superior members (47.4 %). Local pain and edema were found in 95.8% and 52.1% of the patients, respectively. Treatment was symptomatic. Healing occurred in 94.7%, although the outcome of 5.3% of cases was unknown. Centipede accidents are a benign accident, occurring within the residence and treatment consists of measures to decrease the pain.
Key-words: Centipedes. Accidents. Arthropods. Venomous animals.

 

 

As centopéias ou lacraias são animais invertebrados, pertencentes à classe Chilopoda do filo dos artrópodes6, que apresentam um par de patas por segmento do corpo - e exibem um corpo achatado, filiforme ou redondo, dividido em cabeça e numerosos segmentos (de 15 a mais de 170)1 3 6 7 13.

Na cabeça das lacraias há um par de antenas articuladas, dois pares de maxilas, um par de forcípulas - onde estão as glândulas de peçonha - o aguilhão - aparelho inoculador de veneno - e um conjunto de olhos simples ou ocelos laterais, que ajudam a diferenciar os gêneros pertencentes à família Scolopendridea (Scolopendra e Ostostigmus) e à família Criptopidae, em que estão ausentes4 5 6 7.

No último segmento do corpo estão localizados o aparelho genital masculino ou feminino e um par de apêndices anais2. As centopéias geralmente têm coloração marrom, mas podem apresentar uma ampla variedade de cores, incluindo tonalidades claras de vermelho, preto, amarelo e verde ou até mesmo faixas azuis transversais em seu dorso6 7 8. São animais terrestres, de hábitos noturnos, passando a maior parte do dia escondida sob entulhos úmidos, folhas e cascas de árvores, sendo ocasionalmente encontradas dentro das casas. Alimentam-se basicamente de larvas de besouros, minhocas, vermes, entre outros, que são capturados vivos, imobilizados e inoculados por peçonha3 6 7 13.

No Brasil, existem cerca de dez espécies cuja picada é temida, sendo as principais a Scolopendra viridicornis, S. subspinipes, Otostigmus scabricauda, Cryptops iheringi e Octocryptops ferrugineus. A S. viridicornis é a mais comum no Brasil.

Rodriguez-Acosta e colaboradores, em 200012, afirmam que o veneno das centopéias foi pouco estudado, mas é sabido que, pelo menos em algumas espécies, contém proteínas, lipídios, lipoproteínas, histamina, hialuronidase, polipeptídeos e proteinases.

Em 1946, o pesquisador Bücherl4 desenvolveu um trabalho sobre a ação do veneno dos escolopendromorfos do Brasil em alguns animais de laboratório. Nele, foi observado que a espécie Scolopendra viridicornis em geral, quando morde um camundongo inocula muito veneno, pois não costuma largá-lo por pelo menos cinco minutos, sempre levando o animal à morte, principalmente por parada respiratória, seguida de tetania post mortem, porém quase não se observa ação local sobre o animal mordido, surgindo apenas pequeno edema e dor intensa que dura horas, sugerindo que o princípio tóxico do veneno é uma neurotoxina com pouca ação local, mas com sério efeito sistêmico no organismo, principalmente sobre o sistema nervoso.

Geralmente a sintomatologia decorrente da picada de centopéia é apenas local, com dor instantânea, intensa, tipo queimação, que cede em aproximadamente 24 horas, acompanhada de hiperemia e discreto edema local. Menos freqüentemente ocorre dor irradiada, edema mais importante, necrose local, linfadenite, linfangite e sintomas sistêmicos como febre, tremores, calafrios, sudorese, dispnéia, cefaléia, vômito e ansiedade4 5 6 7 8 10 11.

Logan & Ogden, em 19859, relataram um caso de um paciente de 44 anos, que evoluiu com síndrome compartimental, rabdomiólise e posterior insuficiência renal aguda, após picada de Scolopendra heros, a centopéia gigante do deserto, no Arizona, nos Estados Unidos. Bücherl3 refere que o acidente por Scolopendra gigantea L. pode causar a morte do homem e menciona ainda registros na literatura médica de casos humanos mortais devido à picada de escolopendras na Índia, provavelmente envolvendo a espécie Scolopendra subspinipes subspinipes. Cita também um caso fatal ocorrido com uma criança de sete anos, picada na cabeça por uma escolopendra nas Filipinas.

Outro caso de acidente por centopéia envolvendo infantes foi descrito por Rodriguez-Acosta e colaboradores12, na Venezuela. Acidente este que ocorreu com uma criança recém-nascida, do sexo feminino, com apenas 28 dias de nascida. A menina apresentou choro incoercível, irritabilidade, intensa dor local, edema na mão picada e no braço correspondente, eritema, hipertermia local, coágulos de sangue, taquicardia, febre de 38oC, hiperestesia local, sonolência e hiporexia. Entretanto, três dias após o acidente, tendo sido realizado tratamento sintomático, a criança apresentava-se sem alterações alimentares, comportamentais ou de outra natureza. Os autores ainda afirmam que acidentes por centopéias na infância são eventos raros.

Em virtude da freqüência dos acidentes por centopéias que fazem vítimas humanas registrados nos dois primeiros anos de funcionamento do CIT-Belém e a relativa escassez de publicações a respeito do assunto na literatura, observa-se a necessidade de abordar o problema e assim com o objetivo de contribuir para o enriquecimento dos conhecimentos na área médica acerca deste tipo de acidente através da demonstração do perfil dos acidentes por centopéias orientados pelo CIT-Belém, bem como do tratamento proposto e das manifestações clínicas mais comuns.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Este é um trabalho prospectivo e descritivo em que foram estudados 76 protocolos de notificação correspondendo a todos os casos de picadas por centopéias notificados no CIT-Belém, no período de 30 de março de 1998 a 30 de março de 2000.

As variáveis estudadas: sexo, idade, local do acidente, local do corpo acometido, período do dia,manifestações clínicas, tratamentos propostos e realizados, evolução do paciente, dentre outras.

A coleta de informações foi realizada através de telefone quando um profissional de saúde ou a população em geral solicitavam informações ao Centro de Informações Toxicológicas de Belém.

 

RESULTADOS

No período de 30 de março de 1998 a 30 de março de 2000, pôde-se observar que os acidentes por animais peçonhentos notificados no CIT-Belém deveram-se sobretudo aos casos de ofidismo (44,4%), escorpionismo (20,5%) e acidentes por centopéias (16,8%). Estes somaram um total de 76 casos.

Quanto ao local em que ocorreram os acidentes, a residência do paciente ocupa posição de destaque, pois corresponde a 86,8% do total; 6,6 % dos casos ocorreram no ambiente de trabalho da vítima e a mesma percentagem de acidentes aconteceu em ambiente externo.

O sexo feminino foi, sem dúvida, o mais acometido, com 47 casos (61,8%). Destes, 44 ou 93,6% aconteceram no ambiente residencial e apenas 3 ou 6,4%, em ambiente de trabalho. O sexo masculino, por sua vez, foi responsável por 29 dos registros estudados (38,2%), sendo que 75,9% desses pacientes foram picados no ambiente residencial, 10,3% no ambiente de trabalho e 13,8% em ambiente externo.

O período do dia em que ocorreram os acidentes evidencia a prevalência dos mesmos pela manhã, perfazendo um total de 46 casos (60,5%); 25% aconteceram no período vespertino e 14,5%, durante a noite.

Em relação à faixa etária, 64,4% dos casos ocorreram entre 20 e 49 anos, enquanto que apenas 35,6% dos acidentes acometeram pessoas entre 0 e 19 anos e a partir dos 50 anos.

Quanto à parte do corpo acometida, pôde-se observar que os membros superiores foram os mais afetados, com 47,4% dos casos, seguidos pelos membros inferiores (39,5%) e tronco (7,9%), como mostra a Tabela 1.

 

 

Como mostra a Tabela 2, das manifestações clínicas locais as mais freqüentes foram dor local (95,8%), edema local leve (52,1%), eritema local (49,3%) e parestesia (9,9%).

 

 

O tratamento proposto pelo CIT-Belém às vítimas de centopéia é demonstrado na Tabela 3. A evolução para a cura dos pacientes vítimas de acidente por centopéias ocorreu em 94,7% dos casos, sendo ignorada nos demais 5,3%. Não foi registrado nenhum óbito.

 

 

DISCUSSÃO

Os acidentes por centopéias corresponderam a 21,9% dos casos de notificação de acidentes por animais peçonhentos no Centro de Informações Antiveneno de Salvador-BA (SUS/SAB - Centro de Informação Antiveneno: comunicação pessoal. Informações sobre dados estatísticos - 1998. Salvador, agosto, 2000. Informações transmitidas via fax por Daisy Schwab Rodrigues, diretora do CIAVE) em 1998, próximo dos valores correspondentes ao mesmo acidente no CIT-Belém, que foi de 16,8%.

Observou-se que a grande maioria dos acidentes ocorreu dentro do domicílio, tendo maior incidência sobre o sexo feminino, na faixa etária de 20 a 49 anos, no período da manhã, sendo os membros superiores e os inferiores as partes do corpo mais acometidas. Resultados semelhantes foram observados na grande São Paulo, num recente trabalho realizado por Irene Knysak e cols8. Esses fatos podem ser justificados principalmente pelo manuseio de lixos, entulhos, vasos de planta, etc, pelas mulheres, durante as atividades domésticas, que por sua vez são realizadas principalmente pela manhã e sem a adequada proteção dos membros, com luvas e botas.

Concordando com a literatura6 7 11 13, praticamente todas as vítimas apresentaram manifestações locais, como dor, edema e eritema, e uma minoria também apresentou manifestações sistêmicas decorrentes do acidente, como cefaléia, febre e vômitos.

Por ser um acidente eminentemente benigno, o tratamento dispensado às vítimas foi predominantemente sintomático, tendo 94,7% evoluído para a cura, sendo ignorada a evolução dos outros 5,3%. Dados estes também concordantes com a literatura 3 6 7 8 13.

 

AGRADECIMENTOS

Ao médico veterinário Fernando Augusto Esteves, à Zuleide Nascimento de Souza, à Vera Lúcia dos Santos Carvalho e a todos os estagiários do CIT-Belém que colaboraram com este trabalho.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1.Universidade Federal do Pará; Prefeitura Municipal de Belém; Hospital Universitário João de Barros Barreto/Centro de Informações Toxicológicas de Belém, PA, Brasil.
Endereço para correspondência: Dr. Pedro Pereira de Oliveira Pardal. Hospital Universitário João de Barros Barreto/CIT-Belém. R. dos Mundurucus 4487, Guamá, 66073-000 Belém, PA, Brasil.
Tel: 91 249-6370; Fax: 91 259-3748
e-mail: citbelém@yahoo.com
Recebido para publicação em 8/2/2001.

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