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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.38 no.6 Uberaba Nov./Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822005000600006 

ARTIGO ARTICLE

 

Epidemiologia dos acidentes por Thalassophryne nattereri (niquim) no Estado do Ceará (1992-2002)

 

Epidemiology of the injuries caused by Thalassophryne nattereri (niquim) in Ceara State (1992-2002)

 

 

Patrícia Emília FacóI; Glaydcianne Pinheiro BezerraI; Paulo Sergio Ferreira BarbosaI; Alice Maria Costa MartinsII; José Ambrósio GuimarãesIV; Mônica Lopes FerreiraIII; Helena Serra Azul MonteiroI

IDepartamento de Fisiologia e Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil
IIDepartamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil
IIILaboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan, São Paulo, SP, Brasil
IVCentro de Assistência Toxicológica do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil

 

 


RESUMO

No Estado do Ceará (1992 a 2002), 16 casos de envenenamento com o Thalassophyne nattereri ocorreram no litoral, a maioria (87,5%) em praias de Fortaleza e 12,5% do interior. Noventa e quatro por cento eram do sexo masculino e 6% feminino. Com relação à idade, 75% estavam na faixa etária de 21 a 40 anos, 19% entre 41 e 60 anos e 6% entre 1 a 10 anos. O tempo de exposição foi de 1 a 5 horas (4), 6 a 12 (3), mais de 12 horas (4), 5 pacientes não informaram o tempo decorrido entre o acidente e o atendimento. Manifestações clínicas observadas foram dor, edema local, isquemia transitória, parestesia, equimose e sensação de queimação local. O tratamento consistiu de antiinflamatórios e analgésicos. Em alguns casos, foram usados anestésicos, água morna, debridamento cirúrgico e anti-histamínicos. Em 75% dos casos, observou-se cura confirmada e em 12% a cura não foi confirmada, em dois a evolução foi ignorada. Provavelmente, o número de acidentes ocorridos é maior do que o encontrado devido a subnotificação.

Palavras-chaves: Thalassophryne nattereri. Epidemiologia. Niquim. Acidentes.


ABSTRACT

In Ceara State (1992 to 2002) 16 cases of envenomation by Thalassophyne nattereri occurred in the seaside of Ceará, 87.5% of cases in the region of Fortaleza and 12.5% in the interior of Ceará State. Ninety four percent were men and 6% women. Age range: 75% between 21 and 40 years and 19% between 41 and 60 years old. The time between medical assistance and the accident varied from 1 to 5 hours (4 cases), 6 to 12 hours (3 cases), over 12 hours in 4 cases and 5 patients did not know. Clinical manifestations observed were pain, local edema, transitory ischemia, paresthesia, ecchymosis and burned skin sensation. Anti inflammatory and analgesic drugs were used. In some cases, anesthetic, hot water, surgical peeling and anti-histaminic drugs were used. In 75% of cases cure was confirmed and in 12% cure was not confirmed. The number of accidents is probably higher than was found due to subnotification.

Key-words: Thalassophryne nattereri. Epidemiology. Niquim. Accidents.


 

 

Existem 15 espécies de peixes peçonhentos do gênero Thalassophryne (T. nattereri, T. punctata, T. reticulata, T. amazônica, T. branneri, T. montevidensis) encontradas em nosso país, sendo a Thalassophryne nattereri responsável por grande número de acidentes5 6 13.

Os peixes do gênero Thalassophryne possuem um dos mais perfeitos aparatos de veneno, com glândulas conectadas a acúleos ocos localizadas na região anterior à nadadeira dorsal e nas regiões pré-operculares. Essa particularidade permite que o veneno seja injetado sob pressão1 2 14. Os acidentes causados pela espécie T. nattereri são freqüentes no litoral do Brasil, particularmente no Nordeste, representando um problema de Saúde Pública3 12. Estes acidentes ocorrem na maioria das vezes na região plantar ou palmar, quando ao pisar inadvertidamente no peixe, há perfuração do tegumento com liberação do veneno por pressão sobre o tecido glandular12.

Os indivíduos que sofrem acidentes pelo T. nattereri apresentam dor intensa com irradiação para a raiz do membro, seguida de reação inflamatória aguda no local, com ocasional necrose e difícil cicatrização1 8 11. Recentemente, foi demonstrado o efeito renal deste veneno3. Sabe-se que a maioria dos acidentes provocados pelo T. nattereri afeta, principalmente, as comunidades pesqueiras.

No Ceará existem poucos relatos acerca desse tipo de acidente com o T. nattereri, havendo apenas registros referentes aos estados de Alagoas, Salvador, Sergipe e Pará3 7.

O objetivo do presente trabalho foi determinar a casuística dos acidentes pelo envenenamento do peixe Thalassophryne nattereri (Niquim) ocorridos no Estado do Ceará, atendidos no Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX), a fim de traçar as características clinicas e epidemiológicas dos pacientes atendidos neste serviço, verificando a ocorrência de complicações provocadas pelo envenenamento.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A notificação dos acidentes causados pelo peixe T. nattereri foi realizada pelo CEATOX, Centro de Referência Estadual no tratamento de vítimas de envenenamento, no período de janeiro de 1992 a dezembro de 2002. Foi um estudo retrospectivo através de análise de fichas de assistência toxicológica dos pacientes atendidos nesta unidade. Analisaram-se as seguintes variáveis: local de exposição (zona rural ou urbana), sexo, idade, tratamento efetuado, tempo decorrido entre o acidente e o atendimento na unidade de saúde e evolução dos pacientes. A análise estatística foi realizada pelo EpiInfo, versão 6,04b, utilizando porcentagens simples nos dados.

 

RESULTADOS

No período de 1992 a 2002, foram notificados 16 casos de envenenamento pelo T. nattereri no litoral do Ceará. A maioria (87,5%) dos acidentes ocorreu em praias da região metropolitana de Fortaleza, com apenas 12,5% dos casos tendo ocorrido em praias do interior (Figura 1).

 

 

Com relação ao sexo, 15 (94%) eram do sexo masculino e 1 (6%) do sexo feminino (Figura 2). Com relação à idade, 12 (75%) pacientes estavam na faixa etária de 21 a 40 anos, 3 (19%) tinham entre 41 e 60 anos e 1 (6%) estava na faixa de 1 a 10 anos (Figura 3).

 

 

 

 

O tempo de exposição foi de 1 a 5 horas (4), 6 a 12 horas (3), mais de 12 horas (4) e 5 pacientes não conseguiram informar o tempo decorrido entre o acidente e o atendimento (Tabela 1).

 

 

As manifestações clínicas mais comuns foram dor e edema local. Observou-se também isquemia transitória, parestesia, equimose e sensação de queimação local.

O tratamento consistiu do uso de dexametasona e indometacina na maioria dos acidentes. Em alguns casos, foram utilizados anestésicos (lidocaína) e água morna, lavagem intensiva para retirada de fragmentos, debridamento cirúrgico, além do uso de anti-histamínicos. Em 12 (75%) dos casos observou-se cura confirmada, com retorno do paciente ao serviço de saúde, reversão de sinais e sintomas apresentados no quadro clínico após o acidente, e em 2 (12%) a cura não foi confirmada, paciente recebeu alta, porém não retornou a unidade de saúde. Em dois a evolução foi ignorada (Figura 4).

 

 

DISCUSSÃO

Os acidentes causados pelo Thalassophryne nattereri representam problema médico no Nordeste do Brasil3 4.

Na avaliação da distribuição dos acidentes com o peixe T. nattereri no estado do Ceará segundo a procedência, observou-se uma prevalência de vítimas provenientes da capital.

Com relação ao sexo, sabe-se que a participação dos homens no ramo da pesca ainda é muito forte, sendo observado que a maioria dos casos de envenenamento eram do sexo masculino, sendo tais dados concordantes com a literatura12.

Quanto à faixa etária, 75% dos pacientes apresentavam entre 21 e 40 anos de idade, sendo nessa faixa onde ocorre a maior concentração da força de trabalho, nas comunidades pesqueiras.

No que se refere ao tempo de exposição, onde é informado o tempo decorrido entre o acidente e o atendimento, 31,2% não conseguiram dar essa informação. Os demais acidentados ficaram distribuídos em três grupos: 25% levaram de 1 a 5 horas; 18,8% de 6 a 12 horas e 25% mais de 12 horas para o atendimento clínico.

Recentemente, foi descrita dor intensa, edema e eritema, necrose local e infecção bacteriana em pescadores de Salinópolis (Pará) e Aracaju (Sergipe) acidentados com o T. natteri 7 10. No Ceará, as manifestações clínicas mais observadas foram dor e edema local, estando presentes também isquemia transitória, parestesia, equimose e sensação de queimação na pele.

Os sinais e sintomas do acidente foram revertidos com a utilização de antiinflamatórios e analgésicos, sendo utilizado em alguns casos anestésicos, água morna, lavagem intensiva para retirada de fragmentos, debridamento cirúrgico dos ferimentos e anti-histamínicos. Na maioria dos casos observamos reversão total do quadro clínico apresentado.

Nos resultados apresentados no presente trabalho provavelmente ocorreu subnotificação dos acidentes. Infelizmente, o problema da subnotificação nas unidades públicas de saúde do nosso Estado existe, muitas vezes pela dificuldade de acesso, fazendo com que os acidentados não procurem as unidades de saúde, como foi constatado em Fortim3, um município do interior do Estado do Ceará, onde pescadores da comunidade e marisqueiros não procuram o serviço de saúde em caso de acidente a não ser quando ocorre infecção secundária. Outros fatores envolvidos são a inexistência de tratamento específico que possa reverter os efeitos do envenenamento, bem como a não identificação do acidente, agravado pela desinformação da população e de profissionais da saúde, não utilizando medidas de primeiros socorros importantes, como a imersão em água quente, além de antibioticoterapia preventiva, para melhora do quadro clínico apresentado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 24/6/2004
Aceito em 22/7/2005

 

 

Endereço para correspondência: Dra. Helena Serra Azul Monteiro. Deptº de Fisiologia e Farmacologia/FM/UFC. Rua Cel. Nunes de Melo 1127, 60430-270 Fortaleza, CE, Brasil.
Fax: 55 85 288-8333
e-mail: serrazul@baydenet.com.br; martinsalice@gmail.com

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