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Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967On-line version ISSN 1809-4392

Acta Amaz. vol.34 no.1 Manaus  2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0044-59672004000100003 

BOTÂNICA

 

Morfologia polínica de espécies de várzea e de igapó da Amazônia Central1

 

Pollen morphology of Central Amazonia floodplain and flooded forest species

 

 

Cleonice de Oliveira MouraII; Maria Lúcia AbsyI; Francisco de Assis Ribeiro dos SantosII; Antonio Carlos Marques-SouzaI

IINPA, Coordenação de Pesquisas em Botânica – Caixa postal 478 – 69083-100, Manaus-AM, Brasil. E-mail: cleonice@inpa.gov.br
IIUEFS-Universidade Estadual de Feira de Santana, (BA)

 


RESUMO

Foi estudada a morfologia dos grãos de pólen de dez espécies de plantas de várzea e igapó provenientesda Ilha da Marchantaria e Tarumã-Mirim, localizadas a 20 Km da cidade de Manaus (AM), coletadas nos períodos de abril a agosto de 2000 e agosto de 2001. As espécies descritas foram Cassia leiandra Benth. (Caesalpiniaceae), Campsiandra comosa var. laurifolia (Benth.) Cowan (Caesalpiniaceae), Hevea spruceana (Benth.) Müll. Arg. (Euphorbiaceae), Piranhea trifoliata Baill. (Euphorbiaceae), Laetia corymbulosa Spruce ex Benth. (Flacourtiaceae), Eschweilera tenuifolia (O. Berg) Miers (Lecythidaceae), Acacia polyphylla DC. (Mimosaceae), Inga micradenia Spruce ex Benth. (Mimosaceae), Simaba orinocensis Kunth (Simarubaceae), Vitex cymosa Bert. ex Spreng. (Verbenaceae). A análise polínica constatou que estas espécies possuem grãos de pólen com características morfológicas bastante variadas.

Palavras-chave: Morfologia polínica, Amazônia, várzea, igapó, Ilha da Marchantaria, Tarumã-Mirim


ABSTRACT

The present study investigated the pollen grain morphology of ten floodplain plant species from Ilha da Marchantaria and Tarumã-Mirim located 20 Km from Manaus (AM). The species were collected from April to August 2000 and August 2001. The following species were described: Cassia leiandra Benth. (Caesalpiniaceae), Campsiandra comosa var. laurifolia (Benth.) Cowan (Caesalpiniaceae), Hevea spruceana (Benth) Müll. Arg. (Euphorbiaceae), Piranhea trifoliata Baill. (Euphorbiaceae), Laetia corymbulosa Spruce ex Benth. (Flacourtiaceae), Eschweilera tenuifolia (O. Berg) Miers (Lecythidaceae), Acacia polyphylla DC. (Mimosaceae), Inga micradenia Spruce ex Benth. (Mimosaceae), Simaba orinocensis Kunth (Simarubaceae), Vitex cymosa Bert. ex Spreng. (Verbenaceae). The pollen analysis established that these species presented pollen grains of a great variability of morphological characteristics.

Key words: Pollen morphology, Amazônia, várzea, Ilha da Marchantaria, igapó, Tarumã-Mirim


 

 

INTRODUÇÃO

As áreas alagáveis na Amazônia possuem um total de 300.000 km2,sendo 200.000 km2 de várzea e 100.000 km2 de igapó (Junk, 1993). A Amazônia é caracterizada pela extensa bacia hidrográfica e pela floresta tropical úmida (Maia, 1997). Os ambientes semi-aquáticos apresentam aproximadamente oito meses de períodos de cheia e quatro meses de períodos secos. Um aspecto importante nos ambientes de vegetação inundável é a presença de indivíduos adaptados à submersão parcial ou total durante um período prolongado (Maia, 1997).

Na Amazônia central, os ecossistemas inundáveis de várzea e igapó constituem-se em importantes meios para uso e preservação de recursos naturais, sendo explorados de forma sustentável. Um exemplo dessa aplicação é demonstrado no trabalho de Maia (1997), que verificou a influência e a importância da dinâmica do pulso de inundação na fisiologia, fenologia e produção de frutos de Eschweilera tenuifolia (Berg) Miers e Hevea spruceana (Benth.) Müll. Arg. Por outro lado, no trabalho palinológico pioneiro de Absy (1979) em sedimentos do Holoceno da bacia amazônica foi descrito o pólen de árvores da floresta de várzea e de igapó destacando cinco gêneros: Cassia, Eschweilera, Hevea, Inga e Simaba. De acordo com Davis & Heywood (1963), a morfologia do pólen é altamente significativa para auxiliar a taxonomia e ciências afins.

Neste contexto, o presente trabalho visa o estudo da morfologia polínica de dez espécies botânicas que ocorrem nas áreas de várzea da Ilha de Marchantaria, e de igapó, no rio Tarumã-Mirim, contribuindo desse modo para ampliar os estudos botânicos nessas áreas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

As dez espécies estudadas foram coletadas nas florestas da várzea e de igapó, localizadas na Ilha da Marchantaria e no rio Tarumã-Mirim, respectivamente (Figura 1).

As amostras foram obtidas de ramos férteis das 10 espécies estudadas, de onde foram retirados botões florais para o preparo dos grãos de pólen. O material botânico foi incorporado ao Herbário do INPA. A preparação dos grãos de pólen para análise, foi feita baseando-se no método da acetólise (Erdtman, 1960). Após a preparação, os grãos foram montados em gelatina glicerinada e em seguida, foi feita a lutagem das lâminas com parafina. As medidas dos grãos de pólen foram feitas utilizando-se uma ocular micrometrada, adaptada a um microscópio óptico. Foram efetivadas 25 medidas dos eixos polar (P) e equatorial (E), e 10 medidas das espessuras da exina, sexina (sex) e nexina (nex), em diferentes grãos de pólen de cada espécie. As medidas compõem os cálculos estatísticos de média, desvio padrão e coeficiente de variância. Apenas a média aritmética foi calculada para as medidas de espessura da exina, nexina e sexina. As descrições morfológicas obedecem a terminologia usada por Barth & Melhem (1988) e Punt et al. (1994).

 

 

Os grãos de pólen foram fotomicrografados em um microscópio óptico Zeiss.

 

RESULTADOS

Caesalpiniaceae

• Cassia leiandra Benth. (Figura 2 A - B)

 

Material examinado: Amazonas, Ilha da Marchantaria (Várzea) INPA n0 206.781

Grãos de pólen médios, isopolares, forma prolata, de simetria radial, âmbito circular, 3-colporados, colpos longos sincolpados. Endoaberturas lalongadas. Exina microrreticulada; sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: P = 37,55 ± 0,34 (35 - 40) µm; E = 27,15 ± 0,37 (25 - 30) µm; P/E = 1,38; NPC = 345; sex = 1,4 µm; nex = 0,74 µm; exina = 2,14 µm.

• Campsiandra comosa var. laurifolia (Benth.) Cowan ( Figura 2 C - F)

Material examinado: Amazonas, Tarumã-Mirim (Igapó) INPA n0 206.774

Grãos de pólen grandes, isopolares, forma subprolata, de simetria radial, âmbito subcircular, 3-colporados. Endoaberturas lalongadas. Exina psilada-granulada; sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: P = 51,35 ± 0,60 (47,5 - 57,5) µm; E = 41,45 ± 0,58 (37,5 - 45) µm; P/E = 1,24; NPC = 345; sex = 1,4 µm; nex = 0,9 µm; exina = 2,3 µm.

Euphorbiaceae

• Hevea spruceana (Benth.) Müll. Arg. (Figura 3 A - C)

 

 

Material examinado: Amazonas, Tarumã-Mirim (Igapó) INPA n0 206772

Grãos de pólen médios, isopolares, forma prolata, de simetria radial, âmbito subcircular, 3-colporados. Endoaberturas lalongadas. Exina microreticulada, homobrocada; sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: P = 42,6 ± 0,87 (50 - 35) µm; E = 31,65 ± 0,55 (42,5 - 27,5) µm;

P/E = 1,34; NPC = 345; sex = 1,35 µm; nex = 0,80 µm; exina = 2,15 µm.

• Piranhea trifoliata Baill. (Figura 3 D - F)

Material examinado: Amazonas, Ilha da Marchantaria (Várzea) INPA n0 206779

Grãos de pólen médios, isopolares, de simetria radial, âmbito circular, pantoporados. Exina reticulada com espinhos agudos de tamanho variado. Sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: D= 31,40 ± 1,47 (45 - 25) µm; NPC = 764; sex = 1,75 µm; nex = 0,95 µm; esp = 4,0 µm; exina = 2,6 µm.

Flacourtiaceae

• Laetia corymbulosa Spruce ex Benth. (Figura 3 G - J)

Material examinado: Amazonas, Ilha da Marchantaria (Várzea) INPA n0 208422.

Grãos de pólen médios, isopolares, forma subprolata, de simetria radial, âmbito circular, 3-colporados. Endoaberturas circulares a lalongadas. Exina reticulada heterobrocada. Sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: P = 32,65 ± 0,45 (37,5 – 27,5) µm; E = 27,95 ± 0,37 (32,5 - 22,5) µm; P/E = 1,22; NPC = 345; sex = 1,25 µm; nex = 0,75 µm; exina = 2,0 µm.

Lecythidaceae

• Eschweilera tenuifolia (O. Berg) Miers. (Figura 4 A - D)

Material examinado: Amazonas, Tarumã-Mirim (Igapó) INPA n0 208421

Grãos de pólen médios, isopolares, forma subprolata, de simetria radial, âmbito triangular a circular, 3-colporados, colpos constrictos na região equatorial, endoaberturas lalongadas. Exina microrreticulada homobrocada. Sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: P = 29,15 ± 0,31 (32,5 – 25) µm; E = 25,05 ± 0,34 (27,5 – 22,5) µm; P/E = 1,16; NPC = 345; sex = 1,5 µm; nex = 0,9 µm; exina = 2,4 µm.

 

 

Mimosaceae

• Acacia polyphylla DC. (Figura 4 E - F)

Material examinado: Amazonas, Ilha da Marchantaria (Várzea) INPA n0 206778.

Políades médias, discoidais, calimadas, radiossimétricas, compostas de 16 grãos de pólen, sendo 8 periféricos e (4+4) centrais, porados. Exina psilada. Sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: DM = 37,85 ± 0,49 (45 - 37,5) µm; Dm = 37,05 ± 0,43 (45-35) µm; sex = 0,82 µm; nex = 0,49 µm; exina = 1,31 µm.

• Inga micradenia Spruce ex Benth. (Figura 4 G - H-I)

Material examinado: Amazonas, Ilha da Marchantaria (Várzea) INPA n0 206777.

Políades muito grandes, discoidais, calimadas, radiossimétricas, compostas de 16 – 20 grãos de pólen, sendo 8 ou 10 periféricos e (4+4 ou 5+5) centrais. Exina irregularmente ornamentada, grãos porados, poros localizados na região proximal dos grãos. Sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: DM = 136,60 ± 1,8 (162-125) µm; Dm = 116,3 ± 1,6 (137,5-100) µm; sex = 1,9 µm; nex = 1,2 µm; exina = 3,1 µm.

Obs.: Estas políades são muito grandes e frágeis separando-se em grãos isolados mesmo sendo utilizado um tempo de acetólise menor.

Simarubaceae

• Simaba orinocensis Kunth (Figura 5 A - C)

 

 

Material examinado: Amazonas, Ilha da Marchantaria (Várzea) INPA nº 208425.

Grãos de pólen médios, isopolares, radiossimétricos, forma prolata, âmbito subcircular, 3-colporados. Endoaberturas circulares. Exina microrreticulada, homobrocada. Sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: P = 23,75 ± 0,27 (27,5 – 20) µm; E = 15,6 ± 0,32 (12,5 – 20) µm; P/E = 1,52 ; NPC = 345; sex = 0,89 µm; nex = 0,60 µm; exina = 1,5 µm.

Verbenaceae

• Vitex cymosa Bert. ex Spreng. (Figura 5 D - G)

Material examinado: Amazonas, Ilha da Marchantaria (Várzea) INPA nº208423.

Grãos de pólen médios, isopolares, radiossimétricos, forma prolata esferoidal, 3-colporados, colpos com membrana granulada; âmbito circular. Endoaberturas pouco distintas. Exina reticulada, homobrocada. Sexina mais espessa que a nexina.

Medidas: P = 26,75 ± 0,39 (30 – 25) µm; E = 24,65 ± 0,41 (25 – 17,5) µm; P/E = 1,08; NPC = 345; sex = 1,6 µm; nex = 0,85 µm; exina = 2,4 µm.

 

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

As áreas de várzea da Amazônia central apresentam maior diversidade de espécies arbóreas do que as áreas de igapó. De acordo com Ducke & Black (1953), na Amazônia, a variação da distribuição de chuvas durante o ano proporciona períodos de floração e frutificação diferentes para cada região.

Dos gêneros correspondentes às espécies deste trabalho, Absy (1979) fez a descrição da morfologia dos grãos de pólen de Cassia, Hevea, Eschweilera, Inga e Simaba, estudadas em amostras de sedimentos da bacia amazônica. Recentemente, Carreira et al.(1996) descreveram o pólen de outras espécies dos gêneros Cassia, Campsiandra, Acacia e Inga, estudadas em amostras recente da Amazônia brasileira. Esses gêneros foram escolhidos de amostras disponíveis nos herbários MG ( Museu Paraense Emílio Goeldi ), IAN (CPATU/EMBRAPA ) e INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia).

Os resultados das análises morfológicas dos grãos de pólen das espécies estudadas mostraram que as características morfológicas a nível genérico são semelhantes às dos gêneros descritos pelos autores acima citados. No presente trabalho, no entanto, foram descritos os grãos de pólen de duas espécies de dois gêneros diferentes da família Euphorbiaceae: Piranhea trifoliata e Hevea spruceana. Essas duas espéciesapresentaramcaracterísticas morfológicas bastante distintas: os grãos de pólen de Piranhea trifoliata apresentaram a exina reticulada e com espinhos, enquanto que a exina de Hevea spruceana émicrorreticulada e sem espinhos.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos o apoio financeiro recebido através do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do Projeto Dinâmica das Interações Bio-Ecológicas e Pulso de Inundações em Áreas Alagáveis (PPD - PPG7, Nº1161/99); à Dra. M. Gercília M. Soares, pela cooperação e sugestões; à Ana Rita Silva,ela ajuda sempre quando solicitada.

 

BIBLIOGRAFIA CITADA

Absy, M.L. 1979. Palynological study of Holocene sediments in the Amazon Basin. Thesis, University of Amsterdam, 102p.         [ Links ]

Barth, O.M; Melhem, T.S. 1988. Glossário ilustrado de Palinologia. Ed. UNICAMP, Campinas, 75p.        [ Links ]

Carreira, L.M.M.; Silva, M. F.; Lopes, J.R.C.; Nascimento, L.A.S. 1996. Catálogo de Pólen das Leguminosas da Amazônia Brasileira. Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, 137p.        [ Links ]

Davis, P. H.; Heywood, V. H. 1963. Principles of Angiosperm Taxonomy. Oliver Boyd, London, 556p.         [ Links ]

Ducke, A.; Black, G. A. 1953. Notas sobre a fitogeografia da Amazônia brasileira. Bol. Téc. Inst. Agron, Norte, 29: 1-62.        [ Links ]

Erdtman, G. 1960. The acetolysis method: in a revised description. Sv. Bot. Tidskr. Lund., 54(4):561-564.         [ Links ]

Junk, W. J. 1993. Wetlands of tropical South America. In: Whigham, D.; Hejny, S.; Dykyjova, D. (eds.) Wetlands in the Amazon floodplain. Hidrobiologia, 263:155-162.        [ Links ]

Maia, L. M., 1997. Influência do Pulso de Inundação na Fisiologia, Fenologia e Produção de Frutos de Hevea spruceana (Euphorbiaceae) e Eschweilera tenuifolia (Lecythidaceae), em áreas inundáveis de igapó da Amazônia Central. Tese de Doutorado Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia/Universidade Federal do Amazonas, 186p.        [ Links ]

Punt, W.; Blackmore, S.; Nilsson, S.; Le Thomas, A. 1994. Glossary of Pollen and Spore Terminology. LPP Foundation. Utrecht Contributions Series n. 1, Utrecht, 71p.        [ Links ]

 

 

Recebido em 20/02/2003
Aceito em 17/11/2003

 

 

1 Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projeto Dinâmica das Interações Bio-Ecológicas e Pulso de Inundações em Áreas Alagáveis (PPD – PPG7, Nº1161/99).

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