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Revista Brasileira de Entomologia

On-line version ISSN 1806-9665

Rev. Bras. entomol. vol.48 no.1 São Paulo Mar. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0085-56262004000100019 

CONTROLE BIOLÓGICO E PROTEÇÃO DE PLANTAS

 

Comportamento de adultos de diferentes raças de Rhyzopertha dominica (Fabricius) (Coleoptera, Bostrichidae) em superfície tratada com deltamethrin1

 

Adult insect behaviour of different Rhyzopertha dominica (Fabricius) (Coleoptera, Bostrichidae) strains on treated surface of deltamethrin

 

 

Helenara BeckelI; Irineu LoriniII; Sonia M. N. LázzariIII

IBióloga M.Sc. Convênio Embrapa Trigo - Universidade Federal do Paraná. Caixa Postal 451, 99001-970 Passo Fundo-RS. Endereço eletrônico: helenara@via-rs.net
IIEmbrapa Trigo - Centro Nacional de Pesquisa de Trigo. Caixa Postal 451, 99001-970 Passo Fundo-RS. Endereço eletrônico: ilorini@cnpt.embrapa.br
IIIDepartamento de Zoologia, Universidade Federal do Paraná. Caixa Postal 19020, 81531-980 Curitiba-PR. Endereço eletrônico: lazzari@ufpr.br

 

 


RESUMO

A principal praga de trigo armazenado, no Brasil, Rhyzopertha dominica (Fabricius), foi testada na Embrapa Trigo, em Passo Fundo-RS, em papel filtro impregnado com deltametrina nas concentrações letais CL5, CL25 e CL50 para verificar alterações no comportamento de deslocamento do inseto, as quais podem contribuir para o manejo da resistência de pragas em grãos armazenados. Foram testados insetos de quatro raças, duas resistentes, BR6 e BR12, e duas suscetíveis, BR4 e UK1, que foram coletadas em unidades armazenadoras no Rio Grande do Sul e criadas em laboratório. Espécimes da raça UK1 foram obtidos do laboratório do Imperial College of Science and Technology, Reino Unido. Os resultados mostraram diferenças no comportamento ambulatorial das raças durante o período de 24 horas. Os espécimes das raças resistentes reduziram sua locomoção sobre a superfície contaminada na tentativa de evitar o contato com o inseticida.

Palavras-Chave: Comportamento; besourinho-das-farinhas; insetos de armazenamento; resistência a inseticida; piretróide.


ABSTRACT

The most important pest of stored wheat in Brazil, Rhyzopertha dominica (Fabricius, 1792), was tested at Embrapa Trigo, in Passo Fundo-RS, on filter paper impregnated with LC5, LC25, and LC50 of deltamethrin to verify alterations in its walking behaviour that may contribute for pest resistance management in grain storage. Insects of four strains were used, two resistant, BR6 and BR12, and two susceptible, BR4 and UK1, which were collected in storage facilities in Rio Grande do Sul and reared in the laboratory. Insects of the UK1 strain were brought from the laboratory of the Imperial College of Science and Technology, United Kingdom. The results showed differences in the walking behaviour between individuals of strains during the 24 h of the assessment period. Insects of the resistant strains reduced their walking activities on contaminated surface, in an attempt to avoid the insecticide .

Keywords: Behaviour; insecticide resistance; lesser grain borer; pyrethroid.


 

 

O besourinho-dos-cereais, Rhyzopertha dominica (Fabricius, 1792) (Coleoptera, Bostrichidae), é a principal praga de trigo armazenado no Brasil, existindo registros da resistência dessa espécie ao inseticida deltamethrin (LORINI & GALLEY 1996, 1999) e a diversos grupos de inseticidas usados para seu controle (PACHECO et al. 1990; SARTORI et al. 1990; SARTORI 1993; GUEDES et al. 1996, 1997).

A partir do registro dos primeiros casos de resistência de pragas a pesticidas no mundo, expressivos estudos têm sido desenvolvidos na área, porém com modesto progresso em relação às medidas práticas para retardar a evolução do problema (GEORGHIOU 1983).

Segundo DETHIER et al. (1960), vários são os fatores que selecionam para a resistência, sendo os tratamentos químicos reconhecidamente aqueles que exercem a maior pressão seletiva, especialmente quando usados inadequadamente.

BRUN & ATTIA (1983) reforçam a importância de avaliar a resistência como base racional para controle químico de pragas de grãos armazenados, indicando que estudos envolvendo alterações comportamentais em espécies-alvo são importantes para elucidar alguns pontos sobre resistência. Segundo GEORGHIOU (1983), o comportamento de uma praga na superfície tratada com inseticida é um fator biológico que pode influenciar a seleção para resistência. É uma qualidade inerente à população, porém de grande importância para determinar o risco de resistência.

Estudos de LORINI & GALLEY (1998), relacionados a alterações de comportamento de adultos de R. dominica, indicaram que a raça resistente BR7 reduziu significativamente seu hábito de deslocamento em situações de contato com papel filtro impregnado com inseticida deltamethrin, em laboratório. Segundo esses autores, os resultados sugerem que parte da resistência em R. dominica é explicada por alterações no comportamento da raça resistente, provavelmente captando menor quantidade de inseticida de superfícies tratadas, por percorrerem distâncias menores.

O manejo da resistência de insetos de produtos armazenados é particularmente importante devido ao pequeno número de ingredientes ativos indicados para controle de pragas, bem como aos problemas de resíduos tóxicos nos produtos resultantes da elevação das doses necessárias para efetuar controle satisfatório.

Este trabalho visou quantificar as alterações no comportamento de diferentes raças de R. dominica, particularmente o hábito de deslocamento, quando submetidas, em laboratório, a um substrato impregnado com inseticida.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Quatro raças de insetos adultos de R. dominica foram usadas, três das quais originárias do Rio Grande do Sul, com a seguinte procedência e ano de coleta em armazém: BR4 de Sertão (1994), BR6 de Santa Rosa (1993) e BR12 de Santo Ângelo (1998). A quarta raça, UK1, é originária do laboratório do Imperial College of Science and Technology, Londres, Inglaterra. Indivíduos das raças BR4 e UK1 são suscetíveis, e os da BR6, resistentes, ao inseticida deltamethrin (LORINI & GALLEY 1999). A raça BR12 foi previamente testada logo após sua coleta e apresentou fator de resistência 873 vezes maior do que a raça suscetível BR4 (Tabela I). Todas as raças, desde a época da coleta, foram mantidas no Laboratório de Entomologia da Embrapa Trigo, Passo Fundo-RS, em multiplicação e, em virtude disso, receberam as seguintes designações: geração F1, indicando a primeira geração obtida em laboratório e criada sem seleção com inseticida; e Fd, representando as gerações de raças mantidas em laboratório com seleção de deltamethrin.

Os insetos de todas as raças foram multiplicados em frascos de vidro de 500 mL, recebendo trigo como alimento, mantidos em sala climatizada com temperatura e umidade relativa do ar de 25 ± 1ºC e 60 ± 5 %, respectivamente e aproximadamente seis semanas foram requeridas para cada geração. Foram usados os adultos não sexados das raças BR4 e UK1 (geração F27), BR6 (geração Fd17) e BR12 (geração F5). Como para esta espécie, a variação de idade, de 1 a 40 dias, e o tempo de avaliação, no intervalo de 24 a 72 horas, não exercem influência no estudo da resistência aos inseticidas (LORINI & GALLEY 1999), foram usados insetos de 10 a 20 dias de idade nos períodos de avaliação descritos abaixo.

Para testar o efeito de contato do inseticida deltamethrin sobre os insetos, foram selecionadas as concentrações letais CL5, CL25 e CL50 (concentrações letais que causam 5 %, 25 % e 50 % de mortalidade da população), as quais possibilitaram uma variação no número de sobreviventes para permitir o estudo do comportamento.

Seguindo o método para avaliação de resistência a inseticidas preconizado pela FAO (1974), o inseticida deltamethrin (Decis® 25 CE) foi diluído em éter de petróleo (60-80ºC); 1 mL da concentração letal, CL5, CL25 e CL50 de cada raça, foi aplicado sobre papel filtro de 9 cm de diâmetro, além de um controle tratado apenas com o solvente. Após a evaporação do solvente, o papel filtro foi colocado em placas de Petri, e os insetos foram liberados no interior destas, no centro do papel. O experimento foi realizado seguindo esquema fatorial e delineamento de blocos ao acaso, com três tratamentos (CL5, CL25 e CL50 de cada raça) em cinco repetições, e dois fatores: raças e tempo de avaliação em cada concentração letal. A unidade experimental constou de placas de Petri com cinco insetos cada, mantidas em sala climatizada com temperatura e umidade relativa do ar de 25 ± 1ºC e 60 ± 5%, respectivamente.

As avaliações da distância percorrida por cada indivíduo no papel filtro tratado foram realizadas a 1 minuto e a 6, 12 e 24 horas após a liberação dos insetos, marcando-se com lápis a trajetória percorrida pelo inseto mais ativo de cada repetição, durante cinco minutos, seguindo-se a metodologia preconizada por LORINI & GALLEY (1998), que obtiveram resultados satisfatórios com o estudo do comportamento desta praga. Em seguida, a distância do percurso foi medida com hodômetro manual.

As concentrações letais (CL5, CL25 e CL50) de cada raça foram obtidas por meio de bioensaios, segundo a metodologia padrão preconizada pela FAO (1974), e os dados analisados pelo programa estatístico GLIM, versão 3.77 (CRAWLEY 1993). Os resultados da distância percorrida por insetos de cada raça foram submetidos à análise de variância, e as médias comparadas entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade, usando o programa estatístico SISTANVA, de propriedade da Embrapa Trigo.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados da distância percorrida pelos insetos das quatro raças de R. dominica submetidas à CL5 do inseticida mostraram alterações significativas (Tabela II). Indivíduos das raças BR4 e UK1 reduziram significativamente seu deslocamento a 12 horas após a exposição ao inseticida; a 24 horas, eles voltaram a ter hábito de deslocamento estatisticamente semelhante ao obtido inicialmente, não diferindo do controle. Indivíduos da raça resistente BR6 apresentaram redução no deslocamento a 6, a 12 e a 24 horas após a liberação na superfície tratada. Por outro lado, indivíduos da raça resistente BR12 reduziram significativamente seu hábito de deslocamento na superfície tratada somente a 24 horas após sua liberação.

Resultados semelhantes foram encontrados por LORINI & GALLEY (1998) para insetos da raça BR4 de R. dominica, que não alteraram estatisticamente seu hábito de deslocamento na superfície tratada com a CL5 de deltamethrin, exceto a um minuto após a liberação na superfície tratada. Nesse mesmo trabalho, indivíduos da raça resistente BR7 reduziram significativamente seu deslocamento após a sexta hora de exposição ao inseticida, semelhante ao aqui registrado para indivíduos da raça BR6.

O contato de adultos das diferentes raças de R. dominica com a superfície tratada com a CL25 demonstrou diferenças comportamentais significativas na distância percorrida (Tabela II). Insetos das raças BR4 e UK1 reduziram significativamente seu hábito de deslocamento a 6, a 12 e a 24 horas após a exposição ao inseticida. O mesmo ocorreu com os indivíduos da raça resistente BR6, e a 12 e a 24 horas os resultados mostraram redução significativamente acentuada na distância percorrida. Os resultados encontrados para indivíduos da raça resistente BR6 são semelhantes aos observados para indivíduos das raças suscetíveis BR4 e UK1. No entanto, os resultados obtidos mostraram uma redução ainda mais acentuada no hábito de deslocamento para a raça BR6, evidenciando a diferença comportamental existente entre raças suscetíveis e resistentes. Adultos da raça resistente BR12 apresentaram diferença estatística, em relação ao controle, a 6 horas após a exposição ao inseticida, oportunidade em que reduziram significativamente seu hábito de deslocamento; a 12 e a 24 horas acentuaram a redução na distância percorrida, semelhante ao que ocorreu para indivíduos da raça BR6.

Os resultados da distância percorrida pelos indivíduos das raças de R. dominica submetidas à CL50 do inseticida também destacaram as alterações comportamentais entre as diferentes raças (Tabela II). Houve redução significativa no deslocamento dos indivíduos nas raças BR4 e UK1, e mais acentuadamente para indivíduos da raça resistente BR6. Insetos da raça BR12 apresentaram uma redução significativa a 6 horas, porém a 12 e a 24 horas eles não se deslocaram.

Os adultos das raças resistentes apresentaram reduções significativas em seu hábito de deslocamento nas diferentes CLs, ocorrendo uma redução acentuada na distância percorrida da CL5 para a CL25, até a paralisação total dos insetos na CL50, como observado na raça BR12 (Tabela II).

Os resultados deste trabalho mostraram que a distância percorrida por R. dominica sobre papel filtro impregnado com o inseticida deltamethrin foi diferente entre raças resistentes e suscetíveis. Assim, pode-se inferir que o estudo dos padrões de deslocamento das pragas pode auxiliar na interpretação das estratégias de manejo da resistência ao inseticida em produtos armazenados, conforme indicado por SINCLAIR & ALDER (1985).

Embora os resultados evidenciados no trabalho tenham mostrado uma tendência de alteração de comportamento da espécie, em função do nível de resistência ao inseticida deltamethrin, deve-se considerar que o comportamento é influenciado por vários fatores em uma população de insetos. Foram estudados apenas cinco indivíduos de cada raça da praga e, embora o coeficiente de variação dos dados tenha sido satisfatório (Tabela II), sugere-se a continuidade de estudos com maior número de indivíduos a fim de aumentar a homogeneidade das respostas de comportamento.

 

REFERÊNCIAS

BRUN, L. O. & F. I. ATTIA. 1983. Resistance to lindane, malathion and fenitrothion in coleopterous pests of stored products in New Caledonia. Proceedings of the Hawaiian Entomological Society 24: 211-215.        [ Links ]

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Recebido em 12.V.2003
aceito em 30.XI.2003

 

 

1 Parte da dissertação de Mestrado em Entomologia do 1º autor, Convênio Embrapa Trigo - Universidade Federal do Paraná.

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