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Revista Brasileira de Educação Médica

versión impresa ISSN 0100-5502versión On-line ISSN 1981-5271

Rev. bras. educ. med. vol.33 no.1 Rio de Janeiro enero/mar. 2009

https://doi.org/10.1590/S0100-55022009000100020 

RESENHA

 

Resenha de "The Suburban Shaman"

 

Review of "The Suburban Shaman"

 

 

Francisco Arsego de Oliveira

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil

Endereço para correspondência

 

 

 

Resenha da obra de helman, c. the suburban shaman: tales from medicine's frontline. london: hammersmith press, 2006.

 

De fato, a arte da medicina é uma arte literária.
Cecil Helman

Qual é a essência da profissão médica e o que na sua prática a torna tão mágica? Essas questões vêm sendo discutidas por uma série de autores, de cientistas sociais e antropólogos a filósofos e educadores, passando obviamente pelos próprios médicos. Esse tema cresceu em importância particularmente nos últimos anos, fruto de uma busca mais acentuada por uma prática e uma educação médica mais humanas2.

Ao longo do tempo, tenho me convencido de que o atributo essencial do médico é a sua habilidade de comunicação com a pessoa colocada na situação de paciente. Isto é, a capacidade de entender o "outro" é uma etapa fundamental para poder ajudá-lo.

Nesse sentido, o livro The Suburban Shaman, de Cecil Helman1, é uma preciosidade. Após várias publicações sobre antropologia médica, o autor lança este livro, que conta as inúmeras facetas de seu contato com seus pacientes. Como veremos adiante, este é um livro que se diferencia dos números livros nos quais médicos escrevem sobre seus pacientes, algumas vezes de forma caricata e até pejorativa.

Com um sugestivo título (ainda sem tradução em português), este livro tem uma proposta diferente daquelas dos trabalhos anteriores do autor, como o clássico Cultura, saúde e doença3, seguramente sua publicação sobre antropologia médica mais conhecida no Brasil. Trata-se agora de uma coletânea de narrativas. São histórias de pacientes reunidas ao longo de seus quase 30 anos de trabalho como médico de família na Inglaterra e também na África do Sul, onde se graduou e iniciou sua carreira. É diferente também por não tratar diretamente de antropologia: trata da diversidade e das histórias de vida de seus pacientes, montadas, peça por peça, no decorrer de sua trajetória como médico. E este é um elemento que distingue o livro, pois Helman consegue dar vida a esses relatos. Cada "caso" passa a ter um rosto e, sobretudo, uma narrativa própria. E isto só é possível por meio de um olhar muito atento e treinado para a reflexão e para o estranhamento. Nesse processo, como o próprio autor afirma, o antropólogo está sempre presente, com uma assumida "diplopia", ou seja, um olhar médico e antropológico ao mesmo tempo.

O livro é organizado em três partes, que seguem uma ordem quase cronológica, iniciando-se com reflexões sobre sua passagem pela faculdade de Medicina na "exótica" África do Sul em meio a uma família de 13 médicos e vários outros profissionais ligados à saúde. Segue descrevendo situações vivenciadas por ele como general practitioner na Inglaterra e encerra com um bloco de capítulos em que permite um Helman-antropólogo mais à vontade em suas análises.

Esta obra não é direcionada a um público de especialistas, pois não é um texto "técnico" sobre antropologia médica ou sobre medicina. Nem por isso deixa de ser interessante para qualquer profissional envolvido na assistência à saúde. Em seus relatos, entretanto, há uma constante busca de uma análise mais aprofundada, com uma lista de referências bibliográficas ao final do livro, organizadas por capítulo, de textos do próprio autor, de outros pesquisadores na área de antropologia e mesmo da literatura em geral.

Seu estilo é leve e, sobretudo, bem-humorado, o que torna sua leitura muito agradável. Outros aspectos marcantes são a sagacidade de suas observações e a indignação frente a determinados fenômenos da vida em sociedade. Um bom exemplo disso é sua análise crítica do regime do apartheid que vigorou na África do Sul, segundo ele uma "pigmentocracia" difícil de ser entendida até mesmo para o mais brilhante antropólogo.

Após sua transferência para Londres, onde trabalhou na periferia, Helman vai colecionando situações sobre pessoas que atendia por anos a fio, conhecendo profundamente as histórias de suas vidas, suas angústias, seus problemas e seus prazeres.

Tem-se discutido que boa parte da função do médico é entender o paciente, traduzindo seus sinais, sintomas e sua história para montar um complexo quebra-cabeça que nos ajuda a entender quem é a pessoa que nos procura em busca de ajuda4,5.

O livro de Helman nos mostra que esta é a essência do trabalho médico, ou seja, comunicar-se adequadamente. Sem negar a importância da medicina científica e especializada, o autor expõe como ela frequentemente não é suficiente para o cuidado integral do paciente. Assim, os inúmeros relatos contidos no livro são revelações e um estímulo à escuta. Os médicos que atendem pessoas todos os dias logo reconhecerão seus próprios pacientes nas histórias contidas no livro. Há o exemplo de Gladys, uma senhora idosa, solitária e infeliz, cujos melhores amigos passaram a ser um comprimido de fluoxetina pela manhã e um de benzodiazepínico à noite. É a partir de casos como este que o autor tece uma série de comentários a respeito, por exemplo, do papel simbólico dos medicamentos no mundo atual e da força da indústria farmacêutica sobre os médicos e pacientes.

Em várias ocasiões, Helman esteve no Brasil, um país que o deixa fascinado. Essas incursões também renderam reflexões interessantes. A experiência dos médicos de família do Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, ajuda, por exemplo, a lembrar a importância de compreender o contexto social e cultural de cada situação de "doença". Além disso, valoriza a relação triangular que deve existir entre médicos, pacientes e comunidades, entendendo-a como uma verdadeira parceria, essencial para uma prática de saúde verdadeiramente holística.

The Suburban Shaman é, portanto, um livro sobre a face humana da medicina. Dessa forma, fica ainda mais clara sua crítica aos techno-doctors ("médicos tecnológicos"), que insistem em dissociar o humano da técnica, como se um pudesse prescindir da outra. Considero, assim, um livro de leitura obrigatória para todo profissional de saúde - independentemente da área de especialização - em formação ou pretensamente já formado, pois nosso desafio é continuar encontrando formas adequadas de olhar, ouvir, sentir e interpretar o que nossos pacientes nos contam6. Suas narrativas, portanto, nos auxiliam a resgatar a idéia de uma prática médica apaixonante, que vai além de uma ciência "neutra" e excessivamente tecnologizada, descolada do lado humano presente em todos nós, pacientes e xamãs.

 

REFERÊNCIAS

1. Helman C. The Suburban Shaman: tales from medicine's frontline. London: Hammersmith Press; 2006.         [ Links ]

2. Branch Jr. WT, Kern D, Haidet P, Weissmann P, Gracey CF, Mitchell G, Inui T. Teaching the human dimensions of care in clinical settings, JAMA. 2001; 286(9):1067-1074.         [ Links ]

3. Helman C. Cultura, saúde e doença. 4 ed. Porto Alegre: Artmed; 2003.         [ Links ]

4. Greenhalgh T, Hurwitz B. Narrative based medicine: why study narrative? BMJ 1999; 318:48-50.         [ Links ]

5. Haidet P, Paterniti DA. "Building" a history rather than "taking" one: a perspective on information sharing during the medical interview. Arch Intern Med. 2003; 163:1134-1140.         [ Links ]

6. Grossman E, Cardoso MHCA. As narrativas em medicina: contribuições à prática clínica e ao ensino médico. Rev Bras Educ Méd. 2006; 30(1): 6-14.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Rua Ramiro Barcelos, 2400
Rio Branco
Porto Alegre
CEP. 90035-003 - RS
E-mail: farsego@hcpa.ufrgs.br

Recebido em: 08/07/2008
Aprovado em: 18/08/ 2008

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