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Revista Árvore

Print version ISSN 0100-6762On-line version ISSN 1806-9088

Rev. Árvore vol.28 no.2 Viçosa Mar./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-67622004000200018 

NOTAS TÉCNICAS

 

Avaliação de resistência de clones de eucalipto às infecções naturais de Cryphonectria cubensis, com nova metodologia

 

Evaluation of the resistance of Eucalyptus spp. clones naturally infected by Cryphonectria canker disease using a new methodology

 

 

Francisco Alves FerreiraI; Doraci MilaniII

IDepartamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Viçosa – UFV, 36570-000 Viçosa-MG
IICia. International Paper, Rod. SP 340, Km 171, 13840-970 Mogi-Guaçu-SP

 

 


RESUMO

Apresenta-se uma metodologia de avaliação de suscetibilidade ou resistência de clones de Eucalyptus grandis às infecções naturais da doença cancro, causado por Cryphonectria cubensis, no Estado do Amapá, com as árvores tendo cinco anos de idade. Os parâmetros usados relacionam-se, direta ou indiretamente, com a expressão dos mecanismos de defesa das árvores em nível de casca e lenho, quais sejam: a) freqüência de incidência da doença; b) freqüência de mortalidade por ela causada; e c) freqüência de lesões e de cancros, com os seus respectivos posicionamentos, se basais e altos, e os seus aprofundamentos ou superficialidades nos troncos, bem como os seus tamanhos, se pequenos ou grandes. Para cada genótipo calculou-se um índice de doença por infecções naturais (IDIN). Para facilitar as comparações entre os genótipos testados, o IDIN do clone mais suscetível foi dividido por um fator, de modo a deixá-lo igual a 100. Esse mesmo fator dividiu também os IDINs dos demais genótipos. Finalmente, os clones foram agrupados nas categorias AS (altamente suscetíveis), MS (moderadamente suscetíveis), MR (moderadamente suscetíveis) e AR (altamente resistentes ou imunes). Cada categoria agrupou genótipos cuja média de seus IDIN foi significativamente diferente da das demais, mediante o teste de contraste de médias.

Palavras-chave: Cancro do eucalipto, Cryphonectria cubensis, resistência, controle e avaliação.


ABSTRACT

A new methodology is presented for susceptibility or resistance evaluation of Eucalyptus grandis clones, at five years of age, naturally infected by Cryphonectria canker in the state of Amapá, Brazil. The adopted parameters were frequencies of disease incidence, mortality, frequencies of lesions and cankers considering trunk position, depth, and size. These parameters are directly or indirectly related to the expression of defense mechanisms at bark and xylem levels. A disease index in percentage (IDIN) was calculated for each clone. To facilitate comparing IDIN's of the genotypes, the IDIN of the most susceptible clone was divided by a factor to allow it to be equal to 100. The IDINs values of the other genotypes were also divided by the same factor. The clones were grouped into the categories HS (highly susceptible), MS (moderately susceptible), MR (moderately resistant), and HR (highly resistant). Each category included clones whose average of IDIN was significantly different from the other averages, according to the test of average contrast.

Key words: Cryphonectria canker, Cryphonectria cubensis, resistance, control and evaluation.


 

 

Nas décadas de 1970 e 80, várias empresas eucaliptocultoras dos Estados do Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo procuraram conhecer a suscetibilidade ou a resistência de espécies, procedências e clones de Eucalyptus spp. ao cancro do eucalipto, causado por Cryphonectria cubensis (Bruner) Hodges, por meio de inoculações artificiais e de levantamentos de porcentuais de plantas mortas pela doença e de plantas sobreviventes naturalmente infectadas em plantações e testes experimentais. A partir desses trabalhos, chegou-se à conclusão de que a resistência à doença era relativamente abundante tanto em nível inter e intra-espécies e inter e intraprocedências (Ferreira et al., 1977; Ferreira et al., 1978 a; b; Krugner, 1983). Assim, com o objetivo de obter o controle da doença, via resistência de plantas, e, simultaneamente, a melhoria silvicultural e da qualidade da madeira, as empresas passaram a propagar vegetativamente, em larga escala, árvores silviculturalmente superiores e isentas da doença, provenientes de plantações altamente afetadas pela doença, em idade de rotação. Os clones dessa propagação foram plantados na região de ocorrência da doença e tiveram os seus comportamentos estudados, comparativamente, descartando-se aqueles com desempenhos inferiores, com relação aos aspectos silvicultural, qualidade da madeira, suscetibilidade às doenças cancro e ferrugem (Puccinia psidii Winter) e à suscetibilidade a pragas desfolhadoras. O sucesso obtido com o processo citado, espelhado pela homogeneidade, sanidade e maior produtividade das plantações, foi enorme e reconhecido, inclusive no exterior (Gadgil et al., 2000). Enquanto isto, a partir do final da década de 1970 e no transcorrer das de 80 e 90, os conhecimentos dos mecanismos de defesas das árvores em nível de casca e lenho começaram também a ser mais divulgados e discutidos (Mullick, 1977; Shigo, 1979; Boddy & Rayner, 1983; Biggs, 1985; Pearce, 1987; Ferreira, 1989). Atualmente, um profissional florestal com esses conhecimentos e que tenha acompanhado o trabalho de melhoramento para a resistência ao cancro no Brasil sabe que a seleção clonal realizada foi excessivamente severa, e que priorizou a imunidade à doença, tendo-se rejeitado numerosos genótipos com elevada resistência em nível de casca, em que as lesões eram somente superficiais, com a periderme necrofilática barrando o aprofundamento das lesões.

Na década de 1990, com a conscientização por parte das empresas eucaliptocultoras brasileiras no sentido de que o melhoramento genético das plantações deve ter fluxo contínuo, cerca de 1 a 10% da área anual a ser plantada comercialmente com clones tem sido destinada ao estabelecimento de plantações com mudas a partir de sementes oriundas de polinização cruzada, para propiciar variabilidade genética necessária ao melhoramento. Assim, nesses últimos anos, várias empresas têm testado, comparativamente, clones derivados desse processo e também daquele por permuta de materiais genéticos (clones) com outras co-irmãs. À luz dos já bem divulgados conhecimentos sobre a expressões dos mecanismos de defesa das árvores em nível de casca e lenho, hoje em dia é imprescindível que uma avaliação da resistência ao cancro nesses genótipos contenha parâmetros, direta e,ou, indiretamente, relacionados com os citados conhecimentos. Com este princípio, chega-se ao objetivo desta comunicação, que é divulgar uma avaliação de resistência ao cancro em clones de E. grandis W. Hill ex Maiden. Essa avaliação deu-se aos cinco anos da implantação de um teste de competição de clones de E. grandis em região de cerrado do Estado do Amapá, no delineamento inteiramente casualizado, com três repetições, tendo cada uma, inicialmente, 25 plantas. Em geral, as parcelas tinham porcentual de falhas abaixo de 10%, que não foi arrolado na avaliação de resistência ao cancro. Alguns clones não foram avaliados em razão do excesso de falhas em alguma (s) de sua (s) parcela (s). Os parâmetros (em porcentuais) avaliados foram: a) incidência da doença; b) mortalidade por ela causada; c) lesão e cancro com os respectivos posicionamentos basal ou alto nos troncos, os seus aprofundamentos ou superficialidade e tamanhos nos troncos, bem como a freqüência de cancro e o seu posicionamento, se basal ou alto, e os seus tamanhos nos troncos. Assim, em cada parcela de determinado clone foram levantados:

  1. Porcentual de árvores vivas infectadas naturalmente pela doença (PCC);
  2. Porcentual de árvores mortas pela doença (MCC);
  3. Porcentual de árvores com lesão profunda, alta, significante (LPAS) ou insignificante (LPAI);
  4. Porcentual de árvores com cancro, alto, significante (CAS), ou insignificante (CHI);
  5. Porcentual de árvores com lesão profunda, basal significante (LPBS), ou insignificante (LPBI);
  6. Porcentual de árvores com cancro basal, significante (CBS), ou insignificante (CBI);
  7. Porcentual árvores com lesão superficial alta, significante (LSAS), ou insignificante (LSAI); e
  8. Porcentual árvores com lesão superficial basal, significante (LSBS), ou insignificante (LSBI).

Definições e Esclarecimentos

    a) O termo lesão (causada por patógeno fúngico) em órgãos lenhosos refere-se a uma área de casca colonizada pelo patógeno, que se inicia com o formato circular e, paulatinamente, evolui para o formato elíptico (Ferreira, 1997; Ferreira & Milani, 2002), podendo ser superficial (sem atingir o câmbio vascular), com trincamentos superficiais ou pouco profundos), ou profunda (atingindo o câmbio vascular), com trincamentos profundos na casca, podendo ainda ser alta, se situada a uma altura do tronco > 30 cm acima do colo, ou basal, se a sua evolução ascendente no tronco deu-se a partir da interface solo/caule, e, quanto ao tamanho, podendo ser significante, se seu tamanho no sentido vertical da elipse (lesão alta) ou semi-elipse (lesão basal) for > 30 cm, ou insignificante se < 20 cm.

    b) o termo cancro, em órgãos lenhosos, significa uma área do tronco que teve lesão profunda e que atualmente encontra-se circundada por calo; sendo o calo uma periderme necrofilática, recobrindo lenho pós-agressão ou pós-lesão (Ferreira, 1997; Ferreira & Milani, 2002). Cancro alto é aquele cuja lesão profunda que lhe deu origem progrediu a partir de uma posição elevada do tronco (inserção de galho), situada a uma altura do tronco > 30 cm a partir do colo, podendo ser significante, se seu tamanho no sentido vertical > 30 cm, ou insignificante, se < 20 cm. Cancro basal é aquele cuja evolução da lesão basal profunda que lhe deu origem deu-se a partir das imediações da interface tronco/solo, podendo ser significante, se tamanho for > 30 cm, ou insignificante, se < 20 cm.

Árvores mortas pela doença são aquelas que, além de mortas, portam vestígios de terem tido anelamento(s) do tronco pela evolução de lesão(ões) profunda(s), ou por interligamento de cancros ou pelo quebramento do tronco à altura de algum cancro.

A caracterização de cada árvore, com relação à suscetibilidade ao cancro, mesmo que tenha apresentado diferentes tipos, tamanhos e profundidades de lesões e cancros, foi feita com base no sintoma que tenha refletido a sua maior suscetibilidade. Em ordem decrescente de suscetibilidade, a relação dos parâmetros/sintomas é a que se segue: mortalidade pela doença; lesão profunda, alta, significante; cancro alto, significante; lesão profunda, basal, significante; cancro alto insignificante; cancro basal, significante; lesão superficial, alta, significante; cancro basal, insignificante; lesão superficial, alta, insignificante; lesão superficial, basal, significante; e lesão basal, superficial, insignificante; árvore sadia.

 

CÁLCULO DO ÍNDICE DOENÇA POR INFECÇÕES NATURAIS DE CADA GENÓTIPO, POR SÍTIO, IDADE E PARCELA (IDIN)

IDIN = % PCC (1*) + % MCC (8*) + % LPAS (6*) + % CAS(6*) + % LPBS (4*) + % CBS (4*) + % LPAI (3*) + % CAI(3*) + % LSAS (3*) + % LPBI (2*) + % CBI (2*) + % LSAI (2*) + % LSBS (1,5*) + % LSBI (1*)

* Número entre parênteses é peso multiplicador.

Na fórmula do índice de doença, o peso numérico, entre parênteses, reflete a maior ou menor importância de um parâmetro avaliado, em relação a outro, quanto à suscetibilidade. Para a escolha desse peso numérico, foram levados em consideração aspectos etio-epidemiológicos em que uma lesão profunda ou cancro vale mais do que uma lesão superficial; uma lesão ou cancro em posição alta no tronco vale mais que uma lesão ou cancro em posição basal; e o maior tamanho de uma lesão ou cancro, refletido pela designação significante (> 30 cm), vale mais do que uma lesão ou cancro com menor tamanho, refletido pela designação insignificante (< 20 cm).

O motivo de considerar as lesões profundas altas ou os cancros altos como mais importantes, quanto à suscetibilidade, do que os correspondentes basais, é porque as lesões altas ou os cancros altos são originários de colonização pelo patógeno via inserção de galho, que é um sítio de penetração de baixa eficiência, ou seja, de cada dez inoculações artificiais somente uma, em média, apresenta pegamento da infecção (Ferreira, 2001). Assim, se um genótipo apresentar maior porcentual de plantas com lesões altas do que um outro, ele deve ser considerado mais suscetível. Por outro lado, o início das lesões e dos cancros basais pode ser bem mais afetado por fatores abióticos, haja vista que em genótipos já conhecidos como suscetíveis ou moderadamente suscetíveis o porcentual de árvores com lesões ou cancros basais é bem maior do que o porcentual de árvores com lesões ou cancros altos (Ferreira, 1989). Tal fato se deve à maior freqüência de portas-de-entrada para o patógeno na interface tronco/solo, onde injúrias por temperatura excessiva na superfície do solo e injúrias mecânicas têm maior probabilidade de ocorrerem. Essas injúrias geram porção morta de tecido de casca, por onde o patógeno pode se estabelecer para o início do seu processo infectivo. Ressalta-se que C. cubensis não penetra por periderme intacta de eucalipto, mas o faz com eficiência se a defesa dada pela periderme for quebrada por eventos abióticos (Ferreira, 2001).

Com o levantamento feito em cada repetição (parcela) de determinado genótipo, obteve-se um porcentual médio de cada parâmetro avaliado, que consta na fórmula do cálculo do IDIN. Cada clone teve o seu IDIN médio calculado, e o clone mais suscetível teve o maior IDIN médio (719,2). Para facilitar a comparação de determinado genótipo em relação àquele mais suscetível, o valor do IDIN deste último foi dividido por um fator (7,192) para deixá-lo com valor igual a 100%, e esse mesmo fator dividiu todos os IDINs dos demais clones (Quadro 1).

 

 

Constata-se, no Quadro 1, que o agrupamento dos clones nas categorias AS (altamente suscetíveis ) ou MS (moderadamente suscetíveis), ou MR (moderadamente resistentes), ou AR (altamente resistentes) muitas vezes deixa a desejar, quando se comparam os valores dos IDINs do (s) último(s) clone (s) de alguma categoria com o (s) do (s) primeiro (s) da próxima. Todavia, individualmente, uma categoria agrupa genótipos cuja média de seus IDINs foi significativamente diferente da das demais, mediante o teste de contraste de médias.

Os clones a serem usados no controle do cancro do eucalipto por resistência de plantas, na forma de plantios iniciais ou de reposição florestal, pós-corte raso, em locais ecologicamente análogos ao sítio em que se realizou a avaliação, deverão ser aqueles selecionáveis dentro das categorias MR e AR (Quadro 1) como portadores de melhores desempenhos silviculturais e de qualidade da madeira para a finalidade-destino.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 1.9.2003 e aceito para publicação em 30.4.2004.

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