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Religião & Sociedade

Print version ISSN 0100-8587

Relig. soc. vol.28 no.1 Rio de Janeiro July 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-85872008000100001 

EDITORIAL

 

 

A sociedade contemporânea tem como uma de suas principais marcas a fluidez. Amplos setores da população migram abandonando seus territórios tradicionais para viver em outras regiões do globo; mercadorias e capitais movimentam a economia; cada vez é mais freqüente fluxos de valores e de padrões de comportamento; novas fontes identitárias se tornam visíveis, bem como novas modalidades de pertencimento social. No que diz respeito às religiões, percebe-se, de um lado, o surgimento de uma transitividade insuspeitada das práticas, algo que parece dissolver fronteiras que, no Brasil, são particularmente porosas; de outro, surgem novas dinâmicas de apego e enraizamento social.

Os artigos que compõem este número da revista Religião e Sociedade estão voltados para a temática acima enunciada, sendo que boa parte deles foi apresentada, em sua versão inicial, no Seminário Internacional "Religião e Deslocamentos", realizado em setembro de 2006, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Os diferentes artigos discutem processos e situações de deslocamento em suas várias acepções: grupos que estão "fora de lugar" – no sentido duplo, "movido de um lugar para outro" e "desencaixado", "desordenado", "desorganizado". Nos três primeiros estudos, a religião oferece um referencial simbólico que minora os efeitos do deslocamento para a população migrante, criando um referencial simbólico que pode ajudar tanto na vinculação ao novo lugar quanto à revalorização e reinterpretação da identidade de origem, ou ainda propiciar identificação com a sociedade global.

Andre Droogers, no artigo "Religião, Identidade e Segurança entre Imigrantes Luteranos da Pomerânia no Espírito Santo (1880-2005)", discute o papel do luteranismo na comunidade pomerana que se estabeleceu no Espírito Santo no século XIX. O autor sustenta que a comunidade pomerana encontra na religião suporte para a manutenção de sua identidade étnica, sua memória e raiz comum. Ou seja, a religião oferece uma determinada transitividade de tempo e lugar: ela não apenas integra os pomeranos entre si, mas os vincula à terra que seus antepassados tiveram que deixar para trás.

Juliette Koning, no artigo "Novo Nascimento Cristão: uma nova identidade? Conversão, etnicidade e cidadania na Indonésia", sugere que, ao contrário dos pomeranos no Brasil, uma população de descendentes de imigrantes chineses que reside há várias gerações na Indonésia persiste, através da adesão religiosa, em uma política de memória "fora de lugar", ou seja, como um grupo "nacionalmente deslocado" – mas integrado em uma rede social global. Abandonando o confucionismo, a religião de origem na China, eles aderem a uma versão do pentecostalismo na Indonésia, que a autora denomina "pentecostalismo carismático" e "evangelho da saúde e prosperidade", e encontram ali as referências discursivas e de valores que justificam sua afluência e motivação para dar continuidade a seus projetos de ascensão social.

O caso dos brasileiros que imigraram para o Suriname na década de 1990 se distingue dos acima por ser um fenômeno recente. Marjo de Theije, no artigo "Deus e Ouro: sobre a relação entre prosperidade, moralidade e religião nos garimpos de ouro do Suriname", descreve como, no seu trabalho de campo, encontrou uma concepção de religião geral, um discurso comum que valoriza a fé e adoção de moral religiosa, independente da vinculação confessional cristã. As pessoas do garimpo freqüentam uma igreja ou outra mais em função do idioma ou proximidade geográfica do que por outra razão doutrinal ou cosmológica. As igrejas acabam reunindo alguns brasileiros pelo idioma, estabelecendo uma identidade frouxa e também sempre em vias de se dissolver, uma vez que está presente no horizonte de vida de boa parte dos "crentes" a busca de ouro e de melhora econômica.

No entanto, deslocamentos religiosos não seguem apenas os fluxos migratórios. Religiões universalistas, como o cristianismo, surgem buscando transcender o local e motivam, desde sua origem, deslocamentos rituais ou missionários. No quarto artigo, Bernardo Lewgoy se detém sobre o espiritismo kardecista, auto-identificado como uma versão do cristianismo e também constituído como uma religião transnacional. Proveniente da França, esse tipo de espiritismo se adaptou ao Brasil, e atualmente se globaliza com feições brasileiras. Segundo Bernardo Lewgoy, o espiritismo vive uma nova fase transnacional: cresce especialmente nos Estados Unidos, seguindo a diáspora brasileira naquele país.

A transnacionalização religiosa é ainda discutida no artigo "Peregrinação, Turismo e Nova Era: rotas de Santiago de Compostela no Brasil" de Carlos Steil e Sandra de Sá Carneiro, que aborda o surgimento recente de diversos roteiros de peregrinação religiosa no Brasil inspirados no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Esses "caminhos" brasileiros vêm responder às demandas de experiências rituais vinculadas a deslocamentos geográficos. Através da descrição desses caminhos, os autores procuram relacioná-los a uma busca espiritual ampla, que tem sido identificada como Nova Era e com um tipo de catolicismo desinstitucionalizado.

No artigo "Deslocamentos em dois cortejos processionais católicos", Bartolomeu Tito Figueroa analisa a procissão de São Sebastião no Rio de Janeiro, onde ocorrem diversos tipos de deslocamentos rituais que refletiriam "a transitividade presente nos diversos tipos de comportamento religioso no Brasil". A procissão, ao deslocar a religião da esfera privada para a pública, foge ao controle e abre espaço para os grupos que a hierarquia católica consideraria "deslocados", afirma o autor. De modo exemplar, nessa procissão se encontram o "povo de santo", "ostentando suas guias e outros adereços rituais" e "os grupos gays que, como Laura de Visón, acompanham a procissão travestidos".

Em "Como Juazeiro do Norte se tornou a Terra da Mãe de Deus: penitência, ethos de misericórdia e identidade do lugar", Roberta Carneiro de Campos descreve e analisa, com uma atenção etnográfica primorosa, narrativas dos "Ave de Jesus". Inadaptado ao mundo contemporâneo e desprovido da mobilidade das experiências religiosas acima discutidas, esse grupo realiza outros tipos de deslocamento. Ao invés de peregrinações para os locais santos do cristianismo, deslocam em suas narrativas os locais santos para a sua terra, ou seja, identificam Jerusalém ao Juazeiro, Jesus Cristo ao Padre Cícero.

Por fim, no artigo "Entre a casa e a roça: trajetórias de socialização no candomblé de habitantes de bairros populares em Salvador", Miriam Rabelo contribui para o debate ao demonstrar como noções de pertencimento familiar, de socialização religiosa e pertencimento ao lugar podem estar intrinsecamente vinculadas, implodindo noções de fronteira entre religioso e não religioso. A autora descreve como as entidades do candomblé, atravessando os vários planos do mundo, constituem linhagens perigosas de se negar e romper, tanto pelos filhos do santo como para aqueles afastados do culto.

Seguem, aos artigos, as resenhas sobre dois livros que tocam em questões inquietantes: "Ciencias Sociales y Religion em America Latina: perspectivas em debate", de Cesar Cernadas e Maria Julia Carozzi, e "Intolerância Religiosa: impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro", de Vagner Gonçalves da Silva. Boa leitura!