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Religião & Sociedade

Print version ISSN 0100-8587

Relig. soc. vol.28 no.1 Rio de Janeiro July 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-85872008000100004 

ARTIGO

 

Ouro e Deus: sobre a relação entre prosperidade, moralidade e religião nos campos de ouro do Suriname1

 

 

Marjo de Theije

 

 


RESUMO

Religião e ouro articulam-se de forma significativa nas narrativas fundadoras da comunidade brasileira de garimpeiros de Benzdorp, no interior do Suriname. Numa área de exploração de ouro em pequena escala, perto do Rio Lawa, um bordel (cabaré) marcou a primeira ocupação da área. Alguns anos depois, esse mesmo bordel virou uma igreja e esse fato inusitado acrescenta mais um elemento da economia moral da cultura do garimpo: a prostituição. Este texto explora a relação entre prosperidade e moralidade (marital e sexual) nos campos de ouro, e o papel das instituições, práticas e idéias religiosas no imaginário do bem-estar, sorte, riqueza súbita e a experiência de ser capturado por círculos viciosos de trabalho duro e consumo conspícuo.

Palavras-chave: Suriname, migração, garimpo, ouro, crenças.


ABSTRACT

Religion and gold articulate in a significant way in the founding story of the Brazilian garimpeiro community Benzdorp, in the inlands of Suriname. In an area of small-scale gold mining near the Lawa River, a brothel marked the first settlement. Few years later, the same brothel became a church, and this remarkable fact adds yet another element to the moral economy of garimpo culture: prostitution. This paper explores the relation between prosperity and (marital and sexual) morality in the gold fields, and the role of religious institutions, practices and ideas in the imagery of wellbeing, luck, striking rich and being caught up in vicious circles of working hard and conspicuous consumption.

Keywords: Suriname, migration, garimpo, gold, beliefs.


 

 

Introdução

Aconteceu no ano 2000. Expulsos da região por um grupo de surinamenses, os brasileiros foram perseguidos até a pista de aterrissagem à beira do rio, onde ficavam as canoas, e entraram em desespero. O que eles poderiam fazer para voltar e recuperar seus pertences? Um deles era a Dona Maria, a quem muitos consideram a fundadora de Benzdorp porque em 1998 foi a primeira a abrir um bar e bordel na região. Dona Maria começou a rezar e prometeu entregar o bordel para ser uma casa de Deus, se os brasileiros pudessem retornar à área de mineração. Assim foi. A polícia veio restaurar a lei e a ordem e os garimpeiros voltaram para seus locais de trabalho e o cabaré mais antigo de Benzdorp se tornou uma igreja da Assembléia de Deus.

Escutei muitas versões da história contada acima e várias pessoas não mencionaram a promessa de Dona Maria. Ao invés disso, enfatizaram outros elementos, como a difícil relação, de que tudo isso era uma conseqüência, entre os brasileiros e a população local ou a forte união entre os brasileiros que os fez fretar um avião e sair da região, ou o impressionante fato de ter sido essa a primeira vez que policiais surinamenses vieram ao local.2 Mas o fato do templo da Assembléia de Deus ter sido anteriormente um bordel de propriedade de Dona Maria é algo usualmente conhecido e freqüentemente mencionado – inclusive pelas pessoas que chegaram à vila anos depois desses acontecimentos. A própria Dona Maria ameniza o conflito com os Aluku e resume: "Eu não fui muito bem tratada. Aí eu fiquei um pouco injuriada, eu digo: 'eu acho que é por causa dessa boate que isso está acontecendo, aqui comigo; vou desfazer dela e fazer uma casa de oração, que eu tenho certeza, nessa casa de oração, todo o tempo Deus vai estar com a gente. E nada disse acontece, nem com nós, nem com ninguém mais daqui'." Ela chamou uma amiga em Paramaribo que era envolvida com a igreja para vir e se encarregar da organização da primeira igreja de Benzdorp.3

Religião e ouro estão conectados de forma significativa nessa narrativa fundadora da comunidade de garimpeiros de Benzdorp. O surgimento de um povoado em volta de um bordel, numa área de mineração de pequena escala, não é provavelmente tão excepcional. Um bordel que passa a ser uma igreja é, entretanto, notável e parece sintetizar dois elementos importantes da vida do garimpeiro: prostituição e crença religiosa. Nesse texto, irei me concentrar no segundo elemento. Começarei com uma breve descrição do garimpo no Suriname e seguirei explorando a relação entre prosperidade e moralidade nos campos de ouro, como também o papel de instituições, práticas e idéias religiosas na cultura do garimpo.

A mineração de ouro é uma ocupação e um estilo de vida que está associado a um rico imaginário de bem-estar, sorte, riqueza súbita e a experiência de estar capturado em círculos viciosos de trabalho duro e consumo conspícuo (cf. De Boeck 1998). Idéias religiosas desempenham um papel significativo nas interpretações que muitos garimpeiros fazem da sua própria situação e a de outros. No que diz respeito à relação entre Deus e ouro, destacam-se três aspectos dessa religiosidade. Primeiramente, idéias cristãs predominam de forma generalizada e raramente são conectadas à religião institucional, a igrejas específicas ou a regras muito estritas de conduta. Garimpeiros que são identificados como crentes são tratados com respeito por todos – independentemente de sua igreja ou filiação –, e seu estilo de vida às vezes também serve como explicação para sua eventual prosperidade, uma vez que geralmente sabem melhor administrar seus ganhos, porque não gastam tudo o que têm na farra. As diferenças religiosas são em grande parte apagadas, num contexto com infra-estrutura religiosa tão limitada. Em segundo lugar, extrair ouro da terra não é uma atividade comum e os homens precisam levar em conta tanto a qualidade do ouro quanto a interferência de Deus em sua empreitada, para ganhar acesso às riquezas minerais. Em terceiro lugar, a interferência de Deus nas vidas dos garimpeiros volta-se para o campo do comportamento moral, de maneira específica se concentra na conduta sexual e fidelidade conjugal. Começarei com uma breve introdução sobre a presença de mineradores brasileiros, os garimpeiros, no Suriname.

 

Garimpeiros brasileiros no Suriname

O conflito que culminou nos eventos descritos acima revela a difícil relação entre garimpeiros brasileiros e a população local, no começo da recente corrida do ouro nos campos de ouro perto do Rio Lawa, um afluente do Rio Maroni que delimita a fronteira entre o Suriname e a Guiana Francesa. Aos primeiros brasileiros que aí chegaram não era permitido que usassem suas próprias máquinas, e eles só podiam trabalhar como trabalhadores assalariados ou "porcentistas" para os empresários surinamenses que se diziam donos da terra. Esses eram os Aluku, uma tribo de quilombolas (maroons, chamados de 'os homens da terra' pelos brasileiros) da área circundante, usualmente do outro lado (francês) do Rio Lawa.

Além das reivindicações dos Aluku para trabalhar na área, a região havia sido fechada para os garimpeiros brasileiros por vários anos também por causa das atividades de uma companhia de mineração, a Golden Star, que tendo recebido das companhias surinamesas Nana Resources e a Grassalco, parte da semi-estatal do mesmo nome, o direito de explorar a concessão de Antino, realizava prospecção científica para avaliar a possibilidade da mineração de grande porte na região. A Golden Star não queria que os garimpeiros atrapalhassem suas atividades por isso fecharam a área. No entanto, em 1998 as atividades da Golden Star chegaram ao fim e a Nana Resources abriu a concessão para os empresários brasileiros e suas equipes de trabalho. Foi durante essa época também que a Dona Maria, que tinha ido ao Suriname para trabalhar como cozinheira para os garimpeiros, abriu seu primeiro bar no ponto que se tornaria a 'currutela' (vila dos garimpeiros) chamada de Benzdorp4, nos anos seguintes.

Os brasileiros começaram a vir para o Suriname no início dos anos noventa, mas o pico da migração ocorreu no ano de 1997. As primeiras áreas de garimpo eram relativamente próximas de Paramaribo e durante essa época os brasileiros também trabalhavam em balsas nos rios. Somente depois eles iriam para locais mais remotos, como as concessões de Antino e Grassalco. Na década passada, dezenas de milhares de brasileiros vieram para o país e para a Guiana e Guiana Francesa.5 Segundo o Censo de 2005, a estimativa era de quase 20.000 no mesmo ano (Algemeen Bureau Voor De Statistiek 2006); de qualquer forma estamos falando de uma população considerável. A maioria desses imigrantes brasileiros chega ao Suriname à procura de ouro ou estão envolvidos em atividades relacionadas, como comércio ou prostituição, e começam suas vidas na fronteira dentro da mata, apesar de estarem se locomovendo para a capital do país também, cada vez mais. Isso acontece predominantemente com trabalhadores manuais e camponeses que não são legalizados e que trabalham fora dos circuitos registrados e monitorados dos centros urbanos. A maioria desses imigrantes não estudou muito e vem das áreas mais pobres do Brasil, e muitos também já migraram dentro do Brasil, antes de se mudar para o Suriname, a Guiana ou Guiana Francesa.6

A forma mais comum de extrair ouro do solo, na área de Antino, é pelo método hidráulico. Depois de limpar a área, se escava um barranco na terra mineralizada. A operação é feita com um par de máquinas ('chupadeiras'), um conjunto de dois motores, uma bomba de sucção de cascalho e uma bomba de água para o 'bico jato', mangueiras diversas, e caixas. Com o 'bico jato' se efetua o desmonte hidráulico do barranco, com a outra bomba se faz a sucção do cascalho aurífero que se envia para caixas de madeira chamadas de 'sluice box7'. Após um período de tempo variável em que as caixas (sluice box) são alimentadas, segue a chamada 'despescagem'. Adiciona-se o mercúrio para amalgamar o ouro que se concentrou na caixa, se fazendo a limpeza e depois a queima. Esse método é usado no 'baixão', as partes baixas da região, perto dos rios e córregos. Para trabalhar num barranco você precisa de pelo menos quatro pessoas, mas dependendo das máquinas e do grau de mecanização, a força de trabalho pode chegar a oito pessoas, incluindo os operadores das escavadoras e tratores. Dois homens manobram o 'bico jato'. Estes são chamados de 'jateiros' e o seu trabalho é considerado o melhor, "porque eles trabalham deitados", já que a correnteza de água é tão forte que eles precisam usar seu próprio peso para controlá-la. O peão que opera a mangueira de sucção, o 'maraqueiro', pode ter um trabalho menos árduo, mas ele passa o dia inteiro em pé na água, o que faz a sua tarefa penosa e também causa problemas de pele. O trabalho mais duro é o do 'raizeiro', aquele que tem que recolher as pedras e grandes pedaços de qualquer outro material que possam ter caído dentro do barranco e ameacem obstruir a mangueira. O raizeiro também passa o dia todo na água, mas, além disso, precisa inclinar-se para baixo constantemente, recolher e jogar fora pedras grandes e pesadas (para descrições mais detalhadas veja Cleary 1990; Healy & Heemskerk 2005; Macmillan 1995; Veiga, Silva & Hinton 2002).8

Geralmente os trabalhadores moram perto do barranco, na floresta, junto com os donos das maquinas, às vezes com a esposa deste e uma cozinheira. Os acampamentos diferem consideravelmente; às vezes são muito simples, possuindo apenas um teto para colocar as redes, mas dependendo da prosperidade do dono do acampamento, também pode haver construções de madeira e objetos de luxo, como freezers, televisões com antena parabólica, um rádio para se comunicar e uma caminhonete. Normalmente os acampamentos estão a horas de distância uns dos outros e da currutela, e os trabalhadores são capazes de viver meses isolados em seus acampamentos. A currutela Benzdorp, que tinha já por volta de 120 casas em 2006, é onde permanecem as pessoas envolvidas indiretamente na economia gerada pela mineração, tais como os fornecedores de serviços em geral, transporte, mecânica, serradores e trabalhadores de construção, um dentista e as profissionais do sexo. Na currutela também ficam as lojas e bares e, last but not least, as duas igrejas dessa área de mineração.

 

Religião em geral: a não relevância das diferenças confessionais

Dona Maria não ofereceu seu presente a nenhuma denominação particular. Ela doou seu cabaré para a comunidade, para que ele fosse uma igreja. Ou, nas palavras de um crente que me contou a história, para Deus.9 O fato de ter se tornado um templo da Assembléia de Deus foi mais uma coincidência. Havia uma pessoa disponível para assumir a liderança- ele era um crente que estava trabalhando como garçom em um cabaré em Benzdorp, e organizava reuniões religiosas de vez em quando, e assim a cabana de madeira virou uma igreja da Assembléia de Deus em 2001. Dois anos depois, outra igreja pentecostal brasileira foi construída no local, a Deus é Amor, devido ao trabalho missionário dessa igreja que começara alguns anos antes em Paramaribo.

A dádiva generalizada de Dona Maria me faz lembrar as respostas que muitos garimpeiros deram quando eu lhes perguntava sobre suas atividades religiosas. Muitos dizem que eles são religiosos, mas não distinguem muito bem as denominações e dizem: "eu gosto de todas". Quando há oportunidade de participar de um culto eles participam, independente do tipo de encontro religioso em questão. Isso acontece mais entre os diferentes grupos evangélicos, mas também acontece do catolicismo para o pentecostalismo – entretanto, não ouvi falar de nenhum caso em que isso tenha acontecido na direção contrária.

Nos anos 80 e início dos 90, os primeiros brasileiros em Paramaribo freqüentavam missas católicas faladas em holandês. Hoje em dia existem dois padres católicos brasileiros que organizam uma paróquia na capital, membros da Congregação Missionária Redentorista que chegaram ao Suriname em 2001 para substituir os frades redentoristas holandeses, os quais serviram os católicos surinameses durante décadas. As igrejas pentecostais brasileiras iniciaram sua missão no final dos anos noventa. Em Combé, outra parte da capital Suriname, há uma igreja Deus é Amor que foi fundada em 1998 por missionários brasileiros. Também existe uma igreja da Assembléia de Deus que está associada às Comunidades Surinameses de Deus (Surinamese Gemeenten), mas com um pastor brasileiro. Por último também há uma missão da Igreja Batista com o envolvimento de missionários brasileiros. Depois das primeiras igrejas na cidade, várias igrejas pentecostais foram fundadas nos principais garimpos, como em Benzdorp.

É muito difícil para os garimpeiros participarem regularmente dos encontros religiosos, porque existem alguns impedimentos importantes. Primeiramente há a falta de tempo. A maioria dos homens trabalha 12 horas por dia, e incluindo o tempo de comer e tomar banho, não lhes resta muito tempo para outras atividades. Em segundo lugar, devido à distância das áreas de mineração em relação às igrejas os garimpeiros precisam de transporte o que custa caro. Ir de moto-táxi do acampamento de Antino, onde eu estava hospedada, para a currutela custa três gramas de ouro, a ida e volta são, portanto, 6 gramas.10 Para uma pessoa que ganha de 15 a 20 gramas por semana, 6 gramas seria 30% do seu salário. Um irmão me contou que antes dele ir para o acampamento em Antino, trabalhava em um lugar muito mais distante da currutela, e o táxi custava de 25 a 30 gramas, uma quantia tal que tornaria ridícula a ida até lá.

Além disso, para os brasileiros que vivem no Suriname, o fato de não falarem as línguas locais é um obstáculo para sua participação religiosa nas congregações surinamenses. Os católicos costumavam freqüentar uma das paróquias em Paramaribo, onde havia uma missa semanal em espanhol, a língua mais próxima do português. Recentemente uma freira, que fala português, e os padres brasileiros começaram informalmente a organizar uma missa em português, uma ou duas vezes por mês, em Tourtonne. Entretanto, oferecer missas especiais para as comunidades de imigrantes não é prioridade para a Igreja católica do Suriname. A política da igreja, que prevalece, é a de integração e os padres brasileiros aprenderam holandês, a língua oficial do país, e são responsáveis por uma paróquia onde poucos brasileiros freqüentam. A política pentecostal em relação à língua é oposta. Todos os serviços religiosos pentecostais brasileiros são ministrados em português e os pastores pentecostais não falam nem holandês nem Sranantongo – a língua coloquial de Suriname. Vários brasileiros, que já estavam vivendo no Suriname por muitos anos e haviam se tornado membros das igrejas surinamenses, agora atraídos pela língua portuguesa que é falada nas igrejas pentecostais passam a ser membros da Deus é Amor ou da Assembléia de Deus.

A língua se torna o principal critério no que diz respeito à participação religiosa. Diversos brasileiros que se identificam como católicos vão, às vezes, "visitar" uma igreja pentecostal. Eles não se convertem nem se consideram membros dessas igrejas, mas gostam do "louvar a Deus, rezar, e ouvir a Palavra". Como disse um dos garimpeiros: "Para conseguir esse objetivo, eu entro em qualquer igreja".11 Nesse sentido, a língua é mais importante do que a tradição religiosa da reza ou da pregação. A mistura de diferentes tradições religiosas, tão característica da religiosidade popular brasileira, se torna ainda mais razoável na situação em vive essa população como imigrantes que não falam a língua do país em que vivem.

Essa concepção de uma religião num sentido genérico, em que se relevam as distinções confessionais, também se expressa na forma respeitosa pela qual os membros das igrejas pentecostais são tratados, tanto por correligionários como por não pentecostais, como "irmão" e "irmã" (um costume também observado no Brasil). Devo destacar que todo mundo na comunidade de garimpeiros tem um apelido e, muitas vezes, as pessoas não sabem os verdadeiros nomes (os dos registros de nascimento) uma das outras. Um entrevistado, que era conhecido apenas como "irmão", me explicou que ganhou esse apelido, não por ser um membro muito ativo da comunidade pentecostal local, mas porque os colegas da primeira equipe, com quem trabalhou na área, gostavam muito de beber e dançar, e como ele era o único que não participava das farras, passou a ser chamado de Irmão.12 Nessa perspectiva, ser definida como "pessoa religiosa" é ser incluída em uma categoria social que possui atributos morais. O crente se opõe aos garimpeiros que adoram viver em festas. Por extensão, o crente terá mais chance de sucesso nos campos de ouro por não gastar seu dinheiro em bebida, cigarro e mulheres, sendo, portanto, o oposto daquele que jamais ficará rico porque gasta tudo o que ganha.

Em outro artigo defendo a idéia de que as atividades religiosas dos brasileiros no Suriname não levam à formação de comunidades religiosas institucionalizadas e estáveis (Theije 2006; 2007). A língua se torna o atrativo principal e é tão importante que as diferenças religiosas confessionais tornam-se menos relevantes. No garimpo, a distinção importante é entre pessoas religiosas e não-religiosas, e uma identidade religiosa era uma forte explicação para o comportamento de consumo. Prosperidade e sucesso estão assim associados a um estilo de vida abstêmio característico da religiosidade evangélica. Todavia, não é somente em termos de conduta religiosa que ouro, religião e prosperidade estão conectados na cultura do garimpo. Na próxima seção irei focalizar as estórias que as pessoas contam sobre sorte, prosperidade e Deus.

 

Deus e ouro

No discurso dos garimpeiros a motivação deles para vir para o Suriname e passar por todas as dificuldades e problemas que encontram é basicamente econômica. Entretanto, extrair ouro não é uma atividade comum e muitas crenças existem com relação à natureza do ouro e como que se faz para encontrá-lo. O ouro não é um mineral facilmente encontrado, não se encontra prosperidade sem esforço. É preciso "fazer ouro". Mais que isso, mesmo quando há muito esforço, o sucesso não é garantido.

O ouro parece fazer alguma coisa com o homem que o encontrou. É um trabalho duro e nem todo mundo é forte o suficiente para suportar o trabalho árduo do garimpo. Sem sorte, ninguém fica rico nos campos de ouro. Entretanto, também é preciso saber como gerenciar o ouro que você encontra.13 Como diz o gerente de uma Compra de Ouro em Paramaribo: "(...) a maioria que já vi, ele perde tudo em pouco tempo. Eu não sei o que acontece, sobe à cabeça e ele acha que ele vai fazer de novo rápido. Ele não faz mais." Na busca por 'fazer ouro', os homens encontram inúmeros obstáculos, como a malária, a violência nos campos de ouro, e a insegurança devido à situação ilegal dos garimpeiros sem documentos. Várias mulheres justificavam a sua entrega a Deus nesse contexto: os homens precisam da paz de Deus para sobreviver a circunstâncias tão difíceis. Muitos que migram para os campos de ouro do Suriname se convertem ao Pentecostalismo.14 Isso acontece mais com as pessoas que vêm viver na currutela, onde os serviços religiosos são mais facilmente acessíveis, com a presença de dois pastores e uma pequena comunidade de praticantes. Isso aconteceu, por exemplo, com Ines e Josefina, que quando ainda estavam no Brasil eram católicas, mas agora dizem "conheci Jesus", "eu encontrei Jesus". Josefina vai orar todas às noites depois que o marido chega do seu barranco, perto da currutela, e a substitui no bar que ela gerencia no Benzdorp. Às vezes só tem três ou quatro outras mulheres, mas ela quase nunca deixa de ir à igreja Deus é Amor. Ines era uma fiel integrante da Assembléia desde que veio morar na currutela, há dois anos, mas agora que mudou para o barranco para morar com o marido, a 3 horas de distância de carro floresta a dentro, não participa mais da comunidade religiosa.

É importante sinalizar que o ouro não é apenas uma mercadoria; há algo a mais – apesar de ser difícil explicar o que seja. Paraná, que mora no Suriname já há mais de 15 anos, tentou explicar com as seguintes palavras: "Porque ouro é ouro, ouro é uma usura. Você pode deixar um quilo de ouro aqui e dez mil dólares (US). Parece que o ouro vale muito mais do que aquele dinheiro que está ali. Pode ser o volume igual mas a pessoa passa por cima do dinheiro, e pega o ouro e deixa o dinheiro. A intuição do ouro, o ouro é, desperta muito sabe."15 A partir dessas palavras podemos ter uma idéia da mistificação do ouro e sua natureza de fetiche. O ouro é uma entidade por si só, parece ter vontade própria e conseqüentemente não é unicamente produto proveniente do trabalho duro dos homens. Isso faz o antropólogo pensar na associação com o demoníaco feita pelos camponeses colombianos descritos por Taussig (1980). Esse autor argumenta que o capitalismo é fetichizado através da "atribuição de vida, autonomia, poder e até mesmo dominância a objetos inanimados, pressupondo a extração dessas qualidades dos atores humanos que exercem tal atribuição" (Taussig 1980:31).

Para os garimpeiros brasileiros, o ouro é mais indiretamente investido de características humanas – ou será que devemos dizer mágicas ou similares a Deus? A independência do ouro significa que ele pode se mover se não quer ser encontrado por determinado garimpeiro. Existem inúmeras histórias sobre o ouro encontrado por garimpeiros em um local, onde depois os garimpeiros foram expulsos por algum motivo, somente para o agressor descobrir que o ouro não estava mais lá. Em contos de mineradores da Amazônia, Slater (1994) percebe que o ouro decide se ele será encontrado e por quem. "Porque é assim que é o ouro (...). O ouro decide, e só ele sabe quando e mesmo se irá aparecer" (1994:725). As características inerentes ao ouro – que explicam a atração que exerce – parecem ir além do explicável, e talvez esse seja o motivo pelo qual ele também causa temor. "Muitos dizem outras coisas, tais como: 'ouro é amaldiçoado, é encantado'."16

Para grande parte desse imaginário, não é tanto o caráter do ouro como tal que determina a sorte e a fortuna dos garimpeiros. Pelo contrário, em muitos dos contos, é Deus quem provê o ouro aos garimpeiros, "porque Ele é o dono do ouro e da prata e em qualquer lugar Ele os oferece."17 A maioria das vezes, as pessoas expressam esse poder de Deus em termos bem gerais, como por exemplo, "Para Ele, tudo é possível."18 Para muitos garimpeiros, o destino do homem que faz ouro está nas mãos de Deus. Isso explica porque que "Muitos que têm sucesso não crescem e outros que querem crescer não têm sucesso (...)" como disse Leonardo, um garimpeiro de Marabá.19

Porque eu acho que só mesmo Deus quem possa (...) às vezes Deus dá para ti, mas porque tu não fazes nada com aquilo, não progride, para crescer, aí se acaba. Outros, que querem [crescer], Deus [decide] 'Eu não vou te dar isso', mas aí tu vai querer algo melhor na frente. Então, eu acho que é isso que acontece, só Deus mesmo pode decidir se dá para gente o que a gente precisa e a gente merece, é só Ele mesmo, porque se fosse da vontade da gente, seria muito fácil.

A intervenção de Deus pode ser punitiva também. Uma doença ocular que cegou um minerador é explicada por muitos como um castigo pelo fato desse homem ter maltratado diversos garimpeiros.

 

Prosperidade e a moralidade da cultura da mineração

Na história do cabaré que virou uma igreja, é interessante notar que Dona Maria não é uma crente muito dedicada – "ela fuma e bebe", como assegurou uma crente. Ninguém a chama de irmã Maria; ela é Dona Maria, o que confirma que ela não é reconhecida como crente na comunidade de garimpeiros. Muitos outros garimpeiros são certamente identificados como tais, e eles próprios se identificam primeiramente como crentes. Essas pessoas contaram as histórias em que o papel de Deus no garimpo aparece de maneira notável.

Na área de mineração, especialmente na currutela, as moralidades contrastantes existem em uma coexistência aparentemente pacífica, cabarés ao lado de pequenos templos, às vezes cerimônias religiosas acontecem em casas privadas e bares. No discurso das igrejas pentecostais, o adultério é condenado, mas na prática as prostitutas freqüentam os serviços religiosos. Não obstante a oposição entre gastar e ser religioso, na currutela, ambas as coisas existem ao mesmo tempo. No entanto, para as pessoas religiosas o consumo conspícuo, especialmente o de sexo, constitui uma constante ameaça a sua identidade (pentecostal) e ao acesso à prosperidade do ouro. Os bares, as festas no bingo e especialmente a tentação representada pelas muitas prostitutas que trabalham no garimpo causam um risco à fidelidade conjugal e conseqüentemente uma mudança no bem estar material. As relações sexuais são uma esfera da vida onde o diabo tenta o crente pentecostal (relembrar a história da calcinha sexy em Meyer 1998), e consequentemente a infidelidade é o maior obstáculo à prosperidade.

Essa articulação entre sexualidade descontrolada e o sucesso na mineração aparece repetidamente nos testemunhos religiosos dos migrantes brasileiros. Nas decisões que as pessoas tomam e nas interpretações que fazem de sua sorte e prosperidade, a moralidade desempenha um importante papel explanatório. Mira, uma mulher por volta de seus quarenta e poucos anos, que é crente desde que casou com seu marido há quinze anos, quando os dois trabalhavam em um garimpo em Roraima, estava certa de que "quando um crente comete um erro que Deus condena, ele pagará o preço. A vida do crente é assim."20 Essa foi sua conclusão de uma longa história na qual explicou como a sorte dela e do marido havia mudado, que eles tinham passado bons tempos nos anos em que estiveram no Suriname, conheceram tal prosperidade que conseguiram comprar uma casa em Boa Vista e investir em máquinas para melhorar sua empresa de extração de ouro. Mas também passaram por maus momentos – e agora estavam em um desses maus momentos. Sua história demonstrava que

Deus submeterá a pessoa a provações, ela terá muitas dificuldades, Deus fecha a porta e tudo dá errado: Conta que tem de receber não recebe. Assim ele vai, Deus Ele faz a pessoa se arrepender daquele pecado que ele fez. Somente quando a pessoa se arrepender de coração, pedir perdão e se humilhar aos pés de Deus, é que Deus dará outra vez.

Entretanto, é muito difícil de voltar a Deus dessa forma. O problema foi que seu marido "se desviou, arranjou outra mulher..." Isso também tinha acontecido há muitos anos atrás, e naquela época eles perderam tudo o que tinham, e eles tinham apenas se recuperado daquela crise depois que o marido terminou a relação adúltera e retornou a Deus. Quando eu perguntei a ela se ela achava que o atual azar do seu negócio era resultado do adultério de seu marido, ela não hesitou por um só instante em responder: "É, porque, o crente ... o crente ele sabe disso, quando um crente faz coisas erradas, ele sabe por que está passando por isso."

Todavia, foi difícil para o marido dela voltar a ser um crente verdadeiro de novo. Alguns meses atrás, quando o irmão dele quase morreu em um acidente, o marido dela havia retornado a Deus. As pessoas comentavam depois que nunca haviam o visto assim. Entretanto, aparentemente seu ato não foi suficiente, naquele momento, para salvar a vida de seu irmão ferido. Foi apenas quando o jovem foi levado à casa de Mira, aonde chegou 'morto', segundo a versão que ela me contou, ela havia começado uma oração poderosa 'no Espírito', depois de uma noite orando pelo seu cunhado, ele 'ressuscitou'. Embora Mira também descreva seu cunhado como uma pessoa que se 'desviou', ela não associou explicitamente o acidente ao fato dele ter se afastado de Deus. A história inteira serviu como uma ilustração da punição de Deus ao adultério do marido dela. O marido havia trazido o irmão mais novo dele para o Suriname apenas dois anos antes e se sentia responsável por ele e culpado pelo sofrimento da mãe deles, caso algo acontecesse a ele.

A mensagem que aparece nessas historias é que Deus exige uma boa moral e desrespeitar suas leis de conduta traz má sorte e azar. Por outro lado, menos rígido, Deus pode trazer ouro no caminho do garimpeiro-crente, dando-lhe prosperidade, mas isso não é uma certeza. Permanece sempre grande imponderabilidade, que pode ser exatamente o motivo das pessoas procurarem explicações religiosas e modelos de comportamento para lidarem com a incerteza. A aceitação de um sistema moral que promete proteção celeste na busca por uma vida próspera pode ser um meio de exorcizar parte da insegurança da vida de garimpo do migrante. Como tal, esse argumento não é nada diferente do que se conhece sobre evangélicos no Brasil e especialmente sobre a teologia de prosperidade em diferentes contextos (Veja e.g. Machado 1998; Mariano 1996; Mariz 1997, 1998; Mariz & Machado 1997).21 O vínculo entre boa conduta moral e prosperidade é um campo rico de imaginação aplicado a muitas áreas da sociedade, como demonstrou Mafra (2006) em um eloqüente argumento sobre a maneira como a adesão ao 'Pacto Moral' construído por um político pentecostal na Amazônia transforma habitantes individuais em cidadãos de uma cidade que prosperará.

A história da Mira nos mostra que, entre os garimpeiros brasileiros no Suriname, os sinais de "desvio" perante a vontade de Deus são amplamente restritos à conduta moral com relação a mulheres e casamento e no campo das relações sexuais em geral. No contexto de uma comunidade de garimpo onde há três ou quatro vezes mais homens do que mulheres, e onde praticamente a metade dessas mulheres é profissional do sexo, isso não deve ser uma surpresa. Aparentemente, a relação entre homens e mulheres é considerada problemática e exige atenção especial nessas circunstâncias. Isso reafirma a análise de Candace Slater sobre os contos dos mineradores na Amazônia brasileira, que mostra como o ouro normalmente assume as características de uma mulher – que escolhe o garimpeiro que ela fará feliz (1994). Relações entre os sexos e prosperidade nos campos de ouro convergem no sistema moral e nas idéias com relação à natureza do ouro e à sua prospecção.

 

Conclusão

A exploração de ouro é uma ocupação e um estilo de vida que está associado a um rico imaginário de bem estar, sorte, riqueza súbita e a experiência de estar capturado em círculos viciosos de trabalho duro e consumo conspícuo. As idéias religiosas ocupam um papel significativo nas interpretações que muitos garimpeiros imprimem à sua situação atual como de à de outros. No que tange a relação entre Deus e ouro, três aspectos dessa religiosidade se destacam. Primeiramente os garimpeiros que são tidos como crentes são tratados com respeito por todos e seu estilo de vida também serve, às vezes, como explicação para sua eventual prosperidade, já que normalmente sabem como administrar seus ganhos, não gastam tudo o que têm na farra. Em segundo lugar, as diferenças religiosas ficam nebulosas no contexto de uma infra-estrutura religiosa muito limitada. Em terceiro lugar, a interferência de Deus nas vidas dos garimpeiros faz parte do campo do comportamento moral de forma especifica: concentra-se em uma moral de fidelidade e conduta sexual. A partir do material apresentado nesse texto sugiro que uma análise mais aprofundada sobre essa religiosidade, que se concentra em regras de conduta moral e sexual e nas relações problemáticas entre homens e mulheres, pode lançar alguma luz sobre a forte relação entre Deus, como fornecedor de prosperidade, e o ouro, como a realização concreta ou imaginada da materialização da prosperidade.

 

Referências Bibliográficas

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Notas

1 O título em inglês estabelece um jogo de surtidor entre "gold" e "god", que se perde na tradução (N.E.)
2 Em algumas versões da história o avião foi fretado não para levar os brasileiros ao Paramaribo, mas para buscar os policiais da capital para o local. A polícia só chegou quatro dias depois, durante esse tempo deve ter havido muita confusão.
3 Dona Maria Veloso nasceu em 1948, está no Suriname desde 1995 (entrevista 4 de Novembro de 2006).
4 Benzdorp era originalmente o nome do povoado perto do rio, alguns quilômetros de distância.
5 Dos anos 80 em diante, milhões de brasileiros também migraram para a Guiana Francesa, a procura de trabalhos de construção relacionados ao Kourou Space Centre. 30% da população da Guiana Francesa (total de quase 200.000 2006) é de brasileiros (Arouck 2000) e na outra Guiana vizinha, os brasileiros também trabalham em garimpo de diamante.
6 A maioria dos imigrantes vem dos estados do norte: Pará e Maranhão, e em menor quantidade do Piauí, Tocantins, Amazonas.
7 A palavra 'sluice' pode ser traduzida como canal ou calha que conduz água para lavar ouro, mas os garimpeiros usavam apenas a palavra 'caixa'.
8 Outra forma de garimpagem, que tem crescido bastante nas áreas, é o filão ou mineração de pedras sólida. Nessa análise não me aprofundarei mais nos aspectos técnicos de extração de ouro.
9 Alexandra, que gerencia uma pensão em Paramaribo, veio ao Suriname como missionária da Assembléia de Deus (entrevista 27 de julho de 2006).
10 Quantia que na época equivalia a 90 Euros.
11 Ruidival, 38 anos de idade, garimpeiro (entrevista 9 de Fevereiro de 2006).
12 Irmão era membro da Assembléia de Deus em sua cidade natal no Maranhão (15 de fevereiro de 2006).
13 Paraná, que vive a 12 anos no Suriname, já havia trabalhado com ouro antes no Brasil e na Guiana Francesa (21 de julho de 2006).
14 Eu não tenho material quantitativo. Há uma grande variação no número de freqüência e, devido à mobilidade dos garimpeiros, é difícil definir quantas pessoas poderiam ser consideradas membros dos grupos religiosos.
15 Paraná cometeu um erro aqui porque o quilo de ouro valia muito mais do que 10.000 dólares naquela época, por volta de 15.000 dólares. Entretanto, seu argumento é claro.
16 Entrevista Tonino (fevereiro de 2005).
17 Leonardo, 40 anos, trabalha na concessão Antino, é garimpeiro desde os seus 17 anos (entrevista 12 de fevereiro de 2006).
18 Irmã Inês converteu-se em Benzdorp, 2 anos em garimpo, acompanhou o marido que já trabalha como garimpeiro há 27 anos. Eles trouxeram também seus seis filhos. Nessa entrevista em que ela declarou sua certeza, ela também me contou que ele podia levá-la para me visitar na Holanda (8 de fevereiro de 2006)
19 Leonardo, ver nota 16.
20 Irmã Mira (entrevista 15 de julho de 2006).
21 Os pastores da Igreja Deus e Amor no Suriname também me asseguraram que os problemas dos imigrantes brasileiros são os mesmos que eles encontram em seu país de origem, como pobreza, problemas de saúde, discórdia na família e preocupações com relacionamentos e vida amorosa. As pessoas vão à igreja por causa das dificuldades que elas enfrentam e estão à procura de consolo espiritual.

 

 

Recebido em 20 de setembro de 2007
Aprovado em 28 de abril de 2008

 

 

Marjo de Theije
Associate Professor do departamento de Antropologia Social e Cultural, VU University Amsterdam. Ela recebeu seu PhD na Universidade de Utrecht (Holanda) e também trabalhou na Universidade Federal de Pernambuco, em Recife. É autora de Tudo que é Deus é bom: uma antropologia do catolicismo liberacionista em Garanhuns (Recife: Fundação Joaquim Nabuco / Massangana, 2002) e de vários artigos sobre catolicismo no Brasil. (mem.de.theije@fsw.vu.nl)