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Food Science and Technology

Print version ISSN 0101-2061On-line version ISSN 1678-457X

Ciênc. Tecnol. Aliment. vol. 18 n. 3 Campinas Aug./Oct. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-20611998000300018 

COMPARAÇÃO DOS MÉTODOS OFICIAIS DE ANÁLISE E CROMATOGRÁFICOS PARA A DETERMINAÇÃO DOS TEORES DE ALDEÍDOS E ÁCIDOS EM BEBIDAS ALCOÓLICAS1

 

Ronaldo F. NASCIMENTO2, Jefferson L. CERRONI2, Daniel R. CARDOSO2, Benedito Santos LIMA NETO2, e Douglas W. FRANCO2,*

 

 


RESUMO

É apresentado um estudo comparativo entre os métodos oficiais e cromatográficos para a análise de aldeídos e de ácidos em bebidas alcoólicas. Foram analisadas trinta e cinco amostras de destilados alcoólicos. Com respeito a determinação dos teores totais de aldeídos e de ácidos. Os métodos oficiais e cromatográficos apresentam similar exatidão e reprodutibilidade. Entretanto, apenas os métodos cromatográficos permitem identificar e quantificar os componentes de cada série homologa. As metodologias propostas utilizando as técnicas de cromatografia gasosa e cromatografia líquida são simples, rápidas e apresentam maior sensibilidade que os métodos oficiais sendo aplicáveis também a amostras coloridas.

Palavras-chave: aguardentes, aldeídos, ácidos, análises


SUMMARY

COMPARISION OF OFFICIAL ANALYSIS METHODS AND CHROMATOGRAPHICS FOR THE DETERMINATION OF THE TEORS OF ALDEHYDES AND CARBOXYLIC ACIDS IN ALCOHOLIC BEVERAGES. A comparative study of official and chromatographic methods for the determination of aldehydes and carboxylic acids in alcoholic beverages is reported. The data are based on the analyses of thirty five spirits. Regarding the determination of the total content of aldehydes and acids, both chromatographic and official methods exhibit similar accuracy and reproducibility. However, only the chromatographic methods allow identification and quantification of the components of each homologous series. The proposed methodologies using gas and liquid chromatography are easy to handle, fast and more sensitive than the official methods, being also applicable to colored samples.

Keywords: spirits, aldehydes, acids, analysis


 

 

1 — INTRODUÇÃO

Dentre os métodos de análise empregados para dosagem de aldeídos em bebidas alcoólicas destacam-se os métodos colorimétricos [3,11,15,16] e os métodos iodométricos [6,11,15,19]. Para a dosagem de furfural têm-se os métodos colorimétricos com acetato ou cloreto de anilina [3,11,15,16,20]. Para dosagem de ácidos carboxílicos totais destacam-se os métodos alcalinimétrico [9,14,15,16,19]. Alguns destes procedimentos são utilizados há décadas em laboratórios brasileiros.

Os métodos adotados pelo Ministério da Agricultura [19] para a dosagem de aldeídos e ácidos totais, são os indicados pela A.O.A.C [15]. Estes métodos foram adotados no Brasil, devido a sua aceitação na época por outros países, seu baixo custo, e a facilidade de sua execução mesmo em laboratórios pouco equipados[9]. As metodologias supracitadas, além de não fornecerem resultados confiáveis em amostras coloridas, não permitem a especiação dos analitos, mas apenas quantificar o teor total dos aldeídos e de ácidos, expressando os resultados em função dos componentes majoritários das classes, ou seja acetaldeído e ácido acético. A impossibilidade da determinação dos teores individuais de cada um dos membros da série constitui-se em uma séria desvantagem, pois é sabido que as propriedades químicas e toxicológicas não são as mesmas para todos os membros de uma série homóloga. Este fato é bem conhecido, por exemplo, para a função aldeído. Várias experiências com animais, sobre o caráter carcinogênico de alguns aldeídos, particularmente o formaldeído, acetaldeído e acroleína [1,2,7,10,12,17,24]. O formaldeído é o mais tóxico da série [7,8,10] sendo nocivo à saúde em níveis superiores a 5mg/L. Para o acetaldeído o limite de tolerância é superior a 200 mg/L [17].

A importância atual da caninha no contexto econômico, com o seu elevado consumo, as exigências advindas do crescimento do seu mercado com a exportação para países da Europa, Japão e Estados Unidos, juntamente com a crescente preocupação em proteger o consumidor, demandam que metodologias mais eficientes sejam introduzidas nos laboratórios de controle de qualidade e de referência. No intuito de incentivar a discussão sobre este tema; é apresentado um estudo comparativo entre os métodos oficiais de análise e métodos cromatográficos para análise do teor de aldeídos total, furfural e ácidos carboxílicos total.

 

2 — MATERIAL E MÉTODOS

2.1 – Material

2.1.1 - Reagentes

Todos os reagentes utilizados foram de grau analítico, de procedência Merck, Aldrich e Carlo Erba. Os solventes orgânicos utilizados para cromatografia foram todos de grau HPLC (Carlo Erba, Mallinckodt ou Merck). A água usada foi purificada pelo sistema Milli-Q (Millipore).

2.1.2 - Equipamentos

A análise cromatográfica dos aldeídos foi realizada em cromatográfo líquido-Shimadzu, modelo-LC 10AD, equipado com um injector-Rheodyne (loop de 20 mL), detector espectrofotométrico UV-VIS Shimadzu(diode array, SPD-M6A) e uma coluna C-18 Supelco(150 mm x 6,0 mm d.i; com partículas de 5m m de diâmetro).

A análise cromatográfica dos ácidos foi realizada em cromatógrafo a gás HP (modelo 5890) acoplado a um detetor de ionização de chama (FID) utilizando-se uma coluna capilar HP-FFAP (50 m x 0,2 mm d.i x 0,33 m m de espessura de filme).

2.1.3 - Amostras

As amostras de caninhas, obtidas no comércio e nas destilarias locais, foram: 51, Velho Barreiro, Ypioca Prata, Carangueijo, caninha da Roça, Ypioca Ouro, Pitú, Oncinha, Nega Fulô, Vila Velha, Curvelo, Sertãozinho, Fazenda Isabela, Marília, Pedregulho, ribeirão Bonito, D. Mário, Cambará, caxias b. Gonçalves, Fazenda p. Alegre.

whiskies: Johnie Walker Red Label, Willian Grant’s, Buchanan’s; Drury’s, Black Jack, Tillers, Old Eight, Natu Nobilis, Mark One e Bell’s. Grappa Euganea, Conhaque Courvosier, Rum Havana Club; Vodcas: Stolichnaya e wyboroya. A sequência com os nomes das amostras não corresponde a ordem numérica listada na Tabela 1.

 

TABELA 1. Teores totais de aldeídos (Ald) e ácidos (Ac) na série de bebidas alcóolicas estudadas empregando-se os métodos oficiais de análise (MOFA-Ald, MOFA-Ac) e os métodos cromatográficos (HPLC-Ald, HRGC-Ac).

Amostras

aMOFA-Ald

bHPLC-Ald

aMOFA-Ac

bHRGC-Ac

01p

15,0

12,7

58,5

95,7

02p

11,3

8,94

18,5

33,9

03p

13,7

12,2

133,0

76,3

04p

15,2

14,2

23,7

82,2

05p

17,3

13,3

19,5

46,9

06p

16,1

10,2

39,0

56,4

07p

12,6

9,85

27,0

12,0

08p

15,6

12,7

41,5

54,1

09p

18,7

10,9

19,0

13,7

10p

13,7

11,2

30,0

56,2

11p

4,60

5,10

177,0

207,0

12p

18,3

12,0

26,6

24,6

13p

7,50

12,5

19,5

12,6

14p

25,3

12,7

71,7

109,0

15p

10,5

15,0

34,5

36,5

16p

10,2

9,80

17,5

16,4

17p

28,0

14,0

44,6

37,0

18p

39,0

21,0

256,0

45,6

19p

19,0

14,0

153,0

263,0

20p

16,0

30,0

123,0

95,7

21w

11,2

12,0

46,0

31,7

22w

12,3

9,00

30,6

71,5

23w

20,5

19,0

55,8

43,1

24w

10,7

4,85

16,0

19,9

25w

11,8

5,50

36,0

25,4

26w

18,1

9,10

23,0

13,8

27w

10,7

5,29

32,3

31,2

28w

12,1

7,73

38,4

27,1

29w

13,7

6,00

21,5

27,2

30w

19,2

8,51

32,3

19,0

31G

26,5

35,0

51,6

48,1

32R

24,2

32,6

93,0

63,2

33C

35,2

18,0

55,5

59,9

34v

0,45

0,40

33,0

19,1

35v

1,10

0,70

33,0

22,0

p= pinga, w=whisky, g=grappa, R= rum, c=conhaque e v=vodca

 

2.2 – Métodos

2.2.1 - Método oficial para determinação aldeídos (MOFA-Ald) [19]

Foram adicionados pela ordem e com agitação em um erlenmeyer de 500 mL (com tampa esmerilhada) 50 mL de amostra, 200-250 ml de água destilada e 10 mL de uma solução de metabissulfito de potássio (15g de K2S2O5 dissolvidos em água milli-Q, adicionando-se 70 ml de HCl conc. e completando o volume para 1L). Após o repouso por 15 min com o frasco fechado foram adicionados sob agitação 10 mL de um tampão fosfato/EDTA (sol. 200 g de fosfato trissódico com 4,5 g de EDTA em 1L de água milli-Q), seguido de repouso por 15 min mantendo-se o frasco fechado. Em seguida foram acrescentados 10 mL de solução de HCl(3,1 moles/L) e 4 mL de solução de amido (0,2%). Após agitação adicionou-se iodo, sem excesso,(0,10 mol/L) lentamente, até a solução adquirir coloração azul. Em seguida foram acrescentados 10 mL de uma solução de tampão borato (100 g de ácido bórico com 170 g NaOH para um 1L de água Milli-Q). Finalmente titulou-se a solução com iodo(0.05 mol/L) até o aparecimento de coloração azulada.

2.2.2 - Método oficial para determinação de furfural (MOFA-F)[19]

10 mL da amostra cujo grau alcoólico foi corrigido previamente para 50 ° GL, por adição de etanol 90%, foram adicionados em um becker. Em seguida foram adicionados sob agitação constante e pela ordem 4 gotas de anilina pura e 1 ml de ácido acético glacial. O frasco foi colocado em banho de água por 15 minutos (20° C). Após este período as amostras foram condicionadas á temperatura ambiente e então efetuadas as leituras colorimétricas a 580 nm.

2.2.3 - Método cromatográfico para determinação de aldeídos (HPLC-ALD) [22,23]

Os aldeídos foram analisados nas seguintes condições: Vazão de 1 mL/min. Gradiente de eluição: metanol-água (65:35 v/v) por 6 min, então metanol-água (85:15 v/v) em 4 min, metanol-água (80:20 v/v) em 10 min e metanol-água (65:35 v/v) em 5 min. A detecção das hidrazonas foi realizada por leituras de absorbância a 365 nm.

As soluções padrões das 2,4-dinitrofenilidrazonas (2,4-DNPH) de formaldeído, 5-hidroximetilfurfural, acetaldeído, acroleina, furfural, propionaldeído, n-butiraldeído, benzaldeído, isovaleraldeído, n-valeraldeído), obtidas conforme descrito anteriormente [22,23], foram preparadas pela diluição adequada de suas soluções estoque (1000 mg/L em acetonitrila) em meio hidro-alcoólico 40% v/v. A pureza das hidrazonas (>98%) de aldeídos foi avaliada [23] por ponto de fusão, análise elementar (laboratório de microanálise do Instituto de Química da USP) e por análise cromatográfica (HPLC).

Para a determinação dos aldeídos como seus derivados 2,4-DNPH utilizou-se solução 0,4% de 2,4-dinitrofenilhidrazina em acetonitrila. Em um frasco volumétrico foram adicionados consecutivamente, 1,00 mL da solução de 2,4-dinitrofenilidrazina (0,4%), 4,00 mL da amostra (sem tratamento prévio) e 50 mL de HClO4 1 M.

A solução resultante foi agitada e mantida em repouso por pelo menos 45 minutos na temperatura ambiente. Em seguida alíquotas de 25 mL da solução foram injetadas no sistema HPLC. Todas as soluções padrões e amostras foram filtradas através de um sistema Millipore (filtros de 0.45 mm), antes de serem injetadas no cromatógrafo líquido. Os derivados de aldeídos-2,4-DNPH foram quantificados nas amostras de bebidas empregando-se o método da padronização externa.

2.2.4 - Método oficial para determinação de ácidos carboxílicos totais (MOFA-Ac) [19]

25 mL de amostra foram transferidos para um erlenmeyer de 500 mL contendo 200 mL de água destilada. Em seguida foram adicionadas 2 a 3 gotas de fenolftaleína (solução alcoólica 1%) e a amostra foi titulada com solução padrão de hidróxido de sódio (0,100 mol/L) até a coloração adquirir levemente rósea.

2.2.5 - Método cromatográfico para determinação de ácidos carboxílicos (HRGC-Ac) [23]

As condições experimentais para a análise cromatográfica dos ácidos foram: a temperatura no injetor e detector foi de 250° C. A razão de split foi de 1:15. A vazão do gás de arraste na coluna foi 1,5 mL/min. A vazão dos gases no Detector FID foram de 35 mL/min hidrogênio e 350 mL/min de ar, respectivamente. O Programa de temperatura efetuado foi o seguinte: 50° C por 2 min depois para 190° C (por 5 min) a 10° C/min, então a 230° C durante 30 min a 5 ° C/min.

O ácido acético, componente majoritário, foi determinado diretamente na amostra. Os demais ácidos carboxílicos (propiônico, n-butírico, iso butírico, isovalérico, n-valérico, iso capróico, n-capróico; n-heptanóico; n-caprílico, cáprico, laúrico, mirístico e palmítico) foram determinados em amostras previamente concentradas por extração líquido-sólido (SPE). As amostras foram concentradas por extração fase sólida (SPE) [18] utilizando-se cartuchos contendo octadecilsilano (SUPElCLEAN ENVI-C18 6 mL 1 GM PK da SULPELCO).

Os ácidos retidos no cartucho foram eluídos com 1,0 ml de diclorometano. Alíquotas de 1 mL do extrato foram injetadas no sistema cromatográfico. Os ácidos presentes nas amostras foram quantificados nas bebidas empregando-se o método do padrão interno. O ácido nonanóico (C9) foi utilizado como padrão interno (906 mg/L). As curvas de calibração foram obtidas pela razão área do padrão/área do PI versus concentração (coeficientes de correlação próximos da unidade). Os padrões foram preparados em meio hidro-alcoólico (40% v/v), visando reproduzir a matriz.

2.2.5 - Cálculos e análise estatística

Os valores de concentração, em mg/100mL álcool anidro, para aldeídos totais foram calculados pela formula:

Aldeído (mg/100mL a.a) = 2,2 x (1)

Onde, GR=grau alcóolico real e n=volume gasto da solução de iodo 0,05 mol/L ; análises feitas em duplicatas.

Os valores de concentrações de acidez total foram obtidos utilizando a equação:

Acidez (mg/100 mL a.a) = 2,4 x (2)

Onde, GR=grau alcóolico real e n=volume gasto da solução de hidróxido de sódio 0,1 mol/L

As determinações por ambos os métodos foram realizadas em duplicatas com 35 amostras de bebidas. Para comparação dos resultados obtidos pelos dois métodos foram utilizados métodos estatísticos de análise por regressão linear [20] e test-t pareado [4,5,26,27]. Empregou-se um limite de confiança de 95%. Foram utilizados os softwares estatísticos Microcal Origen versão 4.0 e o Minitab-10 ambos "para Windows".

 

3 — RESULTADOS E DISCUSSÃO

O teste t pareado é considerado o mais adequado [5] para a comparação entre um novo método e um método padrão ou recomendado. Este teste é aplicado aos valores médios obtidos pela análise de diferentes amostras de composição fracamente diferentes ou variadas. Se o valor tc encontrado for maior que o tabulado(tb) então considera-se que existe uma diferença significativa entre os valores médios das amostras utilizando os dois métodos.

3.1 – Determinação de aldeídos

As Tabelas 1 e 2 apresentam os resultados da determinação de aldeídos totais (35 amostras de bebidas alcoólicas) e furfural (20 amostras) analisadas pelo método oficial (MOFA) e pelo método cromatográfico (HPLC-UV). A comparação dos resultados obtidos por ambos os métodos, utilizando regressão linear, forneceu a seguinte equação da reta:

aldeídos mg/100 a.a (MOFA) = 7,432 + 0,667.X aldeídos mg/100 a.a (HPLC), do tipo Y

= A + B.X, com r = 0,638. (3)

 

TABELA 2. Resultados da determinação de furfurala pelo método cromatográfico (HPLC-F) e pelo método oficial (MOFA-F). valores em mg/100 mL álcool anidro.

amostras

HPLC-F

MOFA-F

01

1,31

0,80

· 02

0,91

NL

· 03

0,230

NL

· 04

0,037

NL

· 05

0,360

Nl

06

0,180

< LD

07

< LD

< LD

08

0,088

< LD

09

0,006

< LD

10

0,210

< LD

11

0,123

< LD

12

< LD

< LD

13

1,00

0,61

14

0,250

< LD

*15

0,504

NL

*16

0,510

NL

*17

0,525

NL

*18

1,44

NL

*19

1,20

NL

*20

5,10

NL

· Caninha com caramelo,* Whiskies
<LD = menor que o limite de detecção
NL = valor de furfural não determinado em amostras coloridas(whiskies e caninha com caramelo).

 

A equação da reta indica uma pobre correlação (r<0,90) entre os valores de concentração obtidos por ambos os métodos (Figura 1). O valor calculado para o teste t pareado (2,98C), para 34 graus de liberdade, foi maior que o valor tabulado (2,03T). Como tc > tt fica constatado uma diferença significativa entre as concentrações médias obtidas por ambos os valores numéricos das médias obtidas por ambos os métodos. A recuperação média para os aldeídos totais foi de 97%± 3 (Tabela 3) para o método HPLC-Ald e de 102%± 8 para o método MOFA-Ald (Tabela 4).

 

Image479.gif (3776 bytes)

FIGURA 1. Correlação entre os métodos MOFA-Ald e HPLC-Ald

 

 

TABELA 3. Recuperações dos aldeídos adicionados em dada amostra de caninha, empregando-se o método HPLC-Ald. Concentração em mg/L. Média de 5 concentrações

Aldeídos

Teor
Presente

Teor
adicionado

Teor
encontrado
média ± SD

Recuperação (%)
média ± SD

Formaldeído

0,440

0,40

0,86± 0,08

102± 4

5-Hidroximetilfurfural

1,54

1,25

1,77± 0,04

99± 2

Acetaldeído

43,0

20,0

62,1± 1,3

98± 3

Acroleina

1,25

1,20

1,44± 0,08

99± 1

Furfural

5,12

5,20

10,1± 0,32

97± 3

Propionaldeído

0,200

0,100

0,28± 0,02

93± 4

Butiraldeído

0,800

0,450

1,42± 0,06

98± 3

Benzaldeído

0,300

0,80

1,17± 0,08

103± 3

Isovaleraldeído

0,200

0,100

0,28± 0,02

93± 3

n-Valeraldeído

0,350

0,300

0,63± 0,07

97± 2

 

 

TABELA 4. Recuperação dos teores de acetaldeído em uma amostra de caninha (n=4) empregando-se o MOFA-Ald. 

Teor presente
Média ± S.D

Teor adicionado

Teor encontrado
Média± S.D

Recuperação (%)

15,7 ± 0,22

3,28

19,1 ± 0,35

101 ± 1

15,7 ± 0,22

6,67

20,2 ± 0,12

91 ± 2

15,7 ± 0,22

15,75

32,0 ± 0,80

100 ± 3

15,7 ± 0,22

32,8

54,4 ± 1,53

112 ± 3

15,7 ± 0,22

65,7

88,0 ± 2,50

108 ± 2

Teor em mg de acetaldeído /100 mL de álcool anidro.
Média de três determinações.

 

Ponto que mereceu destaque diz respeito a análise do teor de furfural. O método oficial empregado para determinação de furfural, MOFA-F, (Tabela 2), é de baixa sensibilidade (1,0 mg/L) e envolve a leitura colorimétrica após a reação do furfural com anilina. Este método não conduz a resultados confiáveis quando as amostras são coloridas. O seu emprego em amostras alcoólicas incolores é viável, mas no caso dos whiskies, ou de caninhas contendo caramelo ou envelhecidas em tonéis de madeira, há a necessidade de descoloração das mesmas. Esta operação, desnecessária quando se utiliza o método HPLC-Ald, constitui-se em uma etapa adicional a metodologia. O método HPLC também permite determinar furfural com sensibilidade (0,01 mg/L) superior a apresentada pelo método oficial.

3.2 – Determinação de ácidos

Observa-se pela Tabela 1 e Figura 3 que não existe uma dispersão significativa entre os valores de acidez total obtidos por ambos os métodos. A equação abaixo:

mg/100mL a.a (MOFA-Ac) = 0,325 + 0,777 mg/100 mL a.a (HRGC-Ac), obtida por regressão linear (do tipo Y = A + B.X); (4)

apresenta um coeficiente de correlação r= 0,883, indicando uma correlação aceitável entre os valores de concentração encontrados por ambos os métodos. O cálculo estatístico (teste t pareado) forneceu o valor de 0,124 para 34 graus de liberdade. O valor obtido para o teste t foi menor que o tabulado (2,03T), indicando que, do ponto de vista estatístico, não há uma diferença significativa entre os valores médios amostrais obtidos por ambos os métodos analíticos. Os métodos (MOFA-Ac e HRGC-Ac) são comparáveis quanto aos quesitos precisão e recuperação das determinações experimentais (Tabela 4). O valores médios para as recuperações obtidos pelos métodos foram de 106% ± 4 para MOFA-Ac e 101% ± 9 para o HRGC-Ac. A reprodutibilidade(RDS %) da medida do teor total de ácidos para ambos os métodos foi de 2% MOFA-Ac e 3,5% HRGC-Ac. Estes resultados sugerem que tanto o método cromatográfico quanto o método oficial para análise de ácidos totais conduzem a resultados experimentais comparáveis.

 

TABELA 5. Recuperação dos teores totais de ácido acético adicionados em uma amostra de aguardente comercial. teor em mg de ácido acético por 100mL de álcool anidro. Método MOFA-Ac.

Teor presente ± S.D

Teor adicionado

Teor encontrado± S.D

Recuperacão (%)

20,2 ± 0,32

4,42

25,3 ± 0,45

102 ± 2

20,2 ± 0,32

8,84

30,3 ± 0,56

104 ± 3

20,2 ± 0,32

17,7

40,4 ± 0,80

108 ± 4

20,2 ± 0,32

26,5

50,6 ± 1,53

108 ± 3

21,9 ± 0,33

35,4

64,6 ± 2,53

112 ± 2

Média de três determinações.

 

 

TABELA 6. Recuperação dos ácidos carboxílicos estudados em uma amostra de bebida alcoólica (concentração em mg/100 mL de álcool anidro). Método HRGC-Ac.

Ácidos carboxílicos

Teor original

Teor adicionado

Teor encontrado
(média ± S.D)

*Recuperação (%) (média ± S.D)

heptanoico

0,0013

0,0920

0,08 ± 0,006

86,15 ± 6,37

n-caprílico

0,420

0,452

0,819 ± 0,015

94 ± 1,81

n-cáprico

0,820

0,968

2,001 ± 0,034

112 ± 1,91

laúrico

0,387

1,060

1,504 ± 0,076

104 ± 5,25

mirístico

0,028

0,972

1,075 ± 0,123

107 ± 12,3

palmítico

0,089

1,040

1,213 ± 0,265

107 ± 23,2

Injeções no CGAR-FID feitas em duplicatas
Recuperação (%) = [(quantidade encontrada) / (quantidade original na amostra + quantidade adicionada)] x 100

 

Novamente deve ser ressaltado o fato de que o método oficial empregado para determinar a acidez não permite discriminar e dosar os vários ácidos presentes na amostra.

Com a finalidade de ilustrar o potencial de especiação das metologias cromatográficas, apresentamos na Tabela 7, os teores médios de aldeídos e ácidos carboxílicos identificados em vinte amostras de aguardentes comerciais.

 

TABELA 7. Teores médios de aldeídos (Ald) e ácidos (Ac) em aguardentes empregando-se as técnicas cromatográficas (HPLC-Ald, HRGC-Ac)[23].

Composto

HPLC-Alda

Composto

HRGC-Acb

Formaldeído

0,176

acético

99,2

5-hidroximetilfurfural

0,480

propiônico

0,168

Acetaldeído

8,92

isobutírico

0,081

Acroleína

0,094

butírico

0,135

Furfural

0,261

isovalérico

0,127

Propionaldeido

0,207

valérico

0,038

Butiraldeído

0,207

isocapróico

0,031

Benzaldeído

0,095

capróico

0,212

Isovaleraldeído

0,104

heptanóico

0,032

Valeraldeído

0,070

n-caprílico

1,29

   

n-cáprico

1,58

   

Laurico

0,604

   

Mirístico

0,388

   

palmítico

0,385

a concentração média em mg/100ml de álcool anidro;
b concentração média em mg/100ml de álcool anidro.

 

4 — CONCLUSÕES

Com respeito a análise de aldeídos, os métodos MOFA-Ald e HPLC-Ald apresentaram precisão e exatidão comparáveis, entretanto existem algumas limitações do método oficial em relação ao método cromatográfico. Com a metodologia oficial não é possível a especulação da amostra, não permitindo portanto o acesso ao teor de cada um dos aldeídos. Acrescente-se a isto também que reação do bissulfito não é específica para aldeídos, ocorrendo também com as cetonas, as quais estão presentes nas caninhas, cujo teor médio é cerca de 0,31 mg/100 mL a.a.[13]. O método HPLC-ALd além de permitir identificar e quantificar, ao mesmo tempo cetonas e aldeídos, na forma de suas 2,4-dinitrofenilidrazonas [13,22,23]. não apresenta dificuldades na análise de bebidas coloridas (whisky, rum, conhaque e caninhas contendo caramelo). Acrescenta-se também o fato de que empregando-se o método HPLC-Ald não há a necessidade da aplicação do método colorimétrico [15,19] para determinação de furfural. Não é demais ressaltar que o método oficial para análise de furfural, além de apresentar baixa sensibilidade não é aplicável em amostras coloridas.

No que diz respeito a dosagem da acidez total, não se observou diferença significativa entre os resultados obtidos por ambos os métodos. O método MOFA-Ac não é indicado para a análise de amostras coloridas (whiskies, rum, conhaque e caninhas contendo caramelo). O método HRGC-Ac permite a especiação, e também é aplicável a amostras coloridas.

Os resultados sugerem que os métodos oficiais de análise MOFA-Ald, MOFA-F e MOFA-Ac podem ser substituídos com vantagens pelos métodos HPLC-Ald e HRGC-Ac. Com o emprego dos métodos cromatográficos o produtor terá acesso a informações que lhe permitam oferecer ao consumidor um produto de composição melhor conhecida.

A necessidade de informar mais adequadamente o consumidor sobre as características do produto que consome cresce dia a dia. Brevemente em nosso país teremos níveis de exigências semelhantes aos existentes em países ditos de primeiro mundo e de cujo mercado desejamos participar. Atualmente, em laboratórios de médio porte e laboratórios de referência, o emprego de técnicas cromatográficas está se tornando rotineiro. O investimento a ser efetuado em equipamento e pessoal especializado será em muito compensado pelo salto de qualidade e o consequente aumento do valor agregado do produto final.

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FIGURA 2. Correlação entre os método MOFA e HRGC

 

5 — REFERÊNCIAS

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[19] Ministério da Agricultura. portaria n° 371. Complementação de Padrões de Identidade e Qualidade para Destilados Alcoólicos. Brasília, DF, (18/09/74).

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[21] NASCIMENTO, R. F.; LIMA NETO, B. S.; FRANCO, D.W. Aldeídos em bebidas alcoólicas fermento-destiladas. Engarrafador Moderno., 2(41,)75-77, 1997.

[22] NASCIMENTO, R.F.; MARQUES, J.C.; DE KEUKELEIRE, D.; LIMA NETO, B.S.; FRANCO, D.W. Qualitative and quantitative high-performance liquid chromatographic analysis of aldehydes in brazilian sugar cane spirits and other distilled alcoholic beverages. J. Chromatogr.,782, 13-23, 1997.

[23] NASCIMENTO, R.F. Aldeídos, Ácidos e compostos sulfurados em aguardentes de cana-de-açúcar (Saccharum ssp). Tese de Doutorado. IQSC/USP. São Carlos, SP, 1997,. p. 126.

[24] SAX, N.I. Dangerous Properties of Industrial Materials, Van Nostrand Reinhold, New York, USA, 1981.

[25] SHRINER, R.C.; FUGON, D.Y.; CURTIN, T.C.; MORRIL, T.C. Identificação Sistemática de Compostos Orgânicos, Guanabara Dois, Rio de Janeiro, Brasil, 1983.

[26] TAYLOR, J.K. Quality of chemical measurements. Anal. Chem. 53, 1588A,1981.

[27] TAYLOR, J.K. Validation of analytical methods. Anal. Chem., 55, 600A, 1983.

 

6 — AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem a CAPES, CNPq e FAPESP pelo suporte financeiro. Agradecemos também ao Prof. Dr. João Carlos de Andrade pelas sugestões e estimulantes discussões sobre o artigo desenvolvido.

 

1 Recebido para publicação em 22/04/98. Aceito para publicação em 02/10/98.

2 Laboratório para o Desenvolvimento da Química da Aguardente - LDQA. Instituto de Química de São Carlos. Av. Dr. Carlos Botelho, 1465, Cx. Postal 670, 13560-970, São Carlos, SP. E-mail: douglas@iqsc.sc.usp.br

* A quem a correspondência deve ser endereçada

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