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Revista Brasileira de Ciências do Esporte

On-line version ISSN 2179-3255

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.35 no.1 Porto Alegre Jan./Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32892013000100009 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

A esportivização do skate (1960-1990): relações entre o macro e o micro1

 

The sportivization of skateboarding (1960-1990): relations between the macro and the micro

 

La deportivización del skate (1960-1990): relaciones entre lo macro y micro

 

 

Dr. Tony Honorato

Doutor em Educação pela Universidade Estadual Paulista (FCLAr/UNESP), Professor Adjunto do Departamento de Educação Física (DEF) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Centro de Memória, Informação e Documentação sobre Educação Física, Esporte e Lazer (CEMIDEFEL) (Londrina – Paraná – Brasil) E-mail: tony@uel.br

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi apresentar elementos da esportivização da prática cultural skate (1960-1990), como conhecimento para o entendimento da relação entre o micro e o macro processo sócio-histórico do skate. Como fonte de pesquisa histórica para a esportivização do skate no Brasil, dimensão macro, utilizamos a Revista Tribo Skate e para a de Piracicaba/SP, dimensão micro, entrevistamos dois colaboradores a partir do método da história oral. Os resultados evidenciaram que o skate surgiu para gerar fortes tensões agradáveis, suas formas de lazer precedem as formas esportivas e, guardadas as particularidades, os seus processos macro e micro-históricos são interdependentes.

Palavras-chave: Skatista; lazer; esporte; Piracicaba/SP.


ABSTRACT

The objective of this study is to present the elements of the sportivization of the cultural practice of skateboarding (1960-1990), as knowledge for the understanding of the relation between the micro and the macro social and historical processes of skateboarding. We used the magazine Revista Tribo Skate as source of historical research for the sportivization of skateboarding in Brazil, the macro dimension, and for the micro dimension, the city of Piracicaba/SP, where we interviewed two collaborators based on the method of oral history. The results evidenced that the skateboarding has appeared to generate pleasant strong tensions, its leisure forms precede its sport form and, respecting the particularities, its macro and micro historical processes are interdependent.

Keywords: Skater; leisure; sport; Piracicaba/SP.


RESUMEN

El objetivo del estudio fue presentar elementos de la deportivización de la práctica cultural skate (1960-1990), como conocimiento para el entendimiento de la relación entre el micro y macro proceso socio-histórico del mismo. Como fuente de investigación histórica para la deportivización del skate en Brasil, dimensión macro, utilizamos la Revista Tribo Skate y para la de Piracicaba/SP, dimensión micro, entrevistamos dos colaboradores a partir del método de historia oral. Los resultados evidenciaron que el skate surgió para generar fuertes tensiones agradables, sus formas de ocio preceden a sus formas deportivas y, salvando las particularidades, los procesos macro y micro-históricos son interdependientes.

Palabras-clave: Skatista; ocio; deporte; Piracicaba/SP.


 

 

INTRODUÇÃO

Como emerge prática do skate no Brasil, denominado aqui como macro? E como tal prática emerge numa cidade específica, denominada aqui como micro? Qual a relação possível entre o macro e o micro no processo histórico do skate? Para responder a estas questões de natureza histórica, a interpretação produzida no decorrer deste texto tem como objetivo apresentar elementos da esportivização da prática cultural skate (1960-1990).

A ideia de esportivização foi inicialmente proposta por Elias e Dunning (1992). Para os autores, este fenômeno ocorre primeiramente na passagem do jogo de distração para o esporte na sociedade inglesa dos séculos XVIII e XIX. Tem-se o esporte como um componente do processo de civilização passível de contribuir para o conhecimento da própria sociedade.

O esporte, como prática sociocultural de diferenciação, ocupa um espaço cada vez maior no processo de interdependência crescente que se estrutura entre os indivíduos em sociedade. Contudo, esporte e lazer são, no âmbito deste estudo situado na história cultural de Chartier (1987), entendidos como ações que caracterizam diferentes — porém não estanques — esferas de sociabilidade e inter-relações culturais. Dado que o lazer não acabou para dar lugar ao esporte. Este último é entendido como uma prática que vem atender às expectativas de uma elite que passa a ter, segundo Lucena (2001, p. 49), na esportivização suas ações lúdicas e, mais tarde, com a profissionalização, seu meio de subsistência.

 

MÉTODO

Assumimos como fonte de pesquisa, para uma história do skate no Brasil, periódicos especializados, principalmente a leitura da coleção da Revista Tribo Skate (edição n. 1, 1991 à n. 105, 2004). Nos periódicos, como destacou Cruz (2000), é possível interpretar questões históricas relacionando elementos da cultura e modo de vida urbano. As revistas, como fontes, levaram-nos ao contato com um conjunto variado de registros e memórias sobre as configurações skatistas no período estudado.

A periodização histórica deste estudo justifica-se, inicialmente, em razão da década de 1960 ser o momento da sociogênese do skate no Brasil; e o fechamento, no final dos anos de 1980 e início de 1990, porque esta temporalidade pode ser considerada como representativa da esportivização do skate brasileiro.

Como realidade micro do skate a cidade Piracicaba, localizada no interior paulista, representou a possibilidade de observar como se desenvolveu tal prática cultural. A cidade de Piracicaba é considerada um polo regional e está situada em uma das regiões altamente industrializadas do Estado de São Paulo. Sua população está estimada em 328.843 mil habitantes, segundo dados do IBGE-Cidades de 2009. A cidade porta um número expressivo de skatistas circulando, visivelmente, pelas ruas, praças e diversos estabelecimentos da cidade. Em Piracicaba há três pistas de skate, e com frequência são realizados campeonatos na cidade nas categorias profissional, amador, iniciante e mirim.

Para uma história do skate em Piracicaba trabalhamos com recortes referentes aos depoimentos de memória, devido ao fato de que o tempo presente porta experiências do passado que são lembradas e esquecidas. Esta (re)constituição via história oral tomou como metodologia as orientações de Thompson (1992) e Freitas (2006). A história oral é um método de pesquisa que utiliza a técnica da entrevista no registro de narrativas das experiências humanas (FREITAS, 2006, p. 18). As experiências são carregadas de significações adquiridas ao longo da existência do depoente (THOMPSON, 1992). Assim, o registro da fala do outro, particularmente sobre o tema skate, foi para este estudo uma forma de produção de fontes orais históricas.

Realizamos entrevistas semiestruturadas, gravadas em fitas cassete, com a seguinte questão deflagradora: Como a modalidade skate se constituiu em Piracicaba? Esta questão foi desenvolvida de forma aberta, pela qual se tentou partir para um diálogo, tendo sempre como ponto de partida o cotidiano do ator social relativo à prática de skate. As entrevistas receberam tratamento metodológico segundo os passos indicados por Spink (1995) e Freitas (2006): transcrição na íntegra, leitura flutuante do material intercalando o gravado e o transcrito, conferência e catalogação. Posteriormente, para interpretação, selecionou falas no formato de excertos.

Este estudo baseou-se fundamentalmente nas entrevistas de Rogério Mei e de Daniel Ricardo Renci 'Ladrão', concedidas no ano de 2004. Mei pratica skate desde 1975, é formado em Educação Artística, é mestre em Educação e leciona no ensino universitário. Daniel é skatista desde 1979, cursou especialização em esportes de prancha e participou da criação da Associação dos Skatistas de Piracicaba e Região (ASPIR). Optamos por estes colaboradores em razão de julgarmos as informações disponibilizadas por eles contemplativas ao objetivo deste estudo.

O estudo seguiu as orientações éticas em pesquisa com seres humanos. Ele foi apresentado e aceito pelos colaboradores entrevistados, seguindo assim as recomendações da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

 

ELEMENTOS DA ESPORTIVIZAÇÃO DE SKATE NO BRASIL

O início do skate no Brasil remonta aos anos 60, com uma galera que estava começando a surfar por aqui, influenciada pelos anúncios na Revista Surfer. Na época, o 'surfinho' era feito de patins, pregado numa madeira qualquer e com as rodas de borracha ou de ferro! Limitou-se aos surfistas que tentavam imitar no asfalto, as manobras praticadas nas ondas. Esse foi o primeiro momento do skate nacional. (REVISTA TRIBO SKATE, v. 9, n. 50, 1999, p. 37)

A data e o local da origem do skate no Brasil ainda é uma polêmica, pois há rumores de seu surgimento no ano de 1964, na Urca, Rio de Janeiro, mas, como nada foi documentado, torna-se difícil apontar tal fato precisamente. Para ilustrarmos esta problemática, lembramos que Marcos 'ET', skatista e redator da Revista Tribo Skate (v. 5, n. 16, 1995, p. 04), identificou na década de 1990 um músico que narrou seu envolvimento com o skate no ano de 1966, junto ao amigo Severino, num cenário diferente da história contada.

Já na memória do skatista Cesinha Chaves (2000), a data de 1968 ficou marcada para ele em função de duas paixões: a prancha de surfe — uma São Conrado de 9'8" —, e a de skate — uma Nash Sidewalk Surfboards de 24", com rodas de massa (Clay Weels) e madeira laminada. Conforme recorda, tratava-se de um skate adquirido com um dos meninos filho de Embaixador do Consulado Americano, o qual ficava andando com um 'carrinho' pra lá e pra cá numa quadra na Fortaleza São João, na Urca/RJ.

Explicitamos a existência de algumas versões e, provavelmente, se investigar outras fontes, certamente encontrar-se-á novas abordagens. No Brasil, por exemplo, é possível inferir que, da mesma forma que o skate seduziu jovens surfistas nas décadas de 1960 e 1970 em regiões litorâneas como o Rio de Janeiro, o mesmo aconteceu com o pessoal adepto do carrinho de rolimã (BRANDÃO, 2007) e patins em cidades onde não havia praia, como veremos no próximo tópico de discussão, com a memória do skate em Piracicaba.

Este início da prática do skate, promovido por surfistas e por praticantes de outras atividades corporais, indica que as pessoas encontraram nesta atividade uma forma de lazer que as individualizassem, num sentido proposto por Elias (1994), na sociedade na qual viviam. No Brasil, as décadas de 60 e 70, nas quais os registros apontam a sociogênese do skate ligada à cultura estadunidense, foram períodos de grande turbulência para a sociedade brasileira haja vista a ditadura militar instaurada e os movimentos de contracultura (BRANDÃO, 2007). Nesse contexto, o skate emergiu portando caráter desrotinizador, expressando comportamentos e tensões agradáveis que podem se dar pelo descontrole-controlado das emoções e das ações motoras.

O surgimento da prática do skate, bem como de outras atividades ditas 'radicais', está associado a um processo de transformação dos comportamentos na vida em sociedade. Na contemporaneidade os homens criam e recriam novas práticas sociais, como a atividade skate — que está associada ao lúdico, ao prazer, ao devaneio, ao risco, à aventura e, por vezes, à contracultura — para tentar preencher alguns espaços vazios e proporcionar intensas emoções prazerosas num determinado momento histórico.

O aparecimento do skate em nossa sociedade se desenvolveu em forma de lazer. Essa ideia pode ser evidenciada nos materiais dos primeiros 'carrinhos' ('surfinhos'), nos espaços de realização e na ausência de um rigoroso tempo cronometrado, de regras institucionais e de remuneração. Seu início como forma de lazer vai além destes aspectos, pois foi também marcado pela emergência de outra maneira de se divertir e sentir emoções, logo, pelas mudanças das inter-relações pessoais possibilitadas pela estruturação de uma maior diferenciação de funções e pela construção de variadas e diferentes configurações humanas até então inexistentes.

O skate afigurou-se como uma maneira de agrupamento social que se expressou no cenário urbano, inicialmente nas ruas e, mais tarde, nas pistas de skate – 'sem perder a rua', como evidencia Costa (2004) e Brandão (2007) – em busca de específicos comportamentos que contribuíram para o processo de individualização intitulado tribo skatista.

O processo de individualização da tribo skatista está essencialmente interligado à sua prática cultural, que produz símbolos (vestimenta, linguagem, comportamentos, habitus etc.) e significados restritos. A individualização, porém, não se desenvolve somente em relação a outras práticas sociais, mas também no interior da modalidade. A tensão da transição do lazer para esporte, que denominamos de processo de esportivização, contribui para entendermos as modulações de uma história do skate em processo de produção.

A Revista Tribo Skate (v. 09, n, 50, 1999, p. 37-40) demonstrou-nos um registro possivelmente considerável como fase seminal do processo de esportivização da modalidade no Brasil, ao referir-se à ocorrência do primeiro grande campeonato de skate, realizado em outubro de 1975, na Quinta da Boa Vista (Rio de Janeiro).

Com a organização de uma competição, foi preciso classificar os competidores, o que levou a uma diferenciação entre a natureza da prática do skate até então observada. A diferenciação ocorreu entre os praticantes, dos quais alguns passaram a ser competidores e, entre os próprios competidores, passou a existir níveis de classificação de suas manobras (complexas, refinadas e com estilos) como um elemento diferenciador.

Como a esportivização é um processo, este não se encerrou no episódio da Quinta da Boa Vista na cidade do Rio de Janeiro. Na mesma municipalidade, no ano de 1976, num domingo de 15 de agosto, realizaram o primeiro Campeonato de skate com dimensão nacional, no Clube Federal, sob organização da Waimea Surf Shop, com um número de 34 inscritos (REVISTA ESQUEITE. v. 1, n. 1, 1977, p. 25), o qual foi

vencido por Flávio Badenes na categoria Sênior e Mário Raposo na Júnior. As manobras eram 360's, wheelies e handstands. Os skates eram quase todos importados das marcas mais variadas: Bahne, Super Surfer, Cadillac, Hang Ten... Os skates brasileiros eram o Torlay, feito pela fábrica de patins paulista, o Bandeirante, da fábrica de brinquedos e o RK, que era a cópia do americano Bennett Pro, o primeiro eixo feito especialmente para skate. As rodas possuíam ainda o sistema de bilhas soltas, que repousavam em porcas cônicas, travadas por uma contra porca. (REVISTA TRIBO SKATE. v. 9, n. 50, 1999, p. 37).

Já em 22 de dezembro de 1976 foi inaugurada a primeira pista de skate da América Latina em Nova Iguaçu/RJ2, fato que promoveu o skate brasileiro, com a construção de dois bowls de aproximadamente 20º de inclinação, e também ocasionou a mudança do estilo livre praticado nas ruas, calçadas e ladeiras, para o estilo 'bowlriding'. Esta pista, em julho de 1977, sediou o primeiro campeonato de pista do Brasil, diferente dos até então realizados — os de freestyle e slalom. Sua arquitetura sofreu influência da Revista Skateboarder, que se reportava a americanos em pistas e piscinas de fundo de quintal exercendo manobras como: berts, batidas, um e meio (360º e meio na transição) e com muita velocidade.

A construção da primeira pista de skate da América Latina, os primeiros campeonatos, as instruções de como julgar uma competição, as manobras, a evolução dos equipamentos, a divisão de categorias (sênior e júnior) e o novo estilo (vertical), ilustram ações iniciais da esportivização da prática do skate como meio para constituir e instituir regras e condutas racionais e especializadas. Isso demonstra que, para a emergência de uma prática cultural esportiva, exige-se um regulamento previamente acordado e aceito pelos praticantes.

Os códigos de normas socialmente estabelecidos num determinado tempo e espaço são o que consideramos como regras esportivas. As regras esportivas são produzidas e aperfeiçoadas pelos indivíduos para indivíduos, e desempenham um significativo papel, pois ao estabelecerem-nas atestam um modelo de comportamento a ser seguido por aqueles que fazem parte de determinadas agregações esportivas ou sociais. Isso implica num aumento do controle e do autocontrole das emoções nas relações sociais dos skatistas que, por sua vez, tornam sua prática cultural mais diferenciada para o praticante; e numa outra direção, para outros que estão de fora como, por exemplo, o espectador.

O processo de esportivização do skate também esteve relacionado à circulação dos periódicos especializados (Jornal do Skate; Revista Brasil Skate; Revista Esqueite3; Overall, entre outros), às construções de pistas (Nova Iguaçu/RJ, 1976; Clube de Regatas Flamengo/RJ, 1977; Alphaville/SP, 1977; Wave Park de Santo Amaro/SP, 1978; Jacarepaguá/RJ, 1978; Mooca/SP, 1978; Jurêre/SC, 1978; Viamão/RS, 1979; entre outras), à ida mais constante de skatistas para os Estados Unidos, ao surgimento dos campeonatos profissionais, à organização de novos eventos, à participação em torneios no exterior, ao desenvolvimento da modalidade street, à fundação das associações (Associação Brasileira de Skate, 1986; União dos Skatistas e Empresários, 1987; União Brasileira de Skate, 1988; entre outras), à circulação de vídeos sobre skate e aos atores sociais (praticantes e espectadores), diretos ou indiretamente, ligados à existência de práticas de consumo material e simbólico no universo do skate.

Por sua vez, os campeonatos de skate transformaram-se cada vez mais em formas de agrupamentos que asseguravam a representação e a defesa dos interesses dos praticantes e, ao mesmo tempo, de patrocinadores, promotores e vendedores de bens (equipamentos, vestimentas, etc.) e de espetáculos. Notamos no skate brasileiro do final da década de 80 o início da concepção da categoria amador, profissional e o envolvimento empresarial, midiático e da indústria cultural direcionando, reestruturando e conduzindo a modalidade rumo aos interdependentes processos: esportivização, espetacularização, profissionalização e mercantilização (BOURDIEU, 1983; BETTI, 1998; PRONI, 1998; MARCHI JUNIOR, 2004; BRANDÃO, 2008; BASTOS; STIGGER, 2009; FIGUEIRA; GOELLNER, 2009).

Estudar estes processos sócio-históricos do skate, eis um dos desafios aos pesquisadores. Entretanto, alertamos, a direção histórica tomada pode ter avanços e recuos, ela não é retilínea. A direção depende da cadeia de interdependência que está em produção pelos skatistas, empresários, espectadores e outros agentes interligados à prática do skate. Então, o que nos resta também é ver um exemplo empírico do processo sócio-histórico da modalidade skate em determinadas cidades brasileiras. Vejamos em uma.

 

MEMÓRIAS SOBRE A ESPORTIVIZAÇÃO DO SKATE PIRACICABANO

Para Rogério Mei, a brincadeira primitiva (o ato de brincar com os primeiros skates, construídos artesanalmente pelos praticantes, com rodas de ferro, madeira sólida e em formato elíptico), como a considera, iniciou-se em Piracicaba por volta de 1975. Foi quando viu pela primeira vez um garoto, filho do dono do Restaurante Flamboyant (que era localizado próximo ao atual Hotel Beira Rio) exercendo-a em frente deste estabelecimento; então aproximou-se e inteirou-se da tal atividade.

Já Daniel Ricardo Renci destaca que, no princípio, a influência norte-americana e do surfe foram marcantes tanto nas manobras como no estilo de ser dos praticantes piracicabanos. Neste caso, o surfe pode expressar comportamentos sobre o carrinho deslizante na onda dura.

"O pessoal escrevia na rua, fazia aquelas ondas de surfe na rua, assim com papel, com tinta e tal. Eram muito influenciados pelo surfe, andavam descalços [...]" (RENCI, 2004, p. 1)

"Estavam na geração do surfe, essa coisa de 'deslizaaaar', estar deslizando pelas coisas! Era mais ou menos esta ideia, pois até então não tinha nada semelhante, a não ser o surfe [...]" (MEI, 2004, p. 1)

Os jovens piracicabanos foram também estimulados pelos grupos existentes em 1977 e 1978, que caracterizavam o movimento hippie — 'bicho grilo' — como Renci o identifica. Os adolescentes da cidade inspirados por estes movimentos eram Caco (irmão de Renci), Rogério Mei, Teba e Caio, que comumente brincavam na antiga Rua Batíqui com,

"Aqueles 'skatinhos'. As manobras eram hang ten, hang five. Essas manobrinhas mais antigas, sabe?! [...] E os skates vinham parar aqui em casa. Eu me lembro de arriscar subir em cima do skate e tal. Eu gostava!" (RENCI, 2004, p. 2)

Este discurso, além de dados históricos, apresenta a iniciação de Renci, que em conjunto com a de Mei, caracteriza um aspecto importante do skate como forma de lazer. É o desencadeamento de uma compulsão social, ou seja, ocorreu participação voluntária sem constrangimento, a escolha da atividade foi tomada em função dos praticantes após estímulos sociais.

Ao ingressarem numa determinada prática cultural, em alguns casos, os indivíduos assumem compromissos com o bom desenvolvimento da atividade. Em relação ao skate, cujo ponto fundamental é produzir tensão originária de excitação, os indivíduos aprimoravam cada vez mais o entretenimento para satisfazer suas formas de lazer, como aponta o discurso:

"Como a gente faz esse negócio ficar melhor? 'Pô, tem uns patins abandonados lá no Náutico Clube' (onde antigamente tinha um ringue de patinação). 'Pô, vamos dar uma olhada lá. Quem que é sócio?" Pá! Tem um cara que é sócio'. 'Será que ele consegue pôr a gente pra dentro?" Pô, a gente entrou lá literalmente 'assaltando' o lugar (rsrs...). Tinha uns patins todos enferrujados, cheios de teias de aranha [...] 'roubamos' um par, que dava dois skates, um pra mim e um pro chegado meu [...]" (MEI, 2004. p. 2)

Após a traquinagem, os adolescentes engenhosamente extrairiam as botas e serrariam as bases ao meio, transformando-as em quatro eixos com rodas e adaptando-os numa madeira. As rodas dos patins eram de plástico, fato ilustrativo da transição das rodas de ferro para outro tipo de material, representando desenvolvimento e provavelmente novas emoções proporcionadas pelo brinquedo. Vale ressaltar que, em Piracicaba, esse processo de mutação não se diferenciou de outras localidades. Pessoas (re)inventaram e implementaram, consciente ou inconscientemente, diversos recursos tecnológicos, como pudemos notar numa história do skate da cidade de Bauru/SP, descrita por Thomé (1999).

Tal panorama exprime o processo de aprendizagem dos seres humanos, de explorar cada vez mais materiais inanimados para estender ao uso dos indivíduos, tratando e processando-os, principalmente na expectativa de uma vida melhor. No caso do skate, assim como em outros esportes radicais, tais fatos revelariam a aprendizagem desenvolvida na indigência da busca por intensas excitações prazerosas travestidas em aventura, risco, medo e devaneios de maneira controlada e segura.

Neste âmbito, de acordo com Mei, os primeiros skates industrializados que surgiram em Piracicaba foram da marca de patins Torlay, uma espécie de adaptação de trucks de patins com rodas de borracha movimentadas por um sistema de bilhas (tipo de um cone côncavo convexo com as bolinhas soltas no interior), anexadas numa madeira de compensado em formato elíptico. Posteriormente, apareceram outras marcas, como Bank House, Cadillac Wheels, Makaha e Hang Ten, que tinham trucks específicos para skate, um pouco mais largos, com maior torção para aumentar a curvatura e o balanço; as rodas já eram de poliuretano, proporcionando alta aderência; os shapes eram de madeira, sem nose e tail, e também foi quando surgiram os primeiros de fibra de vidro, possuindo uma textura resinada para evitar escorregamento dos pés, pois os skatistas ainda andavam descalços.

É relevante pensar na introdução dessas marcas. A Torlay, marca de uma indústria nacional, possuía lojas na cidade de São Paulo; já as demais, eram de origem importada e também possuíam revendedores na capital paulista. Tanto para a aquisição de uma como para as outras, havia necessidade de se deslocar geograficamente, então, é possível deduzir que alguns dos precursores do skate em Piracicaba eram membros de famílias detentoras de capital econômico e social (BOURDIEU, 1998). Capital econômico porque, de acordo com Mei, a cidade contava com algumas famílias abastadas que gostavam de viajar para o exterior. Viajar para fora do país ou até mesmo ir para São Paulo no final da década de 70, nos permite subentender a existência de certas condições financeiras e também de um volume de capital social. Este se explica, segundo Bourdieu (1998), pelas mobilizações das redes de relações culturais, econômicas ou pelo simples fato de ligação a um grupo (família, antigos amigos escolares, empresários, etc.). Como é o caso de Mei, que tinha uma irmã residente nos EUA e que lhe presenteava com acessórios e revistas importadas de skate.

A introdução dos novos modelos possibilitou a execução de habilidosos movimentos, como se observa:

"Daí é que é legal, porque começou a vir tanta referência de material mais apropriado, como também as manobras que a gente nem imaginava que podia ser feita. Naquela época, as manobras eram todas de solo, tipo, a primeira delas era chamada de guinada, curva bem fechada onde você deslocava seu centro de gravidade fora do skate, então você estava - o mais legal - quer dizer, o skate está lá e eu estou cá, então você entrava no eixo da curva fazia aquele pêndulo perfeito, a roda tinha aderência legal [...]" (MEI, 2004, p. 3)

Outras manobras realizadas eram o handstand, hang five, hang ten, tail wheellie, dropping, helicopter (360º), high jump e barrel jump, frequentemente praticadas em espaços horizontais com estilos acrobáticos, requerendo um alto grau de habilidade, agilidade, força e equilíbrio, aproximando muito o estilo Freestyle, que também foi chamado de Foot Work (trabalho com os pés), ao da ginástica de solo. No entanto, um dos grandes nomes era Russ Howell, ginasta/skatista americano, que transpunha movimentos ginásticos para o skate, como apresenta a Revista Step up to a Hobie em 1977.

Com os avanços das manobras, foram sendo adaptados outros obstáculos para o aumento da complexidade da 'brincadeira', portanto, gerando mais emoção. Devido a tal complexidade, o skate piracicabano entrou

"Num esquema quase competitivo, porque as manobras começaram a ficar mais complexas; todo mundo começou a falar: Quem que anda melhor? Daí surge o primeiro campeonato aqui em Piracicaba que eu lembro, foi em 1976 [...]" (MEI, 2004, p. 4)

O I Campeonato de Skate foi realizado em 1976, numa rua próxima da Escola de Engenharia de Piracicaba, com apoio da Secretaria de Esporte da Prefeitura do Município. Neste, foram desenvolvidas em etapas distintas as modalidades Slalom e Freestyle, das quais a melhor soma dos resultados dos competidores em ambas, julgadas por um skatista/professor de Educação Física patrocinado pela Torlay, daria o título de campeão. Este acontecimento também representou a esportivização do skate piracicabano, bem como o refinamento das regras, estabelecendo um nível socialmente permitido.

Em 1978, foi organizado o II Campeonato de Skate em Piracicaba, em frente à Estação Ferroviária Paulista, com as modalidades Freestyle e Vertical4, que contou com a presença da equipe 'DM' de São Paulo para julgar e executar demonstrações na competição. Nesse, surgiram as duas primeiras equipes de skate da cidade:

"O Sabag patrocinava, dava camiseta, o patrocínio era isso: toma, vai correr com a camiseta com o nome da minha loja. A gente falou, vamos fazer isso também, aí gente fez a Wizard Skate (Mágicos do skate). Aliás, nosso uniforme era lindo, o pai do cara era dono da confecção [...]" (MEI, 2004, p. 4)

Além de ilustrar a existência das duas equipes ('Sabag' e 'Wizard'), que são elementos de uma esportivização, o depoimento apresenta dois aspectos relevantes. O primeiro refere-se à relação entre os grupos, ou seja, ao fundarem também uma equipe, formam um grupo 'adversário' ao primeiro. Já o segundo, apresenta outro personagem importante para uma história do skate em Piracicaba, o comerciante Sabag. Este patrocinador foi skatista junto com Mei, Lastória, Arnaldinho, Avaré, entre outros, mas não continuou na prática, pois optou pelo outro lado da 'moeda': ser um dos primeiros lojistas de skate na cidade. Seu papel incumbia promover e apoiar o esporte.

"O Sabag fez uma pista [...] onde era a Ford aqui de Piracicaba, e o pessoal ia andar lá. Eu, nesta época, andava de patins. Mas nesta época eu acho que não estava mais gostando de andar de patins, pois, eu ia lá nas minhas tardes de sábado, com sete e oito anos de idade [...] eu via os skatistas andando, eu delirava, sabe?! [...] Meu irmão mais velho do que eu, o Caco, ele tinha um skate [...] aí um dia eu fui andar com ele na rua sem pedir para o meu irmão, lóóóógico (risos...) sem pedir pra ele! Aí eu acabei esquecendo o skate na rua, sei que isso deu o que falar por muitos anos, sabe?! Skate super bom que ele tinha montado: shape Prisma, roda Kliptony, truquinhos Tracker (quatro dedos), tal. Acabei esquecendo na rua. Ele ficou puto da vida comigo. Aí, a partir daí que me deu um toque que eu gostava mesmo de skate, não era mais patins. Nossa! Eu falei: eu perdi um negócio, mas me deu até dor no coração de ter perdido, era dele mas eu fiquei mais sentido do que ele [...] Isso era 79, 80 mais ou menos." (RENCI, 2004, p. 4)

Esse discurso evidencia a provável elaboração da primeira pista de skate da cidade de Piracicaba. O fato não oculta possíveis obstáculos criados pelos praticantes nos 'picos' (gíria utilizada pelos skatistas para denominar os lugares, por exemplo: pistas de skate, praças, escadarias, ruas etc.) onde andavam, ou seja, se pensaram na construção de uma pista, podia-se pensar na existência de obstáculos modelos, pré-inventados e utilizados pelos skatistas, como foram citadas na entrevista as 'rampeiges' (rampa sem transição), denominadas e construídas em terrenos baldios pelos skatistas Mei e Teba.

Ainda no enunciado acima, dois outros fatos são perceptíveis. O primeiro refere-se ao modelo de skate da época, bem apontado pelo ator social ao reportar as marcas das peças; e o segundo representa a dificuldade para se conseguir um skate. Este emerge na circunstância da perda do skate do irmão.

Essa dificuldade apresenta-se novamente, quando o personagem inicia-se na prática efetiva do skate e busca alternativa criativa para a obtenção de um shape de folha de compensado com um kick — nome dado para a elevação traseira do skate —, como se pode observar:

"Doze, treze anos de idade, começou a me dá aquela vontade de montar um skate e começar a andar. Mas assim, foi mais molecagem mesmo, criancice, sabe?! [...] falava para meu irmão: Ó Caco, quando eu posso fazer um shape? Nem falava shape! Falava uma tábua. Ele falou: vai ali no Passini (Madeireira) ai você pede para ele recortar, aí ele desenhava o model (modelo) num papelão, assim, né [...]" (RENCI, 2004, p. 5)

Sua iniciação foi posterior a 1982, pois o skate em Piracicaba, como em quase todo território nacional (HONORATO, 2005), havia desaparecido. Foi apontado nas entrevistas que, após a primeira fase, entre 1977 e 1982, ocorreu uma decadência, passando a ter falta de materiais, pistas e divulgação.

Segundo as lembranças de Renci, a retomada em Piracicaba se deu com Alex Yoshiba (conhecido como 'Soneca') em 1984, com uma rampa no 'pico do Vargas'. Ao conhecer Alex no Colégio Dom Bosco, foi convidado a andar de skate em sua rampa. Em consequência, passaram a andar juntos, iam para o Colégio e para o clube utilizando o 'carrinho' como meio de transporte. Assim, seus colegas começaram a observar e a se aproximar, ocorrendo um aumento significativo de praticantes.

Renci destaca que a retomada se efetivou próximo do ano de 1985, quando Alex Yoshiba fez uma viagem aos Estados Unidos e de lá trouxe na bagagem,

"Um baita de um skate, assim, um Powell Peralta, sabe?! É, um MacMagill, assim, era sem tail e sem nose [...] eram assim: retos, sem nose, tail, com trucks, rodas grandes (roda Tribonis, bem grande e macia). Trouxe aquilo; foi um 'must' aqui em Piracicaba, assim, o skate que a gente viu no momento. Daí, pô! Todo mundo queria um daquele, eu queria um skate daquele! Daí foi quando começou mesmo de verdade, começou a febre mesmo [...]" (RENCI, 2004, p. 6)

Com estes estímulos, a modalidade se desenvolveu, implementando novas manobras, criando novos espaços e novos adeptos. A presença desses recém-chegados iniciou a formação de pequenos grupos, denominados por Renci como 'facções'; essas, por sua vez, eram influenciadas pelas revistas, principalmente as de punk-rock.

Essa efervescência foi introduzida pelos tribais 'LSD' ('L' de Daniel Renci 'Ladrão', 'S' de Alex 'Soneca' e 'D' de Daniel 'Pimenta'). O desenho de um túmulo representava a natureza do grupo. Identificavam-se pelo nome e pelo símbolo da organização: a rebeldia pela sigla 'LSD', termo homônimo ao de uma droga ilícita e o túmulo expressava a obscuridade, o desconhecido e o enigmático no urbano.

O sentido que se emergia era o da irreverência diante da sociedade piracicabana, onde surgiram outras tribos urbanas (MAGNANI, 1992), como as de 1987, denominadas de 'Subúrbios-Skate' (inspirada no filme punk 'Subúrbia'); 'Suisiders-Skates' (Vila Prudente) e o 'Castelo-Skate'.

Essa discussão nos aproxima da ideia de Brandão (2008), no sentido de existir, concomitante à esportivização do skate, um movimento de rebeldia da juventude skatista que se identificou com o comportamento punk na década de 1980. Cabe destacar que os skatistas criam, inventam e reinventam o espaço urbano a partir dos valores adquiridos em suas experiências, consideradas, muitas vezes, contrárias ao ordenamento da vida citadina.

Entretanto, em Piracicaba, o (re)conhecimento da juventude skatista como entidade viria à tona institucionalmente em 25 janeiro de 1991, ao fundarem a Associação dos Skatistas de Piracicaba e Região (ASPIR). Podemos identificar como fundadores: Roberto Carlos Ferreira, Daniel Ricardo Renci 'Ladrão', Pacheco e os proprietários da loja Underground e Sabag Skate. A ASPIR correspondia à cidade de Piracicaba, Charqueada, Águas de São Pedro e São Pedro. Conforme o seu Estatuto, a Associação tinha como objetivo propagar o skateboarding, proporcionando e preservando o bem estar físico, social e cultural.

Essa Associação, com o apoio dos lojistas, organizou no dia 19 de maio de 1991, no Shopping Piracicaba, o primeiro campeonato da modalidade "Street Pro do Circuito Sessions/Underground" (REVISTA TRIBO SKATE. v. 1, n. 1, 1991, p. 7), além de outros campeonatos de menor expressão. Estes fatos demonstraram o crescimento e a importância desta modalidade para a comunidade e, também, denotou a não existência de uma adequada pista de skate na cidade, explicitando, desta maneira, a reivindicação de uma à altura.

Assim, com o impulso da modalidade, em 1991 os skatistas organizaram:

"Uma passeata de 1.000 mil pessoas. A gente conseguiu 1.000 skatistas mesmo, sabe?! Com um carro de som levando e muita gente indo atrás, fomos até a Prefeitura, e lá, daí a gente pediu a pista e o Prefeito falou que ele ia fazer, com o projeto do George Rotatóri. Aí, daí, começou, foi uma coisa nossa, uma conquista muito grande na época [...]" (RENCI, 2004, p. 7)

Em 22 de agosto de 1992 inaugurou-se a mini-rampa, entregue para a ASPIR, com aproximadamente vinte metros largura, piso de granilito e várias dimensões de transições projetadas por George Rotatóri, projetista/skatista que já revolucionava a arquitetura das pistas brasileiras após tornar-se engenheiro profissional (REVISTA TRIBO SKATE. v. 2, n. 5, 1992, p. 6).5

Por fim, segundo a "Adrenalina – A Revista do Skateboard" (v. 1, n. 1, 2002, p. 7), editada pelo skatista e jornalista Edson Lopes de Campos 'Verme':

Piracicaba está na rota do skate brasileiro, e porque não do skate mundial, já que passaram por aqui alguns dos melhores skatistas da atualidade como os brazucas Lincon Ueda e Bob Burnquist, Carlos de Andrade Piolho e gringos como Omar Hassan e Eric Koston, dos E.U.A. A mini-rampa da Rua do Porto, considerada uma das melhores da América Latina, já sediou dois campeonatos profissionais válidos pelo "Circuito Brasileiro de Skate", os Pira Pro.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na memória dos dois skatistas identificamos algumas características da constituição do skate piracicabano que, se preservadas suas peculiaridades, podem nos apontar uma relação intrínseca com o macro processo sócio-histórico do skate no Brasil. Os movimentos micro e macro podem ser demarcados, nas histórias contadas, pela esportivização do skate, que é entendida aqui como a incorporação e a transmissão de comportamentos de uma prática cultural na tensão da transição do lazer para o esporte.

Os comportamentos dos skatistas piracicabanos, tais como, manobras, competições, modo de julgar campeonatos, modalidades e vestimentas, foram construídos de forma similar a outras configurações. Isso não significa homogeneidade, e sim, um modelo de circulação cultural, nos âmbitos micro e macro, a ser aprendido, consumido e, no caso desta pesquisa, interpretado.

A esportivização do skate apareceu para este estudo como um elemento de diferenciação, produzindo comportamentos extremamente elaborados, num sentido mais regulamentado e autocontrolado no universo do skatista. Este fato distingue as maneiras de viver da esfera lúdica no interior da própria atividade, ou melhor, aqueles que manejam com habilidade o 'carrinho' serão diferentes dos demais.

Assim, como sistematização, pode-se considerar: primeiro, numa história do skate, as formas de lazer precedem as formas esportivas que, uma vez estabelecidas, não se ausentam de elementos advindos do lazer.

Segundo, o cenário social no Brasil, a partir da segunda metade do século XX, necessita de mudanças nas práticas lúdicas — surgimento do skate como gerador de fortes tensões-agradáveis esportivizadas e mercantilizadas. Essas transformações são esperadas numa sociedade cada vez mais diversificada e regulada pelo controle social das emoções e também pelo autocontrole que se reflete nas ações motrizes e psíquicas do indivíduo.

Por fim, ressaltamos que os processos micro-históricos portam interdependências com a compreensão dos processos macro-históricos dos esportes. Ou, no mínimo, buscam considerações com intuito de gerar indagações e respostas capazes de serem dialógicas com outros contextos. Eis aí um problema a ser observado nos estudos historiográficos sobre esporte e lazer.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 1 jun. 2012
Aprovado em: 17 set. 2012

 

 

Endereço para correspondência:
Tony Honorato
Av. Robert Kock, 1750, Q 8/ L 12
Bairro Aragarça
Londrina-PR
CEP: 86037-010

 

 

1 A pesquisa contou com fomento CAPES e, posteriormente, CNPq (modalidade bolsa de pós-graduação).
2 Obtivemos esta data na Revista Tribo Skate (v. 6, n. 22, 1996, p. 43), na reportagem comemorativa dos 20 anos da pista de skate de Nova Iguaçu.
3 A Revista Esqueite foi o primeiro periódico especializado em skate no Brasil. Seu exemplar de nº 1 foi publicado em setembro de 1977, com tiragem de 30.000 exemplares. Ela estava sob a responsabilidade de Waldemiro Barbosa da Silva, Sergio Moniz e Flávio Badenes, que estabeleceram como objetivo "tratar de assuntos técnicos, de campeonatos, divulgação de points, pistas e locais ideais para a prática do skate".
4 Segundo Mei, Piracicaba teve uma particularidade que até hoje, para sua memória, foi algo que ajudou a solidificar o esporte. Foi a descoberta dos pequenos abaulados reservatórios de água (lagos dos patos) no campus do Curso de Agronomia da ESALQ/USP, descobertos quando ele e amigos andavam de skate na Universidade e notaram os pequenos lagos vazios. Passaram, então, a frequentar a nova sensação, que representava simbolicamente a primeira pista vertical da cidade, até que a instituição 'reprimiu' e encheu de água novamente os reservatórios. Este fato estimulou o grupo, que já estava desmotivado pela falta de pista, a construir rampas de madeira com transições, dando um novo estímulo e possibilitando pensar na modalidade vertical e não só na horizontal (freestyle).
5 A construção da pista de skate reivindicada foi financiada pela Prefeitura Municipal de Piracicaba, gestão de 1989-1992. Na ocasião, o Prefeito era o Prof. José Machado e a Secretaria de Esporte, Lazer e Turismo (SELT) estava sob a direção do Prof. José Carlos Calladro Hebling, que era assessorado pelos Professores Wagner Wey Moreira e Ídico Luiz Pellegrinotti.

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