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Revista Brasileira de Ciências do Esporte

On-line version ISSN 2179-3255

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.35 no.1 Porto Alegre Jan./Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32892013000100017 

ARTIGOS DE REVISÃO

 

Corpo e religião: marcas da educação evangélica no corpo feminino

 

Body and religion: evangelical education's marks on the female's body

 

Cuerpo y religión: marcas de la educación evangélica en el cuerpo femenino

 

 

Ms. Ana Carolina Capellini RigoniI; Dr. Elaine ProdócimoII

IDoutoranda na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (Campinas – São Paulo – Brasil) E-mail: anacarolinarigoni@yahoo.com.br
IIProfessora da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (Campinas – São Paulo – Brasil) E-mail: elaine@fef.unicamp.br

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo teve como objetivo compreender a forma como a Igreja Evangélica Assembleia de Deus influencia na educação do corpo das meninas que a frequentam. O estudo teve como base o referencial teórico da Sociologia e da Antropologia, constituindo-se como uma etnografia, realizada em um templo da Assembleia de Deus na cidade de Campinas/SP, entre março de 2006 a dezembro de 2007. A partir deste estudo percebemos o modo como a educação religiosa recebida pelas meninas gera implicações na educação do corpo das mesmas, que estabelecem uma espécie de negociação entre os costumes postulados pela Igreja e outras formas de educação.

Palavras-chave: Corpo feminino; educação; igreja evangélica; assembleia de deus.


ABSTRACT

This research aims to figure out how protestant church specifically one known as Assembleia de Deus influences the body education of the girls who visit often this type of institution. This study rests on the theoretical framework of sociology and anthropology and consists of an ethnography which took place in Assembleia de Deus church located in Campinas city/São Paulo, between March/2006 and December/2007. From this study we understood the way how religious education impacts in body education of the girls, which establish a kind of negotiation between the practices postulated by the church and others kind of education.

Key-words: female body; education; protestant church; church Assembleia de Deus.


RESUMÉN

Esta investigación tuvo como objectivo comprender la forma como la Iglesia Evangélica Asamblea de Dios influye en la educacion del cuerpo de las niñas que la asisten. El estudio se basó en el marco teórico de la Sociología y la Antropología, estableciéndose como una etnografía realizada en un templo de la Asamblea de Dios en la ciudad de Campinas/SP, entre marzo de 2006 y diciembre de 2007. De este estudio podemos ver como la educación religiosa recibida por las niñas tiene implicaciones em la educación del cuerpo de ellas, que establecen uma espécie de negociación entre las prácticas acreditadas por la Iglesia y otras formas de educación.

Palabras clave: Cuerpo femenino; educación; iglesia evangélica; asamblea de dios


 

 

INTRODUÇÃO

Cada religião possui crenças e costumes diversos que, no decorrer do tempo, "marcam" os corpos dos fiéis, tornando visíveis gestos e comportamentos tipicamente religiosos. Dentre as inúmeras religiões existentes, algumas direcionam de forma mais direta seus ensinamentos com relação aos "usos do corpo". Quando utilizamos o termo "uso do corpo" fazemos referência ao sentido dado por Mauss (2003), para o qual o corpo é o primeiro instrumento do homem. Mas, ao contrário da compreensão utilitarista a que o termo "uso do corpo" possa remeter, o importante no conceito do autor é que estes diferentes usos podem (e devem) ser atribuídos a diferentes significados conforme o contexto sociocultural em que estão inseridos.

Neste sentido, cada religião ensina a seus membros quais são as formas mais adequadas de utilizar o corpo para que ele não "caia em tentação" e não "cometa pecados". As denominações pentecostais tradicionais se destacam no que se refere à educação do ser humano em seus aspectos corporais. O pentecostalismo pode ser entendido em três vertentes: o "Pentecostalismo Clássico (tradicional)", estabelecido no país com a Congregação Cristã no Brasil (1910) e com a Assembleia de Deus (1911); o "Deuteropentecostalismo", surgido entre 1950 e 1960 no Brasil, e o "Neopentecostalismo", que inicia nos anos de 1970 e tem como seu maior exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus. Trataremos neste texto sobre a Assembleia de Deus (denominação tradicional), pois esta ainda cobra de seus fiéis determinados padrões de comportamento de forma mais rígida e conservadora. Além disso, ela foi a igreja escolhida para a realização da pesquisa de campo. As igrejas da segunda e da terceira vertentes, em sua maioria, encontram-se modernizadas e preocupam-se menos com as questões dos velhos costumes e conservadorismos, o que não faz de seus membros indivíduos com características tão marcantes do ponto de vista corporal (MARIANO, 1999).

A pesquisa tratou especificamente das mulheres da Assembleia de Deus, pois entendemos que, mais do que no homem, é no corpo feminino que, desde muito cedo, são impressas as marcas desta educação religiosa. Neste sentido, entendendo que é numa fase a qual precede a vida adulta que o repertório gestual das mulheres é "incorporado",1 o presente estudo teve como objetivo compreender como a religião educa o corpo das meninas evangélicas, e como esta educação se torna observável nos gestos das mesmas.

Os fiéis da crença estudada possuem características marcantes. Roupas típicas, modos de cortar e de pentear os cabelos e alguns gestos típicos são facilmente perceptíveis nas meninas da igreja, que têm suas "técnicas corporais" diferenciadas das meninas que não pertencem à mesma religião. Quando nos referimos, no decorrer do texto, a "técnicas corporais", utilizamos o termo no sentido dado por Mauss (2003). Quando o autor se refere a "técnicas corporais" não está se referindo apenas às técnicas que são aprendidas em uma aula de Educação Física, nos quartéis militares ou nas academias de ginástica. Ele fala sobre algo mais amplo. O autor usa o termo para explicar os gestos e modos de agir de cada indivíduo, os quais são decorrentes de sua vida em determinada sociedade.

A Antropologia foi a disciplina que forneceu-nos instrumentos mais apropriados para refletirmos sobre o tema. Na busca de construir uma etnografia que permitisse uma "descrição densa" da realidade social a qual iríamos estudar (GEERTZ, 1989), optamos por frequentar continuamente a igreja escolhida, inserindo-nos no cotidiano de cultos ocorridos durante o tempo de pesquisa. A pesquisa de campo aconteceu entre março de 2006 e dezembro de 2007. Os dados que apresentamos a seguir são fruto, além das observações e conversas informais com os membros do grupo religioso, das entrevistas gravadas e transcritas com as meninas, mulheres e com o pastor da Igreja.2

Elaboramos as questões direcionando-as no sentido de duas categorias principais: a primeira é a "aparência corporal" das meninas, tópico no qual tratamos de algumas questões como, por exemplo, o uso de adornos, as roupas específicas que fazem parte do vestuário evangélico feminino, o uso ou não uso de maquiagem e os cuidados com os cabelos. A segunda categoria diz respeito às "gestualidades" das meninas estudadas, ou seja, às suas "técnicas corporais". Selecionamos uma turma de Educação Dominical3 para realizar as observações. Coincidentemente, o grupo selecionado era composto apenas por meninas, embora não estivesse restrito a elas, pois meninos também poderiam frequentá-lo. Percebemos claramente que aquela era uma educação voltada ao comportamento feminino. A cada aula as professoras enfatizavam qual era o comportamento "correto" de uma mulher. Além disso, questões sobre a família, a fé e os cuidados com o corpo também eram mencionadas nas aulas.

A RELIGIÃO E SUAS FORMAS DE EDUCAÇÃO4

Ao falar sobre religião, Geertz restringe-se a interpretar a "dimensão cultural da análise religiosa", afirmando que, para ele, o conceito de cultura não possui referentes múltiplos, ele "denota um padrão de significados transmitidos historicamente [...], um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida" (GEERTZ, 1989, p.103). Neste sentido a religião faz parte deste padrão de significados através dos quais os fiéis podem se comunicar.

O corpo e as "coisas do mundo",5 por estarem mais próximos das "tentações", sempre foram considerados profanos pelos membros da Assembleia de Deus. Neste sentido, percebemos a religião como uma instituição educadora do corpo de cada indivíduo, pois quando aderimos a uma religião, adotamos seus símbolos morais e inCORPOramos6 as condutas sociais que as pessoas do grupo religioso esperam de nós. Abandonamos alguns hábitos e aderimos a outros. Para Bandini (2004), apesar dos evangélicos assumirem a alma como superior, é no corpo que se demonstra a experiência religiosa. O corpo expressa não somente a "mudança individual" provocada pela fé, como mostra que outras pessoas não são convertidas, e isto só é possível porque os evangélicos possuem características referentes ao corpo (a aparência) diferenciadas dos fiéis de outras religiões. Gestos e comportamentos religiosos evidenciam a tentativa de moralização do corpo. Cria-se uma gestualidade tipicamente religiosa. Para Sanchis (1994), o que demarca o pentecostalismo é o fato de que os fiéis assumem uma identidade única, que repercute na totalidade de uma orientação existencial organizada pela igreja. Neste sentido, gestos se tornam representações de valores, de princípios e de proibições aprendidos na igreja.

Como nos mostra Sant'Anna (2005), o corpo é território tanto biológico quanto simbólico e, talvez, seja o mais belo traço da memória da vida. Autoras, como ela e Soares (2006), afirmam que o corpo é sempre simbólico, pois é construído a partir de liberdades e de interdições. O corpo revela os modos de vida de uma sociedade que, por meio de suas instituições, neste caso a religiosa, vêm educando homens e mulheres de formas distintas.

São vários os exemplos que observamos na Igreja estudada que podem ilustrar as formas de educação do corpo feminino. O modo de se vestirem (quase sempre usando saias longas e blusas sem decote, em cores "sóbrias") e de cuidarem da aparência, os gestos comedidos proferidos durante o culto e alguns gestos fora da Igreja são alguns exemplos.

AS MENINAS DA IGREJA

Foram cinco as meninas estudadas: Taís, Telma, Letícia, Bruna e Paula. Apresentamos cada uma, rapidamente, para que o leitor possa compreender as diferenças entre elas no decorrer do texto.

Taís e Telma são irmãs. Taís tem 14 anos e Telma tem 16 anos. São filhas de pais economicamente favorecidos e sua mãe frequenta a Igreja vestida com roupas feitas em tecidos finos e coloridos. Ela é a única das mulheres mais velhas da Igreja que usa adornos e maquiagem. As duas irmãs raramente vão à Igreja vestindo saia, e disseram que só fazem uso dela em ocasiões especiais. A relação e os modos de se comportar dos pais é relevante e reflete-se no comportamento das filhas. Talvez, por isso, as duas irmãs se destaquem das outras três meninas estudas, visto que elas parecem não seguir de forma tão rígida as normas da Igreja. Telma é, certamente, a menina mais autônoma e espirituosa dentre as cinco meninas que fazem parte do grupo.

Letícia tem 13 anos, é de classe média baixa e aparenta ser mais velha do que realmente é, devido ao corpo bem torneado, como o de uma mulher adulta. A mãe engravidou dela aos 17 anos e encontrou na Igreja a ajuda que precisava, transformando-se numa fiel conservadora, e exigente com relação à filha. Seu pai não é evangélico e, ao contrário do que é aprovado pela Igreja, adora sair, beber e dançar forró. Letícia deixa transparecer um pouco de insatisfação com a mãe, e parece estar sempre em dúvida sobre sua fé. Afirma sentir vontade de sair e de dançar com seu pai. O contraste entre o pai e a mãe de Letícia faz com que ela fique no "meio termo" com relação aos costumes da Igreja, ou seja, ela não possui a mesma "liberdade" que Taís e Telma, mas possui bem mais do que as outras duas meninas que apresentaremos a seguir.

Bruna tem 11 anos, é de família humilde e é extremamente tímida. Seu pai não é evangélico, mas, ao contrário do pai de Letícia, cobra da filha o comportamento ensinado pela igreja, da mesma forma que sua mãe o faz. Aparentemente mais submissa, percebemos que Bruna não comentou em momento algum sobre teimosias e brigas com os pais por contrariá-los em algumas questões, coisa comum e mais presente nas conversas com as três meninas descritas anteriormente.

Paula, a última menina estudada, tem 12 anos, é de classe social desfavorecida e seu pai é Diácono da Igreja. Durante anos residiram numa pequena construção nos fundos do terreno da Igreja, que foi cedida a eles pelo Pastor quando assumiu o cargo. Dentre as cinco meninas estudadas, Paula é a que mais carrega em seu corpo as particularidades de uma educação religiosa. Veste-se somente com roupas discretas, nunca coloridas, usa saia todos os dias, tanto dentro quanto fora da Igreja, e seu estereótipo é o típico de uma "crente".7

Percebi que, apesar da rígida educação religiosa a que estão submetidas, as meninas vivenciam conflitos na vida cotidiana e, em diversas ocasiões, o corpo é o cenário deste debate. É o que veremos a seguir.

A APARÊNCIA CORPORAL DAS MENINAS

Estar no mundo serve para agradar a Deus e não para agradar os nossos impulsos (Professora de evangelização, durante a aula).

Na frase acima, a professora referia-se à proibição da Igreja quanto ao uso de meios para modificar e embelezar o corpo. Os membros da Assembleia de Deus são contrários a métodos que vão do simples uso de cosméticos até intervenções cirúrgicas. Conteúdos como estes são sempre enfatizados durante as aulas de evangelização.

Uma das coisas que mais chamou-nos a atenção com relação à aparência feminina foi a obrigatoriedade do uso de saia, tanto pelas mulheres quanto pelas meninas da Igreja. Numa das aulas observadas ao longo do ano, a professora direciona uma questão (já acompanhada de resposta) às meninas:

Será que o corpo não é mais importante do que as roupas? Só os pagãos se preocupam com isso.

Neste sentido, o alerta feito pela professora se refere ao fato de muitas pessoas utilizarem o vestuário como acessório da vaidade. As meninas estudadas aprendem desde muito cedo que uma "boa" mulher não deve chamar a atenção para o seu corpo, mas somente para suas qualidades espirituais. Este ensinamento também serve para o momento de escolher as roupas com as quais elas irão sair de casa. Ou seja, apesar da lição daquele dia dizer que só os pagãos se preocupam com as roupas, os membros da Igreja, principalmente as mulheres, aprendem desde pequenas o modo como devem se vestir. Nas palavras do Pastor, "elas devem se vestir com modéstia e pudor". O que vimos é que este tipo de exigência não faz com que algumas meninas e mulheres se preocupem menos com sua aparência e roupas. Apesar de se vestirem com roupas tipicamente evangélicas, muitas o fazem de maneira vaidosa, preocupando-se com a beleza e elegância.

Apesar de a Igreja estudada ser tradicional, surpreendemo-nos ao ver que, das cinco meninas do grupo, apenas duas (Bruna e Paula) iam constantemente vestindo saia aos cultos. A professora disse ao grupo que elas ainda não precisavam usar a saia todos os dias, mas para que se acostumassem deveriam inseri-la aos poucos no vestuário cotidiano.8 A professora, parecendo não concordar com a flexibilização dos costumes, comenta que na sua época era diferente.

Não interessava se era criança, tinha que usar saia do mesmo jeito.

Mas, cedo ou tarde, afirmou ela, as meninas terão que aderir a este costume. Estava claro que a escolha quanto aos costumes, se não obrigatória, era no mínimo coercitiva.

Telma e Taís, que enquanto pequenas seguiam à risca os costumes postulados pelos membros da Igreja, agora, um pouco mais velhas, não usam saia fora do templo, e mesmo para irem aos cultos a saia não é a roupa oficial. Taís veste saia apenas para ir a determinados cultos, pois afirma que sabe da importância de se vestir de acordo com os costumes em algumas ocasiões. Já Telma diz que não gosta de usar o traje, e nem em ocasiões especiais ela o faz. Taís conta que há algum tempo só usava saias, mas hoje, com seu jeito "moleque" de ser, afirma que este tipo de roupa "não é legal" e atrapalha seus movimentos.

Ao ser questionada sobre o que achava do uso "obrigatório" de saia, Telma, com seu jeito despojado, disse:

Eu acho ridículo. Acho que o que importa é o que está por dentro. E depende da saia é muito pior do que qualquer outra calça. Eu venho de calça, mas venho com o coração aberto para ouvir a palavra de Deus. Para mim, religião só é boa se for assim (Telma).

Telma comenta que ficava claro para ela o "tamanho do machismo" que havia na Igreja. Ela lembrou uma ocasião em que, tanto as meninas quanto a professora de sua turma de Educação Dominical, haviam faltado ao culto, e por isso ela teve que participar da evangelização junto com a turma de adolescentes que, naquele dia, estava composta apenas por homens. Os meninos alegavam, na ocasião, que deveria ser permitido ao homem ir de bermuda à Igreja. Algo que Telma concordara absolutamente. No entanto, minutos depois, eles foram contrários à liberação da vestimenta feminina.

Naquele dia eles me disseram: está certo, mulher tem que vir de saia mesmo, e maquiagem é coisa do demônio etc. Eles acham isso. Neste dia teve uma briga na turma, porque eu não concordava com eles (Telma).

Ainda com relação ao uso da saia, Letícia comenta sobre quando sua avó veio visitar-lhe em Campinas e surpreendeu-se com o pouco uso que a neta fazia de tal vestimenta:

A minha avó achou muito solto. Ela disse: Letícia, a gente tem que praticar as coisas de Deus. Eu uso brinco, sabe? Não para vir na Igreja, é claro, mas minha avó disse que isto está muito errado, eu não estar de saia também deixou ela meio assim, ela disse: nossa Letícia, você não se preocupa com a salvação? Mas quando eu cheguei aqui estava muito frio, lá na Bahia não é frio, quando a gente chegou aqui, a minha mãe comprou calça para mim e parecia que eu tava pelada de calça, eu me sentia muito esquisita. Agora que eu me acostumei com a calça, me sinto quase pelada de saia (Letícia).

Bruna e Paula, educadas rigidamente desde o nascimento, são as únicas meninas do grupo que utilizam saia em todos os momentos, dentro e fora da Igreja. Elas parecem submissas, no entanto demonstraram certa insatisfação ao terem que obedecer aos costumes e às imposições feitas pelos pais.

É fácil perceber que Paula é "crente", pois seu estereótipo confirma isso. Ela é, dentre todas as meninas que fazem parte do grupo, aquela que mais carrega em seu corpo as marcas do conservadorismo da Igreja. Ela é reconhecida, de antemão, por seus aspectos físicos. As saias e blusas que Paula veste seguem o modelo das roupas utilizadas pelas mulheres mais velhas, ou seja, são roupas de feitio simples e tecidos "sem cor". Seus cabelos são compridos e, assim como o das mulheres mais velhas, que acreditam que vaidade é coisa do diabo, ela evita cortá-los. A mais parecida com Paula é Bruna e, mesmo assim, suas "características evangélicas" são menos acentuadas do que na primeira. Tudo indica que o fato de o pai de Paula ser o Diácono da Igreja faz com que as regras "pesem" mais sobre ela. Isto faz com que seus pais sintam-se no dever de servir de exemplo para os outros membros da Igreja.

A crença dos frequentadores da Igreja é de que a mulher não só deve ser mais vigiada, como também deve servir ao homem. Nas palavras do Pastor, é possível perceber no que os membros da Igreja se baseiam para manter estas distinções de gênero na Igreja.

Em nosso entendimento o papel da mulher é muito importante, mas a Bíblia diz que a mulher tem que ser submissa ao homem. Deus fez a mulher para servir o homem e ajudá-lo a realizar sua missão (Pastor Roberto).

Apesar destes costumes serem propagados de geração em geração, dentro da Igreja algumas mudanças vêm ocorrendo. Exemplos disso, além das formas de vestimenta já citadas anteriormente, são os usos de adorno, maquiagem e outras formas de embelezamento, que eram rigidamente combatidas, mas que já são utilizadas por algumas mulheres da membresia. Mas, ainda assim, as mulheres que aderem a novos comportamentos são recriminadas até mesmo pelas outras mulheres da igreja.

Taís, que está sempre com enfeites nos cabelos, o olho maquiado, esmalte nas unhas e brincos, disse que não se sente bem usando adornos como anéis, pulseiras e colares, por achar que isso desagrada a Deus e, principalmente, porque desagrada ao pai. Ao questionar Taís sobre o uso de tais adornos, ela respondeu:

Eu uso, mas não é aquela coisa extravagante porque eu tenho que manter aquilo que eu sou, e eu sou evangélica. Mas aquela coisa de que você não pode nada porque não vai para o céu, isso eu acho uma bobagem.

Sua irmã, Telma, diz que não gosta de usar estas coisas, mas afirma não ter nada a ver com a Igreja, tentando demonstrar que suas atitudes são decorrentes de decisões pessoais. Telma foi educada, até alguns anos de sua vida, distante destas "vaidades". Nada mais comum que ela tenha se acostumado e continue a viver sem elas, mesmo quando elas se tornam economicamente possíveis, acreditando que isso é uma decisão pessoal e que ela não sofreu influência da Igreja no que diz respeito a este assunto.

Letícia, por ter sido criada em meio a uma "disputa" entre a mãe e o pai por causa das "coisas da Igreja" e das "coisas do mundo", sente-se dividida com relação a estes aspectos. Para ela, a hora de ir à Igreja é o momento no qual ela não deve utilizar coisas que chamem a atenção dos outros membros. Por isso, ela afirma que só utiliza maquiagem quando, segundo ela, é oportuno.

A educação de Bruna e Paula é tão diferente daquela que as outras meninas receberam, que o próprio trato com relação à maquiagem, esmalte e adornos é outro. Enquanto as três meninas anteriores demonstraram certa revolta por não poderem usar maquiagem "demais", Bruna e Paula sequer contam com a possibilidade de utilizarem tais produtos. A simplicidade das duas é tamanha, que práticas comuns às outras três meninas são exemplos de usos do corpo que Bruna e Paula não têm intimidade.

Todos estes exemplos citados correspondem a um tipo de educação que deixa marcas aparentes nos corpos das mulheres e meninas da Assembleia de Deus. São características que as destacam de outras pessoas que não são religiosas. No entanto, não é somente a aparência da mulher evangélica que demonstra sua ligação com a igreja. São também os seus gestos que demonstram um tipo de educação específica, transformando suas técnicas corporais em códigos que servem para atestar uma determinada crença.

A GESTUALIDADE DAS MENINAS

Ninguém é santo aqui na Terra, porque nós somos carne e carne peca (Professora da Educação Dominical, durante uma aula).

Os aparatos de um gesto podem ser mecânicos, anatômicos, mas o que ele representa é simbólico e, portanto, cultural. Sendo assim, um gesto como o de se sentar com as pernas afastadas não é simplesmente mecânico, mas está relacionado com a ideia de pudor. Se a carne peca, como afirma a professora das meninas, devemos cuidar bem dela, afinal, o que acontecerá com a nossa alma depende daquilo que fizermos ao nosso corpo.

Por isso, pode-se dizer que todas as técnicas corporais e ações do indivíduo evangélico estão, a todo tempo, intermediando a sua relação com Deus. Mariano (1999) nos mostra que, para a maioria dos evangélicos, tudo o que acontece é influência de Deus ou do Diabo. E nesta relação, mesmo que a intenção final seja a salvação da alma, o corpo é o objeto a ser utilizado para este fim.

A gente sabe que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, esse é o motivo pelo qual a gente não pode ter piercing, nem tatuagem, nem isso e nem aquilo, entendeu? Mas acho que o mais forte do que nós aprendemos com relação ao cuidado com o corpo mesmo é por causa dos homens estarem sempre olhando para as mulheres de um jeito diferente (Telma).

Ou seja, as preocupações com a alma representam uma espécie de pano de fundo de uma repressão que objetiva conter o corpo feminino do pecado na terra. É preciso reprimir o corpo da mulher para que ela não caia e, principalmente, não provoque a tentação no homem. Neste sentido, a Assembleia de Deus tenta estabelecer regras quanto ao uso do corpo, que se refletem não só na aparência como na gestualidade da maioria de suas mulheres.

Minhas amigas têm costume de dar beijinho para cumprimentar os outros. Eu me acostumei aqui na Igreja a cumprimentar dando a mão, aí eu não consigo dar beijinho em ninguém fora da Igreja (Paula).

Ou seja, são nos detalhes do comportamento destas meninas que podemos perceber um tipo de educação tipicamente religiosa. A religião deixa "marcas" nos fiéis, determinando também seus modos de utilizar o corpo. Detalhes na maneira de caminhar, de sentar-se, de repousar os braços sobre a mesa diferem de outras pessoas e, de certa forma, obedecem a um padrão. É claro que, dentre os padrões estabelecidos, alguns fiéis optam por um relaxamento de certos costumes e a manutenção de outros, como é o caso de Telma, Taís e Letícia, que, por não receberem uma educação "tão rígida", parecem mais espontâneas e relaxadas do que Bruna e Paula. Tentamos demonstrar, a partir de agora, algumas situações em que os gestos das meninas estudadas demonstram possíveis resultados de uma educação religiosa.

É muito ruim ter que usar saia para ir à escola, sem contar que não dá nem para sentar direito, tem que ficar se cuidando, é um saco, porque parece que sempre tão olhando para você. Eu nunca posso sentar no chão junto com as minhas amigas, às vezes eu fico de joelho, mas cansa (...) A gente aprende que tem que ser diferente, como eu estou na Igreja, eu não vou usar droga e estragar o meu corpo porque Deus não ia gostar. O jeito que a gente se comporta é diferente, até o jeito de andar. Eu não falo palavrão, não sento no chão junto com os outros (Paula).

É significativa a compreensão que Paula tem a respeito das diferenças existentes entre ela e os amigos não evangélicos. A percepção que ela tem sobre a própria gestualidade, quando a compara com a de seus amigos, é no mínimo interessante.

Outro bom exemplo é a respeito da dança, que é considerada profana e, portanto, proibida pela Assembleia de Deus. Além de seus membros não poderem dançar, eles também são "proibidos" de ouvirem músicas que não sejam próprias da Igreja. Telma afirma não dançar porque não gosta. Ela não teve em seu processo de educação nenhum contato com a dança, inclusive ela concorda com a Igreja ao considerar a dança como algo do demônio. Já Letícia, que cresceu com seu pai dançando forró e admira-o por isso, confere à dança outro sentido.

Não adianta minha mãe dizer que isso é pecado, eu gosto de dançar. Quer dizer então que Deus acha pecado as pessoas se divertirem? (Letícia).

Telma, por sua vez, acha um absurdo sua irmã Taís gostar de dançar. Indignada, ela comenta:

Minha irmã vive dançando, o pior é que ela gosta de funk. Minha mãe fica louca quando ela liga um CD destas coisas.

Ou seja, por mais que a mãe reclame da música, ela é permissiva com a filha, o que faz com que Taís tenha uma intimidade com a dança que, aparentemente, as outras meninas (com exceção de Letícia) não têm. Bruna e Paula manifestam certa vontade de dançar, mas afirmam que nem mesmo na escola, quando o conteúdo da aula de Educação Física é dança, o fazem. Segundo o Pastor, a dança é profana, pois chama a atenção masculina para o corpo da mulher e vice-versa, o tipo de coisa que a Igreja procura evitar.

Assim como a dança, existem inúmeros comportamentos tidos como pecaminosos pelos fiéis, que dizem respeito às práticas corporais. A Educação Física é um bom exemplo disto, sendo uma disciplina que compõe o currículo escolar obrigatório, ela está presente no cotidiano das aulas. Não que a aula de Educação Física em si seja considerada profana. Mas algumas atividades trabalhadas em aula não são "bem vistas" pelo grupo religioso, o que pode afastar as meninas estudadas desta prática. Observamos algumas dificuldades apresentadas por estas meninas durante esta prática escolar. Alguns exemplos são: a dificuldade que têm para sentar no chão, a maneira como se movimentam para saltar sobre obstáculos, o fato de se negarem a participar de alguma atividade com música e, como já dito anteriormente, de jamais dançarem. Além disso, apresentações elaboradas pela escola e a participação em Festas Juninas são eventos dos quais elas passam distantes. Segundo os evangélicos, a Festa Junina é profana, pois evoca a presença de espíritos maus.

Mas, apesar da rigidez com que foram educadas, as meninas não concordam com muitas coisas, e acham exagerado o comportamento das mulheres mais velhas da Igreja.

Tem irmãs na Igreja que não concordam com nada que você faça no teu corpo. Se eu corto o cabelo curtinho, elas já ficam me olhando. Elas acham inadmissível fazer uma cirurgia plástica, se o brinco já é proibido, um piercing então é motivo para um barraco dentro da Igreja (Taís).

Para Telma, a prática (não recomendada pela Igreja) de andar de bicicleta, por exemplo, tem significados importantes e não faz com que ela sinta-se desagradando a Deus.

Eles me dizerem que ser virgem é importante é uma coisa, agora eles quererem dizer que eu não posso jogar futebol, por exemplo, é outra coisa (Telma, num tom indignado).

Mesmo se comportando de forma diferenciada quanto a algumas exigências da Igreja, todas as meninas defendem a importância de se casar virgem e, inclusive, da obrigação de dar satisfação de seus atos ao marido. Paula, apesar de ser a mais adequada aos costumes da Igreja, foi a única que tomou uma postura diferenciada com relação ao casamento. Ela disse:

Eu não acho que toda mulher deveria ser obrigada a casar, eu não quero casar, para quê? Para o meu marido querer mandar em mim?

Paula e as outras quatro meninas estudadas não acreditam que estão desagradando a Deus apenas por não concordarem com certas posições defendidas pela Igreja, mas, ao que parece, o medo de desobedecerem aos pais e o conservadorismo de que foram reféns as impedem de manifestarem-se contra as regras.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A educação corporal repassada às meninas evangélicas tem como objetivo diferenciá-las das meninas "do mundo", o que, de certa forma, acontece. No entanto, o fato de receberem a mesma educação na Igreja não as tornam iguais. As cinco meninas estudadas agem de formas diferentes entre si, e isto acontece devido às diferentes formas de educação que recebem, em outros contextos que não o religioso. O que pudemos perceber foi certa acomodação dos costumes a outras formas de educação que elas recebem fora da Igreja como, por exemplo, em casa, na escola, na rua, nos grupos de amigos etc. Enfim, estas meninas parecem estabelecer uma espécie de negociação entre os usos e costumes postulados pela Igreja e as necessidades geradas em outros âmbitos do cotidiano, nos quais aquilo que aprenderam com a religião não serve. Um bom exemplo disto pode ser referente às aulas de Educação Física, nas quais elas sabem que, apesar da Igreja proibir certas práticas corporais, durante uma aula elas devem fazer o possível para participar. Afinal, o conteúdo da disciplina deve ser ensinado e vivenciado por todos os alunos. Este foi apenas um exemplo de negociação entre as práticas religiosas e aquelas que surgem no dia a dia de cada menina. Cada uma delas depara-se com situações diversas, e por isso precisam agir de formas distintas. Neste sentido, o que faz elas "serem o que são" não é simplesmente a religião a qual aderiram. Ser evangélico não significa ser "somente evangélico". Portanto, antes de assumirem uma identidade evangélica, elas possuem outras e diversas identidades. Antes de serem evangélicas, elas são filhas, alunas de uma determinada escola, membros de um determinado grupo etc.

Neste sentido, pensar na convivência das meninas estudadas com pessoas que não fazem parte da Igreja, e também em sua presença cotidiana em outras esferas, que não somente a religiosa, permite-nos ampliar a compreensão a respeito da diversidade nas formas de apropriação dos conteúdos religiosos e, consequentemente, nas diferenças presentes em cada uma delas. Um bom exemplo disto é a escola. Dentre as meninas pesquisadas, uma delas estuda numa escola confessional,9 o que nos faz supor que, se não todos, a maioria de seus colegas também são evangélicos, o que implica imediatamente nas relações de convivência pessoal, inclusive fora do ambiente escolar. Ainda podemos citar como exemplo, o fato de que nesta escola há uma divisão por sexo durante as aulas de Educação Física. Uma das meninas pesquisadas estuda numa escola particular, o que nos induz a pensar sobre as condições financeiras dela e de seus colegas, levando-nos a refletir sobre as implicações disto em suas relações dentro e fora da escola. Ainda no que diz respeito às escolas frequentadas, temos aquelas que estudam em escolas públicas, perpassando outras formas de relações, tanto em nível econômico quanto em nível de práticas cotidianas. Estes são dados relevantes ao pensarmos no tipo de educação a qual cada uma está submetida e, principalmente, no tipo de pessoas com as quais cada uma delas mantém relação no ambiente escolar.

Além disso, as próprias condições familiares dizem respeito ao modo como cada menina estabelece relações com os ensinamentos religiosos. Neste caso, o nível econômico das famílias, assim como o comportamento de suas mães, implica no modo como cada uma age diante das variadas situações cotidianas. No que se refere ao exemplo das mães, podemos pensar não somente no modo como cada uma delas se comporta diante das filhas, mas também no modo como elas "cobram" certos comportamentos das mesmas (umas de maneira mais rígida e outras menos).

Outro dado a ser pensado diz respeito à localização das Igrejas por elas frequentadas. Neste caso observamos apenas uma Igreja, mas Mariano (1999) já afirmou que o Pentecostalismo nunca foi homogêneo. Neste sentido, os costumes de um grupo que frequenta uma Igreja num bairro tradicional podem ser muito diferentes dos costumes de um grupo que frequenta uma Igreja no centro de uma grande metrópole. É a partir desta relação de conflito entre os ensinamentos da igreja e a vida cotidiana fora dela, que podemos compreender a heterogeneidade no que diz respeito ao comportamento das meninas evangélicas.

Aprendemos com toda a realidade que nos cerca e, assim, vamos incorporando certas técnicas corporais e propagando alguns gestos automaticamente. Nossa gestualidade mais cotidiana é dotada de significados culturais. O simples ato de sentar-se de uma maneira específica, por exemplo, possui significados mais profundos do que o gesto em si pode demonstrar. Afinal, as coisas não são somente aquilo que vemos, mas também aquilo que está por trás de tais ações. Para os fiéis da Assembleia de Deus, utilizar o corpo somente para as coisas que agradam a Deus é o mesmo que avançar em direção ao "paraíso". Isto demonstra que o corpo se configura como um dos principais objetos de representação na igreja estudada.

Entendemos que as meninas estudadas, apesar de respeitarem sua religião e obedecerem aos pais, passam por diversos conflitos relacionados à vida cotidiana e à própria Igreja. São justamente estes conflitos que as tornam diferentes umas das outras, apesar de frequentarem uma mesma Igreja na qual são rigidamente educadas.

Sendo assim, voltamos a enfatizar que não é a religião, por si só, a responsável pela gestualidade das meninas evangélicas estudadas. Não é apenas a educação religiosa que faz com que uma pessoa seja o que ela é. Não somos apenas o que a escola fez de nós, nem o que a Igreja ou mesmo a educação dada pelos nossos pais fizeram de nós. Somos uma espécie de combinação, de um conjunto de todas estas formas de educação que vivenciamos ao longo de nossa vida e que dão sentido a ela.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 10 mar. 2011
Aprovado em: 14 jun. 2011

 

 

Endereço para correspondência:
Ana Carolina Capellini Rigoni
Rua Vitorino Ferrari, 27 A
Bairro Vl. Santa Isabel, Barão Geraldo
Campinas – São Paulo
CEP: 13.084-050

 

 

1. Pensamos no conceito de incorporação, no sentido atribuído por Bourdieu. Ver: BOURDIEU (2008) e Wacquant (2002)
2. Levando-se em conta os procedimentos éticos para a realização da pesquisa, um "termo de consentimento livre e esclarecido" foi assinado pelo pastor da Igreja e pelos pais das meninas estudadas. O termo foi utilizado tanto para a garantia de permissão de publicação posterior dos dados quanto para a preservação e o anonimato das pessoas envolvidas, sendo assim, todos os nomes citados são fictícios.
3. Os cultos na Igreja que estudei são divididos da seguinte forma: nos domingos de manhã acontece a Escola Dominical; ainda nos domingos, porém à noite, tem o culto da Celebração da Família; nas noites de terça-feira o culto é dedicado aos Estudos Bíblicos; nas quintas-feiras, também à noite, acontece novamente o culto da Família e; em todo primeiro sábado do mês, à noite, é realizado o culto da Santa Ceia.
4. No texto completo dedicamos um capítulo à compreensão do fenômeno religioso. Utilizamos autores clássicos como Durkheim, Mauss e Hubert, o antropólogo contemporâneo Clifford Geertz e outros autores que estudam a religião e, principalmente, o pentecostalismo nos dias atuais. No entanto, pelo próprio limite espacial do artigo, optamos por passar brevemente pelo referencial teórico, apenas como meio de estabelecer algumas pontes que nos permitem enfatizar os dados do campo, os quais representam de forma mais interessante (por estarem respaldados na prática) um pouco do que desejamos compartilhar com o leitor.
5. Os membros da Assembleia de Deus opõem radicalmente as coisas que são de Deus às coisas que pertencem ao mundo (mundanas) e, portanto, profanas.
6. Termo utilizado por Jocimar Daolio (1995, p.39), no qual ele grafa "corpo" em letras maiúsculas para, justamente, dizer que o homem se apropria de valores e costumes sociais por meio de seu corpo. Neste sentido, a palavra difere conceitualmente do uso anterior, quando fazemos referência ao sentido cunhado por Pierre Bourdieu.
7. Termo usado pelos próprios membros da Igreja para se diferenciarem das pessoas do "mundo".
8. São poucas as famílias que frequentam a Igreja estudada que obrigam as filhas a irem à escola de saia. Isto se deve à série de mudanças que a Assembleia de Deus vem sofrendo com relação a seus costumes, nos últimos anos.
9. As escolas confessionais foram reconhecidas e garantidas desde a promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1961. São escolas que oferecem, além do currículo convencional, a formação religiosa, possibilitando aos pais optarem pela escola que atenda aos valores religiosos escolhidos, em contrapartida ao ensino das escolas laicas (DOSSIÊ, 2007).

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