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Educação & Sociedade

Print version ISSN 0101-7330On-line version ISSN 1678-4626

Educ. Soc. vol.20 n.69 Campinas Dec. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73301999000400011 

O pensamento de Vygotsky e Bakhtin no Brasil*

Marilene Sinder**

 

 

Por meio da realização de uma pesquisa cuja técnica empregada foi a de entrevistas abertas, Maria Teresa de Assunção Freitas verificou como a teoria de Vygotsky e Bakhtin entrou no Brasil. O livro traz entrevistas e análises das respostas dadas às perguntas feitas pela autora-pesquisadora, acompanhadas por observações que ela faz da leitura mesma dos textos dos autores e sobre eles, escritos por seus entrevistados.

Maria Teresa optou pela maneira dialógica de construção do conhecimento. Ela, sujeito pesquisadora, lançou-se numa relação dialética com os sujeitos entrevistados, com o objetivo de, com base na análise dos textos orais e escritos produzidos por eles, escrever um novo texto. O resultado foi a produção de um trabalho de leitura fácil e agradável, que desperta o interesse do leitor tanto pela forma como foi construído quanto pelo assunto tratado.

A autora entrevistou 24 professores universitários de universidades do Rio de Janeiro, de São Paulo e Minas Gerais, com atividades nos cursos de graduação e pós-graduação em educação, psicologia e letras. Seu objetivo foi dialogar com seus entrevistados e descobrir em que medida eles se apoderaram da teoria sócio-histórica e como viam o seu desenvolvimento no Brasil. Além disso, ela procurou verificar como essas pessoas tiveram acesso à teoria e como, de uma maneira ou de outra, passaram a utilizá-la.

Maria Teresa mostra-nos que a entrada da teoria sócio-histórica no Brasil se deu pela formação de grupos de pesquisa nas universidades paulistas: USP e Unicamp. A formação desses grupos teve origem no interesse das pessoas que passaram a integrá-los, ou porque vieram de uma formação de doutorado ou pós-doutorado no exterior, onde tiveram contato com a leitura, ou porque se interessaram, aqui mesmo, pela teoria.

O interesse pela formação dos grupos de pesquisa obedeceu a uma lógica temporal. Ele teve início no começo da década de 1980, momento em que se passou a pensar de forma diferente a educação, a partir da abertura política. A maioria dos integrantes desses grupos foi iniciada pela leitura de Piaget e, por insatisfação com a sua prática, decidiu investir na busca de uma teoria que pudesse dar respostas às suas preocupações acerca dos fatores sociais e culturais que chamavam sua atenção.

Dos entrevistados por Maria Teresa, iniciados na teoria sócio-histórica, muitos não são oriundos da psicologia ou da educação, mas sim das áreas de serviço social, letras e até neurologia. A motivação, no entanto, foi comum entre eles: a busca de uma explicação sociocultural para os questionamentos surgidos na sua prática educativa.

A autora mostra, pelo depoimento de seus entrevistados, como as idéias de Vygotsky e Bakhtin foram apreendidas e utilizadas pelos educadores no Brasil; como o conceito de "zona de desenvolvimento proximal", de Vygotsky, e a visão de linguagem na formação da consciência do indivíduo, proposta por Bakhtin, foram tratados por professores da língua portuguesa e por alfabetizadores.

A autora procurou verificar como seus entrevistados viam o futuro da teoria sócio-histórica no Brasil e os depoimentos que conseguiu lhe mostraram que ela poderá ter grande desenvolvimento, especialmente no meio acadêmico. Aliás, foi aí que ela começou a ser estudada, porém, seria bastante proveitoso que seus estudiosos pudessem criar mecanismos para divulgá-la, mais efetivamente, entre os profissionais de todos os níveis de ensino.

Aos olhos dos entrevistados, a teoria sócio-histórica tem possibilidade de romper com a visão fragmentada e positivista adotada pela psicologia, no Brasil, durante muito tempo. Na educação, a utilização da abordagem poderá mudar os rumos da psicologia da educação, deixando de dedicar-se ao biológico e ao psicológico, voltando-se às interpretações do meio social e cultural em que vivem os indivíduos, levando à educação uma perspectiva transformadora.

As possibilidades de aproveitamento da psicologia em áreas de conhecimento como a lingüística, a epistemologia e a antropologia, nas quais ela sempre foi criticada, dado seu aspecto fechado, são apontadas por alguns dos entrevistados de Maria Teresa. Isso, sem dúvida, traz novas abordagens a campos do conhecimento que podem ser correlacionados em benefício das ciências humanas em geral e da educação em particular.

A perspectiva de continuidade dos estudos da teoria sócio-histórica na atualidade, quando o mundo questiona o regime socialista – posto em xeque em países onde existiu por longo período –, também é verificada pela autora. A sua conclusão é que as idéias de Vygotsky e Bakhtin são, elas mesmas, uma possibilidade de rediscutir o marxismo, pois que esses autores opõem-se ao marxismo mecanicista, resgatando o homem como sujeito histórico, justamente sustentando as críticas que hoje são feitas ao marxismo dogmático.

O objetivo de Maria Teresa ao iniciar sua pesquisa foi "escrever um outro texto no qual psicologia e educação se encontrassem", com base nos textos de Vygotsky e Bakhtin e de outros educadores brasileiros com os quais manteve contato. Ela possuía ainda suas indagações acerca da abordagem psicológica no Brasil: sua fragmentação e seu positivismo. Com base nisso, propôs-se a fazer um trabalho de relação dialógica entre a psicologia e a educação, apoiada pelas abordagens de Vygotsky e Bakhtin.

A autora persegue a sua intenção de verificar como a teoria sócio-histórica entrou no Brasil, como ocorreu sua apropriação e quais são suas possibilidades futuras, e conclui: "(...) o processo de apropriação das abordagens de Vygotsky e Bakhtin desencadeia uma série de novas indagações que resultam da própria compreensão das teorias, e que se constituem em novos pontos de partida para novos estudos, promovendo assim a expansão do conhecimento". Ela aponta ainda para o papel que a universidade brasileira tem a desempenhar na divulgação desse conhecimento, através do ensino e da extensão, evitando-se o risco de uma má interpretação da teoria, causando sua deturpação e sua desvalorização junto aos profissionais dos outros níveis de ensino.

A leitura da obra é tanto uma necessidade para a apreensão do conhecimento da teoria sócio-histórica, quanto uma oportunidade de verificarmos como pode ser construído um texto em várias vozes. A construção dialógica do conhecimento é um ensinamento apreendido pela autora, da teoria de Bakhtin, e sem dúvida ela mantém o mesmo diálogo com seus leitores.

 

 

* O pensamento de Vygotsky e Bakhtin no Brasil. Maria Teresa de Assunção Freitas. Campinas: Papirus, 1994.

** Mestre em educação pela UFF - Campos de Gragoatá/Niterói.

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