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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01881997000200004 

A Família e o Impacto da Imigração
(Curitiba, 1854-1991)

 

Cacilda da Silva Machado1
Universidade Federal do Paraná

 

 

RESUMO
A partir da genealogia de uma família imigrante de origem germânica, estabelecida em Curitiba (PR) desde a segunda metade do século passado, buscou-se, por meio de fontes diversas, reconstruir a história da socialização das gerações pela via do casamento e do trabalho. A pesquisa procurou esclarecer algumas estratégias familiares e individuais para a adaptação ao novo meio, bem como as mudanças nas relações intrafamiliares decorrentes do fenômeno migratório.
Palavras-chave
Família, imigração, casamento

 

ABSTRACT
The aim of this paper is to build up the socialization history of generations of one imigrant german family, settled down in Curitiba since the second half of the nineteenth century. Based on different kinds of sources of information, we tried to determine some individual and family strategies (related mainly to marriage and labor practices), as well as intrafamily changes originated from migration movements.
Keywords
Family, migration, marriage

 

 

INTRODUÇÃO

No Brasil, os estudos sobre populações de imigrantes alemães luteranos e seus descendentes costumam destacar a grande resistência do grupo em integrar-se ao novo meio. Diante disso, pareceu-me relevante vasculhar a história matrimonial e profissional de gerações de uma única família de origem germânica a fim de melhor avaliar as formas de sociabilidade por ela desenvolvidas, bem como as repercussões intrafamiliares deste processo. Escolhi os Strobel, estabelecidos em Curitiba (PR) desde 1854, e o fiz porque esta família já está reconstituída2, em função do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná já haver publicado um livro de memórias de Gustav Hermann Strobel - um dos filhos do casal pioneiro e fundador do ramo a ser estudado3 - e, finalmente, porque alguns de seus descendentes dispuseram-se a completar as informações necessárias por meio de depoimentos4. O ponto crucial deste trabalho é, portanto, o de que um determinado tipo de observação - a microscópica - pode revelar aspectos fundamentais anteriormente não observados.

 

A SOCIALIZAÇÃO PELO CASAMENTO

Em seus trabalhos de reconstituição de famílias da comunidade luterana de Curitiba, Nadalin verificou que, para o período 1870-1939, as porcentagens relativas aos casamentos intra-étnicos eram sempre superiores a 80%. A partir de 1940, no entanto, a curva conheceu uma significativa queda, chegando a 57% em 1969. Tais índices, segundo o autor, apontam para a existência de uma comunidade fechada e que resistia em integrar-se ao novo meio. Mais ainda, em geral era o homem o responsável pelo rompimento da endogamia étnica5.

Dentre os inúmeros indivíduos estudados por Nadalin estão os descendentes de Christian e Christine Strobel (o casal pioneiro), e seus casamentos parecem confirmar os dados gerais obtidos para toda a comunidade luterana. Dos 51 casamentos por mim levantados, apenas sete são interétnicos. E mais: essa endogamia rompeu-se apenas com os bisnetos do casal pioneiro, em uniões realizadas a partir da segunda metade da década de 1930. Existe, igualmente, a tendência dos homens em romper com a endogamia étnica: dos sete casamentos, cinco tinham um descendente dos Strobel como cônjuge do sexo masculino.

Depreende-se que uma análise das histórias individuais de alguns membros da família Strobel talvez possa ajudar a entender um pouco mais sobre tais escolhas. Para isso, reuni o maior número possível de informações sobre os cônjuges dos filhos de Christian e Christine, e sobre os filhos e netos de Gustav, o autor das memórias.

 

FILHOS DE CHRISTIAN E CHRISTINE STROBEL

No Quadro 1 relacionei alguns dados fundamentais acerca do casamento dos filhos do casal pioneiro. Acrescento, ainda, que Emma, esposa de Gustav, veio para o Brasil com os pais, Ferdinand e Johana Wendt. A família morou em Joinville (SC) e só mais tarde estabeleceu-se em Curitiba. Os Strobel e os Wendt deviam se conhecer mesmo antes da união de seus filhos, pois Ferdinand Wendt era pedreiro e pode ter trabalhado em algumas obras com os Strobel, porquanto Christian era carpinteiro e ensinou o ofício a seus filhos. A família de Therese, noiva de Emil Robert, também devia ser conhecida dos Strobel, visto que seu pai - Christiano Osternack - construiu em Curitiba a primeira olaria moderna de boa produção. Carl, marido de Marie, era filho de Sebastian Weckerlin, um velho conhecido dos Strobel: seu nome consta na lista de passageiros da mesma viagem do navio Florentim que trouxe os Strobel para o Brasil. E, segundo o livro de memórias de Gustav, em 1863, já em Curitiba, foi um dos operários da construção da residência de Augusto Stellfeld, obra em que os Strobel também atuaram.

 

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Na avaliação dos dados disponíveis sobre a primeira geração, o que chama imediatamente a atenção é a endogamia étnica absoluta nesses casamentos realizados entre 1875 e 1886. Tal comportamento expressa o nascimento de uma comunidade étnica fechada e coesa. Para além dos vínculos étnicos, contudo, há entre os noivos (ou melhor, entre as famílias dos noivos), vínculos profissionais: Ferdinand Wendt (pedreiro), Christiano Osternack (oleiro) e Sebastian Weckerlin (carpinteiro) exercem, todos eles, profissões do ramo da construção civil, tal como Christian, Gustav e Emil Strobel. Assim, se a etnia comum aparece como pré-requisito para a escolha do cônjuge, foi por intermédio dos vínculos profissionais que este princípio pôde ser viabilizado.

Se considerarmos a escolha do cônjuge um indício importante para entender o tipo de socialização aberta ao indivíduo e às famílias imigrantes, é preciso observar que uma tradição cultural comum por si só não parecia suficiente para unir as pessoas. Ao menos neste momento, quando a família já está estabelecida no país, mas ainda em fase de integração a um meio urbano, o trabalho, a vida cotidiana e uma mesma condição socioeconômica também foram fatores de peso.

 

FILHOS DE GUSTAV E EMMA STROBEL

O casal Gustav-Emma teve sete filhos, um dos quais viveu apenas até os dois anos de idade. No Quadro 2 constam os principais dados das uniões matrimoniais dos demais. O marido de Clara, Paul Burger, veio sozinho para o Brasil. Ele encontrou sua futura esposa nos eventos promovidos pelas sociedades recreativas germânicas que funcionavam em Curitiba. Emma, a esposa de Emil Richard, era filha de Otto Koch, um tipógrafo de Joinville. Consta que os Strobel tinham contatos comerciais e laços de amizade com a família de Otto. Além disso, os Koch eram parentes de Therese Osternack Strobel, esposa do tio do noivo. Otília, a mulher de Gustav Wilhem, era filha de Reinhold Garmatter, um imigrante proprietário de um açougue e de uma fábrica de salsichas em Curitiba. Na época do casamento, no entanto, Reinhold já havia falecido há 13 anos. Rosina, a noiva de Rudolf, era sobrinha de Therese Osternack Strobel (tia de Rudolf). Os Weigert, pais da noiva de Franz, eram antigos conhecidos dos Strobel, pois quando do casamento de Gustav com Emma, eles tornaram-se vizinhos de João Schaffer, avô de Anna (nascida Schaffer) Weigert, mãe de Bertha. Finalmente, sabe-se que Friedrich casou-se com uma moça que vivia com a família em uma chácara próxima à dos Weigert. O casamento durou pouco tempo, pois, em 1913, doente, Friedrich foi levado para a Alemanha por seus pais, para tratamento de saúde, e lá faleceu.

 

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Também para esta geração destaca-se a manutenção da endogamia étnica, em casamentos realizados entre 1898 e 1911. Mas aqui, os vínculos profissionais entre as famílias dos cônjuges não parecem ter tido tanto peso. Tudo indica que ocorreu uma espécie de ampliação da rede de relações sociais, via parentesco, vizinhança e laços de amizade, por uma geração já plenamente estabelecida no país e no meio urbano.

 

NETOS DE GUSTAV E EMMA (WENDT) STROBEL

A primeira filha de Gustav e Emma - Clara Strobel, casada com Paul Burger - teve cinco filhos, dos quais um não sobreviveu e outro, Hans, nunca se casou. No Quadro 3 estão as informações sobre os casamentos dos demais. A noiva de Paul Hermann era filha de Robert e Amélia (Wendt) Eheke. A família era de Canoinhas (SC), mas possuía uma casa em Curitiba. A mãe da noiva era parente da avó do noivo. Rudolf conheceu sua futura mulher e se casou em São Paulo, para onde foi, ainda solteiro, em busca de trabalho. A moça não era de origem alemã. Heinz, o filho mais jovem, partiu um pouco antes da Segunda Guerra para a Alemanha e, quando eclodiu o conflito, não pôde mais voltar. Após a guerra, ele se casou com Elfriede e ficou morando na Alemanha Oriental.

 

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O segundo filho de Gustav e Emma - Emil Richard, casado com Emma Koch - teve quatro filhos, cujos casamentos têm seus dados resumidos no Quadro 4. A noiva de Eugen era filha de Josef Fieber que, à época da união, era proprietário de uma padaria (também residência da família) próxima à residência de parentes de Eugen. Tudo o que se sabe sobre a noiva de Germano é que residia em Joinville e que o casal se conheceu e se casou naquela cidade. Sobre a noiva de Emil Jr., sabemos apenas que era filha de Carlos e Fanny Hatschbach e que a família tinha vínculos com os Strobel pois Otília Garmatter, tia de Emil Jr, tinha parentesco com os Hatschbach. A família da esposa de Waldemar pertencia à comunidade luterana e residia próximo à casa do noivo.

 

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O casal Gustav Wilhem Strobel-Otília Garmatter teve quatro filhos. A mais velha, Edith Clara, e o filho seguinte, Herbert Erich, nunca se casaram. Os dados sobre as uniões matrimoniais dos demais encontram-se no Quadro 5. A esposa de Egon era filha do proprietário da Joalheria Heisler, família que pertencia à comunidade luterana. Mas o casal se conheceu no litoral, sem a mediação dos pais (na época, os pais de Egon já haviam falecido). O marido de Gerda nasceu em Curitiba, mas seus pais eram da Suíça. Eles se conheceram porque Gerda e a irmã de Nelson eram amigas e o namoro iniciou-se durante uma excursão.

 

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Rudolf Strobel e Rosina Osternack tiveram quatro filhos, sendo que um deles, Arthur, nunca se casou. Os dados dos casamentos dos demais estão no Quadro 6. Mercedes era filha de Ferdinand Egg, na época proprietário de um bar (também residência da família) próximo à casa de Erwin. Além disso, as famílias tinham relações de amizade. Érica foi a primeira mulher da família Strobel a romper com a endogamia étnica. O casal se conheceu porque Nicolau residia em uma pensão de estudantes em frente à casa de Érica, e o casamento realizou-se à revelia dos pais da noiva. A noiva de Reinaldo era filha de João Sperandio Neto e de Duzolina Valentim, ambos de origem italiana. Ao contrário do que ocorreu sua irmã, porém, a família não se opôs ao casamento.

 

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O casal Franz e Bertha (Weigert) Strobel teve cinco filhos, dos quais um não chegou à idade adulta. As principais informações sobre as uniões matrimoniais dos demais estão no Quadro 7. Sabe-se ainda que Walfried Strobel conheceu Elisabeth Sersósimo porque foi trabalhar no interior do Paraná (Jacarezinho), onde ela residia. Sobre o noivo de Zilda, Edgar Bredow, sabe-se que tinha família em Rio Negro (PR), mas migrou sozinho para Curitiba.

 

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Friedrich Alwin Strobel e Amália Blitzkow tiveram apenas uma filha, Elfie. Ela se casou em 1933, aos 20 anos, com Nicolau Klass (com 23 anos). A família de Nicolau era de São Mateus (PR), mas vivia em Curitiba.

Nesta geração, que abrange casamentos entre 1927 e 1958, rompeu-se a endogamia étnica absoluta da família. Este dado está em concordância com os obtidos por Nadalin para o conjunto da comunidade e, em seus trabalhos, o autor lança a hipótese de que tal mudança teve alguma relação com dois fatores. Em primeiro lugar, porque entre 1930 e 1937 ocorreu o fim da Grande Imigração e foi instituída a imigração por quotas. Em segundo lugar, porque a partir do Estado Novo cresceram as pressões sobre as comunidades de origem germânica, o que teria abalado a identidade teuto-brasileira; isso se agravou após a derrota alemã, em virtude da desmistificação do nacional-socialismo e da revelação da natureza genocida do nazismo6.

Assim, vale a pena aprofundar esta matéria com os dados obtidos na reconstituição da história dos casamentos dessa geração dos Strobel. Em relação aos casamentos endogâmicos, é importante ressaltar uma mudança: dos dez matrimônios acerca dos quais pude resgatar as condições em que ocorreram, cinco referem-se aos laços de amizade ou de vizinhança das famílias, mas os outros cinco decorreram da iniciativa individual dos noivos, seja porque casaram fora de Curitiba, seja porque já eram mais velhos, o que supõe maior independência em relação aos pais.

O comportamento desta geração, porém, fica mais claro se se analisam as seis uniões exogâmicas. Duas delas não se realizaram em Curitiba e, nesse sentido, pode-se considerar que a distância geográfica desses rapazes, em relação à família e à comunidade, contribuiu para a realização de uniões matrimoniais decorrentes exclusivamente da socialização realizada pelo indivíduo. Assim é que a manutenção da endogamia étnica nos casamentos de Heinz Burger e Germano Strobel, também realizados fora de Curitiba, pode ser considerada circunstancial. É que eles migraram para meios sociais que propiciavam o encontro com cônjuges da mesma etnia (Alemanha e Joinville, respectivamente).

Neste sentido, o casamento de Érica Strobel foi significativo porque a endogamia foi rompida por uma mulher, e porque esta união sofreu a oposição do grupo familiar da noiva. Se se tenta conjecturar sobre as razões para tal oposição, descarta-se o fato de o noivo não ser de origem alemã, uma vez que Reinaldo, irmão de Érica, também casou com uma moça não-germânica. A razão parece estar no fato de Érica ter escolhido para marido um indivíduo que não fazia parte da grande malha de relações sociais em que os Strobel se inseriam.

Esta insubordinação é muito mais significativa, porém, porque expõe (ao romper com) uma espécie de regra de nupcialidade: aquele cuja socialização se efetiva enquanto membro de uma família deve manter este princípio no momento da escolha do cônjuge. E isso se torna ainda mais inaceitável quando o rompimento é efetuado por uma mulher: por não construírem uma vida profissional, elas estavam mais condicionadas à socialização que a família lhes proporcionava. Se para os homens a exogamia parecia mais aceitável é porque, através do trabalho, eles poderiam escapar dessa sociabilidade familiar, ou ao menos acrescentar a ela a sua sociabilidade individual.

Assim é que, embora os estudos sobre imigração tendam a caracterizar a mulher como ponte entre as gerações para a preservação da identidade étnica, pode-se imaginar o caráter muito mais amplo desse papel social feminino: o controle de sua socialização como meio de preservação dos laços comunitários, frequentemente ameaçados a partir do momento em que os elementos masculinos tendem ou são obrigados a sair da cidade ou do seio da comunidade para viabilizar sua vida profissional; ou também devido ao crescimento e variação populacional da cidade. Somente dessa forma se pode explicar o surgimento e a manutenção, na cidade que se urbaniza, de uma comunidade de famílias, identificada pelos vínculos socioeconômicos, profissionais, de vizinhança, de parentesco e, muitas vezes, religiosos entre seus membros. E mais: é viável supor que os casamentos exogâmicos realizados com a aprovação familiar tenham sido exogâmicos do ponto de vista da etnia, mas não do ponto de vista da comunidade.

Finalmente, pode-se acrescentar que, se a saída dos rapazes para outras cidades indica, na década de 1930, o início da ruptura do princípio comunitário, o caso de Érica insinua algo ainda mais relevante: a crescente inviabilidade da idéia da própria cidade de Curitiba enquanto um conjunto de comunidades. No caso em questão, porque em um bairro de classe média marcadamente povoado por descendentes de imigrantes germânicos fora instalada uma pensão para estudantes.

A tendência a casamentos decorrentes da socialização realizada pelo indivíduo em detrimento dos efetuados por influência familiar consolida-se na quarta geração. De 30 casamentos de bisnetos de Gustav e Emmma Strobel, 19 foram exogâmicos e 11 endogâmicos, do ponto de vista étnico. Parece a consolidação do individualismo na construção da sociabilidade, quando a endogamia ou a exogamia étnica tornam-se puramente circunstanciais. Nas palavras de Viveiros de Castro e Benzaquem de Araújo, o que emerge é

uma concepção particular das relações entre indivíduo e sociedade, estando subordinada a uma imagem básica da cultura ocidental - a do indivíduo liberto dos laços sociais, não mais derivando sua realidade dos grupos a que pertença, mas em relação direta com um cosmos composto de indivíduos, onde as relações sociais valorizadas são relações interindividuais8.

Mas foi uma transformação de certa forma esperada. O que não se esperava era essa espécie de retorno à idéia de vida comunitária realizada pela primeira e segunda gerações dos Strobel - afinal, Christian Strobel, ao migrar para o Brasil apenas com sua família nuclear, já apresentava um comportamento de certo modo individualista. Acrescente-se a isto o fato de que durante o período em que a família se manteve basicamente endogâmica (até a década de 1930) foi quando - segundo os estudos historiográficos - a cidade de Curitiba se urbanizou e modernizou. A lógica do processo, assim, deveria ser uma concomitante modernização (individualização) das relações sociais.

Esse comportamento, aparentemente contraditório, talvez possa ser explicado pela própria situação de imigração. Para Anthony Wrigley, por exemplo, existem boas razões para se acreditar que a relação entre modernização e industrialização seja contingente, em vez de necessária, bem como supor que nos primórdios da industrialização, seus progressos, em muitos aspectos, tendem a retardar em vez de acelerar a modernização. O autor observa que imigrantes urbanos costumam enfrentar uma série de dificuldades econômicas e uma grande insegurança no novo ambiente, se comparados com os camponeses, que têm posse livre de terra ou um arrendamento comumente garantido. Em circunstâncias desse tipo, uma rede de relações informais com parentes e vizinhos pode ser o único recurso contra desastres 8.

Porém, quando nos voltamos para outros estudos sobre populações imigrantes do Paraná, nem sempre encontramos padrões matrimoniais semelhantes aos dos Strobel. Analisando a população de origem italiana da Colônia de Santa Felicidade (hoje, um bairro de Curitiba) entre fins do século passado e meados do atual, Altiva Balhana observou que três entre cada quatro casamentos tinham cônjuges nascidos na própria paróquia9. Estudo de natureza semelhante foi realizado por Rui Wachowicz para a Colônia Abranches, comunidade formada originalmente por imigrantes poloneses, e também hoje um bairro de Curitiba. O autor localizou no início do século XX a progressiva redução porcentual dos casamentos endogâmicos, até atingir 24% em 1951-1960. Além disso, crescia no mesmo ritmo o porcentual de casamentos de outros grupos étnicos, chegando a 36% entre 1951 e 196010. Por fim, a dissertação de mestrado sobre a população de imigrantes (e seus descendentes) católicos de origem germânica de Curitiba, realizada por Serley Ranzi, revela que no período 1850-59 ocorreu uma alta taxa de uniões interétnicas no grupo - 71%. A partir da década de 1860, há uma pequena superioridade dos casamentos intra-étnicos, mantida até 1890. Desde então, os casamentos interétnicos eram preponderantes, com uma pequena retração no período que antecede à Primeira Guerra11.

Como interpretar resultados tão díspares? Por que os casamentos intraétnicos na população de origem italiana em Santa Felicidade não apresentaram queda a partir da década de 1930? Como explicar a precocidade da exogamia étnica matrimonial entre as populações de origem polonesa e germânica católica estudadas, respectivamente, por Wachowicz e Ranzi?

Na verdade, a explicação para um determinado comportamento social unicamente pela via da manutenção ou perda da identidade étnica é bastante frágil. Muito mais pertinente, parece-me, seria relacionar tais comportamentos às diversidades de experiências vividas por essas populações. Assim, é possível identificar outras hipóteses:

1. Santa Felicidade, embora hoje seja um bairro de Curitiba, até meados do presente século era uma colônia rural, isolada geograficamente e com uma população majoritariamente de ascendência italiana. Portanto, sofreu em muito menor grau que a população luterana urbana as pressões que levaram à desagregação comunitária;

2. em relação às populações estudadas por Wachowicz e Ranzi, pode considerar-se que, como ambos levantaram dados de igrejas católicas:

a) a catolicidade (e por paralelismo, o protestantismo) teve certa influência na socialização das famílias; b) embora um decreto de 1861 tenha reconhecido a validade dos casamentos evangélicos, a legislação previa que os casamentos mistos continuavam sob o exclusivo domínio católico. Assim, é evidente que as paróquias católicas celebraram muito mais casamentos inter-religiosos (e inter-étnicos) do que as igrejas luteranas;

3. no caso da Colônia Abranches (em comparação com a Colônia Santa Felicidade), o grande número de casamentos de outros grupos revela uma comunidade já há muito habitada por outras etnias (inclusive população de origem luso-brasileira) além da polonesa. Em decorrência ou pela convivência, tratava-se de um espaço propício à realização de um maior número de casamentos inter-étnicos.

 

A SOCIALIZAÇÃO PELO TRABALHO

Os estudos sobre a história da família ocidental procuram, dentre outros interesses, compreender o processo de individualização das relações sociais que determinou a constituição do individualismo afetivo, expresso na família contemporânea nuclear, intensamente centrada em si mesma, unida emocionalmente e orientada para os filhos.

Alan MacFarlane encontra a origem dessa trajetória a partir do momento em que a unidade mínima de produção e consumo deixa de ser a família e passa a ser o indivíduo. O autor acrescenta que, nesta condição, o indivíduo só pode expandir-se de uma maneira em direção a outras pessoas: através do casamento. Dessa forma, a união marido/mulher é enfatizada. Ha menores obrigações com parentes e concentração nos filhos. O autor defende a tese de que este modelo remonta ao século XII ou antes, mas não está seguro de que modo o sistema funcionou como um conjunto de instituições interligadas e de quando emergiu, na Inglaterra, para mais tarde se expandir para todo o mundo ocidental12.

A maior parte dos pesquisadores, contudo, atribui o desencadeamento desse processo à crescente interferência do Estado na sociedade. Wrigley acredita que o declínio da família do tipo tradicional só ocorreu no século XIX, quando as rendas reais começaram a aumentar de forma consistente e quando o Estado assumiu algumas responsabilidades para a provisão de educação e assistência13. Jean-Louis Flandrin afirma que o conceito de família, tal como é hoje habitualmente definido (pai-mãe-filhos), é um fenômeno bastante recente. Para ele, a Idade Moderna é exatamente o período de luta entre os poderes público e privado, e só a progressiva ressurreição do poder real e a ação da Igreja reduziram, até sua destruição, o modelo familiar tradicional14. Lawrence Stone reitera a existência do conflito entre poderes público e privado na determinação de modelos familiares. Em sua argumentação, o autor afirma que a chave para o entendimento desse processo é o fluxo e refluxo da luta entre valores e interesses em conflito representados pelos diversos níveis de organização social, do indivíduo ao Estado-Nação15.

Segundo Stone, desde o século XVI o Ocidente conheceu três modelos básicos de organização familiar: de uma família extensa - quando o indivíduo e a unidade de reprodução estavam submetidos aos interesses e necessidades da comunidade de parentes e/ou vizinhos; de uma organização patriarcal, caracterizada pela submissão do indivíduo às necessidades e interesses do chefe da família e pela autonomia em relação à comunidade e, finalmente, o modelo nuclear, fundamentado nas relações afetivas e na autonomia do indivíduo. Stone acrescenta que essas transformações não tiveram um caráter linear e, embora o que ele chama de individualismo afetivo, característico do século XX, tenha suas raízes nesse processo, é totalmente falso supor que ele seja vitorioso e que as coisas não vão mudar de sentido. Stone observa, ainda, o variável impacto nas diferentes classes, bem como as restrições a que submetem correntemente a sua difusão geográfica. Para Stone, o poder, a distribuição de laços afetivos e a relação entre membros familiares constituem-se como um jogo zerosum: quando se busca uma coisa, se perde outra. Concretamente, a privacidade e a comunidade são necessidades opostas e não podem levar sua máxima expressão de forma simultânea. Assim, em determinados momentos, a sociedade, no confronto entre variados valores e interesses, acaba fazendo escolhas.

A relação que esse autor estabelece entre modelos familiares e dialética das pressões sociais mais imediatas - em detrimento da perspectiva das mentalidades, quase imóvel, como a de Alan MacFarlane -, bem como a sua ênfase na possibilidade de mudança de rumos na evolução (o seu caráter errático) e nas variações de seus impactos nas diferentes classes e regiões, me parecem metodologicamente pertinentes para se pensar nas funções da família e na construção dos laços familiares de algumas gerações dos Strobel.

 

OS FILHOS DE CHRISTIAN STROBEL

A história profissional de Christian Strobel antes da emigração me faz considerar sua grande autonomia em relação aos pais. Conforme anotou Gustav Strobel em suas memórias, seu pai nasceu em Poppengruen (Vogland), filho de um proprietário rural e mestre-escola do vilarejo. Aprendeu carpintaria e, logo após, seguiu para outras cidades alemãs para se aperfeiçoar. Durante a viagem de regresso, chegou a Glauchau (Saxônia), onde se empregou como carpinteiro e se casou.

Sua trajetória no Brasil demonstra a efetuação de mudanças. Antes de se estabelecer em Curitiba, os Strobel viveram em sítios em São José dos Pinhais e Campo Largo da Roseira, hoje pertencentes à Grande Curitiba. Ali Christian dedicava-se à produção de alimentos para o mercado, com a ajuda de toda a família. Nessa mesma época iniciou seus filhos e seu amigo Ernest Stein na carpintaria, e com estes trabalhou até encerrar sua carreira. Há, ainda, alguns outros aspectos a serem considerados. O primeiro refere-se ao fato de a família nuclear - nos sítios - ter funcionado como uma unidade econômica através da divisão sexual e etária das tarefas. Eis alguns exemplos retirados do livro de Gustav Strobel:

Sobre a propriedade entre São José dos Pinhais e Campo Largo da Roseira:

Minha mãe tratou de preparar a terra com enxada e cortadeira e eu auxiliava-a na medida das minhas forças. A irmã cuidava dos afazeres da casa. Meu pai pouco podia contribuir neste trabalho, pois continuava trabalhando fora16.

Sobre a propriedade arrendada de Bento Fagundes:

Todo dia, ao entardecer, o gado tinha que ser recolhido dos campos, e ao amanhecer as vacas leiteiras eram ordenhadas. Tínhamos também que cultivar a plantação e nós mesmos fazíamos a nossa farinha de milho. [...] minha irmã em pouco tempo adquiriu prática no manejo do fabrico da farinha. Ela tinha aprendido e praticado, antes, na casa de um vizinho [...]17.

Sobre a propriedade comprada após quatro ou cinco anos no Brasil:

O manejo com o arado, cavalos e carroças ficava a meu cargo, até que meu irmão pôde tomar conta deste serviço. Com isto ou tive que ir com meu pai trabalhar em serviços de carpintaria [...]. Apenas na época de plantio e na colheita ficávamos em casa para trabalhar nesta tarefa18.

Já no trabalho de carpintaria, a unidade familiar de produção e consumo era garantida através da reversão dos salários dos filhos para os pais:

Nesta obra de Stellfeid trabalhamos 11 meses, e apesar do salário modesto, meu pai conseguiu economizar alguns cem mil réis, incluindo o meu salário, pois eu não podia dispor dele [...]. Meu pai exigia que seus filhos trabalhassem sem remuneração para seus genitores até aos 24 anos e afirmava que na Alemanha era este o costume19.

Embora não se possa tomar esta observação do autor do livro como verdade absoluta, talvez ela seja um dado que em parte explique os casamentos relativamente tardios dos quatro filhos mais velhos de Christian, em relação aos índices da coorte 1866-1894 da comunidade luterana de Curitiba como um todo. Nadalin anotou que esta primeira geração, em média, casava-se mais cedo do que seus conterrâneos que não emigraram e aproximava-se do padrão brasileiro. Observa que tal comportamento parece estar

ligado à concessão gratuita de terras aos colonos estrangeiros na periferia da cidade, o que teria facilitado o estabelecimento pelos jovens de um domicílio próprio20.

Entre os Strobel, esse comportamento talvez não tenha ocorrido porque seus filhos não dependiam de terra para se estabelecer, já que eram trabalhadores urbanos.

O comportamento dos Strobel tampouco combina com o que MacFarlane encontra na Inglaterra. Parece que, na difícil conjuntura de imigração, a necessidade de reverter a riqueza produzida pelos filhos em benefício da família (o fluxo da riqueza de baixo para cima) contribuiu para o adiamento da idade ao casar. Mas esta contradição se desfaz numa análise mais atenta.

MacFarlane analisa o fenômeno histórico de rompimento do fluxo de riqueza dos filhos em direção aos pais, e de advento de um conjunto de práticas pelas quais, ao contrário, os pais voltam-se para os filhos como expressão de uma ética aquisitiva centrada no indivíduo, que remete igualmente à idéia do amor romântico, da família nuclear com domicílio independente, do adiamento da idade ao casar e da redução da fecundidade (o sistema de casamento malthusiano). Em sua análise, MacFarlane compara esse comportamento moderno com o de uma sociedade tradicional em que o casamento não significa a saída da casa e da tutela paternas, nem a necessidade de um tempo de trabalho e poupança a fim de viabilizar um novo domicílio. Numa formação social do tipo tradicional, o casamento é apenas a inclusão de mais alguns membros (cônjuge e filhos) dentro da família mais extensa. E estes são vistos como aquisições benéficas ao aumento da riqueza familiar. Daí a precocidade dos casamentos.

No caso dos Strobel, parece ter havido a necessidade de orientação do fluxo de riqueza dos filhos em direção aos pais (pelo menos até uma certa idade) a fim de garantir um melhor estabelecimento econômico da família no novo meio. Mas se isso significou o adiamento da idade ao casar, é porque, ao retomar uma prática tradicional, os Strobel não retornaram necessariamente ao modelo de família tradicional. Porque não se rompeu com o princípio fundamental - individualista - de que os casamentos dos filhos significavam a constituição de novos domicílios.

O apego ao princípio da família nuclear se expressa, igualmente, em outro aspecto que, num primeiro momento, poderia parecer o seu abandono. Refiro-me ao fato de Ernest Stein ter vivido com os Strobel, aparentemente como agregado. Um trecho do livro de memórias demonstra bem o que se quer acentuar:

Como Ernest Stein trabalhava permanentemente com papai, também morava conosco. Ele também cercou uma pequena área para si e quando não tinha serviço fora, cultivava-a [...], Mais tarde meu pai ensinou a Stein o ofício de carpinteiro, e ele continuou morando conosco até que em 1869 se casou...21

No Brasil, os Strobel tiveram que se ajustar ainda à falta de escola, e alguns arranjos tiveram que ser efetuados para providenciar a alfabetização e a profissionalização dos filhos. Mais uma vez recorre-se a trechos do livro:

Gastos com estudos meu pai não teve comigo, pois em todo Paraná não havia uma única escola alemã, e como eu cresci entre os caboclos ..., na minha juventude não cursei escola alguma, pois ao redor também não havia uma única escola brasileira. Minha mãe ensinou-me alguma coisa. Aprendi com ela a ler e escrever em alemão, e mais tarde adquiri alguns livros; com estes, nas horas vagas, à noite e aos domingos fui me instruindo por conta própria22.

Sobre a obra na Santa Casa:

Uma construção como esta era inédita em todo Paraná e meu pai ficou feliz por poder mostrar toda sua habilidade e conhecimento nesta obra. Também para meu irmão e para mim era muito importante e aprendemos muito nessa construção23.

A efetivação da vida econômica talvez tenha sido o processo no qual uma certa desnuclearização familiar mais tenha se pronunciado. Isto tanto no que diz respeito a uma abertura em direção à comunidade, como à idéia de uma família extensa formada pelo conjunto de duas gerações. Três informações corroboram esta observação: além de ensinar sua profissão aos filhos, Christian ensinou-a também a Ernest Stein; quando precisaram preparar a filha para a realização de uma tarefa cuja técnica não dominava, o casal apelou para os vizinhos; embora após seus casamentos Gustav e Emil tenham formado domicílios nucleares, permaneceram trabalhando com o pai e, após o falecimento deste, os irmãos mantiveram-se profissionalmente ligados.

De qualquer forma, a imigração levou os Strobel ao resgate de algumas práticas culturais referentes aos modelos familiares patriarcal e tradicional, sem que isso significasse o abandono do princípio moderno do individualismo. O resultado foi uma organização híbrida, marcada pelo adiamento (para depois do casamento) da transferência da unidade mínima de produção e consumo da família para o indivíduo, e pelo acionamento das relações comunitárias nas situações em que a sociedade e o Estado eram omissos. Por sua vez, essa organização revela o que os "modelos" são: paradigmas teóricos imprescindíveis à análise das práticas sociais, mas em sua forma pura raramente encontrados na vida concreta24.

 

OS FILHOS DE GUSTAV STROBEL

Viu-se que a inserção numa comunidade de famílias teve forte influência na escolha do cônjuge entre os filhos de Gustav e Emma Strobel. Se nos detivermos na análise da escolha da profissão, a influência se confirma. Senão, vejamos:

Paul Burger, casado com a filha de Gustav, era professor e, aqui no Brasil, foi trabalhar em escolas mantidas por comunidades alemãs de Curitiba, Porto Alegre, Ponta Grossa (PR), Castro (PR) e novamente Curitiba. Quando estas escolas foram fechadas, em 1918, ele passou a dar aulas particulares e, no fim de sua vida profissional, tornou-se funcionário da Rede Ferroviária Federal S.A., na contabilidade, emprego indicado por um engenheiro de suas relações.

O segundo filho, Emil Richard, seguiu a profissão do pai, do tio e do avô. Possuía uma oficina de carpintaria e também trabalhava em construções.

Gustav Wilhem aprendeu o ofício de alfaiate com Anton Pospissil - um amigo de seu pai - e ainda solteiro foi à Alemanha (Leipzig) para se aprimorar. Exerceu o ofício por alguns anos mas, por problemas de saúde, teve de abandoná-lo. Fez curso de contador e escriturário e trabalhou com o cunhado no açougue Garmatter (propriedade da família de sua esposa). Em 1919, tornou-se um dos sócios da Casa Leutner - comércio de tecidos, armarinhos, artigos para homens e alfaiataria. Essa casa comercial foi fundada em 1910, aproximadamente, por Konrad Leutner e Florêncio Kind, ambos vindos da Alemanha. Em 192l a sociedade já estava alterada: os sócios então eram Gustav Wilhem Strobel, Konrad Leutner e Hilário Soffiatti. Por volta de 1928, Konrad retirou-se e a família Meister entrou na sociedade. Em 1932 Gustav Wilhem tornou-se o único proprietário, e alguns anos depois incluiu seus dois filhos homens como sócios.

Rudolf Strobel iniciou sua vida profissional como empregado da casa comercial de Carlos Cornelsen, um imigrante alemão primeiro estabelecido em São José dos Pinhais (onde iniciou relações de amizade com os Strobel) e depois em Curitiba. Mais tarde, Rudolf abriu uma loja de secos e molhados e, tempos depois, estabeleceu-se como proprietário de uma casa de tintas e materiais de construção.

Franz Strobel ajudava o pai em serviços de carpintaria, mas após seu casamento foi trabalhar com o sogro, proprietário de uma chácara com moinho e de uma loja próxima ao Largo da Ordem. Em 1921 Franz era sócio dos cunhados neste mesmo empreendimento.

O filho caçula, Freidrich, faleceu ainda muito jovem, mas até viajar para tratamento na Alemanha, foi trabalhar com o sogro, na chácara deste.

Esta geração desenvolveu sua vida profissional entre as décadas de 1890 e 1930. Observe-se que apenas um dos filhos homens permaneceu trabalhando, mesmo após o casamento, com o pai e o tio. Desta maneira, fragilizou-se o processo de estruturação da família extensa funcionando como uma unidade econômica, que poderia desenvolver-se até uma comunidade de parentes. No entanto, observe-se que, com o casamento, dois filhos de Gustav ligaram-se profissionalmente às famílias de suas esposas, e dois filhos foram encaminhados profissionalmente graças às relações de amizade de Gustav. Assim, tal como se observou para o casamento, no trabalho as sociabilidades desenvolvidas pelos indivíduos desta geração contava com a mediação familiar.

 

OS NETOS DE GUSTAV STROBEL

O casal Paul (Clara) Burger teve quatro filhos. O mais velho, Paul Hermann, teve seu primeiro emprego em uma casa comercial de José Hauer, um imigrante alemão. Após o casamento foi morar e trabalhar com o sogro em Canoinhas (SC), em uma fazenda com serraria e produção de erva-mate, até falecer em 1931. Hans Burger começou a trabalhar na casa comercial de um amigo de seu pai e, simultaneamente, cursou contabilidade. Depois de formado continuou na loja, até tentar estabelecer-se como autônomo (fretes com caminhão), quando não obteve sucesso. Através de um primo, conseguiu então empregar-se no Banco Alemão Transatlântico, mas em 1941 o banco foi fechado e Hans passou a trabalhar na fábrica de brinquedos Seiler. Tempos depois a fábrica foi vendida para uma firma italiana de São Paulo, mas Hans continuou lá trabalhando, até se aposentar após 40 anos de serviços. Rudolf começou a trabalhar em uma casa de modas de Curitiba, e depois de muitos anos resolveu tentar melhor sorte em São Paulo. Lá conseguiu emprego como foguista em um navio norueguês e, mais tarde, em uma fábrica de raio X. Após seu casamento, foi trabalhar em Goiânia com um tio de sua esposa e, dois anos depois, voltou para Curitiba. Na cidade empregou-se na Empresa Zatt (eletrificações), e em seguida na Fábrica Seiler, junto com o irmão. Três anos depois estabeleceu-se como representante comercial autônomo. Heinz, o filho caçula, foi para a Alemanha muito jovem, a fim de aperfeiçoar-se na área comercial. Nunca mais retornou e, naquele país, tornou-se tradutor de português.

O casal Emil Richard (Emma) Strobel teve quatro filhos. Eugênio, o mais velho, formou-se em contabilidade e, após o casamento, foi trabalhar com o sogro no armazém deste. Em 1930 o negócio familiar foi encerrado e Eugênio se empregou como gerente de uma serraria em São Miguel (PR). A seguir foi contratado como contador da fábrica de palhões de um seu tio, em Guajuvira (SC). Após dois anos retornou a Curitiba onde trabalhou nas Lojas Prosdócimo (por 6 ou 7 anos) e, em 1940, abriu a Casa Sans Souci, em sociedade com Bernardo Mayer. Esta loja funcionou até cerca de 1960 e foi fechada devido à falta de interesse dos filhos em dar continuidade ao empreendimento. Germano tornou-se representante comercial e viajante. Mais tarde ele exerceu o ofício de rádio-técnico e sua esposa, Frieda Salfer, era costureira. Emil Richard Jr. era funcionário do Banco Alemão Transatlântico e, após seu casamento em 1934, passou a trabalhar com o sogro em uma firma de representação. Waldemar, o filho mais jovem, tornou-se contador e trabalhou por muitos anos na Souza Cruz. Mais tarde optou pelo ramo de representações, aposentando-se nessa atividade.

O casal Gustav Wilhem (Otília) Strobel teve quatro filhos. A mais velha, Edith Clara, que nunca se casou, sempre trabalhou com a família na Casa Leutner. O mesmo ocorreu com seus irmãos Herbert e Egon, que se tornaram sócios do pai e, após a morte deste em 1936, passaram à direção dos negócios familiares. Ao longo do tempo os irmãos tiveram vários sócios e a Casa Leutner foi fechada apenas em 1980. Nelson Gloor, marido de Gerda, a filha caçula, tornou-se um dos sócios dessa casa comercial.

O casal Rudolf (Rosina) Strobel teve quatro filhos. O mais velho, Erwin, sempre trabalhou com o pai na casa de tintas e materiais de construção, continuando nesta atividade mesmo após o casamento. Seus irmãos Arthur e Reinaldo também permaneceram trabalhando na casa comercial da família. O genro de Rudolf, Nicolau de Oliveira, que se casou com Érica contra a vontade da família, era químico farmacêutico e trabalhou na Saúde Pública e na Polícia Técnica até sua aposentadoria.

O casal Franz (Bertha) Strobel teve quatro filhos, mas não consegui obter dados acerca da vida profissional de três deles. Sabe-se apenas que o quarto filho, Walfried, formou-se em Agronomia e foi trabalhar no interior do Paraná, onde se casou.

O casal Friedrich (Amália) Strobel teve apenas uma filha, criada pela mãe e pelo padrasto. Seu marido, Nicolau Klass, trabalhava com o pai, proprietário de fazenda em São Mateus (PR) e de uma fábrica de pregos e parafusos em Curitiba.

Esta geração desenvolveu sua vida profissional entre as décadas de 1920 a 1970. Em resumo, dos quatro filhos da filha mais velha (Clara Burger), dois deixaram a casa paterna antes do casamento; dos quatro filhos de seu penúltimo filho, um deixou a casa paterna antes do casamento. Esta movimentação, inclusive, foi responsável pelo início do rompimento da idéia de família como unidade de socialização, tal como também verificou-se em relação ao casamento. No entanto, por este comportamento individualista poder expressar apenas uma exceção à regra, parece apropriada a comparação com o comportamento dos que permaneceram com os pais até o casamento.

Viu-se que a tendência à estruturação de uma unidade econômica familiar tende à decadência na geração dos filhos de Gustav. No que respeita à geração dos netos, a tendência decadentista se consolida, mas somente entre os filhos dos detentores apenas de um saber profissional. Senão, vejamos: os filhos do professor Paul Burger e do carpinteiro Emil Richard seguiram, todos eles, profissões completamente desvinculadas das de seus pais. Já os filhos do proprietário da Casa Leutner (Gustav Wilhem) e do proprietário da casa de tintas e materiais de construção (Rudolf) deram continuidade aos negócios familiares. E mais, os sogros e cunhados com propriedades (como o de Eugêncio Strobel, o de Emil Richard Jr, e o de Nelson Gloor) tenderam a atrair os genros e cunhados para seus negócios. A exceção foi, é claro (e por razões óbvias), Nicolau Oliveira.

Assim, pode-se considerar que nesta geração (mas isso vinha se processando já na geração anterior) ocorreu o rompimento de uma rede de transmissão de saber profissional de pai para filho, mas não ocorreu a desagregação das empresas de caráter familiar. Se se parte do princípio de que numa sociedade capitalista a escolha da profissão está intimamente ligada ao desejo de ascensão social (ou ao menos de manutenção do status social), é lícito pensar que, para a primeira geração, a herança de um conhecimento técnico era um bom instrumento nesse sentido. Já não o era, contudo, para a terceira geração. Nesta, a propriedade foi o que restou da herança profissional paterna.

É interessante observar que as diferentes estratégias das gerações para solucionar o problema da profissionalização dos filhos revelam também o recurso a diferentes práticas, uma tributária da sociedade tradicional e outra da sociedade moderna. Se Gustav Strobel recorreu à comunidade para formar os filhos que não seguiram sua profissão, seus netos que não deram prosseguimento à profissão paterna ou à do sogro procuraram a escola para efetivar suas carreiras (quase todos freqüentaram a escola de comércio, cursando contabilidade).

O resgate de informações sobre a vida profissional de alguns indivíduos da geração seguinte confirma tais tendências, com o direcionamento de carreiras a partir de diplomas universitários e em empregos em grandes empresas ou em órgãos do governo e estatais.

 

CONCLUSÃO

Ao propor a realização do presente estudo, tomei como princípio a idéia de que a abordagem micro-histórica é um dos melhores instrumentos para a construção de pontes entre o singular e o específico. Assim, um entendimento do papel da imigração na história dos rearranjos nas relações sociais só foi possível porque a trajetória de descendentes de Christian Strobel mostrou que o ato de imigrar foi decisivo para a retomada de um padrão de vida comunitário e para o funcionamento da família como mediadora das relações do indivíduo com o meio social.

Da mesma forma, a percepção do progressivo afrouxamento destes laços comunitários só foi possível na articulação das trajetórias pessoais com o processo de urbanização e modernização da cidade. Cotejar este processo permitiu o acompanhamento das formas assumidas na progressiva impessoalização e individualização das relações sociais.

A análise da trajetória profissional das gerações - do estabelecimento de uma unidade econômica familiar em torno de um saber profissional ou de uma propriedade comercial, até sua desarticulação pelo acento nas profissões desvinculadas da herança paterna - indicou o grau de interferência das mudanças no perfil econômico de Curitiba sobre as relações intrafamiliares.

Ainda, uma articulação mínima entre o nível de análise micro - proposta deste trabalho - e o nível macro foi garantida pelo cruzamento dos resultados aqui obtidos com aqueles de outros trabalhos na temática da imigração. Esta articulação consistiu numa tentativa de se promover a emergência de questões que, apenas num dos planos de análise, talvez não viessem à tona.

Em suma, revisitar temas já tradicionais na historiografia - imigração e família - revela a infinidade de ferramentas metodológicas que o historiador pode criar para realizar novas aproximações com o passado.

 

NOTAS

1 Professora do Departamento de História da Universidade Federal de Paraná.

2 As fichas de famílias foram elaboradas por Sérgio Odilon Nadalin a partir de informações dos registros de batismo, casamento e óbito da Comunidade Evangélica de Curitiba, segundo o método Henry & Fleury de reconstituição de famílias.

3 STROBEL, Gustav H. Relatos de um Pioneiro da Imigração Alemã. Estante Paranista, 27. Curitiba: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, 1987.         [ Links ]

4 Todas as informações de primeira mão que, de agora em diante, não assinalarem suas fontes de origem, foram obtidas a partir do manejo das fichas de famílias já mencionadas, do material constante do acervo da Junta Comercial do Paraná levantado por Cecília Maria Westphalen, do livro de Gustav Strobel, ou ainda em entrevistas com seus descendentes (Egon Strobel, Érica Strobel Oliveira, Edith Clara Strobel, Hans Burger, Hugo Burger, Félix José Strobel). Para maiores detalhes cf. MACHADO, Cacilda da S. De uma Família Imigrante: Sociabilidades e Laços de Parentesco (Curitiba: 1854-1991). Curitiba: Depto. de História, UFPR, 1994, Dissertação de Mestrado.         [ Links ]

5 NADALIN, Sergio O. A Origem dos Noivos nos Registros de Casamentos da Comunidade Evangélica Luterana de Curitiba - 1870-1960. Curitiba: Depto. de História, UFPR, 1974, Dissertação de Mestrado         [ Links ], passim; cf. tb., do mesmo autor, Une Paroisse D'Origine Germanique au Brésil: La Communaute Evangelique Lutherienne a Curitiba entre 1866 et 1969. Paris: EHESS, 1978, Doctorat 3e Cycle.         [ Links ]

6 NADALIN, Sergio O. "Uma Comunidade de Origem Germânica: Demografia e Sociedade". In: Revista História, Questões & Debates. n. 14, Curitiba, 1987, pp. 39-140.

7 VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo & ARAÚJO, Ricardo B. de. "Romeu e Julieta e a Origem do Estado". In: VELHO, Gilberto. Arte e Sociedade: Ensaios de Sociologia da Arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1977, p. 132.         [ Links ]

8 WRIGLEY, E. Anthony. "Reflexions on the History of the Family". In: Daedalus, 1977, 106(2): 71-85, Spring.         [ Links ]

9 BALHANA, Altiva P. Famílias Coloniais: fecundidade e descendência. Curitiba: A.M. Cavalcanti & Cia. Ltda, 1977, passim.

10 WACHOWICZ, Rui C. Abranches: um Estudo de História Demográfica. Curitiba: Editora Vicentina, 1976, passim.         [ Links ]

11 RANZI, Serlei M.F. Alemães Católicos de Curitiba - Aspectos Sociodemográficos 1850-1919. Curitiba: Depto. de História, UFPR, 1983, passim, Dissertação de Mestrado.         [ Links ]

12 MACFARLANE, Alan. História do Casamento e do Amor: 1300-1840. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, pp. 53-59.         [ Links ]

13 Wrigley. Op. cit, passim.

14 FLANDRIN, Jean-Louis. Família: Parentesco, Casa e Sexualidade na Sociedade Antiga. Lisboa: Editorial Estampa, 1992, passim.         [ Links ]

15 STONE, Lawrence. Família, Sexo y Matrimonio en Inglaterra, 1500-1800. México: Fondo de Cultura Económica, 1990.         [ Links ]

16 STROBEL. Op. cit., p. 51.

17 Idem, pp. 59-60.

18 Idem, p. 69.

19 Idem. p. 94.

20 ANDREAZZA, Maria Luiza & NADALIN, Sérgio Odilon. O Cenário da Colonização no Brasil Meridional e a Família Imigrante. Curitiba: 1994, p. 36 (mimeografado).         [ Links ]

21 STROBEL. Op. cit, p. 52 (grifos meus).

22 Idem, p. 94.

23 Idem, p. 123.

24 Idem, p. 69.

 

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